O Bazar dos Sonhos Ruins
O pequeno deus verde da agonia
— Eu sofri um acidente — disse Newsome.
Katherine MacDonald, sentada ao lado da cama e prendendo uma de quatro unidades de TENS à coxa magra de Newsome, logo abaixo da barra da bermuda que ele agora usava sempre, não olhou para cima. O rosto estava cuidadosamente vago. Ela era uma peça de mobília humana no quarto grande onde passava a maior parte das horas de trabalho, e era assim que gostava. Atrair a atenção do sr. Newsome costumava ser má ideia, como todos os outros empregados sabiam. Mas os pensamentos dela vagaram mesmo assim.
Agora, você diz que causou o acidente. Porque acha que assumir a responsabilidade faz você parecer um herói.
— Na verdade — disse Newsome —, eu causei o acidente. Não tão apertado, Kat, por favor.
Ela podia ter explicado, como fazia no começo, que o TENS perdia a eficácia se não estivesse bem apertado sobre o nervo danificado que deveria aliviar, mas tinha aprendido rápido. Ela afrouxou um pouco a tira de velcro enquanto os pensamentos disparavam.
O piloto disse que havia tempestades na área de Omaha.
— O piloto disse que havia tempestades naquela parte do mundo — continuou Newsome.
Os dois homens ouviam com atenção. Jensen já tinha ouvido tudo aquilo, claro, mas já que quem estava falando era o sexto homem mais rico não só dos Estados Unidos, mas do mundo, ouvia de novo. Três dos outros cinco homens megarricos eram sujeitos de pele morena que usavam túnicas e dirigiam Mercedes-Benz blindados em países desérticos.
Mas eu falei que era imperativo que eu chegasse àquela reunião.
— Mas eu falei que era imperativo que eu chegasse àquela reunião.
O homem sentado ao lado do assistente pessoal de Newsome era o que a interessava, de uma forma meio antropológica. O nome dele era Rideout. Era alto e magro, talvez com sessenta anos, usando calça cinza lisa e uma camisa branca abotoada até o pescoço magro, vermelho do exagero na hora de fazer a barba. Kat achava que ele decidira raspar com bastante cuidado antes de conhecer o sexto homem mais rico do mundo. Embaixo da cadeira estava o único item que ele levou para o encontro, uma lancheira preta comprida com tampa curva, feita para abrigar uma garrafa térmica. Uma lancheira de trabalhador, embora ele alegasse ser pastor. Até o momento, o sr. Rideout não tinha dito nada, mas Kat não precisava dos ouvidos para saber o que ele era. O odor de charlatão ao seu redor era ainda mais forte do que o de loção pós-barba. Em quinze anos como enfermeira especializada em pacientes com dor, ela conheceu vários desses. Pelo menos aquele não estava com nenhum cristal.
Agora conte sobre sua revelação, pensou ela enquanto carregava o banquinho até o outro lado da cama. Era de rodinha, mas Newsome não gostava do som quando ela o empurrava. Ela talvez tivesse dito a outro paciente que carregar o banco não estava em seu contrato, mas quando se recebia cinco mil por semana para o que eram essencialmente serviços de cuidados humanos, se aprendia a guardar os comentários ferinos para si. Também não dizia que esvaziar e lavar comadres não estava no seu contrato. Se bem que, ultimamente, a aceitação silenciosa estava meio fragilizada. Ela sentia acontecendo. Como o tecido de uma camisa que foi lavada e usada muitas vezes.
Newsome estava falando primariamente com o sujeito de traje de fazendeiro em visita à cidade.
— Enquanto eu estava caído na pista, na chuva, entre os destroços em chamas de uma aeronave de catorze milhões de dólares, com a maioria das roupas arrancadas do corpo, coisa que acontece quando se bate no asfalto e se rola quinze ou vinte metros, eu tive uma revelação.
Na verdade, foram duas, pensou Kat enquanto prendia um segundo aparelho TENS ao redor da outra perna magra, flácida e marcada.
— Na verdade, duas revelações — disse Newsome. — Uma foi que é muito bom estar vivo, embora eu tenha entendido, antes mesmo de a dor que é minha companheira constante nos últimos dois anos ter surgido em meio ao choque, que estava terrivelmente ferido. A segunda foi que a palavra imperativo é usada com muita facilidade pela maioria das pessoas, inclusive meu antigo eu. Só tem dois imperativos na existência humana. Um é a vida em si, o outro é a ausência de dor. Você concorda, Reverendo Rideout? — E antes que Rideout pudesse concordar (pois, sem dúvida, ele não faria nada diferente disso), Newsome exclamou com sua voz rouca e tirana de velho: — Não tão apertado, Kat! Quantas vezes tenho que repetir?
— Desculpe — murmurou ela, e afrouxou a tira.
Melissa, a empregada, elegante com uma blusa branca e calça branca de cintura alta, entrou com uma bandeja de café. Jensen aceitou uma xícara, junto com dois pacotinhos de adoçante. O cara novo, o dito reverendo no fundo do poço, só balançou a cabeça. Talvez tivesse algum tipo de café sagrado na garrafa térmica da lancheira.
Nada foi oferecido a Kat. Quando ela tomava café, era na cozinha, com o restante dos empregados. Ou na casa de veraneio… só que eles não estavam no verão. Era novembro, e a chuva açoitava as janelas.
— Devo ligar, sr. Newsome, ou o senhor prefere que eu saia agora?
Ela não queria sair. Já tinha ouvido a história completa muitas vezes: a reunião importante em Omaha, o acidente, Andrew Newsome ejetado do avião em chamas, os ossos quebrados, a coluna fraturada e o quadril deslocado, os vinte e quatro meses de sofrimento impiedoso que se seguiram. Aquilo era entediante. Mas Rideout era meio interessante. Outros charlatães viriam depois, sem dúvida, agora que todos os recursos para aliviar a dor com alguma reputação tinham se exaurido, mas Rideout era o primeiro, e Kat queria observar como o sujeito com cara de fazendeiro conseguiria separar Andy Newsome de uma quantia volumosa de dinheiro. Ou como tentaria. Newsome não fez fortuna sendo burro, mas claro que não era o mesmo homem, por mais real que sua dor fosse. Sobre esse assunto, Kat tinha as próprias opiniões, mas esse era o melhor emprego que já tivera. Pelo menos, em termos de dinheiro. E se Newsome queria continuar sofrendo, a escolha era dele, não?
— Continue, querida, pode me deixar ligado.
Ele arqueou as sobrancelhas para ela. Houve uma época em que a libertinagem podia ter sido real (Kat achava que Melissa podia ter mais informações sobre esse assunto), mas agora era só um par de sobrancelhas peludas trabalhando em uma memória muscular.
Kat prendeu os fios na unidade de controle e acionou o interruptor. Se adequadamente presas, as unidades TENS espalhariam uma corrente elétrica fraca que parecia aliviar parte da dor… embora ninguém soubesse dizer exatamente por que ou se eram integralmente um placebo. Fosse como fosse, não ajudariam Newsome em nada naquela noite. Estavam tão frouxas que foram reduzidas a massageadores caros.
— Devo…?
— Fique! — disse ele. — Fisioterapia!
O senhor ferido em batalha ordena, e eu obedeço.
Ela se inclinou para pegar o baú embaixo da cama. Estava cheio de ferramentas que muitos dos clientes antigos chamavam de “instrumentos de tortura”. Jensen e Rideout não prestaram atenção. Continuaram olhando Newsome, que podia (ou não) ter tido as revelações que mudaram suas prioridades e sua visão da vida, mas que ainda gostava de presidir a reunião.
