O Bazar dos Sonhos Ruins
A duna
Quando o juiz sobe no caiaque sob o céu claro da manhã, um processo lento e desajeitado que demora quase cinco minutos, ele pensa que o corpo de um velho não passa de um saco no qual ele carrega dores e indignidades. Oitenta anos atrás, quando tinha dez anos, ele pulou em uma canoa de madeira e saiu remando, sem colete salva-vidas nem nada, sem preocupações, e certamente sem xixi manchando a cueca. Cada ida à ilha sem nome, que mais parecia um submarino parcialmente submerso duzentos metros adentrando o golfo, começava com uma empolgação enorme e inquieta. Agora, só sobrou a inquietação. E uma dor que parece localizada no fundo das entranhas e se irradia por todo o corpo. Mas ele ainda faz o trajeto. Muitas coisas perderam o apelo nesses últimos anos turvos, a maioria delas, na verdade, mas não a duna na orla mais distante da ilha. Nunca aquela duna.
Nos primeiros dias de exploração, ele esperava que a ilha sumisse após cada tempestade, e depois do furacão de 1944 que afundou o USS Warrington na praia Vero, teve certeza de que sumiria. Mas quando o céu ficou limpo, a ilha ainda estava lá. A duna também, embora os ventos de 160 km/h devessem ter soprado toda a areia para longe, deixando só pedras e corais. Ao longo dos anos, ele debateu várias vezes se a magia está nele ou na ilha. Talvez nos dois, mas sem dúvida a maior parte está na duna.
Ele atravessou o trecho curto de água milhares de vezes desde 1932. Normalmente, não encontra nada além de pedras, arbustos e areia, mas de vez em quando tem algo mais ali.
Finalmente acomodado no caiaque, ele rema lentamente da praia até a ilha, com os poucos fios de cabelo branco voando ao redor do crânio quase careca. Alguns urubus-de-cabeça-vermelha voam no céu, conversando daquele jeito feio deles. Ele já foi o filho do homem mais rico da costa do golfo da Flórida, depois foi advogado, depois foi juiz no circuito do condado de Pinellas, depois foi indicado para a Suprema Corte Estadual. Durante o mandato do presidente Reagan, falaram de uma indicação para a Suprema Corte dos Estados Unidos, mas isso nunca aconteceu, e uma semana depois que aquele idiota do Clinton se tornou presidente, o juiz Harvey Beecher — só Juiz para seus muitos conhecidos (ele não tem amigos de verdade) em Sarasota, Osprey, Nokomis e Venice — se aposentou. Ele nunca gostou muito de Tallahassee. É frio lá.
Além do mais, é longe demais da ilha e de sua duna peculiar. Nesses passeios de caiaque de manhã cedo, ele está disposto a admitir que é viciado. Mas quem não seria viciado em uma coisa assim?
Na pedregosa orla leste, um arbusto retorcido se projeta de uma rachadura em uma pedra cheia de guano. É lá que ele amarra o caiaque, e sempre toma o cuidado de amarrar bem. Não seria bom ficar preso ali; a propriedade do pai (ele ainda pensa no local assim, apesar de o Beecher pai ter morrido há quarenta anos) cobre quase quatro quilômetros da costa do golfo, com a casa principal longe do mar, no lado da baía de Sarasota, e ninguém o ouviria gritar por ajuda. Tommy Curtis, o zelador, talvez reparasse que ele sumiu e fosse procurar; porém, era mais provável que supusesse que o Juiz estava trancado no escritório, onde costumava passar dias inteiros, supostamente trabalhando em um livro de memórias.
Houve um tempo em que a sra. Riley ficava nervosa quando ele não saía do escritório para almoçar, mas agora ele quase nunca come ao meio-dia (ela o chama de “fiapo de homem”, mas não na frente dele). Não possui outros funcionários, e tanto Curtis quanto a sra. Riley sabem quanto ele odeia ser interrompido. Não que haja muito a interromper; ele não acrescentou uma única linha às suas memórias nos últimos dois anos, e no fundo do coração sabe que nunca vai terminar o livro. As relembranças não terminadas de um juiz da Flórida? Não tem tragédia nenhuma aí. A única história que ele poderia escrever é a que nunca vai passar para o papel.
