O Bazar dos Sonhos Ruins

Stephen King · Capítulo 14 de 22

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O Bazar dos Sonhos Ruins

Indisposta

 

Estou tendo o mesmo sonho ruim há uma semana, mas deve ser um dos lúcidos, porque sempre consigo acordar antes de virar um pesadelo. Só que, desta vez, parece ter me seguido, porque Ellen e eu não estamos sozinhos no quarto. Tem alguma coisa embaixo da cama. Consigo ouvi-la mastigando.

Sabe como é quando você está morrendo de medo? Claro que sabe. O medo é universal. Seu coração parece parar, sua boca fica seca, sua pele fica fria e um arrepio se espalha por todo o corpo. Em vez de trabalharem, as engrenagens na sua cabeça disparam. Eu quase solto um grito, sério. Penso: É a coisa que não quero ver. É a coisa no assento da janela.

Mas aí eu vejo o ventilador no teto, as pás girando na velocidade mais lenta. Vejo um raio de luz matinal entrando pela fresta das cortinas fechadas. Vejo os fios grisalhos e sedosos do cabelo de Ellen do outro lado da cama. Estou aqui no Upper East Side, no quinto andar, e tudo está bem. O sonho foi só um sonho. Quanto ao que tem debaixo da cama…

Afasto o cobertor e fico de joelhos, como um homem que pretende rezar. Mas, em vez disso, levanto a colcha e espio embaixo da cama. A princípio, vejo apenas uma forma escura. Depois, a cabeça da forma se vira, e dois olhos brilham para mim. É Lady. Ela não deveria estar ali embaixo, e acho que sabe (é difícil saber o que um cachorro sabe e o que não sabe), mas devo ter deixado a porta aberta quando fui para a cama. Ou talvez não tenha fechado o trinco, e Lady o empurrou com o focinho. Ela deve ter levado um dos brinquedos da cesta que fica no corredor. Pelo menos não foi o osso azul nem o rato vermelho. Os dois têm apitos dentro e teriam acordado Ellen, com certeza. E Ellen precisa descansar. Ela anda indisposta.

— Lady — sussurro. — Saia daí.

Ela só me olha. Está com a idade avançada e não anda tão forte quanto era, mas não é burra. Está debaixo da cama do lado de Ellen, onde não consigo alcançá-la. Se eu levantar a voz, vai ter que sair, mas ela sabe (tenho certeza de que sabe) que não vou fazer isso, porque, se eu levantar a voz, Ellen com certeza vai acordar.

Como se para provar seu ponto, Lady se vira de costas para mim e recomeça a mastigar.

Bem, posso dar um jeito isso. Convivo com Lady há treze anos, quase metade da minha vida de casado. Tem três coisas que a fazem se levantar. Uma é o barulho da coleira e um grito de “Elevador!”. Outra é o barulho da sua tigela de comida no chão. A terceira…

Eu me levanto e percorro o pequeno corredor até a cozinha. No armário, pego o saco de Snackin’ Slices, tomando o cuidado de sacudi-lo bastante. Não preciso esperar muito para ouvir o estalo abafado das unhas do cocker spaniel. Em cinco segundos, ela está lá. Nem se deu ao trabalho de levar o brinquedo.

Pego um com forma de cenourinha e jogo na sala. É um pouco de maldade, talvez, mas a coisinha velha e gorda precisa se exercitar. Ela corre atrás do petisco. Fico ali por tempo suficiente para ligar a cafeteira, depois volto para o quarto. Tomo o cuidado de fechar bem a porta.

Ellen ainda está dormindo, e acordar antes dela tem um benefício: não há necessidade do despertador. Eu o desligo. Ela que durma até um pouco mais tarde. É a bronquite. Tive medo por um tempo, mas agora ela está melhorando.

Entro no banheiro e batizo o dia oficialmente ao escovar os dentes (já li que de manhã a boca de uma pessoa está o mais livre de germes possível, mas os hábitos que adquirimos quando criança são difíceis de perder). Eu ligo o chuveiro, espero a água ficar quente e entro.

É no chuveiro que eu penso melhor, e esta manhã penso no sonho. Eu o tive por cinco noites seguidas. (Mas quem quer saber de contar, certo?) Nada de muito ruim acontece no sonho, mas de certa forma isso é ainda pior. Porque eu sei, com certeza absoluta, que uma coisa horrível vai acontecer. Se eu deixar.

Estou em um avião, na classe executiva. Estou em um assento de corredor, que é onde prefiro ficar, para não ter que me espremer por ninguém se tiver que ir ao banheiro. Minha bandeja está aberta. Nela tem um saco de amendoins e uma bebida laranja que parece ser Vodca Sunrise, um drinque que nunca pedi na vida real. O voo está tranquilo. Se tem nuvens, estamos acima. A cabine está tomada de luz do sol. Tem alguém no assento da janela, e eu sei que, se olhar para ele (ou ela, possivelmente para a coisa), vou ver algo que vai transformar meu sonho ruim em pesadelo. Se eu olhar no rosto do meu vizinho de assento, posso enlouquecer. Minha mente pode se abrir como um ovo, e uma maré de escuridão sangrenta pode se espalhar.

