O Bazar dos Sonhos Ruins

Stephen King · Capítulo 3 de 22 · parte 1/2

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O Bazar dos Sonhos Ruins

Milha 81

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 2 partes.

 

1. PETE SIMMONS (Huffy 2007)

— Você não pode ir com a gente — disse o irmão mais velho. George falou baixo, apesar de o resto dos amigos (um grupo do bairro formado de garotos de doze e treze anos que se intitulavam Invasores Fodões) estar esperando no final do quarteirão. Não com muita paciência. — É muito perigoso.

— Não estou com medo.

Pete falou com coragem, apesar de estar com medo, um pouquinho. George e os amigos iam para o campo de areia atrás do boliche. Lá, eles iam brincar de um desafio que Normie Therriault tinha inventado. Normie era o líder dos Invasores Fodões, e a brincadeira se chamava Paraquedistas do Inferno. Havia uma ladeira esburacada que levava até a beirada da cascalheira, e a brincadeira consistia em descer de bicicleta a toda a velocidade, gritando “Os Invasores arrebentam!” o mais alto possível, e se levantar do selim na hora do salto. A queda era de uns três metros, e a área onde eles caíam era macia, só que mais cedo ou mais tarde alguém acabaria caindo no cascalho e não na areia, e quebraria o braço ou o tornozelo. Até Pete sabia disso (apesar de também entender por que aquilo aumentava a graça). Quando isso acontecesse, seus pais descobririam, e esse seria o fim dos Paraquedistas do Inferno. Mas agora, a brincadeira, feita sem capacetes, claro, continuava.

George sabia que não podia deixar o irmão participar da brincadeira; ele devia estar cuidando de Pete enquanto os pais trabalhavam. Se Pete quebrasse a Huffy na cascalheira, George ficaria de castigo por uma semana. Se seu irmãozinho quebrasse o braço, seria por um mês. E, caramba, se fosse o pescoço, George achava que ficaria preso no quarto até a hora de ir para a faculdade.

Além do mais, ele amava o pentelhinho.

— Fique aqui — disse George. — Nós voltamos daqui a duas horas.

— Ficar aqui com quem? — perguntou Pete.

Eles estavam de férias, e todos os seus amigos, os que a mãe diria que eram “da idade apropriada”, pareciam estar em outro lugar. Dois tinham ido para a Disney World, em Orlando, e quando Pete pensava nisso, seu coração se enchia de inveja e ciúme, uma mistura horrível, mas estranhamente saborosa.

— Só fique aqui — disse George. — Vá ao mercado, sei lá. — Ele remexeu no bolso e tirou duas notas de um dólar amassadas. — Compre algo pra você.

Pete olhou para o dinheiro.

— Nossa, vou comprar um Corvette. Talvez dois.

— Anda logo, Simmons, senão a gente vai sem você! — gritou Normie.

— Estou indo! — gritou George. E falou baixo para Pete: — Pegue o dinheiro e não seja babaca.

Pete pegou o dinheiro.

— Eu até trouxe minha lupa — disse ele. — Eu ia mostrar pra eles…

— Todos já viram esse truque bobo umas mil vezes — disse George, mas viu os cantos da boca de Pete murcharem e tentou aliviar o fora: — Além do mais, olhe para o céu, pateta. Não dá para criar fogo com lupa em um dia nublado. Fique aqui. Nós vamos jogar Batalha Naval no computador quando eu voltar.

— Beleza, seu merdinha! — gritou Normie. — Até janeiro, seu punheteiro!

— Eu tenho que ir — disse George. — Me faça o favor de não se meter em confusão. Fique no bairro.

— Você vai acabar quebrando a coluna e ficando paralisado pra porra da vida toda — respondeu Pete… mas cuspiu rapidinho por entre os dedos para anular a maldição. — Boa sorte! — gritou ele para o irmão. — Dê o maior salto!

George acenou, mas não olhou para trás. Ficou de pé nos pedais da bicicleta, uma Schwinn velha que Pete admirava, mas na qual não conseguia andar (ele tentou uma vez e mal conseguiu sair da garagem de casa). Pete o viu acelerar pelo quarteirão de casas de subúrbio em Auburn para alcançar os amigos.

Pete ficou sozinho.

***

Ele tirou a lupa da bolsa e posicionou em cima do antebraço, mas não houve ponto de luz nem calor. Olhou com raiva para as nuvens baixas e guardou a lupa. Era das boas, uma Richforth. Ele ganhou no Natal, para ajudar com o projeto de ciências de colônia de formigas.

“Vai acabar na garagem, pegando poeira”, profetizara seu pai, mas, apesar de o projeto da colônia de formigas ter terminado em fevereiro (Pete e sua parceira, Tammy Witham, tiraram A), Pete ainda não havia se cansado da lupa. Ele adorava queimar buracos em pedaços de papel no quintal.

Mas não hoje. Hoje, a tarde se esticava infinitamente como o deserto. Ele podia ir para casa assistir à TV, mas o pai tinha bloqueado todos os canais interessantes quando descobriu que George estava gravando Boardwalk Empire, um programa cheio de gângsteres das antigas e peitinhos de fora. Havia um bloqueio similar no computador de Pete, e ele ainda não tinha descoberto a senha, apesar de saber que acabaria descobrindo; era só uma questão de tempo.

E agora?

— E agora o quê? — disse ele em voz baixa, e começou a pedalar devagar até o fim da rua Murphy. — E agora… o que… porra?

Ele era pequeno demais para brincar de Paraquedistas do Inferno porque podia se machucar. Que saco. Pete queria fazer alguma coisa para provar a George e a Normie e a todos os Invasores que até garotinhos eram capazes de encarar o peri…

A ideia lhe ocorreu de repente, vinda do nada. Ele podia explorar a área de descanso abandonada. Pete achava que os meninos mais velhos não sabiam sobre ela, porque foi um garoto da idade dele, Craig Gagnon, que lhe contou. Craig disse que tinha ido até lá com alguns outros meninos de dez anos, no último outono. Claro que ele podia ter inventado tudo, mas Pete achava difícil. Craig deu detalhes demais, e não era o tipo de garoto bom em inventar coisas. Era meio burrinho, na verdade.

Com um destino em mente, Pete saiu pedalando mais rápido. No final da rua Murphy, virou para a esquerda, na Hyacinth. Não havia ninguém na calçada, nem carros na rua. Ele ouviu o barulho de um aspirador de pó vindo da casa dos Rossignols, mas o resto da vizinhança podia estar dormindo ou morto. Pete achava que estavam trabalhando, igual a seus pais.

