O Bazar dos Sonhos Ruins

Stephen King · Capítulo 4 de 22

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O Bazar dos Sonhos Ruins

Premium harmony

 

Eles estão casados há dez anos, e por muito tempo isso não foi um problema, não mesmo, mas agora, eles discutem. Agora, eles discutem muito. É sempre a mesma discussão. Tem uma circularidade. Às vezes, Ray pensa que é como uma pista de corrida de cachorros. Quando discutem, são como galgos caçando o coelho mecânico. Eles passam pelo mesmo cenário repetidas vezes, mas não veem a paisagem. Só o coelho.

Ele pensa que talvez fosse diferente se tivessem tido filhos, mas ela não pode ter filhos. Eles finalmente fizeram os exames, e foi isso que o médico disse. O problema era com ela. Alguma coisa nela. Um ano ou dois depois, Ray comprou um cachorro para a esposa, um jack russell que ela batizou de Biznezz. Mary soletrava para as pessoas que perguntavam. Queria que todo mundo entendesse a piada. Ela ama aquele cachorro, mas eles discutem mesmo assim.

Eles vão ao Walmart comprar semente de grama. Decidiram vender a casa, não têm dinheiro para mantê-la, mas Mary diz que não vão longe enquanto não fizerem alguma coisa em relação ao encanamento e não deixarem o quintal bonito. Ela diz que as partes sem grama a fazem parecer uma favela irlandesa. Foi um verão quente, sem chuva nenhuma. Ray diz para ela que sementes de grama não vão crescer se não chover, por melhores que as sementes sejam. Ele diz que deviam esperar.

— Aí outro ano vai passar e ainda vamos estar aqui — diz ela. — Não podemos esperar mais um ano, Ray. Vamos à falência.

Quando ela fala, Biz olha para ela do banco de trás. Às vezes, olha para Ray quando ele fala, mas nem sempre. Na maior parte do tempo, ele olha para Mary.

— O que você acha que vai acontecer? — pergunta ele. — Vai chover só para que você não precise se preocupar em falir?

— Estamos nisso juntos, caso você tenha esquecido — diz ela.

Eles estão passando por Castle Rock agora. A cidade está morta. O que Ray chama de “a economia” desapareceu dessa parte do Maine. O Walmart fica do outro lado da cidade, perto da escola de ensino médio onde Ray é zelador. O Walmart tem o próprio sinal de trânsito. As pessoas fazem piada sobre isso.

— Não adianta economizar no que é barato e esbanjar no que é caro — diz ele. — Nunca ouviu isso?

— Já. Um milhão de vezes, dito por você.

Ele resmunga. Consegue ver o cachorro pelo retrovisor, observando-a. Às vezes, ele odeia o jeito como Biz fica encarando. Ocorre a Ray que nem ele nem o cachorro sabem por que os dois estão discutindo. É um pensamento deprimente.

— E precisamos dar uma passada no Quik-Pik — diz ela. — Quero dar uma bola de kickball de presente de aniversário para Tallie.

Tallie é a filha do irmão dela. Ray acha que isso a torna sua sobrinha, embora ele não tenha muita certeza, pois o laço de sangue é do lado de Mary.

— Tem bolas no Walmart — retruca Ray —, e tudo é mais barato lá no Mundo de Wally.

— As do Quik-Pik são roxas. Roxo é a cor favorita dela. Não tenho como ter certeza se vai ter roxa no Walmart.

— Se não tiver, paramos no Quik-Pik na volta. — Ele sente como se um peso estivesse forçando a cabeça dele para baixo. Mary vai conseguir fazer as coisas do jeito dela. Sempre consegue. O casamento é como um jogo de futebol americano, e ele está atacando contra o time da casa. Ele precisa escolher suas jogadas. Fazer passes curtos.

— Vamos estar do lado errado na volta — diz ela, como se eles estivessem presos em uma torrente de tráfego urbano em vez de rodando por uma cidadezinha quase deserta onde a maioria das lojas está à venda. — Vou dar uma corridinha para buscar a bola e sair rapidinho.

Com noventa quilos, seus dias de “corridinhas” já acabaram, querida, pensa Ray.

— Custa só noventa e nove centavos — continua ela. — Não seja tão pão-duro.

Não seja tão esbanjadora, pensa ele, mas o que responde é:

— Compre um maço de cigarros, então. Os meus acabaram.

— Se você parasse de fumar, teríamos quarenta dólares extras por semana.

