O Bazar dos Sonhos Ruins
Obituários
Seja claro e deixe o texto simples e direto.
Esse era o evangelho segundo Vern Higgins, que chefiava o departamento de jornalismo da Universidade de Rhode Island, onde me formei. Muito do que ouvi na faculdade entrou por um ouvido e saiu pelo outro, mas não isso, porque o professor Higgins martelava na cabeça da gente. Ele dizia que as pessoas precisavam de clareza e concisão para iniciar o processo de compreensão.
Seu verdadeiro trabalho como jornalista, ele dizia para as turmas, é dar às pessoas os fatos que permitem que elas tomem as próprias decisões e sigam em frente. Então, não enrolem. Não encham o texto de firulas. Comecem do começo, desenvolvam o meio com clareza, para que os fatos de cada evento levem logicamente ao seguinte, e terminem no final. O que, nas notícias, enfatizava ele, sempre é o final por enquanto. E nunca caiam naquela bosta preguiçosa de algumas pessoas acreditam ou o consenso geral é. Uma fonte para cada fato, essa é a regra. Depois, escrevam tudo em linguagem simples, sem adornos nem verniz. Exercícios de retórica pertencem à página do editorial de opinião.
Duvido que alguém vá acreditar no que vou contar agora, e minha carreira no Neon Circus teve bem pouco a ver com escrever bem, mas pretendo fazer o melhor possível aqui: os fatos de cada evento levando ao seguinte. Começo, meio e fim.
O fim por enquanto, pelo menos.
Uma boa notícia sempre começa com cinco perguntas básicas: quem, o quê, quando, onde e por quê, se você conseguir descobrir. No meu caso, o por quê é a parte difícil.
Mas o quem é bem fácil; seu menos que destemido narrador se chama Michael Anderson. Eu tinha vinte e sete anos na época em que essas coisas aconteceram. Eu me formei na URI, em jornalismo. Nos dois anos seguintes à formatura, morei com meus pais no Brooklyn e trabalhei em um daqueles jornais gratuitos, Daily Shopper, reescrevendo pequenas notícias para intercalar com as propagandas e os cupons. Eu mantive meu currículo (ainda que pequeno) em constante rotação, mas nenhum dos jornais em Nova York, Connecticut ou Nova Jersey me queria. Isso não surpreendeu meus pais nem a mim, não por minhas notas serem ruins (não eram) e não porque minhas amostras de trabalho, a maioria histórias do jornal dos alunos da URI, O charuto de 5 centavos, eram mal escritas (duas chegaram a ganhar prêmios), mas porque os jornais não estavam contratando. O contrário, até.
(Se o professor Higgins visse todos esses parênteses, me mataria.)
Meus pais começaram a me pedir, delicadamente, muito delicadamente, para começar a procurar outro tipo de emprego.
— Em um campo relacionado — disse meu pai com sua voz mais diplomática. — Talvez em propaganda.
— Propaganda não é notícia — respondi. — Propaganda é antinotícia.
Mas entendi o lado dele: ele tinha visões minhas ainda fazendo lanches noturnos na geladeira deles aos quarenta anos. Um preguiçoso de primeira linha.
Com relutância, comecei a fazer uma lista de possíveis firmas de propaganda que pudessem gostar de contratar um jovem redator com bom texto, mas pouca experiência. E então, na noite anterior ao dia em que eu planejava começar a enviar cópias do meu currículo para as firmas dessa lista, eu tive uma ideia boba. Às vezes, com frequência, fico acordado à noite me perguntando quanto minha vida poderia ter sido diferente se essa ideia nunca tivesse passado pela minha cabeça.
Neon Circus era um dos meus sites favoritos naquela época. Quem é conhecedor de sites de fofoca e celebridades deve conhecer: é o TMZ com matérias bem escritas. Eles cobrem as “celebridades” locais, com viagens ocasionais aos buracos mais sórdidos da política de Nova York e Nova Jersey. Se eu tivesse que resumir a visão deles do mundo, mostraria uma foto que publicamos uns seis meses depois que comecei a trabalhar lá. Mostrava Rod Peterson (sempre chamado no Circus de “Barry Manilow da nova geração”) em frente ao Pacha. A companheira dele está inclinada para a frente, vomitando na sarjeta. Ele está com um sorriso de babaca feliz na cara e a mão nas costas do vestido dela. Legenda: ROD PETERSON, O BARRY MANILOW DA NOVA GERAÇÃO, EXPLORA O LADO BAIXO DE NOVA YORK.
O Circus é essencialmente um zine da web, com várias seções fáceis de clicar: CELEBRIDADES ACORDANDO FORA DE CASA, CONSUMO DESPREZÍVEL, QUERIA NÃO TER VISTO ISSO, O PIOR DA TV NA SEMANA, QUEM ESCREVE ESSA BOSTA. Tem mais, mas é só para dar uma ideia. Naquela noite, com uma pilha de currículos pronta para ser enviada para firmas nas quais eu não queria trabalhar, entrei no Neon Circus para absorver um pouco daquela porcaria revigorante e, na página inicial, descobri que um jovem ator popular chamado Jack Briggs tinha tido uma overdose. Tinha uma foto dele saindo cambaleante de uma casa noturna popular do centro, na semana anterior, coisa típica de mau gosto do Neon Circus, mas a notícia que acompanhava a foto era surpreendentemente séria e não tinha nem um pouco a cara do site. Foi nessa hora que me bateu a inspiração. Eu fiz umas pesquisas na internet, de bobeira, e escrevi um obituário rápido e desagradável.
Jack Briggs, famoso pela péssima atuação em Holy Rollers, filme que saiu ano passado, em seu papel como uma estante de livros falante apaixonada por Jennifer Lawrence, foi encontrado morto em seu quarto de hotel, cercado de algumas de suas preciosidades em pó favoritas. Ele entra para o Clube dos 27, que também abriga famosos usuários de substâncias como Robert Johnson, Jimi Hendrix, Janis Joplin, Kurt Cobain e Amy Winehouse. Briggs se infiltrou no mundo do cinema em 2005, quando…
Bom, deu para entender. Jovem e desrespeitoso, até mesmo cruel. Se eu estivesse agindo com seriedade naquela noite, provavelmente arrastaria o obituário terminado até a lixeira, porque parecia ir além da mordacidade do Neon Circus, beirando a truculência. Mas como eu só estava de brincadeira (depois disso, já me perguntei quantas carreiras começaram só de brincadeira), eu mandei para eles.
Dois dias depois (a internet acelera tudo), recebi um e-mail de uma pessoa chamada Jeroma Whitfield dizendo que eles não só queriam publicar como também queriam discutir a possibilidade de eu talvez escrever mais com a mesma veia cruel. Eu poderia ir até a cidade para um almoço?
Minha gravata e meu paletó acabaram sendo um tremendo exagero de vestuário. Os escritórios do Circus na Terceira Avenida eram repletos de homens e mulheres que mais pareciam saídos da faculdade, todos indo de um lado para outro com camisetas de bandas de rock. Duas mulheres usavam short, e vi um cara de macacão de carpinteiro com uma caneta permanente enfiada no corte moicano. Ele era o chefe do departamento de esportes, descobri depois, responsável pela notícia memorável intitulada OS JINTS DÃO OUTRA CAGADA NA CARA DO GOL. Acho que eu não devia ter ficado surpreso. Isso era (e é) jornalismo na era da internet, e para cada pessoa nos escritórios naquele dia, havia mais cinco ou seis correspondentes trabalhando de casa. Por salários de fome, acho que nem preciso acrescentar.
Ouvi falar que, em uma época dourada, no passado enevoado e mítico de Nova York, havia almoços de editores em lugares como o Four Seasons, o Le Cirque e o Russian Tea Room. Talvez, mas meu almoço naquele dia foi no escritório lotado de Jeroma Whitfield. Consistiu de sanduíches de lanchonete e refrigerante Dr. Brown’s Cream Soda. Jeroma era velha pelos padrões do Circus (tinha quarenta e poucos anos), e não gostei de sua mordacidade forçada desde o começo, mas ela queria me contratar para escrever um obituário semanal, e isso a transformou em uma deusa. Ela até tinha um título para a nova coluna: Falando Mal dos Mortos.
Se eu podia fazer? Claro.
Se faria por uma miséria? Faria. Pelo menos, no início.
Depois que a coluna se tornou a página mais visitada do Neon Circus e meu nome ficou associado a ela, tentei negociar um aumento, em parte porque queria ir morar sozinho na cidade e em parte porque estava cansado de receber salário de peão para escrever sozinho a página que estava gerando a maior renda do site com anunciantes.
A primeira sessão de negociação foi um sucesso modesto, talvez porque minhas exigências tivessem sido elaboradas como pedidos hesitantes, e os pedidos eram quase risivelmente humildes. Quatro meses depois, quando começou a circular um boato de que uma grande corporação ia nos comprar por uma grana alta, eu visitei o escritório de Jeroma e pedi um aumento maior, desta vez com bem menos humildade.
— Desculpe, Mike — disse ela. — Nas palavras memoráveis de Hall e Oates, não vou poder fazer isso, não mesmo. Pegue uma bala.
Em lugar de destaque na mesa lotada de Jeroma, havia um pote de vidro grande cheio de balas de eucalipto sabor menta. Os papéis estavam cobertos com mensagens motivadoras. Vamos ouvir seu grito de guerra, dizia um. Outro aconselhava (o gramático em mim tem arrepios ao relatar isso): Transforme o posso fazer no posso fiz.
— Não, obrigado. Me dê uma chance de dizer o que tenho a dizer antes de negar.
Eu exibi meus argumentos; pode-se dizer que tentei transformar o posso fazer no posso fiz. O principal era a minha crença de que merecia um salário mais condizente com a renda que Falando Mal dos Mortos estava gerando. Principalmente se o Neon Circus ia ser comprado por uma corporação maior.
Quando finalmente parei de falar, ela abriu uma bala, colocou entre os lábios cor de ameixa e disse:
— Tudo bem! Ótimo! Agora que você tirou esse peso do peito, talvez queira ir trabalhar em Bump DeVoe. Ele vai dar o que falar.
Era verdade. Bump, vocalista dos Raccoons, morreu com um tiro dado pela namorada enquanto tentava entrar pela janela do quarto da casa dela nos Hamptons, provavelmente de brincadeira. Ela o confundiu com um ladrão. O que tornou a história um prato cheio delicioso foi a arma que ela usou: um presente de aniversário dado pelo próprio Bumpster, o mais novo integrante do Clube dos 27 e que talvez estivesse agora comparando solos de guitarra com Brian Jones.
— Então você não vai nem responder. Esse é o tanto de respeito que você tem por mim?
Ela se inclinou para a frente, sorrindo o bastante para exibir as pontas dos dentinhos brancos. Eu consegui sentir o cheiro de menta. Ou de eucalipto. Ou das duas coisas.
— Vou ser sincera, tá? Para um cara que ainda mora com os pais no Brooklyn, você tem uma ideia bem inflada da sua importância no esquema geral das coisas. Você acha que mais ninguém consegue mijar no túmulo dos babacas burros que farreiam até a morte? Não seja inocente. Eu tenho meia dúzia de correspondentes capazes de fazer isso, e é provável que escrevam algo mais engraçado que você.