Enxáguo rapidamente o cabelo ensaboado, saio do chuveiro e me seco. Minhas roupas estão dobradas em uma cadeira no quarto. Eu as levo junto com os sapatos para a cozinha, que agora está sendo tomada pelo cheiro de café. Que delícia. Lady está encolhida perto do fogão, me olhando com reprovação.

— Não me olhe de cara feia — digo para ela, e indico a porta fechada do quarto. — Você sabe as regras.

Ela coloca o focinho entre as patas e finge dormir, mas sei que ainda está me olhando.

 

Bebo suco de cranberry enquanto espero o café. Tem suco de laranja, minha bebida matinal habitual, mas não estou com vontade. É parecido demais com o drinque do sonho, eu acho. Tomo meu café na sala com a CNN no mudo, só lendo as notícias de rodapé, que é tudo de que uma pessoa precisa. Desligo a TV e como uma tigela de All Bran. São quinze para as oito. Decido que, se o dia estiver bonito quando eu levar Lady para passear, vou deixar o táxi de lado e caminhar até o trabalho.

Está bonito, sim, a primavera dando lugar ao verão e lançando seu brilho em tudo. Carlo, o porteiro, está debaixo do toldo, falando ao celular.

— É — diz ele. — É, eu finalmente consegui falar com ela. Ela disse pra ir em frente, que não tem problema se eu estiver lá. Ela não confia em ninguém, e não a culpo por isso. Ela tem um monte de coisas bonitas lá em cima. Você vem quando? Às três? Não pode chegar mais cedo? — Ele me dá um aceno com a mão coberta pela luva branca quando passo com Lady seguindo para a esquina.

Temos isso sincronizado a ponto de parecer uma ciência, Lady e eu. Ela se alivia praticamente no mesmo lugar todo dia, e eu sou rápido com o saco de cocô. Quando volto, Carlo se inclina para fazer carinho nela. Lady balança o rabo de forma encantadora, mas não vem nenhum petisco de Carlo. Ele sabe que ela está de dieta. Ou deveria estar.

— Eu finalmente consegui falar com a sra. Warshawski — conta Carlo. A sra. Warshawski é do 5-C, mas só tecnicamente. Está fora há uns dois meses. — Ela estava em Viena.

— Viena, é mesmo?

— Ela me mandou chamar os dedetizadores. Ficou horrorizada quando contei. O senhor é o único no quarto, quinto e sexto andares que não reclamou. O resto… — Ele balança a cabeça e suspira.

— Eu cresci em uma cidade operária em Connecticut. Destruiu meus seios da face. Consigo sentir cheiro de café e do perfume de Ellen, se ela passar bastante, mas só isso.

— Nesse caso, deve ser uma bênção. E como a sra. Franklin está? Ainda indisposta?

— Ainda precisa de mais uns dias para poder voltar ao trabalho, mas está bem melhor. Aquilo me assustou por um tempo.

— A mim também. Ela estava saindo um dia… na chuva, claro…

— Essa é a El — eu falo. — Nada a impede. Se achar que tem que ir a algum lugar, ela vai.

— … e eu pensei: “Isso é uma tosse de cemitério”. — Ele levanta a mão enluvada em um gesto de pare. — Não que eu realmente tenha pensado…

— Eu entendi. Estava prestes a virar uma tosse de internação no hospital, sem dúvida. Mas eu finalmente a convenci a ir ao médico, e agora… ela está se recuperando.

— Que bom. Que bom. — E, voltando ao assunto anterior: — A sra. Warshawski ficou enojada quando contei a ela. Eu falei que provavelmente só encontraríamos comida estragada na geladeira, mas sei que é alguma coisa pior. E todo mundo naqueles andares com o olfato intacto também acha. — Ele dá um aceno melancólico. — Vão encontrar um rato morto lá, pode anotar. Comida fede, mas não assim. Só coisas mortas fedem assim. É um rato sim, talvez mais de um. A sra. W deve ter colocado veneno em casa e não quer admitir. — Ele se inclina para fazer outro carinho em Lady. — Você sente o cheiro, não sente, garota? Aposto que sente.

***

Há um amontoado de bilhetes roxos ao redor da cafeteira. Pego na mesa da cozinha o bloco roxo do qual eles vieram e escrevo outro.

