O Bazar dos Sonhos Ruins
Moralidade
I
Chad soube que tinha alguma coisa acontecendo assim que entrou. Nora já estava em casa. O horário dela era de onze às cinco da tarde, seis dias por semana. Normalmente, ele chegava da escola às quatro e estava com o jantar encaminhado quando ela chegava em casa, às seis.
Nora estava sentada na escadaria da saída de incêndio, aonde ele ia para fumar, e segurava uns papéis. Ele olhou para a geladeira e viu que o e-mail impresso tinha sumido de debaixo do ímã que o estava mantendo ali havia quase quatro meses.
— Oi — disse ela. — Vem cá. — Ela fez uma pausa. — Pode trazer seu cigarro, se quiser.
Chad tinha reduzido para um maço por semana, mas isso não fazia com que ela gostasse do hábito dele. A questão da saúde era parte do problema, mas o gasto era a parte que pesava mais. Cada cigarro eram quarenta centavos que viravam fumaça.
Ele não gostava de fumar perto dela, mesmo do lado de fora do apartamento, mas pegou o maço atual na gaveta embaixo do escorredor de pratos e colocou no bolso. Tinha algo de solene no rosto dela, que sugeria que ele talvez fosse querer fumar.
Ele saiu pela janela e se sentou ao lado dela. Nora tinha trocado de roupa e colocado uma calça jeans e uma das blusas velhas, então estava em casa havia um tempo. A situação estava cada vez mais estranha.
Olharam para o pedacinho deles da cidade por um tempo, sem falar nada. Ele a beijou, e ela sorriu de uma forma ausente. Nora estava com o e-mail do agente; também estava com a pasta que tinha O VERMELHO E O NEGRO escrito com letras maiúsculas. Uma piadinha dele, mas não muito engraçada. A pasta guardava os documentos financeiros deles: extratos de banco e do cartão de crédito, contas, seguros, e a linha de baixo era vermelha, não preta. Era uma história comum nos Estados Unidos atualmente, ele supunha. Não havia o bastante. Dois anos antes, eles falaram em ter um filho. Não tocavam mais no assunto. Só falavam em se livrar das dívidas e talvez juntar o bastante para sair da cidade sem credores nos calcanhares. Talvez se mudassem para a Nova Inglaterra. Mas ainda não. Pelo menos ali eles tinham trabalho.
— Como foi na escola? — perguntou ela.
— Bem.
Na verdade, o emprego era uma bênção. Mas depois que Anita Biderman voltasse da licença-maternidade, quem sabia? Provavelmente não haveria outro emprego na escola PS 321. Ele estava em uma boa posição na lista de substitutos, mas isso não queria dizer nada se todos os professores regulares estivessem presentes e bem.
— Você chegou cedo — disse ele. — Não me diga que Winnie morreu.
Ela pareceu levar um susto e deu outro sorriso. Mas eles estavam juntos havia dez anos, casados havia seis, e Chad já tinha visto aquele sorriso. Significava problemas.
— Nora?
— Ele me mandou cedo para casa. Para pensar. Tenho muito em que pensar. Eu… — Ela balançou a cabeça.
Ele a segurou pelos ombros e a virou.
— Você o quê? Está tudo bem com Winnie?
— Boa pergunta. Ande, acenda um. A luzinha de permitido fumar está acesa.
— Me conte o que está acontecendo.
Ela tinha sido cortada da equipe do Congress Memorial Hospital dois anos antes, durante uma “reestruturação”. Para a sorte da Corporação Chad-e-Nora, ela caiu de pé. Conseguir o emprego de enfermeira particular foi certa proeza: um paciente, um reverendo aposentado se recuperando de um derrame, trinta e seis horas por semana, salário decente. Ela ganhava mais do que ele, e por uma boa diferença. As duas rendas quase bastavam para sobreviver. Pelo menos, até Anita Biderman voltar.
— Primeiro, vamos falar sobre isto. — Ela mostrou o e-mail do agente. — Quanto você tem certeza?
— De que, de que consigo fazer o trabalho? Bastante. Quase cem por cento. Quer dizer, se eu tiver tempo. Quanto ao resto… — Ele deu de ombros. — Está bem aí, em preto e branco. Sem garantias.
Com a falta de contratação do momento nas escolas da cidade, ser substituto era o melhor que Chad podia fazer. Ele estava em todas as listas do sistema, mas não havia vaga de tempo integral para professor de quarto ou quinto ano no futuro próximo. Nem o dinheiro seria muito melhor se uma vaga abrisse, só seria mais confiável. Como substituto, ele às vezes passava semanas sem trabalho.
Por um tempo, dois anos antes, o desemprego durou três meses, e eles quase perderam o apartamento. Foi quando os problemas com os cartões de crédito começaram.
Por desespero e necessidade de ocupar as horas ociosas enquanto Nora estava cuidando do reverendo Winston, Chad começou a escrever um livro que intitulou de Vivendo com os animais: a vida de um professor substituto em quatro escolas públicas. As palavras não ocorriam a ele com facilidade, e havia dias em que não apareciam, mas, quando foi chamado para a St. Saviour para dar aulas para o segundo ano (o sr. Cardelli quebrou a perna em um acidente de carro), ele já tinha três capítulos prontos. Nora pegou as folhas de papel com um sorriso perturbado. Nenhuma esposa queria a função de dizer para o homem da sua vida que ele estava desperdiçando seu tempo.
Mas ele não estava. As histórias que contou sobre a vida de professor substituto eram fofas, engraçadas e muitas vezes emocionantes, bem mais interessantes que qualquer coisa que ela ouvia no jantar ou quando eles estavam deitados juntos na cama.
A maioria das cartas que Chad mandou para agentes não foi respondida. Alguns tiveram a cortesia de lhe enviar um bilhete dizendo “Desculpe, mas estou muito ocupado”. Ele finalmente encontrou um que pelo menos aceitou olhar as oitenta páginas que ele conseguiu arrancar do laptop Dell velho e capenga.
O nome do agente tinha um ar circense: Edward Ringling. A resposta ao texto de Chad tinha muitos elogios e poucas promessas. “Pode ser que eu consiga um contrato com base nesses capítulos e num esboço do resto”, escrevera Ringling, “mas seria um contrato bem pequeno, provavelmente por bem menos do que você ganha atualmente como professor, e você talvez se veja financeiramente pior do que está agora; é loucura, eu sei, mas o mercado atual está horrível.
“Sugiro que você escreva mais sete ou oito capítulos, possivelmente até o livro todo. Aí, posso levar a leilão e conseguir um contrato bem melhor.”
Fazia sentido, na opinião de Chad, se você estava vendo o mundo literário de um escritório confortável em Manhattan. Não muito se você estava pulando pelos bairros, dando uma semana de aula aqui e três dias ali, tentando se adiantar às contas. A carta de Ringling chegou em maio. Agora, era setembro, e apesar de Chad ter tido um verão relativamente bom dando aulas particulares (Deus abençoe os burrinhos, ele pensava às vezes), não tinha acrescentado uma única página que fosse ao manuscrito. Não era preguiça; dar aulas, mesmo quando era só como substituto, era como prender um par de cabos de chupeta em alguma parte crítica do cérebro. Era bom que as crianças conseguissem sugar energia daquela parte, mas sobrava bem pouco depois. Muitas noites, a coisa mais criativa que ele se via capaz de fazer era ler alguns capítulos do livro mais recente de Linwood Barclay.
Isso podia mudar se ele passasse mais dois ou três meses sem trabalho… só que alguns meses vivendo só com o salário da esposa acabariam com as reservas deles. E a ansiedade não ajudava em nada quando o assunto era empreendimentos literários.
— Quanto tempo demoraria para terminar? — perguntou Nora. — Se você escrevesse em tempo integral?
Ele pegou o maço e acendeu um dos cigarros. Sentiu uma vontade enorme de dar uma resposta otimista, mas superou-a. Ele não fazia ideia do que estava acontecendo com ela, mas Nora merecia a verdade.
— Oito meses pelo menos. Provavelmente um ano.
— E quanto você acha que ganharia em dinheiro se o sr. Ringling fizesse um leilão e as pessoas fossem?
