O Bazar dos Sonhos Ruins
Batman e Robin têm uma discussão
Sanderson visita o pai duas vezes por semana. Nas noites de quarta, depois que fecha a joalheria que os pais abriram muito tempo antes, ele dirige cinco quilômetros até a Mansão Alto Nível e encontra Pop lá, normalmente no salão comunal. Na sua “suíte”, se Pop estiver em um dia ruim. Na maioria dos domingos, Sanderson o leva para almoçar. A instituição na qual Pop passa os últimos anos enevoados de sua vida se chama Unidade de Cuidados Especiais Harvest Hill, mas, para Sanderson, Mansão Alto Nível combina mais.
O tempo que eles passam juntos não é tão ruim, e não só porque Sanderson não precisa mais trocar os lençóis do coroa quando ele faz xixi na cama nem levantar no meio da noite quando Pop começa a vaguear pela casa, pedindo para a esposa fazer ovos mexidos ou dizendo para o filho que aqueles malditos garotos Frederick estão no quintal, bebendo e gritando uns com os outros (Dory Sanderson morreu quinze anos atrás, e os três garotos Frederick, hoje em dia não mais garotos, se mudaram há muito tempo). Há uma piada antiga sobre o mal de Alzheimer: a boa notícia é que você conhece gente nova todos os dias. Sanderson descobriu que a verdadeira boa notícia é que o roteiro raramente muda. Significa que quase nunca é preciso improvisar.
O Applebee’s, por exemplo. Embora aos domingos eles almocem no mesmo restaurante há mais de três anos, Pop quase sempre diz a mesma coisa: “Até que não é ruim. Deveríamos voltar outro dia”. Ele sempre pede bife ao ponto, e quando o pudim de pão chega, ele diz para Sanderson que o pudim de pão da esposa é melhor. Ano passado, o pudim saiu do cardápio do Applebee’s da via Commerce, então Pop, depois de fazer Sanderson ler o menu de sobremesas para ele quatro vezes e de pensar nas opções por eternos dois minutos, pediu torta de maçã. Quando chegou, Pop disse que Dory servia a dela com creme. E ficou sentado, olhando a estrada pela janela. Na segunda vez, ele fez a mesma observação, mas comeu a torta até quase lamber o prato.
Na maioria das vezes, ele lembra o nome de Sanderson e o relacionamento dos dois, mas às vezes o chama de Reggie, o nome de seu irmão mais velho. Reggie morreu quarenta anos atrás. Quando Sanderson se prepara para sair da “suíte” nas quartas-feiras, ou aos domingos, depois que leva o pai de volta à Mansão Alto Nível, o idoso invariavelmente agradece e promete que na próxima vez vai estar se sentindo melhor.
Quando era jovem, antes de conhecer Dory Levin, que o civilizou, o futuro pai de Sanderson foi um peão nos campos de petróleo do Texas, e às vezes reincorpora aquele homem, que nunca sonhou que um dia se tornaria um joalheiro bem-sucedido em San Antonio. Nessas ocasiões, ele fica confinado na “suíte”. Uma vez, virou a cama e pagou pelos esforços com um pulso quebrado. Quando o auxiliar de plantão, José, o favorito de Pop, perguntou por que ele fez aquilo, Pop respondeu que foi porque aquele puto do Gunton não queria abaixar o rádio. Não havia nenhum Gunton, claro. Não agora. Em algum lugar do passado, talvez. Provavelmente.
Nos últimos dias, Pop começou a demonstrar traços cleptomaníacos. Os auxiliares, enfermeiros e médicos já encontraram todo tipo de coisa no quarto dele: vasos, utensílios de plástico da sala de jantar, o controle remoto da TV do salão comunal. Uma vez, José encontrou uma caixa de charutos El Producto cheia com várias peças de quebra-cabeça e oitenta ou noventa cartas de baralho debaixo da cama. Pop não consegue explicar para ninguém, nem para o filho, por que pega essas coisas, e normalmente nega que tenha pegado. Certa vez, disse para Sanderson que Gunderson estava armando para cima dele.
— Você quis dizer Gunton, Pop? — perguntou Sanderson.
Pop balançou a mão ossuda.
— Aquele cara só queria xoxota. Era o maior caçador de xoxota da Xoxotalândia.
