O Beijo
Capítulo Três
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.
Quando surgiu diante de Bill, usava um vestido sim ples de seda branca, com um a estola de caxem ira branca, um colar de pérolas e sapatos de seda branca Chanel com pontas pretas. Trazia um a pequena carteira branca com nada m ais dentro além do batom e da chave do quarto. Não precisava de m ais nada e, desta vez, resolvera não prender os cabelos. Bill ficou ainda m ais im pressionado do que na noite anterior quando a viu. Parecia encantado.
Isabelle, tão extraordinariam ente graciosa, m eiga e fem inina, representava tudo o que ele sem pre quisera num a m ulher e só lam entava não a ter conhecido anos antes.
— Com o estava o Teddy ? — indagou Bill, enquanto desciam as escadas, sem paciência para esperar pelo elevador.
— Em excelente form a. Leu-m e m eia dúzia de anedotas e a enferm eira disse que nunca o vira tão bem . Não sei se é da m edicação, se do tem po, se da boa sorte. Mas sej a pelo que for, espero que se m antenha. Disse-lhe que estaria em casa am anhã à noite.
— Oh! — exclam ou Bill, com a tristeza estam pada no olhar. Esperava que pudesse passar outra noite. Tenho de m e encontrar com o em baixador am anhã e não creio que estej a liberado antes do m eio-dia. Ficam os com pouco tem po livre até o seu vôo.
— Eu sei — disse Isabelle, enfiando a m ão no braço dele. Pensei nisso, m as não tive coragem de lhe dizer que queria ficar m ais um a noite. Talvez lhe telefone am anhã.
— Seria m aravilhoso. Porque não lhe pergunta se se im porta? — Não queria roubá-la ao filho, só queria que ficasse m ais um a noite. E ela tam bém tinha vontade de ficar. Sentia-se dividida entre Bill e o filho, um a sensação que lhe era m uito pouco fam iliar.
— Telefono de m anhã e vej o com o é que ele se sente. Mas não posso prom eter nada. Se ele passar m al esta noite, terei m esm o de ir am anhã.
— Com preendo. — Mostrava-se satisfeito por Isabelle considerar a hipótese de ficar m ais um a noite. Se tiver de ir, se calhar tam bém vou com você. — Não seria m á idéia visitar a em baixada de Paris. — Mesm o não podendo estar com Isabelle tanto tem po, queria m anter-se perto dela. Mas seria m uito diferente. Poderiam alm oçar ou j antar, m as ela não teria a m esm a liberdade que ali. Se Gordon soubesse que andavam encontrando-se, poderia ser em baraçoso. Mas Bill com preendia tudo isso. Já se encontrara com Isabelle em Paris anteriorm ente. — Obrigado por estar disposta a telefonar. Sej a com o for, tenho de voltar para Nova Iorque no sábado.
— Vai ser um a sensação estranha quando você for em bora — observou Isabelle, num tom triste. Só haviam estado j untos durante um dia, m as era um a sensação tão reconfortante que nenhum dos dois conseguia im aginar-se sem o outro.
— Estava pensando na m esm a coisa— afirm ou Bill, enquanto se dirigiam ao Mark’s Club. — Você poderia transform ar-se num hábito difícil de quebrar.
Isabelle assentiu com a cabeça, enquanto Bill lhe pegava gentilm ente na m ão. Estavam ultrapassando barreiras que am bos sem pre haviam respeitado e entrando em territórios até aí desconhecidos. E sabiam que, se se aventurassem dem asiado, poderia ser perigoso.
Tom aram um as bebidas. Depois foram conduzidos até um a m esa na sala de j antar. Isabelle preferia o Harry ’s, m as o am biente ali tam bém era acolhedor e rom ântico. Falaram durante horas e ela teve vontade de parar a m archa do tem po. Os m om entos iam se esvaindo com dem asiada rapidez. Não queria que a noite acabasse. Bill tam bém não.
— E se fôssem os ao Annabel’s outra vez? — perguntou Bill, quando saíram . Então, os olhos de am bos encontraram -se durante um longo instante. Isabelle não sabia m uito bem se iriam aventurar-se para águas m ais profundas, caso fossem dançar. Mas nenhum dos dois conseguia resistir. Muito provavelm ente iria ser a sua últim a noite e a últim a oportunidade que teriam durante m uito tem po. Talvez nos próxim os anos. Am bos sabiam que tinham de aproveitar o m elhor que pudessem .
— Adoraria. — De repente, quando se sentaram no carro e deram as m ãos, não conseguiram arranj ar palavras que definissem aquilo que lhes ia na alm a. Mantiveram -se em silêncio até entrarem no Annabel’s e se sentarem no bar.
Bill m andou vir cham panhe e fizeram um brinde. Depois de Isabelle beber o prim eiro gole, Bill pousou o cálice, estendeu-lhe a m ão e convidou-a para dançar. Radiante de felicidade, sob o teto de pequeníssim as estrelas cintilantes, seguiu-o até à pista de dança. Era o local m ais rom ântico em que algum a vez estivera e, desta vez, enquanto dançavam , dava a sensação de que os corpos se haviam fundido num só. Moviam -se lentam ente ao som da m úsica, sem trocar qualquer palavra, agarrados um ao outro. Isabelle fechou os olhos.