Ringling não mencionou números, mas Chad tinha feito seu dever de casa.
— Talvez uns cem mil.
Um novo começo em Vermont, esse era o plano. Era sobre isso que eles conversavam deitados na cama. Uma cidade pequena, talvez em Northeast Kingdom. Ela podia arrumar um emprego no hospital da cidade ou conseguir outro particular; ele podia conseguir uma vaga de professor em tempo integral. Ou talvez escrever outro livro.
— Nora, para que essa conversa?
— Estou com medo de contar — disse ela —, mas vou. Mesmo sendo maluquice, eu vou, porque o número que Winnie mencionou era maior do que cem mil. Só uma coisa: não vou largar meu emprego. Ele disse que eu podia mantê-lo independentemente do que decidíssemos, e nós precisamos desse emprego.
Chad esticou a mão para pegar o cinzeiro de alumínio que deixava embaixo da janela e apagou o cigarro. Depois, segurou a mão dela.
— Pode contar.
Ele ouviu com surpresa, mas não descrença. Ele até queria não acreditar, mas acreditava.
Se alguém lhe perguntasse antes daquele dia, Nora teria dito que sabia pouco sobre o reverendo George Winston e que ele também não sabia quase nada sobre ela. Considerando sua proposta, Nora se deu conta de que tinha contado bastante coisa para ele. Sobre a situação financeira dela e de Chad, por exemplo. Sobre a chance que o livro do marido oferecia de tirá-los de tal situação também.
E o que ela sabia sobre Winston? Que ele era um solteirão inveterado, que, três anos depois da aposentadoria na Segunda Igreja Presbiteriana de Park Slope (onde ainda era listado no painel da igreja como pastor emérito), ele sofreu um derrame que o deixou parcialmente paralisado do lado direito do corpo. Foi quando Nora entrou na vida dele.
Winston agora conseguia andar até o banheiro (e, nos dias bons, até a cadeira de balanço na varanda) com a ajuda da órtese de plástico que impedia que o joelho ruim dobrasse. E conseguia falar de forma compreensível novamente, embora ainda sofresse às vezes do que Nora chamava de “língua dormente”. Ela tinha experiência com vítimas de derrame (foi o que lhe garantiu o emprego) e tinha muita admiração pelo quanto ele havia evoluído em tão pouco tempo.
Até o dia da proposta ultrajante, nunca ocorreu a ela que ele pudesse ser rico… embora a casa em que morasse devesse dar uma ideia. Se ela tinha concluído alguma coisa, era que a casa era um presente da paróquia, e que sua presença remunerada na vida dele também.
O trabalho dela era chamado de “cuidadora”, no último século. Além de deveres de enfermagem, como dar os remédios dele na hora certa e monitorar a pressão sanguínea, ela trabalhava como fisioterapeuta. Também era fonoaudióloga, massagista e, ocasionalmente, quando ele precisava escrever cartas, secretária. Ela fazia tarefas e às vezes lia para ele. Também não estava acima de pequenos serviços domésticos quando a sra. Granger precisava faltar. Nesses dias, ela fazia sanduíches ou omelete no almoço, e achava que tinha sido durante esses almoços que ele descobriu os detalhes de sua vida… e o fez com tanto cuidado e casualidade que Nora nem percebeu.
— A única coisa que eu me lembro de ter dito — contou ela para Chad —, e provavelmente só porque ele mencionou hoje, foi que não estávamos vivendo na extrema pobreza nem com desconforto… que era o medo de chegar a esse ponto que me incomodava.
Chad sorriu ao ouvir isso.
— A nós dois.
Naquela manhã, Winnie recusou o banho de esponja e a massagem. Mas pediu que ela colocasse a órtese e o ajudasse a ir até o escritório, o que era uma caminhada relativamente longa para ele, mais do que até a cadeira de balanço na varanda. Ele chegou lá, mas quando se sentou na cadeira atrás da escrivaninha estava com o rosto vermelho e ofegante. Ela pegou um copo de suco de laranja para ele, demorando bastante para o homem poder recuperar o fôlego. Quando voltou, Winnie tomou meio copo de uma vez.
— Obrigado, Nora. Quero falar com você agora. É uma coisa séria.
Ele devia ter visto a apreensão dela, porque sorriu e fez um gesto de descaso.
— Não é sobre seu emprego. Você vai ficar com ele de qualquer jeito. Se quiser. Se não quiser, vou oferecer uma carta de recomendação imbatível.
Era gentileza da parte dele, mas não havia muitos empregos como aquele por aí.
— Você está me deixando nervosa, Winnie — disse ela.
— Nora, você gostaria de ganhar duzentos mil dólares?
Ela olhou para ele, boquiaberta. Dos dois lados, prateleiras altas de livros complicados os encaravam. Os ruídos da rua estavam abafados. Eles podiam estar em outro país. Um país menos barulhento que o Brooklyn.
— Se você acha que o assunto é sexo, garanto que não é. Pelo menos, eu acho que não; se alguém quiser olhar mais fundo e essa pessoa tiver lido Freud, acho que qualquer ato anormal pode ter uma conotação sexual atrelada. Eu mesmo não sei. Não estudo Freud desde o seminário, e mesmo lá minha leitura foi superficial. Freud me ofendia. Parecia achar que qualquer sugestão de profundidade na natureza humana era ilusão. Parecia estar dizendo: O que você acha que é um poço artesiano pode muito bem ser só uma poça. Eu discordo. A natureza humana não tem fundo. É tão profunda e misteriosa quanto a mente de Deus.
Nora se levantou.
— Com todo o respeito, não sei se acredito em Deus. E não sei se essa é uma proposta que quero ouvir.
— Mas, se você não ouvir, não vai saber. E vai se questionar para sempre.
Ela ficou olhando para ele, sem saber o que fazer ou dizer. O que pensou foi: Essa escrivaninha à qual ele está sentado deve ter custado milhares de dólares. Foi a primeira vez que ela pensou nele em relação a dinheiro.
— Duzentos mil em dinheiro é o que estou oferecendo. O bastante para pagar todas as contas mais importantes, o bastante para permitir que seu marido termine o livro… o bastante, talvez, para começar uma nova vida em… era Vermont?
— Era. — Pensando: Se você sabe disso, estava ouvindo com bem mais atenção do que eu.
— E também não precisamos envolver a Receita Federal. — Ele tinha feições longas e cabelo branco feito algodão. Um rosto de ovelha, foi o que ela sempre pensou antes daquele dia. — Dinheiro em espécie pode ser bom assim, e não causa problema se for inserido lentamente no fluxo da conta da pessoa. Além disso, quando o livro do seu marido for vendido, e vocês estiverem estabelecidos na Nova Inglaterra, não precisamos nos ver nunca mais. — Ele fez uma pausa. — Se bem que, se você decidir não ficar, duvido que minha próxima enfermeira seja tão competente quanto você se mostrou ser. Por favor. Sente-se. Vou ficar com o pescoço dolorido.
Ela fez o que ele pediu. Foi a ideia de duzentos mil dólares em espécie que a manteve naquela sala. Nora percebeu que conseguia até ver: notas enfiadas em um envelope pardo. Ou talvez fosse preciso dois envelopes para guardar aquela quantia.
Acho que ia depender do valor das notas, pensou ela.
— Me deixe falar um pouco — disse ele. — Eu não fiz muito isso, não é? Em geral, só escuto. É sua vez de escutar agora, Nora. Você pode escutar?
— Acho que sim. — Ela estava curiosa. Achava que qualquer um ficaria. — Quem você quer que eu mate?
Era piada, mas assim que saiu de sua boca, ela teve medo de ser verdade. Porque não pareceu piada. Assim como os olhos no rosto comprido de ovelha não pareciam mais olhos de ovelha.
Para o alívio dela, Winnie riu. E disse:
— Não é assassinato, minha querida. Não vamos precisar ir tão longe.
Ele falou em seguida, como nunca tinha falado antes. Para ninguém, provavelmente.