— Então que tal eu ir embora, e aí você pode descobrir se isso é verdade?
Eu estava bem furioso.
Jeroma sorriu e bateu a bala de eucalipto nos dentes.
— Fique à vontade. Mas, se você for, Falando Mal dos Mortos não vai com você. O título é meu e vai ficar bem aqui no Circus. Claro que você tem alguma credibilidade agora, não vou negar isso. Então, a sua escolha é a seguinte, garoto: você pode voltar para o seu computador e trabalhar em Bump ou pode conseguir uma reunião no New York Post. Talvez contratem você. Vai acabar escrevendo noticiazinhas na página seis, sem crédito. Se isso for suficiente pra você, vá em frente.
— Vou escrever o obituário. Mas isso ainda não acabou, Jerri.
— Nada vai mudar tão cedo. E não me chame de Jerri. Você sabe que não gosto.
Eu me levantei para sair. Meu rosto estava vermelho. Eu devia estar parecendo uma placa de trânsito.
— E coma uma bala — disse ela. — Caramba, pegue logo duas. São muito consoladoras.
Lancei um olhar de desdém para o pote e saí, segurando (com dificuldade) uma vontade infantil de bater a porta.
Se você está imaginando uma redação lotada como a que vê atrás de Wolf Blitzer na CNN ou naquele filme sobre Woodward e Bernstein caindo em cima de Nixon, pode reconsiderar. Como falei, boa parte dos repórteres do Circus trabalham de casa. Nosso pequeno ninho de notícias (se você quiser se dignar a chamar o que o Circus faz de notícia) é mais ou menos do tamanho de um trailer. Tem vinte carteiras escolares enfiadas lá dentro, de frente para uma fileira de TVs sem som em uma parede. As mesas são equipadas com laptops velhos, cada um com um adesivo engraçadinho que diz POR FAVOR, RESPEITE ESSAS MÁQUINAS.
O local estava quase vazio naquela manhã. Eu me sentei na fileira de trás, perto da parede, na frente de um pôster mostrando um jantar de Ação de Graças em uma privada. Embaixo dessa encantadora imagem havia a frase POR FAVOR, CAGUE ONDE COME. Eu liguei o laptop, tirei meus impressos sobre a carreira curta e indistinta de Bump DeVoe da pasta e dei uma olhada em tudo enquanto o sistema operacional iniciava. Abri o Word, digitei OBITUÁRIO DE BUMP DeVOE na caixa adequada e fiquei sentado ali, olhando para o documento em branco. Fui pago para debochar da cara da morte para leitores de vinte e poucos anos que achavam que a morte só acontecia com os outros, mas é difícil ser engraçado quando se está furioso.
— Com dificuldade para começar?
Era Katie Curran, uma loura alta e esbelta por quem eu sentia um forte desejo, que era quase certamente não correspondido. Ela era sempre gentil comigo, e infalivelmente doce. Ria das minhas piadas. Essas características raramente eram sinal de desejo. Se eu estava surpreso? Nem um pouco. Ela era linda; e eu, não. Se posso ser sincero, sou exatamente aquele nerd do qual os filmes adolescentes debocham. Até meu terceiro mês trabalhando no Circus, eu até tinha o acessório geek perfeito: óculos remendados com fita adesiva.
— Um pouco — respondi. Eu conseguia sentir o cheiro do perfume dela. Era de alguma fruta. Peras frescas, talvez. Alguma coisa fresca, pelo menos.
Ela se sentou à mesa ao lado, uma visão de pernas longas com calça jeans desbotada.
— Quando isso acontece comigo, eu digito A raposa castanha veloz pulou por cima do cachorro preguiçoso três vezes, bem rápido. Abre os portões da criatividade. — Ela abriu os braços para me mostrar como os portões da criatividade se abriam e acabou me oferecendo uma visão de tirar o fôlego dos seus seios aconchegados dentro de um top preto.
— Acho que não vai funcionar nesse caso.
Katie escrevia uma coluna própria, não tão popular quanto Falando Mal dos Mortos, mas ainda bastante lida: ela tinha meio milhão de seguidores no Twitter. (A modéstia me proíbe de dizer quantos eu tinha naquela época, mas pode pensar em sete dígitos; você não vai estar enganado.) A dela se chamava Enchendo a Cara com Katie. A ideia era sair para beber com celebridades das quais ainda não tínhamos falado mal, e até algumas de quem falamos topavam, vai entender, e entrevistá-las conforme iam ficando progressivamente bêbadas. O que saía era incrível, e Katie gravava tudo no iPhone rosa fofinho que tinha.
Ela deveria encher a cara junto com os convidados, mas bebia apenas um drinque quase até o final, conforme eles iam de um bar a outro. As celebridades raramente percebiam. Só reparavam no formato oval perfeito do rosto dela, no cabelo louro cor de trigo e nos olhos grandes e cinzentos, que sempre projetavam a mesma mensagem: nossa, você é tão interessante. Elas faziam fila para o abate, apesar de Katie ter conseguido acabar com cinco ou seis carreiras desde que entrou para a equipe do Circus dezoito meses antes de eu subir a bordo. A entrevista mais famosa era com o comediante que opinou sobre Michael Jackson: “Aquele bundão pretenso branco está melhor morto”.
— Ela te negou um aumento, foi? — Katie indicou a sala de Jeroma.
— Como você sabia que eu ia pedir um aumento? Eu contei? — Hipnotizado por aqueles olhos enevoados, eu poderia ter dito qualquer coisa a ela.
— Não, mas todo mundo sabia que você ia pedir, e todo mundo sabia que ela ia dizer não. Se ela dissesse sim, todo mundo ia pedir. Ao dizer não para quem mais merece, ela cala a boca de todos nós na hora.
Quem mais merece. Isso me deu um espasmo de prazer. Principalmente vindo de Katie.
— Então você vai ficar?
— Por enquanto — respondi, falando com o canto da boca. Sempre funciona para Bogue naqueles filmes antigos, mas Katie se levantou e limpou uma sujeira inexistente da parte achatada e encantadora do top.
— Eu tenho uma coluna para escrever. Vic Albini. Deus, como ele entorna.
— O herói gay de filmes de ação?
— Novidade: não é gay.
Ela me lançou um sorriso misterioso e saiu andando, me deixando curioso. Mas sem querer realmente saber.
Fiquei sentado em frente ao documento em branco de DeVoe por dez minutos, consegui um falso começo, apaguei e fiquei mais dez minutos sentado. Eu conseguia sentir os olhos de Jeroma em mim e sabia que ela estava dando um sorrisinho, mesmo que só por dentro. Eu não conseguia trabalhar com aquele olhar grudado em mim, mesmo que fosse só imaginação. Decidi ir para casa e escrever o texto sobre DeVoe de lá. Talvez alguma ideia surgisse no metrô, que sempre foi um bom lugar para pensar. Comecei a fechar o laptop, e foi nessa hora que a inspiração veio novamente, da mesma forma que aconteceu na noite em que vi o texto sobre a partida de Jack Briggs para o grande banquete VIP no céu. Eu decidi que ia me demitir e que se danassem as consequências, mas eu não iria calado.
Abandonei o documento em branco sobre DeVoe e criei um novo, que chamei de OBITUÁRIO DE JEROMA WHITFIELD. Escrevi sem dar uma pausa. Duzentas palavras venenosas jorraram pelos meus dedos e foram parar na tela.
Jeroma Whitfield, conhecida como Jerri pelos amigos íntimos (segundo
relatos, ela teve dois na pré-escola), morreu hoje às…
Eu olhei para o relógio.
… 10h40 da manhã. De acordo com os colegas no local, ela sufocou com a
própria bile. Embora tenha se formado com honras em Vassar, Jerri passou os
últimos três anos da vida se prostituindo na Terceira Avenida, onde supervisionava
uma equipe de duas dúzias de escravos burros de carga, todos mais talentosos que
ela. Deixa o marido, conhecido pela equipe do Neon Circus como Sapo
Emasculado, e um filho, um merdinha feio carinhosamente chamado pela equipe
de Pol Pot. Todos os colegas concordam que, apesar de ela não ter nenhum talento,
Jerri tinha uma personalidade dominante e impiedosa que mais do que
compensava. Sua voz zurrada era famosa por provocar hemorragias cerebrais, e
a falta de senso de humor era lendária. Em vez de flores, Sapo e Pot pedem que
quem a conhecia demonstre sua alegria pela partida dela enviando balas de
eucalipto para crianças famintas na África. Haverá uma cerimônia no escritório
do Neon Circus, onde os alegres sobreviventes vão poder compartilhar lembranças
preciosas e se unir para cantar “Ding Dong, the Witch Is Dead”.
Minha ideia quando comecei essa afronta era imprimir umas doze cópias, pendurar em toda parte, inclusive nos banheiros e nos dois elevadores, depois dar tchau para o escritório do Neon Circus e para a rainha das balinhas para sempre. Eu talvez até tivesse feito isso se não tivesse relido o que escrevi e descoberto que não era engraçado. Não era nem um pouco engraçado. Era o trabalho de uma criança tendo um acesso de birra. O que me levou a me perguntar se todos os meus obituários foram igualmente sem graça e idiotas.
Pela primeira vez (você talvez não acredite, mas juro que é verdade), me ocorreu que Bump DeVoe foi uma pessoa de verdade, e que em algum lugar podia haver gente chorando porque ele morreu. O mesmo devia valer para Jack Briggs… e Frank Ford (que descrevi como “famoso coçador de saco do Tonight Show”)… e Trevor Wills, um astro de reality show que cometeu suicídio depois de ser fotografado na cama com o cunhado. Essa foto o Circus publicou com alegria no site, acrescentando uma tarja preta para cobrir as partes íntimas do cunhado (as de Will estavam protegidas, fora do campo de visão, e você pode imaginar onde).
Também me ocorreu que eu estava passando boa parte dos anos mais criativamente fecundos da minha vida fazendo um trabalho de merda. Era vergonhoso, na verdade, uma palavra que jamais teria ocorrido a Jeroma Whitfield em nenhum contexto.
Em vez de imprimir o documento, eu o encerrei, arrastei até a lixeira e fechei o laptop. Pensei em voltar até a sala de Jeroma e dizer para ela que eu não ia mais escrever coisas equivalentes a um bebê jogando cocô na parede, mas a parte cautelosa da minha mente, o guarda de trânsito que a maioria de nós tem lá, me mandou esperar. Pensar direito e ter certeza absoluta.
Vinte e quatro horas, decretou o policial de trânsito. Vá ao cinema e durma bem esta noite. Se ainda se sentir da mesma forma amanhã, vá com Deus, meu filho.
— Já está indo? — perguntou Katie do laptop dela, e pela primeira vez desde meu primeiro dia ali, não fiquei paralisado por aqueles olhos cinzentos enormes. Eu só dei um aceno e saí.