Ele entrou na travessa Rosewood, passando pela placa amarela que dizia BECO SEM SAÍDA. Só havia umas dez casas ali. No final da rua tinha uma cerca de arame. Atrás dela ficava um emaranhado de arbustos e árvores de troncos finos de uma área de reflorestamento. Quando Pete se aproximou da cerca (e da placa desnecessária que dizia DÊ A PREFERÊNCIA), ele parou de pedalar e seguiu só no embalo da bicicleta.

Ele entendia (vagamente) que, apesar de ver George e seus amigos dos Invasores como Garotos Mais Velhos (e com certeza era assim que os Invasores se viam), eles não eram realmente Garotos Mais Velhos. Os verdadeiros Garotos Mais Velhos eram adolescentes descolados que tinham habilitação e namorada. Os verdadeiros Garotos Mais Velhos estavam no ensino médio. Gostavam de beber, de fumar maconha, de ouvir heavy metal ou hip-hop e de chupar a saliva das namoradas.

Portanto, gostavam da área de descanso abandonada.

Pete desceu da Huffy e olhou ao redor para ver se estava sendo observado. Não viu ninguém. Nem os irritantes gêmeos Crosskill — que gostavam de pular corda (em sincronia) por todo o bairro quando não havia aula — estavam por perto. Um milagre, na opinião de Pete.

Não muito longe dali, dava para ouvir o barulho constante dos carros na I-95, seguindo para o sul, para Portland, ou para o norte, para Augusta.

Mesmo que Craig tenha falado a verdade, já devem ter consertado a cerca a essa altura, pensou Pete. Sou azarado assim.

Mas, quando se inclinou para perto, Pete viu que apesar de a cerca parecer inteira, não estava. Alguém (provavelmente um Garoto Mais Velho beirando a categoria chata de Jovem Adulto) tinha cortado os aros da cerca em uma linha reta de cima a baixo. Pete deu outra olhada ao redor, enfiou as mãos nos diamantes de metal e empurrou. Esperava resistência, mas não houve nenhuma. O pedaço cortado da cerca se abriu como um portão de fazenda. Os Garotos Mais Velhos de Verdade o usavam mesmo. Uhul.

Pensando bem, fazia sentido. Eles podiam ter habilitação, mas a entrada e a saída da área de descanso da Milha 81 estavam agora bloqueadas pelos cones laranja enormes que as equipes rodoviárias usavam. Havia grama crescendo pelo concreto rachado do estacionamento deserto. Pete tinha visto isso milhares de vezes, porque o ônibus da escola pegava a I-95 para percorrer as três saídas de Laurelwood, onde ia buscá-lo, e seguir até a rua Sabattus, onde ficava a Escola de Ensino Fundamental Auburn n° 3, também conhecida como Alcatraz.

Ele lembrava quando a área de descanso ainda estava aberta. Havia um posto de gasolina, um Burger King, um TCBY e um Sbarro’s. Mas depois, fechou. O pai de Pete disse que havia áreas de descanso demais ao longo da rodovia e que o estado não tinha dinheiro para manter todas abertas.

Pete passou a bicicleta pela abertura na cerca, depois empurrou cuidadosamente o portão improvisado de volta até os formatos de diamante estarem alinhados e a cerca parecer inteira novamente. Andou na direção dos arbustos e tomou o cuidado de não passar os pneus da Huffy por vidro quebrado (tinha muito do outro lado da cerca). Ele começou a procurar o que sabia que devia estar ali; o corte na cerca era uma indicação.

E lá estava, marcada por guimbas de cigarro pisadas e algumas garrafas de cerveja e refrigerante vazias: uma trilha que levava para dentro do bosque. Ainda empurrando a bicicleta, Pete a seguiu. A vegetação alta o engoliu. Às suas costas, a travessa Rosewood continuava sonhando em mais um dia nublado de primavera.

Era como se Pete Simmons nunca tivesse passado por ali.

 

A trilha entre a cerca e a área de descanso da Milha 81 tinha, na estimativa de Pete, uns oitocentos metros, e havia marcas dos Garotos Mais Velhos por todo o caminho: seis garrafas marrons pequenas (duas com colheres de cocaína cobertas de meleca ainda presas), embalagens vazias de salgadinhos, uma calcinha de renda pendurada em um arbusto (parecia que estava ali havia um bom tempo, tipo uns cinquenta anos) e, bingo!, uma garrafa de vodca Popov pela metade com a tampa ainda enroscada. Depois de certo debate mental, Pete colocou a garrafa na bolsa, junto com a lupa, a edição mais recente de Locke & Key e alguns Oreos com recheio extra.

Ele empurrou a bicicleta por um riacho lento e, bingo duplo, saiu nos fundos da área de descanso. Havia outra cerca de arame — também cortada —, e Pete entrou direto. O caminho continuava através da grama alta até os fundos do estacionamento. Onde, ele supunha, os caminhões de entrega estacionavam. Perto do prédio, ele notou retângulos escuros no chão, onde ficavam os lixões. Pete baixou o descanso da Huffy e a largou em cima de um deles.

Seu coração disparou quando ele pensou no que vinha em seguida. Arrombamento e invasão de propriedade particular, bebê. Você pode ir preso. Mas era arrombamento e invasão se ele encontrasse uma porta aberta ou uma tábua solta em uma das janelas? Ele achava que ainda era invasão, mas só a invasão era considerada crime?

Pete sabia que era, mas achou que, se não houvesse arrombamento, não seria preso. Afinal, ele não tinha ido até lá para correr um risco? Para fazer uma coisa da qual se gabar depois para Normie e George e para os outros Invasores Fodões?

Era verdade que estava com medo, mas pelo menos não estava mais entediado.

Ele tentou a porta com a placa apagada de SOMENTE FUNCIONÁRIOS e viu que ela não só estava trancada, como estava seriamente trancada, não cedia nem um centímetro. Havia duas janelas ao lado, mas ele percebeu, só de olhar, que estavam bem fechadas com tábuas. Em seguida, se lembrou da abertura na cerca de arame que parecia inteira e experimentou mexer nas tábuas. Não adiantou. De certa forma, foi um alívio. Talvez não precisasse se encrencar.

Só que… os Garotos Mais Velhos de Verdade entravam ali. Ele tinha certeza. Como faziam? Pela frente? Com visão plena da rodovia? Talvez se eles fossem à noite, mas Pete não tinha intenção de verificar isso em plena luz do dia. Não com qualquer motorista com um celular podendo ligar para a polícia para dizer: “Achei que vocês iam gostar de saber que tem um garotinho brincando na área de descanso da Milha 81. Lá onde era o Burger King, sabe?”

Prefiro quebrar o braço brincando de Paraquedistas do Inferno a ter que ligar para os meus pais da delegacia de Grey State. Na verdade, preferia quebrar os dois braços e ficar com o pinto preso no zíper da calça jeans.

