O Bazar dos Sonhos Ruins
Aquele ônibus é outro mundo
A mãe de Wilson, que não era uma das pessoas mais alegres do mundo, sempre dizia: “Quando as coisas dão errado, continuam dando errado até haver lágrimas”.
Pensando nisso, assim como pensava em toda a sabedoria popular que aprendeu no colo da mãe (“Uma laranja é dourada de manhã e pesada à noite” era outra pérola), Wilson tomava cuidado com o horário, coisa que encarava como um para-choque, antes das ocasiões importantes, e nenhuma situação da sua vida adulta era mais importante do que sua viagem para Nova York, onde apresentaria seu portfólio e seu talento para os chefões da Market Forward.
A MF era uma das firmas de propaganda mais importantes da era da internet. A empresa de Wilson, a Southland Concepts, era um conjunto de um homem só sediado em Birmingham. Oportunidades assim não surgiam duas vezes, o que tornava a precaução algo vital. Foi por isso que ele chegou ao aeroporto de Birmingham-Shuttlesworth às quatro da manhã para um voo direto às seis. O voo o deixaria em LaGuardia às nove e vinte. A reunião dele, na verdade uma audição, estava marcada para as duas e meia da tarde. Um para-choque de cinco horas parecia precaução suficiente.
No começo, tudo correu bem. A atendente do portão de embarque verificou e aprovou que Wilson guardasse o portfólio no armário da primeira classe, embora ele fosse viajar de classe econômica, claro. Em questões assim, o truque era perguntar logo, antes que as pessoas começassem a ficar aborrecidas. Gente aborrecida não queria saber sobre a importância do seu portfólio; não estavam nem aí que ele podia ser a passagem para seu futuro.
Ele teve que despachar uma mala, porque, se acabasse sendo finalista para a conta da Green Century (e podia acontecer, ele estava muito bem posicionado), teria que ficar em Nova York por dez dias. Não fazia ideia de quanto tempo o processo de seleção demoraria e não queria ter que enviar roupas para a lavanderia do hotel, assim como não pretendia pedir comida do serviço de quarto. Serviços adicionais de hotel eram caros em todas as cidades grandes e absurdamente caros na Grande Maçã.
As coisas só começaram a dar errado quando o avião, que decolou na hora, chegou a Nova York. Lá, assumiu seu lugar em um engarrafamento aéreo, circulando no ar cinza acima daquele ponto de chegada que os pilotos chamavam tão apropriadamente de LaGosma. Houve piadas não tão engraçadas e reclamações em voz alta, mas Wilson permaneceu sereno. Sua precaução de viagem estava justificada; seu para-choque era resistente.
O avião pousou às dez e meia, com pouco mais de uma hora de atraso. Wilson foi até a esteira de bagagem, onde sua mala não apareceu. E não apareceu. E não apareceu. Finalmente, ele e um idoso de barba e boina preta foram os únicos que restaram, e os itens que sobraram na esteira foram um par de sapatos de neve e uma planta grande e maltratada com folhas murchas.
— Isso é impossível — disse Wilson para o homem. — O voo era direto.
O homem deu de ombros.
— Devem ter botado a etiqueta errada em Birmingham. Se duvidar, nossas malas estão a caminho de Honolulu agora. Vou até o setor de bagagem extraviada. Quer me acompanhar?
Wilson quis, pensando no que a mãe dizia. E agradecendo a Deus por ainda ter seu portfólio.
Ele estava na metade do formulário quando um funcionário do setor de bagagens falou atrás dele:
— Esta mala pertence a algum de vocês, cavalheiros?
Wilson se virou e viu sua mala xadrez com aparência úmida.
— Caiu do carrinho de bagagens — disse o funcionário, comparando o comprovante grampeado ao cartão de embarque de Wilson ao que havia na mala. — Acontece de vez em quando. Leve um formulário para o caso de alguma coisa ter quebrado.
— Onde está a minha? — perguntou o homem de boina.
— Não posso ajudar com isso — disse o funcionário. — Mas quase sempre as encontramos no final.
— É — disse o homem —, mas o final não é agora.