Eu estava assistindo a uma matinê de Dr. Fantástico no Film Forum quando meu celular começou a vibrar. Como o cinema do tamanho de uma salinha de TV estava vazio, exceto por mim, dois bêbados dormindo e um casal de adolescentes fazendo barulhos de aspirador de pó na última fila, eu arrisquei uma olhada na tela e vi uma mensagem de texto de Katie Curran: Pare o que estiver fazendo e me ligue AGORA!
Fui até o saguão sem lamentar muito (apesar de eu sempre gostar de ver Slim Pickens largar a bomba) e liguei para ela. Não seria exagero dizer que as primeiras duas palavras que saíram pela boca de Katie mudaram minha vida.
— Jeroma morreu.
— O quê? — Eu quase gritei.
A garota da pipoca olhou para mim por cima da revista que estava lendo, sobressaltada.
— Morreu, Mike! Morreu! Engasgou com uma daquelas malditas balinha que vivia chupando.
Morreu hoje às 10h40 da manhã, eu tinha escrito. Sufocou com a própria bile.
Só coincidência, claro, mas eu não conseguia pensar em uma mais maléfica. Deus transformou Jeroma Whitfield de posso fazer em posso fiz.
— Mike? Ainda está aí?
— Estou.
— Ela não tinha substituto. Você sabe disso, não é?
— Sim. — Agora eu estava pensando nela me mandando pegar uma bala e estalando a dela contra os dentes.
— Então estou tomando a iniciativa de convocar uma reunião amanhã às dez. Alguém tem que fazer isso. Você vem?
— Não sei. Talvez não. — Eu estava andando na direção da porta, na rua Houston. Antes de chegar lá, lembrei que deixei minha pasta na cadeira do cinema e voltei para buscar, puxando o cabelo com a mão livre. A garota da pipoca estava me olhando com pura desconfiança agora. — Eu tinha decidido me demitir hoje de manhã.
— Eu sabia. Deu para ver na sua cara quando você saiu.
A ideia de Katie olhando para a minha cara talvez tivesse me deixado com a língua paralisada em outras circunstâncias, mas não naquele momento.
— Foi no escritório?
— Foi. Por volta das duas da tarde. Éramos quatro na sala de trabalho, não trabalhando, só batendo papo e compartilhando histórias e boatos. Você sabe como é.
Eu sabia. Essas reuniões de fofoca eram um dos motivos de eu ir para o escritório em vez de trabalhar em casa, no Brooklyn. Além da chance de me banquetear de tanto olhar para Katie, claro.
— A porta estava fechada, mas a persiana estava aberta. — Normalmente, ficava. A não ser que estivesse fazendo uma reunião com alguém que ela considerasse importante; Jeroma gostava de ficar de olho nos vassalos. — Só me dei conta quando Pinky disse: “O que a chefe tem? Ela está toda Gangnam Style”.
“Eu olhei, e ela estava pulando para a frente e para trás na cadeira, com as mãos no pescoço. Ela caiu da cadeira, e só consegui ver os pés sacudindo. Roberta perguntou o que devíamos fazer. Eu nem me dei ao trabalho de responder.”
Eles entraram. Roberta Hill e Chin Pak Soo a levantaram pelas axilas. Katie foi para trás dela e fez a manobra de Heimlich. Pinky ficou na porta balançando as mãos. O primeiro apertão no diafragma não fez nada. Katie gritou para Pinky ligar para a emergência e apertou de novo. O segundo apertão fez uma balinha de eucalipto sair voando até o outro lado da sala. Jeroma inspirou fundo, abriu os olhos e disse suas últimas palavras (e foram muito adequadas, na minha opinião): “Que porra é essa?”. Ela começou a tremer de novo e parou de respirar. Chin fez respiração boca a boca até os paramédicos chegarem, mas não adiantou.
— Olhei o relógio na parede depois que ela parou de respirar — disse Katie. — Sabe aquele troço retrô horroroso do Dom Pixote? Eu achei… não sei, achei que alguém podia me perguntar a hora da morte, como em Law & Order. É absurdo o que passa pela cabeça da gente numa hora dessas. Eram dez para as três. Não faz nem uma hora, mas parece mais tempo.
— Então ela pode ter engasgado com a balinha às duas e quarenta.
Não dez e quarenta, mas duas e quarenta. Eu sabia que era só mais uma coincidência, como o fato de Lincoln e Kennedy terem o mesmo número de letras; os quarenta minutos acontecem vinte e quatro vezes por dia. Mas não gostei mesmo assim.
— Acho que sim, mas não vejo que diferença faz. — Katie pareceu irritada. — Você vem amanhã ou não? Venha, por favor, Mike. Eu preciso de você.
Katie Curran precisava de mim! Yay!
— Tudo bem. Mas você faria uma coisa por mim?
— Acho que sim.
— Eu me esqueci de esvaziar a lixeira do computador que estava usando. O que fica perto do pôster de Ação de Graças. Você pode esvaziar para mim? — Esse pedido não fez sentido racional para mim nem naquela hora. Eu só queria aquela piada horrível do obituário apagada.
— Você é maluco — disse ela —, mas se jurar pelo nome da sua mãe que vem amanhã às dez em ponto, claro. Escute, Mike, essa é nossa chance. A gente pode ser dono da mina de ouro em vez de só trabalhar nela.
— Estarei aí.
Quase todo mundo foi, menos os freelancers que trabalhavam entre os selvagens nas áreas mais ermas de Connecticut e Nova Jersey. Até o desprezível Irving Ramstein, que escrevia uma coluna de piadas chamada (não entendo, então não me pergunte) Galinhas Politicamente Incorretas, apareceu. Katie conduziu a reunião com confiança e nos disse que o show tinha que continuar.
— É o que Jeroma ia querer — disse Pinky.
— Quem liga para o que Jeroma ia querer — disse Georgina Bukowski. — Eu só quero continuar recebendo meu salário. Além disso, se remotamente possível, parte dos lucros.
Esse grito foi incorporado por vários outros — Lucros! Lucros! Parte dos lucros! —, até nosso escritório parecer uma rebelião em um filme antigo de prisão. Katie deixou que as pessoas se acalmassem antes de pedir para fazerem silêncio.
— Como ela pôde morrer engasgada? — perguntou Chin. — A jujuba saiu.
— Não foi uma jujuba — disse Roberta. — Foi uma daquelas balas fedidas que ela sempre chupava. Eucabosta.
— Não importa, cara. Saiu voando quando Katie deu o abraço da vida nela. Nós todos vimos.
— Eu, não — disse Pinky. — Eu estava ao telefone. E em modo de espera, porra.
Katie disse que falou com um dos paramédicos, sem dúvida usando os olhos cinzentos enormes para ajudá-la, e ouviu que o engasgo podia ter levado a um ataque cardíaco. E, nos meus esforços para acompanhar a orientação do professor Higgins e seguir logo para os fatos relevantes, vou avançar um pouco na história e relatar que a autópsia na nossa querida líder provou que foi isso mesmo. Se Jeroma tivesse ganhado a manchete do Neon Circus que merecia, provavelmente seria CHEFONA EXPLODE O CORAÇÃO.
A reunião foi longa e barulhenta. Já exibindo o talento que a tornava a escolha natural para ocupar o lugar e seguir os passos com Jimmy Choos de Jeroma, Katie permitiu que todos desabafassem o que sentiam (expressando-se mais em explosões de gargalhadas loucas e semi-histéricas) antes de mandar todo mundo voltar ao trabalho, porque o tempo, a maré e a internet não esperam nenhum homem. Nem mulher. Ela disse que falaria com os investidores principais do Circus antes do final da semana e me convidou para ir até a sala de Jeroma.
— Já vai mandar trocar as cortinas? — perguntei quando a porta foi fechada. — Ou a persiana, nesse caso?
Ela olhou para mim com o que poderia ser mágoa. Ou só surpresa.
— Você acha que quero esse trabalho? Sou colunista, Mike, assim como você.
— Mas você seria boa nisso. Eu sei, e eles também. — Eu mexi a cabeça na direção de nossa pretensa redação, onde todo mundo estava catando milho ou mexendo no celular. — Quanto a mim, sou só o redator de obituários engraçadinhos. Ou era. Eu decidi me tornar emérito.
— Acho que entendo por que você quer isso. — Ela tirou um pedaço de papel do bolso de trás da calça jeans e o abriu. Eu sabia o que era antes de ela me entregar. — A curiosidade faz parte do trabalho, então espiei na lixeira antes de apagar. E encontrei isto.
Eu peguei o papel, dobrei sem olhar (eu nem queria ver a impressão, muito menos reler) e coloquei no bolso.
— Está apagado agora?
— Sim, e essa é a única cópia impressa. — Ela tirou o cabelo do rosto e olhou para mim. Podia não ser o rosto que fazia mil navios zarparem, mas podia ter feito várias dezenas, inclusive um ou dois navios de guerra. — Eu sabia que você perguntaria. Depois de trabalhar com você por um ano e meio, entendo que paranoia é parte da sua personalidade.
— Obrigado.
— Eu não quis ofender. Em Nova York, a paranoia é um instinto de sobrevivência. Mas não é motivo para abandonar o que poderia se tornar um trabalho bem mais lucrativo no futuro imediato. Até você deve saber que uma coincidência absurda, e vou admitir que essa é bem absurda, é só uma coincidência. Mike, eu preciso que você permaneça a bordo.
Não nós, mas eu. Ela disse que não estava querendo assumir o cargo de Jeroma, mas eu achava que estava.
— Você não entende. Eu acho que não conseguiria mais fazer, mesmo que quisesse. Não conseguiria ser engraçado, pelo menos. Tudo sairia… — Eu procurei e encontrei uma palavra da minha infância. — Forçado.
Katie franziu a testa e pensou.
— Talvez Penny pudesse fazer.
Penny Langston era um dos freelancers dos lugares obscuros, contratada por Jeroma por sugestão de Katie. Eu tinha uma vaga ideia de que as duas se conheciam da faculdade. Se fosse assim, elas não podiam ser menos parecidas. Penny raramente ia ao escritório, e, quando ia, usava um boné de beisebol velho que nunca saía da cabeça e um sorriso macabro que raramente saía do rosto. Frank Jessup, o cara dos esportes com corte moicano, gostava de dizer que Penny sempre parecia a dois minutos de surtar.
— Mas ela nunca seria tão engraçada quanto você — prosseguiu Katie. — Se não quer escrever obituários, o que gostaria de fazer? Supondo que fique no Circus, e espero que fique.
— Críticas, talvez. Eu poderia escrever críticas engraçadas, eu acho.
— Críticas cruéis? — Com a voz um pouco esperançosa.
— Bem… é. Provavelmente. Algumas.
Eu era bom de deboche, afinal, e achei que podia ser mais do que Joe Queenan em alguns pontos, muitos, até. E pelo menos eu estaria caindo em cima de gente viva que poderia reagir.
Ela colocou as mãos nos meus ombros, ficou nas pontas dos pés e deu um beijo leve no canto da minha boca. Se eu fechar os olhos, ainda consigo sentir seus lábios. Ela me olhou com aqueles olhos cinzentos enormes, o mar em uma manhã nublada. Tenho certeza de que o professor Higgins reviraria os olhos, mas sujeitos de terceira categoria como eu raramente são beijados por garotas de primeira como ela.