Ele demora ainda mais tempo para sair do que demorou para entrar, e o caiaque vira uma vez, molhando a camisa e a calça nas ondinhas que avançam pela praia de seixos. Beecher não se aborrece. Não foi a primeira vez que ele caiu, e não tem ninguém ali para ver. Ele acha que é loucura continuar fazendo esse passeio com a idade que tem, apesar de a ilha ser muito próxima do continente, mas parar não é opção. Viciados são e sempre serão viciados.
Beecher demora a ficar de pé e pressiona a barriga até a dor passar. Limpa areia e conchas da calça, verifica o nó da corda e vê um dos urubus na maior pedra da ilha, olhando para ele.
— Ei! — grita com a voz que agora odeia, entrecortada e oscilante, a voz de uma bruxa velha de vestido preto. — Ei-ei, seu chato! Vá procurar algo pra fazer!
Depois de balançar de leve as asas desgrenhadas, o urubu permanece onde está. Os olhos brilhantes parecem dizer: “Mas, Juiz, eu já encontrei o que fazer”.
Beecher para, pega uma concha grande e joga na ave. Dessa vez, o urubu voa, e o som das asas é como um pano rasgando. Ele voa pelo trecho curto de água e pousa na doca. Ainda um mau presságio, pensa o Juiz. Ele se lembra de Jimmy Caslow da Patrulha Estadual da Flórida explicando que os urubus-de-cabeça-vermelha não só sabiam onde havia carniça, mas onde haveria carniça.
“Não consigo nem lembrar”, disse Caslow, “quantas vezes vi aqueles bichos feios sobrevoando um local em Tamiami uns dois dias antes de um desastre fatal acontecer. Parece loucura, eu sei, mas qualquer policial rodoviário da Flórida vai te dizer a mesma coisa.”
Quase sempre tem urubus-de-cabeça-vermelha ali na pequena ilha sem nome. O Juiz Beecher imagina que tenha cheiro de morte para eles, e por que não?
Ele segue pela pequena trilha que se criou ao longo dos anos. Vai olhar a duna do outro lado, onde a areia é fina em vez de pedregosa e cheia de conchas, depois vai voltar para o caiaque e abrir a garrafinha de chá gelado. Talvez cochile por um tempo sob o sol da manhã (ele cochila bastante atualmente, acha que a maioria dos nonagenários faz isso) e, quando acordar (se acordar), vai fazer a viagem de volta. Ele diz para si mesmo que a duna vai ser apenas um acúmulo liso e vazio de areia, como na maioria dos dias, mas sabe a verdade.
Os malditos urubus também sabiam.
Ele passa bastante tempo no lado arenoso, com os dedos tortos pela idade unidos atrás do corpo. As costas estão doendo, os ombros estão doendo, os quadris estão doendo, os joelhos estão doendo; mais do que tudo, as entranhas estão doendo. Mas ele não presta atenção a essas coisas. Talvez mais tarde, mas não agora.
Ele olha para a duna e para o que encontra escrito lá.
Anthony Wayland chega na propriedade de Beecher em Pelican Point às sete da noite, como prometido. Uma coisa que o Juiz sempre apreciou, tanto no tribunal quanto fora dele, é a pontualidade, e o garoto é pontual. O juiz Beecher lembra a si mesmo de nunca chamar Wayland de garoto na cara dele (embora, por estarem no sul, não ter problema chamá-lo de filho). Wayland não entenderia que, quando se tem noventa anos, qualquer um com menos de sessenta parece um garoto.
— Obrigado por vir — diz o Juiz, levando Wayland até o escritório. Só estão os dois lá; Curtis e a sra. Riley já foram embora para casa em Nokomis Village. — Trouxe o documento que pedi?