Quando Wilson deixou o terminal com a mala, o portfólio e a bagagem em mãos, eram quase onze e meia. Vários outros voos chegaram depois do dele, e a fila do táxi estava longa.
Eu tenho para-choque, pensou ele para se acalmar. Três horas é suficiente. Além do mais, estou debaixo da marquise e fora da chuva. Conte suas bênçãos e relaxe.
Ele ensaiou sua fala enquanto avançava lentamente, visualizando cada cartaz do portfólio e lembrando a si mesmo de ficar calmo. De elaborar sua melhor ofensiva encantadora e deixar longe do pensamento a mudança potencialmente enorme em seu destino assim que entrasse no número 245 da avenida Park.
A Green Century era uma empresa multinacional de petróleo, e seu nome ecologicamente otimista, que significava Século Verde, tinha se tornado um peso quando um dos poços submarinos perdeu a tampa não muito longe de Golf Shores, no Alabama. O derramamento de óleo não foi tão catastrófico quanto o que aconteceu depois do desastre de Deepwater Horizon, mas foi bem ruim. Ah, nossa, aquele nome. Os comediantes da madrugada estavam se divertindo com isso. (Letterman: “O que é verde e preto e suja tudo?”) A primeira resposta pública mal-humorada do CEO da Green Century — “Nós temos que ir atrás de onde o petróleo está, era de imaginar que as pessoas entenderiam isso” — não ajudou; uma charge de internet mostrando um poço de petróleo jorrando pela bunda do CEO com as palavras dele escritas embaixo viralizou.
A equipe de RP da Green Century procurou a Market Forward, a agência que usavam havia anos, com o que acreditava ser uma ideia brilhante. Eles queriam repassar a campanha de controle de danos para uma agência de propaganda menor do sul, desejando tirar vantagem do fato de não estarem usando as feras de Nova York de sempre para acalmar o povo americano. Estavam particularmente preocupados com a opinião dos americanos que viviam abaixo do que os feras de Nova York deviam chamar, nas suas festas elegantes, de Linha Mason-Dumbass.
A fila do táxi andou um pouco. Wilson olhou para o relógio. Faltavam cinco minutos para meio-dia.
Não se preocupe, ele disse para si mesmo, mas estava começando a se preocupar.
Finalmente entrou em um táxi ao meio-dia e vinte. Odiava a ideia de levar a mala molhada para um escritório caro em um prédio comercial de Manhattan (pareceria muito caipira), mas estava começando a achar que talvez não tivesse tempo de parar no hotel.
O táxi era uma minivan amarela. O motorista era um sikh melancólico que vivia embaixo de um turbante laranja enorme. Fotos com molduras de plástico penduradas no retrovisor exibiam a esposa e os filhos. O rádio estava sintonizado na 1010 WINS, com a musiquinha propaganda irritante de xilofone tocando a cada quatro minutos, mais ou menos.
— O trânsito tá ruim hoje — disse o sikh conforme eles se aproximavam da saída do aeroporto. Esse parecia ser o máximo de conversa dele. — Tá muito, muito ruim.
A chuva foi ficando mais forte conforme eles se aproximavam de Manhattan. Wilson sentiu seu para-choque ficando mais frágil a cada pausa e salto de movimento peristáltico para a frente. Tinha meia hora para fazer sua apresentação, só meia hora. Esperariam por ele caso se atrasasse? Diriam: “Pessoal, das catorze agências menores que estamos avaliando aqui hoje para o grande palco, nasce uma estrela e tal, só uma tem experiência comprovada de trabalhar com firmas que sofreram desastres ambientais, e é a Southern Concepts. Portanto, não vamos deixar o sr. James Wilson de fora só porque ele está um pouco atrasado”.
Podiam dizer isso, mas, de um modo geral, Wilson pensou… não. O que mais queriam era acabar com as piadas da madrugada o mais rápido possível. Isso tornava a apresentação dele importante, mas claro que todo babaca tinha uma apresentação. (Essa era uma das pérolas de sabedoria do pai dele.) Precisava chegar na hora.