Bom, talvez isso não.

Ele andou na direção da área de carga e descarga e lá, mais uma vez, bingo! Havia um monte de guimbas de cigarro pisadas próximas à plataforma de concreto, e mais algumas garrafinhas marrons ao redor do rei: um potinho verde-escuro de xarope NyQuil. A superfície da plataforma, da qual caminhões se aproximavam de ré para descarregar, ficava na altura dos olhos de Pete, mas o cimento estava se desfazendo e havia vários apoios para os pés de um garoto ágil de All Stars de cano alto. Pete ergueu os braços acima da cabeça, encontrou apoios para os dedos na superfície rachada da plataforma… e o resto, como dizem, é história.

Lá em cima, em tinta vermelha desbotada, alguém tinha pintado EDWARD LITTLE ARREBENTA, OS RED EDDIES É QUE MANDAM. Não é verdade, pensou Pete. Os Invasores Fodões é que mandam. Em seguida, ele olhou ao redor, sorriu e disse:

— Na verdade, eu que mando.

E ali, de pé na parte de trás da área de descanso, ele sentiu que mandava. Ao menos, por enquanto.

 

Pete desceu, só para ter certeza de que não teria dificuldade depois, e se lembrou das coisas na bolsa. Suprimentos para o caso de decidir passar a tarde ali explorando e tal. Ele pensou no que levar, mas decidiu soltar a bolsa da bicicleta e levar tudo. Até a lupa poderia ser útil. Uma fantasia vaga começou a se formar na mente dele: detetive mirim descobre vítima de assassinato em área de descanso deserta e soluciona o crime antes de a polícia nem sequer saber que um crime tinha sido cometido. Ele conseguia se ver explicando para os boquiabertos policiais que, na verdade, tinha sido bem fácil. Elementar, meus queridos merdinhas.

Baboseira, claro, mas seria divertido fingir.

Ele colocou a bolsa na plataforma de carga e descarga (tomando cuidado por causa da garrafa de vodca pela metade) e subiu de novo. A porta de metal corrugado que levava para dentro tinha pelo menos três metros e meio de altura e estava presa na parte debaixo não por um, mas por dois cadeados gigantes, só que também havia uma porta de tamanho normal embutida nela. Pete experimentou a maçaneta. Não girou, nem a porta menor se abriu quando ele empurrou e puxou, mas cedeu um pouco. Bastante, na verdade. Ele olhou para baixo e viu que um calço de madeira tinha sido enfiado por baixo da porta; uma precaução ridícula. Por outro lado, o que mais se poderia esperar de adolescentes chapados de cocaína e xarope para tosse?

Pete tirou o calço e, desta vez, quando puxou a porta embutida, ela se abriu com um gemido.

***

As janelas grandes da frente do que havia sido o Burger King estavam cobertas de arame, em vez de tábuas, então Pete não teve dificuldade de ver o que tinha ali dentro. Todas as mesas e todos os bancos tinham sido retirados da área do restaurante, e a parte da cozinha era só um buraco escuro com alguns fios saindo das paredes e alguns dos azulejos do teto pendurados, mas o local não estava exatamente vazio.

No centro, cercadas de cadeiras dobráveis, duas mesas velhas de carteado tinham sido colocadas juntas. Na superfície ampla havia mais de dez cinzeiros de metal imundos, várias pilhas de cartas de baralho sujas e uma caixinha cheia de fichas de pôquer. As paredes estavam decoradas com vinte ou trinta pôsteres de revista. Pete os inspecionou com grande interesse. Ele já vira xoxotas — tinha visto várias na HBO e no CinemaSpank antes de os pais se darem conta e bloquearem os canais premium da TV a cabo —, mas aquelas eram xoxotas raspadas. Pete não sabia direito o que tinham de tão impressionante (pareciam meio nojentas), mas ele achava que mudaria de ideia quando ficasse mais velho. Além do mais, os peitinhos compensavam. Peitinhos de fora eram demais.

No canto, três colchões imundos foram colocados juntos, como as mesas, mas Pete tinha idade suficiente para saber que o que se passava ali não era um jogo de pôquer.

— Me mostra sua xoxota! — ordenou ele para uma das garotas da Hustler na parede, e riu. Em seguida: — Me mostra sua xoxota raspada!

Ele riu ainda mais. Pete queria que Craig Gagnon estivesse ali, apesar de Craig ser um retardado. Eles poderiam rir juntos das xoxotas raspadas.

Começou a andar de um lado para outro, ainda dando gargalhadas animadas. Estava úmido na área de descanso, mas não chegava a estar frio. O cheiro era a pior parte, uma combinação de fumaça de cigarro e maconha, bebida velha e infiltração nas paredes. Pete achou que também estava sentindo cheiro de carne podre. Provavelmente de sanduíches comprados no Rosselli’s ou no Subway.

Na parede ao lado da bancada onde as pessoas pediam Whoppers e Whalers, Pete encontrou outro pôster. Esse era do Justin Bieber quando tinha uns dezesseis anos. Os dentes tinham sido pintados de preto, e alguém colou um adesivo de suástica nazista em uma das bochechas. Chifres de diabo vermelhos se projetavam do topete de Bieber. Havia dardos espetados na cara dele. Na parede acima do pôster, escrito com caneta permanente, estava: BOCA 15 PTS, NARIZ 25 PTS, OLHOS 30 PTS KDA.

Pete pegou os dardos e recuou pelo aposento vazio até chegar a uma marca preta no chão. Lá estava escrito LINHA BIEBER. Pete ficou atrás dela e lançou os seis dardos dez ou doze vezes. Na última tentativa, fez cento e vinte e cinco pontos. Ele achou bom. Imaginou George e Normie Therriault aplaudindo.

Ele foi até uma das janelas cobertas de arame e olhou para as ilhas vazias de concreto onde ficavam as bombas de gasolina e para o tráfego mais ao longe. Tráfego leve. Pete achava que no verão ficaria pesado de novo, com turistas e veranistas, a não ser que seu pai estivesse certo e o preço da gasolina subisse para sete dólares o galão, e todo mundo resolvesse ficar em casa.

E agora? Ele tinha jogado dardos, tinha visto xoxotas raspadas o suficiente por… bem, talvez não por toda a vida, mas por alguns meses, e não havia assassinatos para solucionar, então o que faria agora?

A vodca, decidiu ele. Experimentaria alguns goles só para provar que era capaz e para que as próximas vezes que contasse vantagem tivessem um toque vital de verdade. Depois, ele pensou em pegar suas coisas e voltar para a rua Murphy. Ele se esforçaria para fazer sua aventura parecer interessante, até emocionante, mas na verdade aquele lugar não era nada demais. Era só um lugar aonde os Garotos Mais Velhos de Verdade podiam ir para jogar pôquer, dar uns amassos e não se molhar quando chovesse.