Mas a fase cleptomaníaca parece estar passando, ao menos é o que José diz, e naquele domingo o pai está bem calmo. Não é um dos dias lúcidos, mas também não é um dos ruins. Está bom o bastante para o Applebee’s, e se eles conseguirem ir até o fim sem o pai mijar nas calças, tudo vai ficar bem. Ele está usando fralda, mas sempre há um odor. Por esse motivo, Sanderson sempre escolhe uma mesa em um dos cantos. Isso não é problema; eles almoçam às duas da tarde, e a essa altura a multidão saindo da missa já voltou para casa para ver beisebol ou futebol americano na TV.
— Quem é você? — pergunta Pop no carro. O dia está claro, mas frio. Com os óculos de sol enormes e o sobretudo de lã, ele parece o tio Júnior, aquele gângster velho de A família Soprano.
— Sou Dougie — respondeu Sanderson. — Seu filho.
— Eu me lembro do Dougie — diz Pop —, mas ele morreu.
— Não, Pop, nada disso. Reggie morreu. Ele… — Sanderson fica em silêncio para ver se Pop vai terminar a frase. Pop não termina. — Foi um acidente.
— Estava bêbado, é? — pergunta Pop.
Isso magoa, mesmo depois de tantos anos. Essa é a parte ruim da doença do pai: ele é capaz de crueldades aleatórias que, apesar de não intencionais, ainda doem à beça.
— Não — diz Sanderson —, o garoto que o acertou estava bêbado. E se safou sem nada além de uns arranhões.
Esse garoto deve estar na faixa dos cinquenta agora, provavelmente ficando grisalho. Sanderson espera que essa versão adulta do garoto que matou seu irmão tenha escoliose, espera que a esposa dele tenha morrido de câncer de ovário, espera que tenha tido caxumba e ficado cego e estéril, mas sabe que deve estar bem. Gerenciando um mercadinho em algum lugar. Talvez até, quem sabe, um Applebee’s. Por que não? Ele tinha dezesseis anos na época. Eram águas passadas. Descuido juvenil. Os registros estariam selados. E Reggie? Também selado. Ossos dentro de um terno sob uma lápide em Mission Hill. Às vezes, Sanderson não conseguia nem se lembrar do rosto do irmão.
— Dougie e eu brincávamos de Batman e Robin — diz Pop. — Era a brincadeira favorita dele.
O carro para no sinal no cruzamento da via Commerce com a rua Airline, onde logo vai começar uma confusão. Sanderson olha para o pai e sorri.
— É, Pop, isso aí! A gente até saiu vestido assim no Halloween uma vez, lembra? Eu convenci você. O Cruzado Encapuzado e o Menino Prodígio.
O pai olha pela janela do Subaru de Sanderson e não diz nada. O que estará pensando? Ou os pensamentos viraram nada além de uma espécie de sinal de onda? Sanderson às vezes imagina o som que a linha da morte deve fazer: mmmmmmmm. Como o velho zumbido de testes da TV, antes do cabo e do satélite.
Sanderson pousa a mão em um braço fino coberto pela manga do casaco e aperta com simpatia.
— Você estava caindo de bêbado e a mamãe ficou furiosa, mas eu me diverti. Foi meu melhor Halloween.
— Eu nunca bebo perto da minha esposa — diz Pop.
Não, pensa Sanderson quando o sinal fica verde. Não depois que ela o treinou para isso.
— Precisa de ajuda com o cardápio, Pop?
— Eu sei ler — responde o pai. Ele não consegue mais, porém está iluminado no canto deles, e Pop consegue olhar para as fotos mesmo com os óculos de sol de gângster tio Júnior. Além do mais, Sanderson já sabe o que ele vai pedir.
Quando o garçom chega com os chás gelados, Pop fala que vai querer o bife ao ponto.
— Quero rosado, mas não vermelho — diz ele. — Se estiver vermelho, vou mandar de volta.
O garçom assente.
— O de sempre, então.
Pop olha para ele com desconfiança.
— Vagem ou salada de repolho?
Pop ri com deboche.
— Está brincando? Aquelas vagens estavam mortas. Foi impossível vender bijuterias finas naquele ano, muito menos joias de verdade.
— Ele vai querer a salada — responde Sanderson. — E eu quero…
— Todas aquelas vagens estavam mortas! — diz Pop enfaticamente, e lança um olhar imperioso ao garçom, como quem diz: “Vai mesmo me desafiar?”.
O garçom, que os serviu várias vezes, só assente e diz:
— Estavam mesmo mortas. — E se vira para Sanderson. — E para o senhor?