Ele economiza e paga um amigo na Carolina do Sul para mandar uma dúzia de pacotes de cada vez. O preço do pacote fechado é vinte dólares mais barato na Carolina do Sul. É muito dinheiro, mesmo naquela época. Não é que ele não tente economizar. Ele já disse isso para Mary e vai dizer de novo, mas de que adianta? Entra por um ouvido e sai pelo outro. Não tem nenhum obstáculo no meio para diminuir a velocidade.

— Eu fumava dois maços por dia — diz ele. — Agora, não chego nem à metade do maço.

Na verdade, na maioria dos dias ele fuma mais. Ela sabe, e Ray sabe que ela sabe. O casamento é assim depois de um tempo. A pressão na cabeça dele aumenta um pouco. Além do mais, Ray consegue ver que Biz ainda encara Mary. Ele alimenta o maldito cachorro e ganha o dinheiro que paga a ração, mas é para ela que ele fica olhando. E jack russells em teoria são inteligentes.

Ele entra no estacionamento do Quik-Pik.

— Por que não compra os cigarros em Indian Island já que não quer parar? — pergunta ela.

— Não vendem cigarro sem impostos na reserva há dez anos — diz ele. — Já falei isso pra você. Você não me escuta.

Ele para depois das bombas de gasolina e estaciona ao lado da loja. Não tem sombra. O sol está diretamente acima do carro. O ar-condicionado não dá vazão. Os dois estão suando. No banco de trás, Biz está ofegante. Faz parecer que está sorrindo.

— Bem, você deveria parar de fumar — reclama Mary.

— E você devia parar de comer os bolinhos Little Debbie. — Ele não queria dizer isso, sabe o quanto a esposa é sensível em relação ao peso, mas acaba saindo. Ele não consegue segurar. É um mistério.

— Não como isso há um ano.

— Mary, a caixa está na prateleira do alto. Um pacote com vinte e quatro. Atrás da farinha.

— Você andou xeretando a cozinha?!

As bochechas dela estão ficando vermelhas, e ele vê como ela era quando ainda era bonita. Com boa aparência, ao menos. Todo mundo dizia que ela tinha boa aparência, até a mãe dele, que não ia muito com a cara dela.

— Eu estava procurando o abridor de garrafa — retruca Ray. — Estava com uma garrafa de refrigerante. Aquelas com a chapinha antiga.

— Você foi procurar um abridor de garrafa na prateleira do alto do maldito armário!

— Entre e compre a bola — diz ele. — E compre meus cigarros. Seja boazinha.

— Você não pode esperar até chegarmos em casa? Não consegue nem esperar esse tempo?

— Pode comprar dos baratos. Daquela marca vagabunda. Premium Harmony é o nome.

Tem gosto de bosta de vaca, mas tudo bem. Se fizer com que ela cale a boca. Está quente demais para discutir.

— Onde você vai fumar, de qualquer modo? No carro, imagino, para que eu tenha que inspirar a fumaça.

— Vou abrir a janela. Eu sempre abro.

— Vou comprar a bola. E vou voltar. Se você sentir que tem que gastar quatro dólares e cinquenta centavos para envenenar seus pulmões, você pode entrar. Eu espero aqui com o bebê.

Ray odeia quando ela chama Biz de bebê. Ele é um cachorro, e pode ser tão inteligente quanto Mary gosta de se gabar, mas ainda caga na rua e lambe o lugar onde ficavam as bolas.

— Aproveite para comprar alguns Twinkies quando estiver lá dentro — diz ele. — Ou talvez estejam com promoção de Ho Hos.

— Você é tão cruel.

Mary sai do carro e bate a porta. Ele estacionou perto demais do prédio em forma de cubo de concreto, e ela tem que andar de lado até chegar ao porta-malas, e Ray sabe que ela sabe que ele está olhando, vendo como a esposa está tão gorda que tem que passar de lado. Ele sabe que ela pensa que ele estacionou perto do prédio de propósito, para fazê-la andar de lado, e talvez tenha feito isso mesmo.

Ele quer um cigarro.

— Bem, Biz, amigão, somos só eu e você agora.

Biz se deita no banco de trás e fecha os olhos. Ele consegue ficar de pé nas patas de trás e andar por alguns segundos quando Mary coloca um disco e o manda dançar, e se ela disser (com a voz alegre) que ele é um menino mau, ele vai até um canto e se senta de cara para a parede, mas ainda caga do lado de fora.