Mas a bebida… isso era importante.

Ele levou a bolsa até os colchões e se sentou (tomando cuidado para evitar as manchas, que eram muitas). Pegou a garrafa de vodca e a estudou com certa fascinação sombria. Com dez, quase onze anos, ele não via muita graça em experimentar os prazeres adultos. No ano anterior, roubara um cigarro do avô e o fumara atrás da 7-Eleven. Até a metade, pelo menos. Depois, tinha se inclinado e vomitado o almoço entre os tênis. Ele obteve uma informação interessante, mas não muito valiosa, naquele dia: feijão e salsicha não tinham uma aparência muito boa quando entravam pela boca, mas pelo menos o gosto era bom. Quando saíam, eram horríveis visualmente, e o gosto, ainda pior.

O asco instantâneo e enfático ao cigarro American Spirit indicava que a bebida não seria melhor, talvez até pior. Mas, se ele não bebesse ao menos um gole, qualquer vantagem que contasse seria mentira. E George era um detector de mentira, pelo menos no que dizia respeito ao irmão mais novo.

Vou acabar vomitando de novo, pensou ele, e disse:

— A boa notícia é que não vou ser o primeiro a fazer isso neste buraco.

Isso o fez rir de novo. Ele ainda estava sorrindo quando desenroscou a tampa e levou o gargalo da garrafa até o nariz. Tinha um pouco de cheiro, mas não muito. Talvez fosse água e não vodca, e o cheiro fosse só um resquício. Ele levou a garrafa à boca, torcendo para ser de verdade e ao mesmo tempo torcendo para não ser. Não esperava muito, e não queria ficar bêbado e quebrar o pescoço tentando descer da plataforma de carga e descarga, mas estava curioso. Seus pais amavam aquilo.

— O último é mulher do padre — disse ele sem motivo nenhum e tomou um gole pequeno.

Não era água, aquilo era certo. Tinha gosto de óleo quente e leve. Ele engoliu no susto. A vodca desceu queimando pela garganta e explodiu no estômago.

— Deeeeus do céu! — gritou Pete.

Lágrimas surgiram nos seus olhos. Ele segurou a garrafa com o braço esticado, como se o tivesse mordido. Mas o calor no estômago já estava diminuindo, e ele se sentia bem. Nem bêbado nem com vontade de vomitar. Pete tentou dar outro gole agora que sabia o que esperar. Calor na boca… calor na garganta… e então, bum no estômago. Até que era legal.

Agora, ele sentiu um formigamento nos braços e nas mãos. Talvez na nuca também. Não a sensação de agulhas espetando de quando um membro ficava dormente, era mais como se alguma coisa estivesse despertando.

Pete levou a garrafa aos lábios pela terceira vez, mas a baixou. Havia mais coisas com que se preocupar do que a plataforma de carga e descarga e cair de bicicleta no caminho para casa (ele se perguntou brevemente se era possível ser preso por andar de bicicleta bêbado e achou que sim). Tomar alguns goles de vodca para poder contar vantagem era uma coisa, mas se ele bebesse o suficiente para ficar bêbado, a mãe e o pai descobririam quando chegassem em casa. Bastaria uma olhada. Tentar agir como sóbrio não adiantaria. Eles bebiam, os amigos bebiam, e às vezes bebiam demais. Eles reconheceriam os sinais.

Além do mais, havia a temida RESSACA a se levar em consideração. Pete e George tinham visto a mãe e o pai se arrastando pela casa com olhos vermelhos e rostos pálidos em várias manhãs de sábado ou domingo. Eles tomavam comprimidos de vitaminas, mandavam baixar o volume da TV e música era totalmente verboten. A RESSACA não parecia nada divertida.

Ainda assim, talvez mais um golinho não fizesse mal.

Pete deu um gole um pouco maior e gritou:

— Zuuum, hora de decolar!

Isso o fez rir. Ele se sentia um pouco tonto, mas a sensação até que era agradável. Ele não via graça em fumar. Em beber, via.

Ele se levantou, cambaleou um pouco, recuperou o equilíbrio e riu mais.

— Podem pular naquele campo de areia o quanto quiserem, nenéns — disse ele para o restaurante vazio. — Eu estou bêbado pra caralho, e bêbado pra caralho é muito melhor.

Aquilo foi muito engraçado, e Pete riu alto.

Eu estou mesmo bêbado? Com três goles?

Ele achava que não, mas estava alto. Já bastava. Pete já havia tomado o suficiente.

— Beba com responsabilidade — disse para o restaurante vazio e riu.

Ele ficaria ali um tempo até os efeitos passarem. Uma hora devia bastar, talvez duas. Até as três da tarde, mais ou menos. Ele não tinha relógio de pulso, mas saberia que eram três da tarde pelos sinos da igreja St. Joseph, que ficava a pouco mais de um quilômetro. Aí, iria embora, depois de esconder a vodca (para testes futuros) e de colocar o calço na porta. Sua primeira parada quando voltasse para o bairro seria a 7-Eleven, onde compraria aquele chiclete forte Teaberry para tirar o hálito de bebida. Ele tinha ouvido falar que a vodca era a bebida certa a se roubar do armário de bebidas dos pais porque não tinha cheiro, mas Pete agora era uma criança mais sábia do que uma hora antes.

— Além do mais — disse ele para o restaurante vazio em tom de sermão —, aposto que meus olhos estão vermelhos, como os do papai ficam quando ele toma mantinis demais.

Ele hesitou. O nome estava errado, mas foda-se.

Pete pegou os dardos, voltou para a Linha Bieber e os lançou. Errou Justin com todos, menos um, e esse foi o momento mais engraçado de todos para ele. Perguntou-se se Bieber faria sucesso com uma música chamada “Minha gata raspa a xoxota”, e achou isso tão engraçado que riu a ponto de ter que apoiar as mãos nos joelhos.

Quando o ataque de riso passou, ele limpou o catarro pendurado no nariz, jogou no chão (Sua pontuação de bom restaurante já era, pensou ele, foi mal, Burger King) e voltou para a Linha Bieber. Saiu-se ainda pior na segunda tentativa. Não estava com visão dupla nem nada, só não conseguia acertar Justin.

Para falar a verdade, estava um pouco enjoado, sim. Não muito, mas ficou feliz de não ter dado um quarto gole.

— Eu teria jogado a Popov fora — disse ele.

