O Bazar dos Sonhos Ruins
Ur
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
I – EXPERIMENTANDO NOVAS TECNOLOGIAS
Quando os colegas de Wesley Smith perguntaram — alguns com uma das sobrancelhas erguida de forma sarcástica — o que ele ia fazer com o aparelho (todos chamavam de aparelho), ele falou que estava experimentando novas tecnologias. Não era verdade. Ele comprou o Kindle só de raiva.
Gostaria de saber se os analistas de marketing da Amazon têm essa motivação listada nos formulários das pesquisas de produto, pensou ele. Wesley supunha que não. Deu a ele certa satisfação, mas não tanta quanto esperava obter da surpresa de Ellen Silverman quando ela o visse com a nova compra. Isso ainda não tinha acontecido, mas aconteceria. O campus era pequeno, afinal, e ele só estava com o novo brinquedo (ele chamava de novo brinquedo, ao menos no começo) havia uma semana.
Wesley era professor do departamento de inglês da Moore College, em Moore, Kentucky. Como todos os professores de inglês, ele achava que havia um romance em algum lugar dentro dele e que o escreveria um dia. A Moore College era o tipo de instituição que as pessoas chamavam de “uma boa universidade”. Don Allman, o único amigo de Wesley no departamento, explicou o que isso queria dizer.
— Uma boa universidade — disse Don — é uma da qual ninguém ouviu falar fora de um raio de cinquenta quilômetros. As pessoas a consideram uma boa universidade porque não têm provas do contrário, e a maioria é otimista, apesar de alegar que não é. As pessoas que se dizem realistas muitas vezes são as mais otimistas.
— Isso faz de você um realista? — perguntou Wesley certa vez.
— Acho que o mundo é basicamente habitado por uns merdas — respondeu Don Allman. — Pode tirar suas próprias conclusões.
Moore não era uma boa universidade, mas também não era péssima. Na grande escala da experiência acadêmica, ficava um pouco abaixo de medíocre. A maioria dos três mil alunos pagava as contas, e muitos deles conseguiam emprego depois de se formar, apesar de alguns prosseguirem nos estudos para obter (ou ao menos tentar) o mestrado. Havia bastante bebedeira, e, claro, havia festas, mas na grande escala das festas de faculdade, Moore ficava um pouco acima de medíocre. Produziu políticos, mas eram só peixes pequenos, mesmo quando se tratava de corrupção e falcatruas. Em 1978, um ex-estudante da Moore foi eleito para a Câmara dos Deputados americana, mas teve um ataque cardíaco e morreu depois de servir por apenas quatro meses. O substituto dele era formado em Baylor.
As únicas marcas de excepcionalidade da universidade tiveram a ver com o time de futebol americano e com o time de basquete feminino da Divisão Três. O time de futebol americano (os Suricatos da Moore) era um dos piores dos Estados Unidos e ganhara apenas sete jogos nos últimos dez anos. Estavam sempre falando em desfazer o time. O treinador do momento era um viciado em drogas que gostava de dizer para as pessoas que viu O lutador doze vezes e que nunca ficava sem chorar quando Mickey Rourke contava para a filha que mal conhecia que não passava de um pedaço de carne destruído.
Mas as mulheres do time de basquete eram excepcionais de um jeito bom, principalmente considerando que a maioria das jogadoras não tinha mais do que um metro e setenta e estava se preparando para empregos como gerentes de marketing, compradoras de atacado ou (se tivessem sorte) assistentes pessoais de homens poderosos. As Lady Suricatos ganharam oito títulos nos últimos dez anos. A treinadora era a ex-namorada de Wesley, ex de um mês antes. Ellen Silverman era a fonte da raiva que o fez comprar um Kindle. Bem… Ellen e o garoto Henderson da aula de Introdução à Ficção Moderna Americana.
Don Allman também dizia que os docentes da Moore eram medíocres. Não péssimos, como o time de futebol americano (isso pelo menos teria sido interessante), mas definitivamente medíocres.
— E você e eu? — perguntou Wesley. Eles estavam no escritório que dividiam. Se um aluno entrava para conversar, o professor que não estava sendo procurado saía. Durante boa parte dos semestres de outono e de primavera, isso não era um problema, pois os alunos só queriam conversar pouco antes das provas finais. Mesmo nessa época, só os veteranos suplicantes por nota e os alunos que sempre puxavam saco (desde o ensino fundamental) apareciam. Don Allman dizia que às vezes fantasiava com uma aluna gostosa usando uma camiseta que dizia DOU PRA VOCÊ SE TIRAR A, mas isso nunca aconteceu.
— Nós? — respondeu Don. — Meu Deus, olhe pra gente, cara.
— Fale por você — retrucou Wesley. — Vou escrever um romance.
Mas só falar sobre isso já o deixava deprimido. Quase tudo o deprimia desde que Ellen o abandonou. Quando não estava deprimido, sentia raiva.
— Sim! E o presidente Obama vai me designar o novo poeta laureado! — exclamou Don Allman. Em seguida, apontou para uma coisa na mesa amontoada de Wesley. O Kindle estava em cima de American Dreams, o livro-texto. Wesley usava na aula de introdução à literatura americana. — O que você está achando desse merdinha?
— Bom — disse Wesley.
— Algum dia vai substituir os livros?
— Nunca.
Mas Wesley estava começando a duvidar.
— Achei que só existia o branco — disse Don Allman.
Wesley olhou para Don com a mesma arrogância com que olharam para ele no encontro do departamento em que seu Kindle fez a primeira aparição pública.