— Pense em continuar com os obituários, tá? — Com as mãos ainda nos meus ombros. O aroma leve nas minhas narinas. Os seios a menos de dois centímetros do meu peito, e, quando ela respirou fundo, eles se tocaram. Ainda consigo sentir isso também. — A questão aqui não somos só você e eu. As próximas seis semanas vão ser críticas para o site e para a equipe. Então, pense bem. Mesmo que só mais um mês de obituários já ajudaria. Daria a Penny, ou a outra pessoa, uma chance de ir aprendendo a função, com sua orientação. E talvez ninguém interessante morra.
Só que sempre morria, e nós dois sabíamos.
Eu devo ter dito que pensaria no assunto. Não consigo lembrar. O que eu estava pensando era em dar um beijo nela bem ali na sala de Jeroma, e dane-se se alguém no escritório poderia nos ver. Mas não fiz nada. Fora das comédias românticas, caras como eu raramente fazem. Eu disse uma coisa qualquer e devo ter saído, porque em pouco tempo me vi na rua. Eu me senti massacrado.
Mas me lembro de uma coisa: quando cheguei em uma lixeira na esquina da Terceira Avenida com a 50, rasguei o obituário de brincadeira que não era mais engraçado em pedacinhos e joguei lá dentro.
Naquela noite, tive um jantar agradável com meus pais e fui para o meu quarto (o mesmo para onde eu ia, emburrado, quando meu time da Liga Infantil perdia, não é deprimente?) e me sentei à escrivaninha. O jeito mais fácil de superar meu desconforto, achei, era escrevendo outro obituário de pessoa viva. Não dizem para você subir no cavalo logo depois que caiu? Ou dar outro salto do trampolim depois que seu mergulho vira uma barrigada? Eu só precisava provar o que já sabia: nós vivemos em um mundo racional. Enfiar alfinetes em bonecos de vodu não mata ninguém. Escrever o nome do seu inimigo em um pedaço de papel e queimar enquanto recita o Credo de trás para a frente não mata ninguém. Obituários de palhaçada também não matam ninguém.
Mesmo assim, tomei o cuidado de fazer uma lista de possíveis candidatos que consistia somente de pessoas comprovadamente ruins, como Faheem Darzu, que assumiu o crédito pelos bombardeios de ônibus em Miami, e Kenneth Wanderly, um eletricista condenado por quatro acusações de estupro seguidos de assassinato em Oklahoma. Wanderly pareceu a melhor possibilidade na minha lista curta de sete nomes, e eu estava prestes a elaborar alguma coisa quando pensei em Peter Stefano, um merda que não valia nada.
Stefano era um produtor de discos que enforcou a namorada por se recusar a gravar uma música que ele compôs. Ele estava cumprindo pena em uma prisão de segurança média quando devia estar em uma prisão secreta na Arábia Saudita jantando baratas, bebendo o próprio mijo e ouvindo Anthrax tocado no volume máximo no meio da madrugada. (Na minha humilde opinião, claro.) A mulher que ele matou era Andi McCoy, que por acaso era uma das minhas cantoras favoritas de todos os tempos. Se eu estivesse escrevendo obituários debochados na época da sua morte, jamais teria escrito o dela; a ideia de que a voz ampla, facilmente comparável à da jovem Joan Baez, podia ter sido silenciada por aquele idiota dominador ainda me enfurecia cinco anos depois. Deus dá cordas vocais assim a uns poucos escolhidos, e Stefano destruiu as de McCoy em um ataque de irritação e drogas.
Eu abri meu laptop, escrevi OBITUÁRIO DE PETER STEFANO no campo apropriado e coloquei o cursor no documento em branco. Mais uma vez, as palavras jorraram sem intervalo, como água de um cano quebrado.
O produtor de discos escravizador e sem talento Peter Stefano foi encontrado
morto na cela do Instituto Penal Estadual Gowanda ontem de manhã, e todos
comemoramos. Apesar de nenhuma causa oficial de morte ter sido anunciada,
uma fonte na prisão disse: “Parece que a glândula anal do ódio se rompeu,
espalhando veneno do cu por todo o seu corpo. Em termos leigos, ele teve uma
reação alérgica à própria merda venenosa”.
Apesar de Stefano estar envolvido com muitos grupos e artistas solo, ele é
especialmente conhecido por estragar as carreiras de The Grenadiers, The Playful
Mammals, Joe Dean (que cometeu suicídio depois que Stefano se recusou a
renegociar seu contrato) e, claro, Andi McCoy. Não satisfeito em destruir a carreira
dela, Stefano a estrangulou com um fio de abajur enquanto estava alterado pelo
uso de metanfetamina. Ele deixa três agradecidas ex-esposas, cinco ex-
companheiras e as duas gravadoras que conseguiu não falir.
Seguiu nesse ritmo por mais cem palavras, mais ou menos, e não foi um dos meus melhores esforços (obviamente). Eu não me importei, porque a sensação foi boa. E não só porque Peter Stefano era um homem ruim. A sensação foi boa como escritor, apesar de ser prosa ruim e parte de mim saber que era uma coisa má. Pode parecer um desvio, mas eu acho (na verdade, eu sei) que está no coração da história. Escrever é difícil, tá? Pelo menos para mim. E, sim, eu sei que a maioria dos trabalhadores falam que seus trabalhos são difíceis, independentemente de serem açougueiros, padeiros, fabricantes de vela ou redatores de obituário. Só que, às vezes, o trabalho não é difícil. Às vezes, é fácil. Quando isso acontece, você se sente como se estivesse na pista de boliche, vendo sua bola rolar na direção perfeita e sabendo que ela segue rumo ao strike.
Matar Stefano no meu computador deu a sensação de um strike.
Eu dormi como um bebê naquela noite. Talvez em parte tenha sido por eu sentir que fiz algo para expressar minha fúria e consternação pela pobre garota assassinada, pelo desperdício idiota do talento dela. Mas me senti da mesma forma quando estava escrevendo o obituário de Jeroma Whitfield, e tudo que ela fez foi se recusar a me dar um aumento. Foi mais por causa do processo de escrever. Eu senti o poder. E me sentir poderoso era bom.
Minha primeira parada no computador durante o café da manhã no dia seguinte não foi no Neon Circus, mas no Huffington Post. Quase sempre era. Eu não me dava ao trabalho de descer a tela até a parte de fofocas de celebridades nem olhava os itens da barra lateral (para ser sincero, o Circus fazia as duas coisas bem melhor), mas as histórias principais do Huffpo sempre são precisas, concisas e quentes. A primeira era sobre um governador do Tea Party dizendo alguma coisa que o Huffpo achava previsivelmente ultrajante. A seguinte fez minha xícara de café parar na metade do caminho até os lábios. A manchete dizia PETER STEFANO ASSASSINADO EM DISCUSSÃO NA BIBLIOTECA.
Coloquei o café intocado na mesa, com cuidado, muito cuidado, sem derramar uma gota, e li a notícia. Stefano e o bibliotecário estavam discutindo porque uma música de Andi McCoy tocava nos alto-falantes da biblioteca. Stefano mandou o bibliotecário parar de debochar dele e “tirar aquela merda”. O bibliotecário se recusou e disse que não estava debochando de ninguém, só escolheu o CD aleatoriamente. A discussão foi ficando acalorada. Foi quando alguém se aproximou por trás de Stefano e acabou com ele com um canivete.
Pelo que deu para descobrir, ele foi assassinado por volta da hora em que terminei o obituário. Eu olhei para o café. Levantei a xícara e bebi. Estava frio. Eu corri para a pia e vomitei tudo. Depois, liguei para Katie e disse que não iria para a reunião, mas gostaria de me encontrar com ela mais tarde.
— Você disse que viria — reclamou ela. — Está quebrando sua promessa!
— Por um bom motivo. Me encontre para um café de tarde e eu conto por quê.
Depois de uma pausa, ela disse:
— Aconteceu de novo.
Não foi uma pergunta.
Eu admiti. Contei para ela sobre a lista de “caras que mereciam morrer” e que pensei em Stefano.
— Eu escrevi o obituário dele, só para provar que não tive nada a ver com a morte de Jeroma. Terminei por volta do mesmo horário em que ele foi esfaqueado na biblioteca. Levo uma versão impressa com o horário se você quiser ver.
— Não preciso do horário, acredito em você. Vamos nos encontrar, mas não para tomar café. Vá até meu apartamento. E leve o obituário.
— Olha, se você acha que vou deixar você botar isso on-line…
— Deus, não, você está maluco? Só quero ver com meus próprios olhos.
— Tudo bem. — Mais que tudo bem. A casa dela. — Mas, Katie?
— O quê?
— Você não pode contar sobre isso para ninguém.
— Claro que não. Que tipo de pessoa você acha que eu sou?
Uma mulher com belos olhos, pernas compridas e seios perfeitos, eu pensei enquanto desligava. Eu devia saber que estava me metendo em encrenca, mas não estava pensando direito. Estava lembrando aquele beijo quente no canto da boca. Eu queria outro, e não no canto. E o que mais viesse depois.
O apartamento dela era organizado, com três quartos, e ficava no West Side. Ela me recebeu na porta, usando um short e um top fino, nada apropriado para o trabalho. Ela me abraçou e disse:
— Ah, Deus, Mike, você está com uma cara péssima. Lamento tanto.
Eu retribuí o abraço. Ela continuou me abraçando. Eu procurei os lábios dela, como os romances dizem, e pressionei com os meus. Depois de uns cinco segundos, eternos, mas não longos o suficiente, ela se afastou e olhou para mim com aqueles grandes olhos cinzentos.
— Temos muito para conversar. — E sorriu. — Mas podemos deixar a conversa pra depois.
O que veio em seguida foi o que geeks como eu raramente conseguem, e, quando conseguem, costuma haver um motivo oculto envolvido. Não que geeks como eu pensem em coisas assim no momento. No momento, somos como qualquer cara do planeta: a cabeça de cima vai dar uma volta e a de baixo comanda.
Sentados na cama.
Tomando vinho em vez de café.
— Teve uma coisa que li no jornal ano passado, talvez dois anos atrás — disse ela. — Um cara em um dos estados do centro do país, Iowa, Nebraska, algum lugar assim, comprou um bilhete de loteria depois do trabalho, uma daquelas raspadinhas, e ganhou cem mil dólares. Uma semana depois, ele comprou um bilhete de Powerball e ganhou cento e quarenta milhões.
— O que você está querendo dizer? — Eu entendi, mas não me importei. O lençol tinha escorregado e estava deixando os seios dela à mostra, tão firmes e perfeitos quanto eu esperava que fossem.
— Duas vezes ainda pode ser coincidência. Quero que você faça de novo.
— Acho que não seria inteligente. — Foi um argumento fraco até para os meus ouvidos. Havia uma garota bonita inteirinha ao meu alcance, mas de repente eu não estava pensando nela. Eu estava pensando em uma bola de boliche rolando pela pista, na sensação de ficar olhando e saber que, em dois segundos, os pinos iam cair para todos os lados.
Ela se virou de lado e me olhou com sinceridade.
