O Bazar dos Sonhos Ruins
Mister delícia
I
Dave Calhoun estava ajudando Olga Glukhov a construir a Torre Eiffel. Eles estavam trabalhando nisso já havia seis manhãs, seis manhãs que começavam cedo, no grande salão do Centro de Assistência à Vida de Lakeview. Eles nunca estavam sozinhos lá; gente velha levanta cedo. A TV gigante de tela plana do outro lado começava a espalhar o lixo habitual da Fox News às cinco e meia, e vários residentes estavam assistindo com a boca aberta.
— Ah… — disse Olga. — Aqui está a peça que eu estava procurando. — Ela colocou um pedaço de viga no lugar, na metade da obra-prima de Gustave Eiffel, criada (de acordo com as informações na parte de trás da caixa) a partir de metal descartado.
Dave ouviu o barulho de uma bengala se aproximando por trás e cumprimentou o recém-chegado sem nem virar a cabeça.
— Bom dia, Ollie. Acordou cedo.
Quando jovem, Dave nunca acreditaria que dava para identificar alguém só pelo som da bengala, mas quando jovem ele nunca sonhou que terminaria a vida em um lugar onde tantas pessoas usavam uma.
— Bom dia para você também — cumprimentou Ollie Franklin. — E para você, Olga.
Ela olhou para cima por um segundo antes de voltar ao quebra-cabeça, de mil peças de acordo com a caixa, com a maioria agora no lugar certo.
— Essas vigas são um inferno. Eu as vejo flutuando na minha frente toda vez que fecho os olhos. Acho que vou fumar e acordar os pulmões.
Fumar era supostamente proibido em Lakeview, mas Olga e alguns outros inveterados tinham permissão de sair pela cozinha até a área de carga e descarga, onde havia um cinzeiro. Ela se levantou, andou tropeçando, soltou um palavrão em russo ou polonês, recuperou o equilíbrio e saiu andando. Mas parou e olhou para trás, para Dave, com as sobrancelhas unidas.
— Não termine sem mim, Bob. Promete?
Ele levantou a mão com a palma virada para ela.
— Prometo.
Satisfeita, ela seguiu andando, revirando o bolso do vestido largo em busca dos cigarros e do isqueiro Bic.
Ollie ergueu as sobrancelhas.
— Desde quando você é Bob?
— Bob era o marido dela. Lembra? Veio com ela, morreu dois anos atrás.
— Ah. Certo. E agora ela está perdendo a memória. Que pena.
Dave deu de ombros.
— Ela vai fazer noventa anos no outono se chegar até lá. Tem direito a algumas engrenagens travadas. E olhe isto. — Ele indicou o quebra-cabeça, que ocupava quase toda a extensão de uma mesa de carteado. — Ela fez a maior parte sozinha. Eu sou só o assistente.
Ollie, que foi designer gráfico no que chamava de “sua vida real”, olhou para o quebra-cabeça quase completo com melancolia.
— La Tour Eiffel. Você sabia que houve um protesto de artistas quando estava sendo construída?
— Não, mas não estou surpreso. Franceses.
— O novelista Léon Bloy a chamou de poste de luz verdadeiramente trágico.
Calhoun olhou para o quebra-cabeça, viu o que Bloy quis dizer e riu. Parecia um poste de luz. Mais ou menos.
— Outro artista ou escritor, não lembro quem, dizia que a melhor vista de Paris era da Torre Eiffel, porque era a única vista de Paris sem a Torre Eiffel. — Ollie se inclinou para mais perto, uma das mãos segurando a bengala, a outra encostada na lombar, como se para segurá-la no lugar. Os olhos foram do quebra-cabeça para as peças que restavam, talvez umas cem no total, depois novamente para o quebra-cabeça. — Houston, talvez você tenha um problema aí.
Dave já tinha começado a desconfiar disso.
— Se você estiver certo, isso vai estragar o dia de Olga.
— Ela não devia ficar surpresa. Quantas vezes você acha que essa versão da Torre foi montada e desmontada? Gente velha é tão descuidada quanto adolescentes. — Ele se empertigou. — Quer andar no jardim comigo? Tenho uma coisa para dar a você. E também uma coisa para contar.
Dave observou Ollie.
— Está tudo bem?
O outro preferiu não responder.
— Vamos lá fora. A manhã está linda. Está ficando quente.
Ollie seguiu na frente para o pátio, com a bengala fazendo o ritmo familiar de um, dois, três, dando um aceno de bom-dia para alguém ao passar pelo grupo reunido de bebedores de café vendo TV. Dave foi atrás com boa-vontade, mas um pouco intrigado.