***
Eles comem. Pop se recusa a tirar o sobretudo, então Sanderson pede um babador de plástico e amarra no pescoço do pai. Pop não protesta, talvez nem note. Parte da salada de repolho vai parar na calça, mas o babador pega boa parte das gotas de molho funghi. Quando estão terminando, Pop informa ao salão do restaurante quase vazio que precisa tanto mijar que já consegue sentir o gosto do mijo.
Sanderson o acompanha até o banheiro masculino, e o pai permite que ele abra o zíper, mas quando tenta puxar a frente de elástico da fralda, Pop bate na mão dele.
— Nunca mexa na salsicha de outro homem, Sunny Jim — diz ele, irritado. — Você não sabe disso?
Isso desperta uma lembrança antiga: Dougie Sanderson de pé na frente da privada com o short ao redor dos tornozelos e o pai ajoelhado ao lado, dando instruções. Quantos anos ele tinha? Três? Dois? Sim, só dois anos, mas ele não duvida da lembrança; é como um fragmento de vidro visto na lateral da estrada, tão perfeitamente posicionado que deixa uma imagem gravada.
— Preparar, apontar, fogo! — diz ele.
Pop olha para ele com desconfiança e parte o coração de Sanderson ao abrir um sorriso.
— Eu dizia isso para os meus garotos quando estavam desfraldando — diz ele. — Dory me disse que isso era minha responsabilidade, e fiz o que ela mandou, por Deus.
Ele liberta uma torrente, e a maior parte cai mesmo dentro do mictório. O cheiro é azedo e açucarado. Diabetes. Mas que importância tem? Às vezes, Sanderson pensa que quanto mais cedo, melhor.
De volta à mesa, ainda de babador, Pop dá o veredito.
— Este lugar até que não é ruim. Deveríamos voltar outro dia.
— Que tal uma sobremesa, Pop?
Pop pensa na ideia enquanto olha pela janela com a boca aberta. Ou é só o sinal de onda? Não, não desta vez.
— Por que não? Tem espaço.
Os dois pedem torta de maçã. Pop olha para a bola de sorvete de baunilha com as sobrancelhas franzidas.
— Minha esposa servia com creme. O nome dela era Dory. Apelido de Doreen. Como aquela do Clube do Mickey. Entre nessa festa para cantar com todos nós. Ele é o maior, viva o Mickey Mouse!
— Eu sei, Pop. Coma.
— Você é o Dougie?
— Sou.
— É mesmo? Não está de sacanagem?
— Não, Pop, sou o Dougie.
O pai de Sanderson levanta uma colherada de sorvete com maçã, pingando.
— A gente fez mesmo aquilo, não é?
— O quê?
— Saímos para pedir balas vestidos de Batman e Robin.
Sanderson ri, surpreso.
— Saímos, sim! Mamãe disse que eu nasci bobo, mas você não tinha desculpa. E Reggie nem quis chegar perto da gente. Odiou a história toda.
— Eu estava bêbado — justifica Pop, e começa a comer a sobremesa. Quando termina, ele arrota, aponta para a janela e diz: — Olhe aqueles pássaros. O que são mesmo?
Sanderson olha. Os pássaros estão amontoados em um latão de lixo no estacionamento. Há vários outros empoleirados na cerca mais atrás.
— São corvos, Pop.
— Caramba, eu sei disso — diz Pop. — Os corvos nunca nos incomodavam, antigamente. Tínhamos uma espingarda de chumbinho. Agora, ouça. — Ele se inclina para a frente, todo profissional. — Já fizemos isso antes?
Sanderson pensa brevemente nas possibilidades metafísicas inerentes à pergunta e diz:
— Sim. A gente vem aqui quase todos os domingos.
— É um bom lugar. Mas acho que devemos voltar. Estou cansado. Quero aquela outra coisa agora.
— Um cochilo?
— Aquela outra coisa — diz Pop, olhando para ele daquele jeito imperioso.
Sanderson faz sinal para o garçom trazer a conta, e enquanto paga no caixa, Pop sai andando com as mãos enfiadas nos bolsos do casaco. Sanderson pega o troco apressado e tem que correr para chegar à porta antes de Pop poder sair para o estacionamento, ou mesmo para as quatro pistas movimentadas da via Commerce.
— Foi uma noite boa — diz Pop enquanto Sanderson coloca o cinto de segurança nele.
— Que noite?
