O Bazar dos Sonhos Ruins
Uma morte
Jim Trusdale tinha um barraco no lado oeste do rancho deteriorado do pai, e era lá que estava quando o xerife Barclay e meia dúzia de cidadãos com status de policial o encontraram, sentado em uma cadeira junto ao fogão frio, usando uma jaqueta de sarja poeirenta e lendo um exemplar antigo do Black Hills Pioneer à luz do lampião. Ou olhando para o jornal, pelo menos.
O xerife Barclay parou à porta, bloqueando a passagem. Estava segurando o próprio lampião.
— Venha aqui fora, Jim, e saia com as mãos para o alto. Não saquei minha arma nem quero ter que fazer isso.
Trusdale saiu. Ele ainda estava com o jornal em uma das mãos erguidas. Ficou ali, olhando para o xerife com os olhos cinzentos sem vida. O xerife o encarou de volta. Os outros também, quatro em cavalos e dois em uma velha charrete com FUNERÁRIA HINES escrito na lateral com letras amarelas meio apagadas.
— Você não perguntou por que estamos aqui — disse o xerife Barclay.
— Por que você está aqui, xerife?
— Onde está seu chapéu, Jim?
Trusdale colocou a mão que não estava segurando o jornal na cabeça, como se procurando o chapéu — um chapéu de caubói marrom —, que não estava ali.
— Está na sua casa? — perguntou o xerife. Uma brisa fria soprou, balançando a crina dos cavalos e achatando a grama em uma onda que ia para o sul.
— Não — respondeu Trusdale. — Acho que não.
— Então onde está?
— Eu posso ter perdido.
— Você precisa subir na charrete — disse o xerife.
— Não quero andar em uma charrete funerária — retrucou Trusdale. — Dá azar.
— Você está coberto de azar — disse um dos homens. — Está pintado em você todo. Entre.
Trusdale foi até a traseira da charrete e subiu. A brisa soprou mais forte, e ele levantou a gola do casaco.
Os dois homens no banco da charrete desceram e pararam dos dois lados. Um sacou a arma, o outro, não. Trusdale conhecia o rosto deles, mas não sabia os nomes. Eram homens da cidade. O xerife e os outros quatro entraram no barraco. Um deles era Hines, o coveiro. Eles ficaram um tempo lá dentro. Até abriram o fogão, que estava apagado apesar da noite fria, e remexeram nas cinzas. Depois de um tempo, saíram.
— Nada de chapéu — disse o xerife Barclay —, e nós teríamos visto. É um chapéu enorme. Tem alguma coisa a dizer sobre isso?
— É uma pena ter perdido. Meu pai me deu de presente quando ainda era bom da cabeça.
— Onde está, então?
— Já falei, devo ter perdido. Ou alguém roubou. É, talvez tenha sido isso. Eu ia dormir daqui a pouco.
— Esqueça essa história de ir dormir. Você foi à cidade esta tarde, não foi?
— Claro que foi — disse um dos homens, montando novamente no cavalo. — Eu mesmo vi. E estava usando o chapéu.
— Cale a boca, Dave — interrompeu o xerife Barclay. — Você esteve na cidade, Jim?
— Sim, senhor, estive — respondeu Trusdale.
— No Chuck-a-Luck?
— Sim, senhor. Fui caminhando até lá, tomei duas bebidas e voltei andando para casa. Deve ter sido no Chuck-a-Luck que perdi meu chapéu.
— Essa é a sua história?
Trusdale olhou para o céu negro de novembro.
— É a única história que eu tenho para contar.
— Olhe para mim, filho.
Trusdale olhou para ele.
— Essa é a sua história?
— Já falei, é a única que eu tenho — disse Trusdale, encarando o xerife.
Barclay suspirou.
— Tudo bem, vamos para a cidade.
— Por quê?
— Porque você está preso.
— Não tem um pingo de cérebro na porra da cabeça — disse um dos homens. — Faz o papai dele parecer inteligente.
