O Bazar dos Sonhos Ruins
Vida após a morte
William Andrews, um banqueiro de investimentos que trabalhava na Goldman Sachs, morre na tarde do dia 23 de setembro de 2012. É uma morte esperada; a esposa e os filhos adultos estão junto ao leito. Naquela noite, quando finalmente se permite ficar um tempo sozinha, longe do fluxo regular de familiares e visitantes para lhe dar os pêsames, Lynn Andrews liga para a amiga mais antiga, que ainda mora em Milwaukee. Foi Sally Freeman quem a apresentou para Bill, e se alguém merece saber sobre os últimos sessenta segundos do casamento de trinta anos, esse alguém é Sally.
— Ele estava inconsciente durante quase toda a semana passada, por causa dos remédios, mas ficou consciente no fim. Os olhos estavam abertos, e ele me viu. Ele sorriu. Eu peguei a mão dele, e Bill a apertou um pouco. Eu me inclinei e beijei a bochecha dele. Quando me levantei, ele já tinha partido.
Ela estava esperando havia horas para dizer isso, e, depois de dito, caiu no choro.
A suposição de que o sorriso dele foi para ela era natural, mas um engano. Quando ele está olhando para a esposa e para os três filhos adultos (eles parecem absurdamente altos, criaturas angelicais e saudáveis habitando um mundo do qual ele está partindo), Bill sente a dor com que viveu nos últimos dezoito meses deixar seu corpo. Sai dele como lama de um balde. Então, ele sorri.
Com a ausência da dor, sobra pouca coisa. O corpo está leve como pétalas de dente-de-leão. A esposa segura a mão dele e se aproxima, vinda de seu mundo alto e saudável. Bill guardou um pouco de força, que agora gasta para apertar os dedos dela. Ela se inclina. Vai beijá-lo.
Antes que os lábios dela possam tocar sua pele, uma mancha aparece no centro de sua visão. Não é uma mancha negra, mas sim branca. Ela aumenta até obliterar o único mundo que conhece desde 1956, quando nasceu no pequeno Hospital do Condado de Hemingford, no Nebraska. Durante o último ano, Bill leu muito sobre a passagem da vida para a morte (no computador, sempre tomando o cuidado de apagar o histórico para não chatear Lynn, que sempre foi uma otimista nada realista), e apesar de boa parte não ter passado de baboseira, o tal fenômeno da “luz branca” pareceu bem plausível. Primeiro, porque foi registrado em todas as culturas. Além disso, tem uma pontinha de credibilidade científica. Uma das teorias que ele leu sugere que a luz branca é o resultado da interrupção repentina do fluxo sanguíneo para o cérebro. Outra, mais elegante, declara que o cérebro está executando uma varredura global na tentativa de encontrar uma experiência comparável à morte.
Ou pode ser só os últimos fogos de artifício.
Seja qual for a causa, Bill Andrews agora a está vivenciando. A luz branca oblitera a família e o quarto arejado de onde os assistentes funerários em breve vão retirar seu corpo. Nas pesquisas, ele passou a conhecer o acrônimo EQM, que significa experiência de quase morte. Em muitas dessas experiências, a luz branca se torna um túnel, no fim do qual há membros saudosos da família que já morreram, ou amigos, ou anjos, ou Jesus, ou alguma outra deidade beneficente.
Bill não espera um comitê de boas-vindas. O que espera é que a explosão final de fogos se apague e se transforme na escuridão do esquecimento, mas isso não acontece. Quando o brilho diminui, ele não está no céu nem no inferno. Está em um corredor. Ele acha que talvez seja o purgatório, um corredor pintado de verde industrial e com piso gasto e sujo que poderia muito bem ser o purgatório, mas só se continuasse para sempre. O corredor termina seis metros à frente, em uma porta com uma placa que diz ISAAC HARRIS, GERENTE.
Bill fica onde está por alguns momentos, se analisando. Está usando o pijama com o qual morreu (pelo menos, ele supõe que tenha morrido) e está descalço, mas não tem sinal do câncer que primeiro sentiu um gostinho do corpo dele, depois engoliu tudo, deixando só pele e esqueleto. Parece estar de novo com uns oitenta e cinco quilos, que era seu peso ideal (com uma leve barriguinha, para falar a verdade) antes de o câncer atacar. Ele encosta no traseiro e na lombar. As escaras sumiram. Que bom. Respira fundo e expira sem tossir. Melhor ainda.