— Trouxe, sim, Juiz.
Wayland abre sua pasta grande de advogado e pega um documento grosso preso por um clipe de papel. As páginas não são de velino, como seriam antigamente, mas são densas e pesadas da mesma forma. No alto da primeira, com letras grossas e austeras (que o Juiz sempre chamou de fonte de cemitério), estão as palavras Último Testamento de HARVEY L. BEECHER.
— Sabe, estou surpreso de você mesmo não ter rascunhado este documento. Você deve ter esquecido mais sobre leis de testamento na Flórida do que eu vou aprender durante toda a minha vida.
— Talvez seja verdade — responde o Juiz em seu tom mais seco. — Na minha idade, as pessoas esquecem muita coisa.
Wayland fica vermelho até a raiz dos cabelos.
— Eu não quis dizer…
— Eu sei o que você quis dizer, meu filho — diz o Juiz. — Não estou ofendido. Mas, já que você perguntou…, conhece aquele velho ditado que diz que um homem que é seu próprio advogado tem um tolo como cliente?
Wayland sorri.
— Ouvi e já repeti muitas vezes quando estou usando o chapéu de defensor público e um agressor de mulheres ou atropelador que não prestou assistência me diz que planeja se defender sozinho no tribunal.
— Imagino que sim, mas existe a versão sem censura: um homem que é seu próprio advogado tem um imbecil como cliente. Serve para casos criminais, civis e de testamento. Então, vamos falar de negócios? O tempo é curto. — Ele quer dizer isso em mais de um sentido.
Eles começam a trabalhar. A sra. Riley deixou café descafeinado, que Wayland recusa por preferir Coca-Cola. Ele faz anotações enquanto o Juiz dita as alterações com sua voz seca de tribunal, ajustando antigas disposições testamentárias e acrescentando novas. O acréscimo mais importante, quatro milhões de dólares, é para a Sociedade de Preservação da Vida Selvagem e das Praias do Condado de Sarasota. Para receberem o valor, eles precisam conseguir que a legislação estadual declare certa ilha perto da costa de Pelican Point como área de preservação ambiental para sempre.
— Eles não vão ter problema em fazer isso — explica o Juiz. — Você mesmo pode cuidar da parte legal. Eu preferiria que fosse pro bono, mas é claro que isso vai depender de você. Uma ida a Tallahassee deve resolver tudo. A ilha é uma coisinha de nada, a única coisa que cresce lá são alguns arbustos. O governador Scott e os colegas do Tea Party vão adorar.
— Por quê, Juiz?
— Porque na próxima vez que o grupo de preservação ambiental for atrás deles para implorar por dinheiro, eles vão poder dizer: “O velho juiz Beecher não acabou de doar quatro milhões para vocês? Saiam daqui, e cuidado para a porta não acertar suas bundas no caminho”.
Wayland concorda que deve ser assim que as coisas vão acontecer, e os dois seguem para as disposições menores.
— Quando eu estiver com o documento pronto, vamos precisar de duas testemunhas e um tabelião — explica Wayland quando eles terminam.
— Vou fazer isso com esse rascunho aqui, só por segurança — diz o Juiz. — Se acontecer alguma coisa comigo nesse meio-tempo, deve servir. Não tem ninguém para contestá-lo; eu vivi mais do que todo mundo.
— É uma precaução sábia, Juiz. Seria bom cuidar disso ainda hoje. Seu zelador e sua empregada…
— Só voltam às oito da manhã — diz o juiz Beecher —, mas isso vai ser a primeira coisa do dia. Harry Staines da rua Vamo é tabelião e não vai se importar de vir aqui antes de ir para o trabalho. Ele me deve um favor, ou seis. Deixe este documento comigo, filho. Vou guardá-lo no cofre.