Ellen: Lady já passeou. O café está pronto. Se você se sentir bem o bastante para ir até o parque, vá! Só não vá muito longe. Não quero que você exagere agora que finalmente está melhorando. Carlo me disse de novo que “sente cheiro de rato morto”. Acho que todos os vizinhos do 5-C também. Sorte a nossa que você está entupida e eu sou “olfativamente prejudicado”. Haha! Se você ouvir gente no corredor, são os dedetizadores. Carlo vai estar com eles, então não se preocupe. Vou andando para o trabalho. Preciso pensar mais um pouco sobre a mais recente e milagrosa droga masculina. Queria que tivessem nos consultado antes de terem dado aquele nome. Lembre-se, NÃO EXAGERE. Amo muito você.

Coloco alguns bjs embaixo para deixar bem claro e assino com um B dentro de um coração. Em seguida, acrescento este aos outros bilhetes ao redor da cafeteira. Troco a água de Lady antes de sair.

São uns vinte quarteirões, e não penso nem um pouco sobre a mais recente e milagrosa droga masculina. Penso nos dedetizadores, que vão aparecer às três da tarde. Ou mais cedo, se conseguirem.

 

Os sonhos interromperam meu ciclo de sono, eu acho, porque quase durmo durante a reunião matinal na sala de reuniões. Mas me recupero depressa quando Pete Wendell mostra um modelo de pôster da nova campanha Petrov Excellent. Eu já o vi no computador enquanto ele estava trabalhando, semana passada, e ao olhar de novo sei de onde pelo menos um elemento do meu sonho veio.

— Petrov Excellent Vodca — diz Aura McLean. Os maravilhosos seios dela sobem e descem em um suspiro teatral. — Se esse nome for um exemplo do novo capitalismo da Rússia, já morreu antes de nascer. — A gargalhada mais intensa vem dos homens mais jovens, que gostariam de ver o cabelo louro e comprido de Aura espalhado em um travesseiro ao lado deles na cama. — Sem querer ofender, Pete. Deixando o nome Petrov Excellent de lado, é um ótimo pôster.

— Não me ofendi — diz Pete com um sorriso alegre. — A gente faz o que pode.

O pôster mostra um casal fazendo um brinde em uma varanda enquanto o sol desce em um porto cheio de barcos caros de lazer. O slogan embaixo diz: O PÔR DO SOL. O MOMENTO PERFEITO PARA UMA VODCA SUNRISE.

Há alguma discussão sobre a posição da garrafa de Petrov (à direita? À esquerda? No meio? Embaixo?), e Frank Bernstein sugere acrescentar a fórmula para prolongar a visualização da página, principalmente em comerciais na internet e em revistas como a Playboy e a Esquire. Eu desligo a conversa e fico pensando no drinque na bandeja do avião do sonho até perceber que George Slattery está falando comigo. Consigo lembrar a pergunta, e isso é bom. Pedir a George para se repetir não é uma boa ideia.

— Estou no mesmo barco que Pete — respondo. — O cliente escolheu o nome, estou só fazendo o que posso.

Gargalhadas bem-humoradas tomam a sala. Já houve muitas piadinhas sobre o novo remédio da Vonnell Pharmaceutical.

— Talvez tenha alguma coisa para mostrar na segunda. — digo a eles. Não estou olhando exatamente para George, mas ele sabe a quem me direciono. — No meio da semana que vem com certeza. Quero dar uma chance a Billy, para ver o que ele consegue fazer. — Billy Ederle é nosso mais novo funcionário e está cumprindo o período de experiência como meu assistente. Ainda não é convidado para as reuniões matinais, mas eu gosto dele. Todo mundo na Andrews-Slattery gosta. Ele é inteligente e ávido, e aposto que vai começar a fazer a barba em um ou dois anos.

George pensa a respeito.

— Eu estava esperando ver alguma peça hoje. Mesmo que só um rascunho.

Silêncio. As pessoas examinam as unhas. É o mais próximo de uma repreensão pública a que George chega, e talvez eu mereça. Essa não foi minha melhor semana, e jogar tudo nas costas do garoto novo não pega bem. Também não gosto disso.

— Tudo bem — diz George, e dá para sentir o alívio na sala. É como uma brisa fresca que vem e passa. Ninguém quer testemunhar uma bronca na sala de reuniões em uma manhã de sexta, e eu também não quero levar uma. Tenho muitas outras coisas em mente.

George está sentindo cheiro de rato morto, eu penso.

— Como Ellen está? — pergunta ele.

— Melhor. Obrigado por perguntar.

Há mais algumas apresentações. Em seguida, acaba. Graças a Deus.

Estou quase cochilando quando Billy entra no meu escritório vinte minutos depois. Pensando melhor, estou cochilando. Eu me sento rapidamente, torcendo para o garoto pensar que me pegou refletindo. Ele deve estar empolgado demais para reparar, de qualquer modo. Em uma das mãos segura uma folha grande de papel. Penso que ele se sentiria em casa na Podunk High School, pendurando um cartaz sobre o baile de sexta à noite.

— Como foi a reunião? — pergunta ele.

— Foi boa.