— Eu cresci em um lar rico em Long Island. Meu pai teve sucesso no mercado de ações. Era um lar religioso, e quando eu contei para os meus pais que sentia um chamado para o clero, não houve bufadas nem reclamações sobre o negócio da família. Ao contrário, eles ficaram felizes da vida. Minha mãe particularmente. A maioria das mães fica feliz, eu acho, quando os filhos descobrem uma vocação com V maiúsculo.
“Fiz seminário no norte de Nova York, e depois fui enviado como pastor assistente para uma igreja em Idaho. Nunca me faltou nada. Os presbiterianos não fazem voto de pobreza, e meus pais cuidaram para que eu nunca tivesse que viver como se tivesse feito um. Meu pai viveu apenas cinco anos a mais do que a minha mãe, e, quando faleceu, eu herdei muito dinheiro, a maior parte em apólices e ações. Nos anos seguintes, converti uma pequena porcentagem disso em dinheiro, um pouco de cada vez. Não um pé de meia, porque nunca precisei de um, mas o que eu chamaria de uma meinha soquete. Está em um cofre de Manhattan, e é esse dinheiro que estou oferecendo a você, Nora. Talvez esteja bem perto de duzentos e quarenta mil dólares, mas vamos combinar de não discutir por causa de um dólar a mais ou a menos, certo?
“Viajei alguns anos pelo interior antes de voltar para o Brooklyn e para a Segunda Presbiteriana. Depois de cinco anos como assistente, me tornei pastor sênior. Servi como tal, sem mazelas, até 2006. Minha vida foi, e falo sem orgulho nem vergonha, de uma contribuição irrelevante. Organizei minha igreja para ajudar os pobres, tanto em países distantes quanto nesta comunidade. O AA da região foi ideia minha, e já ajudou centenas de viciados e alcoólatras em sofrimento. Já reconfortei doentes e enterrei mortos. Em uma nota mais alegre, já celebrei mais de mil casamentos e inaugurei um fundo de bolsas de estudos que mandou muitos garotos e garotas para a faculdade, que eles não teriam como pagar. Uma das garotas com a nossa bolsa de estudos ganhou um National Book Award em 1999.
“Meu único arrependimento é o seguinte: em todos os meus anos, eu nunca cometi nenhum dos pecados sobre os quais passei a vida alertando meus vários rebanhos. Não sou um homem de luxúria, e como nunca me casei, nunca tive a oportunidade de cometer adultério. Não sou glutão por natureza, e apesar de gostar de coisas boas, nunca fui ganancioso nem cobiçoso. Por que seria quando meu pai me deixou quinze milhões de dólares? Eu trabalhei arduamente, controlei meu temperamento, não invejei ninguém, exceto, talvez, Madre Teresa, e tenho pouco orgulho de bens e posição.
“Não estou alegando que não tenho pecados. Não é isso. Os que podem dizer, e imagino que sejam poucos, que nunca pecaram em atos e em palavras não podem dizer que nunca pecaram em pensamento, não é? A igreja apara todas as arestas. Nós exibimos o paraíso e fazemos as pessoas entenderem que elas não têm esperança de conseguir ir para lá sem a nossa ajuda… porque ninguém é desprovido de pecado, e o preço do pecado é a morte.
“Imagino que isso me faça parecer descrente, mas, da forma como fui criado, a descrença é tão impossível para mim quanto a levitação. Mas entendo a natureza fraudulenta da barganha e os truques psicológicos que os crentes usam para garantir a prosperidade dessas crenças. O chapéu chique do papa não foi dado a ele por Deus, mas por homens e mulheres pagando dinheiro de chantagem teológica.
“Consigo ver que você está ficando agitada, então vou direto ao ponto. Quero cometer um grande pecado antes de morrer. Um pecado não de pensamento nem de palavra, mas de ato. Isso estava na minha mente, cada vez mais forte, antes do meu derrame, mas achei que era apenas um delírio passageiro. Agora, vejo que não vai passar, porque a ideia está mais poderosa agora do que nos últimos três anos. Mas que grande pecado um homem idoso pode cometer preso em uma cadeira de rodas, eu me perguntei? Não um muito grande, ao menos não sem ser pego, e eu preferiria não ser pego. Assuntos graves como pecado e perdão deviam ficar entre o homem e Deus.
“Quando ouvi você falar sobre o livro do seu marido e sobre sua situação financeira, me ocorreu que eu poderia pecar por procuração. Na verdade, eu poderia dobrar o quociente do meu pecado transformando você em cúmplice.”
— Acredito em fazer coisas erradas, Winnie, mas não acredito em pecado — ela falou com a boca seca.
Ele sorriu. Foi um sorriso benevolente. E também desagradável: lábios de ovelha, dentes de lobo.
— Tudo bem. Mas o pecado acredita em você.
— Entendo que você ache isso… mas, por quê? É perverso!
O sorriso dele se alargou.
— Sim! É por isso! Quero saber como é fazer uma coisa totalmente contra minha natureza. Precisar de perdão pelo ato e por algo pior do que o ato. Você sabe o que duplica o pecado, Nora?
— Não. Eu não frequento a igreja.
— O que duplica o pecado é dizer para si mesmo: vou fazer isso porque sei que posso rezar e pedir perdão no fim. Dizer para si mesmo que você pode ficar com o melhor dos dois mundos. Quero saber como é estar afundado em pecado. Não quero molhar os pés; quero mergulhar de cabeça.
— E me levar junto! — falou ela com indignação verdadeira.
— Ah, mas você não acredita em pecado, Nora. Você acabou de dizer. Do seu ponto de vista, só quero que você faça um trabalhinho sujo. E corra o risco de ser presa, eu acho, apesar de o risco provavelmente ser pequeno. Por essas coisas, vou pagar duzentos mil dólares. Mais de duzentos mil dólares.
O rosto e a as mãos dela pareciam dormentes, como se tivesse acabado de voltar de uma longa caminhada no frio. Ela não faria nada, claro. O que faria seria sair da casa e tomar ar fresco. Não pediria demissão, ao menos não imediatamente, porque precisava do emprego, mas sairia dali. E se ele a demitisse por abandono de trabalho, que demitisse. Mas primeiro, queria ouvir o resto. Não admitiria para si mesma que estava tentada, mas curiosa? Sim, isso ela admitia.
— O que você quer que eu faça?
***
Chad tinha acendido outro cigarro. Ela fez sinal com os dedos.
— Me dá uma tragada.
— Nora, você não fuma há cinco…
— Me dá uma tragada, já pedi.
Ele passou o cigarro para ela. Ela tragou fundo, tossiu a fumaça. E contou para ele.
Naquela noite, ela ficou deitada sem conseguir dormir até a madrugada, segura de que Chad estava dormindo, e por que não estaria? A decisão tinha sido tomada. Ela diria não para Winnie e jamais voltaria a falar naquela ideia. Decisão tomada; o sono viria em seguida.
Mas Nora não ficou totalmente surpresa quando o marido se virou para ela e disse:
— Não consigo parar de pensar sobre isso.
Nora também não.
— Eu faria, sabe. Por nós. Se…
Agora, eles estavam cara a cara. Perto o bastante para sentir o bafo um do outro. Eram duas da manhã.
A hora da conspiração, se é que isso existe, pensou ela.
— Se?
— Se eu não achasse que ia macular nossas vidas. Algumas manchas não saem.
— É uma questão hipotética, Nora. Nós já decidimos. Você vai bancar a Sarah Palin e dizer a ele que obrigada, mas não, obrigada por essa ponte para o nada. Eu vou arrumar um jeito de terminar o livro sem essa ideia maluca de subsídio.
— Quando? Na sua próxima licença sem vencimento? Acho que não.
— Está decidido. Ele é um velho caduco. Fim.
Ele rolou para o lado e ficou de costas para ela.
O silêncio se espalhou. No andar de cima, a sra. Reston (cuja foto devia estar no dicionário ao lado do verbete insônia) andou de um lado para outro. Em algum lugar, talvez nas profundezas escuras de Gowanus, uma sirene soou.
Quinze minutos se passaram até Chad falar, virado para a mesinha com o relógio digital, que agora dizia 2:17AM.