— Se isso estiver realmente acontecendo, Mike, é colossal. A coisa mais colossal do mundo. O poder sobre a vida e a morte!
— Se você está pensando em usar isso no site…
Ela balançou a cabeça com veemência.
— Ninguém acreditaria. Mesmo que acreditasse, como poderia beneficiar o Circus? A gente faria votação? Pediria para as pessoas enviarem nomes de homens maus que merecem morrer?
Ela estava enganada. As pessoas ficariam felizes de participar na Votação da Morte 2016. Teria mais alcance que o American Idol.
Ela passou os braços pelo meu pescoço.
— Quem estava na sua lista da morte antes de você pensar em Stefano?
Eu fiz uma careta.
— Eu queria que você não a chamasse assim.
— Não importa, só me conte.
Comecei a listar os nomes, mas quando cheguei em Kenneth Wanderly, ela me fez parar. Agora, os olhos cinzentos não pareciam só escuros; estavam tempestuosos.
— Ele! Escreva o obituário dele! Vou pesquisar o pano de fundo no Google para você poder fazer um trabalho excepcional e…
Com relutância, eu me soltei dos braços dela.
— Pra quê, Katie? Ele já está no corredor da morte. O Estado que cuide dele.
— Mas não vai! — Ela pulou da cama e começou a andar de um lado para outro. Era uma visão hipnotizante, e tenho certeza de que nem preciso contar. Aquelas pernas compridas, ulalá. — Não vai! Aquele pessoal de Oklahoma não faz nada desde aquela execução que deu errado dois anos atrás! Kenneth Wanderly estuprou e matou quatro garotas, torturou elas até a morte, e ainda vai estar lá comendo bolo de carne do governo quando tiver sessenta e cinco anos! E vai morrer dormindo!
Ela voltou para a cama e ficou de joelhos.
— Faça isso por mim, Mike! Por favor!
— Por que ele é tão importante para você?
A animação sumiu do rosto dela. Katie cruzou as pernas e baixou a cabeça, de forma que o cabelo cobriu o rosto. Ficou assim por uns dez segundos, e quando olhou para mim de novo, a beleza dela tinha… não sumido, mas se alterado. Parecia marcada. Não eram só as lágrimas escorrendo pelas bochechas; era a curva envergonhada da boca.
— Porque eu sei como é. Fui estuprada quando estava na faculdade. À noite, depois de uma festa de fraternidade. Eu diria para você escrever o obituário dele, mas não vi quem foi. — Ela inspirou fundo, tremendo. — Ele me atacou por trás. Fiquei de costas o tempo todo. Mas Wanderly vai servir por associação. Vai servir direitinho.
Eu joguei o lençol longe.
— Ligue o computador.
O estuprador covarde e careca Kenneth Wanderly, que só conseguia fazer o
amiguinho subir quando sua presa estava amarrada, poupou uma grana aos
contribuintes ao cometer suicídio na cela da Penitenciária Estadual de Oklahoma,
no corredor da morte, nas primeiras horas da manhã. Guardas encontraram
Wanderly (cuja foto está ao lado de “filho da mãe inútil” no Urban Dictionary)
pendurado em uma forca improvisada feita com a própria calça. O diretor George
Stockett decretou imediatamente um jantar comemorativo especial no refeitório
comum amanhã à noite, seguido de um arrasta-pé. Quando perguntaram se a
Calça do Suicídio seria emoldurada e colocada com os outros troféus da
penitenciária, o diretor Stockett se recusou a responder, mas deu uma piscadela
para os presentes na coletiva reunida às pressas.
Wanderly, uma doença se passando por ser vivo, chegou ao mundo no dia
27 de outubro de 1972 em Danbury, Connecticut…
Outra merdástica obra de arte de Michael Anderson! Os piores dos meus obituários para o Falando Mal dos Mortos eram mais engraçados e incisivos (se você não acredita, pode pesquisar), mas isso não importava. Mais uma vez, as palavras jorraram, e com a mesma sensação de poder perfeitamente balanceado. Em um momento, no fundo da mente, percebi que a sensação se assemelhava mais a lançar um dardo do que rolar uma bola de boliche. Um dardo com a ponta bem afiada. Katie também sentiu. Ela estava sentada ao meu lado, estalando como eletricidade estática voando de uma escova de cabelo.
A próxima parte é difícil de escrever, porque me faz pensar que tem um pouco de Ken Wanderly em todos nós, mas como não existe outra forma de contar a verdade a não ser contá-la de uma vez, aqui vai: aquilo nos deixou com tesão. Eu a peguei em um abraço selvagem e nada geek assim que acabei de escrever e a carreguei de volta para a cama. Katie prendeu os tornozelos na minha cintura e as mãos na minha nuca. Acho que aquela segunda rodada deve ter durado uns cinquenta segundos, mas nós dois gozamos. Muito. As pessoas são horríveis às vezes.
Ken Wanderly era um monstro, tá? Isso não é julgamento exclusivamente meu; ele usou a palavra para se descrever quando confessou tudo em um esforço inútil de evitar a pena de morte. Eu poderia usar isso para desculpar o que eu fiz — o que nós fizemos —, exceto por uma coisa.
Escrever o obituário dele foi muito melhor que o sexo que veio em seguida.
Fez com que eu tivesse vontade de repetir a dose.
Quando acordei na manhã seguinte, Katie estava sentada no sofá com o laptop. Ela olhou para mim com seriedade e bateu na almofada ao lado. Eu me sentei e li a manchete do Neon Circus na tela: MAIS UM BAD BOY BATE AS BOTAS: “KEN TERRÍVEL” COMETE SUICÍDIO NA CELA. Só que ele não se enforcou. Ele tinha contrabandeado um sabonete (como conseguiu um ainda era um mistério, porque os detentos só têm acesso a sabonete líquido) e o enfiou na garganta.
— Meu Deus — eu disse. — Que jeito horrível de morrer.
— Ótimo! — Ela levantou as mãos, fechou os punhos e sacudiu ao lado das têmporas. — Excelente!
Havia algumas perguntas que eu não queria fazer. A primeira era se ela tinha dormido comigo só para me persuadir a matar um substituto adequado para o estuprador dela. Mas se questione o seguinte (eu me questionei): teria adiantado alguma coisa? Ela podia me dar uma resposta totalmente direta e eu podia não acreditar. Em uma situação assim, o relacionamento pode não ser envenenado, mas já está bem doente.
— Eu não vou fazer de novo.
— Tudo bem, eu entendo.
(Ela não entendia.)
— Então não me peça.
— Eu não vou pedir.
(Ela pediu.)
— E você nunca pode contar para ninguém.
— Eu já falei que não vou contar.
(Ela já tinha contado.)
Acho que parte de mim já sabia que essa conversa era um exercício de inutilidade, mas falei que tudo bem e deixei de lado.
— Mike, eu não quero apressar você para ir embora, mas tenho um zilhão de coisas para fazer, e…
— Não se preocupe. Já estou indo.
Na verdade, eu queria ir embora. Queria andar uns vinte e cinco quilômetros sem rumo e pensar no que aconteceria em seguida.
Ela me segurou na porta e me beijou intensamente.
— Não vá embora com raiva.
— Não estou. — Eu não sei como consegui ir embora.
— E não ouse pensar em se demitir. Preciso de você. Penny é a pessoa errada para Falando Mal dos Mortos, mas entendo que você precise de um tempo. Eu estava pensando, talvez, em… Georgina?
— Talvez.
Achava Georgina a pior redatora da equipe, mas não me importava mais. Eu só queria nunca mais ver outro obituário, e menos ainda escrever um.
— Quanto a você, faça todas as críticas que quiser. Não tem mais Jeroma para dizer não, não é verdade?
— É verdade.
Ela me sacudiu.
— Não fique assim, pateta. Mostre entusiasmo. Aquela velha animação do Neon Circus. E diga que vai ficar. — Ela baixou a voz. — Podemos fazer nossas reuniões. Particulares. — Ela viu meu olhar baixar até o decote do roupão e riu, satisfeita. E me deu um empurrão. — Agora, vá. Cai fora daqui.
Uma semana se passou, e quando você está trabalhando para um site como o Neon Circus, cada semana dura três meses. Celebridades ficaram bêbadas, celebridades foram para reabilitação, celebridades saíram da reabilitação e logo ficaram bêbadas de novo, celebridades foram presas, celebridades saíram de limusines sem calcinha, celebridades dançaram a noite toda, celebridades se casaram, celebridades se divorciaram, celebridades “deram um tempo”. Uma celebridade caiu na piscina e se afogou. Georgina escreveu um obituário incrivelmente sem graça, e uma tonelada de tweets e e-mails de Cadê o Mike? chegaram em seguida. Houve uma época em que isso me agradaria.
Eu não voltei ao apartamento de Katie porque ela estava ocupada demais para dar uns amassos. Na verdade, Katie não estava muito em evidência. Ela estava “indo a reuniões”, duas em Nova York e uma em Chicago. Na ausência dela, acabei virando o chefe. Eu não fui indicado, não fiz campanha, não fui eleito. Só aconteceu. Meu único consolo era que as coisas voltariam ao normal quando Katie voltasse.
Eu não queria passar tempo nenhum na sala de Jeroma (parecia assombrada), mas, fora nosso banheiro unissex, era o único lugar onde eu podia fazer reuniões com funcionários atormentados com relativa privacidade. E os funcionários estavam sempre atormentados. Publicar on-line ainda é publicar, e toda equipe que trabalha com publicação é um ninho de complexos e neuroses antiquados. Jeroma teria expulsado todo mundo (mas, ei, pegue uma bala). Eu não podia fazer isso. Quando comecei a me sentir mal, lembrei que logo voltaria para minha mesa de sempre perto da parede, escrevendo críticas mordazes. Só mais um internado no hospício.
A única decisão real que me lembro de ter tomado naquela semana teve a ver com a cadeira de Jeroma. Eu não conseguia botar a bunda onde a dela estava quando engasgou com a Bala da Perdição. Eu a empurrei até a sala coletiva e peguei a cadeira que eu via como “minha”, a que ficava junto à mesa próxima do pôster de Ação de Graças com o texto POR FAVOR, CAGUE ONDE COME. Era um assento bem menos confortável, mas pelo menos não parecia assombrado. Além do mais, eu não estava escrevendo muito.
No fim da tarde de sexta, Katie entrou no escritório usando um vestido cintilante na altura dos joelhos que era a antítese da calça jeans com top que ela costumava usar. O cabelo estava cheio de cachos com caimento perfeito, feitos no salão de beleza. Para mim, ela parecia… bem… uma versão mais bonita de Jeroma. Eu tive uma lembrança passageira de A revolução dos bichos, de Orwell, e como o cantarolar de “quatro pernas bom, duas pernas ruim” mudou para “quatro pernas bom, duas pernas melhor”.
Katie nos reuniu e anunciou que estávamos sendo comprados pela Pyramid Media de Chicago e que haveria aumentos — pequenos — para todo mundo. Isso gerou uma onda de aplausos animados. Quando pararam, ela acrescentou que Georgina Bukowski assumiria o Falando Mal dos Mortos de vez, e que Mike Anderson era nosso novo crítico cult.