— Nada existe só na cor branca — disse ele. — Estamos nos Estados Unidos.
Don Allman pensou a respeito e disse:
— Soube que você e Ellen terminaram.
Wesley suspirou.
Ellen era sua outra amiga, e amiga com benefícios, até quatro semanas antes. Ela não era do departamento de inglês, claro, mas a ideia de ir para a cama com alguém do departamento de inglês, até mesmo Suzanne Montanaro, que era vagamente apresentável, o fazia estremecer. Ellen tinha um metro e cinquenta e nove (e olhos azuis!), era magra e tinha cabelo preto curto e ondulado que a fazia parecer uma elfa. Tinha um corpo explosivo e beijava como uma deusa. (Wesley nunca tinha beijado uma deusa, mas podia imaginar.) E a energia dela não diminuía quando eles estavam na cama.
Uma vez, sem ar, ele se deitou e disse:
— Eu nunca vou me equiparar a você como amante.
— Se ficar se subestimando assim, não vai ser meu amante por muito tempo. Você é bom, Wes.
Mas ele achava que não era. Achava que era só meio… medíocre.
Entretanto, não foi a habilidade sexual não muito atlética dele que acabou o relacionamento. Não foi o fato de Ellen ser vegana e comer peru de tofu no Dia de Ação de Graças. Não foi o fato de ela às vezes se deitar na cama depois do sexo e ficar falando sobre bloqueios e tabelinhas e a incapacidade de Shawna Deeson de aprender uma coisa que Ellen chamava de “velho portão de jardim”.
Na verdade, esses monólogos às vezes faziam Wesley cair no sono mais profundo, doce e restaurador. Ele achava que era a calma na voz dela, tão diferente dos gritos profanos de encorajamento que soltava quando eles estavam fazendo amor. Os gritos de amor eram sinistramente parecidos com os que ela dava durante os jogos, correndo de um lado para outro pela lateral da quadra como uma lebre, encorajando suas meninas: “Passem a bola!”, dizia. E às vezes: “Deem tudo de si!”. Wesley até ouvia um dos gritos habituais da lateral da quadra, “Enfie no buraco”, no quarto de tempos em tempos.
Eles eram um belo par, ao menos a curto prazo: ela era ferro em brasa, saída da forja, e ele, no apartamento cheio de livros, era a água na qual ela esfriava.
Os livros foram o problema. Isso e o fato de que ele surtou e a chamou de escrota iliterata. Ele nunca tinha chamado uma mulher de uma coisa assim na vida, mas ela arrancou uma raiva dele que Wesley nunca desconfiou que sentisse. Podia ser um professor medíocre, como Don Allman sugeriu, e o romance que existia dentro dele poderia ficar lá dentro para sempre (como um dente do siso que nunca saía, ao menos evitando a possibilidade de apodrecimento, infecção e um processo dentário caro, além de doloroso), mas ele amava os livros. Os livros eram seu calcanhar de aquiles.
Ellen tinha chegado furiosa, o que era normal, mas também extremamente aborrecida, um estado que ele não identificou porque nunca a tinha visto assim. Além do mais, ele estava relendo Deliverance, de James Dickey, se deleitando com a perfeição com que Dickey domou sua sensibilidade poética, ao menos dessa vez, e transformou-a em narrativa, e tinha chegado às passagens de encerramento, quando os infelizes canoístas estavam tentando encobrir o que fizeram e o que foi feito com eles. Ele não fazia ideia de que Ellen tinha sido obrigada a cortar Shawna Deeson do time, nem que as duas tiveram uma briga aos berros no vestiário, na frente do time inteiro (e do time masculino de basquete, que estava esperando sua vez de treinar suas jogadas medíocres), nem que Shawna Deeson tinha saído do prédio e jogado uma pedra enorme no para-brisa do Volvo de Ellen, um gesto que sem dúvida a faria ser suspensa. Ele não fazia ideia de que Ellen agora estava se culpando amargamente porque “devia ter sido a adulta da discussão”.
Ele ouviu essa parte, “eu devia ter sido a adulta da discussão”, e disse “Aham” pela quinta ou sexta vez, o que foi demais para Ellen Silverman. Ela arrancou Deliverance das mãos de Wesley, jogou o livro do outro lado da sala e disse as palavras que o assombrariam pelo solitário mês seguinte:
— Por que você não lê no computador, como todo mundo?
— Ela disse mesmo isso? — perguntou Don Allman, um comentário que despertou Wesley de um estado de transe. Ele percebeu que tinha contado a história toda para o colega de escritório. Não pretendia, mas foi o que fez. Não havia como voltar agora.
— Disse. E eu falei: “Era uma primeira edição que ganhei do meu pai, sua escrota iliterata”.
Don Allman ficou sem palavras. Só conseguiu encará-lo.
— Ela foi embora do apartamento — disse Wesley, infeliz. — Eu não a vi nem falei com ela desde então.
— Você não ligou para pedir desculpas?