II
Lakeview era construído em forma de U, com o salão principal entre dois corredores, que abrigavam as “suítes de vivência assistida”, cada uma consistindo de uma sala de estar, um quarto e o tipo de banheiro que vinha equipado com barras de apoio e uma cadeira de chuveiro. Essas suítes não eram baratas. Apesar de muitos dos residentes não serem mais rigorosamente continentes (Dave tinha começado a sofrer de acidentes noturnos pouco depois de fazer oitenta e três anos, e agora tinha caixas de fraldas noturnas em uma prateleira alta do armário), não era o tipo de lugar com cheiro de mijo e desinfetante. Os quartos também tinham TV via satélite, havia uma copa em cada corredor e, duas vezes por mês, festas com degustação de vinho. Considerando tudo, Dave achava que aquele era um bom lugar para fechar o ciclo.
O jardim entre as alas residenciais estava exuberante, quase orgástico, com o começo do verão. Havia caminhos sinuosos, e um chafariz jorrava água. As flores se rebelavam, mas de uma forma distinta e bem cuidada. Aqui e ali havia interfones, por onde alguém sofrendo repentinamente de falta de ar ou de dormência nas pernas podia pedir ajuda. Haveria muita gente passeando lá mais tarde, quando os que ainda não tinham acordado (ou quando o pessoal do salão principal tivesse recebido sua dose de Fox News) fossem apreciar o dia antes que esquentasse, mas, no momento, Dave e Ollie tinham o jardim para si.
Quando passaram pela porta dupla e desceram a escada do amplo pátio de lajota (os dois descendo com cuidado), Ollie parou e começou a mexer no bolso do paletó quadriculado largo que estava usando. Ele tirou um relógio de bolso prateado com uma corrente pesada. E o ofereceu para Dave.
— Quero que você fique com isto. Foi do meu bisavô. A julgar pela gravação na tampa, ele comprou ou ganhou em 1890.
Dave olhou para o relógio, balançando na corrente presa na mão ligeiramente paralisada de Ollie Franklin como um amuleto de hipnotista, com diversão e horror.
— Não posso aceitar isso.
Pacientemente, como se instruindo uma criança, Ollie disse:
— Pode se eu der para você. E já vi você admirá-lo muitas vezes.
— É uma herança de família!
— É, sim, e meu irmão vai ficar com ele se estiver entre meus pertences quando eu morrer. O que vai acontecer em breve. Talvez esta noite. Sem dúvida nos próximos dias.
Dave não sabia o que dizer.
Ainda com o mesmo tom paciente, Ollie disse:
— Meu irmão Tom não vale um vintém. Eu nunca disse isso para ele, seria cruel, mas falei muitas vezes para você. Não falei?
— Bem…sim.
— Eu o ajudei em três empreendimentos falidos e em dois casamentos que não foram pra frente. Acho que falei sobre isso muitas vezes também. Não falei?
— Sim, mas…
— Eu me saí bem e investi bem — continuou Ollie, começando a andar e batendo a bengala no seu código bem pessoal: tap, tap-tap, tap, tap-tap-tap. — Sou um dos famosos Um Por Cento tão insultados pelos jovens liberais. Não por muito, veja bem, mas pelo suficiente para viver com conforto aqui nos últimos três anos ao mesmo tempo em que continuava servindo de rede de segurança para meu irmão mais novo. Graças a Deus não preciso mais fazer esse serviço para a filha dele; Martha parece estar se saindo bem. O que é um alívio. Fiz o testamento direitinho, e nele fiz a coisa certa. Em prol da família. Como não tenho esposa e filhos, isso quer dizer deixar tudo para Tom. Menos isto. Isto é seu. Você tem sido um bom amigo, então, por favor. Aceite.
Dave pensou, decidiu que poderia devolver quando a premonição de morte do amigo passasse e aceitou o relógio. Abriu-o com um clique e admirou a face de cristal. Seis e vinte e dois, com precisão, até onde ele sabia. O ponteiro dos segundos se movia bruscamente em seu pequeno círculo logo acima do seis.
— Foi limpo várias vezes, mas só precisou de conserto uma — disse Ollie, voltando a andar lentamente. — Em 1923, de acordo com meu avô, depois que meu pai o deixou cair no poço da velha fazenda em Hemingford Home. Dá para imaginar? Mais de cento e vinte anos de idade e só foi consertado uma vez. Quantos seres humanos na Terra podem alegar isso? Doze? Seis, talvez? Você tem dois filhos e uma filha, certo?
— Isso mesmo — respondeu Dave.