Só ao fim de m uito tem po é que abandonaram a pista. Nenhum dos dois queria pensar na partida no dia seguinte, m as não havia form a de evitar essa realidade. Sabiam que esse m om ento acabaria por chegar.
Voltaram a dançar antes de saírem . Ao abandonar a pista de dança, Isabelle tinha os olhos inundados de lágrim as. Quando saíram do Annabel’s, Bill pôs-lhe o braço por cim a. Estava um a bonita noite, quente e estrelada. Bill sorria-lhe quando, de súbito, um a explosão pareceu eclodir nos seus rostos. Ao princípio, Isabelle ficou sem saber do que se tratava, cega por um clarão de luz. Só quando recuperou a visão é que reparou que um fotógrafo fizera disparar a m áquina, m as não im aginava porquê
— O que aconteceu? — Ficara assustada e recuara para os braços de Bill, que ainda tinha um braço por cim a dela e a apertou m ais contra si.
— São os paparazzi. Tiram prim eiro a fotografia e só depois é que identificam as suas vítim as. Apanham m uitas estrelas de cinem a e políticos assim e se por acaso for alguém que não interesse, não aproveitam a fotografia.
— O que seria o m eu caso. E você. Poderiam arranj ar-te problem as.
— Não creio. Os tablóides não m e interessam . Acho que foi um a fotografia desperdiçada.
— Nem sequer percebi o que aconteceu. A única coisa que vi foi um clarão de luz. — Haviam usado um strobe e colocado a câm ara a poucos centím etros do rosto de Isabelle.
— É triste viver-se assim — com entou Bill, pensando na fotografia que lhe haviam tirado e ansioso por saber se conseguiriam identificá-lo. Mas não lhe disse nada. Agora pouco poderiam fazer. A única pessoa que poderia im portar-se seria Cindy. Isabelle era certam ente desconhecida. Não havia m otivo para Gordon Forrester ver a fotografia. Ao entrarem no carro, Bill m udou de assunto.
Isabelle sentou-se j unto a Bill, que, com o de costum e, lhe pegou na m ão. A idéia de partirem no dia seguinte não lhes saía da cabeça. Estavam am bos com ar sério quando Bill pediu ao m otorista para os levar para dar um pequeno passeio, antes de voltarem para o hotel. Não tinham pressa e, além disso estava um a noite m aravilhosa. Foi Isabelle quem falou prim eiro, num a voz sum ida.
— Nem quero acreditar que j á vou em bora am anhã. — Teddy era a única coisa que a obrigava a regressar a Paris.
— Pode ser que não vá. Vê com o ele se sente quando telefonar. — A Bill só lhe restava rezar para que Teddy passasse bem a noite. Não conseguia im aginar-se vendo-a partir.
Isabelle fez um gesto de assentim ento, sorriu e encostou a cabeça ao om bro dele.
— Passei um a noite m aravilhosa.
— Tam bém eu. — Voltou-se e olhou-a fixam ente. As palavras seguintes deixaram -na perplexa: — O que vam os fazer agora? — perguntou Bill, num a voz que ela conhecia bastante bem . Era a voz que a fazia estrem ecer quando atendia o telefone.
— Relativam ente a quê?
Bill fitou-a com o ar m ais sério que ela algum a vez lhe vira e não sabia se queria que ele respondesse ou não.
— A nós. Estou apaixonado por você. Prom eti a m im m esm o que não iria pronunciar estas palavras. Sei que não é j usto, m as quero ao m enos que saiba e que leve estas palavras com você quando voltar para Paris. Am o-te, Isabelle. Há m uito tem po que te am o. — Nunca se sentira tão vulnerável na vida.
— Eu sei — m urm urou Isabelle, levantando os olhos para ele. Tam bém te am o desde a prim eira vez que nos conhecem os. Mas não há nada que possam os fazer. — Am bos sabiam que não. Isabelle nunca quisera dizer-lhe isso. Sabia que tornaria tudo m uito m ais com plicado, m as agora nenhum dos dois conseguia controlar os sentim entos. Enquanto Bill lhe passava carinhosam ente a m ão pelo rosto, o m otorista conduzia o carro em direção a um cruzam ento. Por instantes, Bill ainda pensou em pedir-lhe que parasse. Apetecia-lhe estar só com Isabelle. Era um m om ento que queria que nenhum dos dois esquecesse.
— Não podem os fazer nada agora, m as talvez um dia. Nunca se sabe. Aconteça o que acontecer, quis que soubesse... Vou am ar-te até ao resto da m inha vida. — Era um a certeza que j á tinha há m uito tem po. Isabelle era tudo o que sem pre desej ara, m as sabia que nunca a poderia ter.
— Am o-te — m urm urou Isabelle, enquanto Bill a apertava m ais contra si. Muito...