— Eu deveria ao menos fazer uma… — Wayland olha para a mão retorcida esticada e para de falar. Quando um juiz da Suprema Corte (mesmo um aposentado) ergue a mão, as objeções devem ser deixadas de lado. Não passa de um rascunho cheio de anotações mesmo, e que logo será substituído por uma versão final. Ele entrega o testamento não assinado e vê Beecher se levantar (dolorosamente) e puxar um quadro com a imagem de Everglades, na Flórida, preso por uma dobradiça oculta. O Juiz digita a combinação correta, sem fazer nenhuma tentativa de esconder o teclado numérico, e coloca o testamento em cima do que parece a Wayland uma pilha grande e desarrumada de dinheiro. Caramba.
— Pronto! — diz Beecher. — Está tudo encaminhado. Exceto pela parte da assinatura, claro. Que tal uma bebida para comemorar? Tenho um uísque especial.
— Bom… acho que não faria mal.
— Nunca me fez mal, mas agora faz, então você vai ter que me perdoar por não me juntar a você. Café descafeinado e um pouco de chá gelado são as bebidas mais fortes que tomo agora. Problemas no estômago. Gelo?
Wayland levanta dois dedos e Beecher coloca dois cubos de gelo na bebida com o jeito lento e cerimonioso da idade avançada. Wayland toma um gole, e suas bochechas ficam vermelhas na mesma hora. É o rubor de um homem que gosta de um goró, pensa o juiz Beecher. Quando Wayland coloca o copo na mesa, diz:
— Posso perguntar para que a pressa? O senhor está bem, não está? Fora o problema no estômago?
O Juiz duvida que o jovem Wayland acredite nisso. Ele não é cego.
— Mais ou menos — diz ele, balançando a mão de um lado para outro e se sentando com um grunhido e uma careta. Em seguida, depois de pensar um pouco, ele diz: — Você quer mesmo saber para que a pressa?
Wayland pensa na pergunta, e Beecher gosta disso nele. Em seguida, assente.
— Tem a ver com aquela ilha da qual falávamos agora mesmo. Você nunca deve ter reparado nela, não é?
— Não posso afirmar que reparei.
— A maioria das pessoas não repara. Ela mal aparece na água. As tartarugas marinhas nem ligam para aquela ilha velha. Mas ela é especial. Você sabia que meu avô lutou na guerra Hispano-Americana?
— Não, senhor, não sabia. — Wayland fala com deferência exagerada, e Beecher sabe que o garoto acha que ele está divagando. Ele está errado. A mente de Beecher nunca esteve tão lúcida, e agora que começou, ele percebe que quer contar essa história pelo menos uma vez antes de…
Bem, antes.
— Sim. Tem uma foto dele no alto de San Juan Hill. Está em algum lugar do escritório. Vovô dizia que lutou na Guerra de Secessão também, mas minha pesquisa, para minhas memórias, sabe?, provou conclusivamente que não é possível. Ele era um bebê, isso se já tivesse nascido. Mas era um cavalheiro criativo, e tinha um jeito de me fazer acreditar nas histórias mais loucas. Por que eu não acreditaria? Eu era só uma criança, ainda acreditava no Papai Noel e na fada do dente.
— Ele era advogado, como você e seu pai?
— Não, filho, ele era ladrão. O verdadeiro Harry Dedos Leves. Pegava qualquer coisa que não estivesse presa. Mas, como a maioria dos ladrões que saem impunes, e nosso governador pode ser um bom exemplo, se dizia empresário. Seu negócio principal, e também seu roubo principal, eram terras. Ele comprava terras da Flórida infestadas de insetos e jacarés, por um preço módico, e vendia caro para pessoas que eram tão patetas quanto eu quando pequeno. Balzac disse uma vez: “Por trás de toda grande fortuna há um crime”. Isso é verdade sobre a família Beecher, e lembre-se de que você é meu advogado. Qualquer coisa que eu diga tem que ser mantida em sigilo.
— Sim, Juiz. — Wayland toma outro gole da bebida. É o melhor uísque que ele já bebeu, sem dúvida.