Seu amigo começara a enfraquecer cada dia mais desde o ano anterior, e o cabelo não passava de uns fiapos no crânio cheio de manchas senis, mas a mente funcionava melhor que a de Olga. Ou que a minha, ele admitiu para si mesmo.
— O relógio não está no meu testamento, mas devia estar no seu. Tenho certeza de que você ama todos os seus filhos igualmente, você é esse tipo de homem, mas gostar é diferente, não é? Deixe para o filho de que mais gosta.
Esse seria Peter, pensou Dave, e sorriu.
Retribuindo o sorriso ou captando o pensamento por trás dele, os lábios de Ollie se abriram por cima dos dentes que restavam e ele assentiu.
— Vamos nos sentar. Estou cansado. Não demoro muito para me cansar atualmente.
Eles se sentaram em um dos bancos, e Dave tentou devolver o relógio. Ollie afastou as mãos em um gesto exagerado de repelência que foi cômico o bastante para fazer Dave rir, embora ele reconhecesse o assunto como sério. Mais sério do que peças faltando em um quebra-cabeça.
O cheiro de flores estava forte, divino. Quando Dave Calhoun pensava na morte, não tão distante agora, a perspectiva da qual mais se arrependia era a perda do mundo sensorial e todos os seus pequenos luxos. A visão do decote de uma mulher em uma blusa cavada. O som de Cozy Cole arrasando na bateria em “Topsy, Part Two”. O gosto de torta de limão com cobertura de merengue. O cheiro das flores que ele não sabia identificar pelo nome, embora a esposa soubesse todos.
— Ollie, você pode até morrer esta semana, Deus sabe que todo mundo neste lugar está com um pé na cova e outro na casca de banana, mas você não tem como ter certeza. Não sei se você teve um sonho ou se um gato preto cruzou seu caminho, nem se foi outra coisa, mas premonições não existem.
— Eu não só tive uma premonição — disse Ollie —, eu vi uma. Eu vi o Mister Delícia. Várias vezes na semana passada. Cada vez mais perto. Em pouco tempo, vou receber uma visita no quarto, e vai ser o fim. Não me importo. Na verdade, espero com ansiedade. A vida é uma coisa ótima, mas, se você viver muito, ela fica meio gasta antes de acabar.
— Mister Delícia — repetiu Calhoun. — Quem é esse tal de Mister Delícia?
— Não é ele de verdade — disse Ollie, como se para si mesmo. — Eu sei disso. É uma representação. Uma soma de tempo e lugar, digamos assim. Já existiu um Mister Delícia de verdade. Foi assim que meus amigos e eu o chamamos naquela noite em Highpockets. Eu nunca soube seu verdadeiro nome.
— Não estou entendendo.
— Escute, você sabe que eu sou gay, certo?
Dave sorriu.
— Bom, acho que seus dias de namoro foram bem antes de eu conhecer você, mas eu tinha uma noção, sim.
— Foi a gravata?
É o jeito como você anda, pensou Dave. Até com a bengala. O jeito como passa os dedos pelo que resta do cabelo e se olha no espelho. O jeito como revira os olhos para as mulheres no programa Real Housewives. Até os desenhos de natureza-morta no seu quarto, que formam uma espécie de linha do tempo do seu declínio. Você já deve ter sido muito bom, mas agora as mãos tremem. Você está certo, a vida fica meio gasta antes de acabar.
— Dentre outras coisas — disse Dave.
— Você já ouviu alguém dizer que era velho demais para uma das aventuras militares dos Estados Unidos? Vietnã? Iraque? Afeganistão?
— Claro. Se bem que normalmente as pessoas dizem que eram jovens demais.
— A aids foi uma guerra. — Ollie estava olhando para as mãos retorcidas, das quais o talento estava partindo. — E eu não era velho demais para aquilo tudo, porque ninguém é quando a guerra está acontecendo no nosso lar, você não acha?
— Acho que é verdade, sim.
— Eu nasci em 1930. Quando a aids foi observada pela primeira vez e clinicamente descrita nos Estados Unidos, eu tinha cinquenta e dois anos. Estava morando em Nova York e trabalhando como freelancer para várias firmas de publicidade. Meus amigos e eu ainda andávamos pelas boates do Village de vez em quando. Não Stonewall, um buraco comandado pela máfia, mas algumas outras. Eu estava em frente à Peter Pepper’s, na rua Christopher, compartilhando um baseado com um amigo, quando um grupo de jovens entrou. Homens bonitos de calças boca de sino justas e o tipo de camisa que todos pareciam usar na época, com golas largas e cinturas justas. Botas de camurça com saltos de madeira.
— Garotos delícia — arriscou Dave.