Ele contou sobre acordar em uma gaiola de metal e rede. Havia aparatos de aço chamados fixadores externos nas duas pernas e em um braço, para imobilizar juntas que foram consertadas com “uns cem” pinos de aço (na verdade, dezessete; Kat viu os raios X). Os fixadores estavam presos nos ossos fraturados e danificados: fêmures, tíbias, fíbulas, úmero, rádio, ulna. As costas estavam envoltas em uma espécie de cota de malha que ia dos quadris até a base do pescoço. Ele falou sobre as noites insones que pareciam durar não horas, mas anos. Falou sobre as dores de cabeça latejantes. Contou que mesmo mexer os dedos dos pés provocava dor até o maxilar e sobre a agonia aguda que acometia suas pernas quando os médicos insistiam que ele as movesse, com fixadores e tudo, para não atrofiarem. Contou sobre as escaras e que engolia uivos de dor e fúria quando as enfermeiras tentavam rolá-lo de lado para serem limpas.
— Mais de doze cirurgias foram feitas nos últimos dois anos — disse ele com uma espécie de orgulho sombrio.
Na verdade, Kat sabia que tinham sido cinco cirurgias, sendo duas delas para remover os fixadores externos quando os ossos estavam devidamente cicatrizados. Contando com o procedimento para ajeitar os dedos quebrados, foram seis, mas ela não considerava procedimentos cirúrgicos que precisavam apenas de anestesia local como “cirurgia”. Se fosse esse o caso, ela própria passara por uma dezena, a maioria enquanto ouvia Muzak no consultório do dentista.
Agora vamos chegar às falsas promessas, pensou ela enquanto colocava uma almofada de gel na dobra do joelho direito de Newsome e entrelaçava as mãos nas frouxas garrafas de água quente que eram os músculos da coxa direita. É isso que vem agora.
— Os médicos me prometeram que a dor diminuiria — disse Newsome. Seus olhos estavam grudados em Rideout. — Que em seis semanas eu só precisaria de narcóticos antes e depois das sessões de fisioterapia com a Rainha da Dor aqui. Que eu estaria andando de novo no verão de 2010. No verão passado. — Ele fez uma pausa de efeito. — Reverendo Rideout, essas foram falsas promessas. Quase não tenho flexão nos joelhos, e a dor nos quadris e nas costas é indescritível. Os médicos… ah! Ah! Pare, Kat, pare!
Ela tinha levantado a perna direita dele em um ângulo de dez graus, talvez um pouco mais. Não foi nem o suficiente para colocar a almofada no lugar.
— Abaixe! Abaixe, caramba!
Kat afrouxou o aperto no joelho, e a perna voltou até a cama de hospital. Dez graus. Possivelmente, doze. Viva. Às vezes, ela conseguia chegar a quinze, e a perna esquerda, que era um pouco melhor, a vinte graus de flexão, antes de ele começar a gritar como um garotinho banana vendo uma agulha hipodérmica na mão da enfermeira da escola. Os médicos culpados de falsas promessas não foram culpados de propaganda enganosa; eles avisaram que a dor viria. Kat estava lá como observadora silenciosa durante várias dessas consultas. Eles disseram que ele se afogaria em dor antes que os tendões cruciais, encurtados pelo acidente e paralisados pelos fixadores, se esticassem e voltassem a ter flexibilidade. Ele sentiria muita dor antes de conseguir dobrar os joelhos em noventa graus novamente. O que queria dizer antes de ele poder se sentar em uma cadeira ou atrás do volante de um carro. O mesmo era verdade sobre as costas e o pescoço. A estrada até a recuperação passava pela Terra da Dor, isso era tudo.
Essas foram promessas reais que Andrew Newsome escolheu não ouvir. Era crença dele (nunca declarada abertamente, em palavras simples, mas sem dúvida uma das estrelas que o guiavam) que o sexto homem mais rico do mundo não devia ter que visitar a Terra da Dor em circunstância nenhuma, só a Costa del Sol da Recuperação Total. Culpar os médicos vinha em seguida, assim como o dia sucedia a noite. E claro que ele culpava o destino. Coisas assim não deviam acontecer a sujeitos como ele.
Melissa voltou com biscoitos em uma bandeja. Newsome balançou a mão, contorcida e cheia de cicatrizes devido ao acidente, com irritação.
— Ninguém está com humor para doces, Lissa.
Esta era outra coisa que Kat MacDonald tinha descoberto sobre as pessoas milionárias que possuíam bens além da compreensão comum: elas tinham a confiança de falar por todos os presentes.
Melissa deu a ele seu pequeno sorriso de Mona Lisa e se virou (quase uma pirueta) para sair do aposento. Saiu deslizando. Ela devia ter pelo menos quarenta e cinco anos, mas parecia mais nova. Não era sexy, nada tão vulgar. Mas havia um glamour de rainha do gelo nela que fazia Kat pensar em Ingrid Bergman. Gelada ou não, Kat achava que os homens se perguntariam como aquele cabelo castanho ficaria solto dos grampos, caindo pelas costas. Como o batom coral ficaria manchado sobre os dentes e na bochecha. Kat, que se considerava sem graça, dizia para si mesma pelo menos uma vez por dia que não sentia inveja daquele rosto liso e tranquilo. Nem daquela bunda dura em formato de coração.
Kat voltou para o outro lado da cama e se preparou para levantar a perna esquerda de Newsome até ele gritar novamente para ela parar, caramba, ela queria matá-lo, por acaso? Se você fosse qualquer outro paciente, eu contaria os fatos da vida, pensou ela. Eu mandaria você parar de procurar atalhos, porque isso não existe. Nem mesmo para o sexto homem mais rico do mundo. Eu ajudaria se você me deixasse, mas enquanto continuar procurando uma forma de comprar uma passagem para fora dessa cama, você está por sua conta.
Ela colocou a almofada embaixo do joelho dele. Segurou a pele flácida que já devia estar ficando mais rígida àquela altura. Começou a dobrar a perna. Esperou que ele gritasse para ela parar. E ela pararia. Porque cinco mil dólares por semana somavam belos duzentos e quarenta mil dólares por ano. Ele sabia que parte do que estava comprando era a cumplicidade dela no fracasso de sua recuperação? Como podia não saber?
Agora, conte para eles sobre os médicos. Genebra, Londres, Madri, Cidade do México.
— Fui a médicos em todo o mundo — contou ele para Rideout. O reverendo ainda não tinha dito nada, só ficou sentado ali com a papada vermelha no pescoço superbarbeado caindo por cima da camisa de pastor de interior, abotoada até o pescoço. Ele estava usando botas amarelas pesadas. O salto de uma estava quase tocando na lancheira preta. — Uma videoconferência seria o caminho mais fácil considerando minha condição, mas é claro que não adianta em casos como o meu. Então, fui em pessoa, apesar da dor. Nós fomos para todos os cantos, não fomos, Kat?
— Fomos mesmo — disse ela, continuando a dobrar a perna muito lentamente, a perna sobre a qual ele estaria andando agora se não fosse tão infantil no que diz respeito à dor. Um bebê mimado. De muletas, sim, mas andando. E no ano seguinte ele não precisaria mais das muletas. Só que no ano seguinte ele ainda estaria ali, naquela cama de hospital da melhor qualidade, de duzentos mil dólares. E ela ainda estaria ao lado dele. Ainda estaria recebendo seu dinheiro silenciador. Quanto seria o suficiente? Dois milhões? Era o que dizia para si mesma agora, mas tinha dito, não muito tempo antes, que meio milhão bastaria, mas desde então aumentara os objetivos. Dinheiro era uma coisa horrível assim.
