O Bazar dos Sonhos Ruins
A igreja de ossos
Se quiser ouvir, pague outra bebida.
(Ah, isso é uma bosta, mas não importa; o que não é?) Éramos 32 quando fomos para aquele inferno verde. Trinta dias no verde, e só três chegaram ao fim.
Três atravessaram o verde, três chegaram ao topo,
Manning e Revois e eu. E o que aquele livro diz?
O famoso? “Eu fui o único que escapou para contar.” Vou morrer de bebida na cama, como muitos filhos da puta obcecados fazem.
Se eu lamento a morte de Manning? Nada! Foi o dinheiro dele que nos botou lá, a vontade dele que nos motivou, morte por morte. Mas ele morreu na cama? Não ele! Eu cuidei disso! Agora, ele reza naquela igreja de ossos para sempre. A vida é grandiosa! (Que merda é essa? Mesmo assim, pague outra, ande. Pague duas! Eu falo em troca de uísque; se você quiser
que eu cale a boca, compre champanhe.
Falar é barato, o silêncio é precioso, meu querido. Onde eu estava?)
Vinte e nove mortos no trajeto, um deles uma mulher. Peitinhos lindos ela tinha, e uma bunda estilo sela inglesa! Nós a encontramos caída com a cara no chão certa manhã, tão morta quanto o fogo em que se deitou, uma gata feita de cinzas, defumada nas bochechas e na garganta. Nunca queimada; aquele fogo devia estar frio quando tombou. Ela falou a viagem toda e morreu sem emitir som;
o que é melhor do que ser humano? Não acha?
Não? Ora bolas, foda-se você e a sua mãe também; se ela tivesse duas, seria a porra de um rei.
Antropóloga, arr, foi o que ela disse. Não parecia
antropóloga nenhuma quando a tiramos das
cinzas com as bochechas chamuscadas e o branco dos olhos cinzentos de fuligem. Sem nenhuma outra marca fora isso. Dorrance disse que podia ter sido derrame,
e ele era o mais próximo que tínhamos de um médico, aquele filho da puta fajuto. Pelo amor de Deus, tragam uísque, pois a vida se arrasta sem um gole!
O verde foi acabando com eles dia a dia. Carson morreu com um graveto na bota. O pé inchou todo, e quando cortamos
o couro, os dedos estavam pretos
como a tinta de lula que corria no coração de Manning. Reston e Polgoy foram picados por aranhas
do tamanho da sua mão fechada; Ackerman por uma cobra que caiu de uma árvore, onde estava, feito a estola de pele de uma moça, enrolada num galho. Mordeu e injetou veneno no nariz de Ackerman. Quão forte foi a convulsão, você pergunta? Que tal isto: ele arrancou o próprio nariz! Sim! Arrancou
como se fosse um pêssego podre em um galho e morreu cuspindo a própria cara podre! Que vida maldita, eu digo, se você não pode rir dela, é melhor rir assim mesmo. É nisso que eu penso e continuo pensando até hoje; o mundo não é triste, a não ser que você seja são.
Onde eu estava mesmo?
Javier caiu de uma ponte feita de tábuas, e quando nós o puxamos, ele não conseguia respirar, então
Dorrance tentou fazer boca a boca nele
e sugou da garganta uma sanguessuga do tamanho de um tomate. Se soltou como a rolha de
uma garrafa e se abriu no meio deles; borrifou os dois com o clarete que corre nas nossas veias (pois somos todos alcoólatras assim, se é que você me
entende),
e quando o espanhol morreu delirando, Manning disse que as sanguessugas chegaram ao cérebro dele. Já eu não tenho opinião sobre isso. Só sei que os olhos de Javy não ficavam fechados, mas sim saltando e encolhendo mesmo depois de ele estar frio havia uma hora. Alguma coisa faminta ali dentro, de verdade, arr, tinha, sim! E o tempo todo as araras gritavam com os macacos, e os macacos gritavam com as araras, e ambos
gritavam para o céu azul que não conseguiam ver,
pois era bloqueado pelo maldito verde.
Isso é uísque ou diarreia no copo?