— Acho que sim, mas não o garoto delícia. E meu melhor amigo, o nome dele era Noah Freemont, ele morreu ano passado, eu fui ao enterro, se virou para mim e disse: “Eles nem veem mais a gente, né?”. Eu concordei. Eles viam gente como nós quando tínhamos dinheiro, mas nós éramos muito… honrados para isso, pode-se dizer. Pagar era humilhante, embora alguns de nós fizessem isso de tempos em tempos. Mas, no final dos anos 1950, quando fui para Nova York…
Ele deu de ombros e olhou para o horizonte.
— Quando você foi para Nova York?
— Estou pensando em como dizer isso. No final dos anos 1950, quando as mulheres ainda suspiravam por Rock Hudson e Liberace, quando a homossexualidade era o amor que não ousava dizer o nome em vez de o que nunca cala a boca, meu desejo sexual estava no pico. Nesse sentido, e tenho certeza de que há outros, muitos outros, os homens gays e os héteros são iguais. Li em algum lugar que quando estão na presença de uma pessoa atraente, os homens pensam em sexo a cada vinte segundos, mais ou menos. Mas quando um homem está na adolescência ou juventude, ele pensa em sexo o tempo todo, esteja ou não na presença de uma pessoa atraente.
— A gente fica duro só de bater um ventinho — disse Dave.
Ele estava pensando no seu trabalho de frentista e em uma ruiva linda que viu saindo do banco do passageiro da picape do namorado. A saia subiu e revelou a calcinha branca de algodão por um segundo, dois, no máximo. Mas ele repassou aquele momento repetidamente na cabeça enquanto se masturbava, e apesar de só ter dezesseis anos na época, a lembrança ainda estava clara e límpida. Duvidava que fosse assim se ele tivesse cinquenta. Àquela altura, ele já tinha visto muitas calcinhas.
— Alguns dos colunistas conservadores chamavam a aids de peste gay, e com satisfação mal disfarçada. Foi uma peste, mas por volta de 1986, a comunidade gay já estava lidando bem com ela. Nós entendíamos as duas medidas preventivas básicas: nada de sexo sem proteção nem compartilhar agulhas. Mas os jovens acham que são imortais, e como minha avó dizia quando enchia a cara, um pau duro não tem consciência. É especialmente verdade quando o dono desse pau está bêbado, doidão e cheio de tesão.
Ollie suspirou e deu de ombros.
— Riscos eram corridos. Erros eram cometidos. Mesmo depois que os meios de transmissão foram bem difundidos, dezenas de milhares de homens gays morreram. As pessoas só estão começando a entender a magnitude dessa tragédia agora que quase todo mundo entende que os gays não escolhem sua orientação sexual. Grandes poetas, grandes músicos, grandes matemáticos e cientistas, só Deus sabe quantos morreram antes que seu talento pudesse desabrochar. Eles morreram na sarjeta, em apartamentos com água fria, em hospitais e em alas de indigentes, só porque correram um risco em uma noite em que a música estava alta, o vinho abundava e as drogas corriam soltas. Por escolha? Ainda há muitos que dizem que sim, mas isso é besteira. O desejo é forte demais. Primitivo demais. Se eu tivesse nascido vinte anos depois, podia ter sido um dos mortos. Meu amigo Noah também. Mas ele morreu de ataque cardíaco na cama, e eu vou morrer de… sei lá. Porque, aos cinquenta anos, há menos tentações sexuais a resistir, e mesmo quando a tentação é forte, o cérebro às vezes consegue superar o pênis, pelo menos por tempo suficiente para pegar uma camisinha. Não estou dizendo que muitos homens da minha idade não morreram de aids. Morreram, sim, pois não existe tolo tão tolo quanto um tolo velho, certo? Alguns eram meus amigos. Mas eram em número menor do que os jovens que iam às boates todas as noites.
“Meu grupo, Noah, Henry Reed, John Rubin, Frank Diamond, às vezes ia só para ver os jovens fazerem suas danças do acasalamento. Nós não babávamos, mas olhávamos. Não éramos muito diferentes dos golfistas héteros de meia-idade que vão ao Hooters uma vez por semana só para ver as garçonetes se inclinarem. Esse tipo de comportamento pode ser digno de pena, mas é natural. Ou você discorda?”
Dave balançou a cabeça.
— Uma noite, quatro ou cinco de nós passamos em uma boate chamada Highpockets. Acho que tínhamos acabado de decidir ir embora quando um rapaz entrou sozinho. Ele parecia um pouco com o David Bowie. Era alto, usava uma bermuda apertada branca e camiseta azul com mangas cortadas. Tinha cabelo louro comprido, penteado com um topete alto, engraçado e sexy ao mesmo tempo. As bochechas tinham cor intensa e natural, não de blush, e um brilho prateado. A boca parecia o arco do cupido. Todos os olhares se viraram para ele. Noah segurou meu braço e disse: “É ele. Ele é o Mister Delícia. Eu daria mil dólares para levá-lo para casa”.