— Nós vimos especialistas na Cidade do México, em Genebra, em Londres, em Roma, em Paris… onde mais, Kat?
— Em Viena — disse ela. — E em San Francisco, claro.
Newsome deu uma gargalhada debochada.
— O médico lá me disse que eu estava fabricando minha própria dor. Histeria de conversão, disse ele. Para evitar a dor da reabilitação. Mas ele era paquistanês. E uma bicha. Uma bicha paquistanesa, que tal essa combinação? — Ele deu uma gargalhada curta e olhou para Rideout. — Eu não o estou ofendendo, estou, reverendo?
Rideout moveu a cabeça de um lado para outro em um gesto negativo. Duas vezes. Bem devagar.
— Que bom, que bom. Pare, Kat, já está bom.
— Mais um pouco — insistiu ela, persuasiva.
— Pare, já disse. Não aguento mais do que isso.
Ela deixou a perna voltar para o lugar e começou a manipular o braço esquerdo dele. Isso, ele permitia. Newsome dizia para as pessoas que os dois braços se quebraram, mas não era verdade. O esquerdo só sofreu uma entorse. Ele também dizia para as pessoas que tinha sorte de não estar em uma cadeira de rodas, mas a cama de hospital cheia de apitos e mecanismos sugeria fortemente que ele não planejava usar essa sorte no futuro próximo. A cama de hospital cheia de apitos e mecanismos era a cadeira de rodas dele. Ele rodou o mundo todo com ela.
Dor neuropática. É um grande mistério. Talvez insolúvel. Os remédios não funcionam mais.
— O consenso é que estou sofrendo de dor neuropática.
E covardia.
— É um grande mistério.
E uma ótima desculpa.
— Talvez insolúvel.
Principalmente quando você nem tenta se curar.
— Os remédios não funcionam mais, e os médicos não podem me ajudar. Foi por isso que eu trouxe você aqui, reverendo Rideout. Suas referências no assunto de… er… cura… são muito fortes.
Rideout se levantou. Kat não tinha percebido quanto ele era alto. A sombra subiu pela parede ainda mais alta. Quase até o teto. Os olhos, afundados nas órbitas, observaram Newsome solenemente. Ele tinha carisma, disso não havia dúvida. Não a surpreendeu, os charlatães do mundo não podiam existir sem carisma, mas ela não tinha se dado conta do quanto ele tinha nem do quanto era forte até ficar de pé, bem mais alto que todos eles. Jensen estava inclinando o pescoço para falar com ele. Kat notou movimento pelo canto do olho. Ela olhou e viu Melissa na porta. Então agora estavam todos ali, exceto Tonya, a cozinheira.
Do lado de fora, o vento aumentou com um assovio. O vidro na janela tremeu.
— Eu não curo — disse Rideout. Ele era do Arkansas, Kat achava; era onde o Gulfstream IV novinho de Newsome tinha ido buscá-lo, pelo menos. Mas a voz não tinha sotaque. Nem entonação.
— Não? — Newsome pareceu decepcionado. Petulante. Talvez, Kat pensou, até com um pouco de medo. — Mandei investigarem, e me garantiram que, em muitos casos…
— Eu expulso.
As sobrancelhas peludas foram erguidas.
— Perdão?
Rideout foi até a cama e parou ali, com as mãos de dedos longos entrelaçadas frouxamente na altura da virilha. Os olhos fundos olhavam com seriedade para o homem na cama.
— Eu extermino a praga do corpo ferido do qual ela se alimenta, assim como um exterminador de insetos exterminaria cupins se alimentando de uma casa.
Agora, pensou Kat, eu ouvi de tudo. Mas Newsome estava fascinado. Como uma criança vendo um ilusionista em uma esquina, pensou ela.
— O senhor foi possuído.
— Sim — disse Newsome. — É essa a sensação. Principalmente à noite. As noites são… muito longas.
— Todo homem ou mulher que sofre de dor está possuído, claro, mas em algumas pessoas infelizes, e o senhor é uma delas, o problema é mais fundo. A possessão não é só uma coisa transiente, mas uma condição permanente. Que só piora. Os médicos não acreditam porque são homens da ciência. Mas o senhor acredita, não é? Porque é o senhor quem está sofrendo.
— Pode apostar — sussurrou Newsome.
Kat, sentada ao lado dele no banquinho, precisou se esforçar muito para não revirar os olhos.
— Nesses infelizes, a dor abre o caminho para um deus demônio. É pequeno, mas perigoso. E se alimenta de um tipo especial de dor, produzido apenas por um grupo específico de pessoas.
Gênio, pensou Kat, Newsome vai amar isso.
— Quando o deus encontra o caminho de entrada, a dor vira agonia. Se alimenta até você estar exaurido. Aí, deixa você de lado e segue em frente.
Kat se surpreendeu dizendo:
— Que deus seria esse? Não o deus sobre o qual o senhor prega. Esse é o deus do amor. Foi o que cresci acreditando.
Jensen estava franzindo a testa para ela e balançando a cabeça. Obviamente, esperava uma explosão do chefe… mas um sorrisinho tinha surgido no canto dos lábios de Newsome.
— O que você diz sobre isso, reverendo?
— Eu digo que existem muitos deuses. O fato de nosso Senhor, o Deus Senhor de Todos, ser o soberano, e o fato de que no Dia do Juízo Final vai destruir todos eles, não muda isso. Esses pequenos deuses foram adorados por povos antigos e modernos. Eles têm seus poderes, e nosso Deus às vezes permite que esses poderes sejam exercitados.
Como um teste, pensou Kat.
— Como teste de nossa força e fé. — Rideout se virou para Newsome e disse uma coisa que a surpreendeu. — O senhor é um homem de muita força e pouca fé.
Newsome, apesar de não estar acostumado a ouvir críticas, sorriu mesmo assim.
— Eu não tenho muita fé cristã, é verdade, mas tenho fé em mim mesmo. Também tenho fé no dinheiro. Quanto você quer?
Rideout retribuiu o sorriso, expondo dentes que eram pouco mais do que pequeninas lápides erodidas. Se já tinha ido a um dentista, foi muitas luas antes. Além do mais, ele mascava tabaco. O pai de Kat, que morreu de câncer na boca, tinha os mesmos dentes descoloridos.
— Quanto pagaria para ficar livre da sua dor, senhor?
— Dez milhões de dólares — respondeu Newsome imediatamente.
Kat ouviu Melissa ofegar.
— Mas eu não cheguei onde estou sendo otário. Se você fizer o que faz, seja expelir, exterminar, exorcizar, chame como quiser, você recebe o dinheiro. Em espécie, se não se importar de passar a noite aqui. Se falhar, não recebe nada. Além de sua primeira e única viagem de ida e volta em um jato particular. Isso não será cobrado. Afinal, eu procurei você.
— Não.
Rideout falou com moderação, de pé ao lado da cama, perto o suficiente de Kat para ela conseguir sentir o cheiro da naftalina que mantinha a calça dele livre de buracos (talvez fosse a única, a não ser que ele tivesse outra para usar no dia da pregação). Ela também sentia um cheiro forte de sabonete.
— Não? — Newsome pareceu verdadeiramente sobressaltado. — Você me diz não? — E começou a sorrir de novo. Desta vez, foi o sorriso cheio de segredos e um tanto desagradável que ele dava quando fazia seus telefonemas e negócios. — Entendi. Agora vem a pegadinha. Estou decepcionado, reverendo Rideout. Eu esperava mesmo que você estivesse à altura. — Ele se virou para Kat, fazendo com que ela recuasse um pouco. — Você, claro, acha que eu perdi a cabeça. Mas não compartilhei os relatórios dos investigadores com você, compartilhei?