Riu e deu um arroto alto que queimou ao subir. Eca. Ele deixou os dardos no lugar e voltou para os colchões. Pensou em usar a lupa para ver se tinha alguma coisa muito pequena rastejando neles, mas concluiu que preferia não saber. Pensou em comer alguns Oreos, mas teve medo do que aquela mistura faria ao seu estômago. Estava meio sensível, na verdade.

Ele se deitou e apoiou a cabeça nas mãos. Tinha ouvido falar que, quando alguém ficava muito bêbado, tudo começava a girar. Não tinha nada assim acontecendo, então achou que só estava um pouco alto, mas não faria mal tirar um cochilo.

— Só uns minutinhos.

Sim, só uns minutinhos. Mais do que isso seria ruim. Se não estivesse em casa quando os pais chegassem e se eles não conseguissem encontrá-lo, Pete estaria encrencado. George também, provavelmente, por tê-lo deixado sozinho. A pergunta era: conseguiria acordar quando o sino da St. Joseph tocasse?

Pete percebeu naqueles últimos segundos de consciência que teria que torcer para que sim. Porque estava adormecendo.

Ele fechou os olhos.

E dormiu no restaurante deserto.

 

Do lado de fora, na pista sul da I-95, uma perua vintage de marca indeterminada surgiu. Seguia bem abaixo da velocidade mínima da via expressa. Um caminhão veloz apareceu atrás dela e mudou para a pista de ultrapassagem, apertando a buzina.

A perua, se movendo quase que apenas pela inércia, entrou na rampa de entrada da área de descanso, ignorando a placa grande que dizia FECHADA. SEM SERVIÇO. PRÓXIMO POSTO E LANCHONETE EM 43 KM. Acertou em cheio quatro dos cones laranja que bloqueavam a pista, fazendo-os saírem rolando, e parou a setenta metros da construção abandonada. A porta do lado do motorista se abriu, mas ninguém saiu de lá. Também não soou nenhum daqueles apitos alertando que a porta estava aberta. Só ficou ali, ligeiramente entreaberta.

Se Pete Simmons estivesse olhando pela janela em vez de dormindo, ele não teria conseguido ver o motorista. A perua estava suja de lama, e o para-brisa estava todo respingado. O que era estranho, porque não chovera na Nova Inglaterra havia mais de uma semana, e a rodovia estava totalmente seca.

O carro ficou a certa distância da rampa, sob um céu nublado de abril. Os cones que ele tinha derrubado finalmente pararam de rolar. A porta do motorista permaneceu aberta.

2. DOUG CLAYTON (Prius 2009)

Doug Clayton era corretor de seguros em Bangor e estava a caminho de Portland, onde tinha uma reserva no Sheraton Hotel. Ele esperava chegar lá até no máximo as duas da tarde. Isso lhe daria tempo suficiente para tirar um cochilo (um luxo que ele raramente podia ter) antes de procurar um lugar para jantar na rua Congress. No dia seguinte ele compareceria ao Portland Conference Center bem cedo, pegaria um crachá e se juntaria a quatrocentos outros corretores em um congresso chamado Incêndio, Tempestade e Inundação: Seguros para Desastres Naturais no Século XXI. Quando Doug passou pelo marcador da Milha 82, ele foi de encontro ao seu desastre pessoal, e não era nada que o congresso de Portland abordaria.

A pasta e a mala estavam no banco de trás. No banco do carona havia uma Bíblia (versão do rei Jaime; Doug não aceitava outra). Doug era um dos quatro pregadores leigos da Igreja do Sagrado Redentor, e quando era sua vez de pregar, ele gostava de chamar a Bíblia de “o manual básico de segurança”.

Doug aceitou Jesus Cristo como seu salvador depois de dez anos bebendo, em um período que foi do final da adolescência até os vinte e tantos anos. Esse exagero de uma década culminou em uma batida de carro e trinta dias na cadeia do condado de Penobscot. Ele se ajoelhou naquela cela fedida do tamanho de um caixão na primeira noite que passou lá e continuou fazendo isso em todas as noites seguintes.

— Me ajude a melhorar — orou ele na primeira vez, e todas as vezes depois. Era uma oração simples que foi respondida primeiro em dobro, depois multiplicada por dez, depois por cem. Ele achava que em mais alguns anos chegaria a mil. E a melhor parte? O céu estaria esperando por ele no fim.

A Bíblia estava bem manuseada porque Doug a lia todos os dias. Ele adorava todas as histórias, mas sua preferida, e sobre a qual mais meditava, era a parábola do bom samaritano. Ele falou sobre essa passagem do Evangelho de Lucas várias vezes, e a congregação da igreja sempre foi generosa com os elogios depois, que Deus a abençoasse.

Doug achava que era porque a história era muito pessoal para ele. Um sacerdote passou por um viajante roubado e machucado caído na beira da estrada; um levita também. Quem apareceu depois? Um samaritano mau, que odiava judeus. Mas foi ele quem ajudou, odiando ou não judeus. Ele limpou os cortes e arranhões do viajante e fez os curativos. Colocou o viajante em seu burro e alugou para ele um quarto na pensão mais próxima.

“Quem desses três você acha que foi o próximo dos homens a cair nas mãos dos assaltantes?”, perguntava Jesus ao jovem advogado bem-sucedido que lhe questionara sobre os requisitos da vida eterna.

E o advogado, que não era burro, respondia: “O que teve misericórdia”.

Se Doug Clayton tinha horror a alguma coisa, era a ser como o levita da história. Recusar-se a oferecer ajuda quando alguém precisava e passar direto do outro lado. Então, quando ele viu a perua enlameada estacionada na rampa de entrada da área de descanso deserta, com os cones laranja caídos, a porta do motorista entreaberta, só hesitou um momento antes de ligar a seta e entrar.

Ele parou atrás da perua, ligou o pisca-alerta e abriu a porta do carro. Mas então reparou que não conseguia ver a placa na parte de trás da perua… se bem que havia tanta lama que era difícil ter certeza. Doug tirou o celular do console central do Prius e verificou se estava ligado. Ser um bom samaritano era uma coisa; se aproximar de um carro velho sem placa sem nenhuma precaução era burrice.

Ele seguiu na direção da perua com o celular na mão esquerda. Não, nada de placa, estava certo quanto a isso. Tentou espiar pelo para-brisa traseiro e não conseguiu ver ninguém. Tinha lama demais. Ele se aproximou da porta do motorista e hesitou, olhando para o carro como um todo e franzindo a testa. Era um Ford ou um Chevy? Não conseguia distingui-los, e isso era estranho, porque ele já devia ter feito o seguro de milhares de peruas em toda a carreira.

Customizado?, perguntou-se ele. Bem, talvez… mas quem se daria ao trabalho de customizar uma perua até transformá-la em algo tão anônimo?

— Olá! Está tudo bem?