“Eu ri e disse que mil dólares nunca o comprariam. Naquela idade e com aquele visual, ele só queria ser admirado e desejado. E também queria fazer sexo da melhor qualidade com a maior frequência possível. E, quando se tem vinte e dois anos, é com muita frequência.
“Em pouco tempo, ele era parte de um grupo de rapazes bonitos, embora nenhum tão bonito quanto ele, todos rindo e bebendo e dançando a dança da moda na época. Nenhum deles olhava para o quarteto de homens de meia-idade sentado à mesa do outro lado da pista de dança, tomando vinho. Homens de meia-idade ainda a cinco ou dez anos de abandonar os esforços para parecerem mais jovens. Por que ele olharia para nós com tantos homens lindos querendo sua atenção?
“E Frank Diamond disse: ‘Ele vai estar morto daqui a um ano. Vamos ver quão bonito vai estar quando isso acontecer’. Só que ele não simplesmente falou; ele cuspiu as palavras. Como se fosse alguma espécie de… sei lá… prêmio de consolação bizarro.”
Ollie, que sobreviveu à era do fundo do armário e chegou a uma em que o casamento gay era legalizado na maioria dos estados, mais uma vez deu de ombros. Como se dizendo que eram águas passadas.
— Aquele foi nosso Mister Delícia, uma compilação de tudo que era bonito e desejável e fora de alcance. Nunca mais o vi até duas semanas atrás. Não no Highpockets, não no Peter Pepper’s nem no Tall Glass, e nem em nenhuma das boates aonde eu ia… se bem que fui a esses lugares cada vez menos durante a Era Reagan. No final dos anos 1980, ir a boates gay era esquisito demais. Era como ir ao baile de máscaras na história de Poe sobre a Morte Rubra. Você deve saber: “Venham! Se soltem, tomem outra taça de champanhe e ignorem essas pessoas caindo mortas como moscas”. Não era divertido, a não ser que você tivesse vinte e dois anos e ainda tivesse a sensação de ser à prova de balas.
— Deve ter sido difícil.
Ollie levantou a mão que não estava segurando a bengala e balançou em um gesto de comme ci, comme ça.
— Foi e não foi. Foi o que os alcoólicos em recuperação chamam de vida em seus próprios termos.
Dave pensou em deixar pra lá, mas concluiu que não conseguia. O presente do relógio era consternador demais.
— Escute seu tio Dave, Ollie. Em palavras simples: você não viu o rapaz. Pode ter visto uma pessoa bem parecida com ele, mas se seu Mister Delícia tinha vinte e dois anos na época, teria uns cinquenta e poucos agora. Isso se tiver conseguido evitar a aids. Foi só uma peça que seu cérebro pregou em você.
— Meu cérebro idoso — disse Ollie, sorrindo. — Meu cérebro ficando senil.
— Eu nunca falei senil. Você não é senil. Mas seu cérebro é idoso.
— Sem dúvida nenhuma, mas era ele. Era. Na primeira vez que o vi, ele estava na avenida Maryland, no começo do caminho até aqui. Alguns dias depois, estava relaxando nos degraus da varanda da entrada principal, fumando um cigarro de cravo. Dois dias atrás, estava sentado em um banco em frente à recepção. Ainda estava usando a camiseta sem mangas e a bermuda branca brilhante. Ele devia ter parado o trânsito, mas ninguém o viu. Só eu, claro.
Eu me recuso a fingir que acredito, pensou Dave. Ele merece mais do que isso.
— Você está tendo uma alucinação, amigo.
Ollie não se deixou afetar.
— Agora mesmo, ele estava no salão principal, vendo TV com o resto do pessoal que acorda cedo. Eu acenei para ele, e ele acenou de volta. — Um sorriso surpreendentemente jovem surgiu no rosto de Ollie. — Ele também me deu uma piscadela.
— Bermuda branca? Camiseta sem mangas? Com vinte e dois anos, bonito? Posso ser hétero, mas acho que teria reparado nele.
— Ele veio me buscar, então só eu posso vê-lo. — Ele ficou de pé. — Vamos voltar? Estou a fim de tomar um café.
Eles andaram na direção do pátio, onde subiriam os degraus com o mesmo cuidado com que tinham descido. Eles já tinham vivido na Era Reagan; agora, viviam na Era dos Quadris Feitos de Vidro.