Ele anda um pouco pelo corredor. À esquerda há um extintor de incêndio com uma pichação peculiar: Antes tarde do que nunca! À direita, um quadro de avisos. Nele, foram presas várias fotos, do tipo antiquado, com beiradas irregulares. Acima dele há uma faixa feita à mão com o texto: PIQUENIQUE DA EMPRESA DE 1956! COMO NOS DIVERTIMOS!
Bill examina as fotos, que mostram executivos, secretárias, funcionários de escritório e um monte de crianças bagunceiras sujas de sorvete. Tem rapazes cuidando de uma churrasqueira (um usando o obrigatório chapéu de cozinheiro), rapazes e moças jogando ferraduras, rapazes e moças jogando vôlei, rapazes e moças nadando em um lago. Os rapazes estão usando sungas que parecem quase obscenamente apertadas e curtas para seu cérebro do século XXI, mas bem poucos têm barriga. Eles têm o físico dos anos 1950, pensa Bill. As moças estão usando aqueles maiôs estilo Esther Williams, do tipo que faz o corpo da mulher parecer que não tem traseiro, mas uma curva lisa e sem fenda acima das coxas. Cachorros-quentes estão sendo ingeridos. Cerveja está sendo bebida. Todo mundo parece estar se divertindo muito.
Em uma das fotos, ele vê o pai de Richie Blankmore entregando um marshmallow assado para Annmarie Winkler. Isso é ridículo, porque o pai de Richie era motorista de caminhão e nunca foi a um piquenique da empresa na vida. Annmarie foi uma garota com quem ele saiu na época da faculdade. Em outra foto, ele vê Bobby Tisdale, um colega de faculdade do começo dos anos 1970. Bobby, que chamava a si mesmo de Tiz, o Gênio, morreu de ataque cardíaco com trinta e poucos anos. Ele estava vivo em 1956, mas devia estar no jardim de infância ou no primeiro ano do ensino fundamental, não tomando cerveja na beira do lago Sei Lá Qual. Nessa foto, o Gênio parece ter uns vinte anos, que devia ser a idade dele quando Bill o conheceu. Em uma terceira foto, a mãe de Eddie Scarponi está dando uma cortada em uma bola de vôlei. Eddie era o melhor amigo de Bill quando a família se mudou do Nebraska para Paramus, Nova Jersey, e Gina Scarponi (vista uma vez tomando sol no pátio só com uma calcinha branca fio dental e mais nada) estava nas fantasias favoritas de Bill na época em que ele ainda estava com a licença de aprendizado da masturbação.
O cara de chapéu de cozinheiro é Ronald Reagan.
Bill olha com atenção, com o nariz quase encostado na foto em preto e branco, e não tem dúvida. O quadragésimo presidente dos Estados Unidos está fazendo hambúrgueres em um piquenique de empresa.
Mas que empresa?
E onde exatamente Bill está agora?
A euforia de estar inteiro de novo e sem dor está passando. O que a substitui é uma sensação crescente de deslocamento e inquietação. Ver essas pessoas nas fotos não faz sentido, e o fato de ele não conhecer a maioria oferece, no máximo, um consolo ínfimo. Ele olha para trás e vê uma escada que leva a outra porta. Nesta, está escrito a palavra TRANCADA com letras de forma vermelhas. Isso deixa só o escritório do sr. Isaac Harris. Bill anda até lá, hesita e bate.
— Está aberta.
Bill entra. Ao lado de uma mesa entulhada está um sujeito com uma calça social larga de cintura alta, presa por suspensórios. O cabelo castanho é repartido no meio e oleoso. Ele usa óculos sem aro. As paredes estão cobertas de faturas e de fotos sensuais bregas de mulheres mostrando as pernas que fazem Bill pensar na empresa de transportes na qual o pai de Richie Blankmore trabalhava. Ele foi lá algumas vezes com Richie, e a sala de despacho era igualzinha.
De acordo com o calendário na parede, é março de 1911, o que não faz mais sentido que 1956. Quando entra, Bill repara em uma porta à direita. À esquerda, tem outra. Não há janelas, mas um tubo de vidro sai do teto e para acima de um cesto de roupas Dandux. O cesto está cheio com uma pilha de lençóis amarelos que mais parecem faturas. Ou talvez sejam memorandos. Há uma pilha de sessenta centímetros de arquivos na cadeira em frente à mesa.