— Não.
— Não tem pegadinha — disse Rideout. — Eu não faço uma expulsão há cinco anos. Seus investigadores disseram isso?
Newsome não respondeu. Estava olhando para o homem magro e alto com certo desconforto.
Jensen disse:
— É porque perdeu seus poderes? Se for o caso, por que veio?
— É o poder de Deus, senhor, não o meu, e eu não o perdi. Mas uma expulsão exige muita energia e muita força. Cinco anos atrás, sofri um ataque cardíaco pouco depois de exorcizar uma garotinha que passou por um acidente de carro horrível. Tivemos sucesso, ela e eu, mas o cardiologista que consultei em Jonesboro me disse que, se eu me exaurisse dessa forma novamente, talvez sofresse outro ataque. E que dessa vez seria fatal.
Newsome levou a mão enrugada, não sem esforço, até a lateral da boca, e falou com Kat e Melissa em um sussurro fingido.
— Acho que ele quer vinte milhões…
— O que quero, senhor, são setecentos e cinquenta mil.
Newsome apenas o encarou. Foi Melissa quem perguntou:
— Por quê?
— Sou pastor em uma igreja em Titusville. A Igreja da Fé Sagrada. Só que não tem mais igreja. Tivemos um verão seco na minha parte do mundo. Houve um incêndio iniciado por campistas bêbados. Minha igreja agora não passa de uma marca de concreto no chão e algumas vigas queimadas. Eu e meus paroquianos estamos fazendo nossos cultos em um posto de gasolina abandonado com loja de conveniência na Jonesboro Pike. Não é satisfatório nos meses de inverno, e não há casas grandes o bastante para nos abrigar. Somos muitos, mas somos pobres.
Kat ouviu com interesse. No que dizia respeito a histórias de golpistas, aquela era excelente. Tinha todas as iscas certas de solidariedade.
Jensen, que ainda tinha o corpo de um atleta universitário acompanhando a mente de um aluno de mestrado de Harvard, fez a pergunta óbvia:
— Não tinha seguro?
Rideout novamente balançou a cabeça daquela forma deliberada: esquerda, direita, direita, esquerda, meio. Ele ficou parado, bem mais alto do que a cama moderna de Newsome, como um anjo da guarda caipira.
— Nós confiamos em Deus.
— Vocês teriam ficado melhor com a Allstate — comentou Melissa.
Newsome estava sorrindo. Kat conseguia perceber, pela forma rígida como ele se portava, que sentia um desconforto sério (os comprimidos estavam atrasados meia hora agora), mas preferia ignorar a dor porque estava interessado. O fato de ele poder ignorar a dor era uma coisa que ela sabia havia um tempo. Ele conseguia dominar a dor se quisesse. Tinha recursos. Ela achava que só ficava meio irritada com isso, mas agora, provavelmente estimulada pelo aparecimento do charlatão de Arkansas, descobriu que ficava furiosa. Era um desperdício.
— Eu consultei um construtor local, não do meu rebanho, mas um homem de boa reputação, que fez consertos para mim no passado e faz um preço justo. Ele me disse que vai custar aproximadamente setecentos e cinquenta mil dólares para reconstruir.
Sei, pensou Kat.
— Nós não temos esses recursos monetários, claro. Mas aí, menos de uma semana depois de falar com o sr. Kiernan, sua carta chegou, junto com o disco de vídeo. Ao qual assisti com grande interesse, a propósito.
Aposto que assistiu, pensou Kat. Principalmente a parte em que o médico de San Francisco diz que a dor associada aos ferimentos dele pode ser aliviada com fisioterapia. Fisioterapia rigorosa.
Era verdade que uma dezena de outros médicos no DVD alegaram estarem perdidos, mas Kat acreditava que o dr. Dilawar era o único com coragem para ser direto. Ela ficou surpresa de Newsome ter permitido que o disco seguisse com aquela entrevista incluída, mas, desde o acidente, o sexto homem mais rico do mundo parecia ter ficado com uns parafusos soltos.
— Vai me pagar o bastante para reconstruir minha igreja, senhor?
Newsome o observou. Agora, havia gotículas de suor na testa larga. Kat daria os comprimidos em pouco tempo, quer ele pedisse ou não. A dor era real, ele não estava fingindo nem nada, era só…
— Você não vai pedir mais depois? Estou falando de um acordo de cavalheiros, não precisamos assinar nada.
— Não vou pedir mais nada — disse Rideout sem hesitar.
— Se bem que, se você conseguir remover a dor, expulsar a dor, eu posso fazer uma contribuição de bom tamanho para sua igreja. De um tamanho considerável. O que acredito que vocês chamam de “oferta de amor”.
— Isso já é decisão sua, senhor. Devemos começar?
— Não existe hora melhor do que agora. Quer que todos saiam?
Rideout balançou a cabeça de novo: da esquerda para a direita, da direita para a esquerda, de volta ao centro.
— Vou precisar de ajuda.
Mágicos sempre precisam de ajuda, pensou Kat. Faz parte do show.
Lá fora, o vento gritou, parou e voltou a soprar. As luzes piscaram. Atrás da casa, o gerador (também de primeira) ganhou vida, mas parou.
Rideout se sentou na beira da cama.
— O sr. Jensen ali, eu acho. Ele parece forte e rápido.
— Ele é as duas coisas — disse Newsome. — Jogou futebol americano na faculdade. Era running back. E continua em forma desde então.
— Bem… mais ou menos — disse Jensen, modestamente.
Rideout se inclinou na direção de Newsome. Seus olhos escuros e fundos observaram solenemente o rosto marcado do bilionário.
— Responda uma pergunta para mim, senhor. De que cor é a sua dor?
— Verde — respondeu Newsome. Ele estava olhando para o pastor com fascinação. — A minha dor é verde.
Rideout assentiu: para cima, para baixo, para cima, para baixo, de volta ao centro. Sem perder o contato visual. Kat tinha certeza de que ele assentiria com a mesma expressão de confirmação grave se Newsome tivesse dito que sua dor era azul ou tão roxa quanto o fictício Bicho Papão. Ela pensou, com uma combinação de consternação e verdadeira diversão: Eu poderia perder a cabeça aqui. De verdade. Seria o chilique mais caro da minha vida, mas, mesmo assim, eu poderia.
— E onde está?
— Em toda parte. — Era quase um gemido. Melissa deu um passo à frente, olhando para Jensen com preocupação. Kat o viu balançar um pouco a cabeça e fazer um gesto para ela voltar para a porta.
— Sim, a dor gosta de dar essa impressão — disse Rideout —, mas ela mente. Feche os olhos, senhor, e se concentre. Procure a dor. Olhe além dos gritos falsos que ela dá, ignore o ventriloquismo barato, e a localize. O senhor consegue fazer isso. Precisa fazer, se quisermos ter sucesso.
Newsome fechou os olhos. Pelo espaço de noventa segundos, não houve som além do vento e da chuva batendo nas janelas como punhados de cascalho fino. O relógio de Kat era do tipo antiquado que precisava de corda, presente de formatura na escola de enfermagem dado pelo pai muitos anos antes, e quando o vento parava, o aposento ficava silencioso o bastante para ela ouvir o tique-taque arrogante. E outra coisa: na extremidade da grande casa, a idosa Tonya Marsden cantando baixinho enquanto arrumava a cozinha no final de mais um dia. Froggy went a-courtin and he did ride, uh-huh.