— Falaram sobre a gente?

— Você sabe que falaram. O que você tem para mim, Billy?

Ele respira fundo e vira o pôster para que eu possa ver. À esquerda tem um frasco de Viagra, de tamanho real ou perto o bastante disso para não fazer diferença. À direita, o lado poderoso da propaganda, como qualquer pessoa que trabalhe com isso pode dizer, tem um frasco do nosso medicamento, mas bem maior. Embaixo, está o slogan: PO-TENS, DEZ VEZES MAIS EFICIENTE QUE O VIAGRA!

Enquanto Billy me observa olhar para o pôster, seu sorriso esperançoso começa a murchar.

— Você não gostou.

— Não é uma questão de gostar ou não. Neste ramo, nunca é. É uma questão do que funciona e do que não funciona. E isso não funciona.

Agora ele parece emburrado. Se George Slattery visse aquela expressão, cairia em cima dele. Eu não vou fazer isso, apesar de que talvez ele pense que estou fazendo, porque é meu trabalho ensiná-lo. Apesar de todas as outras coisas que tenho na cabeça, vou tentar fazer isso. Porque amo este trabalho. É pouco respeitado, mas eu amo mesmo assim. Além do mais, consigo ouvir Ellen dizendo “Você não deixa pra lá, amor. Quando mergulha de cabeça em alguma coisa, você fica até o fim. Uma determinação assim pode ser até meio assustadora”.

— Sente-se, Billy.

Ele se senta.

— E pare de fazer bico. Você parece um garotinho que deixou a chupeta cair na privada.

Ele se esforça. E gosto disso nele. O garoto se esforça, e se ele quer trabalhar na Andrews-Slattery, é melhor se esforçar mesmo. Claro, também tem que mostrar resultados.

— A boa notícia é que não vou tirar o cliente de você, principalmente porque não é sua culpa a Vonnell Pharmaceutical ter jogado nas nossas costas um nome que parece de uma multivitamina. Mas vamos pegar esse limão e fazer uma limonada. Em propaganda, esse é o trabalho principal em sete a cada dez vezes. Talvez oito. Então, preste atenção.

Ele abre um sorrisinho.

— Devo tomar nota?

— Não seja abusado. Primeiro, quando você quer vender um remédio, nunca mostra o frasco. O logotipo, sim. O comprimido, às vezes. Depende. Sabe por que a Pfizer mostra o comprimido do Viagra? Porque é azul. Os consumidores gostam de azul. O formato ajuda também. Os consumidores têm uma reação muito boa ao formato do Viagra. Mas as pessoas odeiam ver o frasco onde o comprimido vem. Os frascos as fazem pensar em doença. Entendeu?

— Então talvez um comprimidinho de Viagra e um comprimidão de Po-TENS? Em vez dos frascos? — Ele levanta as mãos e emoldura o slogan invisível. — “Po-TENS, dez vezes maior, dez vezes melhor.” Percebeu o trocadilho?

— Sim, Billy, percebi. O FDA também vai perceber e não vai gostar nada. Na verdade, pode nos fazer tirar uma propaganda com um slogan desse de circulação, o que custaria uma fortuna. Sem mencionar um cliente muito bom.

— Por quê? — É quase um balido.

— Porque não é dez vezes maior, e não é dez vezes melhor. Viagra, Cialis, Levitra, Po-TENS, todos têm a mesma eficiência no que diz respeito à elevação do pênis. Faça uma pesquisa, garoto. E revisar as leis da propaganda não faria mal. Quer dizer que os bolinhos de fibras Blowhard são dez vezes mais saborosos que os Bigmouth? Tudo bem, pois o gosto é subjetivo. Mas o que deixa seu pau duro e por quanto tempo…

— Tudo bem — diz ele em voz baixa.

— Eis a outra parte. “Dez vezes” qualquer coisa é, falando em termos de disfunção erétil, um argumento meia boca. Caiu em desuso na mesma época que duas P na C.

Ele parece não entender.

— Era como o pessoal da propaganda falava dos anúncios de TV durante as novelas nos anos 1950. Quer dizer duas piranhas em uma cozinha.

— Você tá de brincadeira!

— Não. Agora veja no que andei pensando.

Eu pego um bloco, e por um momento penso em todos aqueles bilhetes espalhados em volta da cafeteira no 5-B. Por que ainda estão lá?

— Você não pode me dizer? — pergunta o garoto, a mil quilômetros de distância.

— Não, porque a propaganda não é um meio oral. Nunca confie em uma propaganda dita em voz alta. Escreva e mostre para alguém. Mostre para o seu melhor amigo. Ou para… você sabe, sua esposa.

— Você está bem, Brad?

— Estou. Por quê?

— Sei lá, ficou esquisito por um minuto.

— Desde que eu não fique esquisito na reunião de segunda-feira, tudo bem. Agora o que isto te diz?