— Vovô Beecher foi quem mostrou aquela ilha para mim. Eu tinha dez anos. Ele estava tomando conta de mim naquele dia, e acho que queria um pouco de sossego. Ou talvez quisesse um pouco de agitação. Uma empregada bonita trabalhava aqui, e ele talvez estivesse com esperanças de investigar embaixo da anágua dela. Então me disse que Edward Teach, mais conhecido como Barba Negra, tinha supostamente enterrado um grande tesouro lá. “Ninguém nunca encontrou, Havie”, ele falou, ele me chamava de Havie, “mas talvez você encontre. Uma fortuna em joias e dobrões de ouro.” Imagino que você saiba o que eu fiz em seguida.
— Imagino que tenha ido até a ilha e deixado seu avô se engraçando com a empregada.
O Juiz assente, sorrindo.
— Eu peguei a canoa de madeira que tínhamos amarrada na doca. Foi como se meu cabelo estivesse pegando fogo e minha bunda estivesse começando a se incendiar também. Não demorei nem cinco minutos para remar até lá. Hoje em dia demoro o triplo de tempo, e isso se a água estiver calma. A ilha é rochosa e tomada por vegetação no lado virado para a costa, mas tem uma duna de areia fina no lado virado para o golfo. Sempre no mesmo lugar. Nos oitenta anos que vou até lá, a areia nunca parece mudar.
— Imagino que não tenha encontrado nenhum tesouro.
— Encontrei, de certa forma, mas não em joias e ouro. Era um nome escrito na duna. Como se escrito com uma vareta na areia, sabe, mas não vi vareta nenhuma. As letras eram fundas, e o sol criava sombras que faziam com que se destacassem. Quase como se estivessem flutuando.
— Qual era o nome, Juiz?
— Acho que você teria que ver escrito para entender.
O Juiz pega uma folha de papel na primeira gaveta da mesa, escreve com cuidado e vira o papel para Wayland poder ler: ROBIE LADOOSH.
— Certo… — diz Wayland com cautela.
— Em um dia qualquer, eu teria ido procurar o tesouro com esse garoto, porque ele era meu melhor amigo, e você sabe como os garotos são quando são melhores amigos.
— Como unha e carne — responde Wayland, sorrindo. Talvez ele esteja se lembrando de um melhor amigo do passado.
— Grudados como chiclete — concorda Beecher. — Mas era verão, e ele tinha viajado com os pais para visitar os parentes da mãe na Virgínia ou em Maryland ou em algum outro lugar mais frio. Então, eu estava sozinho. Mas, preste atenção, advogado. O nome verdadeiro dele era Robert LaDoucette.
Mais uma vez, Wayland diz:
— Certo…
O Juiz acha que esse tipo de fala arrastada pode ficar irritante com o tempo, mas é uma coisa que ele nunca vai ter que descobrir, então deixa de lado.
— Ele era meu melhor amigo, e eu era o dele, mas tinha uma gangue de garotos com quem a gente andava, e todos o chamavam de Robbie LaDoosh. Entendeu?
— Acho que sim — responde Wayland, mas o Juiz consegue ver que não. É compreensível; Beecher teve bem mais tempo para analisar essas coisas. Muitas vezes em noites insones.
— Lembre que eu tinha dez anos. Se me pedissem para soletrar o apelido do meu amigo, eu teria ditado assim. — Ele bate no papel com ROBIE LADOOSH escrito. Falando quase que para si mesmo, acrescenta: — Então, parte da magia vem de mim. Tem que vir. A questão é: quanto?
— Você está me dizendo que não escreveu o nome na areia?
— Não. Achei que tivesse deixado isso claro.
— Um dos seus amigos, então?
— Eles eram todos de Nokomis Village e nem sabiam que aquela ilha existia. Nós nunca encontraríamos uma ilha tão sem graça sozinhos. Robbie sabia que a ilha estava lá, pois ele também era de Point, mas estava a centenas de quilômetros ao norte.