— A do Halloween, seu pateta. Você tinha oito anos, então foi em 1959. Você nasceu em 1951.
Sanderson olha para o pai, impressionado, mas o homem idoso está olhando para a frente, para o trânsito. Sanderson bate a porta do passageiro, contorna a frente do Subaru e se senta atrás do volante. Eles não dizem nada por dois ou três quarteirões, e Sanderson supõe que o pai esqueceu a história toda, mas ele não esqueceu.
— Quando chegamos à casa dos Forester no pé da colina… você se lembra da colina, não lembra?
— A colina da rua Church, claro.
— Isso! Norma Forester abriu a porta, e aí ela diz para você, antes que você possa falar qualquer coisa, ela diz: “Doces ou travessuras?”. Depois, ela olha para mim e diz: “Bebidas ou travessuras?” — Pop faz um som de dobradiça enferrujada que Sanderson não ouve há mais de um ano. Ele até bate na perna. — Bebidas ou travessuras! Que frase! Você se lembra disso, não lembra?
Sanderson tenta, mas não se lembra de nada. Ele só lembra quanto ficou feliz de estar com o pai, apesar de a fantasia de Batman de Pop, montada de improviso, ser bem ruim. Um pijama cinza com o emblema do morcego desenhado na frente com canetinha permanente. A capa foi cortada de um lençol velho. O cinto de utilidades do Batman era um cinto de couro no qual o pai enfiou uma série de chaves de fenda e cinzéis, até uma chave inglesa, tirados da caixa de ferramentas da garagem. A máscara era uma máscara de esqui comida por traças que o pai enrolou até o nariz, para a boca ficar aparecendo. De pé na frente do espelho do corredor, antes de sair, ele puxou as laterais da máscara para cima para fazer as orelhas, mas não deu muito certo.
— Ela me ofereceu uma garrafa de Shiner’s — diz Pop. Agora eles já subiram nove quarteirões da via Commerce e estão se aproximando do cruzamento com a rua Airline.
— E você aceitou?
Pop está animado. Sanderson adoraria que continuasse assim durante todo o percurso até a Mansão Alto Nível.
— Claro. — Ele fica em silêncio. Quando a via Commerce se aproxima do cruzamento, as duas pistas se tornam três. A da esquerda é exclusiva para quem vai virar. O sinal para seguir em frente está vermelho, mas o da pista de virar à esquerda está com uma seta verde. — Os peitos daquela mulher pareciam travesseiros. Foi a melhor trepada que já tive.
Sim, eles magoam. Sanderson sabe disso não apenas por experiência própria, mas de conversar com outras pessoas que têm parentes na Mansão. Em geral, não pretendem, mas magoam. As lembranças que permanecem estão todas misturadas, como as peças de quebra-cabeça furtadas que José encontrou em uma caixa de charuto debaixo da cama de Pop, e eles não têm controle nenhum sobre elas, nenhum jeito de separar o que se pode falar do que não se pode. Sanderson nunca teve motivos para achar que o pai foi infiel à esposa nos quarenta e tantos anos de casamento dos dois, mas essa não é a suposição que todos os filhos adultos fazem se o casamento dos pais era sereno e tranquilo?
Ele tira os olhos da via para encarar o pai, e é por isso que acontece um acidente em vez dos quase acidentes que acontecem o tempo todo em ruas movimentadas como a via Commerce. Mesmo assim, não é um acidente muito terrível, e apesar de Sanderson saber que sua atenção se desviou da via por um ou dois segundos, ele também sabe que não foi culpa sua.
Uma daquelas picapes modificadas com pneus gigantescos e luzes no teto da cabine entra na pista dele, querendo virar para a esquerda antes de a seta verde se apagar. O cara não ligou a seta; Sanderson repara nisso quando a parte esquerda frontal do Subaru colide com a traseira da picape. Ele e o pai são jogados para a frente, e os cintos travam, e uma depressão surge de repente no meio do capô antes liso do carro, mas os airbags não são disparados. Ouvem um tilintar repentino de vidro estilhaçando.
— Seu babaca! — grita Sanderson. — Meu Deus!
Em seguida, ele comete um erro. Aperta o botão que abre a janela, estica o braço para fora e mostra o dedo do meio para a picape. Mais tarde, ele vai perceber que só fez isso porque Pop estava no carro e em um dia animado.
Pop. Sanderson se vira para ele.
— Você está bem?
— O que aconteceu? — pergunta Pop. — Por que paramos?