— Bill Anderson, não é?
O homem vai até a mesa e se senta. Não há nenhuma tentativa de um aperto de mãos.
— Andrews.
— Certo. E eu sou Harris. Bem-vindo de volta, Andrews.
Considerando todas as pesquisas de Bill sobre morrer, esse comentário até faz sentido. E é um alívio. Desde que ele não tenha que voltar como um besouro rola-bosta nem nada do tipo.
— Então é reencarnação? Essa é a verdade?
Isaac Harris suspira.
— Você sempre pergunta a mesma coisa, e eu sempre dou a mesma resposta: não é bem isso.
— Eu estou morto, não estou?
— Você se sente morto?
— Não, mas vi a luz branca.
— Ah, sim, a famosa luz branca. Você estava lá e agora está aqui. Espere um minuto.
Harris mexe nos papéis na mesa, não encontra o que quer e começa a abrir as gavetas. De uma delas, tira algumas pastas e separa uma. Ele a abre, vira uma ou duas páginas e assente.
— Só preciso refrescar um pouco a memória. Banqueiro de investimentos, não é?
— Sim.
— Esposa e três filhos? Dois meninos, uma menina?
— Correto.
— Peço desculpas. Tenho uns duzentos peregrinos, e é difícil me lembrar de todos. Sempre planejo colocar as pastas em ordem, só que isso é trabalho de secretária, e como eles nunca me ofereceram uma…
— Quem são eles?
— Não faço ideia. As ordens chegam pelo tubo. — Ele bate no tubo, que balança e depois para. — Funciona a ar comprimido. Tecnologia de ponta.
Bill pega as pastas na cadeira em frente à mesa e olha para o outro homem, com as sobrancelhas erguidas.
— Pode colocar no chão — diz Harris. — Por enquanto, está bom. Um dia desses ainda vou organizar tudo. Isso se houver dias. Deve haver, e noites também, mas quem pode dizer com certeza? Não há janelas aqui, como já deve ter percebido. Nem relógios.
Bill se senta.
— Por que você me chamou de peregrino se não é reencarnação?
Harris se reclina e entrelaça as mãos na nuca. Olha para o tubo pneumático, que devia mesmo ser tecnologia de ponta em algum momento. Talvez por volta de 1911, embora Bill ache que esse tipo de coisa ainda devia existir por volta de 1956.
Harris balança a cabeça e ri, embora não ache graça.
— Se você soubesse como essas conversas ficam cansativas. De acordo com o arquivo, é sua décima quinta visita.
— Eu nunca estive aqui na vida — retruca Bill. Ele pensa um pouco. — Só que não é a minha vida, é? É a minha vida após a morte.
— Na verdade, é a minha. Você é o peregrino, não eu, você e os outros palhaços que entram e saem daqui. Você vai sair por uma das portas e vai embora. Eu fico. Não há banheiros aqui porque eu não necessito mais de um. Não há quartos porque não preciso dormir. Eu só fico aqui sentado e recebo vocês, os palhaços viajantes. Vocês entram, fazem as mesmas perguntas, e eu dou as mesmas respostas. Esta é a minha vida após a morte. Parece empolgante?
Bill, que pesquisou todas as minúcias teológicas enquanto seu fim estava próximo, conclui que teve a ideia certa quando ainda estava no corredor.
— Você está falando do purgatório.
— Ah, sem dúvida. A única pergunta que tenho é por quanto tempo vou ficar aqui. E gostaria de dizer que vou acabar ficando maluco se não conseguir sair em breve, mas acho que nem isso é mais possível, assim como não consigo cagar nem cochilar. Sei que meu nome não quer dizer nada para você, mas já discutimos isso antes; não todas as vezes que você apareceu, mas em várias ocasiões. — Ele balança um dos braços com força suficiente para fazer algumas faturas presas à parede tremularem. — Este é, ou era, não sei direito qual dos dois é o tempo verbal correto nesta situação, meu escritório na terra.
— Em 1911?