Ao ouvir estas palavras, Bill encostou os lábios nos dela e só teve pena de não o ter feito há m ais tem po. Era o m om ento por que am bos ansiavam há m uito e que os aproxim ou ainda m ais. Beij ou-a com ardor, enquanto a envolvia nos braços. A única coisa que Isabelle sabia é que nunca fora tão feliz na vida e só queria que aquele m om ento nunca acabasse. Nos seus braços, sentia-se, pela prim eira vez na vida, em segurança. Bill ainda a beij ava quando entraram no cruzam ento. O m otorista observava-os pelo retrovisor, tão hipnotizado por aquilo que via que não reparou no ônibus verm elho de dois andares que se aproxim ava a grande velocidade. Bill continuava a beij á-la quando o ônibus arrancou toda a parte da frente do carro e o m otorista desapareceu literalm ente. Não tiveram tem po para qualquer tipo de reação. Ainda se beij avam quando o ônibus parecia devorar toda a lim usine. No espaço de segundos, esta ficou transform ada num a am álgam a de ferros retorcidos, e havia vidros espalhados por todo o lado. O ônibus arrastou o carro pela rua abaixo, deixando-o totalm ente desfeito, de lado, com as rodas girando. Isabelle ainda se encontrava tranquilam ente nos braços de Bill, por cim a dele. O teto do carro cedera. Estavam am bos inconscientes. O rosto dela j á não era branco, m as verm elho de sangue. Bill tinha dois cortes profundos no rosto. Isabelle dava a sensação de estar dorm indo tranquilam ente. O rosto m antinha-se intacto, m as todo o resto do corpo parecia ter sido esm agado.
Ouvia-se o som das sirenes das am bulâncias ao longe e a buzina do ônibus, que não parava de soar. O m otorista voara pelo pára-brisas e j azia m orto no asfalto. Dois hom ens apareceram correndo com um a lanterna e apontaram -na para dentro do carro todo retorcido. O rosto ensanguentado de Bill e o vestido com pletam ente m anchado de sangue foi tudo que conseguiram ver. Os olhos de Bill estavam abertos, dando a sensação de estar m orto, e, a j ulgar pela quantidade de sangue espalhado por todo o lado, era pouco provável que Isabelle tivesse sobrevivido. Os dois hom ens ficaram boquiabertos com o espectáculo com que deparavam .
— Oh, m eu Deus... — exclam ou um deles.
— Acha que estão vivos? — perguntou o outro.
— Nem pensar.
Enquanto espreitavam para o interior do carro, viram um fio de sangue sair da boca de Isabelle.
— Com o irão tirá-los dali? — O hom em que em punhava a lanterna não conseguia im aginar a m aneira de os desencarcerar. O teto estava exercendo pressão sobre as costas dela.
— Isso agora j á não deve interessar. Mas levarão toda a noite tirando-os dali de dentro.
Foram então ver os passageiros que j aziam no chão do ônibus. Os poucos que tinham tido m ais sorte encontravam -se espalhados fora dele, com cam isas m anchadas de sangue e golpes na cabeça. Alguns coxeavam , outros estavam atordoados. Ouviu-se então alguém dizer que havia m eia dúzia de m ortos no interior. Fora um dos piores acidentes com que a polícia deparara, tratando-se de um ônibus daquele tam anho. Enquanto os policiais falavam com as testem unhas que haviam assistido ao em bate, ouvia-se o som de sirenes aproxim ando-se e, em poucos m inutos, surgiram am bulâncias, carros de bom beiros e param édicos por todo o lado. Estes dirigiram -se de im ediato para a lim usine e os dois hom ens que haviam espreitado para dentro dela disseram -lhes que os dois únicos passageiros pareciam estar m ortos.
Os param édicos foram verificar e, à prim eira vista, ficaram com a im pressão de que os hom ens tinham razão, m as um dos param édicos conseguiu enfiar a m ão lá dentro e palpar o pulso de Bill e o de Isabelle, constatando que ainda estavam vivos.
— Esperem gritou para um bom beiro que se encontrava nas im ediações. Tenho duas vidas aqui presas por um fio. Tragam os carros aqui! Tem os de tira-los.
Tinha a sensação de que era dem asiado tarde e que j á não conseguiria retirá-los com vida, m as, pelo m enos, iriam tentar. O condutor da lim usine j á fora encontrado e m orrera de um grave traum atism o craniano. Quanto a Bill e a Isabelle ainda não se podia dizer se sobreviveriam . Ele estava perdendo m uito sangue devido a vários ferim entos. Tinha o pulso tão fraco que o param édico m al o sentia. Os sinais vitais de am bos estavam ficando cada vez m ais tênues. As m anobras de desencarceram ento iniciaram -se quase de im ediato. Num ápice, um a série de bom beiros subiu para as viaturas e com eçou a ligar cabos e a dar instruções para os colegas que estavam ao volante dos carros que iriam puxar a lim usine. O barulho era ensurdecedor, m as nem Isabelle nem Bill ouviram o m ínim o som .