Uma e quinze da tarde. Quando as coisas dão errado, elas continuam dando errado, pensou ele. Não queria pensar, mas pensou. Até haver lágrimas.
Quando se aproximaram do Midtown Tunnel, ele se inclinou para a frente e pediu ao sikh uma hora estimada de chegada. O turbante laranja balançou com pesar de um lado para outro.
— Não tenho como dizer, senhor. O trânsito tá muito, muito ruim.
— Meia hora?
Houve uma longa pausa, e o sikh disse:
— Talvez.
A palavra apaziguadora escolhida com cuidado foi o bastante para Wilson perceber que sua situação era crítica e quase desastrosa.
Posso deixar esta maldita mala na recepção da Market Forward, pensou ele. Assim, pelo menos não preciso arrastá-la para a sala de reuniões.
Ele se inclinou para a frente e disse:
— Esqueça o hotel. Me leve para o número 245 da Park.
O túnel foi um pesadelo claustrofóbico: para e anda, para e anda. O trânsito do outro lado, para atravessar a cidade pela rua 34, não estava melhor. O táxi minivan era alto o bastante para Wilson ver todos os obstáculos desanimadores à frente. Mas, quando chegaram à avenida Madison, ele começou a relaxar um pouco. Seria apertado, bem mais apertado do que Wilson gostaria, mas não haveria necessidade de fazer a ligação humilhante dizendo que se atrasaria um pouco. Não ir ao hotel foi a decisão certa.
Só que aí apareceu o cano estourado, os cones, e o sikh teve que fazer um desvio no caminho.
— Está pior do que quando o Obama vem aqui — disse ele, enquanto a 1010 WINS prometia que, se Wilson desse vinte e dois minutos a eles, eles lhe dariam o mundo. A música do xilofone crepitou como dentes soltos.
Eu não quero o mundo, pensou ele. Só quero chegar ao número 245 da Park às duas e quinze. Duas e vinte, no máximo.
O Transporte Feliz acabou voltando à avenida Madison. O trânsito fluiu bem até quase a rua 36, mas parou. Wilson imaginou um locutor de futebol americano dizendo para a plateia que a corrida foi vistosa, mas o ganho com a jogada foi ínfimo. Os limpadores de para-brisa se moviam. Um repórter falava de cigarros eletrônicos. E houve uma propaganda de Sleepy’s.
Wilson pensou: Relaxe. Dá para ir andando se precisar. São onze quarteirões, só isso. Só que estava chovendo, e ele estaria arrastando a porcaria da mala.
Um ônibus da Peter Pan parou ao lado do táxi com um barulho de freios a ar. Wilson estava alto o bastante para conseguir olhar pela janela e ver dentro do ônibus. A pouco mais de um metro e meio dele, uma mulher bonita estava lendo uma revista. Ao lado dela, no banco do corredor, um homem de sobretudo preto procurava alguma coisa na pasta equilibrada nos joelhos.
O sikh apertou a buzina e levantou as mãos com as palmas viradas para cima, como quem diz “Vejam o que o mundo fez comigo”.
Wilson viu a mulher bonita tocar nos cantos da boca, talvez verificando o batom. O homem ao lado dela estava agora remexendo no bolso externo da pasta. Ele pegou um cachecol preto, levou-o até o nariz e cheirou.
Por que ele faria isso?, perguntou-se Wilson. É o perfume da esposa ou o cheiro da maquiagem dela?
Pela primeira vez desde que entrou no avião em Birmingham, ele se esqueceu da Green Century e da Market Forward e da melhoria radical em suas circunstâncias que poderia acontecer se a reunião, agora a menos de meia hora de distância, corresse bem. No momento, ele estava fascinado, mais do que fascinado, hipnotizado, pelos dedos delicadamente avaliadores da mulher e pelo homem com o cachecol no nariz. Ocorreu-lhe que estava olhando para outro mundo. Sim. Aquele ônibus era outro mundo. Aquele homem e aquela mulher tinham outros compromissos, sem dúvida com balões de esperança presos a eles. Tinham contas a pagar. Tinham irmãs e irmãos e certos brinquedos da infância que permaneciam na lembrança. A mulher talvez tivesse feito um aborto quando estava na faculdade. O homem talvez tivesse um piercing no pênis. Eles talvez tivessem animais de estimação, e, se tivessem, esses animais teriam nomes.
