O Bazar dos Sonhos Ruins

Stephen King · Capítulo 17 de 22

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O Bazar dos Sonhos Ruins

Tommy

 

Tommy morreu em 1969.

Ele era um hippie com leucemia.

Que merda, cara.

Depois do enterro teve a recepção no Newman Center. Foi assim que os pais dele chamaram: recepção.

Meu amigo Phil disse: “Isso não é o que se faz depois de uma porra de casamento?”.

Todos os hippies foram à recepção.

Darryl foi de capa.

Havia sanduíches e suco de uva em copos de plástico. Meu amigo Phil disse: “Que merda de suco é esse?”. Eu disse que era Za-Rex. Reconheci da JM, eu disse. “Que porra é essa?”, perguntou Phil.

“Juventude Metodista”, respondi.

“Eu fui por dez anos e fiz um painel de Noé com a arca uma vez.”

“Que se foda a sua Arca”, disse Phil.

“E que se foda os animais que andaram nela.”

Phil: um jovem com opiniões fortes.

Depois da recepção, os pais de Tommy foram para casa. Imagino que tenham chorado e chorado.

Os hippies foram para a North Main 110.

Nós botamos o som no máximo. Encontrei uns discos do Grateful Dead. Eu odiava os Dead. De Jerry Garcia, eu dizia:

“Vou ficar agradecido quando ele estiver morto!”.

(No fim das contas, não fiquei.)

Ah, bem, Tommy gostava deles.

(E gostava também de Kenny Rogers, meu Deus.)

Fumamos maconha com papel Zig-Zag.

Fumamos Winstons e Pall Malls.

Bebemos cerveja e comemos ovos mexidos.

Nós conversamos sobre Tommy.

Foi bem legal.

E quando o Wilde-Stein Club apareceu, todos os oito, nós deixamos que entrassem, Porque Tommy era gay e às vezes usava a capa de Darryl.

Todos nós concordamos que os pais fizeram justiça a ele. Tommy escreveu o que queria, e eles deram quase tudo. Ele estava usando as melhores roupas ao ser deitado no novo lar estreito. Estava usando a calça jeans boca de sino e a camiseta tie-dye favorita. (Melissa Big Girl Freek fez aquela camiseta.

Não sei o que aconteceu com ela.

Ela estava com a gente um dia, depois se foi pela rodovia perdida. Eu a associo com neve derretendo.

A rua Main em Orono brilhava tanto de umidade e claridade que machucava os olhos. Foi no inverno em que The Lemon Pipers cantaram “Green Tambourine”.) O cabelo estava lavado. Caía até os ombros.

Caramba, estava limpo!

Aposto que o agente funerário lavou.

Na cabeça, ele usava a faixa

que tinha o símbolo da paz costurado em seda branca.

“Ele até parecia um cara”, disse Phil. Ele estava ficando bêbado. (Phil estava sempre ficando bêbado.)

Jerry Garcia estava cantando “Truckin”. É uma música bem idiota. “Tommy fodão!”, disse Phil. “Um brinde ao filho da puta!” Nós brindamos ao filho da puta.

***

“Ele não estava usando o button especial”, disse Indian Scontras. Indian era do Wilde-Stein Club.

Naquela época, ele sabia todas as danças.

Agora, vende seguros em Brewer.

“Ele falou para a mãe que queria ser enterrado usando o button. Que sacanagem.”

Eu falei: “A mãe colocou embaixo do colete. Eu olhei”.

Era um colete de couro com botões prateados.

Tommy comprou na Free Fair.

Eu estava com ele no dia. Havia um arco-íris e,

por um alto-falante, Canned Heat cantava “Let’s Work Together”. ESTOU AQUI E SOU GAY dizia o button que a mãe dele colocou embaixo do colete. “Ela devia ter deixado onde estava”, disse Indian Scontras. “Tommy sentia orgulho. Era um gay muito orgulhoso.” Indian Scontras estava chorando.

Agora, ele vende apólices de seguro de vida e tem três filhas. Acabou não sendo tão gay assim, afinal de contas, mas vender seguro é uma coisa bem gay, na minha opinião. “Ela era mãe dele”, eu disse, “e beijou os machucados dele quando ele era pequeno.”

“O que isso tem a ver?”, perguntou Indian Scontras.

“Tommy fodão!”, disse Phil, e levantou a cerveja bem alto. “Vamos brindar ao filho da puta!”

Nós brindamos ao filho da puta.

Isso foi quarenta anos atrás.

Esta noite, eu me pergunto quantos hippies morreram naqueles poucos anos

ensolarados.

Devem ter sido muitos. É só estatística, cara.

E não estou falando só da

!!GUERRA!!

Havia os acidentes de carro.

As overdoses de drogas

E de bebidas

brigas de bar

ocasionais suicídios

e não vamos esquecer a

leucemia.

Todos os suspeitos de sempre, é o que estou dizendo. Quantos foram enterrados com as roupas hippie?

Essa pergunta ocorre a mim nos sussurros da noite. Devem ter sido muitos, embora

tenha sido transitória, a época das aberrações.

A Free Fair está agora enterrada

onde ainda usam calças boca de sino e faixas na cabeça e tem mofo nas mangas volumosas das camisas psicodélicas.

O cabelo naqueles aposentos estreitos está frágil, mas ainda comprido. O barbeiro “do Homem” não toca nele há quarenta anos. Cabelos brancos não o incomodam.

E os que se foram

segurando placas que diziam NÓS NÃO VAMOS PRA GUERRA? E o garoto do acidente de carro enterrado com um adesivo de McCarthy na tampa do caixão?

E a garota com as estrelas na testa?

(Elas já caíram agora, imagino, da pele ressecada.)

Eles são soldados do amor que nunca venderam seguro. São o pessoal da moda que nunca saiu de moda.

Às vezes, à noite, eu penso em hippies dormindo na terra. A Tommy.

Um brinde ao filho da puta.

Para D. F.

Em 1999, quando estava caminhando pelo quarteirão da minha casa, fui atropelado por um cara dirigindo uma van. Ele estava a uns sessenta e cinco quilômetros por hora, e a colisão deveria ter me matado. Acho que devo ter desviado no último minuto, apesar de não lembrar. Só me lembro do que veio depois. Um acidente que aconteceu em dois ou três segundos na lateral de uma estrada rural do Maine resultou em dois ou três anos de fisioterapia e uma lenta reabilitação. Durante esses longos meses passados na recuperação de alguns movimentos da minha perna direita e depois aprendendo a andar novamente, tive tempo suficiente para refletir sobre o que alguns filósofos chamaram de “problema da dor”.

Esta história é sobre isso, e a escrevi anos depois, quando o pior da dor tinha passado e virado um murmúrio baixo e constante. Como vários outros contos deste livro, “O pequeno deus verde da agonia” é uma busca por encerramento. Mas, como todos os contos deste livro, seu objetivo principal é entreter. Embora experiências de vida sejam a base para todas as histórias, não estou no setor de ficção confessional.