CAPÍTULO QUATRO
Os bom beiros levaram quase duas horas para tirar a lim usine de debaixo do ônibus. Tiveram de usar cuidados extraordinários para não m altratar ainda m ais os dois, que j á estavam recebendo transfusões de sangue. Isabelle tinha um garrote no braço esquerdo. Os param édicos que os tratavam estavam cheios de sangue e ninguém acreditava que eles pudessem ainda estar vivos. Ninguém diria que o vestido de Isabelle era branco. Encontrava-se encharcado em sangue. Ainda não faziam idéia de quem eles eram . Quando os m eteram na am bulância, j á todas as vítim as do ônibus haviam sido levadas do local do acidente. Nessa altura, um dos param édicos tinha a carteira de Bill na m ão e j á o haviam identificado, m as ainda não sabiam quem Isabelle era.
— Ela usa aliança de casam ento — disse um , quando a am bulância partiu para o Hospital St Thom as, deve ser a esposa. Enviou então um a m ensagem via rádio para os policiais no local do acidente para darem um a vista de olhos em um a bolsa de senhora que se encontrava no carro. Nenhum dos dois recuperou a consciência durante todo o processo de rem oção. Encontravam -se am bos em com a profundo quando entraram na Unidade de Traum atologia, ficando de im ediato sob observação de duas equipes de m édicos, que determ inaram a necessidade de serem operados o m ais rapidam ente possível. Ele, a um grave hem atom a na coluna vertebral e a um a fratura do pescoço, ela, a um traum atism o craniano, a várias lesões internas e a um corte de artéria no braço esquerdo, ao qual havia sido aplicado o garrote. Esta operação tinha de ser realizada com a m áxim a urgência, caso contrário, Isabelle corria o risco de perder o braço.
— Meu Deus, que coisa horrível — sussurrou um a das enferm eiras, enquanto Bill e Isabelle entravam de m aca nas respectivas salas de operações.
— Há m uito tem po que não via vítim as de acidente neste estado. Não consigo perceber com o ainda estão vivos, — com entou a outra. Esta estava encarregada de Isabelle, que era dos dois a que tinha m enos chances de sobreviver. Estavam preocupados com o traum atism o craniano, m as as lesões m ais graves situavam -se no fígado, pulm ões e coração.
Num ápice, estavam os dois deitados nas m esas de operação, com os anestesistas a adm inistrarem -lhes as respectivas anestesias, sob os fortes focos de luz, enquanto os m em bros das equipes de cirurgiões ouviam o diagnóstico dos especialistas de traum atologia. Era difícil decidir qual dos dois estava pior. Encontravam -se am bos em estado extrem am ente crítico. Quando as operações se iniciaram , os sinais vitais de am bos com eçaram a dim inuir praticam ente ao m esm o ritm o.
Quando teve início a operação às vértebras que Bill fraturara, este im aginou estar sentando-se na cam a e, quase de im ediato, viu-se andando por um cam inho fortem ente ilum inado. Tinha consciência de todos os sons à sua volta e, ao longe, vislum brava um a luz intensa. Ficou surpreso quando, ao olhar em volta, avistou Isabelle, sentada num a pedra à sua frente, no cam inho.
— Você está bem ?
Isabelle lançou-lhe um olhar estranho, com o se estivesse sonolenta. Pôs-se então de pé e esperou que ele a acom panhasse.
— Estou ótim a — respondeu, sem olhar para Bill. Parecia hipnotizada pela luz m uito brilhante, tal com o acontecera com ele ao princípio. — O que é aquilo?
— Não sei — respondeu Bill, algo confuso. Lem brava-se de ter andado à procura de Isabelle e de não conseguir encontrá-la. — Onde esteve?
— Estive aqui, à sua procura. Você partiu há m uito tem po. — Isabelle tinha um a voz m uito sum ida e um ar pálido, m as exibia um a estranha calm a.
— Estive sem pre aqui. Não fui a lado nenhum — explicou Bill, m as dava a sensação de que Isabelle não lhe dava ouvidos, parecendo ansiosa por continuar a cam inhada em direção à luz.
— Você vem ? — perguntou Isabelle, virando-se para Bill. Mas este não conseguia acom panhá-la e pediu-lhe que andasse m ais devagar.
— Porque está correndo dessa m aneira?
Isabelle lim itou-se a abanar a cabeça e continuou a andar em direção à luz brilhante.
— Quero que venha com igo — retorquiu, estendendo a m ão para trás
Bill agarrou-lhe; conseguia perceber a presença de Isabelle a seu lado, m as não sentia a m ão dela. Via que lhe agarrava a sua, m as não era capaz de ter qualquer espécie de sensação. A única coisa que sabia era que estava desesperadam ente cansado. Apetecia-lhe deitar-se e dorm ir num lugar qualquer, m as não queria perdê-la de novo. Sabia que, apesar daquilo que ela dissera, a perdera por instantes. Isabelle virou-se então para ele e, olhando-o nos olhos, disse, num a voz sum ida.