Ele está confuso, mas está bem. Felizmente, usava o cinto de segurança, embora Deus saiba quanto é difícil se esquecer de botá-los hoje em dia. Os carros não deixam. Se você dirigir quinze metros sem colocar o cinto, eles começam a berrar de indignação. Sanderson se inclina sobre Pop, abre o porta-luvas e pega o documento do carro e o cartão do seguro. Quando se empertiga, a porta da picape está aberta e o motorista está andando na direção dele, sem nem se importar com os carros que buzinam e desviam para passar pelo mais recente acidente. Não tem tanto trânsito quanto em um dia de semana, mas Sanderson não conta isso como bênção, porque está olhando para o motorista que se aproxima e pensando acho que me dei mal nessa.
Ele conhece o tipo. Típico sulista do Texas. Está usando calça jeans e uma camiseta com as mangas arrancadas. Não cortadas, rasgadas; e fiapos errantes caem em cima dos músculos dos braços bronzeados. A calça jeans está frouxa nos quadris, e dá para ver a marca da cueca. Uma corrente vai de um passador da calça sem cinto até o bolso de trás, onde sem dúvida há uma grande carteira de couro, possivelmente com o nome de uma banda de heavy metal em alto-relevo. Tem um monte de tatuagens nos braços e nas mãos, que chegam até o pescoço. Esse é o tipo de cara que, quando Sanderson vê na calçada em frente à joalheria pelo circuito fechado de TV, faz com que ele aperte o botão que tranca a porta. No momento, gostaria de apertar o botão que tranca a porta do carro, mas claro que não pode fazer isso. Ele não devia ter mostrado o dedo do meio, e até teve tempo de repensar suas opções, porque precisou abrir a janela para isso. Mas agora é tarde demais.
Sanderson abre a porta e sai, pronto para ser conciliador, para pedir desculpas pelo que não devia pedir desculpas, pois foi o cara que o fechou, por Deus. Mas tem mais uma coisa, uma coisa que faz arrepios de consternação surgirem na pele dos antebraços e na nuca, que está suando agora que ele saiu do ar-condicionado. As tatuagens do cara são coisas simplórias e rabiscadas: correntes ao redor dos bíceps, espinhos contornando os antebraços, uma adaga em um pulso com uma gota de sangue pendurada na ponta da lâmina. Não foi um estúdio de tatuagem que fez isso. É coisa de presídio. O Tatuado tem pelo menos um metro e noventa contando as botas e deve pesar uns noventa quilos. Talvez cem. Sanderson tem um e oitenta e pesa setenta e dois.
— Olha, desculpa por eu ter mostrado o dedo — diz Sanderson. — Foi no calor do momento. Mas você mudou de pista sem…
— Olha o que você fez com a minha picape! — exclamou o Tatuado. — Comprei tem três meses!
— Precisamos trocar informações do seguro…
Eles também precisam de um policial. Sanderson olha ao redor em busca de uma viatura e só vê curiosos, reduzindo para avaliar os danos e acelerando de novo.
— Você acha que eu tenho seguro se mal consigo pagar essa porra?
Você tem que ter seguro, pensa Sanderson, é a lei. Só que um cara assim não acha que tem que ter nada. Os testículos de borracha pendurados na placa são a prova final.
— Por que você não me deixou passar, seu babaca?
— Não deu tempo — explicou Sanderson. — Você me fechou, não botou a seta…
— Eu botei a seta!
— Então por que não está piscando?
Sanderson aponta.
— Porque você quebrou a porra da minha lanterna, imbecil! Como vou explicar isso pra minha namorada? Ela quem pagou a entrada! E tire essa merda da minha cara.
Ele dá um tapa no cartão do seguro e nos documentos, que Sanderson ainda está segurando. Sanderson olha para baixo, perplexo. Seus papéis estão caídos na rua.
— Estou indo — diz o Tatuado. — Eu conserto os danos no meu carro, e você conserta no seu. Vai ser assim.
Os danos no Subaru são bem piores do que os danos na picape absurdamente enorme — o conserto sairia de uns mil e quinhentos a dois mil dólares a mais —, mas não é isso que faz Sanderson falar. Também não é o medo de o imbecil sair sem pagar, pois ele só precisa anotar o número da placa acima daqueles testículos de borracha pendurados. Não é nem o calor, que está sufocante. É o fato de seu pai alterado estar sentado no banco do carona, sem saber o que está acontecendo, precisando cochilar. Eles já deviam estar na metade do caminho até a Mansão Alto Nível, mas não. Não. Porque esse belo babaca teve que cortar o trânsito. Tinha que correr para a pista exclusiva antes de a seta verde apagar, senão o mundo ficaria preto e os ventos do apocalipse soprariam.