Finalmente, Newsome disse:
— Está no meu peito. Bem alto. Ou na parte de baixo da garganta, sob a traqueia.
— Você consegue ver? Se concentre!
Linhas verticais apareceram na testa de Newsome. Cicatrizes da pele que se abriu no acidente surgiram nessas marcas de concentração.
— Consigo. Está latejando em sincronia com meus batimentos. — Os lábios dele se repuxaram em uma expressão de repugnância. — É horrível.
Rideout se inclinou para perto.
— É uma bola? É, não é? Uma bola verde.
— Sim. Sim! Uma bolinha verde que respira!
Como a bola de tênis adulterada que você tem na manga ou na sua lancheira preta grande, reverendo, pensou ela.
E, como se ela o estivesse controlando com a mente (em vez de apenas deduzindo onde essa brincadeira idiota ia dar), Rideout disse:
— Sr. Jensen. Tem uma lancheira embaixo da cadeira na qual eu estava sentado. Pegue e abra e fique ao meu lado. Não precisa fazer mais do que isso por enquanto. Só…
Kat MacDonald surtou. Foi um surto que ela ouviu na cabeça. Parecia Roger Miller estalando os dedos durante a introdução da música “King of the Road”.
Ela foi até Rideout e o tirou do caminho com o ombro. Foi fácil. Ele era mais alto, mas ela vinha virando e levantando pacientes durante quase metade da vida, e era mais forte.
— Abra os olhos, Andy. Abra agora. Olhe para mim.
Sobressaltado, Newsome fez o que ela disse. Melissa e Jensen (agora com a lancheira nas mãos) pareciam alarmados. Um dos fatos da vida profissional deles, e da de Kat, pelo menos até o momento, era que não se dava ordens ao chefe. O chefe era que dava as ordens. E não se sobressaltava o chefe.
Mas ela não aguentava mais. Dali a vinte minutos, poderia estar seguindo os faróis baixos pelas estradas tempestuosas até o único motel da redondeza, mas não importava. Ela não podia mais fazer isso.
— Isso é baboseira, Andy — disse ela. — Está me ouvindo? Baboseira.
— Acho melhor você parar agora — disse Newsome, começando a sorrir. Ele tinha vários sorrisos, e esse não era um dos bons. — Se quiser ficar com seu emprego, claro. Tem muitas outras enfermeiras em Vermont especializadas em terapia da dor.
Ela podia ter parado ali, mas Rideout disse:
— Deixe ela falar, senhor. — Foi a gentileza no tom dele que a levou à loucura.
Ela se inclinou para a frente, no espaço pessoal dele, e as palavra saíram em torrente.
— Nos últimos dezesseis meses, desde que seu sistema respiratório melhorou o bastante a ponto de permitir fisioterapia significativa, eu vi você deitado nessa maldita cama cara, insultando seu próprio corpo. Me dá nojo. Você sabe a sorte que tem de estar vivo, quando todo mundo naquele avião morreu? O milagre que é sua coluna não ter se partido, seu crânio não ter ficado esmagado no cérebro, seu corpo não ter queimado, não, assado, assado como uma maçã, da cabeça aos pés? Teria vivido quatro dias, talvez até duas semanas, em dor infernal. Mas ficou livre disso. Você não é um vegetal. Não é quadriplégico, embora prefira agir como se fosse. Não quer se esforçar. Sempre procurando uma saída mais fácil. Quer pagar para sair da sua situação. Se morresse e fosse para o inferno, a primeira coisa que faria seria molhar a mão do Satanás.
Jensen e Melissa estavam olhando para ela, horrorizados. A boca de Newsome estava aberta. Se alguém já tinha falado com ele dessa forma, fazia muito tempo. Só Rideout parecia à vontade. Ele estava sorrindo agora. Da forma como um pai poderia sorrir para o filho obstinado de quatro anos. Irritou-a profundamente.
— Você já podia estar andando. Deus sabe que tentei te fazer entender isso, e Deus sabe que falei sem parar sobre o tipo de esforço que seria necessário para se levantar dessa cama e voltar a andar. O dr. Dilawar de San Francisco teve a coragem de dizer, e foi o único, e você o recompensou chamando-o de bicha.
— Ele era uma bicha — retrucou Newsome, e suas mãos cheias de cicatrizes se fecharam em punhos.
— Você está sentindo dor, sim. Claro que está. Mas é gerenciável. Já vi a dor ser gerenciada, e não uma só vez, mas muitas vezes. Mas não por um homem rico que tenta substituir o trabalho árduo e as lágrimas necessárias para a recuperação por uma sensação de merecimento. Você se recusa. Também já vi isso, e sei o que sempre acontece em seguida. Os impostores chegam, da mesma forma que sanguessugas chegam quando um homem sangrando entra em um lago estagnado. Às vezes, os impostores têm cremes mágicos. Às vezes, comprimidos mágicos. Os curandeiros chegam com alegações inflamadas sobre o poder de Deus, como este fez. Normalmente, os trouxas conseguem um alívio parcial. Por que não conseguiriam, se metade da dor está na cabeça deles, criada por mentes preguiçosas que só entendem que melhorar vai doer?
Ela levantou a voz a um tom oscilante e infantil e se inclinou para perto dele.
— Papai, está doeeeeendo! Mas o alívio nunca dura, porque os músculos não têm tônus, os tendões ainda estão fracos, os ossos não engrossaram o bastante para aguentar o peso. E quando ligar para esse cara para dizer que a dor voltou, isso se conseguir encontrá-lo, sabe o que ele vai dizer? Que não teve fé. Se usasse seu cérebro da forma como fazia nas fábricas e nos seus vários investimentos, saberia que não existe uma bolinha de tênis viva na base da sua garganta. Você é velho demais para acreditar na porra do Papai Noel.
Tonya tinha aparecido na porta e estava agora ao lado de Melissa, olhando com olhos arregalados e um pano de prato pendurado na mão.
— Você está demitida — disse Newsome, quase aprazível.
— Sim. Claro que estou. Mas vou dizer que não me sentia tão bem há quase um ano.
— Se o senhor a demitir — interrompeu Rideout —, vou ter que ir embora.
Newsome olhou para o reverendo. Sua testa estava franzida de perplexidade. Suas mãos agora começaram a massagear os quadris e as coxas, como sempre faziam quando a hora de tomar os analgésicos passava.
— Ela precisa aprender, precisa louvar o nome sagrado do Senhor. — Rideout se inclinou na direção de Newsome, com as mãos unidas nas costas. Ele lembrou Kat de uma foto que ela vira do professor de Washington Irving, Ichabod Crane. — Ela disse o que queria dizer. Posso falar também?
Newsome estava suando mais pesadamente, mas estava sorrindo de novo.
— Sim, pode cair em cima. Acabar com ela. Acho que quero ouvir isso.
Kat olhou para ele. Os olhos escuros e fundos eram incômodos, mas ela os encarou.
— Na verdade, eu também quero ouvir.
Com as mãos ainda unidas nas costas, o crânio rosado brilhando pelo cabelo fino, o rosto comprido solene, Rideout a examinou. Em seguida, disse:
— Você nunca sofreu, não é?
Kat sentiu o ímpeto de se encolher por causa disso, ou de desviar o olhar, ou as duas coisas. Mas o sufocou.
— Eu caí de uma árvore quando tinha onze anos e quebrei o braço.
Rideout moveu os lábios finos e assobiou: uma nota sem melodia e quase sem tom.
— Quebrou o braço aos onze anos. Ah, deve ter sido excruciante.