Eles voltaram para a cidade. Ficava a pouco mais de seis quilômetros de distância. Trusdale seguiu viagem na parte de trás da carroça funerária com a gola do casaco levantada. Sem se virar, o homem segurando as rédeas perguntou:
— Você a estuprou além de roubar o dinheiro, seu cachorro?
— Não sei do que você está falando — respondeu Trusdale.
O resto do trajeto se passou em silêncio, exceto pelo vento. Na cidade, as pessoas estavam nas ruas. No começo, ficaram em silêncio. Depois, uma velha de xale marrom mancou o mais rápido que conseguiu até a charrete funerária e cuspiu em Trusdale. Ela errou, mas recebeu uma onda de aplausos.
Na cadeia, o xerife Barclay ajudou Trusdale a descer da charrete. O vento estava forte agora, e com cheiro de neve. Bolas de feno rolavam pela rua principal na direção da caixa d’água, onde se empilhavam contra a cerca de madeira e ficavam batendo nela.
— Enforquem o assassino de bebês! — gritou um homem, e alguém jogou uma pedra. Passou entre a cabeça e o ombro direito de Trusdale e estalou no chão de tábuas.
O xerife Barclay se virou, levantou o lampião e observou a multidão que se reunira em frente ao prédio.
— Não façam isso — disse ele. — Não ajam como tolos. A situação está sob controle.
O xerife levou Trusdale através de sua sala, segurando-o pelo braço, até a cadeia. Havia duas celas. Barclay colocou Trusdale na da esquerda. Havia uma cama, um banquinho e um balde para urinar e defecar. Trusdale fez que ia se sentar no banco, mas Barclay disse:
— Não. Fique de pé.
O xerife olhou ao redor e viu o grupo que ajudou na prisão se amontoando na porta.
— Todos vocês, vão embora — ordenou ele.
— Otis — disse o que se chamava Dave —, e se ele atacar você?
— Aí vou dominá-lo. Agradeço por fazerem seu dever, mas agora vocês precisam ir embora.
Quando todos saíram, ele disse:
— Tire o casaco e entregue para mim.
Trusdale tirou o casaco e começou a tremer. Por baixo, usava uma camiseta e uma calça de veludo cotelê tão gasta que as riscas já tinham quase sumido e havia um buraco no joelho. O xerife Barclay revirou os bolsos do casaco e encontrou um pouco de tabaco enrolado em uma página do catálogo da J. W. Sears e um bilhete de loteria antigo prometendo pagamento em pesos. Tinha também uma bola de gude preta.
— É minha bola de gude da sorte — disse Trusdale. — Eu tenho desde que era garoto.
— Revire os bolsos da calça.
Trusdale revirou os bolsos. Ele tinha uma moeda de um centavo e três moedas de cinco, e um recorte de jornal dobrado sobre a corrida da prata de Nevada que parecia tão velho quanto o bilhete de loteria mexicano.
— Tire as botas.
Trusdale tirou as botas. Barclay as pegou e tateou dentro. Tinha um buraco na sola do tamanho de uma moeda de dez centavos.
— Agora, as meias.
Barclay as virou ao contrário e jogou de lado.
— Abaixe a calça.
— Não quero.
— Assim como eu não quero ver o que tem aí embaixo, mas abaixe mesmo assim.
Trusdale abaixou a calça. Não usava cueca.
— Vire-se e abra a bunda.
Trusdale se virou, segurou as nádegas e as afastou. O xerife Barclay fez uma careta, suspirou e enfiou o dedo no ânus de Trusdale. Trusdale grunhiu. Barclay tirou o dedo, fazendo outra careta com o estalo suave, e o limpou na camiseta de Trusdale.
— Onde está, Jim?
— Meu chapéu?
— Você acha que enfiei o dedo no seu cu procurando um chapéu? Ou nas cinzas do seu fogão? Você está bancando o espertinho?
Trusdale vestiu a calça e a abotoou. Em seguida, ficou tremendo, descalço. Pouco tempo antes, ele estava em casa, lendo o jornal e pensando em acender o fogão, mas agora isso parecia ter acontecido muito tempo antes.
— Seu chapéu está na minha sala.