— Além disso, nós teríamos que confiar nele em relação ao dinheiro, e não dá para confiar em um homem cuja última ambição na vida é cometer um pecado.
— Mas eu confio nele — respondeu Nora. — É em mim que não confio. Vá dormir, Chad. O assunto está encerrado.
— Certo — disse ele. — Entendi.
O relógio dizia 2:26AM quando ela disse:
— Dá para fazer. Disso eu tenho certeza. Eu poderia mudar a cor do meu cabelo. Usar um chapéu. Óculos escuros, claro. O que significaria que teria que ser em um dia de sol. E teria que haver uma rota de fuga.
— Você está mesmo…
— Não sei! Duzentos mil dólares! Eu teria que trabalhar quase três anos para ganhar esse dinheiro, e depois que o governo e os bancos sugassem a parte deles, não sobraria quase nada. Nós sabemos como isso funciona.
Ela ficou em silêncio por um tempo, olhando para o teto acima do qual a sra. Reston percorria seus lentos quilômetros.
— E o plano de saúde! — disse ela, de repente. — Sabe qual é a nossa cobertura? Nenhuma.
— Nós temos plano de saúde.
— Tá, quase nenhuma. E se você fosse atropelado por um carro? E se eu aparecesse com um cisto no ovário?
— Nossa cobertura é boa.
— É o que todo mundo diz, mas o que todo mundo sabe é que a gente sempre se fode na hora H! Com isso, poderíamos ficar tranquilos. É nisso que fico pensando. Nós… poderíamos… ficar… tranquilos!
— Mas duzentos mil dólares fazem minhas esperanças financeiras para o livro parecerem meio pequenas, não acha? Por que me dar ao trabalho?
— Porque isso seria uma vez só. E o livro seria dinheiro limpo.
— Limpo? Você acha que o livro seria dinheiro limpo? — Ele rolou de lado e olhou para ela. Chad tinha ficado um pouco duro, então talvez aquilo fosse em parte sobre sexo. No lado deles da negociação, pelo menos.
— Você acha que eu vou conseguir outro emprego como o que tenho com Winnie? — Nora estava com raiva, embora se dele ou se dela mesma não soubesse dizer. Nem se importava. — Vou fazer trinta e seis anos em dezembro. Você vai me levar para jantar e, uma semana depois, vou ganhar meu verdadeiro presente: um aviso de vencimento estourado do pagamento da última parcela do carro.
— Você está me culpando por…
— Não. Não estou nem culpando o sistema que deixa a gente e todo mundo igual à gente vivendo no limite. A culpa é contraproducente. E falei a verdade para Winnie: eu não acredito em pecado. Mas também não quero ir para a prisão. — Ela sentiu lágrimas surgindo nos olhos. — Também não quero machucar ninguém. Principalmente uma…
— Você não vai.
Ele começou a se virar, mas ela segurou o ombro dele.
— Se nós fizéssemos, se eu fizesse, nós nunca poderíamos falar sobre o assunto depois. Nem uma vez.
— Não.
Ela esticou os braços para ele. Em casamentos, acordos eram selados com mais do que um aperto de mãos. Os dois sabiam disso.
O relógio marcava 2:58AM, e ele estava quase adormecendo quando ela disse:
— Você conhece alguém que tenha uma câmera? Porque ele quer…
— Conheço — disse ele. — Charlie Green.
Depois disso, silêncio. Exceto pela sra. Reston, andando lentamente de um lado para outro acima deles. Nora tinha uma imagem, meio que de sonho, da sra. Reston com um pedômetro preso na cintura da calça do pijama. A sra. Reston andando pacientemente todos aqueles quilômetros entre ela e o amanhecer.
Nora adormeceu.
No dia seguinte, no escritório de Winnie.
— E então? — perguntou ele.
A mãe dela nunca frequentou a igreja, mas Nora foi à Escola Bíblica de Férias em todos os verões e gostava de lá. Havia jogos e músicas e histórias com bonecos de feltro. Ela se viu lembrando uma dessas histórias. Não pensava nela havia anos.
— Eu não teria que machucar a… você sabe, a pessoa… para conseguir o dinheiro? — perguntou ela. — Quero deixar isso bem claro.
— Não, mas espero ver sangue correndo. Quero deixar isso bem claro. Quero que você use o punho, mas um lábio cortado ou nariz sangrando já bastam.
Em uma história da escola, a professora colocou uma montanha no quadro de feltro. Depois, Jesus e um cara com chifres. A professora disse que o diabo tinha levado Jesus até o alto de uma montanha e mostrara a ele todas as cidades da terra. Você pode ter tudo que quiser dessas cidades, disse o diabo. Todos os tesouros. Só precisa se ajoelhar e me idolatrar. Mas Jesus era um cara que gostava de ficar de pé. Ele respondera: Afasta-te, Satanás.
— E então? — perguntou ele de novo.
— Pecado — refletiu ela. — É isso que está na sua cabeça.
— Um pecado pelo pecado em si. Deliberadamente planejado e executado. Você acha a ideia empolgante?
— Não — respondeu Nora, olhando para as estantes lotadas.
Winnie deixou um tempo passar e disse pela terceira vez:
— E então?
— Se eu for pega, ainda vou receber o dinheiro?
— Se você cumprir sua parte do acordo e não me implicar, claro que vai receber. E mesmo que fosse pega, o pior que poderia resultar para você seria liberdade condicional.
— E uma avaliação psiquiátrica determinada pelo tribunal — disse ela. — Da qual eu devo mesmo precisar só por considerar fazer isso.
Winnie disse:
— Se você continuar como está, querida, vai precisar de um conselheiro matrimonial, no mínimo. Na minha época na igreja, eu conversei com muitos casais, e apesar de as preocupações com dinheiro não serem sempre a causa dos problemas, eram na maioria dos casos. E eram só isso.
— Obrigada por compartilhar sua experiência, Winnie.
Ele não disse nada sobre isso.
— Você é maluco, sabia?
Ele continuou em silêncio.
Ela olhou mais um pouco para os livros. A maioria era sobre religião. Finalmente, voltou a encará-lo.
— Se eu fizer essa merda e você der pra trás, vai se arrepender.
Ele não demonstrou incômodo com a escolha de linguagem dela.
— Vou honrar meu compromisso. Pode ter certeza disso.
— Você fala quase perfeitamente agora. Não tem nem mais ceceio, a não ser que esteja cansado.
Ele deu de ombros.
— A convivência treinou seu ouvido. É como aprender uma nova língua, eu acho.
Ela voltou o olhar para os livros. Um dele se chamava O problema do Bem e do Mal. Outro se chamava Fundamentos da moralidade. Este era bem grosso. No corredor, um velho relógio Regulator batia de forma cadenciada. Ele acabou repetindo:
— E então?
— Propor isso para mim não é pecado suficiente para satisfazer você? Está tentando nós dois, e nós dois estamos considerando cair em tentação. Isso não basta?
— É pecado em pensamento e em palavra apenas. Não vai satisfazer minha curiosidade.
O Regulator bateu. Sem olhar para ele, Nora disse:
— Se você disser e então de novo, vou embora daqui.
Ele não disse e então nem mais nada. Ela olhou para as mãos se retorcendo no colo. O mais impressionante: parte dela ainda estava curiosa. Não sobre o que ele queria, isso ela já sabia, mas sobre o que ela queria.
Por fim, levantou o rosto e deu sua resposta.
— Excelente — disse Winnie.
Com a decisão tomada, nenhum dos dois queria o ato verdadeiro pairando acima de suas cabeças; a sombra que fazia era grande demais. Eles escolheram o Forest Park, no Queens. Chad pegou a câmera de Charlie Green emprestada e aprendeu a usar. Eles foram ao parque duas vezes antes (em dias chuvosos, quando ficava praticamente vazio), e Chad filmou a área que escolheram. Fizeram muito sexo nesse período, sexo nervoso, sexo desajeitado, do tipo que os adolescentes faziam no banco de trás do carro, mas um sexo bom. Sensual, pelo menos. Nora percebeu seus outros apetites diminuindo. Nos dez dias entre a hora em que aceitou e a manhã em que executou sua parte do acordo, ela perdeu quatro quilos. Chad disse que ela estava começando a parecer uma universitária de novo.