Ela ficou vermelha. Sentiu e odiou isso, mas não conseguiu impedir o rubor.
— Pode me diminuir quanto quiser. Baseio o que eu disse em anos de experiência lidando com pacientes com dor. É uma opinião médica.
Agora ele vai me dizer que expulsa demônios, ou pequenos deuses verdes, ou seja lá o que for, desde que eu usava fralda.
Mas ele não fez isso.
— Tenho certeza de que é — disse ele, reconfortante. — E tenho certeza de que você é boa no que faz. Tenho certeza de que já viu uma boa parcela de mentirosos e charlatães. Você conhece essa gente. E eu conheço a sua gente, senhorita, porque já os vi muitas vezes também.
“Não costumam ser tão bonitas quanto você. — Finalmente um sinal de sotaque, bonita saiu bunita. — Mas a atitude condescendente em relação à dor que nunca sentiram, dor que não conseguem nem imaginar, é sempre a mesma. Vocês trabalham em enfermarias, trabalham com pacientes em vários graus de sofrimento, desde dor fraca à maior e mais profunda agonia. E, depois de um tempo, tudo começa a parecer exagerado ou falso aos seus olhos, não é?”
— Isso não é verdade… — O que estava acontecendo com sua voz? De repente, ficou tão baixa.
— Não? Quando você dobra a perna deles e eles gritam quando o ângulo é de apenas quinze graus, ou mesmo dez, você não pensa, primeiro lá no fundo da mente, depois cada vez mais na superfície, que eles estão de frescura? Se recusando a fazer o trabalho árduo? Talvez até querendo solidariedade? Quando você entra no quarto e o rosto deles fica pálido, você não pensa: “Ah, não acredito que tenho que lidar com esse preguiçoso de novo”? Você, que já caiu de uma árvore e quebrou o braço, pelo amor de Deus, não vai ficando mais e mais enojada quando eles imploram para serem colocados na cama e receberem mais morfina ou o que for?
— Isso é tão injusto — disse Kat… mas agora a voz dela não passava de um sussurro.
— Houve uma época, quando você começou, em que reconhecia dor quando via — disse Rideout. — Houve uma época em que você teria acreditado no que vai ver em alguns minutos, porque sabia, no fundo do coração, que um invasor maligno estava ali. Quero que você fique para refrescar a memória… e a sensação de compaixão que se perdeu no caminho.
— Alguns dos meus pacientes são chorões. — Kat olhou com desafio para Newsome. — Acho que pode parecer cruel, mas às vezes a verdade é cruel. Alguns estão fingindo, exagerando. Se você não sabe disso, é cego. Ou burro. E acho que não é nenhuma das duas coisas.
Ele se curvou como se ela tivesse feito um elogio, coisa que, de certa forma, ela achava que tinha feito mesmo.
— É claro que eu sei. Mas agora, no fundo, você acredita que todos eles fingem. Como um soldado que passou tempo demais na guerra, você se acostumou. O sr. Newsome está invadido, eu posso dizer. Infestado. Tem um demônio tão poderoso dentro dele que se tornou um deus, e quero que você veja quando ele sair. Vai melhorar as coisas consideravelmente para você, eu acho. Sem dúvida, vai mudar sua opinião sobre a dor.
— E se eu decidir ir embora?
Rideout sorriu.
— Ninguém vai forçá-la a ficar, srta. Enfermeira. Como todas as criaturas de Deus, você possui livre-arbítrio. Eu não pediria a outros para controlá-la nem faria isso eu mesmo. Mas acho que você não é covarde, apenas calejada. Empedernida.
— Você é uma fraude. — Kat estava furiosa, à beira das lágrimas.
— Não — disse Rideout, mais uma vez falando com gentileza. — Quando sairmos deste quarto, com ou sem você, o sr. Newsome vai estar livre da agonia que se alimenta dele. Ainda vai haver dor, mas sem a agonia. Então ele vai poder lidar com a dor. Talvez até com a sua ajuda, senhorita, depois que você tiver uma lição necessária de humildade. Ainda pretende partir?
— Eu vou ficar — disse ela, e depois: — Me dê a lancheira.
— Mas… — começou Jensen.
— Dê para ela — disse Rideout. — Deixe que ela inspecione, por favor. Mas chega de conversa. Se vou fazer isso, está na hora de começar.
Jensen deu a lancheira preta e comprida para ela. Kat a abriu. No lugar onde a esposa de um trabalhador poderia ter colocado sanduíches para o marido e um pequeno Tupperware com frutas, ela viu uma garrafa de vidro vazia com boca larga. Dentro da tampa abobadada, presa por um dispositivo de metal feito para segurar uma garrafa térmica, havia uma lata de aerossol. Não havia mais nada. Kat se virou para Rideout. Ele assentiu. Ela pegou a lata de aerossol e olhou para o rótulo, inabalada.
— Spray de pimenta?
— Spray de pimenta — concordou Rideout. — Não sei se é legalizado em Vermont, meu palpite é que provavelmente não, mas, no local de onde eu venho, a maioria das lojas de ferragens vende. — Ele se virou para Tonya. — A senhora é…?
— Tonya Marsden. Eu cozinho para o sr. Newsome.
— É um prazer conhecê-la, senhora. Preciso de mais uma coisa antes de começarmos. Tem algum tipo de bastão? Um taco de beisebol, talvez?
Tonya fez que não. O vento soprou novamente; mais uma vez, as luzes piscaram e o gerador fez ruído no galpão atrás da casa.
— E uma vassoura?
— Ah, sim, senhor.
— Pegue, por favor.
Tonya saiu. O quarto ficou em silêncio, exceto pelo vento. Kat tentou pensar em alguma coisa para dizer, mas não conseguiu. Gotas de perspiração escorriam pelas bochechas magras de Newsome, também marcadas no acidente. Ele rolou e rolou enquanto os destroços do jatinho queimavam na chuva atrás dele.
Eu nunca falei que ele não está sentindo dor. Só que podia gerenciá-la se conseguisse reunir metade da vontade que demonstrou durante os anos que passou construindo seu império.
Mas e se ela estivesse errada?
Mesmo que eu esteja, isso não quer dizer que haja uma espécie de bola de tênis viva dentro dele, sugando a dor da forma como um vampiro suga sangue.
Não existiam vampiros nem deuses da agonia… mas, quando o vento soprava forte o bastante para fazer a mansão tremer nas bases, ideias assim pareciam quase plausíveis.
Tonya voltou com uma vassoura que parecia nunca ter varrido um único montinho de poeira até uma pá. As cerdas eram de náilon azul vibrante. O cabo era de madeira pintada, com um metro e vinte. Ela a levantou, hesitante.
— É isso que quer?
— Acho que vai servir — disse Rideout, embora para Kat ele não soasse totalmente seguro. Ocorreu a ela que Newsome podia não ser o único no aposento com uns parafusos soltos. — Acho melhor entregá-la para nossa enfermeira incrédula. Sem querer ofendê-la, sra. Marsden, mas pessoas mais jovens têm reflexos mais rápidos.
Sem parecer nem um pouco ofendida, na verdade, talvez até aliviada, Tonya esticou a vassoura. Melissa pegou e entregou para Kat.
— O que devo fazer com isto? — perguntou Kat. — Voar nela?
Rideout sorriu, mostrando brevemente os dentes manchados e erodidos.
— Você vai saber quando a hora chegar, se já esteve em um aposento com um morcego ou um gambá. Só se lembre de uma coisa: primeiro, as cerdas. Depois, o cabo.
— Para acabar com ele, imagino. Depois você bota o corpo na garrafa.