Quando chegaram às lajotas em frente ao salão principal, os dois pararam para recuperar o fôlego. Quando Dave estava bem, disse:
— O que aprendemos hoje, turma? Que a personificação da morte não é um esqueleto montado em um cavalo pálido com uma foice apoiada no ombro, mas um garoto lindo com purpurina nas bochechas.
— Eu acho que pessoas diferentes veem coisas diferentes — disse Ollie de forma suave. — De acordo com o que li, a maioria vê a mãe quando está à beira da morte.
— Ollie, a maioria não vê ninguém. E você não está à beira da…
— Mas minha mãe morreu pouco depois de eu nascer, então eu nem a reconheceria.
Ele começou a andar na direção da porta dupla, mas Dave segurou seu braço.
— Vou ficar com o relógio até a festa de Halloween, que tal? Por quatro meses. Vou dar corda nele religiosamente. Mas, se você ainda estiver aqui nessa época, vai pegá-lo de volta. Combinado?
Ollie abriu um sorriso.
— Claro. Vamos ver como Olga está se saindo com La Tour Eiffel.
Olga estava novamente à mesa de carteado, olhando para o quebra-cabeça. Não era um olhar feliz.
— Deixei as três últimas peças para você, Dave. — Infeliz ou não, ela pelo menos sabia novamente quem ele era. — Mas ainda vão ficar quatro buracos. Depois de uma semana trabalhando, isso é muito decepcionante.
— Merdas acontecem, Olga — disse Dave, sentando-se. Ele colocou as peças que restavam no lugar com uma satisfação que remetia aos dias chuvosos nos acampamentos de verão. Onde, ele agora percebia, o salão principal era bem parecido com aquele. A vida era uma prateleira curta com aparadores de livros dos dois lados.
— Acontecem, sim — retrucou ela, contemplando as quatro peças que faltavam. — Acontecem mesmo. Mas é tanta merda, Bob. Tanta.
— Olga, eu sou Dave.
Ela olhou para ele com a testa franzida.
— Foi isso que eu disse.
Não fazia sentido discutir e não fazia sentido tentar convencê-la de que novecentos e noventa e seis em mil era uma quantidade ótima. Ela está a dez anos de fazer cem e ainda acha que merece a perfeição, pensou Dave. Algumas pessoas têm ilusões incrivelmente firmes.
Ele olhou para a frente e viu Ollie saindo do centro de artesanato do tamanho de um armário, que era adjacente ao salão principal. Estava segurando um pedaço de papel de seda e uma caneta. Ele foi até a mesa e colocou o papel sobre o quebra-cabeça.
— Ei, ei, o que você está fazendo? — perguntou Olga.
— Demonstre um pouco de paciência pela primeira vez na vida, Olga. Você vai ver.
Ela fez beicinho com o lábio inferior, como uma criança emburrada.
— Não. Eu vou fumar. Se você quiser desmontar essa porcaria, fique à vontade. Coloque de volta na caixa ou derrube no chão. A escolha é sua. Não está bom como está.
Ela saiu andando com o máximo de dignidade que sua artrite permitia. Ollie se sentou na cadeira dela com um suspiro de alívio.
— Assim é bem melhor. Ficar inclinado está me matando atualmente. — Ele contornou duas das peças que faltavam, que por acaso eram próximas, e mudou o papel de posição para contornar as outras duas.
Dave observou com interesse.
— Vai dar certo?
— Ah, vai — disse Ollie. — Tem umas caixas de papelão do FedEx na sala de correspondência. Vou surrupiar uma. Cortar e desenhar um pouco. Mas não deixe Olga dar um ataque e desmontar a coisa toda antes de eu voltar.
— Se quiser fotos para poder fazer tudo combinar direitinho, posso pegar meu iPhone.
— Não preciso. — Ollie bateu na testa com seriedade. — Minha câmera está aqui. É uma câmera Brownie velha e não um smartphone, mas até hoje ainda funciona bem.
III
Olga ainda estava de mau humor quando voltou da área de carga e descarga e queria mesmo desmontar o quebra-cabeça incompleto, mas Dave conseguiu distraí-la balançando o tabuleiro de cribbage na cara dela. Jogaram três partidas. Dave perdeu as três e levou uma surra na última. Olga nem sempre tinha certeza de quem ele era, e havia dias em que acreditava estar de volta a Atlanta, morando na pensão de uma tia, mas quando o assunto era cribbage, ela nunca deixava passar uma jogada.
E ela tem muita sorte, pensou Dave, não sem ressentimento. Quem consegue fazer vinte pontos nesse jogo?