Ele foi até a porta enquanto apertava o celular com mais força sem nem notar. Viu-se pensando em um filme que o deixou morrendo de medo quando era menino, sobre uma casa mal-assombrada. Um grupo de adolescentes se aproximava da velha casa abandonada, e quando um deles via a porta entreaberta, sussurrava para os amigos: “Olhem, está aberta!”. Dava vontade de avisá-los para não entrarem, mas claro que eles entravam.

Isso é burrice. Se tiver alguém no carro, a pessoa pode estar ferida.

Claro que o motorista podia ter ido até o restaurante procurar um telefone público, mas se ele realmente estivesse machucado…

— Olá?

Doug esticou a mão para a maçaneta, mas pensou melhor e se inclinou para espiar pela abertura. O que viu foi consternador. O assento estava coberto de lama; o painel e o volante também. A gosma escura pingava dos botões antiquados do rádio, e no volante havia marcas que não pareciam exatamente feitas por mãos. As palmas eram grandes demais, e as marcas dos dedos, finas como lápis.

— Tem alguém aí? — Ele mudou o celular para a mão direita e segurou a porta do motorista com a esquerda, querendo abri-la bem para olhar o banco de trás. — Tem alguém feri…

Ele teve um momento para registrar um fedor horrível antes de sua mão esquerda explodir em uma dor tão absurda que pareceu se propagar por todo o corpo, espalhando fogo e enchendo todos os espaços vazios com agonia. Doug não gritou, não conseguiu. Sua garganta se fechou com o choque repentino. Ele olhou para baixo e viu que a maçaneta parecia ter empalado a palma de sua mão.

Quase não havia dedos sobrando. Ele só via os cotocos, as primeiras falanges unidas à palma. O resto tinha sido engolido pela porta, de alguma maneira. Enquanto olhava, seu terceiro dedo se quebrou. A aliança caiu e se estalou no chão.

Ele conseguia sentir alguma coisa, ah, Deus e Jesus, pareciam dentes. Estavam mastigando. O carro estava comendo sua mão.

Doug tentou soltar a mão. Sangue esguichou, parte na porta lamacenta, parte na sua calça. As gotas que espirraram na porta desapareceram imediatamente, com um breve som de sucção: slorp. Por um instante, ele quase conseguiu se soltar. Podia ver os ossos brancos dos dedos de onde a carne tinha sido sugada e teve uma visão — breve e aterradora — de comer uma asinha de frango. Coma tudo, Doug, dizia sua mãe, a carne perto do osso é a mais saborosa.

Ele foi puxado para a frente de novo. A porta do motorista se abriu para recebê-lo: Oi, Doug, estava esperando você, pode entrar. A cabeça dele bateu no teto do carro, e ele sentiu uma linha fria na testa que ficou quente quando o teto da perua cortou a pele.

Fez um último esforço para se afastar, largando o celular e empurrando uma das janelas com a mão livre. O vidro cedeu em vez de dar apoio e engoliu sua mão. Pelo canto do olho, Doug viu o que parecia vidro ondulando como a superfície de um lago na brisa. E por que estava ondulando? Porque estava mastigando. Porque estava batendo um rango.

É isso que eu ganho por ser um bom sam…

Nessa hora, o alto da porta do motorista perfurou seu crânio e deslizou suavemente até atingir o cérebro. Doug Clayton ouviu um SNAP alto e intenso, como lenha crepitando na fogueira. E a escuridão tomou conta.

O motorista de um caminhão de entregas seguindo a estrada em direção ao sul espiou e viu um carrinho verde com o pisca-alerta ligado estacionado atrás de uma perua enlameada. Um homem, que parecia pertencer ao carrinho verde, parecia estar inclinado na porta da perua, falando com o motorista. Deve ter quebrado, pensou o motorista do caminhão de entregas, e voltou a atenção para a via. Ele não era nenhum bom samaritano.

Doug Clayton foi puxado para dentro como se mãos (com palmas grandes e dedos finos como lápis) tivessem agarrado sua camisa. A perua perdeu a forma e se encolheu, como uma boca sentindo um gosto excepcionalmente amargo… ou excepcionalmente doce. De dentro veio uma série de ruídos, o som de um homem pisando em galhos secos com botas pesadas. A perua ficou encolhida por uns dez segundos, parecendo mais um punho fechado e caroçudo do que um carro. Em seguida, com o ruído de uma bola de tênis rebatida por uma raquete, voltou para a forma de perua.

O sol apareceu brevemente por entre as nuvens, refletindo no celular caído e na aliança de Doug, criando um círculo quente e breve de luz. Em seguida, voltou a se esconder em meio às nuvens.

Atrás da perua, o pisca-alerta do Prius se acendia e se apagava. Fazia um som baixo de relógio: Tique… tique… tique.

Alguns carros passaram, mas não muitos. A semana anterior e a posterior à

Pascoa eram a época mais vazia do ano nas rodovias do país, e a tarde era o segundo horário mais vazio do dia; só as horas entre meia-noite e cinco da manhã eram menos movimentadas.

Tique… tique… tique.

No restaurante abandonado, Pete Simmons ainda dormia.

 

3. JULIANNE VERNON (Dodge Ram 2005)

Julie Vernon não precisava ler a Bíblia do rei Jaime para saber como ser uma boa samaritana. Ela passou a infância na pequena cidade de Readfield, no Maine (população: 2.400 habitantes), onde ajudar os vizinhos era um estilo de vida, e estranhos também eram vizinhos. Ninguém lhe disse isso em tantas palavras; Julie aprendeu com a mãe, o pai e os irmãos mais velhos. Eles tinham pouco a dizer sobre essas coisas, mas dar o exemplo era sempre a forma mais poderosa de ensinar. Se você visse um cara caído na rua, não importava se era samaritano ou marciano. Você parava para ajudar.

Ela também nunca teve muito medo de ser assaltada, estuprada ou assassinada por alguém fingindo precisar de ajuda. No quinto ano, quando a enfermeira da escola lhe perguntara seu peso, Julie respondera com orgulho:

— Meu pai diz que devo pesar uns setenta e cinco quilos. Um pouco menos sem a pele.

Agora, aos trinta e cinco anos, ela estava quase com cento e trinta quilos e não tinha nenhuma intenção de ser a boa esposa de homem algum. Ela era gay e sentia orgulho disso. Na caçamba da picape Ram havia dois adesivos. Um dizia APOIE A IGUALDADE DE GÊNEROS. O outro, rosa-shocking, opinava que GAY É UMA PALAVRA FELIZ!

Os adesivos não estavam à vista agora porque ela estava puxando o que chamava de “trailer de pocotó”. Tinha comprado uma égua Jennet espanhola de dois anos na cidade de Clinton e agora estava voltando para Readfield, onde morava com a companheira em uma fazenda a três quilômetros da casa onde tinha crescido.