Eu viro o bloco para ele e mostro o que escrevi: PO-TENS… PARA HOMENS QUE QUEREM FAZER TUDO DO JEITO MAIS DURO.

— Parece uma piadinha suja! — protesta ele.

— Você tem razão, mas eu escrevi com letra de forma. Imagine em uma fonte delicada, em itálico. Ou talvez pequena, entre parênteses. Como um segredo. — Eu acrescento os parênteses, apesar de eles não funcionarem com a letra de forma. Mas vão funcionar. Eu sei porque consigo visualizar. — Agora, a partir disso, pense em uma foto mostrando um sujeito alto e musculoso. Com calça de cintura baixa, exibindo o elástico da cueca. E um moletom com as mangas cortadas, digamos. Imagine-o com graxa e sujeira no volume.

— Volume?

— Dos bíceps. E ele está parado ao lado de um carro robusto com o capô aberto. Ainda é uma piada suja?

— Eu… não sei.

— Nem eu, não tenho certeza, mas meus instintos me dizem que vai dar certo. Mas ainda não. O slogan ainda não está bom, você está certo quanto a isso, e tem que estar, porque vai ser a base das propagandas para a TV e para a internet. Então, brinque com a ideia. Faça funcionar. Só não se esqueça da palavra-chave…

De repente, do nada, sei de onde veio o resto do sonho. A última peça que faltava.

— Brad?

— A palavra-chave é duro — eu falo. — Porque um homem… quando alguma coisa não está funcionando, seja seu membro, seu plano, sua vida, ele dá duro. Ele não quer desistir. Ele se lembra de como era e quer que as coisas voltem a ser daquele jeito.

Sim, eu penso. Quer mesmo.

Billy dá um sorrisinho.

— Eu não teria como saber.

Eu consigo retribuir o sorriso. É terrivelmente pesado, como se houvesse pesos pendurados nos cantos da minha boca. De repente, parece que estou no sonho ruim novamente. Porque tem uma coisa perto de mim para a qual não quero olhar. Só que não é um sonho lúcido do qual posso recuar.

É a realidade lúcida.

 

Depois que Billy sai, vou ao banheiro. São dez da manhã, a maioria das pessoas no escritório já descarregou o café matinal e está tomando mais na salinha de estar, e fico com o local todo para mim. Abaixo a calça para ninguém me achar um esquisitão caso entre e espie por baixo da porta, mas a única coisa que vou fazer lá é pensar.

Quatro anos depois de entrar na Andrews-Slattery, a conta do Analgésico Fasprin foi parar na minha mesa. Tive algumas peças ao longo dos anos, algumas com soluções surpreendentes, e essa foi a primeira. Aconteceu rápido. Eu abri a caixa da amostra, peguei o frasco, e a base da campanha — o que o pessoal de marketing às vezes chama de cerne — me ocorreu em um instante. Eu enrolei por um tempo, claro, pois ninguém quer fazer com que o trabalho pareça fácil demais, depois fiz umas composições. Ellen ajudou. Isso foi logo depois que descobrimos que ela não podia ter filhos. Tinha a ver com um remédio que ela tomou para febre reumática quando era criança. Ela ficou bem deprimida. Ajudar com as composições do Fasprin tirou sua mente do problema, e ela se dedicou de verdade.

Al Peterson ainda chefiava a agência na época, e foi para ele que levei as composições. Eu me lembro de sentar em frente à mesa dele, na berlinda, com o coração na boca enquanto ele olhava as peças que elaboramos. Quando as colocou sobre a mesa e levantou a cabeça velha e descabelada para me olhar, a pausa pareceu durar pelo menos uma hora. E ele disse:

— Ficaram boas, Bradley. Mais do que boas, excelentes. Vamos nos reunir com o cliente amanhã à tarde. Você vai liderar a reunião.

Eu liderei a reunião, e quando o vice-presidente da Dugan Drug viu a imagem da jovem trabalhadora com o frasco de Fasprin aparecendo debaixo da manga dobrada, enlouqueceu. A campanha levou o Fasprin para junto dos grandões, Bayer, Anacin, Bufferin, e no fim do ano estávamos cuidando de toda a conta da Dugan. O valor? Tinha sete dígitos. E não eram sete dígitos baixos.

Usei o bônus para levar Ellen a Nassau por dez dias. Pegamos o avião no Kennedy, em uma manhã com chuva torrencial, e ainda lembro como ela riu e gritou “Me beije, bonitão!” quando o avião cortou as nuvens e a cabine se encheu com a luz do sol. Eu a beijei, e o casal do outro lado do corredor (estávamos viajando na classe executiva) aplaudiu.

Essa foi a melhor parte. A pior aconteceu meia hora depois, quando me virei para ela e pensei por um momento que estivesse morta. Foi a forma como ela estava dormindo, com a cabeça inclinada sobre o ombro e a boca aberta, o cabelo meio grudado na janela. Ela era jovem, nós dois éramos, mas a ideia de uma morte repentina era uma possibilidade horrível no caso de Ellen.