Wilson teve um vislumbre momentâneo, uma imagem vaga e malformada, mas gigantesca, de uma galáxia mecânica onde rodas e engrenagens separadas se movimentavam de formas misteriosas, talvez com um objetivo cármico, talvez sem motivo algum. Ali era o mundo do táxi Transporte Feliz, e a um metro e meio ficava o mundo do ônibus Peter Pan. Entre eles havia apenas um metro e meio e duas camadas de vidro. Wilson ficou impressionado com um fato tão evidente.
— Tanto trânsito — disse o sikh. — Pior do que quando o Obama vem aqui, acredite.
O homem afastou o cachecol preto do nariz. Segurou-o com uma das mãos e enfiou a outra no bolso do sobretudo. A mulher no assento da janela folheou a revista. O homem se virou para ela. Wilson viu os lábios dele se mexerem. A mulher levantou a cabeça e arregalou os olhos com surpresa aparente. O homem se inclinou para perto, como se para contar um segredo. Wilson só percebeu que o que o homem tinha tirado do bolso era uma faca quando ele a usou para cortar a garganta da mulher.
Os olhos dela se arregalaram. Os lábios se abriram. Ela levou uma das mãos até o pescoço. O homem de sobretudo usou a mão segurando a faca para empurrar a mão dela para baixo, com delicadeza, mas firme. Ao mesmo tempo, apertou o cachecol preto na garganta da mulher e o segurou ali. Em seguida, beijou a têmpora dela, olhando por cima da cabeça da mulher enquanto fazia isso. Ele viu Wilson, e seus lábios se abriram em um sorriso largo o bastante para mostrar duas fileiras de dentes pequenos e regulares. Ele assentiu para Wilson, como quem diz tenha um ótimo dia ou agora temos um segredo. Havia uma gota de sangue na janela. A gota ganhou volume e escorreu pelo vidro. Ainda segurando o cachecol no pescoço da mulher, o Homem de Sobretudo colocou o dedo na boca frouxa dela. Ainda estava sorrindo para Wilson ao fazer isso.
— Finalmente! — disse o sikh, e o táxi Transporte Feliz começou a se mover.
— Você viu aquilo? — perguntou Wilson. Sua voz pareceu seca e nada surpresa. — Aquele homem. Aquele homem no ônibus. O que estava com a mulher.
— O que tem, senhor? — perguntou o sikh. O sinal na esquina ficou amarelo, e o sikh passou direto, ignorando o som das buzinas quando mudou de faixa. O ônibus Peter Pan ficou para trás. À frente, a Grand Central surgia na chuva, parecendo uma penitenciária.
Só quando o táxi se movimentou de novo que Wilson se lembrou do celular. Ele o tirou do bolso do casaco e olhou. Se fosse do tipo que pensava rápido (isso sempre foi departamento do irmão, de acordo com a mãe deles), poderia ter tirado uma foto do Homem de Sobretudo. Era tarde demais para isso, mas não tarde demais para ligar para a emergência. Claro, ele não podia fazer uma ligação dessas anonimamente; seu nome e seu número surgiriam em alguma tela oficial assim que a ligação fosse repassada. Ligariam para ele para ter certeza de que não estava dando um trote para passar o tempo em uma tarde chuvosa em Nova York. Iam querer informações, que ele teria que dar, não teria escolha, na delegacia mais próxima. Iam querer ouvir sua história várias vezes. O que não iam querer era saber sobre a apresentação dele.