— Exatamente.
— Para você poder botá-lo em uma prateleira com o resto dos seus deuses mortos?
Ele não respondeu.
— Passe a lata de spray para o sr. Jensen, por favor.
Kat fez isso. Melissa perguntou:
— O que eu faço?
— Observe. E reze se souber rezar. Pelo sr. Newsome e também por mim. Para o meu coração ser forte.
Kat, que via um ataque cardíaco falso se aproximando, não disse nada. Só se afastou da cama, segurando o cabo da vassoura com as duas mãos. Rideout se sentou ao lado de Newsome com uma careta. Seus joelhos estalaram como tiros de pistola.
— Preste atenção, sr. Jensen.
— Sim?
— O senhor vai ter tempo, ele vai estar atordoado, mas seja rápido mesmo assim. Tão rápido quanto se estivesse no campo de futebol americano, certo?
— Quer que eu jogue gás lacrimogênio na coisa?
Rideout mais uma vez mostrou o breve sorriso, mas Kat achou que o homem parecia doente mesmo.
— Não é gás lacrimogênio. Isso é ilegal até onde eu moro. Mas o senhor captou a ideia. Agora, preciso de silêncio, por favor.
— Espere um minuto. — Kat apoiou a vassoura na cama e passou as mãos primeiro no braço esquerdo de Rideout, depois repetiu a ação no direito. Só sentiu tecido de algodão e a pele flácida do sujeito embaixo.
— Não tem nada nas minhas mangas, srta. Kat, eu juro.
— Ande logo — disse Newsome. — A coisa está ruim. Sempre está, mas o maldito tempo ruim torna tudo pior.
— Silêncio — disse Rideout. — Todo mundo, silêncio.
Todos fizeram silêncio. Rideout fechou os olhos. Os lábios se moveram silenciosamente. Vinte segundos se passaram no relógio de Kat, depois trinta. As mãos estavam úmidas de perspiração. Ela as limpou uma de cada vez no suéter, depois voltou a segurar a vassoura. Assim até parece que nós estamos reunidos em torno de um leito de morte, pensou ela.
Lá fora, o vento soprou pelas calhas.
Rideout abriu os olhos e se inclinou para perto de Newsome.
— Deus, tem um demônio dentro deste homem. Um intruso se alimentando da carne e dos ossos dele. Ajude-me a expulsá-lo, assim como o Seu Filho expulsou os demônios do homem possuído de Gadara. Ajude-me a falar com o demônio verde da agonia dentro de Andrew Newsome com sua voz de comando.
Ele se inclinou para mais perto. Curvou os longos dedos da mão inchada pela artrite ao redor da base da garganta de Newsome, como se pretendesse estrangulá-lo. Chegou ainda mais perto e inseriu os dois primeiros dedos da outra mão na boca do bilionário. Ele os curvou e puxou o maxilar para baixo.
— Saia — disse ele. Ele falou em tom de comando, mas sua voz estava suave. Sedosa. Quase persuasiva. Fez a pele nos braços de Kat se arrepiar. — Saia em nome de Jesus. Saia em nome de todos os santos e mártires. Saia em nome de Deus, que lhe deu permissão para entrar e agora ordena que saia. Saia para a luz. Abandone sua glutonia e saia.
Nada aconteceu.
— Saia em nome de Jesus. Saia em nome dos santos e mártires. — A mão dele se flexionou de leve, e a respiração de Newsome ficou ruidosa. — Não, não vá mais fundo. Você não pode se esconder, pequeno demônio. Saia para a luz. Jesus ordena. Os santos e mártires ordenam. Deus ordena que você pare de se alimentar deste homem e saia.
Uma mão fria segurou o braço de Kat, e ela quase gritou. Era Melissa. Seus olhos estavam enormes. A boca estava aberta. No ouvido de Kat, o sussurro da empregada soou áspero como lixa.
— Olhe.
Um calombo, como bócio, surgiu na garganta de Newsome, logo acima da mão frouxa de Rideout. Começou a se mover lentamente na direção da boca. Kat nunca tinha visto nada parecido na vida.
— Isso mesmo — disse Rideout, quase cantarolando. Seu rosto estava molhado de suor; a gola da camisa estava pesada e escura de umidade. — Saia. Saia para a luz. Você já se alimentou, sua pequena coisa das trevas.
O vento aumentou e virou um uivo. Uma chuva que já era quase granizo batia nas janelas como se fossem estilhaços. As luzes piscaram, e a casa gemeu.
— O Deus que deixou você entrar ordena que saia. Todos os santos e mártires…
Ele soltou a boca de Newsome, puxando a mão como se faz quando se toca em uma coisa quente. Mas a boca de Newsome ficou aberta. Mais: começou a se abrir mais, primeiro uma abertura mediana, depois um uivo silencioso. Os olhos se reviraram e os pés começaram a tremer. A bexiga afrouxou, e o lençol sobre a virilha ficou escuro como a gola suada de Rideout.
— Pare — disse Kat, começando a se mexer. — Ele está tendo uma convulsão. Tem que par…
Jensen a puxou para trás. Ela se virou para ele e viu o rosto normalmente corado tão pálido quanto um guardanapo de linho.
O queixo de Newsome estava tocando o peito. A parte de baixo do rosto tinha desaparecido em um bocejo enorme. Kat ouviu tendões temporomandibulares estalarem como os tendões do joelho faziam durante fisioterapia intensa: era um som como o de dobradiças sujas. As luzes no quarto se apagaram, acenderam, apagaram e voltaram a acender.
— Saia! — gritou Rideout. — Saia!
Na escuridão atrás dos dentes de Newsome, uma coisa parecida com um balão surgiu. Estava pulsando.
Houve um estrondo, e a janela do outro lado do quarto se quebrou. Xícaras de café caíram no chão e quebraram. De repente, havia um galho ali dentro com eles. As luzes se apagaram. O gerador foi ligado de novo. Não foi um ruído desta vez, mas um rugido firme. Quando as luzes voltaram, Rideout estava deitado na cama com Newsome, os braços esticados e o rosto grudado na área molhada do lençol. Alguma coisa escorria pela boca aberta de Newsome, os dentes fazendo marcas no corpo deformado, pontilhado de espinhos verdes e curtos.
Não é uma bola de tênis, pensou Kat. Está mais para uma daquelas bolas Koosh que as crianças adoram.
Tonya viu e saiu em disparada pelo corredor com a cabeça inclinada para a frente, as mãos unidas na nuca e os antebraços sobre as orelhas.
A coisa verde caiu no peito de Newsome.
— Joga o spray nela! — gritou Kat para Jensen. — Joga o spray nela antes que consiga fugir!
Sim. Em seguida, eles colocariam na garrafa e fechariam a tampa. Com muita força.
Os olhos de Jensen estavam enormes e vidrados. Ele parecia um sonâmbulo. Vento soprava pelo quarto. Estava fazendo o cabelo dele balançar. Um quadro caiu da parede. Jensen esticou a mão segurando a lata de spray de pimenta e apertou o pino de plástico. Houve um sibilar, e ele deu um pulo, gritando. Tentou se virar, provavelmente para correr atrás de Tonya, mas tropeçou e caiu de joelhos. Apesar de Kat estar atônita demais para se mexer, até mesmo para mover a mão, parte do cérebro ainda devia estar funcionando, porque ela sabia o que tinha acontecido. Ele tinha virado a lata para o lado errado, e em vez de borrifar a coisa que agora escorria pelo cabelo do inconsciente reverendo Rideout, Jensen borrifara a si mesmo.