— Então por que você perguntou onde estava?
— Para ver o que você ia dizer. A questão do chapéu está resolvida. O que quero saber mesmo é onde você botou o dólar de prata da garota. Não está na sua casa, nem nos seus bolsos, nem no seu cu. Você se sentiu culpado e jogou fora?
— Não sei de dólar de prata nenhum. Você pode devolver meu chapéu?
— Não. É uma prova. Jim Trusdale, você está sendo preso pelo assassinato de Rebecca Cline. Quer dizer alguma coisa em sua defesa?
— Sim, senhor. Eu não conheço nenhuma Rebecca Cline.
O xerife saiu da cela, fechou a porta, pegou uma chave na parede e a trancou. As trancas chiaram quando foram giradas. A cela costumava abrigar bêbados e raramente era trancada. Ele olhou para Trusdale e disse:
— Tenho pena de você, Jim. O inferno não é quente o bastante para um homem capaz de fazer uma coisa daquelas.
— O quê?
O xerife saiu andando sem responder.
Trusdale ficou na cela durante uma semana, comendo a gororoba do Melhor da Mamãe, dormindo no catre, cagando e mijando no balde, que era esvaziado a cada dois dias. O pai não foi vê-lo porque ficou ruim da cabeça quando fez oitenta anos, e agora, aos noventa, era cuidado por duas índias velhas, uma sioux e a outra dacota. Às vezes, eles ficavam na varanda da casa vazia e cantavam hinos em harmonia. Seu irmão estava em Nevada, atrás de prata.
Às vezes, crianças ficavam no beco em frente à cela, cantarolando Carrasco, carrasco, venha logo. Às vezes, homens iam até lá e ameaçavam cortar suas partes íntimas. Certa vez, a mãe de Rebecca Cline foi até o beco e disse que ela mesma o enforcaria se pudesse.
— Como pôde matar o meu bebê? — perguntou ela pela janela gradeada. — Ela só tinha dez anos, e era seu aniversário.
— Senhora — disse Trusdale, de pé no catre para poder olhar para o rosto branco virado para cima —, eu não matei seu bebê nem o de ninguém.
— Mentiroso imundo — disse ela antes de ir embora.
Quase toda a cidade foi ao enterro da criança. Os índios foram. Até as duas prostitutas que faziam ponto no Chuck-a-Luck foram. Trusdale ouviu a cantoria enquanto estava agachado no balde no canto da cela.
O xerife Barclay telegrafou uma mensagem para Fort Pierre, e o juiz itinerante acabou indo até lá. Ele era novo no serviço e jovem para o trabalho, um dândi com cabelo louro comprido caído nas costas como Wild Bill Hickok. Seu nome era Roger Mizell. Ele usava óculos pequenos e redondos, e tanto no Chuck-a-Luck quanto no Melhor da Mamãe se mostrou um homem com olho aguçado para as moças, apesar de usar aliança.
Não havia advogado na cidade para atuar na defesa de Trusdale, então Mizell chamou George Andrews, dono da venda, da estalagem e do Hotel Bom Descanso. Andrews fizera dois anos de faculdade de administração em Omaha. Ele disse que seria o advogado de defesa de Trusdale só se o sr. e a sra. Cline concordassem.
— Então vá perguntar a eles — disse Mizell. Ele estava na barbearia, inclinado na cadeira, fazendo a barba. — Não espere a grama crescer debaixo dos seus pés.
— Bem — disse o sr. Cline depois que Andrews falou por que tinha ido lá. — Tenho uma pergunta. Se ele não tiver quem o represente, ainda vão poder enforcá-lo?
— Não é assim que a justiça americana funciona — disse George Andrews. — E, apesar de ainda não fazermos parte dos Estados Unidos, vamos fazer em pouco tempo.
— Ele vai conseguir escapar dessa? — perguntou a sra. Cline.
— Não, senhora — disse Andrews. — Não vejo como.
— Então faça seu trabalho e que Deus o abençoe — disse a sra. Cline.