Em um dia de sol no começo de outubro, Chad estacionou o Ford deles na avenida Jewel. Nora estava sentada no carona, com o cabelo pintado de ruivo cortado na altura dos ombros, nada parecida com Nora, com uma saia longa e uma bata marrom feia. Estava usando óculos de sol e um boné do Mets. Parecia calma, mas, quando Chad esticou a mão para tocá-la, ela se encolheu.
— Nora, calm…
— Você tem dinheiro para o táxi?
— Tenho.
— E uma bolsa onde guardar a câmera?
— Tenho, claro.
— Então me dê a chave do carro. Vejo você em casa.
— Tem certeza de que vai conseguir dirigir? Porque a reação a uma coisa assim…
— Eu vou ficar bem. Me dê a chave. Espere quinze minutos. Se alguma coisa der errado… se alguma coisa parecer errada… eu volto. Se eu não voltar, vá para o lugar que escolhemos. Você lembra qual é?
— É claro que lembro!
Ela sorriu; mostrou os dentes e as covinhas, pelo menos.
— É assim que eu gosto — disse ela, e saiu.
Foram excruciantes quinze minutos, mas Chad esperou cada um deles. Crianças, todas usando capacetes, passaram de bicicleta. Mulheres andavam em duplas, muitas com sacolas de compras. Ele viu uma senhora idosa atravessando a avenida com dificuldade, e por um momento surreal achou que era a sra. Reston, mas, quando ela passou, viu que não era. Essa mulher era bem mais velha que a sra. Reston.
Quando os quinze minutos estavam quase acabando, ocorreu a ele, de uma forma sã e racional, que podia pôr um fim naquilo tudo indo embora. No parque, Nora olharia ao redor e não o veria. Seria ela quem pegaria o táxi de volta para o Brooklyn. E, quando chegasse lá, agradeceria. Ela diria: Você me salvou de mim mesma.
Depois disso? Um mês de folga. Nada de aulas como substituto. Ele dedicaria todos os seus recursos para terminar o livro. Lutaria contra o moinho.
Em vez disso, Chad saiu do carro e andou até o parque segurando a câmera de Charlie. O saco de papel que a guardaria depois estava enfiado no bolso do casaco. Ele verificou três vezes para ter certeza de que a luzinha verde da câmera estava acesa. Como seria terrível passar por tudo aquilo só para descobrir que não havia ligado a câmera. Ou que tinha deixado a tampa na lente.
Ele verificou isso de novo também.
Nora estava sentada em um banco do parque. Quando o viu, colocou uma mecha de cabelo atrás da orelha esquerda. Era o sinal. Estava valendo.
Às suas costas havia um parquinho: balanços, um carrossel, gangorras, cavalinhos sobre molas, esse tipo de coisa. Àquela hora, só havia algumas crianças brincando. As mães estavam em um grupo do outro lado, conversando e rindo, sem prestar muita atenção aos filhos.
Nora se levantou do banco.
Duzentos mil dólares, pensou ele, e levou a câmera ao olho. Agora que estava acontecendo, se sentia calmo.
Ele filmou como um profissional.
II
De volta ao prédio, Chad subiu a escada correndo. Tinha certeza de que a esposa não estaria lá. Ele a tinha visto fugir correndo a toda, mas as mães mal olharam para ela; estavam indo na direção da criança que ela escolheu, um garoto de uns quatro anos. Mas Chad tinha certeza de que ela não estaria lá e que a qualquer momento receberia uma ligação dizendo que sua esposa estava na delegacia, onde desmoronara e contara tudo, inclusive a participação dele. Pior, a participação de Winnie, garantindo assim que tudo aquilo tinha sido à toa.
Sua mão tremia tanto que ele não conseguiu enfiar a chave na fechadura; a ponta ficou batendo loucamente ao redor do buraco sem nem chegar perto. Estava colocando o saco de papel (agora muito amassado) com a câmera no chão para firmar a direita com a esquerda quando a porta se abriu.
Nora estava usando um short feito de uma calça jeans velha cortada e uma camiseta, as roupas que tinha colocado por baixo da saia longa e da bata. O plano era ela trocar de roupa no carro, antes de sair dirigindo. Ela disse que podia fazer isso rapidinho, e parecia que tinha razão.
Chad a abraçou com tanta força que ouviu o barulho quando Nora se chocou contra ele; não era exatamente um abraço romântico.
Nora aguentou isso por um momento antes de dizer:
— Entre. Saia do corredor. — Assim que a porta para o mundo exterior se fechou, ela perguntou: — Você conseguiu gravar? Diga que sim. Estou aqui há quase meia hora, andando de um lado para outro como a sra. Reston no meio da noite… Se a srta. Reston andasse rápido, quer dizer… querendo saber…
— Eu também estava preocupado. — Ele afastou o cabelo da testa, onde a pele estava quente e febril. — Nora, eu estava morrendo de medo.
Ela arrancou o saco de papel das mãos dele, olhou lá dentro e depois encarou o marido. Tinha tirado os óculos escuros. Os olhos azuis ardiam.
— Diga que filmou tudo.
— Filmei. Quer dizer, acho que filmei. Ainda não olhei.
O olhar ficou mais inflamado. Ele pensou: Cuidado, Nora, seus olhos vão pegar fogo se continuar fazendo isso.
— É melhor que tenha filmado. É melhor que tenha. O tempo em que eu não estava andando de um lado para outro, estava no banheiro. Fico tendo cólicas… — Ela foi até a janela e olhou para fora. Chad se juntou a ela, com medo de Nora saber alguma coisa de que ele não sabia. Mas só havia os pedestres de sempre andando lá embaixo.
Ela se virou para ele de novo e, desta vez, o segurou pelos braços. As palmas das mãos estavam geladas.
— Ele está bem? O menino? Você viu se ele estava bem?
— Ele está bem — disse Chad.
— Você está mentindo? — Ela já estava gritando a esse ponto. — É melhor não estar! Ele estava bem?
— Estava. O menino se levantou antes de as mães chegarem até lá. Estava chorando pra caramba, mas já passei por coisa pior na idade dele quando um balanço acertou a parte de trás da minha cabeça. Tive que ir para a emergência e tomei cinco pon…
— Bati nele com muito mais força do que pretendia. Morri de medo de que, se eu hesitasse na hora do soco… se Winnie visse que eu aliviei a barra… ele não pagaria o prometido. E a adrenalina… meu Deus! É um milagre eu não ter arrancado a cabeça daquele pobre menino fora! Por que fiz aquilo? — Mas Nora não estava chorando nem parecia estar com remorso. Parecia furiosa. — Por que você me deixou?
— Eu nunca…
— Tem certeza de que ele está bem? Você viu mesmo o menino se levantando? Porque eu bati nele com bem mais força do que… — Ela se afastou até a parede, bateu com a testa nela e se virou. — Eu fui até um parquinho e dei um soco em uma criança de quatro anos bem na boca! Por dinheiro!
Chad teve uma ideia.
— Acho que eu filmei. O menino se levantando, quer dizer. Veja você mesma.
Ela correu de volta pela sala.
— Coloque na TV! Quero ver!
Chad conectou o cabo que Charlie tinha emprestado para ele. Depois de algumas tentativas, conseguiu botar a filmagem para passar na TV. Ele tinha mesmo gravado o garoto se levantando, logo antes de desligar a câmera e sair andando. O garoto parecia atordoado, e claro que estava chorando, mas parecia bem. Os lábios estavam sangrando à beça, mas o nariz só um pouco. Chad achou que isso tinha sido culpa da queda.
Não é pior que qualquer acidente normal de parquinho, pensou ele. Milhares acontecem todos os dias.
— Está vendo? — perguntou ele. — Ele está b…
— Passe de novo.
Ele passou. E quando ela pediu para ele passar uma terceira vez, depois uma quarta e uma quinta, Chad obedeceu. Em determinado ponto, ele percebeu que Nora não estava mais assistindo à filmagem para ver o garotinho se levantar. Nem ele. Estavam vendo o garotinho cair. E o soco. O soco dado pela vaca ruiva de óculos escuros. A que foi até lá, fez o que tinha que fazer e deixou a cena mais rápido que um raio.