Wesley tinha tentado fazer isso, mas só caía na caixa postal. Pensou em ir até a casa que ela alugava no terreno da faculdade, mas achou que Ellen podia enfiar um garfo na cara dele… ou em alguma outra parte de sua anatomia. E ele não considerava o que aconteceu totalmente sua culpa. Ela não lhe deu nenhuma chance. Além do mais… ela era iliterata, ou algo perto disso. Disse para ele na cama uma vez que o único livro que leu por prazer desde que foi para a Moore foi Reach for the Summit: The Definite Dozen System for Succeeding at Whatever You Do, da treinadora do Tennessee Lady Vols, Pat Summit. Ela via TV (quase só o canal de esportes), e quando queria se aprofundar em alguma notícia, entrava no The Drudge Report. Ela não era iliterata em computadores. Elogiava a rede wi-fi da Moore (que era superlativa, e não medíocre) e nunca ia a lugar nenhum sem o laptop. Na frente da bolsa, havia uma foto de Tamika Catchings com sangue escorrendo pelo rosto do supercílio cortado e a legenda: EU JOGO COMO UMA GAROTA.
Don Allman ficou em silêncio por alguns momentos, tamborilando os dedos no peito magro. Do lado de fora, as folhas de novembro voavam pela praça central da Moore. Em seguida, disse:
— Ellen ter te dado o pé na bunda teve alguma coisa a ver com isso? — Ele indicou o novo acompanhante eletrônico de Wesley. — Teve, não teve? Você decidiu ler no computador, como o resto de nós. Para… quê? Atraí-la de volta?
— Não — respondeu Wesley, porque não queria falar a verdade: de uma forma que não entendia completamente, ele fez aquilo para se vingar dela. Ou tirar sarro dela. Ou algo parecido. — De jeito nenhum. Só estou experimentando uma nova tecnologia.
— Certo — disse Don Allman. — E eu sou Robert Frost que parou no bosque em uma porra de noite de neve.
O carro dele estava no Estacionamento A, mas Wesley decidiu andar os três quilômetros, uma coisa que costumava fazer quando queria pensar. Ele desceu a avenida Moore, passando primeiro pelas casas de fraternidade com rock e rap saindo de todas as janelas, depois pelos bares e restaurantes de entregas que serviam como sistema de sustentação de vida para todas as pequenas faculdades dos Estados Unidos. Também havia a livraria especializada em livros-texto usados e nos best-sellers do ano anterior oferecidos com cinquenta por cento de desconto. Parecia poeirenta e deprimente e vivia vazia.
Porque as pessoas estão em casa lendo nos computadores, supôs Wesley.
Folhas amareladas voavam ao redor dos pés dele. A pasta batia em um joelho. Dentro estavam seus textos, o livro que estava lendo no momento por prazer (2666, de Roberto Bolaño) e um caderno em espiral com uma bela capa marmorizada. Ganhou de presente de Ellen no aniversário.
“Para suas ideias de livros”, dissera ela.
Isso foi em julho, quando as coisas ainda estavam bem e tinham o campus praticamente só para eles. O caderno vazio tinha mais de duzentas páginas, mas só a primeira foi escrita com a caligrafia grande e clara.
No alto da página havia escrito (em letras de forma): IDEIAS PARA O ROMANCE!
Embaixo, havia: Um jovem descobre que o pai e a mãe estão tendo casos
E
Um garoto, cego desde o nascimento, é sequestrado pelo avô maluco que
E
Um adolescente se apaixona pela mãe do melhor amigo e
Embaixo disso havia uma ideia final, escrita logo depois que Ellen jogou Deliverance do outro lado da sala e saiu da vida dele.
Um professor tímido e dedicado de uma faculdade pequena e sua namorada atlética e praticamente iliterata têm uma discussão, quando
Devia ser a melhor ideia, todos os especialistas concordavam que se devia escrever sobre o que se conhecia, mas ele não podia seguir esse caminho. Conversar com Don já foi bem difícil. E, mesmo assim, a sinceridade total fugiu a ele. Como não dizer quanto a queria de volta.
Quando se aproximou do apartamento de três quartos que chamava de lar, o que Don Allman às vezes chamava de “ninho de amor”, os pensamentos de Wesley se voltaram para o garoto Henderson. O nome dele era Richard ou Robert? Wesley tinha um bloqueio com isso, não o mesmo que tinha para dar substância ao romance, mas provavelmente do mesmo tipo. Ele achava que todos os bloqueios assim eram basicamente de natureza histérica, como se o cérebro detectasse (ou pensasse detectar) alguma fera interior horrível e a trancasse em uma cela com porta de aço. Dava para ouvi-la se debatendo e pulando lá dentro como um guaxinim agressivo que morderia se alguém se aproximasse, mas não dava para vê-la.
O garoto Henderson era do time de futebol americano, na posição de noseback ou point-guard ou qualquer coisa parecida, e apesar de ser tão ruim no campo quanto qualquer outro jogador, era um bom garoto e um bom aluno. Wesley gostava dele. Mas mesmo assim estava a ponto de arrancar a cabeça do menino quando o viu na sala com o que supôs que fosse um palmtop ou um celular moderninho. Isso foi logo depois que Ellen o deixou. Nos primeiros dias do rompimento, Wesley costumava se ver acordado às três da manhã, afogando as mágoas em um texto literário reconfortante da estante: normalmente, seus velhos amigos Jack Aubrey e Stephen Maturin, com as aventuras recontadas por Patrick O’Brian. E nem isso o impedia de lembrar o estrondo da porta batendo quando Ellen saiu de sua vida, provavelmente de vez.
Então, Wesley estava de mau humor e mais do que pronto para discutir quando se aproximou de Henderson e disse:
— Guarde isso. É uma aula de literatura, não uma sala de bate-papo on-line.