— Não é assim que vai ser — diz Sanderson. — A culpa foi sua. Você me cortou sem sinalizar. Não tive tempo de frear. Quero ver os documentos do seu carro e quero ver sua habilitação.
— Vai pro inferno — diz o homenzarrão, e dá um soco na barriga de Sanderson. Ele se inclina para a frente e expele todo o ar que tem nos pulmões em um sopro forte. Não devia ter provocado o motorista da picape, ele sabia que não devia, era só olhar para aquelas tatuagens amadoras e qualquer um saberia que não devia, mas ele fez isso porque não acreditou que aquilo fosse acontecer em plena luz do dia, no cruzamento da via Commerce com a rua Airline. Ele é um cara legal. Não leva um soco desde o terceiro ano, em uma discussão por causa de cards de beisebol.
— Aí estão meus documentos — diz o Tatuado. Grandes filetes de suor escorrem pelo rosto dele. — Espero que você goste. Quanto à minha habilitação, eu não tenho, tá? Não tenho e pronto. Vou ficar muito encrencado, e é tudo culpa sua porque estava batendo punheta em vez de olhar para onde estava indo. Seu escroto!
Nessa hora, o Tatuado perde a cabeça. Pode ser por causa do acidente, pode ser por causa do calor, pode ser por causa da insistência de Sanderson em ver os documentos que o Tatuado não tem. Pode até ser por causa do som da própria voz. Sanderson já ouviu a expressão perdeu a cabeça várias vezes, mas percebe que nunca aprendeu seu verdadeiro significado até o momento. O Tatuado é seu professor, e é dos bons. Ele junta as duas mãos em um punho. Sanderson tem tempo suficiente para ver que há olhos azuis nos dedos do Tatuado antes de levar a porrada na bochecha, tombando contra o lado direito recém-amassado do carro. Ele desliza e sente uma ponta de metal rasgar sua camisa e a pele embaixo. Sangue jorra pela lateral, quente como febre. Em seguida, seus joelhos fraquejam e ele cai no asfalto. Sanderson olha para as mãos, sem acreditar que são suas. A bochecha direita está quente e parece estar crescendo como massa de pão. O olho direito está lacrimejando.
Em seguida, vem um chute na lateral ferida, acima do cinto. A cabeça de Sanderson bate na calota direita frontal do Subaru e quica. Ele tenta engatinhar para longe da sombra do Tatuado. O Tatuado está gritando alguma coisa pra ele, mas Sanderson não consegue identificar nenhuma palavra; só sai um wah-wah-wah, o som que os adultos fazem quando estão falando com as crianças no desenho Peanuts. Ele quer dizer ao Tatuado que está tudo bem, tudo bem, a gente não concorda, mas vamos deixar pra lá. Ele quer dizer que não houve dano nenhum (apesar de se sentir bastante danificado), pode seguir seu caminho e vou seguir o meu, boa viagem para você, nos vemos amanhã, pessoal. Mas não consegue recuperar o fôlego. Ele acha que vai ter um ataque cardíaco, talvez até já esteja tendo um. Quer levantar a cabeça; se vai morrer, gostaria de morrer olhando para algo mais interessante do que o asfalto da via Commerce e a frente do carro batido. Mas não consegue. O pescoço ficou mole feito macarrão.
O Tatuado dá outro chute, desta vez no meio da coxa esquerda. Em seguida, o homem dá um grito gutural, e gotas vermelhas começam a pingar na rua. Sanderson primeiro acha que seu nariz começou a sangrar, ou talvez seus lábios, do golpe no rosto com os dois punhos, mas mais calor cai na sua nuca. É como uma pancada de chuva tropical. Ele engatinha para mais longe, para depois do capô do carro, e consegue se virar e sentar. Ele olha para cima, estreitando os olhos por causa da luz do céu, e vê Pop de pé ao lado do Tatuado. O Tatuado está inclinado como um homem com cólicas estomacais severas. Também está tateando a lateral do pescoço, onde um pedaço de madeira surgiu.