— Am o-te!
Bill queria pedir-lhe para abrandar o passo.
— Tam bém te am o! Não podem os descansar um pouco? Estou cansado.
— Podem os descansar quando lá chegarm os. Estão à nossa espera — insistiu Isabelle, convicta do que estava dizendo e sentindo algo dentro de si que a obrigava a prosseguir. Bill continuava tentando que ela dim inuisse o passo.
— Onde é que vam os?
— Ali acim a. — Isabelle apontou para a luz e Bill seguiu-a durante m ais algum tem po. A cam inhada parecia nunca m ais ter fim . Quando estavam quase alcançando a luz, Bill ouviu vozes atrás deles cham ando por Isabelle. Quando se virou, viu um a criança. Não tinha certeza, m as parecia um rapaz. Este acenava-lhes e cham ava pela “m am ãe”. Isabelle voltou-se e deteve-se durante algum tem po a olhar para o m enino. Ao longe, atrás deste, avistava-se a silhueta de um a garota.
— Quem é? — perguntou Bill, m as, ainda antes de ouvir a resposta da boca de Isabelle, j á sabia de quem se tratava.
— É o Teddy. E a Sophie. Mas j á não posso voltar para eles. É dem asiado tarde.
De repente, ao rapaz e à garota que estavam acenando, j untaram -se duas j ovens. Quando Bill virou para trás, reconheceu de im ediato as filhas, Olivia e Jane, cham ando-o, tal com o Teddy cham ara por Isabelle.
— Espera... — Era a m uito custo que Bill conseguia acom panhá-la. Isabelle cam inhava j á m uito à sua frente. Não sabia m uito bem se devia segui-la ou se voltar para trás para perto de Olivia e Jane. — Tem os de voltar para perto dos m eninos!
Isabelle lim itou-se a abanar a cabeça.
— Não vou voltar para trás, Bill. Vem com igo? — Parecia determ inada, m as ele estava ficando cada vez m ais cansado. Assem elhava-se a um cam inho sem fim .
— Não consigo acom panhar o seu passo. Por que razão não volta para trás? Eles precisam de nós...
— Não, não precisam . Não posso voltar para trás. Para m im , é dem asiado tarde. Diz ao Teddy e à Sophie que os adoro — proferiu Isabelle, preparando-se para prosseguir sozinha.
— Tem de vir com igo! — exclam ou Bill, de repente, agarrando-a pelo braço. — Escuta... — O tom de voz era ríspido, m as Isabelle não o ouvia, estava quase chegando à luz. — Você tem de m e ouvir... O Teddy e a Sophie precisam de você... Tenho de regressar para j unto das m inhas filhas. Volta com igo, Isabelle... Podem os vir aqui em outra hora...
Isabelle hesitou, m as só durante um a fração de segundo, enquanto Bill lhe tocava na m ão.
— Quem te disse que voltarem os a ter outra oportunidade?
— Terem os, um dia... m as agora não é a hora.
— Para m im , é. Não quero voltar... — Isabelle olhava-o com ar suplicante, e Bill sentia-a fugir-lhe. — Por favor, Bill... Vem com igo. Não quero ir sozinha.
— Fica com igo, Isabelle. Am o-te. Não m e abandone. — Bill chorava ao dizer estas palavras, baixando a cabeça para que ela não o visse chorar, m as esta fixava nele o seu olhar penetrante. Bill levantou então os olhos e estendeu a m ão.
— Pega na m inha m ão... Não vou perm itir que parta. Juro! Você tem de voltar com igo.
Isabelle ficou, de súbito, com um ar m uito cansado e olhou para trás, para Teddy e para as garotas. Hesitou durante um longo instante. Então, em passo lento, com eçou a andar na direção de Teddy. Custava-lhe m uito m ais andar para trás do que para a frente. Pouco depois, Bill tinha-a nos braços e beij ava-a com ardor. Nenhum dos dois sabia onde haviam estado. A única coisa que sabiam era que tinham de voltar para j unto dos filhos. Sentia agora a m ão de Isabelle apertada contra a sua.
— Você tem certeza de que é isto que quer fazer? — perguntou Isabelle. Não ouviam as vozes dos filhos, m as sabiam que eles estavam à sua espera. Escurecia e a luz ia perdendo o brilho.
— Absoluta — respondeu Bill, e apertou-lhe ainda m ais a m ão.
— Está ficando tarde... e ficando tão escuro. Com o é que vam os encontrar o cam inho de volta? — Isabelle tinha a sensação de terem estado perdidos e não queria que o m esm o voltasse a acontecer.
— Basta não largar a m inha m ão. — Bill sentia m enos dificuldade em respirar. O ar que o rodeava não parecia tão rarefeito. Conheço o cam inho. Pôs-lhe então o braço por cim a e continuaram a andar. Agora era Isabelle quem estava cansada e ele que se sentia cada vez com m ais forças.
— Preciso parar um pouco — pediu Isabelle. Am bos conseguiam ver a pedra onde ela estivera sentada à espera de Bill, m as este não iria perm itir que ela parasse desta vez. Tinham de chegar a casa.