Por volta de onze e quinze (a Fox News já tinha cedido o espaço para Drew Carey mostrando prêmios em The Price is Right), Ollie Franklin voltou e andou até o tabuleiro de cribbage. Barbeado e com uma camisa limpa de manga curta, ele parecia quase garboso.
— Ei, Olga. Tenho uma coisa para você, querida.
— Eu não sou sua querida — retrucou Olga. Havia um brilho leve e cruelmente divertido no olhar dela. — Se você já teve uma querida, vou tomar banho de bosta de urso.
— Ingratidão, teu nome é mulher — disse Ollie sem rancor. — Estique a mão.
Quanto ela fez isso, ele colocou quatro peças de quebra-cabeça recém-criadas ali.
Ela olhou para as peças com desconfiança.
— O que é isso?
— As peças que faltam.
— As peças que faltam do quê?
— Do quebra-cabeça que você e Dave estavam montando. Lembra do quebra-cabeça?
Dave quase conseguiu ouvir os estalos por baixo do cabelo branco ondulado, enquanto relés velhas e bancos de memórias ganhavam vida.
— Claro que lembro. Mas essas peças não vão encaixar nunca.
— Experimente — convidou Ollie.
Dave pegou as peças da mão dela antes que Olga pudesse fazer isso. Aos olhos dele, pareciam perfeitas. Uma mostrava o entrelaçado das vigas de metal; as duas próximas mostravam parte de uma nuvem rosada no horizonte; a quarta mostrava a testa e a boina inclinada de um pequenino transeunte que poderia estar passeando na Place Vendôme. Estão incríveis, pensou ele. Ollie podia ter oitenta e cinco anos, mas ainda era bom. Dave devolveu as peças para Olga, que as colocou no lugar uma atrás da outra. Elas encaixaram com perfeição.
— Voilà — disse Dave, e apertou a mão de Ollie. — Tout finit. Maravilhoso.
Olga estava olhando o quebra-cabeça tão de perto que seu nariz estava tocando nele.
— Essa nova peça das vigas não combina direito com as que estão ao redor.
Dave disse:
— Isso é ingratidão demais até para você, Olga.
Olga resmungou alguma coisa. Acima da cabeça dela, Ollie balançou as sobrancelhas.
Dave balançou as dele em resposta.
— Sente-se com a gente no almoço.
— Acho que vou pular o almoço hoje — disse Ollie. — Nossa caminhada e meu triunfo artístico recente me cansaram. — Ele se inclinou para olhar para o quebra-cabeça e suspirou. — Não, não combina. Mas está bem perto.
— Bem perto só faz diferença para ferraduras de cavalo — disse Olga. — Querido.
Ollie seguiu lentamente na direção da porta que dava na ala Evergreen, com a bengala fazendo o ritmo inconfundível de um-dois-três. Ele não apareceu no almoço, e como também não apareceu no jantar, o enfermeiro de plantão foi dar uma olhada nele e o encontrou deitado na cama, as mãos talentosas entrelaçadas sobre o peito. Ele pareceu ter morrido como vivia, tranquilamente e sem confusão.
Naquela noite, Dave experimentou a porta da suíte do velho amigo e a encontrou aberta. Sentou-se na cama sem lençol com o relógio de bolso de prata na palma da mão, a tampa aberta para poder ver o ponteiro dos segundos fazer aquele pequeno círculo acima do 6. Olhou para os bens de Ollie (os livros nas prateleiras, os blocos de desenho na mesa, suas obras penduradas nas paredes) e se perguntou quem ficaria com tudo aquilo. O irmão que não prestava, supunha ele. Tentou se lembrar do nome e conseguiu: Tom. E a sobrinha era Martha.
Acima da cama havia um desenho feito a carvão de um jovem bonito com o cabelo penteado com topete e brilhos nas bochechas. Nos lábios de arco de cupido, havia um sorriso. Era pequeno, mas convidativo.
IV
O verão chegou com tudo e começou a ir embora. Os ônibus escolares passaram pela avenida Maryland. A condição de Olga Glukhov piorou; ela confundia Dave com o marido com mais frequência. A habilidade no cribbage não mudou, mas ela começou a esquecer o inglês. Apesar de o filho e a filha mais velhos de Dave morarem ali perto do subúrbio, era Peter quem ia visitá-lo com mais frequência, indo de carro da fazenda em Hemingford County a cem quilômetros de distância e levando o pai para jantar fora com assiduidade.