O garoto Henderson olhou para ele e abriu um sorriso doce. Não melhorou o péssimo humor de Wesley, mas dissolveu a raiva. Principalmente porque ele não era um homem raivoso por natureza. Ele achava que era depressivo por natureza, talvez até distímico. Não desconfiou sempre que Ellen Silverman fosse boa demais para ele? Não soube no fundo do coração que a porta batendo o estava esperando desde o começo, quando ele passou a noite conversando com ela em uma festa chata do corpo docente? Ellen jogava como uma garota; ele jogava como um banana. Não conseguia nem ficar com raiva de um estudante que estava mexendo no celular (ou Nintendo, ou o que quer que fosse) durante a aula.
— É o trabalho, sr. Smith — disse o garoto Henderson (na testa dele havia um hematoma roxo enorme do último jogo com o uniforme azul dos Suricatos). — É “Paul’s Case”. Olhe.
O garoto ligou o aparelho para que Wesley pudesse ver. Era um painel branco, retangular, com menos de um centímetro de grossura. No alto estava escrito amazon-kindle e o logotipo de sorriso que Wesley conhecia bem; ele não era totalmente iliterato de computadores, e tinha comprado livros pela Amazon várias vezes (apesar de normalmente tentar a livraria da cidade primeiro, em parte por pena; até o gato que passava boa parte da vida cochilando na vitrine de lá parecia mal das pernas).
O interessante no aparelho do garoto não era o logo no alto nem o tecladinho embaixo. Ele era quase todo tela, e nessa tela não havia um joguinho onde homens e mulheres com corpos sarados matavam zumbis nas ruínas de Nova York, mas uma página da história de Willa Cather sobre o garoto pobre com ilusões destrutivas.
Wesley esticou a mão para pegar e fez uma pausa.
— Posso?
— Vá em frente — disse o garoto Henderson, Richard ou Robert. — É bem legal. Dá para fazer download de livros da nuvem, e dá para deixar a fonte do tamanho que você quiser. Além do mais, os livros são mais baratos porque não tem o custo do papel nem da encadernação.
Isso gerou um arrepio em Wesley. Ficou ciente de que a maioria da turma de introdução à literatura americana estava olhando para ele. Achava que era difícil para eles decidirem se o professor, como uma pessoa de trinta e cinco anos, era das antigas (como o dr. Wence, que parecia um crocodilo de terno de três peças) ou moderno (como Suzanne Montanaro, que gostava de tocar “Girlfriend”, de Avril Lavigne, na aula de introdução ao teatro moderno). Wesley achava que sua reação ao Kindle de Henderson os ajudaria com isso.
— Sr. Henderson — disse ele —, sempre vão existir livros. O que quer dizer que sempre vão existir papel e encadernação. Livros são objetos reais. Livros são amigos.
— É, mas… — respondeu Henderson, com o sorriso doce agora ficando meio malicioso.
— Mas?
— Eles também são ideias e emoções. O senhor mesmo disse isso na nossa primeira aula.
— Bem — disse Wesley —, você me pegou. Mas livros não são apenas ideias. Livros têm cheiro, por exemplo. Um cheiro que fica melhor, mais nostálgico, conforme os anos passam. Este seu aparelho tem cheiro?
— Não — respondeu Henderson. — Não mesmo. Mas quando você vira as páginas… aqui, com este botão… elas meio que flutuam, como em um livro de verdade, e dá para ir para qualquer página que quiser, e, quando fica suspenso, ele mostra imagens de escritores famosos e economiza bateria e…
— É um computador — disse Wesley. — Você está lendo em um computador.
O garoto Henderson pegou o Kindle de volta.
— Ainda é “Paul’s Case”.
— Nunca ouviu falar do Kindle, sr. Smith? — perguntou Josie Quinn. O tom era de uma antropóloga gentil perguntando a um integrante da tribo kombai da Papua-Nova Guiné se ele tinha ouvido falar de fogões elétricos e sapatos plataforma.
— Não — respondeu ele, não por ser verdade (ele tinha visto uma coisa chamada “Dispositivos Kindle” quando comprava livros pela Amazon na internet), mas porque, de modo geral, achava que preferia ser visto por eles como das antigas. Ser moderno era meio… medíocre.
— O senhor devia comprar um — sugeriu o garoto Henderson, e quando Wesley respondeu, sem nem pensar, “Quem sabe…”, a turma começou a aplaudir espontaneamente. Pela primeira vez desde a partida de Ellen, Wesley se sentiu levemente animado. Porque eles queriam que ele comprasse um aparelho de leitura de livros, mas também porque os aplausos sugeriam que o viam como das antigas. Mas que ainda podia aprender.
Ele não considerou seriamente comprar um Kindle (se era das antigas, os livros eram definitivamente o caminho) até algumas semanas se passarem. Um dia, a caminho de casa depois das aulas, ele imaginou Ellen o vendo com o Kindle, andando pela praça e batendo com o dedo no botão de virar página.
O que você está fazendo?, perguntaria ela. Falando com ele, enfim.
Estou lendo no computador, ele diria. Assim como todo mundo.
Cruel!
Mas, como o garoto Henderson poderia dizer, isso era uma coisa ruim? Ocorreu a ele que o rancor era um tipo de metadona para amantes, e que era melhor do que passar por crise de abstinência.