— Chamavam sua condição de “estéril”, sra. Franklin — disse o médico quando nos deu a má notícia —, mas, neste caso, sua infertilidade pode ser uma bênção. A gravidez exige muito do coração, e graças a uma doença mal tratada quando a senhora era criança, o seu não é forte. Se por acaso concebesse, ficaria de cama durante os últimos quatro meses da gravidez, e mesmo assim o parto seria arriscado.

Ela não estava grávida quando partimos para aquela viagem, e o último check-up foi bom, mas a subida até a altitude de cruzeiro foi bem agitada… e ela não parecia estar respirando.

Mas Ellen abriu os olhos. Eu me recostei no assento do corredor e soltei o ar, trêmulo.

Ela me olhou, intrigada.

— O que foi?

— Nada. A forma como você estava dormindo, só isso.

Ela limpou o queixo.

— Ah, por Deus, eu babei muito?

— Não. — Eu ri. — Mas, por um minuto você pareceu… bem, morta.

Ela também riu.

— E, se eu estivesse, você enviaria o corpo de volta para Nova York, imagino, e arrumaria uma gata das Bahamas.

— Não — falei. — Eu levaria você de qualquer jeito.

— O quê?

— Porque eu não aceitaria. De jeito nenhum.

— Você teria que aceitar depois de alguns dias. Eu começaria a feder.

Ela estava sorrindo. Achou que ainda era uma brincadeira, porque não entendeu de verdade o que o médico disse para ela naquele dia. Não absorveu, como se diz por aí, o cerne da questão. E não sabia como estava, com o sol batendo nas bochechas muito pálidas e nas pálpebras manchadas e na boca frouxa. Mas eu vi, e eu entendi o cerne da questão. Ela era meu coração, e eu protejo o que tem lá. Ninguém pode tirá-lo de mim.

— Não mesmo. Eu manteria você viva.

— É mesmo? Como? Necromancia?

— Me recusando a desistir. E usando a qualidade mais valiosa de um homem de propaganda.

— Qual é, sr. Fasprin?

— A imaginação. Agora, podemos falar de um assunto mais agradável?

 

A ligação que estou esperando chega por volta das três e meia. Não é Carlo. É Berk Ostrow, o zelador do prédio. Ele quer saber a que horas vou estar em casa, porque o rato cujo cheiro todo mundo sente não está no 5-C, está no nosso apartamento. Ostrow diz que os dedetizadores têm que ir embora às quatro para fazer outro trabalho, mas que isso não é o importante. O importante é consertar o que tem de errado lá, e, a propósito, Carlo disse que ninguém vê sua esposa há mais de uma semana. Só vê você e o cachorro.

Eu explico sobre meu olfato deficiente e sobre a bronquite de Ellen. Na condição atual dela, eu digo, ela só saberia que as cortinas estão pegando fogo quando o detector de fumaça começasse a tocar. Tenho certeza de que Lady sente o cheiro, eu digo para ele, mas, para um cachorro, o fedor de um rato em decomposição deve parecer Chanel n° 5.

— Entendo, sr. Franklin, mas ainda preciso entrar para ver o que é. E os dedetizadores vão ter que ser chamados novamente. Acho que o senhor vai ter que pagar a conta, que pode acabar sendo bem alta. Eu posso entrar com a chave mestra, mas eu me sentiria melhor se o senhor estivesse…

— Sim, eu também me sentiria melhor. Sem mencionar minha esposa…

— Eu tentei ligar para o apartamento, mas ela não atendeu ao telefone.

Consigo ouvir a desconfiança na voz dele agora. Já expliquei tudo, homens de propaganda são bons nisso, mas o efeito convincente só dura uns sessenta segundos. É por isso que você fica ouvindo as mesmas propagandas e slogans repetidamente: insistir um pouco funciona muito bem. Economiza tempo, economiza dinheiro. Pepsi: o sabor da nova geração. Amo muito tudo isso. A verdadeira maionese. Viva o lado Coca-Cola da vida. Você conhece, você confia.

— Ela deve estar com o celular no silencioso. Além do mais, os remédios que o médico receitou deixam o sono dela bem pesado.

— A que horas chega em casa, sr. Franklin? Posso ficar até as sete; depois disso, só vai ter o Alfredo. — O tom depreciativo na voz dele sugere que seria melhor eu resolver com um maluco de rua.

Nunca, eu penso. Eu nunca mais vou para casa. Na verdade, eu nunca estive lá. Ellen e eu gostamos tanto das Bahamas que nos mudamos para Cable Beach, e eu arrumei um emprego em um escritório pequeno em Nassau. Eu grito sobre passeios em navios de cruzeiro (“O passeio é o destino!”), aparelhos de som em promoção (“Não apenas escute melhor, mas também mais barato!”) e inaugurações de supermercado (“Economize nas palmeiras!”). Toda essa vida em Nova York foi um sonho lúcido, do qual posso escapar a qualquer momento.