— Isso mesmo. Eu perguntaria se você sabe o que é uma blusa acinturada, Bill, mas como sei que você não sabe, vou dizer logo: é uma peça do vestuário feminino. Na virada do século, meu sócio, Max Blanck, e eu éramos donos de uma fábrica chamada Triangle Shirtwaist. Era um negócio rentável, mas as mulheres que trabalhavam lá eram um grande pé você sabe onde. Sempre saindo para fumar e, pior, roubando coisas, que colocavam nas bolsas ou enfiavam debaixo das saias. Então, nós trancávamos as portas para que elas ficassem lá dentro durante os turnos de trabalho, e as revistávamos na saída. Para resumir a história, o maldito lugar pegou fogo. Max e eu fugimos subindo para o telhado e descendo pela escada de incêndio. Muitas das mulheres não tiveram tanta sorte. Mas vamos ser sinceros e admitir que a culpa não é só minha e dele. Fumar na fábrica era estritamente proibido, mas muitas delas fumavam mesmo assim, e foi um cigarro que deu início ao incêndio. Os bombeiros disseram. Max e eu fomos julgados por homicídio culposo e fomos absolvidos.
Bill se lembra do extintor de incêndio no corredor, com Antes tarde do que nunca! escrito. Ele pensa: Você foi considerado culpado no novo julgamento, sr. Harris, senão não estaria aqui.
— Quantas mulheres morreram?
— Cento e quarenta e seis — diz Harris —, e lamento por cada uma delas, sr. Anderson.
Bill não se dá ao trabalho de corrigir seu nome. Vinte minutos antes, estava morrendo na cama; agora, está fascinado por aquela história antiga, que nunca ouviu antes. Ao menos, não que se lembre.
— Pouco tempo depois que Max e eu descemos a escada de incêndio, as mulheres correram para lá. A porcaria não aguentou o peso. Desabou e jogou mais de vinte nos paralelepípedos da calçada, trinta metros abaixo. Todas morreram. Outras quarenta pularam das janelas do nono e do décimo andar. Algumas estavam em chamas. Elas também morreram. A brigada de incêndio chegou com redes, mas as mulheres passaram direto por elas e explodiram no asfalto como sacos cheios de sangue. Uma visão horrível, sr. Anderson, horrível. Outras pularam nos vãos dos elevadores, mas a maioria só… queimou.
— Como o Onze de Setembro, mas com menos mortes.
— É o que você sempre diz.
— E aqui está você.
— Realmente. Às vezes me pergunto quantos homens estão sentados em escritórios assim. Mulheres também. Tenho certeza de que há mulheres, pois sempre tive a mente aberta e não vejo motivos para as mulheres não ocuparem posições executivas mais baixas, e de forma exemplar. Todos nós respondendo as mesmas perguntas e enviando os mesmos peregrinos em frente. Era de se pensar que a carga diminuísse um pouco toda vez que um de vocês decide usar a porta da direita em vez de aquela — ele aponta para a porta à esquerda —, mas não. Não. Uma lata nova cai pelo tubo, zup, e eu recebo um palhaço novo para substituir o anterior. Às vezes, dois. — Ele se inclina para a frente e fala com grande ênfase. — É um trabalho de merda, sr. Anderson!
— É Andrews — diz Bill. — E olhe, sinto muito que você se sinta assim, mas, caramba, assuma um pouco de responsabilidade pelas suas ações, homem! Cento e quarenta e seis mulheres! E você trancou as portas.
Harris bate na mesa.
— Elas estavam roubando a gente! — Ele pega a pasta e a sacode na direção de Bill. — Olha quem fala! Ha! O sujo falando do mal lavado! Goldman Sachs! Fraudes de colarinho-branco! Lucro na casa dos bilhões, impostos na casa dos milhões! Dos poucos milhões! O termo bolha imobiliária soa familiar? Dos fundos de quantos clientes você abusou? Quantas pessoas perderam as economias de toda uma vida graças à sua ganância e falta de visão?
Bill sabe do que Harris está falando, mas toda essa patifaria (bem… a maior parte) acontecia bem acima da alçada dele. Ele ficou tão surpreso quanto todo mundo quando jogaram a merda no ar-condicionado. Ele fica tentado a dizer que tem uma diferença grande entre ficar empobrecido e ser queimado vivo, mas para que esfregar sal na ferida? Além do mais, provavelmente soaria pretensioso.
— Vamos deixar isso pra lá — diz ele. — Se você tem informações de que preciso, por que não me dá logo? Diga quais são minhas opções, e eu vou largar do seu pé.
— Não era eu quem estava fumando — diz Harris com o tom de voz baixo e reflexivo. — Não fui eu quem largou o fósforo.
— Sr. Harris?