— Não deixem me pegar! — berrou Jensen, engatinhando cegamente para longe da cama. — Eu não estou enxergando, não deixem me pegar!
O vento soprou. Folhas mortas se soltaram do galho da árvore que tinha entrado pela janela e voaram pelo aposento. A coisa verde caiu do pescoço enrugado e queimado de sol de Rideout no chão. Sentindo-se como se estivesse debaixo da água, Kat bateu na coisa com as cerdas da vassoura. E errou. A coisa desapareceu debaixo da cama, não rolando, mas deslizando.
Jensen engatinhou e deu com a cabeça na parede ao lado da porta.
— Onde estou? Não estou enxergando!
Newsome estava sentado, parecendo atordoado.
— O que está acontecendo? O que houve? — Ele empurrou a cabeça de Rideout para longe. O reverendo caiu, inerte, no chão.
Melissa se inclinou sobre ele.
— Não faça isso! — gritou Kat, mas era tarde demais.
Ela não sabia se a coisa era mesmo um deus ou algum tipo de parasita bizarro, mas era rápida. Pulou de debaixo da cama, rolou pelo ombro de Rideout, foi para a mão de Melissa e subiu pelo braço dela. Melissa tentou sacudi-lo para se livrar da coisa, mas não conseguiu. Tem alguma substância grudenta naqueles espinhos, a parte do cérebro de Kat que ainda funcionava disse à parte bem maior que não funcionava. Como o que tem nos pés de uma mosca.
Melissa viu de onde a coisa veio, e mesmo em pânico foi sábia o bastante para cobrir a boca com as mãos. A coisa subiu pelo pescoço dela, chegou na bochecha e se espalhou pelo olho esquerdo. O vento uivou, e Melissa gritou junto. Foi o grito de uma mulher se afogando em um tipo de dor que as escalas de um a dez de hospital nunca seriam capazes de descrever. A agonia de Melissa foi bem acima de cem, a de alguém sendo fervido vivo. Ela cambaleou para trás e agarrou a coisa no olho. Estava pulsando mais rápido agora, e Kat conseguiu ouvir um som baixo e líquido quando voltou a se alimentar. Era um som úmido.
A coisa não liga para quem come, pensou Kat. Ela percebeu que estava andando na direção de Melissa, que gritava e se debatia.
— Fique parada! Melissa, fique PARADA!
Melissa não prestou atenção. Continuou recuando. Bateu no galho grosso que agora ocupava parte do aposento e caiu no chão. Kat se ajoelhou ao lado da mulher e bateu com o cabo da vassoura na cara dela. Na coisa que estava se alimentando do olho de Melissa.
Houve um som de esmagamento, e de repente a coisa estava deslizando inerte pela bochecha da empregada, deixando um rastro de gosma. Deslocou-se pelo chão cheio de folhas, com a intenção de se esconder embaixo do galho da forma como tinha se escondido embaixo da cama. Kat se levantou e pisou nela. Sentiu a coisa ser esmagada embaixo dos robustos tênis de caminhada New Balance. Uma substância verde espirrou para os dois lados, como se ela tivesse pisado em um balão cheio de catarro.
Kat voltou a se ajoelhar e tomou Melissa nos braços. Primeiro, Melissa lutou, e Kat sentiu um punho roçar sua orelha. Mas depois a mulher parou e respirou pesadamente.
— Foi embora? Kat, foi embora?
— Estou me sentindo melhor — disse Newsome com a voz maravilhada às costas delas, em outro mundo.
— Sim, foi embora. — Kat espiou o rosto de Melissa. O olho onde a coisa tinha grudado estava vermelho, mas parecia bem. — Você consegue enxergar?
— Consigo. A visão está meio turva, mas está ficando mais clara. Kat… a dor… foi como o fim do mundo.
— Alguém precisa lavar meus olhos! — gritou Jensen. Ele parecia indignado.
— Lave seus próprios olhos — disse Newsome com alegria. — Você tem duas pernas boas, não tem? Acho que eu também talvez tenha depois que Kat as colocar em ordem. Alguém dê uma olhada em Rideout, acho que o pobre filho da puta pode estar morto.
Melissa estava olhando para Kat, um olho azul, o outro vermelho e lacrimejando.
— A dor… Kat, você não faz ideia da dor.
— Sim — disse Kat. — Na verdade, faço, sim. Agora.
Ela deixou Melissa sentada ao lado do galho e foi até Rideout. Procurou pulsação e não encontrou nada, nem a oscilação instável de um coração lutando para não morrer. Parecia que a dor de Rideout tinha acabado.
O gerador parou de funcionar.
— Merda — disse Newsome, ainda parecendo alegre. — Eu paguei setenta mil dólares por esse lixo japonês.
— Preciso que alguém lave meus olhos! — berrou Jensen. — Kat!
Kat abriu a boca para responder, mas não disse nada. Na nova escuridão, uma coisa deslizou até as costas da mão dela.
Para Russ Dorr
Não sou muito fã de aparições públicas. Quando fico em frente a uma plateia, sempre me sinto um impostor. Não é por eu ser uma pessoa solitária, embora seja mesmo, ao menos até certo ponto; posso dirigir do Maine até a Flórida sozinho e me sentir perfeitamente satisfeito. Também não é medo de palco, embora eu ainda fique ansioso quando me apresento para duas ou três mil pessoas. É uma situação nada natural para a maioria dos escritores: estamos acostumados a aparecer diante de grupos dedicados de trinta e poucas pessoas em bibliotecas. Essa sensação de ser a pessoa errada no lugar errado vem diretamente de saber que quem (ou o que) quer que a plateia tenha ido ver não vai estar lá. A parte de mim que cria as histórias só existe em solidão. O que aparece para contar histórias e responder perguntas é um substituto fraco do original.
Em novembro de 2011, eu estava sendo levado de carro para minha aparição final em Paris no Le Grand Rex, com capacidade para duas mil e oitocentas pessoas. Estava nervoso e me sentindo deslocado no banco de trás de um SUV preto enorme. As ruas eram estreitas, e o trânsito estava pesado. Eu estava com minha pequena pilha de papéis (alguns comentários, uma leitura curta) em uma pasta no colo. Em um sinal vermelho, paramos ao lado de um ônibus, os dois veículos grandes tão espremidos que quase se tocavam. Olhei por uma das janelas do ônibus e vi uma mulher de terninho, possivelmente indo para casa depois do trabalho. Desejei por um momento estar sentado ao lado dela, indo para casa, pronto para jantar, e ter duas horinhas para ler um livro em uma poltrona confortável com boa iluminação em vez de estar sendo levado para um teatro lotado cheio de fãs cuja língua eu não falava.
Talvez la femme tenha sentido meu olhar. Mas é mais provável que estivesse entediada com o jornal. Seja como for, ela ergueu a cabeça e olhou para mim, a poucos metros de distância. Nossos olhares se encontraram. O que imaginei ver nos dela foi um desejo triste de estar em um SUV chique, indo para um lugar onde haveria luzes e risadas e entretenimento em vez de para seu apartamento, onde não haveria nada além de uma pequena refeição, talvez tirada do freezer e aquecida, seguida do noticiário noturno e das séries de TV de sempre. Se nós pudéssemos trocar de lugar, talvez fôssemos mais felizes.
Ela voltou a olhar para o jornal, e eu me concentrei na minha pasta. O ônibus e o carro seguiram seu caminho. Mas, por um instante, chegamos bem perto de espiar o mundo um do outro. Pensei nesta história, e quando voltei da turnê na Europa, me sentei e a escrevi em uma tacada só.