— Certo…
— Meu amigo Robbie não voltou daquelas férias. Recebemos a notícia uma semana depois: ele caiu quando estava andando a cavalo. Quebrou o pescoço. Morreu na hora. Os pais ficaram arrasados. Eu também.
Os dois ficam em silêncio enquanto Wayland pensa nisso. Enquanto os dois pensam. Em algum lugar ao longe, um helicóptero sobrevoa o céu do golfo. O DEA procurando traficantes, supõe o Juiz. Ele os ouve todas as noites. É a era moderna e, de algumas formas, de muitas, na verdade, ele vai ficar feliz de se ver livre dela.
Por fim, Wayland diz:
— Você está dizendo o que eu acho que está?
— Bom, não sei — diz o Juiz. — O que você acha que estou dizendo?
Mas Anthony Wayland é advogado e tem o hábito arraigado de não se deixar envolver.
— Você contou para o seu avô?
— No dia em que chegou o telegrama contando sobre Robbie, ele não estava presente para ouvir. Ele nunca ficava muito tempo no mesmo lugar. Ficamos seis meses sem vê-lo. Não, eu não falei nada para ninguém. E como Maria depois que deu à luz o único filho de Deus, eu considerei essas coisas no meu coração.
— E a que conclusão chegou?
— Continuei remando até aquela ilha para olhar a duna. Isso deve responder sua pergunta. Não tinha nada… e nada… e nada. Acho que eu estava prestes a deixar tudo isso para trás, mas aí fui lá uma tarde depois da aula e havia outro nome escrito na areia. Impresso na areia, para usar a precisão do tribunal. Também não havia sinal de nenhum graveto, apesar de achar que o graveto podia ter sido jogado na água. Dessa vez, o nome era Peter Alderson. Só ganhou significado para mim alguns dias depois. Uma de minhas tarefas era ir até a calçada pegar o jornal do dia, e era um hábito meu ler a primeira página enquanto andava de volta pela entrada de carros… que, como você deve saber por ter percorrido com seu carro, tem uns quatrocentos metros. No verão, eu também olhava como os Washington Senators tinham ido, porque na época eles eram o mais próximo de um time sulista que a gente tinha.
“Nesse dia em particular, uma manchete na parte de baixo da primeira página chamou minha atenção: LAVADOR DE JANELA MORTO EM QUEDA ESTRANHA. O pobre sujeito estava lavando as janelas do terceiro andar da Biblioteca Pública de Sarasota quando o andaime em que ele estava cedeu. O nome dele era Peter Alderson.”
O Juiz consegue ver pelo rosto de Wayland que o garoto acredita que a história seja uma lorota ou algum tipo de fantasia elaborada que o Juiz está inventando. Também consegue ver que Wayland está gostando da bebida, e quando o Juiz vai encher o copo, não recusa. Além do mais, não importa se o jovem acredita ou não, mas é um luxo poder contar.
— Talvez você entenda por que fico mudando de ideia sobre de onde vem a magia — diz Beecher. — Eu conhecia Robbie, e o erro na ortografia do nome dele era um erro meu. Mas eu nunca tinha visto esse lavador de janelas mais gordo. De qualquer forma, foi aí que a duna começou a ter controle real sobre mim. Eu comecei a ir lá quase todos os dias, um hábito que continua presente até na minha idade avançada. Eu respeito a ilha, tenho medo de lá e, mais do que tudo, sou viciado nela.
“Ao longo dos anos, muitos nomes apareceram naquela duna, e as pessoas donas desses nomes sempre morrem. Às vezes é em uma semana, às vezes em duas, mas nunca passa de um mês. Algumas foram pessoas que eu conhecia, e se era pelo apelido que eu as conhecia, era sempre o apelido que aparecia. Um dia, em 1940, eu remei até lá e vi VOVÔ BEECHER desenhado na areia. Ele morreu em Key West três dias depois. Foi de ataque cardíaco.”