— Não tem os tem po. Você vai ficar boa. Poderá descansar quando chegarm os.
E, sem dizer palavra, Isabelle seguiu-o. Estava escuro, m as tinha a sensação de que Bill sabia para onde ia. A única coisa que lhe apetecia era deitar-se e dorm ir na beira da estrada. Todavia, Bill não lhe largava a m ão e não a deixava abrandar o passo. Não sabia com o nem quando haviam ido para lá. Pouco depois, tinha a sensação de estarem em casa. Isabelle não reconhecia a sala onde se encontravam . Sentia-se segura ao lado de Bill. Havia crianças por todo o lado, e conseguia ver Teddy e Sophie rindo, na com panhia de alguns am igos, e as filhas de Bill falando com este. Depois de abraçar os filhos, deitou-se, finalm ente. Sabia que se encontrava a salvo e a única coisa que queria fazer era dorm ir ao lado de Bill. E adorm eceu, com a certeza de que ele ficaria sem pre ali ao lado dela.
— Meu Deus, nunca pensei que conseguíssem os! — com entou a enferm eira que assistia ao cirurgião para o anestesista, quando saíram da sala de operações. Fora um a batalha de quatro horas para m anter a pressão arterial de Isabelle suficientem ente alta para evitar que m orresse durante a operação. Ao fim da prim eira m eia hora, todas as pessoas na sala tinham quase a certeza de que ela m orreria. Perdera m uito sangue. Ninguém sabia agora se sobrevivera devido à m edicação que lhe fora adm inistrada, se às transfusões de sangue, se à operação ou se por pura sorte. Mas, fosse por que fosse, todos concordavam que era um m ilagre Isabelle estar viva.
— Nunca assisti a um a cirurgia com o esta. Ela tem um a sorte dos diabos em estar viva afirm ou um dos cirurgiões. Ainda não está livre de perigo, m as acho que vai conseguir. Casos com o este renovam a m inha fé em Deus. — Sorriu e saiu da sala de operações, o rosto banhado em suor. Fora um a longa noite e um a luta extenuante contra o tem po.
Duas enferm eiras saíram da sala de operações ao lado, onde Bill fora operado e tam bém estavam com ar esgotado.
— Que tal correu a operação? — indagou o cirurgião.
— Quase o perdem os quatro ou cinco vezes. Conseguiu recuperar, m as tem m uitas lesões na parte superior da coluna vertebral. Tivem os de o reanim ar vezes sem conta. Estivem os quase desistindo.
— Foi o que quase aconteceu conosco. É espantoso com o conseguiram sobreviver.
— Que tal está ela?
— Ainda em estado crítico. E cheguei pensando que teríam os de lhe am putar o braço. Tam bém tivem os problem as terríveis com o fígado e o coração. Nunca vi um paciente com tantas lesões que conseguisse sair da operação com vida.
Eram oito da m anhã. As duas equipes de operação foram até ao bar beber café e com er scones, enquanto Isabelle e Bill eram transportados para os respectivos quartos, ainda sob o efeito da anestesia. Nessa altura, j á tinham achado a m ala de m ão de Isabelle. A chave do seu quarto no Claridge’s encontrava-se lá. A polícia telefonara para o hotel e fora inform ada de que a vítim a do acidente se cham ava Isabelle Forrester, era francesa e m orava em Paris. O subgerente prom etera ir de im ediato ao quarto dela ver se encontrava o passaporte para saber qual o contato a estabelecer em caso de urgência. Mas até ao m om ento ninguém telefonara.
No que tocava a Bill, tinham todas as inform ações de que precisavam . O núm ero de telefone de casa encontrava-se na carteira e a esposa era o fam iliar m ais próxim o. A recepcionista do hospital ia telefonar a Cindy para lhe dizer que o m arido tivera um acidente e sobrevivera.
Bill e Isabelle estavam em estado m uito crítico. O traum atism o craniano de Isabelle tam bém era preocupante, se bem que não tanto com o as lesões internas. O m aior receio em relação a Bill era a lesão na coluna, que poderia com prom eter a sua capacidade de andar. Escapara por um triz à paralisia total. A grande questão residia em com o iriam reagir as pernas. Ainda tinham um longo cam inho a percorrer até a sobrevivência estar assegurada. Fora um dos piores acidentes a que a polícia assistira nos últim os anos e do qual resultaram onze m ortes. Os m otoristas de am bos os veículos e nove passageiros do ônibus. Durante a m aior parte da noite, enquanto realizavam as cirurgias de Isabelle e Bill, as equipes cirúrgicas estiveram prestes a confirm ar m ais duas m ortes. Só por m ilagre é que eles ainda se encontravam vivos.
A recepcionista arquivou alguns im pressos antes de se sentar e soltar um suspiro. O subgerente do Claridge’s fora ao quarto de Isabelle e encontrara o passaporte, que referia o m arido com o o parente m ais próxim o. Tinha o núm ero de telefone de Paris e o núm ero de Bill do Connecticut. Detestava fazer telefonem as daqueles. Bebeu um gole de café para ganhar coragem e depois ligou para Paris. O telefone tocou várias vezes até que, por fim , um hom em respondeu, para alívio da recepcionista.