Quando chegou em casa, ligou seu desktop Dell (ele não tinha laptop e sentia orgulho disso) e entrou no site da Amazon. Esperava que o aparelho custasse uns quatrocentos dólares, talvez mais, se houvesse um modelo Cadillac, e ficou surpreso em descobrir que era consideravelmente mais barato do que imaginava. Em seguida, entrou na loja de E-books Kindle (que ele vinha ignorando com tanto sucesso) e descobriu que o garoto Henderson estava certo: os preços eram ridiculamente baixos. E livros em capa dura (capa o quê? ha-ha) tinham preço abaixo da maioria dos livros em brochura que ele tinha comprado recentemente. Considerando quanto gastava em livros, o Kindle talvez se pagasse. Quanto à reação dos colegas, todas aquelas sobrancelhas erguidas, Wesley descobriu que sentia prazer com a perspectiva. O que levou a um insight interessante sobre a natureza humana, ou pelo menos a natureza humana acadêmica: era preferível ser visto pelos alunos como das antigas, mas pelos colegas como moderno.
Estou experimentando novas tecnologias, ele se imaginou dizendo.
Ele gostou de como soava. Era totalmente moderno.
E claro que gostava de pensar na reação de Ellen. Ele tinha parado de deixar mensagens no celular dela e tinha começado a evitar certos lugares (o Pit Stop, o Harry’s Pizza) onde podia esbarrar com ela, mas isso podia mudar. Obviamente, estou lendo no computador, assim como todo mundo era uma frase boa demais para desperdiçar.
Ah, isso não é nada, ele repreendeu a si mesmo enquanto estava sentado em frente ao computador, olhando a foto do Kindle. É um rancor tão pequeno que não envenenaria nem um gatinho recém-nascido.
Verdade! Mas, se fosse o único rancor do qual ele fosse capaz, por que não se permitir?
Assim, clicou no retângulo que dizia adicionar ao carrinho, e o aparelho chegou um dia depois, em uma caixa com o logotipo do sorriso e as palavras ENTREGA EXPRESSA. Wesley não escolheu a tal entrega expressa, e protestaria se a cobrança aparecesse no extrato do MasterCard, mas abriu a nova aquisição com grande prazer, bem parecido com o prazer que sentia quando abria uma caixa de livros, mas mais intenso. Porque havia aquela sensação de mergulhar no desconhecido, ele achava. Não que esperasse que o Kindle substituísse os livros, nem que fosse mais do que uma novidade, na verdade; um objeto de atenção por algumas semanas ou meses que mais tarde ficaria esquecido e pegando poeira ao lado do cubo mágico na prateleira de tralhas da estante da sala.
Não achou estranho que, enquanto o Kindle do garoto Henderson era branco, o dele fosse cor-de-rosa.
Não a princípio.
II – FUNÇÕES UR
Quando Wesley chegou ao apartamento depois da conversa em tom confessional com Don Allman, a luz da secretária eletrônica estava piscando. Duas mensagens. Ele apertou o botão para ouvi-las, esperando escutar a mãe reclamando da artrite e fazendo observações incisivas sobre o fato de que os filhos dos outros ligavam para a mãe mais de duas vezes por mês. Depois disso, viria uma ligação automática do Echo da Moore, lembrando-o pela décima segunda vez que sua assinatura tinha vencido. Mas não era a mãe nem o jornal. Quando ouviu a voz de Ellen, ele parou no meio do ato de pegar uma cerveja e escutou, inclinado e com a mão esticada dentro do brilho gelado da geladeira.
“Oi, Wes”, disse ela, parecendo insegura, de uma forma nada característica. Houve uma longa pausa, longa o bastante para Wesley se perguntar se ia ser só isso. Ao fundo, ele ouviu gritos e bolas quicando. Ela estava na quadra quando deixou a mensagem, pelo menos. “Andei pensando sobre nós dois… Que talvez devêssemos tentar de novo. Estou com saudades.” E então, como se o tivesse visto ir correndo para a porta, Ellen continuou: “Mas ainda não. Preciso pensar mais um pouco sobre… o que você falou.” Uma pausa. “Eu errei ao jogar seu livro longe daquele jeito, mas estava chateada.” Mais uma pausa, quase tão longa quanto a primeira. “O torneio de pré-temporada em Lexington vai começar este fim de semana. Você sabe, o que chamam de Bluegrass. É importante. Talvez, quando eu voltar, a gente devesse conversar. Não me ligue antes disso, porque preciso me concentrar nas garotas. A defesa está terrível, e só uma das garotas consegue jogar a bola da linha de três pontos, e… Não sei, acho que ligar pra você foi um grande erro.”
— Não foi — disse ele para a secretária eletrônica. Seu coração estava disparado. Ele ainda estava inclinado na direção da geladeira aberta, sentindo o bafo frio atingindo seu rosto, que parecia quente demais. — Acredite, não foi.
“Eu almocei com Suzanne Montanaro outro dia, e ela disse que viu você carregando um daqueles aparelhinhos eletrônicos de leitura por aí. Para mim, pareceu… sei lá, um sinal de que devíamos tentar de novo.” Ela riu, depois gritou tão alto que Wesley deu um pulo. “Corram atrás da bola! Ou vocês correm ou ficam sentadas!” E depois: “Desculpe. Tenho que ir. Não me ligue. Eu vou ligar para você. De uma forma ou de outra. Depois de Bluegrass. Desculpe por estar fugindo das suas ligações, mas… você me magoou, Wes. Os treinadores também têm sentimentos, sabe? Eu…”.
Um bipe a interrompeu. O tempo alocado para a mensagem acabou. Wesley falou a palavra que os editores de Norman Mailer não deixaram que ele usasse em Os nus e os mortos.
Então, a segunda mensagem começou, e ela voltou.
“Acho que professores de inglês também têm sentimentos. Suzanne diz que nós não combinamos, que temos interesses muito diferentes, mas… talvez haja um meio-termo. Eu… eu preciso pensar nisso. Não me ligue. Não estou pronta. Tchau.”