Com o ar de alguém tentando agradar uma pessoa com desequilíbrio mental, mas que não é perigosa de fato, Wayland pergunta:
— Você nunca tentou interferir com esse… esse processo? Ligar para o seu avô, por exemplo, para sugerir que ele fosse ao médico?
Beecher balança a cabeça.
— Eu não sabia que tinha sido um ataque cardíaco até recebermos a notícia do legista do condado de Monroe, entende? Poderia ser qualquer coisa: acidente ou até assassinato. Claro que havia pessoas com motivos para odiar meu avô, os negócios dele não eram do tipo mais puro.
— Mesmo assim…
— Eu também estava com medo. Sentia, ainda sinto, como se, naquela ilha, uma escotilha estivesse entreaberta. Deste lado tem o que gostamos de chamar de “mundo real”. Do outro fica todo o maquinário do universo, correndo a toda a velocidade. Só um tolo enfiaria a mão nesse maquinário para tentar pará-lo.
— Juiz Beecher, se você quer que a papelada toda seja legalizada sem questionamento, eu não falaria mais sobre isso. O senhor pode achar que não tem ninguém por aí para contestar seu testamento, mas quando grandes quantidades de dinheiro estão em jogo, primos de terceiro e quarto grau aparecem como coelhos saindo da cartola de um mágico. E o senhor conhece o critério tradicional: “estar com a mente sã”.
— Eu guardei essa história durante oitenta anos — diz Beecher, e na voz dele Wayland consegue ouvir objeção negada. — Nunca disse uma palavra até agora. E, talvez eu precise salientar novamente, embora não devesse: tudo que eu digo aqui está abarcado pela confidencialidade entre advogado e cliente.
— Tudo bem — diz Wayland. — Ótimo.
— Eu sempre ficava empolgado nos dias em que os nomes apareciam na areia… de uma forma nada saudável, tenho certeza. Mas só fiquei apavorado com o fenômeno uma vez. Nessa única vez, eu fiquei aterrorizado e voltei correndo para Point na canoa, como se demônios estivessem me perseguindo. Quer que eu conte?
— Por favor. — Wayland levanta o copo e bebe. Por que não? Seus honorários eram pagos por hora, afinal.
— Foi em 1959. Eu ainda estava em Point. Sempre morei aqui, exceto pelos anos que passei em Tallahassee, e é melhor não falarmos sobre eles… embora, pensando bem, eu ache que parte do ódio que sinto por aquela cidade provinciana cheia de água estagnada, talvez boa parte dele, seja apenas uma saudade mascarada da ilha e da duna. Eu ficava me perguntando o que estava perdendo, sabe? Quem estava perdendo. Poder ler obituários adiantado dá uma sensação de poder extraordinária. Talvez você ache isso horrível, mas era assim que eu me sentia.
“Então. Estávamos em 1959. Harvey Beecher era advogado em Sarasota e morava em Pelican Point. Se não estivesse chovendo muito quando chegava em casa, eu sempre colocava roupas velhas e remava até a ilha para dar uma olhadinha na duna antes do jantar. Nesse dia em particular, eu fiquei no escritório até tarde e, quando cheguei à ilha, amarrei o barco e andei até o outro lado da ilha. O sol estava se pondo, grande e vermelho, como costuma ser no golfo. O que vi me deixou perplexo. Eu, literalmente, não conseguia me mexer.
“Não havia apenas um nome escrito na areia naquela noite, mas muitos, e sob a luz vermelha do pôr do sol, parecia que tinham sido escritos com sangue. Estavam amontoados, escritos em curvas, para cima e para baixo, muitos se sobrepondo. Toda a largura e a altura da duna estavam cobertas em uma tapeçaria de nomes. Os mais próximos da água tinham sido parcialmente apagados.