Ela disse:
— Acho que quebrei um dente dele.
Chad deu de ombros.
— A fada do dente vai adorar.
Depois da quinta vez, Nora disse:
— Quero tirar o ruivo do meu cabelo. Eu odiei.
— Tudo bem…
— Mas primeiro, me leve para o quarto. E não fale nada. Só faça.
Ela ficava falando para ele ir mais forte, quase o agredindo com o movimento dos quadris, como se quisesse derrubá-lo. Mas não conseguia chegar ao orgasmo.
— Me bate — pediu ela.
Ele bateu. Estava longe da racionalidade.
— Você consegue fazer melhor do que isso. Bate direito, porra!
Ele bateu com mais força. O lábio inferior dela se abriu. Ela passou os dedos no sangue. Quando fez isso, gozou.
— Mostre para mim — disse Winnie.
Isso foi no dia seguinte. Estavam no escritório dele.
— Me mostre o dinheiro. — Uma frase famosa. Ela só não conseguia se lembrar de onde a conhecia.
— Depois que eu vir o vídeo.
A câmera ainda estava no saco amassado. Ela a pegou junto com o cabo. Ele tinha uma TV pequena no escritório, e ela ligou o cabo no aparelho. Nora apertou o play, e eles viram a mulher de boné do Mets sentada num banco de praça. Atrás dela, algumas crianças brincavam. Atrás delas, mães conversavam besteiras de mãe: dicas de emagrecimento, que peças viram ou iam ver, o carro novo, as próximas férias. Blá-blá-blá.
A mulher se levantou do banco. O vídeo deu um zoom tremido. A imagem ficou meio borrada, mas recuperou o foco.
Foi nessa hora que Nora apertou o pause. Foi ideia de Chad, e ela concordou. Ela confiava em Winnie, mas só até certo ponto.
— Quero ver o dinheiro.
Winnie pegou uma chave no bolso do cardigã que estava usando. Com ela, abriu a gaveta do meio da escrivaninha e passou a usar a mão esquerda quando a direita, parcialmente paralisada, não obedeceu à ordem dele.
Não era um envelope, no fim das contas. Era uma caixa média do Federal Express. Ela olhou dentro e viu notas de cem amontoadas, cada montinho preso com um elástico.
Ele disse:
— Está tudo aí e um pouquinho mais.
— Tudo bem. Veja o que você comprou. É só apertar o play. Eu vou esperar na cozinha.
— Você não quer ver comigo?
— Não.
— Nora? Você parece ter sofrido um pequeno acidente. — Ele deu tapinhas no canto da própria boca, o lado que ainda estava um pouco caído.
Ela achou que ele tinha cara de ovelha? Como foi burra. Como foi cega. Também não era cara de lobo, não de verdade. Era alguma coisa entre os dois. Cara de cachorro, talvez. O tipo de cachorro que morderia alguém e sairia correndo.
— Eu dei de cara com uma porta — respondeu ela.
— Entendi.
— Tudo bem, eu vejo com você.
Nora se sentou. Ela mesma apertou o play.
Eles assistiram ao vídeo duas vezes, em silêncio. O vídeo inteiro tinha aproximadamente trinta segundos. Isso dava cerca de seis mil e seiscentos dólares por segundo. Nora fez a conta enquanto os dois assistiam.
Depois da segunda vez, ele apertou o stop. Ela mostrou a ele como ejetar a pequena fita cassete.
— Isto é seu. A câmera tem que voltar para o cara de quem meu marido pegou emprestada.
— Eu entendo. — Os olhos dele brilhavam. Parecia que Winnie tinha obtido aquilo pelo que pagara. O que queria. Incrível. — Vou mandar a sra. Granger comprar outra câmera para mim, para futuras exibições. Ou talvez seja uma tarefa que você prefira executar.
— Não. Nós acabamos aqui.
— Ah… — Ele não pareceu surpreso. — Tudo bem. Mas… se posso fazer uma sugestão… você talvez devesse arrumar outro emprego logo. Para ninguém achar estranho quando as contas começarem a ser pagas em um ritmo mais rápido. Estou pensando no seu bem, minha querida.
— Tenho certeza de que está.
Ela soltou o cabo e o guardou no saco com a câmera.
— E eu não partiria para Vermont tão cedo.
— Não preciso dos seus conselhos. Eu me sinto suja, e a culpa é sua.
— Imagino que seja. Mas você não vai ser pega e ninguém nunca vai saber. — O lado direito da boca dele estava repuxado para baixo, o lado esquerdo erguido no que poderia ter sido um sorriso. O resultado era um S serpenteando embaixo do nariz fino. A fala dele estava bem clara naquele dia. Ela se lembraria disso e pensaria sobre o assunto. Como se o que ele chamasse de pecado na verdade fosse terapia. — E, Nora… se sentir suja é sempre uma coisa ruim?
Ela não sabia o que responder. E achava que isso por si só já era uma resposta.
— Eu só pergunto porque, na segunda vez que passou a fita, eu observei você em vez da imagem.
Ela pegou o saco com a câmera de Charlie Green e foi até a porta.
— Tenha uma boa vida, Winnie. Lembre-se de contratar uma terapeuta de verdade além de uma enfermeira da próxima vez. Seu pai deixou dinheiro suficiente para você pagar pelas duas coisas. E cuide dessa fita. Pelo bem de nós dois.
— É impossível identificar você nela, querida. E, mesmo que fosse possível, acha que alguém se importaria? — Ele deu de ombros. — Não exibe estupro nem assassinato, afinal.
Ela parou na porta, querendo ir embora, mas curiosa. Ainda curiosa.
— Winnie, como você vai se acertar com seu Deus? Quanto tempo vai ter que rezar até ser perdoado?
Ele riu.
— Se um pecador tão absurdo quanto são Pedro conseguiu fundar a Igreja Católica, imagino que eu vá ficar bem.
— É, mas são Pedro guardou a fita para ver nas noites frias de inverno?
Isso o calou, e Nora saiu antes que Winnie pudesse recuperar a voz. Era uma pequena vitória, mas se agarrou a ela com vontade.
Uma semana depois, ele ligou para o apartamento e disse que ela era bem-vinda para voltar, ao menos até ela e Chad se mudarem para Vermont. Ele não tinha contratado outra pessoa e, se houvesse qualquer possibilidade de Nora mudar de ideia, não contrataria.
— Sinto sua falta, Nora.
Ela não respondeu.
Ele baixou a voz.
— Nós poderíamos ver a fita de novo. Você não gostaria disso? Não gostaria de ver de novo, pelo menos mais uma vez?
— Não — respondeu Nora, e desligou. Ela seguiu na direção da cozinha para fazer chá, mas uma onda de náusea tomou conta dela. Sentou-se no canto da sala e apoiou a cabeça nos joelhos dobrados. Esperou a tontura passar. E com o tempo, passou.
Nora arrumou o emprego de cuidadora da sra. Reston. Eram só vinte horas semanais, e o pagamento não era nada parecido com o que ela ganhava como funcionária do reverendo Winston, mas dinheiro não era mais um problema, e o transporte era fácil: um lance de escadas. O melhor de tudo, a sra. Reston — que sofria de diabetes e de problemas cardíacos leves — era fofa e bobinha. Mas, às vezes, principalmente durante os monólogos eternos relacionados ao falecido marido, a mão de Nora coçava para dar um tapa nela.
Chad manteve o nome na lista de substitutos, mas diminuiu o número de horas. Separou seis horas livres por fim de semana para trabalhar em Vivendo com os animais, e as páginas começaram a se amontoar.
Uma ou duas vezes, ele se perguntou se as páginas dos fins de semana eram tão boas, tão intensas, quanto o trabalho que fez antes daquele dia com a câmera, e se convenceu de que a pergunta só surgiu porque uma noção antiga e falsa de retribuição estava alojada na mente dele. Como uma casca de pipoca presa entre dois dentes.