Wesley pegou a cerveja. Estava sorrindo. Em seguida, pensou no rancor que vivia em seu coração havia um mês e parou. Foi até o calendário na parede e escreveu TORNEIO DE PRÉ-TEMPORADA em cima do sábado e do domingo. Fez uma pausa e traçou uma linha nos dias da semana seguinte, uma linha na qual escreveu ELLEN???
Com isso feito, ele se sentou na poltrona favorita, tomou a cerveja e tentou ler 2666. Era um livro maluco, mas interessante.
Ele se perguntou se estava disponível na loja de e-books do Kindle.
Naquela noite, depois de repetir as mensagens de Ellen pela terceira vez, Wesley ligou o Dell e foi até o site do departamento atlético para verificar detalhes relacionados ao Torneio de Pré-Temporada Bluegrass. Ele sabia que seria um erro aparecer lá, e não tinha intenção nenhuma de fazer isso, mas queria saber com quem as Suricatos iam jogar e quando Ellen voltaria.
No fim das contas, eram oito times, sete da segunda divisão e só um da terceira: as Lady Suricatos da Moore. Wesley sentiu orgulho por Ellen quando viu isso, e ficou novamente com vergonha do seu rancor… sobre o qual (para a sorte dele!) ela não sabia. Ellen parecia achar que ele tinha comprado o Kindle como uma forma de mandar um recado: Talvez você esteja certa, talvez eu possa mudar. Talvez nós dois possamos. Ele achava que, se as coisas fossem bem, acabaria se convencendo de que fora por isso mesmo.
No site, ele viu que o time partiria para Lexington de ônibus ao meio-dia da sexta-feira. Elas treinariam na Rupp Arena naquela noite e jogariam contra as Buldogues de Truman State, Indiana, na manhã de sábado. Como o torneio era de eliminação dupla, elas só voltariam para casa na noite de domingo, independentemente do resultado. O que queria dizer que ele não teria notícias de Ellen até a segunda seguinte, no mínimo.
Seria uma longa semana.
— E até lá — disse para seu computador (um bom ouvinte!) — ela pode decidir que não quer mais tentar. Tenho que estar preparado para isso.
Bem, ele podia tentar. E também podia ligar para aquela vaca da Suzanne Montanaro e dizer a ela em termos bem precisos para parar de fazer campanha contra ele. Por que ela faria isso? Era uma colega, caramba!
Só que, se ele fizesse isso, Suzanne talvez fosse direto contar para a amiga (amiga? Quem podia imaginar? Quem podia imaginar?) Ellen. Talvez fosse melhor deixar esse aspecto de fora. Apesar de o rancor não ter sumido totalmente do coração dele, ao que parecia. Agora, estava direcionado à sra. Montanaro.
— Não importa — disse ele para o computador. — George Herbert estava errado. Viver bem não é a melhor vingança; amar bem que é.
Ele ia desligar o computador quando se lembrou de uma coisa que Don Allman dissera sobre o Kindle: Achei que só existia o branco. O do garoto Henderson era branco, mas, como era o ditado? Uma andorinha só não faz verão. Depois de algumas respostas falsas, o Google (cheio de informações, mas essencialmente burro como uma porta) o levou para os sites de fãs do Kindle. Ele encontrou um chamado Kindle Kandle. No alto havia uma foto bizarra de uma mulher de roupa Quaker lendo o Kindle à luz de velas. Lá, ele leu várias postagens, a maioria reclamações, dizendo que o Kindle só existia em uma cor, que um blogueiro chamou de “branco simples com tendência a manchas”. Embaixo havia uma resposta sugerindo que, se o reclamante insistia em ler com os dedos sujos, devia comprar um estojo para o Kindle. “Da cor que você quiser”, acrescentou ela. “Cresça e mostre um pouco de criatividade!”
Wesley desligou o computador, entrou na cozinha, pegou outra cerveja e tirou o Kindle da pasta. Seu Kindle cor-de-rosa. Exceto pela cor, era idêntico aos do site Kindle Kandle.
— Kindle Kandle, blá-blá-blá — disse ele. — Deve ser algum defeito no plástico.
Talvez, mas por que chegou por entrega expressa se ele não tinha especificado isso? Porque alguém na fábrica do Kindle queria se livrar do mutante cor-de-rosa o mais rápido possível? Era ridículo. Eles simplesmente jogariam fora. Mais uma vítima do controle de qualidade.
Dava para entrar na internet com um Kindle? Ele não sabia, e lembrou que havia outra coisa esquisita no dele: não veio manual de instruções. Wesley pensou em ligar o computador e voltar ao Kindle Kandle para procurar a pergunta sobre a internet, depois deixou a ideia de lado. Só estava de brincadeira, afinal, começando a gastar as horas entre aquele momento e a próxima segunda, quando talvez recebesse notícias de Ellen novamente.
— Sinto sua falta, garota — disse ele em voz alta, e ficou surpreso ao ouvi-la oscilar. Sentia falta dela. Não tinha percebido quanto até ouvir a voz de Ellen. Estava absorto demais no próprio ego ferido. Sem mencionar o rancorzinho suado.
A tela se acendeu quando Wesley ligou o Kindle. Listou os livros que tinha comprado até então: Foi apenas um sonho, de Richard Yates, e O velho e o mar, de Hemingway. O aparelho veio com o The New Oxford American Dictionary pré-instalado. Só era preciso começar a digitar a palavra, e o Kindle a encontrava. Ele pensou que era o TiVo para amantes de livros.