Bill consegue sentir as paredes se fechando. Se eu tivesse que ficar aqui para sempre, daria um tiro em mim mesmo, pensa ele. Só que, se o que o sr. Harris diz é verdade, ele não ia querer, tanto quanto não quer ir ao banheiro.
— Tá, tudo bem. — Harris faz um som com os lábios, meio de sopro. — Suas opções são as seguintes: se sair pela porta da esquerda, você pode viver sua vida de novo. De A a Z. Do início ao fim. Se sair pela da direita, você some. Puf. Como uma vela se apagando ao vento.
Primeiro, Bill não diz nada. Ele é incapaz de falar e não tem certeza se consegue confiar nos próprios ouvidos. É bom demais para ser verdade. Sua mente se volta primeiro para Mike e o acidente que aconteceu quando o irmão tinha oito anos. Depois, para o furto idiota quando tinha dezessete. Foi só uma travessura, mas poderia ter destruído seus planos para a faculdade se o pai não tivesse se intrometido e falado com a pessoa certa. A história com Annmarie na casa da fraternidade… que ainda o assombra nos momentos de ócio, mesmo depois de tantos anos. E, claro, o grande…
Harris está sorrindo, e o sorriso não é nem um pouco agradável.
— Sei o que você está pensando, porque já tivemos essa conversa antes. Que você e seu irmão estavam brincando de pique quando eram crianças e você bateu a porta para ele não entrar e cortou sem querer a ponta do dedo mindinho dele. Sobre o furto por impulso, o relógio, e que seu pai mexeu os pauzinhos para tirar você da encrenca…
— Isso aí, sem registro. Exceto com ele. Ele nunca me deixou esquecer.
— E tem também a garota na fraternidade. — Harris levanta o arquivo. — O nome dela está aqui em algum lugar, imagino, faço o possível para manter esses arquivos atualizados, isso quando consigo encontrá-los, mas por que você não refresca minha memória?
— Annmarie Winkler. — Bill sente as bochechas ficando quentes. — Não foi estupro, então não vá inventando histórias. Ela colocou as pernas ao redor da minha cintura quando subi nela, e se isso não é consentimento, não sei o que é.
— Ela também passou as pernas ao redor dos dois caras que apareceram depois?
Não, Bill fica tentado a dizer, mas pelo menos não botamos fogo nela.
Ainda assim…
Ele podia estar preparando uma tacada perto do sétimo buraco do campo de golfe, ou trabalhando na carpintaria, ou conversando com a filha (agora universitária) sobre seu projeto final e, de repente, se perguntava onde Annmarie está agora. O que está fazendo. O que se lembra daquela noite.
O sorriso de Harris se alarga e vira um sorrisinho sardônico. Pode até ser um emprego de merda, mas está claro que ele gosta de algumas partes.
— Vejo que é uma pergunta que você não quer responder, então por que não seguimos em frente? Você está pensando em todas as coisas que vai mudar durante sua próxima volta no carrossel cósmico. Desta vez, não vai bater a porta no dedinho do seu irmão, nem tentar roubar um relógio no Paramus Mall…
— Foi no Mall of New Jersey. Tenho certeza de que essa informação está em algum lugar no seu arquivo.
Harris balança o arquivo de Bill como se para espantar uma mosca irritante e continua:
— Na próxima vez, você não vai transar com a garota desacordada no sofá do porão da sua fraternidade, e, o mais importante!, vai marcar aquela consulta para fazer a colonoscopia em vez de adiar, porque agora decidiu, e me corrija se eu estiver errado, que a indignidade de enfiarem uma câmera no seu cu é um pouco melhor que morrer de câncer colorretal.
Bill diz:
— Várias vezes eu quis contar a Lynn sobre a garota na fraternidade. Mas nunca tive coragem.
— Mas, se tivesse oportunidade, mudaria tudo isso.
— Claro… se tivesse oportunidade, você não destrancaria as portas da fábrica?
— Sem dúvida, mas não existem segundas chances. Lamento decepcionar você.
Ele não parece lamentar nada. Harris está com cara de cansado. Harris parece entediado. Harris também parece cruelmente triunfante. Ele aponta para a porta à esquerda de Bill.