O julgamento durou uma manhã e metade de uma tarde de novembro. Aconteceu na prefeitura, e naquele dia caíram flocos de neve tão finos quanto renda. Nuvens cinzentas rolavam na direção da cidade e ameaçavam virar uma tempestade. Roger Mizell, que tinha se familiarizado com o caso, serviu de promotor de acusação além de juiz.
— É como um banqueiro pegando um empréstimo e depois pagando juros para si mesmo — disse um dos jurados durante o intervalo para o almoço no Melhor da Mamãe, e apesar de ninguém discordar dele, ninguém sugeriu que aquela era uma ideia ruim. De certa forma, era até econômico.
O promotor Mizell chamou seis testemunhas, e o juiz Mizell nunca protestou contra sua linha de interrogatório. O sr. Cline testemunhou primeiro, e o xerife Barclay, por último. A história que surgiu foi bem simples. Ao meio-dia, no dia do assassinato de Rebecca Cline, houve uma festa de aniversário com bolo e sorvete. Várias amigas de Rebecca foram. Por volta das duas horas, enquanto as garotinhas estavam brincando de prender o rabo no burro e de dança das cadeiras, Jim Trusdale entrou no Chuck-a-Luck e pediu uma dose de uísque. Ele estava usando o chapéu. Demorou a tomar a dose e, quando acabou, pediu outra.
Em algum momento ele tirou o chapéu? Pendurou em um dos ganchos perto da porta, talvez? Ninguém conseguia lembrar.
— Só que eu não me lembro de tê-lo visto sem o chapéu — disse Dale Gerard, o barman. — Ele e aquele chapéu eram inseparáveis. Se o tirou, deve ter colocado ao seu lado no balcão. Ele tomou sua segunda dose e foi embora.
— O chapéu estava no balcão quando ele saiu? — perguntou Mizell.
— Não, senhor.
— Estava em um dos ganchos quando você fechou o bar à noite?
— Não, senhor.
Por volta das três da tarde naquele dia, Rebecca Cline saiu de casa no lado sul da cidade para ir ao boticário na rua principal. A mãe disse que ela podia comprar algumas balas com o dólar de aniversário, mas não comer, porque já tinha comido doces demais por um dia. Quando deu cinco da tarde e ela ainda não tinha voltado para casa, o sr. Cline e outros homens foram procurá-la. Eles a encontraram na travessa Barker, entre o armazém de carruagens e o hotel Bom Descanso. Ela foi estrangulada. O dólar de prata tinha desaparecido. Só quando o sofrido pai a tomou nos braços que os homens viram o chapéu de couro de aba larga de Trusdale. Estava escondido sob a saia do vestido de festa da menina.
Durante o intervalo de almoço do juiz, ouviram-se marteladas vindas de trás do armazém de carruagens, a menos de noventa passos da cena do crime. Era a forca sendo construída. O trabalho foi supervisionado pelo melhor carpinteiro da cidade, que, de forma bem apropriada, se chamava sr. John House. Estava nevando forte, e a estrada até Fort Pierre estaria intransponível, talvez por uma semana, talvez por todo o inverno. Não valia a pena jogar Trusdale na prisão local até a primavera. Não havia economia nisso.
— Não há nenhum mistério na construção de uma forca — disse House para quem foi olhar. — Uma criança seria capaz de construir uma.
Ele explicou como uma viga operada por uma alavanca passaria por baixo de um alçapão e que tudo estaria lubrificado para que não houvesse atrasos de último minuto.
— Se você tem que fazer uma coisa assim, tem que fazer direito na primeira vez — concluiu House.
De tarde, George Andrews colocou Trusdale para depor. Isso gerou alguns cochichos entre os espectadores, que o juiz Mizell silenciou com uso do martelo, prometendo esvaziar o tribunal se as pessoas não se comportassem.
— Você entrou no Chuck-a-Luck Saloon no dia em questão? — perguntou Andrews quando a ordem foi restabelecida.
— Acho que sim — disse Trusdale. — Senão eu não estaria aqui.
Houve algumas gargalhadas por causa disso, que Mizell também sufocou com pancadas do martelo, apesar de estar sorrindo e de não fazer nenhuma outra reprimenda.