Mas dava para entrar na internet?
Ele apertou o botão do menu e viu uma série de opções. A primeira (claro) o convidava a COMPRAR NA LOJA KINDLE. Mas uma das últimas opções da lista era um item chamado EXPERIMENTAL. Parecia interessante. Ele levou o cursor até lá, clicou e leu o seguinte no alto da tela: Estamos trabalhando nesses protótipos experimentais. Você os acha úteis?
— Ah, não sei — disse Wesley. — O que são?
O primeiro item do protótipo era REDE BÁSICA. Então, sim para a pergunta da internet. Aparentemente, o Kindle era bem mais computadorizado do que parecia a princípio. Ele olhou para as outras escolhas experimentais: download de música (um grande viva) e leitura em voz alta (o que poderia ser útil se ele fosse cego). Ele apertou o botão de virar página para ver se havia mais algum item. Havia um: Funções Ur.
Mas o que podia ser aquilo? Ur, até onde ele sabia, só tinha dois significados: uma cidade do Velho Testamento e um prefixo em inglês que significava “primitivo” ou “simples”. A tela não ajudou; apesar de haver explicações para outras funções experimentais, não havia nenhuma para essa. Bem, só havia uma forma de descobrir. Ele selecionou Funções Ur e clicou.
Um novo menu apareceu. Havia três itens: Livros Ur, Arquivos de Notícias Ur e Ur Local (em construção).
— Hã… — disse Wesley. — Que porra é essa?
Ele selecionou Livros Ur, levou o dedo até o botão para clicar e hesitou. De repente, sua pele ficou fria, como quando ele hesitou ao ouvir o som da voz gravada de Ellen quando estava pegando uma cerveja na geladeira. Mais tarde, ele pensaria: Era meu próprio ur. Uma coisa simples e primitiva dentro de mim, me dizendo para não apertar aquele botão.
Mas ele não era um homem moderno? Que agora lia no computador?
Ele era. Ele era. Então, Wesley apertou.
A tela ficou branca, e então BEM-VINDO AOS LIVROS UR ! apareceu no alto… em vermelho! O pessoal do Kindle Kandle estava atrasado nas atualizações, ao que parecia; o Kindle tinha kor. Embaixo da mensagem de boas-vindas havia uma imagem; não de Charles Dickens nem de Eudora Welty, mas de uma torre negra e alta. Havia algo de ameaçador nela. Embaixo da imagem, também em vermelho, havia um convite para Selecionar autor (sua escolha pode não estar disponível). E, embaixo disso, um cursor piscando.
— Mas que coisa é essa?— disse Wesley para a sala vazia. Ele umedeceu os lábios, que ficaram secos de repente, e digitou ERNEST HEMINGWAY.
A tela ficou branca. A função, fosse ela qual fosse, não parecia estar funcionando. Depois de uns dez segundos, Wesley esticou a mão para o Kindle com a intenção de desligá-lo. Antes que pudesse apertar o botão, a tela finalmente ofereceu uma nova mensagem.
10.438.721 URS PESQUISADAS
17.894 TÍTULOS DE ERNEST HEMINGWAY DETECTADOS
SE VOCÊ NÃO SOUBER O TÍTULO, SELECIONE O UR OU VOLTE AO MENU DE
FUNÇÕES UR
AS SELEÇÕES DO SEU UR ATUAL NÃO SERÃO EXIBIDAS
— Mas o que é isso, em nome de Deus? — perguntou Wesley à sala vazia. Embaixo da mensagem, o cursor piscou. Acima, com letras pequenas (pretas, não vermelhas), havia só mais uma instrução: APENAS NÚMEROS. SEM VÍRGULAS E TRAVESSÕES. SEU UR ATUAL: 117586.
Wesley sentiu uma urgência forte (uma urgência ur!) de desligar o Kindle cor-de-rosa e largá-lo na gaveta de talheres. Ou colocá-lo no freezer junto com o sorvete e a comida congelada Stouffer’s, o que talvez fosse melhor. Mas o que fez foi usar o tecladinho para escrever sua data de nascimento. 1971974 funcionaria tão bem quanto qualquer outro número, na opinião dele. Hesitou de novo, depois usou o indicador para apertar o botão. Quando a tela se apagou desta vez, ele teve que lutar contra um impulso de se levantar da cadeira da cozinha e se afastar da mesa. Uma certeza louca tinha surgido em sua mente: uma mão (ou talvez uma garra) sairia da tela cinzenta do Kindle, o seguraria pelo pescoço e o puxaria lá para dentro. Ele existiria para sempre em um ambiente cinza computadorizado, flutuando ao redor dos microchips e entre os muitos mundos de Ur.
Mas a tela exibiu texto novamente, letras prosaicas e comuns, e o medo supersticioso evaporou. Ele passou os olhos pela tela do Kindle (do tamanho de um livro de bolso) com ansiedade, apesar de não ter ideia do porquê.
No alto estava o nome completo do autor, Ernest Miller Hemingway, e suas datas de nascimento e morte. Em seguida, uma longa lista de trabalhos publicados… mas estava errada. O sol também se levanta estava lá… Por quem os sinos dobram… os contos… O velho e o mar, claro… mas também havia três ou quatro títulos que Wesley não conhecia, e exceto por ensaios menores, ele achava que tinha lido toda a produção considerável de Hemingway. Além disso…
Ele examinou as datas de novo e viu que a de morte estava errada. Hemingway morreu no dia 2 de julho de 1961, de tiro de revólver autoinfligido. De acordo com a tela, ele foi para a grande biblioteca do céu no dia 19 de agosto de 1964.