— Use aquela, como fez em todas as outras ocasiões, e vai começar tudo de novo, um bebê de três quilos e duzentos gramas saindo do útero da mãe para as mãos do médico. Você vai ser embrulhado e levado para casa, em uma fazenda do centro do Nebraska. Quando seu pai vender a fazenda em 1964, vocês vão se mudar para Nova Jersey. Lá você vai cortar a ponta do dedinho do seu irmão enquanto estiver brincando de pique. Você vai estudar na mesma escola, vai fazer os mesmos cursos e vai tirar as mesmas notas. Vai estudar na Boston College e vai cometer o mesmo ato de semiestupro no mesmo porão de fraternidade. Vai ver os seus mesmos irmãos de fraternidade estuprarem Annmarie Winkler, e apesar de achar que tem que impedir o que está acontecendo, não vai reunir coragem suficiente. Três anos depois, você vai conhecer Lynn DeSalvo, e dois anos depois vocês vão se casar. Você vai seguir a mesma carreira, vai ter os mesmos amigos e a mesma inquietação profunda em relação às práticas da empresa… e vai ficar calado do mesmo jeito. O mesmo médico vai mandar você fazer uma colonoscopia quando chegar aos cinquenta anos, e você vai prometer, como sempre faz, que vai cuidar dessa questão. Não vai, e como resultado vai morrer do mesmo câncer.
O sorriso de Harris quando ele solta o arquivo novamente na mesa lotada está agora tão largo que quase toca no lóbulo das orelhas.
— Depois, você vai vir para cá, e vamos ter a mesma discussão. Meu conselho seria usar a outra porta e acabar logo com isso, mas é claro que a decisão é sua.
Bill ouviu o sermão com consternação crescente.
— Eu não vou me lembrar de nada? Nada?
— Não nada — diz Harris. — Você deve ter reparado nas fotos no corredor.
— O piquenique da empresa.
— É. Todos os meus clientes veem imagens do ano de seu nascimento e reconhecem alguns rostos em meio aos estranhos. Quando viver sua vida de novo, sr. Anders, presumindo que decida fazer isso, você vai ter uma sensação de déjà vu quando vir essas pessoas pela primeira vez, uma sensação de que já viveu aquilo antes. E viveu mesmo, claro. Você vai ter um pensamento fugaz, quase uma certeza, de que há mais… digamos, camadas na sua vida e na existência em geral do que acreditava antes. Mas vai passar.
— Se é tudo igual, sem possibilidade de melhoria, por que estamos aqui?
Harris fecha a mão e bate no tubo pneumático acima do cesto de roupas, fazendo-o balançar.
— O CLIENTE QUER SABER POR QUE ESTAMOS AQUI! QUER SABER QUAL É O OBJETIVO DISSO TUDO!
Ele espera. Nada acontece. Ele cruza as mãos sobre a mesa.
— Quando Jó quis saber isso, sr. Anderson, Deus perguntou se Jó estava lá quando ele, Deus, criou o universo. Acho que você não merece nem essa resposta. Então, vamos considerar o caso encerrado. O que você quer fazer? Escolha uma porta.
Bill está pensando no câncer. Na dor do câncer. Passar por tudo aquilo de novo… só que ele não lembraria de já ter passado por aquilo. Tem isso. Supondo que Harris esteja dizendo a verdade.
— Sem lembrança nenhuma? Sem mudança nenhuma? Tem certeza? Como pode ter?
— Porque a conversa é sempre a mesma, sr. Anderson. Todas as vezes, e com todos vocês.
— É Andrews! — Ele grita, surpreendendo os dois. Com a voz mais baixa, diz: — Se eu tentar, tentar de verdade, tenho certeza de que consigo lembrar alguma coisa. Mesmo que seja só o que aconteceu com o dedo de Mike. E uma mudança pode bastar para… sei lá…
Para levar Annmarie ao cinema em vez de para aquela maldita festa, que tal?
Harris diz:
— Existe uma história do folclore que diz que, antes do nascimento, toda alma humana sabe todos os segredos da vida, da morte e do universo. Mas aí, logo antes de nascer, um anjo se inclina, coloca o dedo nos lábios do bebê e sussurra: “Shhh”. — Harris toca a curvinha acima dos lábios. — De acordo com a história, esta é a marca deixada pelo dedo do anjo. Todo mundo tem uma.
— Já viu um anjo, sr. Harris?
— Não, mas vi um camelo uma vez. Foi no zoológico do Bronx. Escolha uma porta.
Enquanto pensa, Bill se lembra de uma história que leu no ensino fundamental: “A dama ou o tigre?”. A decisão não é tão difícil quanto a do conto.