— O que quer dizer — disse ela — que ele vai abrir as asas e voar lentamente sobre a paisagem, cagando onde quiser.
Mais aplausos animados. Eu me levantei e fiz uma reverência, tentando parecer alegre e diabólico. Quanto a isso, eu era capaz de apostar quinhentas pratas que não ficava alegre desde a morte repentina de Jeroma, mas eu me sentia mesmo diabólico.
— Agora, todo mundo de volta ao trabalho! Escrevam coisas eternas! — Lábios brilhantes se abriram em um sorriso. — Mike, posso falar com você em particular?
Em particular queria dizer na sala de Jeroma (todos nós ainda pensávamos naquela sala assim). Katie franziu a testa quando viu a cadeira atrás da mesa.
— O que essa coisa feia está fazendo aqui?
— Eu não gostava de sentar na de Jeroma — respondi. — Pego de volta se você quiser.
— Eu quero. Mas, antes que você vá… — Ela chegou perto, mas viu que a persiana estava aberta e que estávamos sendo observados. Decidiu então botar a mão no meu peito. — Você pode ir lá em casa esta noite?
— Sem dúvida. — Mas não fiquei tão animado com a perspectiva quanto era de se imaginar. Com a cabeça de baixo fora de cena, dúvidas sobre as motivações de Katie continuaram a se solidificar. E, tenho que admitir, achei meio perturbador ela estar tão ansiosa para trazer a cadeira de Jeroma de volta para o escritório.
Baixando a voz, apesar de estarmos sozinhos, ela disse:
— Imagino que você não tenha escrito mais… — Os lábios cintilantes formaram a palavra obituários.
— Nem pensei nisso.
Estava mentindo. Escrever obituários era a primeira coisa em que eu pensava de manhã e a última em que pensava à noite. O jeito como as palavras fluíam. E a sensação que acompanhava: uma bola de boliche rolando na direção certa, uma tacada de seis metros de distância rolando direto para o buraco, um dardo pousando no lugar onde você mirou. Na mosca, bem no meio do alvo.
— O que mais você anda escrevendo? Alguma crítica? Soube que a Paramount vai lançar o último filme de Jack Briggs e ouvi que é ainda pior do que Holy Rollers. Tem que ser tentador.
— Não ando escrevendo, exatamente. Estava dando uma de ghostwriter. Revisando o trabalho dos outros. Mas não fui feito para ser editor. Esse trabalho é seu, Katie.
Desta vez, ela não protestou.
Mais tarde, eu olhei para a frente da última fileira, onde estava tentando (e falhando) escrever a crítica de um CD, e a vi no escritório, inclinada na frente do laptop. A boca estava se movendo, e primeiro achei que ela devia estar ao telefone, mas não havia telefone por perto. Então tive a ideia, quase certamente ridícula, mas estranhamente difícil de descartar, de que ela tinha encontrado um estoque de balas de eucalipto na gaveta de cima e que estava chupando uma.
Cheguei ao apartamento dela pouco antes das sete, carregando sacos de comida chinesa do Fun Joy. Ela não estava de short e de top fino naquela noite; estava usando um suéter e uma calça cáqui larga. E não estava sozinha. Penny Langston estava sentada em uma ponta do sofá (acocorada lá, na verdade). Não estava usando o boné, mas aquele sorriso estranho, o que dizia toque em mim e mato você, estava presente e evidente.
Katie beijou minha bochecha.
— Convidei Penny para se juntar a nós.
Isso estava na cara, mas eu falei:
— Oi, Pens.
— Oi, Mike. — Uma voz de ratinho e nenhum contato visual, mas ela fez um esforço corajoso de transformar o sorriso em uma coisa menos apavorante.
Eu olhei para Katie. E ergui as sobrancelhas.
— Eu disse que não contei para ninguém sobre o que você consegue fazer — disse Katie. — Isso… não foi bem verdade.
— E eu meio que já sabia. — Coloquei os sacos brancos manchados de gordura na mesa de centro. Eu não estava mais com fome e não esperava nada de bom dos próximos minutos. — Você quer me dizer qual é o assunto a ser discutido aqui antes que eu acuse você de quebrar sua promessa solene e vá embora?
— Não faça isso. Por favor. Escute. Penny trabalha no Neon Circus porque convenci Jeroma a contratá-la. Eu a conheci quando ela ainda morava em Nova York. Nós duas participávamos de um grupo, não era, Pens?
— Sim — respondeu Penny com sua vozinha de rato. Ela estava olhando para as mãos, tão apertadas no colo que os nós dos dedos estavam brancos. — O grupo Nome Sagrado de Maria.
— Que é o quê, exatamente? — Como se eu precisasse perguntar. Às vezes, quando as peças se juntam, dá para ouvir o estalo.
— Apoio a vítimas de estupro — explicou Katie. — Eu não vi meu estuprador, mas Penny viu o dela. Não viu, Pens?
— Vi. Muitas vezes. — Agora, Penny estava me encarando, e sua voz ficou mais forte a cada palavra. No final, ela estava quase gritando, e lágrimas escorriam pelas bochechas. — Foi meu tio. Eu tinha nove anos. Minha irmã tinha onze. Ele estuprou ela também. Katie disse que você consegue matar gente com obituários. Eu quero que você escreva o dele.
Não vou contar a história que ela me contou, sentada no sofá com Katie, que segurava uma das mãos dela e colocava Kleenex após Kleenex na outra. A não ser que você tenha vivido em um dos sete lugares do país ainda não equipados com tecnologia multimídia, já deve tê-la ouvido. Você só precisa saber que os pais de Penny morreram em um acidente de carro, e que ela e a irmã foram morar com o tio Amos e a tia Claudia. Tia Claudia se recusava a ouvir qualquer coisa contra o marido. O resto você vai ter que imaginar sozinho.
Eu queria fazer. Porque a história era horrível, sim. Porque homens como tio Amos precisavam sofrer por se aproveitarem dos mais fracos e vulneráveis, sim. Porque Katie queria que eu fizesse, sem dúvida. Mas, no final, acabou sendo por causa do vestido bonito e triste que Penny estava usando. E dos sapatos. E da maquiagem borrada. Pela primeira vez em anos, talvez pela primeira vez desde que o tio Amos começou a fazer as visitas noturnas ao quarto dela, sempre dizendo que era “nosso segredinho”, ela tentou se deixar apresentável para um ser humano do sexo masculino. Partiu meu coração. Katie carregava marcas do estupro, mas o superou. Algumas garotas conseguem fazer isso. A maioria, não.
Quando ela terminou, eu perguntei:
— Você jura por Deus que seu tio fez mesmo isso?
— Juro. Repetidas vezes. Quando ficamos velhas o bastante para engravidar, ele nos fazia virar e usava nosso… — Ela não terminou a frase. — E aposto que não ficou só em Jessie e em mim.
— E ele nunca foi preso?
Ela balançou a cabeça com veemência, os cachos escuros voando.
— Tudo bem. — Eu peguei meu iPad na pasta. — Mas você vai ter que me contar sobre ele.
— Posso fazer melhor. — Ela soltou a mão da de Katie e pegou a bolsa mais feia que já vi fora as na vitrine de brechó. De dentro, tirou uma folha de papel amassada, tão manchada de suor que estava murcha e meio transparente. Ela tinha escrito a lápis. A caligrafia arredondada parecia de criança. O título era AMOS CULLEN LANGSTON: OBITUÁRIO.
Esse sujeito imprestável que estuprava garotinhas a cada oportunidade que
tinha morreu lenta e dolorosamente de muitos cânceres nas partes moles do corpo.
Durante a última semana, pus escorria dos seus olhos. Ele tinha sessenta e três
anos e, em seus últimos momentos, seus gritos se espalharam pela casa enquanto
ele implorava por uma dose extra de morfina…
Havia mais. Muito. A caligrafia dela era de criança, mas o vocabulário era excelente, e ela fez um trabalho bem melhor naquele artigo do que em qualquer outra coisa que já tivesse escrito para o Neon Circus.
— Não sei se vai funcionar — eu disse, tentando devolver. — Acho que eu mesmo tenho que escrever.
Katie disse:
— Não vai fazer mal tentar, vai?
Eu achei que não. Olhando diretamente para Penny, falei:
— Eu nunca vi esse cara, e você quer que eu o mate.
— Sim — disse ela, e agora estava olhando diretamente nos meus olhos. — É isso que eu quero.
— Você tem certeza?
Ela assentiu.
Eu me sentei à escrivaninha de Katie, coloquei o discurso mortal escrito à mão ao lado do iPad, abri um documento em branco e comecei a transcrever. Soube imediatamente que ia funcionar. A sensação de poder foi mais forte do que nunca. A sensação de mira. Parei de olhar a folha depois da segunda frase e batuquei no teclado na tela do iPad, escrevendo os pontos principais, e terminei com a seguinte recomendação: Quem comparecer ao enterro — ninguém poderia chamar essas pessoas de tristes, considerando as predileções indescritíveis do sr. Langston — é aconselhado a não trazer flores. Cuspir no caixão, porém, é encorajado.
As duas mulheres estavam me espiando com olhos arregalados.
— Vai funcionar? — perguntou Penny, mas respondeu ela mesma: — Vai. Eu senti.
— Acho que talvez já tenha funcionado. — Eu voltei minha atenção para Katie. — Me peça para fazer isso de novo, Kate, e vou ficar tentado a escrever o seu obituário.
Ela tentou sorrir, mas vi que estava com medo. Eu não pretendia fazer isso (pelo menos, acho que não pretendia), então peguei a mão dela. Ela deu um pulo, começou a puxar de volta, mas me deixou segurar. A pele estava fria e molhada.
— Estou brincando. Foi uma péssima piada, mas é sério. Isso tem que terminar.
— Sim — disse ela, e engoliu em seco, um som de desenho animado. — Sem dúvida.
— E nada de falar. Com ninguém. Nunca.
Mais uma vez, elas concordaram. Eu comecei a me levantar, e Penny pulou em cima de mim, me derrubando de volta na cadeira e quase fazendo nós dois cairmos no chão. O abraço não foi carinhoso; foi mais como o aperto de uma afogada se agarrando ao suposto salvador. Ela estava grudenta de suor.
— Obrigada — sussurrou ela com rispidez. — Obrigada, Mike.
Fui embora sem dizer de nada. Mal podia esperar para sair de lá. Não sei se elas comeram a comida que eu levei, mas duvido. Fun Joy, até parece.
Eu não dormi naquela noite, e não foi pensar em Amos Langston que me manteve acordado. Eu tinha outras coisas com que me preocupar.
Uma era o eterno problema do vício. Eu saí do apartamento de Katie determinado a nunca mais usar esse poder terrível, mas foi uma promessa que já tinha feito para mim mesmo antes, e não sabia se conseguiria cumprir, porque cada vez que eu escrevia o “obituário de um vivo”, a vontade de fazer de novo ficava mais forte. Era como heroína. Se você usa uma ou duas vezes, talvez consiga parar. Mas, depois de um tempo, tem que sentir de novo. Podia não ter chegado a esse ponto ainda, mas eu estava na beirada daquele abismo e sabia. O que eu dissera para Katie era a verdade absoluta: isso tinha que terminar enquanto eu ainda conseguia. Supondo que já não fosse tarde demais.