Tinha um daqueles sugadores na calça de Frenchie… Eu contei? Você já sabe o que esse comeu, não é?
O próprio Dorrance foi o seguinte; nós estávamos escalando àquela altura, mas ainda na selva. Ele caiu em um precipício e conseguimos ouvir o estalo. Quebrou o pescoço, vinte e seis anos de idade, noivo prestes a casar, caso encerrado. Arr, a vida não é incrível? A vida é uma sanguessuga na garganta; a vida é o precipício onde todos caímos; é uma sopa, e nós somos os legumes. Não estou filosófico?
Deixa pra lá. É tarde demais para contar os mortos, e eu estou bêbado demais. No final, chegamos lá.
Só digo isso.
Escalamos até o alto para sair daquele
verde escaldante depois que enterramos Rostoy, Timmons, o texano — esqueci o nome dele —, Dorrance
e mais dois outros. No final, a maioria se foi
devido a uma febre que fervia a pele e a deixava verde. No final, só ficamos Manning e Revois e eu.
Nós também pegamos a febre, mas a matamos antes de ela nos matar. Só que eu nunca fiquei bom. Agora, o uísque é
meu quinino, o que tomo para os tremores, então compre outro antes que eu esqueça os bons modos
e corte a porra da sua garganta. Posso até
beber o que sair dela, então seja sábio, filho,
e vá logo buscar mais, caramba.
Teve uma estrada aonde chegamos, até Manning concordou, e era larga o bastante para elefantes se os caçadores de marfim não tivessem devastado as selvas e planícies de cima a baixo na época em que a gasolina ainda custava cinco centavos. Ela subia, a estrada, e nós subimos com ela em plataformas inclinadas de pedra um milhão de anos arrancadas da Mãe Terra, pulando de uma para outra como sapos no sol, Revois ainda ardendo de febre, e eu — ah, eu me sentia tão leve! Como gaze branca ao vento, sabe?
Eu vi tudo. Minha mente estava clara feito água limpa, pois eu era tão jovem na época quanto sou horrendo agora — sim, eu vejo como você me olha, mas não precisa franzir a testa, pois é seu próprio futuro que você vê deste lado da mesa. Nós subimos acima dos pássaros e ali estava o fim, uma língua de pedra esticada para o céu.
Manning saiu correndo, e nós fomos atrás, Revois trotando meio hesitante, doente como estava.
(Mas não ficou doente por muito tempo — ahá!)
Nós olhamos para baixo e vimos o que vimos.
Manning primeiro ficou vermelho com o que viu, e por que não? Pois ganância também é uma febre.
Ele me segurou pelo trapo que antes foi minha camisa e perguntou se estava sonhando. Quando falei que estava vendo o que ele estava vendo, ele se virou para Revois.
Mas antes que Revois pudesse dizer sim ou não, nós ouvimos um trovão vindo do telhado verde que deixamos para trás,
como uma tempestade virada de cabeça para baixo. Ou como se toda a terra tivesse pegado a febre que nos perseguia e estivesse doente nas entranhas. Perguntei a Manning o que ele ouviu, e Manning não respondeu. Estava hipnotizado por aquela fenda, olhando para trezentos metros de ar antigo na igreja abaixo: um milhão de anos de ossos e presas, um sepulcro branco de eternidade, um lixão de garras como você veria se o inferno secasse até só sobrarem os restos no fundo do caldeirão.
Qualquer um esperaria ver corpos empalados nos
chifres antigos daquela tumba ensolarada. Não havia nenhum, mas o trovão vinha rolando do chão
em vez de vir do céu. As pedras tremeram
sob nossos pés quando eles saíram do verde que levou tantos de nós — Rostoy com a gaita, Dorrance que cantava junto, a antropóloga
com a bunda de sela inglesa, e vinte e seis outros.
Eles chegaram, aqueles fantasmas esqueléticos, e sacudiram as folhas dos pés, e vieram em uma onda trêmula: elefantes
desembestados do berço verde do tempo.