Estava pensando, como fazia com frequência, nos cinco anos viajando com o The Twinkles, o time feminino de luta livre na lama. Foram anos ruins e bons. Ruins porque o The Twinkles era considerado um tipo de entretenimento bizarro (algo com que ela concordava, de certa forma), bons porque ela conheceu várias partes do mundo. Mais do mundo americano, era verdade, mas o The Twinkles passou também três meses na Inglaterra, na França e na Alemanha, onde elas foram tratadas com tanta gentileza e deferência que até estranharam. Como moças, na verdade.

Ela ainda tinha o passaporte, que renovou no ano anterior, apesar de achar que talvez nunca voltasse a viajar para fora do país. Na maior parte do tempo, não se importava. Na maior parte do tempo, ficava feliz em administrar a fazenda com Amelia e cuidar dos inúmeros cachorros, gatos e gado que possuíam, mas às vezes sentia falta dos dias na estrada: dos casos de uma noite, das lutas sob os holofotes, da amizade bruta entre as garotas do time. Às vezes, ela até sentia falta dos gritos de estímulo da plateia.

— Segura ela pela boceta, ela é sapata, ela gosta! — gritara um caipira de merda certa noite. Foi em Tulsa, se sua memória não estivesse lhe enganando.

Ela e Melissa, a garota com quem lutava na arena de lama, tinham se entreolhado, assentido e ficado de pé de frente para a plateia do lado que viera o grito. Elas ficaram lá, só com a calcinha encharcada do biquíni, com lama pingando do cabelo e dos seios, e mostraram o dedo do meio para o caipira inconveniente ao mesmo tempo. A plateia começara a aplaudir… chegando ao ponto de ficar de pé quando Julianne e Melissa se viraram, se inclinaram, baixaram a calcinha e mostraram a bunda.

Ela cresceu sabendo que era preciso ajudar quem tinha caído e não conseguia mais se levantar. Ela também cresceu sabendo que não dava para ficar engolindo merda: nem sobre seus cavalos, nem sobre seu peso, nem sobre sua carreira, nem sobre sua orientação sexual. Quando se começava a engolir merda, isso acabava virando sua dieta.

O CD que estava ouvindo chegou ao fim, e ela estava prestes a apertar o botão de ejetar quando viu um carro à frente, estacionado em uma rampa que levava à área de descanso abandonada da Milha 81. O pisca-alerta estava ligado. Havia outro carro na frente, uma velha perua enlameada. Um Ford ou Chevrolet, era difícil identificar.

Julie não tomou uma decisão porque não havia decisão a ser tomada. Ela ligou a seta, viu que não haveria espaço para ela na rampa — não com o trailer atrás —, e entrou no acostamento o máximo que conseguiu sem enfiar as rodas na terra. A última coisa que queria era virar o trailer com o cavalo pelo qual tinha acabado de pagar mil e oitocentos dólares.

Não devia ser nada, mas não havia mal em verificar. Quem sabe? Uma mulher podia ter decidido de repente parir um bebê na rodovia interestadual, ou um cara podia ter parado para ajudar, ficado abalado e desmaiado. Julie ligou o pisca-alerta, mas não apareceria muito com o trailer atrapalhando a visão atrás.

Ela saiu, olhou para os dois carros e não viu ninguém. Talvez alguém tivesse ido buscar os motoristas, mas era mais provável que tivessem ido até o restaurante. Julie duvidava que fossem encontrar alguma coisa lá; estava fechado desde setembro. A própria Julie parou várias vezes na Milha 81 para uma casquinha do TCBY, mas atualmente parava para lanchar trinta quilômetros atrás, no Damon’s em Augusta.

Ela foi até o trailer, e a égua nova, que atendia pelo nome de DeeDee, botou o focinho pelo vão. Julie a acariciou.

— Calma, bebê, calma. Vai levar só um minuto.

Abriu a porta para poder alcançar o compartimento que ficava no lado esquerdo do trailer. DeeDee decidiu que seria uma boa hora para sair do veículo, mas Julie a impediu com um ombro volumoso, murmurando novamente:

— Calma, bebê, calma.

Ela abriu o compartimento. Lá dentro, em cima da caixa de ferramentas, havia alguns sinalizadores de estrada e dois cones rosa-shocking. Julie enfiou os dedos no topo oco dos cones (não havia necessidade de sinalizadores em uma tarde que estava lentamente começando a ficar ensolarada). Fechou e trancou o compartimento, para evitar que DeeDee enfiasse a pata lá dentro e se machucasse. Em seguida, fechou a porta do trailer. DeeDee mais uma vez enfiou a cabeça pela abertura. Julie não acreditava que um cavalo pudesse parecer ansioso, mas achava que DeeDee estava.

— Já volto — disse ela, antes de colocar os cones atrás do trailer e seguir na direção dos carros.

O Prius estava vazio e destrancado. Julie não gostou nada disso, considerando que havia uma mala e uma pasta de aparência cara no banco de trás. A porta do motorista da perua estava aberta. Julie foi naquela direção, mas parou e franziu a testa. No chão ao lado da porta aberta estavam um celular e uma coisa que só podia ser uma aliança. Havia uma rachadura no plástico do celular, como se tivesse sido derrubado. E na tela… aquilo era uma gota de sangue?

Não, devia ser só lama, a perua estava coberta de lama, mas Julie estava gostando cada vez menos daquilo. Tinha levado DeeDee para dar uma volta antes de colocá-la no trailer, e ainda estava usando a saia-calça prática de montaria na viagem para casa. Ela tirou o celular do bolso direito e pensou em ligar para a emergência.

Não, ainda não. Mas se a perua suja de lama estivesse tão vazia quanto o carrinho verde, ou se o pingo do tamanho de uma moeda pequena no celular fosse mesmo sangue, ela ligaria. E esperaria ali até que o carro da polícia aparecesse, em vez de entrar no prédio vazio. Ela era corajosa e gentil, mas não era burra.

Julie se inclinou para examinar a aliança e o celular no chão. Parte do tecido da saia-calça roçou na perua lamacenta e pareceu grudar na lataria. Julie foi puxada para a direita com força. Uma nádega volumosa bateu na lateral do veículo. A superfície cedeu e envolveu as duas camadas de roupa e a carne embaixo. A dor foi imediata e enorme. Ela gritou, largou o celular e fez força para se soltar, quase como se o carro fosse uma das antigas oponentes da luta livre na lama. A mão e o antebraço direitos desapareceram pela membrana flexível que parecia uma janela. O que apareceu do outro lado, vagamente visível pela camada de lama, não foi o braço poderoso de uma amazona forte e saudável, mas um osso magro com retalhos de carne pendurada.