Primeiro, Sanderson não consegue entender o que aconteceu, mas depois entende. O pedaço de madeira é o cabo de uma faca, uma faca que ele já viu. Vê quase toda semana. Não é preciso usar faca de carne para cortar o bife que Pop sempre come nos almoços de domingo, um garfo faz o serviço muito bem, mas eles levam a faca mesmo assim. Faz parte do serviço do Applebee’s. Pop pode não lembrar que o filho vai visitá-lo, nem que a esposa está morta, não deve nem lembrar mais qual é seu nome do meio, mas parece que não perdeu a firmeza inteligente que o permitiu evoluir de um sujeito sem faculdade que trabalhava com petróleo a um joalheiro de classe média-alta em San Antonio.
Ele me fez olhar para os pássaros, pensa Sanderson. Para os corvos no latão de lixo. Foi nessa hora que ele pegou a faca.
O Tatuado perde o interesse no homem sentado na rua e não lança um único olhar para o idoso ao lado. O Tatuado começou a tossir. Um jorro fino sai da boca cada vez que ele tosse. Uma das mãos está na faca no pescoço, tentando arrancá-la. Sangue escorre pela lateral da camiseta e suja a calça jeans. Ele começa a andar até o cruzamento da Commerce com a Airline (onde o trânsito parou), ainda inclinado para a frente e tossindo. Com a mão livre, faz um aceno leve: Oi, mãe!
Sanderson fica de pé. As pernas estão tremendo, mas o sustentam. Ele consegue ouvir sirenes se aproximando ao longe. Agora que tudo acabou.
Sanderson passa o braço pelos ombros do pai.
— Você está bem, Pop?
— Aquele homem estava batendo em você — explica Pop com objetividade. — Quem é ele?
— Não sei.
Lágrimas escorrem pelas bochechas de Sanderson. Ele as limpa.
O Tatuado cai de joelhos. Já parou de tossir. Agora, está fazendo um som gutural baixinho. A maioria das pessoas fica longe, mas duas almas corajosas vão até ele, querendo ajudar. Sanderson pensa que o Tatuado deve ter passado do ponto de poder receber ajuda, mas valoriza o gesto das pessoas.
— Nós já comemos, Reggie?
— Comemos, Pop, comemos. E eu sou o Dougie.
— Reggie está morto. Você não me disse isso?
— Disse, Pop.
— Aquele homem estava batendo em você. — O rosto do pai se contorce como o de uma criança que está horrivelmente cansada e precisa ir para cama. — Estou com dor de cabeça. Vamos embora. Quero me deitar.
— Temos que esperar a polícia.
— Por quê? Que polícia? Quem é aquele cara?
Sanderson sente cheiro de merda. O pai acabou de soltar um barro.
— Vamos para o carro, Pop.
O pai deixa Sanderson guiá-lo pela frente amassada do Subaru.
Pop diz:
— Foi um Halloween e tanto, não foi?
— Foi, Pop, foi, sim.
Ele ajuda o Cruzado Encapuzado de oitenta e três anos a entrar no carro e bate a porta para impedir o ar frio de escapar. A primeira viatura da polícia da cidade está parando, e vão querer ver sua identificação. O Garoto Prodígio de sessenta e um anos, com as mãos apertando o tronco dolorido, vai até o lado do motorista para pegar os documentos caídos na rua.
Para John Irving
Como falei na introdução de “Batman e Robin”, às vezes, muito de vez em quando, a xícara já vem com a asa. Meu Deus, como isso é bom. Você está cuidando da sua vida, sem pensar em nada especial, quando, de repente, bum, uma história chega a galope, perfeita e completa. A única coisa que você precisa fazer é transcrevê-la.
Eu estava na Flórida, passeando com nosso cachorro na praia. Como era inverno e estava frio, éramos os únicos por lá. À frente, vi o que parecia ser alguma coisa escrita na areia. Quando cheguei perto, vi que não passava de um truque de luz e sombra do sol, mas a mente dos escritores é antro de informações esquisitas, e aquilo me fez lembrar de uma citação antiga de algum lugar (acabou sendo de Omar Khayyam): “O Dedo Móvel escreve e, depois de ter escrito, segue em frente”. Isso, por sua vez, me fez pensar em um lugar mágico em que um Dedo Móvel invisível escreveria coisas terríveis na areia, e aí esta história surgiu. Tem um dos meus finais favoritos. Talvez não chegue aos pés de “August Heat”, de W. F. Harvey (um clássico), mas está perto.