Doze dias depois do fatídico dia no parque, alguém bateu à porta do apartamento. Quando Nora abriu, havia um policial parado ali.
— Sim, policial? — perguntou ela.
— A senhora é Nora Callahan?
Ela pensou calmamente: Vou confessar tudo. E depois que as autoridades tiverem feito o que quer que façam comigo, vou procurar a mãe daquele menino, oferecer a cara e dizer: “Bata em mim com vontade, mamãe. Você vai fazer um favor a nós duas”.
— Sim, sou a sra. Callahan.
— Senhora, vim aqui a pedido da filial Walt Whitman da Biblioteca Pública do Brooklyn. Você tem quatro livros da biblioteca com quase dois meses de atraso, e um é bem valioso. Um livro de arte, acredito. De circulação limitada.
Ela olhou para ele, boquiaberta, depois caiu na gargalhada.
— Você é policial da biblioteca?
Ele tentou ficar sério, mas também começou a rir.
— Hoje, parece que sou. A senhora está com os livros?
— Sim, eu me esqueci completamente deles. Você acompanharia uma moça até a biblioteca, policial… — Ela olhou para a plaquinha com o nome dele. — Abramowitz?
— Com prazer. Mas leve o talão de cheques.
— Talvez aceitem meu Visa — disse ela.
Ele sorriu.
— É bem provável.
Naquela noite, na cama.
— Bate! — Como se não fosse fazer amor que ela tinha em mente, mas sim algum jogo de buraco saído de pesadelos.
— Não.
Nora estava em cima dele, o que facilitou o movimento do braço dela para baixo, para bater nele. O som da palma da mão na bochecha de Chad foi como o estalo de uma espingarda de ar comprimido.
— Eu mandei você bater em mim! Bate em…
Chad deu um tapa nela sem pensar. Ela começou a chorar, mas ele estava endurecendo embaixo dela. Ótimo.
— Agora, me come.
Ele comeu. Lá fora, um alarme de carro disparou.
Eles se mudaram para Vermont em janeiro. Foram de trem. Era lindo, como um cartão-postal. Eles encontraram uma casa da qual os dois gostaram, a uns trinta quilômetros de Montpelier. Foi a terceira que foram visitar.
O nome da corretora imobiliária era Jody Enders. Ela era agradável, mas não parava de encarar o olho direito de Nora. Por fim, Nora explicou, com uma risadinha constrangida:
— Eu escorreguei no gelo quando estava entrando no táxi. Você devia ter me visto semana passada. Eu parecia um panfleto sobre violência doméstica.
— Nem dá para ver direito — comentou Jody Enders. E depois, timidamente: — Você é muito bonita.
Chad passou o braço pelos ombros de Nora.
— Eu também acho.
— Com o que trabalha, sr. Callahan?
— Eu sou escritor.
Eles deram entrada no pagamento da casa. No contrato, Nora marcou FINANCIAMENTO DIRETO COM O DONO. No campo DETALHES, ela escreveu simplesmente: Economias.
Em fevereiro, enquanto estavam arrumando as coisas para a mudança, Chad foi a Manhattan ver um filme no Angelika e jantar com o agente literário. O policial Abramowitz tinha dado seu cartão a Nora. Ela ligou para ele. Ele foi até o apartamento, e eles treparam no quarto quase vazio. Foi bom, mas teria sido melhor se ela tivesse conseguido convencê-lo a bater nela. Ela pediu, mas ele não quis.
— Você é maluca, moça? — perguntou ele com aquela voz que as pessoas usam quando querem dizer: estou brincando, mas não pra valer.
— Não sei — respondeu Nora. — Ainda estou descobrindo.
Eles haviam marcado de se mudar para Vermont no dia 29 de fevereiro. No dia anterior, que seria o último dia do mês em um ano normal, o telefone tocou. Era a sra. Granger, a governanta do pastor emérito Winston. Assim que Nora registrou o tom baixo da mulher, soube por que ela tinha ligado, e seu primeiro pensamento foi: o que você fez com a fita, seu filho da mãe?
— O obituário vai dizer falência renal — disse a sra. Granger no tom sussurrado que as pessoas usavam para falar dos mortos —, mas eu fui ao banheiro dele. Os potes de remédio estavam todos do lado de fora, e muitos comprimidos tinham sumido. Eu acho que ele cometeu suicídio.
— Acho que não foi isso que aconteceu — disse Nora. Ela falou com sua voz calma e segura de enfermeira. — O mais provável é que tenha ficado confuso com quantos comprimidos já tinha tomado. Ele pode até ter tido outro derrame. Um pequeno.
— Você acha mesmo?
— Ah, acho — respondeu Nora, e teve que se controlar para não perguntar à sra. Granger se ela viu uma câmera de vídeo nova lá em algum lugar. Ligada à TV de Winnie, provavelmente. Seria loucura fazer uma pergunta dessas. Mas ela quase fez, mesmo assim.
— Que alívio — disse a sra. Granger.
— Ótimo — disse Nora.
Naquela noite, na cama. A última noite deles no Brooklyn.
— Você precisa parar de se preocupar — disse Chad. — Se alguém encontrar a fita, provavelmente nem vai olhar. E, se olhar, a chance de ligá-la a você é tão pequena que chega a ser infinitesimal. Além do mais, o menino já deve ter esquecido. A mãe também.
— A mãe estava lá quando uma maluca agrediu o filho dela e fugiu — retrucou Nora. — Acredite, ela não esqueceu.
— Se você diz… — O tom de Chad era tão equilibrado que ela ficou com vontade de enfiar o joelho nas bolas dele.
— Talvez eu devesse ir até lá ajudar a sra. Granger a arrumar a casa.
Ele olhou para a esposa como se ela estivesse maluca.
— Talvez eu queira que desconfiem de mim — disse ela, e abriu um sorrisinho. O que ela achava que era seu sorriso provocante.
Ele a encarou por um tempo antes de rolar para o outro lado.
— Não seja assim — disse ela. — Poxa, Chad.
— Não — disse ele.
— O que você quer dizer com não? Por quê?
— Porque eu sei em que você pensa quando transamos.
Ela bateu nele. Foi um golpe forte na nuca.
— Você não sabe porra nenhuma.
Ele se virou e levantou a mão fechada.
— Não faça isso, Nora.
— Vá em frente — disse ela, oferecendo o rosto. — Você sabe que quer.
Ele quase bateu nela. Ela viu o tremor. Mas ele baixou a mão e abriu os dedos.
— Chega.
Ela não respondeu, mas pensou: é o que você acha.
Nora ficou acordada, olhando para o relógio digital. Até 1:41AM, ela pensou: Este casamento está com problemas. Depois, quando 1:41 virou 1:42, ela pensou: Não, na verdade este casamento acabou.
Demorou mais sete meses para ele se desfazer de vez.
Nora nunca esperou um encerramento verdadeiro em sua associação com o reverendo George Winston, mas, quando começou a trabalhar para ajeitar a nova casa (ela ia fazer não um, mas dois jardins, um canteiro de flores e uma horta), tinha dias em que nem pensava em Winnie. As porradas na cama acabaram. Ou quase.
Mas, um dia de abril, ela recebeu um cartão-postal dele. Foi um choque. Chegou em um envelope do correio, porque não havia mais espaço no cartão para rabiscar informações de endereçamento. Foi para todos os lados, inclusive para o Brooklyn, para o Maine e para uma Montpelier em Idaho e outra em Indiana. Ela não fazia ideia de por que o cartão-postal não tinha chegado a ela antes de eles se mudarem de Nova York, e, considerando quanto viajou, era impressionante ter chegado até ali. A data era do dia anterior à morte de Winnie. Ela checou o obituário on-line só para ter certeza.
Talvez Freud estivesse certo, afinal, dizia. Como você está?
Bem, pensou Nora. Estou bem.
Havia um fogão a lenha na cozinha da casa deles. Ela amassou o cartão-postal, jogou lá dentro e acendeu um fósforo. Pronto.