A perua começou a se contrair.

Um carro passou na estrada seguindo para o sul, depois outro. Por causa do trailer, eles não viram a mulher que agora estava com metade do corpo dentro da perua deformada, como o Coelho Brer preso na boneca de piche. Eles também não ouviram os gritos. Um motorista estava ouvindo Toby Keith; o outro, Led Zeppelin. Os dois gostavam de ouvir música alta. No restaurante, Pete Simmons ouviu os berros, mas bem de longe, como um eco distante. Suas pálpebras tremeram. Mas logo eles cessaram.

Pete rolou no colchão imundo e voltou a dormir.

A coisa que parecia um carro comeu Julianne Vernon com roupas, botas e tudo mais. A única coisa que não comeu foi o celular, que estava agora ao lado do de Doug Clayton. Em seguida, voltou ao formato de perua com o mesmo som de raquete de tênis acertando a bola.

No trailer, DeeDee relinchou e bateu a pata com impaciência. Ela estava com fome.

 

4. A FAMÍLIA LUSSIER (Expedition 2011)

Rachel Lussier, de seis anos, gritou:

— Olha, mamãe! Olha, papai! É a moça do cavalo! Estão vendo o trailer? Estão?

Carla não ficou surpresa de Rachel ser a primeira a ver o trailer, apesar de estar sentada no banco de trás. Ela tinha os melhores olhos da família; ninguém chegava perto. Visão de raio-X, o pai às vezes dizia. Era uma daquelas piadas que não são bem piadas.

Johnny, Carla e o pequeno Blake, de quatro anos, usavam óculos; todo mundo dos dois lados da família usava óculos; até Bingo, o cachorro da família, devia precisar de óculos. Bingo sempre dava de cara com a porta de vidro quando queria sair. Só Rachel escapou da maldição da miopia. Na última vez em que foi ao oftalmologista, ela leu a tabela toda até a última linha. O dr. Stratton ficou impressionado.

— Ela poderia se qualificar para o treinamento de piloto de caça — comentou ele para Johnny e Carla.

Johnny disse:

— Talvez um dia ela faça isso. Rach tem mesmo um instinto assassino quando o assunto é seu irmãozinho.

Carla deu uma cotovelada nele por isso, mas era verdade. Ela tinha ouvido falar que havia menos rivalidade entre irmãos quando eles eram de sexos diferentes. Se fosse verdade, Rachel e Blake eram exceção à regra. Carla às vezes achava que as duas palavras mais comuns que ouvia atualmente eram ele/ela começou. Só o gênero do pronome variava.

Os primeiros cem quilômetros de viagem foram tranquilos, em parte porque visitar os pais de Johnny sempre deixava as crianças de bom humor e em (grande) parte porque Carla tomou o cuidado de ocupar a linha de Tordesilhas entre o assento elevatório de Rachel e a cadeirinha de Blake com brinquedos e livros de colorir. Mas, depois da parada para lanche e xixi em Augusta, a briga começou de novo. Provavelmente por causa das casquinhas. Dar açúcar para as crianças em uma viagem longa de carro era a mesma coisa que derramar gasolina em uma fogueira, Carla sabia, mas não dava para dizer não para tudo.

No desespero, Carla começou um jogo de Plástico Fantástico, servindo de juíza e dando pontos por gnomos de jardim, poços dos desejos, estátuas da Virgem Santíssima etc. O problema era que na rodovia havia muitas árvores, mas pouca coisa para se ver na beira da estrada. A filha de seis anos de olhos afiados e o filho de quatro anos de língua afiada estavam começando a renovar as brigas quando Rachel viu o trailer de cavalo parado perto da entrada da área de descanso da Milha 81.

— Quero fazer carinho no cavalo de novo! — gritou Blake.

Ele começou a se debater na cadeirinha, o menor dançarino de break do mundo. As pernas já eram compridas o suficiente para chutar as costas do banco do motorista, o que Johnny achava très irritante.

Alguém pode me lembrar de novo por que eu quis ter filhos?, pensou ele. Alguém pode me lembrar o que eu estava pensando? Sei que fez sentido na época.

— Blake, não chute o banco do papai — pediu Johnny.

— Quero fazer carinho no cavalinho! — gritou Blake. E deu um chute caprichado no encosto do motorista.

— Você é um bebezinho — comentou Rachel, protegida dos chutes do irmão do outro lado do banco. Ela falou com um tom indulgente de menina grande, o que sempre deixava Blake fulo da vida.

— EU NÃO SOU BEBEZINHO!

— Blake — começou Johnny —, se você não parar de chutar o banco do papai, papai vai ter que pegar a faca de estimação e amputar seus pezinhos nos tornoz…

— Ela quebrou — interrompeu Carla. — Está vendo os cones? Pare.

— Querida, a gente teria que ir para o acostamento. Não é uma boa ideia.

— Você não precisa fazer isso, só contorne e pare ao lado daqueles dois carros na rampa. Tem espaço e você não vai bloquear nada, porque a área de descanso está fechada.

— Se você não se incomodar, eu gostaria de voltar para Falmouth antes de esc…

— Pare agora.

Carla se ouviu usando o tom de ordem que não aceitava recusa, apesar de saber que estava dando um mau exemplo; quantas vezes ela ouviu Rachel usando exatamente o mesmo tom com Blake? Usando até o pequenininho começar a chorar?

Desligando a voz de quem exige ser obedecida e mudando para um tom mais suave, Carla completou:

— Ela foi gentil com as crianças.

 

Eles tinham estacionado em frente ao Damon’s, ao lado do carro com o trailer, e foram tomar sorvete. A moça do cavalo (ela mesma quase do tamanho do animal) estava encostada no trailer tomando uma casquinha e oferecendo alguma coisa para o lindo cavalo. Carla achou que parecia uma barra de cereal.

Johnny estava com uma criança em cada mão e tentou passar direto, mas Blake não queria saber.

— Posso fazer carinho no seu cavalo? — perguntou ele.

— São vinte e cinco centavos — disse a moça grande de saia-calça marrom de montaria, depois sorriu quando viu a expressão de decepção de Blake. — Que nada, estou só brincando. Aqui, segure isto. — Ela ofereceu a casquinha de sorvete para Blake, que ficou tão surpreso que não pôde fazer nada além de segurar. Em seguida, ela o levantou para uma altura em que ele pudesse fazer carinho no focinho do cavalo. DeeDee observou a criança de olhos arregalados, calma, farejou o sorvete derretendo da moça, concluiu que não era o que queria comer e permitiu que o focinho fosse acariciado.

Continuar: parte 2 de 2