A segunda coisa não era tão terrível, mas era bem ruim. No metrô, voltando para o Brooklyn, um adágio particularmente adequado de Ben Franklin surgiu na minha mente: Duas pessoas conseguem guardar segredo quando uma está morta. Já havia três pessoas guardando o meu, e como eu não tinha intenção de assassinar Katie e Penny por um obituário, isso queria dizer que um segredo horrível estava nas mãos delas.
Elas guardariam por um tempo, tinha certeza. Penny ficaria particularmente inclinada a isso se recebesse uma ligação de manhã para avisar que o querido tio Amos tinha batido as botas. Mas o tempo enfraqueceria o tabu. Havia outro fator também. As duas não eram só redatoras, mas redatoras do Neon Circus, o que queria dizer que dar com a língua nos dentes era o trabalho delas. Dar com a língua nos dentes podia não ser tão viciante quanto matar gente por obituários, mas tinha lá sua atração, como eu bem sabia. Mais cedo ou mais tarde, haveria um bar, bebidas demais, e então…
Querem ouvir uma história maluca? Mas vocês têm que prometer não contar para ninguém.
Eu me vi sentado na redação junto ao pôster de Ação de Graças, ocupado com minha crítica mordaz da vez. Frank Jessup se aproxima, se senta e pergunta se já pensei em escrever o obituário de Bashar al-Assad, o ditador sírio com a cabecinha pequena, ou — melhor ainda! — daquele coreano gorducho, Kim Jong-un. Até onde eu sabia, Jessup podia querer que eu acabasse com o novo técnico dos Knicks.
Tentei me convencer de que isso era ridículo, mas não consegui. O Garoto do Moicano era torcedor fanático dos Knicks.
Havia uma possibilidade ainda mais horrenda (isso me ocorreu por volta das três da manhã). E se a história sobre o meu poder caísse no ouvido governamental errado? Parecia improvável, mas eu não tinha lido em algum lugar que o governo fez experimentos com LSD e controle da mente em pessoas que nem desconfiaram de nada, nos anos 1950? Pessoas capazes disso podiam ser capazes de qualquer coisa. E se alguns sujeitos da Agência Nacional de Segurança aparecessem no Circus ou ali na casa dos meus pais no Brooklyn, e eu acabasse fazendo uma viagem só de ida em um avião particular para uma base qualquer do governo, onde seria instalado em um apartamento particular (luxuoso, mas com guardas na porta) e receberia uma lista com os líderes militantes do Al-Qaeda e do EI, com arquivos que me permitiriam escrever obituários extremamente detalhados? Eu poderia fazer drones equipados com foguetes virarem uma coisa obsoleta.
Maluquice? Com certeza. Mas, às quatro da manhã, qualquer coisa parece possível.
Por volta das cinco, quando a primeira luz do dia começou a entrar no meu quarto, eu me peguei me perguntando de novo como fui ganhar esse talento indesejado. Sem mencionar há quanto tempo eu o tinha. Não havia como saber, porque, via de regra, ninguém escreve obituários de pessoas vivas. Não fazem isso nem no The New York Times, só reúnem as informações necessárias para estarem à mão quando uma pessoa famosa morre. Eu poderia ter essa habilidade desde sempre, mas, se não tivesse escrito aquela piada de mau gosto sobre Jeroma, jamais descobriria. Pensei em como fui parar no Neon Circus: por um obituário não solicitado. De uma pessoa já morta, verdade, mas um obituário é um obituário. E o talento só quer uma coisa, não é? Sair. Quer colocar um smoking e sapatear por todo o palco.
Com esse pensamento, eu adormeci.
Meu celular me acordou às quinze para o meio-dia. Era Katie, e estava nervosa.
— Você precisa vir ao escritório — disse ela. — Agora.
Eu me sentei na cama.
— O que aconteceu?
— Eu conto quanto você chegar, mas vou dizer uma coisa agora. Você não pode fazer aquilo de novo.
— Dã — respondi. — Acho que eu falei isso para você. E em mais de uma ocasião.
Se ela me ouviu, não prestou atenção, só continuou falando:
— Nunca mais. Se fosse Hitler, você não poderia fazer. Se seu pai estivesse com uma faca no pescoço da sua mãe, você não poderia fazer.
Ela desligou antes que eu pudesse questionar qualquer coisa. Eu me perguntei por que não íamos fazer essa reunião importantíssima no apartamento dela, que oferecia bem mais privacidade que o escritório apertado do Neon Circus, e só uma resposta surgiu na minha mente: Katie não queria ficar sozinha comigo. Eu era um cara perigoso. Só fiz o que ela e a amiga sobrevivente de estupro queriam, mas isso não mudava o fato.
Agora, eu era um cara perigoso.
Ela me cumprimentou com um sorriso e um abraço na frente dos poucos funcionários presentes, tomando seus Red Bulls pós-almoço e digitando preguiçosamente nos laptops, mas hoje a persiana do escritório estava abaixada, e o sorriso sumiu assim que entramos na sala.
— Estou morrendo de medo — disse Katie. — Já estava ontem à noite, mas, quando você estava fazendo…
— Dá uma sensação boa. É, eu sei.
— Mas estou com muito mais medo agora. Fico pensando naquelas geringonças com molas que se aperta para ficar com as mãos e os antebraços mais fortes.
— De que você está falando?
Ela não me contou. Não na hora.
— Eu tive que começar no meio, com o filho de Ken Wanderly, e seguir daí para…
— Ken Terrível teve um filho?
— Um filho, sim. Pare de me interromper. Eu tive que começar no meio porque a história do filho foi a primeira que encontrei. Havia uma notícia de “relato de morte” no Times hoje de manhã. Resolveram tirar as teias de aranha, para variar. Alguém do Huffpo ou do Daily Beast pode ser punido por isso, porque aconteceu um tempo atrás. Meu palpite é que a família decidiu esperar até depois do enterro para soltar a notícia.
— Katie…
— Cale a boca e escute. — Ela se inclinou para a frente. — O que fizemos teve danos colaterais. E está piorando.
— Eu não…
Ela colocou a palma da mão na minha boca.
— Cala. A porra. Da boca.
Eu calei. Ela afastou a mão.
— Jeroma Whitfield foi o que deu início a tudo. Até onde consigo saber usando o Google, ela é a única no mundo com esse nome. Era, quer dizer. Mas tem outras toneladas de Jerome Whitfield, então graças a Deus ela foi a primeira, senão essa coisa podia ter se espalhado por outras Jeromas. Algumas, pelo menos. As mais próximas.
— Essa coisa?
Ela me olhou como se eu fosse um idiota.
— O poder. A segunda… — Ela fez uma pausa, acho que porque a palavra que surgiu em sua mente foi vítima. — A segunda pessoa foi Peter Stefano. Também não é o nome mais comum do mundo, mas também não é tão estranho. Agora, olhe isso.
Na mesa, ela pegou algumas folhas de papel. Soltou a primeira do clipe que as prendia e passou para mim. Nela, havia três obituários, todos de jornais pequenos: um da Pensilvânia, um de Ohio e um do norte de Nova York. O Peter Stefano da Pensilvânia morreu de ataque cardíaco. O de Ohio caiu de uma escada. O de Nova York, Woodstock, sofreu um derrame. Todos morreram no mesmo dia que o produtor de discos com o mesmo nome.
Eu me sentei com pesar.
— Não pode ser.
— Mas é. A boa notícia é que encontrei mais de vinte outros Peter Stefanos por todos os Estados Unidos, e eles estão bem. Acho que porque todos moram longe do presídio em Gowanda. Lá foi o ponto zero. Os estilhaços se espalharam de lá.
Eu olhei para ela, estupefato.
— Ken Terrível veio em seguida. Outro nome incomum, graças a Deus. Tem um amontoado de Wanderlys em Wisconsin e Minnesota, mas acho que era longe demais. Só que…
Ela me entregou a segunda folha de papel. Primeiro, havia a notícia do Times: FILHO DE ASSASSINO MORRE. A esposa alegava que Ken Wanderly Jr. atirou em si mesmo por acidente enquanto estava limpando uma pistola, mas a notícia observava que o “acidente” aconteceu menos de doze horas depois da morte do pai. A suspeita de que teria sido suicídio ficou para o leitor inferir.
— Eu não acho que tenha sido suicídio — disse Katie. Por baixo da maquiagem, ela estava muito pálida. — Também não acho que tenha sido exatamente um acidente. A coisa mira nos nomes, Mike. Você percebe isso, não percebe? E não sabe soletrar, o que só piora tudo.
O obituário (eu estava começando a odiar a palavra) abaixo da notícia sobre o filho de Ken Terrível era sobre um Kenneth Wanderlee, de Paramus, Nova Jersey. Assim como o Peter Stefano da Pensilvânia (um inocente que provavelmente nunca matou nada além de tempo), Wanderlee de Paramus morreu de ataque cardíaco.
Como Jeroma.
Eu estava respirando rápido e suando. Minhas bolas se encolheram tanto que estavam do tamanho de caroços de pêssego. Eu queria desmaiar e vomitar, mas consegui não fazer nenhuma das duas coisas. Se bem que vomitei bastante depois. Isso se prolongou por uma semana ou mais, e eu perdi cinco quilos. (Falei para minha mãe preocupada que eu estava com uma virose.)
— Eis a gota d’água — disse ela, e me entregou a última página. Havia dezessete Amos Langstons nela. O maior amontoado era na área de Nova York, Nova Jersey e Connecticut, mas um morreu em Baltimore, um na Virgínia e dois bateram as botas na Virgínia Ocidental. Na Flórida, foram três.
— Não… — sussurrei.
— Sim — disse ela. — Esse segundo, em Amityville, é o tio mau da Penny. Fique agradecido de Amos também ser um nome relativamente incomum atualmente. Se fosse James ou William, poderia haver centenas de Langstons mortos. Provavelmente não milhares, porque ainda não passa do Meio-Oeste, mas a Flórida fica a mil e quinhentos quilômetros. Mais longe que um sinal de rádio AM consegue chegar, pelo menos durante o dia.
As folhas de papel caíram da minha mão e ziguezaguearam até o chão.
— Agora você entende o que eu quis dizer sobre aquelas coisas de espremer que deixam as mãos e os braços mais fortes? No começo, você só consegue apertar os dois cabos uma ou duas vezes. Mas, se continuar fazendo, os músculos ficam mais fortes. É o que está acontecendo com você, Mike. Tenho certeza. Cada vez que você escreve o obituário de uma pessoa viva, o poder fica mais forte e seu alcance fica maior.
— A ideia foi sua — sussurrei. — Sua merda de ideia.
Mas ela não ia aceitar isso.
— Eu não falei para você escrever o obituário de Jeroma. Isso foi ideia sua.
— Foi um impulso — protestei. — Uma brincadeira, caramba. Eu não sabia o que ia acontecer!