— Sr. Franklin, está aí?

— Claro. Só estou pensando. Tenho uma reunião que não posso perder de jeito nenhum, mas por que você não me encontra no apartamento por volta das seis?

— Pode ser no saguão, sr. Franklin? Podemos subir juntos. — Em outras palavras: não vou lhe dar nenhuma vantagem, sr. Gênio da Propaganda que Pode Ter Matado a Esposa.

Penso em perguntar como ele acha que eu chegaria primeiro ao apartamento e me livraria do corpo de Ellen, porque é isso que ele está pensando. Talvez assassinato não seja a primeira opção na mente dele, mas também não é a última. Marido mata esposa é bem popular no Lifetime Channel. Talvez ele pense que vou usar o elevador de serviço e largar o corpo dela no depósito. Ou quem sabe jogar pelo duto do incinerador. Cremação feita em casa.

— Está ótimo no saguão — eu digo. — Às seis. Quinze para as seis, se eu conseguir.

Eu desligo e sigo para os elevadores. Tenho que passar pela salinha de estar para chegar lá. Billy Ederle está encostado na porta, tomando um Nozzy. É um refrigerante horrível, mas é o único que anunciamos. A empresa é cliente.

— Para onde você vai?

— Para casa. Ellen ligou. Não está se sentindo muito bem.

— Não vai levar sua pasta?

— Não. Acho que não vou precisar dela por um tempo. Na verdade, talvez nunca mais precise dela.

— Estou trabalhando na nova direção do Po-TENS. Acho que vai ser certeira.

— Tenho certeza de que vai — digo, e tenho mesmo. Billy Ederle vai subir logo, e que bom para ele. — Tenho que ir nessa.

— Claro, eu entendo. — Ele tem vinte e quatro anos e não entende nada. — Mande lembranças a ela.

Incorporamos seis estagiários por ano na Andrews-Slattery; foi assim que Billy Ederle começou. A maioria é excelente, e, no começo, Fred Willits também pareceu. Eu o acolhi sob a minha asa e, por isso, virou minha responsabilidade demiti-lo (acho que dá para dizer assim, se bem que estagiários nunca são exatamente “contratados”) quando ele se mostrou um cleptomaníaco que decidiu que nosso almoxarifado era sua reserva de caça particular. Deus sabe quantas coisas roubou até Maria Ellington o pegar colocando resmas de papel na pasta certa tarde. No fim das contas, ele também era meio maluco. Ficou louco quando eu disse para guardar seus pertences e ir embora. Pete Wendell chamou a segurança enquanto o garoto gritava comigo no saguão, e ele foi removido à força do escritório.

Aparentemente, o velho Freddy tinha bem mais a dizer, porque começou a rondar meu prédio e a me incomodar quando eu voltava para casa. Mas ficava longe, e a polícia dizia que ele só estava exercitando seu direito de expressão. Mas não era da boca dele que eu tinha medo. Ficava pensando que ele podia ter roubado um estilete ou um abridor de cartas além de cartuchos de impressora e umas cinquenta resmas de papel de xerox. Foi quando pedi a Carlo para me dar a chave da entrada de serviço e comecei a entrar por lá. Isso tudo foi no outono, em setembro ou outubro. O jovem sr. Willits desistiu e levou seus problemas para outro lugar quando os dias esfriaram, mas Carlo nunca pediu a chave de volta, e eu nunca a devolvi. Acho que nós dois esquecemos.

É por isso que, em vez de dar meu endereço para o motorista de táxi, eu peço para ele me deixar no quarteirão seguinte. Eu pago e dou uma gorjeta generosa, afinal é só dinheiro, e ando pelo beco até a entrada de serviço. Por um momento angustiante, a chave não funciona, mas, quando balanço um pouco, ela gira. O elevador de serviço está com o acolchoamento marrom pendurado nas paredes. É uma prévia da cela acolchoada onde vão me colocar, eu penso, mas é puro melodrama. Devo ter que tirar licença da agência, e o que fiz dá justa causa, claro, mas…

O que eu fiz, exatamente?

Na verdade, o que ando fazendo na última semana?

— Mantendo-a viva — digo quando o elevador para no quinto andar. — Porque não consegui suportar que estivesse morta.

Ela não está morta, repito para mim mesmo, só indisposta. É uma legenda ruim, mas na última semana serviu muito bem, e no ramo da propaganda o curto prazo é tudo que importa.

Eu entro. O ar está parado e quente, mas não sinto nenhum cheiro. Ao menos é o que eu digo para mim mesmo, e no ramo da propaganda a imaginação também é o que conta.