— Você pediu duas bebidas?
— Sim, senhor, pedi. Eu só tinha dinheiro para duas.
— Mas conseguiu logo outro dólar, não foi, seu cachorro? — gritou Abel Hines.
Mizell apontou o martelo primeiro para Hines, depois para o xerife Barclay, sentado na primeira fileira.
— Xerife, acompanhe aquele homem para fora e o acuse de conduta desrespeitosa, por favor.
Barclay levou Hines para fora, mas não o acusou de conduta desrespeitosa. Só perguntou o que deu nele.
— Desculpe, Otis — disse Hines. — É que fiquei olhando para ele sentado lá, com aquela cara de pau.
— Vá até o fim da rua e veja se John House precisa de ajuda — disse Barclay. — Só volte quando essa confusão acabar.
— Ele tem toda a ajuda de que precisa, e está nevando muito agora.
— Você não vai sair voando. Vá logo.
Enquanto isso, Trusdale continuou a depor. Não, ele não saiu do Chuck-a-Luck com o chapéu, mas só percebeu quando chegou em casa. Àquela altura, estava cansado demais para andar de volta o caminho todo até a cidade só para procurá-lo. Além do mais, estava escuro.
Mizell interrompeu.
— Você está pedindo para esta corte acreditar que você andou seis quilômetros e meio sem perceber que não estava com o maldito chapéu?
— Acho que, como eu uso o tempo todo, achei que devia estar ali — disse Trusdale.
Isso gerou mais gargalhadas.
Barclay entrou novamente e tomou seu lugar ao lado de Dave Fisher.
— Do que estão rindo?
— O imbecil não precisa de carrasco — respondeu Fisher. — Está amarrando o nó sozinho. Acho que não devia ser engraçado, mas é cômico mesmo assim.
— Você encontrou Rebecca Cline na travessa? — perguntou George Andrew em voz alta. Com todos os olhos nele, descobriu um gosto desconhecido até o momento para o drama. — Você a encontrou e roubou o dólar de aniversário dela?
— Não, senhor — disse Trusdale.
— Você a matou?
— Não, senhor. Eu nem sabia quem ela era.
O sr. Cline se levantou da cadeira e gritou:
— Seu filho da puta mentiroso!
— Eu não estou mentindo — disse Trusdale, e foi nessa hora que o xerife Barclay acreditou nele.
— Não tenho mais perguntas — disse George Andrews, e voltou para sua cadeira.
Trusdale começou a se levantar, mas Mizell disse para ele ficar sentado e responder mais algumas perguntas.
— Você continua a afirmar que alguém roubou seu chapéu quando você estava bebendo no Chuck-a-Luck, colocou o chapéu na cabeça e entrou na travessa, matou Rebecca Cline e o deixou lá para incriminar você?
Trusdale ficou em silêncio.
— Responda à pergunta, sr. Trusdale.
— Senhor, não sei o que quer dizer incriminar.
— Você espera que nós acreditemos que alguém criou uma armadilha para você ser culpado desse assassinato hediondo?
Trusdale pensou enquanto retorcia as mãos. Finalmente, falou:
— Pode ser que alguém tenha pegado por engano e depois jogou fora.
Mizell olhou para a plateia absorta.
— Alguém aqui pegou o chapéu do sr. Trusdale por engano?
O silêncio imperou, exceto pelo vento. Estava aumentando. A neve não era mais feita de flocos. A primeira grande tempestade do inverno tinha chegado. Era o que o povo da cidade chamava de Inverno do Lobo, porque os lobos desciam das Colinas Negras em matilhas para remexer o lixo.
— Não tenho mais perguntas — disse Mizell —, e, por causa do tempo, vamos descartar as declarações finais. O júri vai se recolher para avaliar o veredito. Vocês têm três escolhas, cavalheiros: inocente, homicídio culposo e assassinato em primeiro grau.
— Está mais para infanticídio — comentou alguém.