O tempo passa, e ela não sai. Ray abre o porta-luvas. Remexe no ninho de ratos feito de papéis, procurando um cigarro que talvez tenha esquecido ali, mas não acha nenhum. Mas encontra um Hostess Sno Ball ainda na embalagem. Cutuca o bolinho. Está duro como um cadáver. Deve ter uns mil anos. Talvez mais. Talvez tenha vindo junto com a arca de Noé.

— Todo mundo tem seu vício. — Ele abre o Sno Ball e joga no banco de trás. — Quer isso, Biz? Vá em frente, pode comer.

Biz come o Sno Ball em duas mordidas. Em seguida, começa a lamber farelo sabor coco do banco. Mary teria um ataque, mas Mary não está ali.

Ray olha para o mostrador do nível de gasolina e vê que está na metade. Ele poderia desligar o motor e abrir as janelas, mas aí, assaria. Sentado ali, sob o sol, esperando que ela compre uma bola de kickball roxa de plástico por noventa e nove centavos quando ele sabe que poderiam comprar uma por setenta e nove no Walmart. Mas aí seriam amarelas ou vermelhas. Não seria boa o bastante para Tallie. Só roxa serve para a princesinha.

Ele fica sentado ali, e Mary não volta.

— Caramba! — diz ele.

O ar frio sopra em seu rosto. Ray pensa de novo em desligar o motor e economizar gasolina, mas desiste: foda-se. Ela não vai trazer os cigarros. Nem da marca barata. Disso ele tem certeza. Maldita a hora em que ele fez a piadinha sobre os Little Debbies.

Ele vê uma mulher jovem pelo retrovisor. Está correndo na direção do carro. É ainda mais gorda do que Mary; peitos grandes balançam de um lado para outro debaixo do uniforme azul. Biz a nota e começa a latir.

Ray abre a janela.

— Sua esposa é uma mulher loura? — pergunta ela, arfando. — Uma mulher loura de tênis?

O rosto da garota brilha de suor.

— É. Ela queria uma bola para a nossa sobrinha.

— Tem alguma coisa errada com ela. Ela caiu. Está inconsciente. O sr. Ghosh acha que ela pode ter tido um ataque cardíaco. Ligou para a emergência. É melhor você entrar.

Ray tranca o carro e a segue até a loja. Está frio lá dentro em comparação ao veículo. Mary está deitada no chão com as pernas abertas e os braços esticados. Está ao lado de um cilindro de arame cheio de bolas de kickball. A placa diz A SUA DIVERSÃO PARA O VERÃO. Os olhos dela estão fechados. Poderia estar dormindo no piso de linóleo. Três pessoas estão de pé ao redor dela. Uma delas é um homem de pele escura usando calça cáqui e camisa branca. O crachá no bolso da camisa diz SR. GHOSH, GERENTE. As outras duas são clientes. Um velho magro quase careca que deve ter uns setenta anos e uma mulher gorda. É mais gorda do que Mary. Mais gorda até do que a garota de uniforme azul. Ray acha que, por direito, era ela quem devia estar deitada no chão.

— O senhor é marido desta senhora? — pergunta o sr. Ghosh.

— Sou — responde Ray. Isso não parece bastar. — Sou, sim.

— Lamento dizer, mas acho que sua esposa faleceu — diz o sr. Ghosh. — Fiz massagem cardíaca e boca a boca, mas… — Ele dá de ombros.

Ray pensa no homem de pele escura colocando a boca na de Mary. Quase um beijo de língua, mais ou menos. Soprando na garganta dela ao lado do cilindro de arame cheio de bolas de plástico. Em seguida, se ajoelha.

— Mary — diz ele. — Mary! — Como se estivesse tentando acordá-la depois de uma noite insone.

Ela não parece estar respirando, mas nem sempre dá para notar essas coisas. Ele coloca o ouvido perto da boca da esposa e não ouve nada. Sente ar se movendo na pele, mas deve ser do ar-condicionado.

— Esse senhor ligou para a emergência — explica a mulher gorda. Ela está segurando um saco de salgadinho Bugles.

— Mary! — Ray exclama mais alto desta vez, mas não consegue se obrigar a gritar, não ajoelhado no chão com pessoas ao redor, uma delas um homem de pele escura. Ele levanta o olhar e diz, como que pedindo desculpas: — Ela nunca fica doente. É saudável como um cavalo.

— Nunca dá pra saber — diz o homem idoso, balançando a cabeça.

— Ela só caiu — comenta a mulher mais jovem de uniforme azul. — Não disse nada.

— Ela botou a mão no peito? — pergunta a mulher gorda segurando o saco de salgadinhos.