“Acho que gritei. Não tenho certeza, mas acho que sim. O que lembro é de sair da paralisia do choque e correr o mais rápido que consegui pela trilha até a canoa. Demorei uma eternidade para soltar o nó e, quando soltei, empurrei a canoa para a água antes de subir. Fiquei encharcado da cabeça aos pés, e é impressionante eu não ter virado o barco. Se bem que, naqueles dias, eu conseguiria nadar facilmente até a margem, empurrando a canoa. Agora, não; se eu virasse o caiaque agora, seria o fim da história.” — Ele sorri. — Já que estamos falando de histórias.
— Então sugiro que fique no continente, pelo menos até seu testamento estar assinado pelo senhor e pelas testemunhas e estar registrado pelo tabelião.
O juiz Beecher dá um sorriso frio.
— Não precisa se preocupar comigo, filho. — Ele olha para a janela e para o golfo ao longe. Seu rosto está sério e pensativo. — Aqueles nomes… ainda consigo vê-los, brigando por lugar naquela duna sangrenta. Dois dias depois, um avião da TWA a caminho de Miami caiu em Glades. Todas as cento e noventa almas a bordo morreram. A lista de passageiros saiu no jornal. Reconheci alguns nomes. Reconheci muitos.
— Você viu isso. Viu os nomes.
— Vi. Durante vários meses depois disso eu fiquei longe da ilha e prometi a mim mesmo que nunca mais poria os pés lá. Acho que viciados fazem a mesma promessa sobre se manter longe das drogas, não fazem? E, como eles, acabei enfraquecendo e retomei meu velho hábito. Agora, advogado: você entende por que o chamei aqui para terminar meu testamento e por que teve que ser hoje?
Wayland não acredita em uma palavra, mas, como muitas fantasias, essa tem sua lógica interna. É fácil acompanhar. O Juiz tem noventa anos, a pele antes morena ficou da cor de argila, os passos antes firmes ficaram mais arrastados e hesitantes. Ele está com dor e perdeu peso que não podia perder.
— Então hoje você viu seu nome na areia — afirma Wayland.
O juiz Beecher parece momentaneamente surpreso e depois abre um sorriso. É um sorriso terrível, que transforma seu rosto estreito e pálido em uma caveira.
— Ah, não — diz ele. — Não foi o meu nome.
Pensando em W. F. Harvey
A vida é cheia de Grandes Perguntas, não é? Fatalidade ou destino? Céu ou inferno? Amor ou paixão? Razão ou impulso?
Beatles ou Stones?
Para mim, os Stones sempre saíram campeões — os Beatles ficaram suaves demais quando se tornaram o Júpiter do sistema solar da música pop. (Minha esposa se referia a Sir Paul McCartney como “o cara do olhar de cachorro velho”, e isso meio que resumia meus sentimentos.) Mas os Beatles das antigas… ah, eles tocavam um rock honesto, e eu ainda escuto as primeiras faixas, a maioria covers, com amor. Às vezes até sinto vontade de me levantar e dançar um pouco.
Uma das minhas favoritas era a versão deles para o clássico de Larry Williams, “Bad Boy”, com John Lennon cantando com uma voz rouca e urgente. Eu gostava particularmente da frase de repreensão: “Júnior, comporte-se!”. Em algum momento, decidi que queria escrever uma história sobre um garotinho malvado que se mudava para um novo bairro. Não um garoto que fosse literalmente o filho do diabo, não um garoto possuído pelo demônio no estilo O exorcista, mas só malvado por ser malvado, malvado até o último fio de cabelo, a apoteose de todos os garotinhos malvados que já existiram. Eu o via de short e com um boné com hélice no alto da cabeça. Eu o via sempre criando confusão e nunca se comportando.
Esta é a história que cresceu em torno dessa ideia: uma versão do mal de Tico, o amigo da Teca dos quadrinhos. Uma versão eletrônica saiu na França e na Alemanha, onde “Bad Boy” foi parte do repertório dos Beatles no Star Club. Esta é a primeira vez que o conto é publicado fora desses dois países.