O xerife Barclay e Dave Fisher foram para o Chuck-a-Luck. Abel Hines se juntou a eles, tirando neve dos ombros do casaco. Dale Gerard serviu canecas de cerveja por conta da casa.
— Mizell podia não ter mais perguntas — disse Barclay —, mas eu tenho uma. O chapéu não importa, se Trusdale a matou, por que não encontramos o dólar de prata?
— Porque ele ficou com medo e jogou fora — respondeu Hines.
— Não acredito. Ele é burro demais. Se estivesse com aquele dólar, teria voltado ao Chuck-a-Luck para gastar em bebida.
— O que você está dizendo? — perguntou Dave. — Acha que ele é inocente?
— Estou dizendo que eu queria ter encontrado aquela moeda.
— Talvez tenha caído por um buraco no bolso.
— Ele não tinha buracos no bolso — retrucou Barclay. — Só na bota, e não era grande o bastante para um dólar passar.
Ele bebeu mais cerveja. O vento soprou, e bolas de feno rolaram pela rua principal, parecendo cérebros fantasmagóricos na neve.
O júri demorou uma hora e meia para se decidir.
— Nós votamos a favor do enforcamento de primeira — disse Kelton Fisher mais tarde —, mas queríamos que a espera fosse decente.
Mizell perguntou a Trusdale se ele tinha alguma coisa a dizer antes que a sentença fosse anunciada.
— Não consigo pensar em nada — respondeu Trusdale. — Só sei que não matei aquela garota.
A tempestade soprou por três dias. John House perguntou a Barclay quanto ele achava que Trusdale pesava, e Barclay falou que achava que o homem deveria ter menos de setenta quilos. House fez um boneco de sacos de aniagem e encheu de pedras, e foi pesando na balança da estalagem até o ponteiro se aproximar do setenta. Em seguida, pendurou o boneco enquanto metade da cidade assistia, em meio à neve. O teste correu bem.
Na noite anterior à execução, o tempo ficou limpo. O xerife Barclay disse para Trusdale que ele podia ter o que quisesse de jantar. Trusdale pediu bife com ovos e batata frita encharcada de molho. Barclay pagou do próprio bolso e ficou sentado à mesa limpando as unhas, ouvindo o barulho constante da faca e do garfo no prato de porcelana. Quando parou, ele entrou. Trusdale estava sentado no catre. O prato estava tão limpo que Barclay achou que ele tinha lambido os restinhos de molho, como um cachorro. Ele estava chorando.
— Lembrei uma coisa — disse Trusdale.
— O que foi, Jim?
— Se me enforcarem amanhã de manhã, vou para o túmulo com bife e ovos ainda na barriga. Não vai dar tempo de sair.
Por um momento, Barclay não disse nada. Estava horrorizado não pela imagem, mas sim porque Trusdale pensou nisso. Em seguida, disse:
— Limpe a cara.
Trusdale limpou.
— Agora, me escute, Jim, porque esta é sua última chance. Você esteve naquele bar no meio da tarde. Não tinha muita gente lá. Não é mesmo?
— É, acho que sim.
— Então, quem pegou seu chapéu? Feche os olhos. Pense bem. Visualize.
Trusdale fechou as pálpebras. Barclay esperou. Por fim, Trusdale abriu os olhos, que estavam vermelhos de tanto chorar.
— Eu não consigo nem lembrar se estava usando.
Barclay suspirou.
— Me dê o prato, e cuidado com a faca.
Trusdale entregou o prato por entre as grades com a faca e o garfo em cima e disse que queria poder tomar cerveja. Barclay pensou, depois colocou o casaco pesado e o chapéu e andou até o Chuck-a-Luck, onde comprou uma jarra pequena de cerveja com Dale Gerard. O coveiro Hines estava terminando uma taça de vinho. Ele saiu atrás de Barclay no vento e no frio.
— Amanhã vai ser um dia e tanto — disse Barclay. — Ninguém é enforcado aqui há dez anos, e com sorte ninguém vai precisar ser nos próximos dez. Aí, já vou ter me aposentado. Queria já estar aposentado agora.
Hines o encarou.
— Você acha mesmo que ele não matou a menina.