— Não sei — responde a mulher mais jovem. — Acho que não. Não que eu tenha visto. Ela só caiu.

Tem uma arara com camisetas de souvenir perto das bolas. Dizem coisas como MEUS PAIS FORAM TRATADOS COMO REALEZA EM CASTLE ROCK E TUDO QUE EU GANHEI FOI ESTA CAMISETA IDIOTA. O sr. Ghosh pega uma e diz:

— Quer que eu cubra o rosto dela, senhor?

— Por Deus, não! — diz Ray, assustado. — Ela pode só estar inconsciente. Não somos médicos.

Atrás do sr. Ghosh, ele vê três garotos, três adolescentes olhando pela vitrine. Um deles está tirando fotos com o celular.

O sr. Ghosh segue o olhar de Ray e corre para a porta, balançando as mãos.

— Saiam daqui! Saiam!

Rindo, os adolescentes andam para trás, depois se viram e correm pelas bombas de gasolina até a calçada. Atrás deles, o centro quase deserto cintila sob o sol forte. Um carro passa, tocando rap. Para Ray, o baixo parece os batimentos roubados de Mary.

— Onde está a ambulância? — pergunta o velho. — Por que não chegou ainda?

Ray fica ajoelhado ao lado da esposa enquanto o tempo passa. As costas doem e os joelhos também, mas, se ele se levantar, vai parecer um espectador.

A ambulância é um Chevy Suburban pintado de branco com listras laranja. As luzes vermelhas do carro estão piscando. RESGATE DO CONDADO DE CASTLE está pintado na frente, só que espelhado. Para ser possível ler no retrovisor. Ray acha isso muito inteligente.

Os dois homens que entram no mercado estão vestidos de branco. Parecem garçons. Um empurra um tanque de oxigênio em um carrinho. É um tanque verde com um adesivo da bandeira americana.

— Desculpem — diz ele. — Acabamos de atender um acidente de carro em Oxford.

O outro vê Mary deitada no chão, com as pernas abertas, os braços esticados.

— Ih, caramba… — diz ele.

Ray não consegue acreditar.

— Ela ainda está viva? — pergunta ele. — Só está inconsciente? Se estiver, é melhor vocês darem oxigênio para prevenir danos cerebrais.

O sr. Ghosh balança a cabeça. A garota de uniforme azul começa a chorar. Ray tem vontade de perguntar por que ela está chorando, mas de repente sabe. Ela inventou uma história inteira sobre ele só pelo que Ray acabou de falar. Se ele voltasse ali em uma ou duas semanas e fosse esperto, poderia até faturar uma trepada por piedade. Não que fosse fazer isso, mas vê a possibilidade. Se quisesse.

Os olhos de Mary não reagem à lanterninha. Um paramédico escuta os batimentos inexistentes, e o outro tira a pressão sanguínea inexistente. Continua assim por um tempo. Os adolescentes voltam com mais amigos. Outras pessoas também se aproximam. Ray acha que são atraídas pelas luzes vermelhas e piscantes no teto do Suburban dos paramédicos como insetos são atraídos pela luz da varanda. O sr. Ghosh corre até eles de novo, balançando os braços. Eles recuam. Em seguida, quando o sr. Ghosh volta para o círculo ao redor de Mary e Ray, voltam e começam a olhar de novo.

Um dos paramédicos se vira para Ray.

— Ela era sua esposa?

— Era.

— Bem, senhor, lamento informar, mas ela está morta.

— Ah. — Ray se levanta. Seus joelhos estalam. — Me disseram que estava, mas eu não tinha certeza.

— Maria, mãe de Deus, abençoe a alma dela — diz a moça gorda com os salgadinhos, fazendo o sinal da cruz.

O sr. Ghosh oferece a um dos paramédicos a camiseta para ser colocada sobre o rosto de Mary, mas o paramédico balança a cabeça e sai. Ele diz para a pequena multidão lá fora que não há nada a ser visto, como se alguém fosse acreditar que uma mulher morta no Quik-Pik não fosse interessante.

O paramédico tira uma maca da traseira da ambulância. Ele faz isso com um único movimento. As pernas se desdobram sozinhas. O velho meio careca segura a porta, e o paramédico empurra o leito de morte com rodinhas para dentro.

— Nossa, está quente hoje — diz o paramédico, secando a testa.