Eu preciso me lembrar só de uma coisa, ele diz para si mesmo quando abre a porta que leva de volta à sua vida. Só de uma coisa.
A luz branca do retorno o envolve.
O médico, que vai deixar de apoiar o partido republicano e vai votar em Adlai Stevenson no outono (uma coisa que sua esposa jamais pode saber), se inclina para a frente, como um garçom oferecendo uma bandeja, e aparece segurando um bebê nu pelos pés. Ele dá uma batida na bunda, e a gritaria começa.
— Você tem um garotinho saudável, sra. Andrews — diz ele. — Parece ter uns três quilos. Parabéns.
A sra. Andrews pega o bebê. Beija as bochechas e a testa úmidas. Vão batizá-lo de William em homenagem ao pai de seu pai. Quando o século XXI chegar, seu filho ainda vai ter quarenta anos. A ideia é atordoante. Nos braços, ela segura não só uma nova vida, mas um universo de possibilidades. Nada, pensa ela, pode ser mais maravilhoso.
Pensando em Surendra Patel
Ralph Vicinanza, um bom amigo que também vendeu os direitos de publicação dos meus livros para vários países, tinha um talento para me procurar com ideias interessantes na hora certa, que era quando eu estava entre projetos. Eu nunca converso muito com as pessoas sobre meu projeto da vez, então ele devia ter algum tipo de radar especial. Foi ele quem sugeriu que eu podia experimentar um romance em partes no estilo Charles Dickens, e essa semente acabou florescendo na forma de À espera de um milagre.
Ralph ligou pouco depois que terminei a primeira versão de Love: a história de Lisey e estava esperando que o livro assentasse um pouco (ou seja: não estava fazendo nada). Ele disse que a Amazon estava lançando o Kindle de segunda geração e que a empresa gostaria que algum escritor de best-sellers os ajudasse no departamento de RP escrevendo uma história usando o Kindle como elemento do enredo. (Esse tipo de trabalho mais longuinho de ficção e não ficção mais tarde começou a ser conhecido como Kindle Single.) Eu agradeci a Ralph, mas disse que não tinha interesse, e por dois motivos. O primeiro foi que nunca consegui escrever histórias sob demanda. O segundo é que eu não emprestava meu nome para nenhuma empresa desde um comercial para o American Express muito tempo atrás. E, Jesus Cristo, como foi bizarro! De smoking, eu fiz uma pose em um castelo sinistro com um corvo empalhado no braço. Um amigo me disse que eu parecia um crupiê de carteado com fetiche por pássaros.
— Ralph — falei —, eu gosto do meu Kindle, mas não tenho interesse nenhum em dar dinheiro para a Amazon.
Mas a ideia ficou na minha cabeça, principalmente porque sempre fui fascinado por novas tecnologias, em especial as que têm a ver com ler e escrever. Certo dia, não muito tempo depois da ligação de Ralph, a ideia desta história surgiu quando eu estava fazendo minha caminhada matinal. Era legal demais para ficar sem ser escrita. Eu não contei para Ralph, mas, quando terminei a história, mandei para ele e disse que o Kindle podia usar para lançar o aparelho se quisesse. Até apareci no evento e li um trecho.
Tive que aguentar certa quantidade de merda por causa disso, de partes da comunidade literária, e fui acusado de ter me vendido por dinheiro, mas, nas palavras de John Lee Hooker, “isso não me incomoda em nada”. No que me dizia respeito, a Amazon era só mais um mercado, e um dos poucos que publicaria uma história desse tamanho. Não houve adiantamento, mas houve — e ainda há — royalties em cada venda (ou download, se você preferir). Fiquei feliz em depositar os cheques; tem um dito antigo que diz que o trabalhador merece ganhar pelo seu esforço, e acho que é um dito verdadeiro. Eu escrevo por amor, mas o amor não paga as contas.
Mas houve uma vantagem especial: um Kindle cor-de-rosa exclusivo. Ralph se divertiu com isso, e fico feliz. Foi nosso último negócio divertido, porque meu amigo morreu de repente, dormindo, cinco anos atrás. Nossa, como sinto falta dele.
Esta versão da história foi consideravelmente revisada, mas você vai reparar que se passa em uma era em que os aparelhos de leitura digital ainda eram novidade. Parece muito tempo atrás, não é? E parabéns para vocês, fãs de Roland de Gilead, que acharem as referências a certa Torre Negra.