— A data de nascimento também está errada — murmurou Wesley. Ele estava passando a mão pelo cabelo, dando novas formas exóticas a ele. — Tenho quase certeza de que está. Devia ser 1899, não 1897.
Ele passou o cursor por um dos títulos que não conhecia: Os cães de Cortland. Isso era a ideia de piada de algum programador lunático, tinha que ser, mas Os cães de Cortland ao menos soava como um título de Hemingway. Wesley o selecionou.
A tela ficou vazia e depois exibiu a capa de um livro. A imagem em preto e branco exibia cachorros latindo ao redor de um espantalho. Ao fundo, com os ombros caídos em uma postura de cansaço ou de derrota (ou as duas coisas), havia um caçador segurando uma arma. O Cortland do título, provavelmente.
Nos bosques do norte de Michigan, James Cortland precisa lidar com a infidelidade da esposa e com a própria mortalidade. Quando três criminosos perigosos aparecem na velha fazenda de Cortland, o herói mais famoso de “Papa” tem que enfrentar uma escolha terrível. Rico em eventos e simbolismos, o último romance de Ernest Hemingway ganhou o Pulitzer pouco antes de sua morte. U$ 7,50.
Embaixo da capa, o Kindle perguntava: COMPRAR ESTE LIVRO? S N.
— Que palhaçada… — sussurrou Wesley enquanto escolhia o S e apertava o botão.
A tela ficou branca de novo, depois exibiu uma nova mensagem. Os livros Ur não podem ser compartilhados, de acordo com todas as Leis do Paradoxo aplicáveis. Você concorda? S N.
Sorrindo, como adequado a alguém que percebeu a piada, mas estava dando corda mesmo assim, Wesley selecionou o S. A tela apresentou novas informações:
OBRIGADO, WESLEY!
SEU LIVRO UR FOI ENCOMENDADO
SUA CONTA SERÁ DEBITADA EM U$ 7,50
LEMBRE-SE DE QUE OS LIVROS UR DEMORAM MAIS TEMPO PARA REALIZAR
O DOWNLOAD
ESPERE DE 2 A 4 MIN
Wesley voltou para a tela principal do Kindle. Havia os mesmos itens lá, Revolutionary Road, O velho e o mar, o New Oxford American, e ele tinha certeza de que isso não mudaria. Não existia nenhum livro de Hemingway chamado Os cães de Cortland, nem neste mundo nem em nenhum outro. Mesmo assim, se levantou e foi até o telefone. Foi atendido no primeiro toque.
— Don Allman — disse seu colega de escritório. — E, sim, eu nasci mesmo um homem errante. — Não havia sons de quadra ao fundo agora; só os gritos bárbaros dos três filhos de Don, que pareciam estar desmontando a residência Allman tábua a tábua.
— Don, é Wesley.
— Ah, Wesley! Eu não vejo você há… nossa, umas três horas! — Do fundo do hospício onde Wesley supunha que Don morasse com a família veio algo que soou como o grito de alguém à beira da morte. Don Allman não se abalou. — Jason, pare de jogar coisas no seu irmão. Seja um troll bonzinho e vá assistir Bob Esponja. — E, para Wesley: — O que posso fazer por você, Wes? Conselhos sobre a vida amorosa? Dicas para melhorar a performance e a energia sexual? Um título para seu livro em desenvolvimento?
— Eu não tenho livro em desenvolvimento e você sabe muito bem disso — cortou Wesley. — Mas é sobre livros que quero falar. Você conhece as obras de Hemingway, certo?
— Adoro quando você fala sacanagem.
— Conhece ou não conhece?
— É claro. Não tão bem quanto você, espero. Você é o homem da literatura americana do século XXI, afinal; eu fico mais com os dias em que os escritores botavam perucas, usavam rapé e diziam coisas pitorescas como alhures. O que tem em mente?
— Até onde você saiba, Hemingway escreveu alguma obra de ficção sobre cachorros?
Don pensou enquanto outra criança pequena começava a gritar.
— Wes, você está bem? Parece meio…
— Só responda a pergunta. Ele escreveu ou não?
Selecione S ou N, pensou Wesley.
— Tá bem — disse Don. — Até onde eu saiba sem consultar meu computador de confiança, não. Mas me lembro de ele alegar uma vez que apoiadores de Batista bateram no cãozinho dele até morrer. Que tal isso como informação inútil? Quando ele estava em Cuba, sabe? Ele encarou como sinal de que ele e Mary deviam fugir para a Flórida, e eles fizeram isso mesmo… e rapidinho.
— Por acaso você não se lembra do nome do cachorro, lembra?
— Acho que sim. Eu gostaria de verificar na internet, mas acho que era Negrita. Alguma coisa assim. Um tanto racista para mim, mas o que eu sei?
— Obrigado, Don. — Seus lábios estavam dormentes. — Vejo você amanhã.
— Wes, tem certeza de que você… FRANKIE, LARGA ISSO! NÃO… — Houve um estrondo. — Merda. Acho que deu problema. Tenho que desligar, Wes. Vejo você amanhã.
— Certo.
Wesley voltou para a mesa da cozinha. Viu que uma nova seleção tinha aparecido na página de conteúdo do Kindle. Um livro (ou alguma coisa) chamado Os cães de Cortland tinha sido baixado de…