— Talvez seja melhor o senhor se virar agora — diz o outro, mas Ray os vê levantando a esposa até a maca. Um lençol foi dobrado cuidadosamente na beirada. Os paramédicos o puxam até o topo, até cobrir o rosto dela. Agora, Mary parece um cadáver em um filme. Eles a levam para fora, para o calor. Desta vez, é a mulher gorda com os salgadinhos que segura a porta aberta para eles. A multidão recuou até a calçada. Deve haver mais de trinta pessoas ali, de pé no sol impiedoso do verão.

Quando Mary é depositada na ambulância, os paramédicos voltam. Um está segurando uma prancheta. Ele faz umas vinte e cinco perguntas a Ray. Ele consegue responder a todas, menos a pergunta sobre a idade. Em seguida, lembra que ela é três anos mais nova do que ele e responde trinta e quatro.

— Vamos levá-la para o St. Stevie — diz o paramédico com a prancheta. — O senhor pode nos seguir se não souber onde é.

— Eu sei onde fica — responde Ray. — O quê? Vocês querem fazer a autópsia? Vão abrir ela?

A garota de uniforme azul sufoca um gritinho. O sr. Ghosh passa o braço ao redor dela, que pressiona o rosto na camisa branca dele. Ray se pergunta se o sr. Ghosh está trepando com ela. Torce para que não. Não por causa da pele marrom do sr. Ghosh, Ray não liga para isso, mas porque ele deve ter o dobro da idade dela. Um homem mais velho pode tirar vantagem, principalmente quando é o chefe.

— Bem, a decisão não é nossa — diz o paramédico —, mas provavelmente não. Ela não morreu sozinha…

— Não mesmo — interrompe a mulher com os salgadinhos.

— … e está claro que foi um ataque cardíaco. Deve dar para liberá-la para a funerária quase imediatamente.

Funerária? Uma hora atrás, eles estavam no carro, discutindo.

— Não tenho auxílio de funerária — diz ele. — Nem auxílio de funerária, nem túmulo, nada. Por que teria? Ela tem trinta e quatro anos.

Os paramédicos se entreolham.

— Sr. Burkett, uma pessoa vai ajudá-lo com tudo isso no St. Stevie. Não se preocupe.

— Não me preocupar? Cacete!

A ambulância sai com as luzes ainda piscando, mas a sirene desligada. A multidão na calçada começa a dispersar. A garota do balcão, o homem idoso, a mulher gorda e o sr. Ghosh olham para Ray como se ele fosse uma pessoa especial. Uma celebridade.

— Ela queria uma bola de kickball roxa para a nossa sobrinha — explica ele. — É aniversário dela. Vai fazer oito anos. O nome dela é Tallie. Foi batizada em homenagem a uma atriz.

O sr. Ghosh pega uma bola roxa de kickball do cone de arame e a entrega para Ray com as duas mãos.

— Por conta da casa.

A mulher dos salgadinhos cai no choro.

— Maria, mãe de Deus…

Eles ficam ali por um tempo, conversando. O sr. Ghosh pega refrigerantes na geladeira. Também são por conta da casa. Eles bebem os refrigerantes, e Ray conta algumas coisas sobre Mary, sem nunca mencionar as discussões. Ele conta que ela fez uma colcha que ganhou o terceiro lugar na feira do Condado de Castle. Isso foi em 2002. Ou 2003.

— Isso é tão triste — diz a mulher dos salgadinhos.

Ela abriu o saco e está compartilhando. Eles comem e bebem.

— Minha mulher morreu dormindo — conta o velho meio careca. — Se deitou no sofá e não acordou. Estávamos casados havia trinta e sete anos. Eu sempre achei que fosse morrer primeiro, mas Deus não quis. Ainda consigo vê-la deitada no sofá. — Ele balança a cabeça. — Não consegui acreditar.

Por fim, Ray fica sem histórias para contar, e eles ficam sem histórias para contar a ele. Clientes estão entrando de novo. O sr. Ghosh atende alguns, e a garota de uniforme azul atende outros. A mulher gorda diz que precisa ir embora. Dá um beijo na bochecha de Ray antes de partir.

— Precisa cuidar de si mesmo, sr. Burkett — diz ela. O tom é repreendedor e paquerador ao mesmo tempo. Ray acha que ela pode ser outra possibilidade de trepada por piedade.

Ele olha para o relógio na bancada. É do tipo com propaganda de cerveja. Quase duas horas se passaram desde que Mary se espremeu entre o carro e a parede de concreto do Quik-Pik. E, pela primeira vez, ele pensa em Biz.