— Monsieur Forrester, s’il vous plait — disse, num francês com forte sotaque britânico.
— O próprio. — A recepcionista reconheceu-lhe o sotaque am ericano e perguntou-lhe, de im ediato, em inglês, se Isabelle era sua esposa.
— É sim — respondeu Gordon, num tom algo preocupado.
A recepcionista inform ou-o então de que estava telefonando do Hospital St. Thom as e que Isabelle tivera um acidente de trânsito na noite anterior, explicando-lhe que a lim usine fora abalroada por um ônibus.
— A sua esposa encontra-se em estado crítico. Acabou de sair da sala de operações, Mister Forrester. Sofreu lesões internas profundas e um leve traum atism o craniano. Só poderem os saber m ais algum a coisa do seu estado clínico daqui a algum as horas. Mas j á é encoraj ador o fato de ter sobrevivido à operação. Sinto m uito — proferiu, sem saber m ais o que dizer. Fez-se então um a longa pausa, enquanto Gordon ponderava o que acabara de ouvir.
— Tam bém eu. — Parecia chocado. — Vou ainda hoj e para aí — sussurrou Gordon, perguntando-se se não seria m elhor falar com o m édico prim eiro. Mas a recepcionista dera-lhe porm enores suficientes, tornando desnecessária a conversa com o m édico. — Ela está consciente?
— Não, não está. Não recuperou a consciência desde o acidente e agora encontra-se sob a ação de sedativos. Perdeu m uito sangue.
Gordon ficou pensativo, sem saber o que dizer. Achava inacreditável que estivessem falando de Isabelle. Por pouco que partilhassem , por m ais afastados que vivessem , continuava a ser sua esposa. Ainda pensou em contar o sucedido a Teddy e tam bém a Sophie, que se encontrava em Portugal, m as acabou por não o fazer. Só iria assustá-los. Não havia razão para telefonar a Sophie sem saber m ais porm enores do estado de Isabelle. Achou ser m elhor não dizer nada a ninguém , até ele próprio tom ar conhecim ento da situação, a não ser que ela m orresse, entretanto. A recepcionista frisara-lhe que essa era um a hipótese. Quando desligou, sentou-se à secretária durante um longo instante, de olhos fixos no espaço. Há m uito tem po que não sentia nada pela esposa, m as era a m ãe dos seus filhos e estavam casados há vinte anos. Esperava que ela não tivesse sentido nada quando o carro foi atingido. Por instantes, sentiu-se grato por ela não ter m orrido. Porém , ficou perplexo ao verificar com o aquele fato o atingira tão pouco. As únicas em oções de que tinha consciência eram as de com paixão e pena.
Telefonou para as com panhias de aviação e perguntou o horário dos voos para Londres. Tom ou então um a decisão. Ninguém sabia do acidente. Isabelle estava inconsciente e ele precisava de tem po para assim ilar o que acontecera. Tinha com prom issos im portantes no escritório nessa tarde. Não queria partir de im ediato. Nada podia fazer em Londres e, além disso, detestava hospitais. Após alguns instantes de hesitação, fez um a reserva para o voo das cinco. Chegaria a Heathrow às cinco e m eia, hora local, e podia estar no hospital às sete. Se Isabelle m orresse entretanto, seria porque a m ão de Deus assim quisera, disse para consigo. Se ainda estivesse viva, seria um sinal de esperança. No entanto, para ela, nenhum a diferença lhe fazia ele estar ou não ao pé dela. O tem po seria m elhor em pregue em outro local, pensou. Pelo m enos, era disso que queria convencer-se.
Saiu para o escritório pouco depois e não disse nada à secretária, exceto que iria sair às três horas. Não queria fazer m uito alarde da situação. Não havia razão, a não ser que Isabelle m orresse.
Em Londres, no hospital, depois de falar com Gordon, a recepcionista que se encontrava na Unidade de Cuidados Intensivos ganhou coragem para a cham ada seguinte. O telefonem a para Gordon deixara-a algo desalentada. Este fizera tão poucas perguntas e parecera terrivelm ente calm o. Era pouco com um alguém receber um telefonem a daqueles com o ele o fizera.
A recepcionista do hospital tinha o núm ero dos Robinson à sua frente. Entretanto, duas enferm eiras passavam pelo balcão, quando atenderam do outro lado da linha. Falavam de Isabelle e tinham a papeleta dela na m ão. Por aquilo que Gordon dissera ao telefone, a recepcionista não fazia a m enor idéia de quando é que ele chegaria.
Olivia, a filha de Bill de vinte e um anos, atendeu o telefone. Eram seis da m anhã e ainda estavam todos dorm indo, m as ela ouvira o telefone. Um a voz com sotaque inglês perguntou se Mrs Robinson se encontrava em casa.