O Halloween chegou. Os funcionários decoraram o salão principal com fitas laranja e pretas. Os residentes do Centro de Assistência à Vida de Lakeview comemoraram a data com sidra, torta de abóbora e bolas de pipoca para os poucos cujos dentes ainda encaravam o desafio. Muitos passaram a noite fantasiados, o que fez Dave Calhoun pensar em uma coisa que seu velho amigo disse durante a última conversa: que, no final dos anos 1980, ir a boates gay era como ir ao baile de máscaras na história de Poe sobre a Morte Rubra. Ele achava que Lakeview também era um tipo de clube, e às vezes era um clube gay, mas havia uma desvantagem: não dava para ir embora se você não tivesse parentes dispostos a acolhê-lo. Peter e sua esposa teriam feito isso por Dave se ele pedisse, teriam dado a ele o quarto onde o filho Jerome já tinha morado, mas Peter e Alicia estavam envelhecendo juntos agora, e Dave não se imporia a eles.
Em um dia quente no começo de novembro, ele foi até o pátio de lajotas e se sentou em um dos bancos. Os caminhos eram convidativos sob o sol, mas ele não ousava mais descer os degraus. Poderia cair, e isso seria ruim. Poderia não conseguir se levantar sem ajuda, e isso seria humilhante.
Ele viu uma jovem de pé perto do chafariz. Ela estava usando um vestido que ia até a panturrilha e tinha gola com babados que agora só se via em filmes antigos em preto e branco. O cabelo era ruivo. Ela sorriu para ele. E acenou.
Nossa, olhe só, pensou Dave. Não foi você que eu vi logo depois que a Segunda Guerra Mundial acabou, saindo da picape do seu namorado no posto Humble Oil em Omaha?
Como se ouvindo esse pensamento, a ruiva bonita deu uma piscadela e puxou a barra do vestido de leve, mostrando os joelhos.
Oi, Miss Delícia, pensou Dave, e então: Você já fez bem melhor que isso. A lembrança o fez rir.
Ela riu em resposta. Ele viu isso, mas não conseguiu ouvir, embora ela estivesse perto e seus ouvidos ainda estivessem bons. Em seguida, ela andou para trás do chafariz… e não voltou. Mas Dave tinha motivo para acreditar que voltaria. Ele teve um vislumbre da força vital lá embaixo, não mais e nem menos. O coração forte batendo com beleza e desejo. Na próxima vez, ela chegaria mais perto.
V
Peter foi visitá-lo na semana seguinte, e eles foram jantar em um bom restaurante ali perto. Dave comeu bem e tomou duas taças de vinho. Deixaram-no consideravelmente animado. Quando a refeição terminou, ele tirou o relógio de prata de Ollie do bolso interno do paletó, enrolou a corrente pesada ao redor e empurrou por cima da toalha de mesa para o filho.
— O que é isso? — perguntou Peter.
— Foi presente de um amigo — respondeu Dave. — Ele me deu pouco antes de falecer. Quero que você fique com ele.
Peter tentou empurrá-lo de volta.
— Não posso aceitar isso, pai. É bonito demais.
— Na verdade, você estaria me fazendo um favor. Por causa da artrite. É difícil para mim dar corda, e em pouco tempo não vou conseguir mais. Essa porcaria tem uns cento e vinte anos, e um relógio que chegou tão longe merece funcionar o máximo de tempo possível. Então, por favor. Aceite.
— Bem, se você diz… — Peter pegou o relógio e o guardou no bolso. — Obrigado, pai. É lindo.
Na mesa ao lado, tão perto que Dave poderia ter esticado a mão e tocado nela, estava a ruiva. Não havia nenhum prato na frente dela, mas ninguém pareceu reparar. Àquela distância, Dave viu que a moça era mais do que bonita; era estonteante. Bem mais bonita do que a garota saindo da picape do namorado com a saia erguida momentaneamente, mas e daí? Esse tipo de revisão era, como o nascimento e a morte, o rumo natural das coisas. O trabalho da memória não era só lembrar o passado, mas melhorá-lo.
A ruiva puxou mais a saia dessa vez, revelando uma coxa longa e branca por um segundo. Talvez até dois. E deu uma piscadela.
Dave piscou de volta.
Peter se virou para olhar e só viu uma mesa de quatro lugares vazia com uma plaquinha de RESERVADA em cima. Quando se virou para o pai, as sobrancelhas estavam erguidas.
Dave sorriu.
— Tinha alguma coisa no meu olho. Já saiu. Por que você não pede a conta? Estou cansado e pronto para voltar para casa.
Pensando em Michael McDowell
Existe um ditado: “Se consegue se lembrar dos anos 1960 é porque não estava lá”. Baboseira, e eis um bom exemplo. Tommy não era o nome dele, e não foi ele que morreu, mas, fora isso, foi assim que aconteceu na época em que todos nós achávamos que íamos viver para sempre e mudar o mundo.