A apresentação se chamava “Nos deem três anos e vamos provar”. Wilson pensou em como tudo iria se suceder. Ele começaria dizendo para as feras e os executivos das Relações Públicas que o derramamento tinha que ser encarado diretamente. Estava lá; voluntários ainda estavam lavando pássaros cobertos de petróleo com detergente Dawn; não dava para varrer para baixo do tapete. Mas, ele diria, a reparação não precisa ser feia, e às vezes a verdade pode ser bonita. As pessoas querem acreditar em vocês, ele diria. Elas precisam de vocês, afinal. Precisam de vocês para chegar do Ponto A até o Ponto B, e isso as torna hostis a se verem cúmplices no estupro do meio ambiente. A essa altura, ele abriria seu portfólio e mostraria o primeiro cartaz: uma foto de um garoto e uma garota em uma praia imaculada, de costas para a câmera, olhando para uma água tão azul que quase doía. ENERGIA E BELEZA PODEM ANDAR JUNTAS, dizia a legenda. NOS DEEM TRÊS ANOS E VAMOS PROVAR.
Ligar para a emergência era uma coisa tão simples que uma criança era capaz de fazer. Quando alguém invadia a casa. Quando a irmãzinha caía da escada. Ou se papai estava dando uma surra na mamãe.
Em seguida, vinha o storyboard de um proposto comercial de TV que seria transmitido em todos os estados do golfo, com ênfase no noticiário local e em canais de TV a cabo vinte e quatro horas como a FOX e a MSNBC. Em uma sequência de fotografias, uma praia suja e manchada de petróleo ficaria limpa de novo. “Temos a responsabilidade de consertar nossos erros”, o narrador diria (com um leve sotaque do sul). “É como trabalhamos e como tratamos nossos vizinhos. Nos deem três anos e vamos provar.”
Em seguida, as propagandas impressas. Os comerciais de rádio. E, na fase dois…
— Senhor? O que o senhor disse?
Eu poderia ligar, Wilson pensou, mas o cara provavelmente já vai ter descido do ônibus e sumido quando a polícia conseguir chegar lá. Provavelmente? Tenho certeza.
Ele se virou para olhar para trás. O ônibus estava bem distante agora. Talvez, pensou ele, a mulher tenha gritado. Talvez os outros passageiros já estejam segurando o homem, da mesma forma que os passageiros seguraram o homem do sapato-bomba quando perceberam o que ele estava prestes a fazer.
Pensou em seguida na forma como o homem de sobretudo sorriu para ele. Também na forma como colocou o dedo na boca frouxa da mulher.
Wilson pensou: Falando em brincadeiras, pode não ter sido o que eu achei que era. Pode ter sido uma pegadinha. Uma que eles faziam o tempo todo. Coisa típica de flash mob.
Quanto mais pensava no assunto, mais plausível essa ideia parecia. Homens cortavam gargantas de mulheres em becos e em programas de TV, não em ônibus Peter Pan no meio da tarde. Quanto a Wilson, ele tinha montado uma bela campanha. Era o homem certo no lugar certo na hora certa, e raramente se tinha mais do que uma chance no mundo. Isso não era uma das pérolas da mãe, mas era um fato.
— Senhor?
— Me deixe no próximo sinal — pediu Wilson. — Vou andando de lá.
Para Hesh Kestin
Vi muitos filmes de terror quando era criança (você já deve ter adivinhado isso). Eu era um alvo fácil, e a maioria me deixava morrendo de medo. O lugar era escuro, as imagens eram muito maiores que você e o som era tão alto que os sustos continuavam até quando você fechava os olhos. Na TV, o quociente de sustos costumava ser menor. Havia comerciais para quebrar o ritmo, e as piores partes às vezes eram editadas para não traumatizar os mais novos que podiam estar assistindo (aliás, já era tarde demais para mim; eu já tinha visto a mulher morta levantando da banheira em As diabólicas). Como último recurso, você sempre podia ir até a cozinha pegar um refrigerante na geladeira e ficar lá até a música assustadora ser substituída por um vendedor gritando “Carros, carros, carros! Sem avaliação de crédito! Vendemos para QUALQUER UM!”.
Mas um filme que vi na TV conseguiu me assustar. Pelo menos a primeira hora dos seus setenta e sete minutos; o desfecho estragou tudo, e até hoje eu queria que alguém o refilmasse e levasse sua premissa apavorante até o final. Esse filme tem talvez o melhor título de filme de terror de todos os tempos: I Bury the Living (Eu enterro os vivos).
Eu estava pensando nesse filme quando escrevi esta história.