Maiores que eles (acredite se quiser)
havia mamutes da era morta, quando o homem
não existia, com as presas em rolhas e os olhos
vermelhos como os chicotes das lamentações;
envoltas nas pernas enrugadas estavam trepadeiras da selva. Um apareceu — sim! — com uma flor presa
em uma dobra no peito como um broche!
Revois gritou e tampou os olhos.
Manning disse: “Isso não está acontecendo.” (Ele falou como se estivesse se explicando pra porra de um policial de trânsito.) Eu os puxei para o lado, e nós três cambaleamos
por uma boceta de pedra perto da beirada. De lá,
nós os vimos passar: uma maré na cara da realidade que fazia você desejar a cegueira e agradecer pela visão. Eles passaram por nós sem nunca diminuir a velocidade, os de trás empurrando os da frente,
e assim eles foram, em direção ao suicídio,
caindo nos ossos do esquecimento mais de um quilômetro abaixo. Horas se passaram, aquela convenção infinita de morte despencada; trompetes o caminho todo, toda uma orquestra de metais, diminuindo aos poucos. A poeira e o cheiro da merda deles quase nos sufocaram, e no final Revois ficou maluco. Levantou-se, se para fugir ou se juntar a eles
eu nunca soube, mas se juntou a eles,
de cabeça, com as botas viradas para o céu e
todas as cabeças de prego cintilando.
Um braço acenou. O outro… um daqueles pés chatos gigantescos arrancou aquele braço, e o braço seguiu atrás, dedos acenando: “Tchau!” e “Tchau!” e “Adeus, rapazes!”
Har!
Eu me inclinei para vê-lo ir, e foi inesquecível
ele se pulverizando em giros que perduraram no ar quando se foi, depois ficou rosa e saiu flutuando em uma brisa com cheiro de cravos podres.
Os ossos dele estão com os outros agora, e onde está minha bebida? Mas — preste atenção, idiota! — os únicos ossos novos eram os dele. Entendeu o que eu falei? Então ouça, caramba:
Dele, mas não dos outros.
Não havia nada lá depois que os últimos gigantes passaram, exceto pela igreja de ossos, que continuou como estava, agora com uma mancha vermelha, que era Revois.
Pois aquilo foi uma debandada de fantasmas ou lembranças, e quem pode dizer que não é a mesma coisa? Manning se levantou e, tremendo, disse que tínhamos feito fortuna (como se ele já não tivesse uma). “E o que a gente acabou de ver?”, eu perguntei.
“Você traria outros para um lugar tão sagrado?
Quer dizer, quando você perceber, o próprio papa vai estar mijando sua água benta lá embaixo!” Mas Manning só balançou a cabeça e sorriu e levantou as mãos
sem nada de poeira — embora nem um minuto
tivesse se passado desde que estávamos sufocando
e cobertos da cabeça aos pés por poeira.
Ele disse que foi uma alucinação
que vimos, provocada pela febre e pela água suja.
Disse de novo que nossas fortunas estavam garantidas e riu. O filho da mãe, aquela gargalhada foi o fim dele.
Eu vi que ele estava louco — ou eu estava — e que um de nós teria que morrer. Você sabe qual dos dois foi,
porque estou sentado aqui na sua frente, bêbado e com cabelo que antes era preto caindo nos olhos.
Ele disse: “Você não vê, seu tolo…”.
E não disse mais nada, pois o resto foi só um grito. Foda-se ele!
E foda-se você e sua cara sorridente!
Não lembro como voltei; é um
sonho verde com caras marrons no meio,
depois um sonho azul com caras brancas no meio, e agora eu acordo à noite nesta cidade,
onde nenhum homem em dez sonha com o que
a vida lhes reserva — pois os olhos que eles usam para sonhar estão fechados, como os de Manning estavam, até o fim, quando nem todas as contas bancárias no inferno ou na Suíça (talvez sejam as mesmas) poderiam salvá-lo. Eu acordo com o fígado gritando, e no escuro
ouço o trovão daqueles fantasmas enormes surgindo do verde como uma tempestade deflagrada para atormentar a terra, e sinto o cheiro de poeira e merda, e quando a manada cai no vazio do seu fim, eu vejo
o balanço antigo das orelhas e as curvas das
presas; vejo os olhos e os olhos e os olhos.