— Querida, cheguei! — grito. — Está acordada? Está se sentindo melhor?

Acho que me esqueci de fechar a porta do quarto quando saí de manhã, porque Lady sai de lá. Está lambendo os beiços. Ela me olha com culpa, depois segue para a sala com o rabo entre as pernas. E não olha para trás.

— Querida? El?

Eu entro no quarto. Ainda não dá para ver nada dela além dos fios de cabelo e do formato do corpo sob a colcha. A colcha está meio repuxada, então sei que ela se levantou, mesmo que só para tomar café, depois voltou para a cama. Foi na sexta passada que cheguei em casa e ela não estava respirando, e desde então ela anda dormindo demais.

Vou até o lado dela da cama e vejo a mão pendurada. Não sobrou muita coisa além dos ossos e uns pedaços de carne. Há duas maneiras de se encarar isso. Se eu olhar de uma forma, provavelmente vou ter que mandar sacrificar meu cachorro, ou melhor, o cachorro de Ellen. Lady sempre amou mais Ellen. Por outro lado, dá para dizer que Lady ficou preocupada e tentou acordá-la. Venha, Ellie, quero ir para o parque. Venha, Ellie, vamos brincar com meus brinquedos.

Coloco a mão destruída debaixo do lençol. Assim, ela não vai ficar com frio. Em seguida, afasto algumas moscas. Acho que nunca vi moscas no nosso apartamento. Devem ter sentido o cheiro do rato morto que Carlo mencionou.

— Sabe o Billy Ederle? Dei uma dica sobre a maldita conta da Po-TENS e acho que ele vai usá-la.

Ellen não responde.

— Você não pode estar morta. Isso é inaceitável.

Ellen não responde.

— Quer café? — Eu olho para o relógio. — Quer comer alguma coisa? Tem canja. É de saquinho, mas não fica tão ruim quando está quente. — Não fica tão ruim quando está quente, que slogan péssimo. — O que me diz, El?

Ela não diz nada.

— Tudo bem, querida. Não tem problema. Lembra quando fomos para as Bahamas? Quando fomos mergulhar, e você teve que parar porque estava chorando? E quando eu perguntei por quê, você disse: “Porque é tudo tão lindo”.

Agora sou eu que estou chorando.

— Tem certeza de que não quer se levantar e andar um pouco? Posso abrir as janelas e deixar um pouco de ar fresco entrar.

Ellen não responde.

Eu suspiro. Acaricio o cabelo sedoso.

— Tudo bem. Por que você não dorme mais algumas horas? Vou ficar sentado aqui do seu lado.

E é exatamente isso que eu faço.

Para Joe Hill

Sim, é sobre beisebol, mas dê uma chance a ele, tá? Não é preciso ser marinheiro para amar os romances de Patrick O’Brian, e não é preciso ser jóquei (nem apostador) para amar os mistérios de Dick Francis. Essas histórias ganham vida nos personagens e nos eventos, e espero que você encontre algo similar aqui. Tive a ideia deste conto depois de assistir a um jogo decisivo pós-temporada em que uma decisão ruim resultou em um quase tumulto no estádio Turner Field, em Atlanta. Os torcedores jogaram copos, chapéus, placas, bandeiras e garrafas de cerveja no campo. Depois que um juiz foi acertado na cabeça com uma garrafa de uísque (já vazia, claro), os times foram tirados do campo até que a ordem pudesse ser restaurada. Os comentaristas da TV resmungaram sobre a falta de espírito esportivo, como se essas manifestações de desprezo e fúria não acontecessem nos estádios e campos dos Estados Unidos há cem anos ou mais.

 

Eu sempre amei beisebol e queria escrever sobre o jogo como era na época em que protestos tão vigorosos, acompanhados de declarações de “Matem esse juiz!” e “Comprem um cão-guia para ele!”, faziam parte do esporte. Uma época em que o beisebol era quase tão agressivo quanto o futebol americano, quando os jogadores deslizavam na segunda base com as travas para cima e uma colisão na área da base era esperada, não proibida. Era a época em que a anulação de uma jogada com base no replay seria vista com horror, pois a palavra do juiz era lei. Eu queria usar a linguagem dos jogadores dessa época para gerar a textura e a cor dos Estados Unidos esportivos do meio do século. Queria ver se conseguia criar uma coisa ao mesmo tempo mítica e, de uma forma horrível, meio engraçada.

Também tive a oportunidade de me colocar na história e adorei isso. (Meu primeiro trabalho pago como escritor foi de repórter esportivo no Enterprise de Lisbon, afinal.) Meus filhos chamam esse tipo de coisa de “metaficção”. Eu só acho divertido, e espero que a história seja isso mesmo: diversão boa e simples, com a última frase plagiada de um excelente filme chamado Meu ódio será sua herança.

E tome cuidado com a lâmina, Leitor Fiel. É um conto de Stephen King, afinal.