 

Quando abre a porta, o calor o atinge, e quando Ray coloca a mão no volante para olhar dentro do carro, puxa de volta com um grito. Deve estar uns cinquenta graus lá dentro. Biz está morto, caído de costas. Os olhos estão leitosos. A língua pendurada pela lateral da boca. Ray consegue ver o brilho dos dentes. Há pedacinhos de coco nos bigodes. Isso não deveria ser engraçado, mas é. Não engraçado o bastante para fazê-lo rir, mas engraçado como uma palavra difícil que ele não consegue lembrar.

— Biz, velho amigo — diz ele. — Desculpe. Eu me esqueci de você.

Uma grande tristeza e um pouco de graça tomam conta dele quando Ray olha para o jack russell assado. É uma pena uma coisa tão triste ser engraçada.

— Bem, pelo menos você está com ela agora, não está? — diz ele, e esse pensamento é tão triste, mas ao mesmo tempo tão agradável, que ele começa a chorar. É uma choradeira danada. Enquanto está chorando, ocorre a Ray que agora ele vai poder fumar o quanto quiser, e em qualquer parte da casa. Vai poder fumar sentado à mesa de jantar de Mary.

— Você está com ela agora, Biz, velho amigo — repete ele por entre as lágrimas. A voz está embargada e rouca. É um alívio soar como é esperado para a situação. — Pobre Mary, pobre Biz. Que inferno isso tudo!

Ainda chorando e com a bola roxa debaixo do braço, ele volta ao Quik-Pik. Diz ao sr. Ghosh que se esqueceu de comprar cigarros. Acha que talvez o sr. Ghosh lhe dê um maço de Premium Harmony por conta da casa, mas a generosidade do homem não vai tão longe. Ray fuma durante todo o caminho até o hospital com as janelas fechadas, Biz no banco de trás e o ar-condicionado ligado no máximo.

Pensando em Raymond Carver

Às vezes, uma história chega completa, prontinha. Mas, normalmente, elas me ocorrem em duas partes: primeiro, a xícara, depois, a asa. Como a asa pode não aparecer por semanas, meses ou, em alguns casos, anos, tenho uma caixinha no fundo da mente cheia de xícaras incompletas, cada uma protegida por aquela embalagem mental única que chamamos de memória. Ir procurar uma asa não é uma opção, por mais bonita que a xícara seja; é preciso esperá-la aparecer. Sei que a metáfora é meio ruim, mas quando se está falando de escrita criativa, a maioria é. Escrevo ficção a vida toda, mas ainda compreendo bem pouco sobre como esse processo funciona. Claro que também não entendo como meu fígado funciona, mas, enquanto ele continuar fazendo seu trabalho bem, aceito isso sem problemas.

Uns seis anos atrás, vi um quase acidente em um cruzamento movimentado de Sarasota. Um caubói tentou enfiar sua picape 4x4, daquelas com pneus enormes, na pista exclusiva para virar à esquerda já ocupada por outra picape do mesmo tipo. O cara cujo espaço estava sendo invadido afundou a mão na buzina, houve o previsível som agudo de freios, e os dois monstros bebedores de gasolina acabaram a centímetros de distância um do outro. O cara na pista exclusiva abriu a janela e mostrou o dedo médio para o céu azul da Flórida em uma saudação tão americana quanto o beisebol. O sujeito que quase bateu nele respondeu à saudação, junto com uma batida no peito estilo Tarzan que presumivelmente queria dizer: vai encarar? O sinal ficou verde, os outros motoristas começaram a buzinar, e eles seguiram caminho sem partir para a briga.

O incidente me fez pensar no que poderia ter acontecido se os dois motoristas tivessem saído do veículo e caído na porrada bem ali, na Tamiami Trail. Não foi uma fantasia irracional; brigas de trânsito acontecem o tempo todo. Infelizmente, “acontecem o tempo todo” não é uma receita para uma boa história. Mas o quase acidente ficou na minha cabeça. Era uma xícara sem asa.

Um ano depois, mais ou menos, quando estava almoçando no Applebee’s com minha esposa, vi um homem de uns cinquenta anos cortando o bife de um cavalheiro idoso. Ele o fazia com cuidado, enquanto o cavalheiro idoso observava, distraído, um ponto acima da cabeça dele. Em determinado momento, o idoso pareceu voltar um pouco a si e tentou pegar os talheres, provavelmente para poder cortar a própria refeição. O homem mais jovem sorriu e balançou a cabeça. O cavalheiro idoso deixou pra lá e voltou a olhar para o nada. Decidi que eles eram pai e filho, e ali estava: a asa da minha xícara de briga de trânsito.