— Se não matou — disse Barclay —, quem matou ainda está por aí.
O enforcamento era às nove horas da manhã seguinte. O dia estava frio e com vento, mas boa parte da cidade apareceu para olhar. O pastor Ray Rowles estava no cadafalso ao lado de John House. Os dois estavam tremendo apesar dos casacos e cachecóis. As páginas da Bíblia do pastor Rowles eram sacudidas pela ventania. No cinto de Tucker, também sendo sacudido, havia um capuz de sarja tingido de preto.
Barclay levou Trusdale, com as mãos algemadas às costas, até a forca. Trusdale estava bem até chegar aos degraus, e então começou a se agitar e a chorar.
— Não façam isso — implorou ele. — Por favor, não façam isso comigo. Não me machuquem. Não me matem.
Ele era forte para um homem pequeno, e Barclay fez sinal para Dave Fisher se aproximar e ajudar. Juntos, eles levaram Trusdale, se contorcendo e se debatendo e empurrando, pelos doze degraus de madeira. Em uma das vezes, ele se debateu com tanta força que os três quase tropeçaram nos degraus, e braços na plateia se esticaram para segurá-los se caíssem.
— Pare com isso e morra como homem! — gritou alguém.
Ao chegarem à plataforma, Trusdale ficou momentaneamente quieto, mas, quando o pastor Rowles começou a recitar o Salmo 51, ele começou a gritar. “Como uma mulher com a teta presa em um espremedor”, disse alguém mais tarde no Chuck-a-Luck.
— Tem misericórdia de mim, ó Deus, por Teu amor — leu Rowles, erguendo a voz para ser ouvido acima dos gritos do condenado pedindo para ser solto. — Por Tua grande compaixão, apaga as minhas transgressões.
Quando Trusdale viu House tirar o capuz preto do cinto, começou a ofegar como um cachorro. Ele balançou a cabeça de um lado para outro, tentando fugir do capuz. Seu cabelo voou. House acompanhou cada sacolejo com paciência, como um homem tentando selar um cavalo arredio.
— Me deixem olhar para as montanhas! — gritou Trusdale. Havia catarro escorrendo das narinas. — Vou me comportar se vocês me deixarem olhar para as montanhas mais uma vez!
Mas House só enfiou o capuz na cabeça de Trusdale e o puxou até os ombros trêmulos do homem. O pastor Rowles estava falando sem parar, e Trusdale tentou sair de cima do alçapão. Barclay e Dave Fisher o empurraram de volta. Lá embaixo, alguém gritou:
— Cavalgue, caubói!
— Diga amém — pediu Barclay para o pastor Rowles. — Por Cristo, diga logo amém.
— Amém — disse o pastor Rowles, e deu um passo para trás, fechando a Bíblia com um estalo.
Barclay fez sinal de positivo. House puxou a alavanca. A viga lubrificada se retraiu, e o alçapão se abriu. Trusdale caiu. Houve um estalo quando o pescoço dele quebrou. As pernas foram parar quase no queixo, depois caíram, inertes. Gotas amarelas mancharam a neve sob os pés dele.
— Pronto, seu filho da mãe! — gritou o pai de Rebecca Cline. — Morreu mijando como um cachorro em um hidrante. Bem-vindo ao inferno.
Algumas pessoas aplaudiram.
Os espectadores ficaram até o cadáver de Trusdale, ainda com o capuz preto, ser colocado na mesma charrete na qual ele foi para a cidade. Depois, se dispersaram.
Barclay voltou para a cadeia e se sentou na sela que Trusdale ocupou. Ficou lá por dez minutos. Estava frio o bastante para a respiração condensar. Ele sabia o que estava esperando, e acabou vindo. Pegou a pequena jarra onde estivera a última cerveja de Trusdale e vomitou. Em seguida, foi para sua sala e botou lenha no fogão.
Oito horas depois, ele ainda estava lá, tentando ler um livro. Quando Abel Hines entrou, ele disse:
— Você tem que vir até a funerária, Otis. Tem uma coisa que quero mostrar.