— Está dorm indo — respondeu, voltando-se na cam a. — Pode telefonar daqui a pouco? — perguntou, entre um bocej o, prestes a desligar.
— Receio não poder esperar nem telefonar m ais tarde. Pode pedir-lhe para vir ao telefone?
— Há algum problem a? — Olivia com eçou a despertar e sentou-se na cam a. Não fazia a m ínim a idéia de qual o m otivo do telefonem a, m as a voz denotava algum nervosism o.
— Tenho de falar pessoalm ente com Mistress Robinson.
Foi com ar preocupado que deu um pulo para fora da cam a e correu pelo corredor afora até ao quarto da m ãe. Ao ouvir os passos no corredor e a porta abrir-se, Cindy acordou.
— Sente-se bem ? — sussurrou no quarto às escuras. Estava dorm indo profundam ente, m as, ao fim de todos aqueles anos, possuía um sexto sentido em relação às filhas. Está doente?
— Um a m ulher inglesa ligou e diz que quer falar consigo.
Mãe e filha trocaram olhares e Cindy teve um pressentim ento. Sabia instintivam ente que era algo relacionado com Bill. Nunca se confrontara com um a situação sem elhante, m as, de repente, perguntou-se se haveria outra m ulher na sua vida.
— Eu atendo — disse Cindy, sentando-se na cam a. — Agora volta para a cam a. Mas Olivia não se m exeu. Tam bém tivera o m esm o pressentim ento.
— Fala Mistress Robinson. — Ficou m uda durante um longo instante, m as Olivia viu-a fechar os olhos. — É grave? Quando? Está consciente? — Ao ouvir isto, a filha esbugalhou os olhos.
— É o papai? — A voz estava tom ada de pânico, enquanto a m ãe abria os olhos e lhe fazia sinal para se calar. Queria ouvir tudo o que a recepcionista do hospital dizia. Mas assentiu com a cabeça em resposta à pergunta da filha, enquanto a j ovem se sentava na cam a. — Ele está bem ?
A m ãe não respondeu, continuando a ouvir a voz do outro lado da linha.
— Qual é o nom e do m édico dele? — Escreveu rapidam ente um nom e no bloco que se encontrava na m esa de cabeceira, fez m ais algum as perguntas e pediu que lhe ligassem se as coisas piorassem . — Estarei aí logo que possa. Quero que m e telefonem se algum a coisa acontecer e que m e inform em logo que ele recupere a consciência. Ligo daqui a m eia hora e digo-vos quando estarei aí. — Parecia calm a m as o olhar denotava tudo m enos isso. Quando desligou exibia um ar perplexo e Olivia lançou-se nos seus braços.
— O que aconteceu? — Havia lágrim as na voz da filha, e Cindy sentia um nó na garganta. A notícia era terrível e só tinha esperança de que o estado de Bill não fosse tão m au com o parecia. O pescoço fraturado, lesões na coluna, possível paralisia, lesões internas e ossos fraturados. Se isso acontecesse, era duvidoso que voltasse a andar. A idéia de Bill num a cadeira de rodas era im pensável. Antes a m orte. Ele próprio decerto detestaria ficar nesse estado o resto da vida E ela não se via a si própria a fazer o papel de am a-seca. E se ficasse paraplégico? Ou acam ado sem poder m exer-se. Os piores cenários não paravam de lhe aflorar ao pensam ento.
— O papai teve um acidente. Está em Londres. — Esqueci-m e de que ele disse que ficaria lá uns dias. Falei com ele há pouco tem po em Nova Iorque. Estava num carro que foi abalroado por um ônibus e parece estar m uito m al. Partiu o pescoço e a coluna foi seriam ente afetada. Saiu há pouco da sala de operações.
— Vai m orrer? — Os olhos de Olivia esbugalharam -se. Cindy hesitou por instantes, enquanto o olhar da filha ficava m arej ado de lágrim as.
— É possível, m as o papai é forte. Acho que vai se recuperar, m as ainda não sabem com o o estado dele vai evoluir. Parto para Londres hoj e.
— Vou com você. — Olivia era um a bonita garota loura, alta, elegante e com um rosto engraçado. Estudava na Universidade de Georgetown, no terceiro ano de Política Internacional. Era um a ótim a estudante e os pais tinham j ustificado orgulho nela. E, apesar do pouco tem po que passava com o pai, era louca por ele. Idolatrava-o quando era criança. Nos últim os anos, vivia fascinada com tudo o que ele fazia.
— Acho m elhor vocês ficarem aqui — afirm ou Cindy, atirando os cobertores para trás e saltando da cam a. Tinha de telefonar para a com panhia de aviação e fazer as m alas. Esperava pegar um voo por volta do m eio-dia, e levar Olivia só com plicaria as coisas. Não desej ava perturbar as filhas. Por aquilo que a recepcionista dissera, o estado de saúde de Bill era m uito grave.
— Vou com você, m am ãe — insistiu Olivia, levantando a voz à m ãe, o que era raro. — Se for preciso, com pro o bilhete e vou sozinha.