Só que talvez isso não fosse verdade. Eu lembrei meu primeiro orgasmo na banheira, auxiliado pela mão cheia de sabonete. Eu não sabia o que estava fazendo quando estiquei a mão e segurei aquela parte do corpo… só que parte de mim, uma parte profunda e instintiva, sabia. Tem outro dito antigo, esse não de Ben Franklin: Quando o aluno está pronto, o professor vai aparecer. Às vezes, o professor está dentro de nós.
— Wanderly foi ideia sua — observei. — Assim como Amos, o Pervertido da Meia-Noite. E, àquela altura, você sabia o que ia acontecer.
Ela se sentou na beirada da mesa, que agora era dela, e olhou diretamente para mim, o que não podia ser fácil.
— Isso é verdade. Mas, Mike… eu não sabia que ia se espalhar.
— Nem eu.
— E é mesmo viciante. Eu estava sentada ao seu lado quando você fez, e foi como inspirar crack de outra pessoa.
— Eu posso parar — afirmei.
Torcendo. Torcendo.
— Tem certeza?
— Tenho. Agora, uma pergunta para você. Consegue manter a boca fechada sobre isso? Tipo, para o resto da vida?
Ela fez a cortesia de pensar. E assentiu.
— Vou ter que conseguir. Eu posso conseguir uma coisa boa aqui no Circus, e não quero estragar tudo antes de tentar.
Em outras palavras, era só por causa dela, e o que mais eu podia esperar? Katie podia não estar chupando as balinhas de eucalipto de Jeroma, eu podia ter me enganado quanto a isso, mas estava sentada na cadeira de Jeroma, atrás da mesa de Jeroma. E tinha também aquele cabelo com jeito de que era para olhar, mas não para tocar. Como os porcos de Orwell podiam ter dito: jeans bom, vestido novo melhor.
— E Penny?
Katie não disse nada.
— Porque minha impressão sobre Penny, a impressão de todo mundo sobre Penny, na verdade, é que ela tem alguns parafusos soltos.
Os olhos de Katie brilharam.
— Isso o surpreende? Ela teve uma infância extremamente traumática, caso você não tenha percebido. Uma infância infernal.
— Entendo, porque estou vivendo meu próprio inferno agora. Então me poupe da solidariedade de grupo de apoio. Só quero saber se ela vai ficar de bico fechado. Tipo, para sempre. Vai?
Houve uma pausa bem longa. Finalmente, Katie disse:
— Agora que ele está morto, talvez ela pare de ir às reuniões de apoio a sobreviventes de estupro.
— E se não parar?
— Acho que ela pode… em algum momento… contar para alguém que esteja particularmente mal que conhece um cara que poderia ajudar uma pessoa a ter um encerramento. Não faria isso este mês, e provavelmente não este ano, mas…
Ela não terminou. Nós nos olhamos. Eu tinha certeza de que ela conseguia ler meus pensamentos nos meus olhos: havia um jeito garantido e certeiro de fazer com que Penny mantivesse a boca fechada.
— Não — insistiu Katie. — Nem pense nisso, e não só porque ela merece a vida que tem e as coisas boas que podem haver para ela no futuro e essa baboseira toda. Não seria só ela.
Baseado na pesquisa de Katie, ela estava certa. Penny Langston também não era um nome supercomum, mas havia mais de trezentos milhões de pessoas nos Estados Unidos, e algumas das Penny ou Penelope Langston por aí ganhariam numa loteria bem ruim se eu decidisse ligar o laptop ou o iPad e escrever um novo obituário. E tinha também o “efeito da vizinhança”. O poder que levou Wanderlee além dos Wanderly. E se decidisse levar Petula Langston? Patsy Langford? Penny Langley?
E tinha a minha situação. Talvez demorasse só mais um obituário para Michael Anderson se render completamente à energia de alta voltagem. Só de pensar, me dava vontade de fazer, porque afastaria, mesmo que temporariamente, essa sensação de horror e consternação. Eu me imaginei escrevendo um obituário de John Smith ou Jill Jones para me alegrar, e minhas bolas encolheram ainda mais com a ideia do massacre em massa que poderia advir disso.
— O que você vai fazer? — perguntou Katie.
— Vou pensar em alguma coisa.
Eu pensei.
Naquela noite, abri um atlas rodoviário Rand McNally na parte do grande mapa dos Estados Unidos, fechei os olhos e baixei o dedo. E é por isso que eu agora moro em Laramie, Wyoming, onde sou pintor de casas. Primariamente pintor de casas. Na verdade, tenho vários empregos, como muitas pessoas nas pequenas cidades do centro do país, que eu costumava chamar, com o desprezo casual dos nova-iorquinos, de “terras no meio do caminho”. Também trabalho por meio período em uma empresa de paisagismo, cortando grama, varrendo folhas e plantando arbustos. No inverno, tiro neve de entradas de garagem e trabalho no resort de esqui Snowy Range, cuidando das pistas. Não sou rico, mas consigo levar. Um pouco melhor do que em Nova York, na verdade. Pode debochar quanto quiser das terras no meio do caminho, mas é bem mais barato viver aqui, e dias inteiros se passam sem ninguém me mostrar o dedo do meio.
Meus pais não entendem por que joguei tudo para o alto, e meu pai nem tenta esconder a decepção; ele às vezes fala sobre meu “estilo de vida de Peter Pan” e diz que vou lamentar quando fizer quarenta e começar a ter fios grisalhos. Minha mãe também vive intrigada, mas não reprova tanto. Ela nunca gostou do Neon Circus, achava que era um desperdício vulgar das minhas “capacidades autorais”. Devia estar certa nas duas coisas, mas atualmente só uso minhas capacidades autorais para fazer listas de compras. Quanto ao meu cabelo, vi os primeiros fios grisalhos antes mesmo de sair da cidade, e isso foi antes de eu fazer trinta.
Mas ainda escrevo em meus sonhos, e não são sonhos agradáveis. Em um deles, estou sentado em frente ao laptop, apesar de não ter mais laptop. Estou escrevendo um obituário e não consigo parar. E nesse sonho, eu nem quero, porque aquela sensação de poder nunca foi tão forte. Chego até “Notícia ruim: ontem à noite todo mundo que se chama John no mundo morreu”, e aí eu acordo, às vezes no chão, às vezes enrolado no cobertor e gritando. É impressionante eu não ter acordado os vizinhos.
Nunca deixei meu coração em San Francisco, mas deixei meu laptop no querido Brooklyn. Só que não consegui abrir mão do iPad (isso sim é um vício). Não uso para enviar e-mails; quando quero entrar em contato com alguém às pressas, eu ligo. Se não for urgente, uso aquela instituição antiquada conhecida como Correios. Você ficaria surpreso com a facilidade de voltar ao hábito de escrever cartas e cartões-postais.
Mas eu gosto do iPad. Tem muitos jogos lá, e os sons de vento que me ajudam a dormir à noite, e o alarme que me desperta de manhã. Tenho um monte de músicas guardadas, alguns audiolivros, muitos filmes. Quando nada serve para entreter, eu navego na internet. Há infinitas possibilidades para ocupar o tempo lá, como você deve saber, e em Laramie o tempo pode passar lentamente quando não estou trabalhando. Principalmente no inverno.
Às vezes, visito o site do Neon Circus, só pelas boas lembranças. Katie está fazendo um bom trabalho como editora, bem melhor do que Jeroma, que não era muito visionária, e o site fica em torno do número cinco da lista dos mais visitados. Às vezes, fica um ou dois pontos acima do Drudge Report; na maior parte do tempo, fica logo abaixo. Tem muitos anúncios, o que quer dizer que estão indo bem nesse aspecto.
A sucessora de Jeroma ainda escreve as entrevistas do Enchendo a Cara com Katie. Frank Jessup ainda cobre os esportes; o artigo não exatamente debochado sobre querer ver uma Liga de Futebol Americano com Esteroides ganhou atenção nacional e conquistou um trabalho na ESPN, com moicano e tudo. Georgina Bukowski escreveu uns seis obituários sem graça para o Falando Mal dos Mortos antes de Katie acabar com a coluna e substituí-la por Apostas Fúnebres, na qual leitores ganham prêmios por fazerem previsões de que pessoas famosas vão morrer nos próximos doze meses. Penny Langston é a mestra de cerimônias, e cada semana uma nova foto sorridente dela aparece no alto de um esqueleto dançante. É a seção mais popular do Circus, e cada semana a seção dos comentários ocupa várias páginas. As pessoas gostam de ler sobre a morte e gostam de escrever sobre ela.
Eu sei bem disso.
Certo, é esta a história. Não espero que você acredite, e nem precisa; vivemos em um país livre, afinal. Fiz o melhor possível para contar direitinho mesmo assim. Da forma como aprendi a contar uma história nas aulas de jornalismo: sem enrolação, sem ser piegas e sem ser pomposo. Tentei ser claro, escrever de forma simples e direta. O começo leva ao meio, o meio leva ao final. Tradicional, percebe? Patinhos enfileirados. E, se você achar o final meio sem graça, talvez queira lembrar a visão do professor Higgins sobre isso. Ele dizia que, no jornalismo, é sempre o final por enquanto, e, na vida real, o único ponto final é a página de um obituário.
Para Stewart O’Nan
Eis uma historinha boa demais para não ser contada, e a conto em aparições públicas há anos. Minha esposa faz quase todas as compras para nós— ela diz que jamais haveria legumes e verduras lá em casa se não fosse assim—, mas às vezes me manda fazer umas compras de emergência. Eu estava no supermercado local uma tarde, com a missão de encontrar pilhas e uma frigideira antiaderente. Enquanto seguia pelo corredor de utilidades domésticas, já tendo parado para pegar outros itens de necessidade básica (pães de canela e batatas fritas), uma mulher surgiu na extremidade, usando um daqueles carrinhos motorizados. Ela era um arquétipo da ave migratória da Flórida, com uns oitenta anos, permanente perfeito e tão bronzeada quanto um sapato de couro. Ela me encarou, desviou o olhar e olhou novamente.
— Eu conheço você — disse ela. — Você é Stephen King. Você escreve aquelas histórias de terror. Tudo bem, tem gente que gosta, mas não eu. Eu gosto de histórias animadoras, como aquela Rita Hayworth e a Redenção de Shawshank.
— Eu também escrevi essa.
— Não escreveu, não — disse ela, e seguiu caminho.
A questão é, você escreve umas histórias de terror e fica que nem a garota que mora no trailer nos limites da cidade: ganha uma reputação. Por mim, tudo bem; as contas estão pagas e eu continuo me divertindo. Pode me chamar de qualquer coisa, como se diz por aí, desde que não me chame tarde para jantar. Mas o termo gênero carrega bem pouco interesse para mim. Sim, eu gosto de histórias de terror. Também amo histórias de mistério, contos de suspense, histórias do mar, romances literários e poesia… só para mencionar alguns. Também gosto de ler e escrever histórias que me parecem engraçadas, e isso não devia surpreender ninguém, porque o humor e o horror são gêmeos siameses.
Não muito tempo atrás, eu ouvi um cara falando sobre uma corrida armamentista de fogos de artifício em um lago do Maine, e esta história me veio à cabeça. E não pense nela como “local”, tá? Esse é outro gênero que não tem utilidade para mim.