— O quê?
— Não. Você precisar ver para acreditar.
Eles andaram até a Funerária e Necrotério Hines. Na sala dos fundos, Trusdale estava nu em uma mesa fria. O cheiro era uma mistura de produtos químicos e merda.
— Eles cagam na calça quando morrem enforcados — disse Hines. — Até os que morrem de cabeça erguida. Não dá para evitar. O esfíncter solta.
— E?
— Venha até aqui. Acho que um homem na sua função já viu coisa pior do que uma cueca cagada.
Estava no chão, quase virada do avesso. Uma coisa brilhava em meio à sujeira. Barclay chegou mais perto e viu que era um dólar de prata. Ele esticou a mão e o tirou do meio da merda.
— Não entendo como aconteceu — disse Hines. — O filho da puta ficou preso quase um mês.
Havia uma cadeira no canto. Barclay se sentou nela tão pesadamente que fez um ruído abafado.
— Ele deve ter engolido quando viu nossos lampiões chegando. E, cada vez que saía, ele limpava e engolia de novo.
Os dois homens se encararam.
— Você acreditou nele — disse Hines, por fim.
— Sim, como um tolo eu acreditei.
— Talvez isso diga mais sobre você do que sobre ele.
— Ele ficou dizendo que era inocente até o fim. Provavelmente vai dizer a mesma coisa na frente do trono de Deus.
— Sim — concordou Hines.
— Não entendo. Ele ia ser enforcado. De qualquer modo, ia ser enforcado. Você entende?
— Não entendo nem por que o sol nasce. O que você vai fazer com a moeda? Devolver para a mãe e o pai da garota? Talvez seja melhor não fazer isso, porque, você sabe…
Hines deu de ombros.
Porque os Clines sabiam o tempo todo. Todo mundo na cidade sabia o tempo todo. Ele foi o único que não sabia. Um grande tolo.
— Não sei o que vou fazer com a moeda — disse o xerife.
O vento soprou, trazendo o som de cantoria. Vinha da igreja. Eram os hinos de louvor.
Pensando em Elmore Leonard
Eu escrevo poesia desde os doze anos, quando me apaixonei pela primeira vez (no sétimo ano). Desde então, escrevi centenas de poemas, normalmente rabiscados em pedaços de papel ou em cadernos meio usados, e publiquei menos de seis. A maioria está guardada em várias gavetas, só Deus sabe onde. Eu não sei. Existe um motivo para isso: não sou um bom poeta. Não estou me menosprezando, só falando a verdade. Quando consigo escrever algo de que goste, normalmente é sem querer.
A razão para incluir este trabalho aqui é que ele (como o outro poema nesta antologia) é narrativo, não lírico. A primeira versão, há muito perdida, como o rascunho da história que se tornou “Milha 81”, foi escrita na faculdade, e teve muita influência dos monólogos dramáticos de Robert Browning, mais precisamente de “Minha última duquesa”. (Outro poema de Browning, “Childe Roland à Torre Negra chegou”, se tornou a base de uma série de livros que muitos dos meus Leitores Fiéis conhecem bem.) Se você leu Browning, talvez ouça a voz dele em vez da minha. Se não leu, tudo bem; é basicamente uma história, como qualquer outra, o que significa que é para ser apreciada em vez de desconstruída.
Meu amigo Jimmy Smith leu a primeira versão perdida na Hora da Poesia da Universidade do Maine em uma tarde de terça-feira de 1968 ou 1969, e o poema foi bem recebido. Por que não? Ele se dedicou e declamou com entusiasmo. E as pessoas gostam de boas histórias, quer sejam em versos ou em parágrafos. E essa era ótima, principalmente considerando o formato, que me permitiu abrir mão de toda apresentação prosaica. No outono de 2008, voltei a pensar na declamação de Jimmy, e como eu estava na pausa entre projetos, decidi tentar recriar o poema. Este é o resultado. Quanto se assemelha ao original, não sou capaz de dizer.
Jimmy, espero que você esteja por aí em algum lugar e leia isto. Você arrasou naquele dia.