Chad terminou Vivendo com os animais em julho, depois de escrever as últimas cinquenta páginas em uma maratona de nove dias. Mandou para o agente. E-mails e ligações vieram em seguida. Chad disse que Ringling pareceu entusiasmado. Se era verdade, Nora achava que ele devia ter guardado boa parte do entusiasmo para as ligações. O que ela viu nos dois e-mails foi otimismo cauteloso, no máximo.
Em agosto, a pedido de Ringling, Chad reescreveu alguns trechos. Ele não falou sobre o trabalho, um sinal de que não estava indo tão bem. Mas seguiu em frente. Nora mal reparou. Estava concentrada cuidando do jardim.
Em setembro, Chad insistiu em ir a Nova York e ficar andando de um lado para outro no escritório de Ringling enquanto o sujeito fazia ligações para as sete editoras para as quais o manuscrito tinha sido enviado, torcendo para alguma delas demonstrar interesse em conhecer o autor. Nora pensou em ir a um bar de Montpelier e levar alguém de lá para um motel, mas não foi. Parecia muito trabalho para pouco lucro. Então, ficou trabalhando no jardim.
E foi melhor assim. Em vez de pernoitar em Nova York como tinha planejado, Chad voltou naquela mesma noite. Estava bêbado. Também declarou estar feliz. Eles estavam em vias de firmar um acordo com uma boa editora. Ele disse o nome da editora. Nora nunca tinha ouvido falar.
— Quanto? — perguntou ela.
— Isso não importa, amor. — Isso saiu ixo, e ele só a chamava de amor quando estava bêbado. — Eles adoraram o livro, é o que interessa.
Interexa.
Ela percebeu que, quando Chad estava bêbado, falava como Winnie nos primeiros meses depois do derrame.
— Quanto?
— Quarenta mil dólares.
Dólarex.
Ela riu.
— Eu devo ter ganhado isso antes de me levantar do banco no parquinho. Fiz a conta na primeira vez que nós vimos…
Ela não percebeu o soco chegando e não sentiu o golpe. Apenas uma espécie de estalo na cabeça, só isso. E então, estava caída no chão da cozinha, respirando pela boca. Tinha que respirar pela boca. Chad tinha quebrado seu nariz.
— Sua puta! — exclamou ele, começando a chorar.
Nora se sentou. A cozinha pareceu girar devagar ao redor dela antes de parar. Sangue se espalhava pelo linóleo. Ela estava impressionada, com dor, eufórica, sentindo vergonha e achando graça ao mesmo tempo.
Nunca achei que isso fosse acontecer, pensou ela.
— Isso mesmo, bote a culpa em mim. — A voz de Nora estava nasalada, confusa. — Bote a culpa em mim e chore até os olhos caírem.
Ele inclinou a cabeça como se não tivesse ouvido (ou não conseguisse acreditar no que ouviu), fechou a mão e ergueu o punho.
Ela ergueu o rosto, com o nariz torto bem na frente. Havia uma barba de sangue em seu queixo.
— Vá em frente — disse ela. — É a única coisa que você sabe fazer mais ou menos direito.
— Com quantos homens você dormiu depois daquele dia? Conte!
— Eu não dormi com ninguém. Trepei com uns dez. — Era mentira, na verdade. Só houve o policial e um eletricista que foi ao apartamento um dia em que Chad estava fora. — Manda ver, McDuff.
Em vez de mandar ver, ele abriu a mão e baixou o braço.
— O livro seria bom se não fosse você. — Ele balançou a cabeça como se para clarear as ideias. — Não é bem isso, mas você sabe o que quero dizer.
— Você está bêbado.
— Vou largar você e escrever outro. Um livro melhor.
— Quando os porcos voarem.
— Espere só — disse ele, tão choroso e infantil quanto um garotinho que perdeu uma briga no parquinho da escola. — Espere e veja.
— Você está bêbado. Vá para a cama.
— Sua puta venenosa.
Depois de ter dito isso, ele foi para a cama com a cabeça baixa. Ele até andava como Winnie depois do derrame.
Nora pensou em ir para a emergência cuidar do nariz, mas estava cansada demais para pensar em uma história que tivesse o toque certo de veracidade. Em seu coração, em seu coração de enfermeira, ela sabia que não existia uma história assim. Todos veriam a verdade por mais verídica que a história fosse. Quando se tratava desse tipo de coisa, os funcionários do pronto-socorro sempre sabiam.
Ela enfiou algodão no nariz e tomou dois Tylenol com codeína. Depois, foi para o jardim e arrancou ervas daninhas até estar escuro demais para enxergar. Quando entrou, Chad estava roncando na cama. Ele tinha tirado a camisa, mas ainda estava de calça. Ela achou que ele parecia um idiota. Isso lhe deu vontade de chorar, mas ela não chorou.
***
Chad a deixou e voltou para Nova York. Às vezes, mandava e-mails, e às vezes ela respondia. Ele não pediu sua parte do dinheiro que restava, o que foi bom. Ela não teria dado. Dera duro por aquele dinheiro e ainda não terminara com ele: colocava-o no banco aos poucos, pagando a casa. Ele dizia nos e-mails que voltara a dar aulas como substituto e que escrevia nos fins de semana. Ela acreditava na parte das aulas, mas não na de escrever. Os e-mails tinham uma sensação fraca e desbotada que sugeria que podia não restar muito nele quando o assunto era a escrita. Nora sempre achou que ele era um sujeito de um livro só, de qualquer modo.
Ela mesma cuidou da papelada do divórcio. Encontrou tudo de que precisava na internet. Havia papéis que precisava que ele assinasse, e Chad assinou. Todos voltaram sem nenhum bilhete junto.
No verão seguinte (um bom verão; Nora estava trabalhando em horário integral no hospital da cidade e seu jardim só crescia), ela estava olhando um sebo um dia e deu de cara com o livro que viu no escritório de Winnie: Fundamentos da moralidade. Era um exemplar bem surrado, e ela pôde levar para casa por pouco mais de dois dólares.
Demorou o resto do verão e boa parte do outono para ler o livro de cabo a rabo. No final, ficou decepcionada. Havia pouco ou quase nada naquelas páginas que ela já não soubesse.
Para Jim Sprouse
Acho que a maioria das pessoas tende a meditar mais sobre “a vida após a morte” quando fica mais velha, e como estou agora com sessenta e tantos anos, faço parte desse grupo. Vários de meus contos e pelo menos um romance (Revival) abordaram essa questão. Não posso dizer que “já lidei com ela”, porque isso implica alguma espécie de conclusão, e nenhum de nós pode tirar uma, não é? Ninguém mandou um vídeo feito no celular da terra dos mortos. Existe a fé, claro (e uma verdadeira enxurrada de livros sobre “o céu real”), mas a fé é, por sua própria definição, uma crença sem provas.
Se pararmos para pensar bem, veremos que só existem duas escolhas. Ou existe Alguma Coisa, ou existe o Nada. Se for este último, caso encerrado. Se for o primeiro, há uma miríade de possibilidades, com o céu, o inferno, o purgatório e a reencarnação como as opções mais populares na Parada de Sucessos do Além. Ou talvez você tenha aquilo que sempre acreditou que teria. Talvez o cérebro esteja equipado com um programa de suspensão embutido que começa a rodar na hora que todo o resto começa a falhar e estamos nos preparando para pegar o último trem. Para mim, os relatos de experiências de quase morte tendem a sustentar essa ideia.
O que eu gostaria (eu acho) é de uma chance de repassar tudo, como se fosse uma espécie de filme imersivo, para eu poder me deleitar com os bons momentos e as boas escolhas, como quando me casei com minha esposa e quando tomamos a decisão de ter nosso terceiro filho. É claro que eu também teria que me arrepender das escolhas ruins (e fiz minha cota delas), mas quem não gostaria de reviver aquele primeiro beijo bom ou de ter a oportunidade de relaxar e realmente aproveitar a cerimônia de casamento que passou voando por causa do nervosismo?
Esta história não é sobre uma reprise assim, não exatamente, mas refletir sobre a possibilidade me levou a escrever sobre a vida após a morte de um homem. O motivo de o gênero da fantasia continuar sendo tão vital e necessário é que ele nos leva a falar sobre esse tipo de assunto de uma forma que a ficção realista não consegue.