A vida é muito mais do que isso; tem mapas dentro dos seus mapas. Ainda está lá, a igreja de ossos, e eu gostaria
de voltar e encontrá-la de novo, para poder me jogar lá e acabar com essa comédia ridícula. Agora vire
essa cara de cordeiro antes que eu vire para você.
Arr, a realidade é um lugar sujo sem religião nenhuma. Então me pague outra bebida, caramba!
Vamos brindar a elefantes que nunca existiram.
Para Jimmy Smith
A moralidade é um conceito elusivo. Se eu não sabia disso quando era garoto, descobri na faculdade. Estudei na Universidade do Maine com uma estrutura financeira improvisada de pequenas bolsas de estudo, empréstimos do governo e empregos de verão. Durante o ano letivo, eu lavava pratos no refeitório. O dinheiro nunca durava muito. Minha mãe, solteira, que trabalhava em uma instituição mental chamada Pineland Training Center como zeladora-chefe, me mandava doze dólares por semana, o que ajudava um pouco. Depois que mamãe morreu, descobri por uma de suas irmãs que ela conseguia me mandar esse dinheiro abrindo mão da ida mensal ao salão de beleza e economizando nas compras. Ela também ficava sem almoçar todas as terças e quintas.
Quando me mudei para fora do campus e para longe do refeitório, eu às vezes incrementava minha dieta furtando bifes ou pacotes de hambúrguer no supermercado local. Tinha que ser nas sextas-feiras, quando a loja estava movimentada. Uma vez, tentei furtar um frango, mas era grande demais para caber embaixo do casaco.
Um boato de que eu escrevia trabalhos acadêmicos para alunos que estivessem enrolados se espalhou. Eu tinha uma lista de preços para esse serviço. Se o aluno tirasse A, cobrava vinte dólares. Eu recebia dez dólares por um B. Nota C era um empate, então não havia movimentação de dinheiro. Se a nota fosse D ou F, eu garantia ao meu cliente que pagaria vinte dólares a ele. Eu cuidava para nunca precisar pagar, pois não tinha dinheiro. E eu era malandro. (Fico constrangido de dizer isso, mas é a verdade.) Eu não aceitava um projeto se o estudante em apuros não pudesse me mostrar pelo menos um trabalho que tivesse escrito, para poder copiar o estilo. Não precisei fazer muito isso, graças a Deus, mas, quando precisava, quando estava duro e não conseguia viver sem um hambúrguer com batata frita do Bear’s Den em Memorial Union, eu fazia.
Quando estava no terceiro ano, descobri que tinha um tipo sanguíneo relativamente raro, A-, o mesmo de aproximadamente seis por cento da população. Havia uma clínica em Bangor que pagava vinte e cinco dólares por meio litro de A-. Achei um ótimo negócio. A cada dois meses, mais ou menos, eu dirigia meu calhambeque pela Route 2 de Orono (ou pedia carona quando estava sem grana, uma ocorrência frequente) e enrolava a manga da camisa. Havia bem menos papelada naqueles anos pré-aids, e quando seu meio litro estava no saco, você podia escolher um copo de suco de laranja ou uma dose de uísque. Sendo um alcoólatra em treinamento desde aquela época, eu sempre escolhia o uísque.
Um dia, voltando para a faculdade depois de vender meu sangue, me ocorreu que, se prostituição é se vender por dinheiro, então eu era um prostituto. Escrever ensaios de inglês e trabalhos de fim de período de sociologia também era uma forma de prostituição. Eu fui criado como metodista tradicional, tinha uma noção precisa de certo e errado, mas a verdade estava clara: eu tinha me tornado um prostituto, só que vendia meu sangue e meu talento para a escrita em vez da bunda.
Essa percepção gerou questões de moralidade que ainda me incomodam atualmente. É um conceito bem elástico, não é? Peculiarmente deformável. Mas, quando se estica demais uma coisa, ela rasga. Hoje em dia, doo sangue em vez de vender, mas pensei na época e ainda me parece verdade agora: sob as circunstâncias certas, uma pessoa pode vender qualquer coisa.
E viver com a culpa.