O Cadáver Atrás do Biombo
Capítulo II
O INQUÉRITO
Agatha Christie
O inquérito sobre a morte de Geraldine Tracey teve início na manhã de quarta-feira, 11 de novembro. Oliver, desleixado como de costume, o velho chapéu caído sobre os olhos, escolheu cuidadosamente seu lugar. Perto dele estava sentada uma gorda mulher de meia-idade, acompanhada de uma amiga franzina e nervosa. Oliver gostava de ouvir os comentários de pessoas estranhas ao caso, para ter uma impressão das reações do público. A mulher gorducha pertencia ao tipo das que duvidam de tudo e discordam com muita convicção das observações dos outros — o que provocava uma firme reação de sua companheira.
— Lá estão as testemunhas — apontou a gorda. — Aquele é Fisher, o tal que costumava sair de carro com a moça. Parece que é dado à bebida, você não acha?
— Aquele não é o Fisher. Vi a fotografia dele no jornal esta manhã. Não é ele.
— Você sempre convencida de que sabe tudo, Maria. É capaz de duvidar até de um santo. É ele, sim. Olhe: está roendo as unhas. Dizem que isso revela mau caráter em um homem.
— Está muito desfigurado.
— E não é para menos. Ele sabe o que estão pensando a seu respeito. Mais parece uma lesma, não acha? Dessas que a gente encontra na folha de alface, ao preparar a salada. Minha sobrinha casou com um sujeito parecido com ele. E por falar nisso, agora me lembrei que ele morreu de repente. Disseram que foi de indigestão, mas agora já estou desconfiada...
Maria sacudiu a cabeça energicamente.
— Ele não é o assassina
— Como é que você sabe?
Antes que Maria respondesse, a sessão foi aberta e as duas amigas ficaram em silêncio, as cabeças esticadas para a frente, respirando nervosamente, inebriadas pelo espetáculo.
Depois das preliminares normais, foi chamada a primeira testemunha — uma figura de discutível elegância, vestida de preto e usando, equilibrado na cabeça, um chapeuzinho de veludo.
— Seu nome é Mary Evans?
Em resposta ao delegado, ela confirmou que se chamava Mary Evans e dirigia uma loja de artigos femininos, sob o nome de Madame Evanalda. Identificou a moça assassinada, que ela havia empregado como sendo Geraldine Potts e que se demitira três meses antes. Pelo que sabia, Geraldine não era casada e nunca ouvira qualquer referência a algum parente, exceto um irmão.
O primeiro jurado pediu permissão para fazer uma pergunta:
— A senhora acha que ela era uma moça virtuosa?
— Ora essa! — exclamou Madame Evanalda, visivelmente perturbada com uma pergunta feita em linguagem vitoriana. — Não sei aonde o senhor quer chegar. A Srta. Potts sempre se conduziu com grande correção nas horas de serviço. Eu nem sonharia em permitir qualquer conduta menos digna.
— E fora das horas de serviço?
— Não tenho nada com isso. Mas não sei nada, absolutamente nada,
Madame Evanalda foi dispensada e retirou-se caminhando com muita elegância. Foi então chamado Henry Vaughan Fisher. Não podia haver a menor dúvida: o homenzinho estava assustado.
Esses grã-finos se perturbam facilmente, pensou Oliver.
Ele podia imaginar que Fisher fosse um atilado e próspero negociante, respeitado por sua sagacidade e previdência. Uma lojinha de joias em Birmingham dera início a sua fortuna. Podia também vê-lo como um atencioso anfitrião, oferecendo um jantar no Savoy, extrovertido e amável, no seu papel de quem está pagando o champanha. Ou um generoso “boa-praça” que, entretanto, sabe empregar seu dinheiro. Haverá um terceiro Fisher? Um amante ciumento que chegou a assassinar? Neste mundo, pensou Oliver, nada é impossível.
O delegado procurava amavelmente ajudar o Sr. Fisher a completar seu depoimento. Com sua experiência, Oliver percebeu qual era a intenção. A polícia não queria que o Sr. Fisher se perturbasse. Em princípio, sua história deveria ser aceita integralmente.
Sim, o Sr. Fisher fora visitar a Sra. Tracey na noite de sábado. O marido dela, segundo ele supunha, não estaria em casa. Nessa altura, a testemunha não escondia sua apreensão, mas não foi feita qualquer pergunta indiscreta.
Não, ele não conhecia o Sr. Tracey. Segundo fora informado, o Sr. Tracey era um caixeiro viajante.
Orientado pelo delegado, Fisher narrou os acontecimentos daquela noite de sábado. Ele viera de carro, tendo chegado ao bangalô às nove horas, mais ou menos. Bateu na porta, tocou a campainha, mas não obteve resposta. Finalmente, já aborrecido, tentou abrir a porta. Para sua grande surpresa, não estava trancada. Ele entrou e acendeu as luzes, atravessando o vestíbulo e entrando na sala de jantar. Ali, para seu horror, quase tropeçou no corpo da Sra. Tracey. A impressão é que ela estava morta já fazia algum tempo.
— E depois, Sr. Fisher? — perguntou o delegado, amavelmente.
— Bem... passados alguns minutos, eu... voltei para Brighton.
Fisher enxugou o suor da testa.
— Que vergonha! — exclamou a senhora gorda. Outras pessoas, perto dela, manifestaram seu apoio.
— Silêncio, por favor! — ordenou o delegado rispidamente.
— O senhor não fez qualquer comunicação à policia até então?
— Não.
— Ah, entendo!
Fisher prosseguiu, hesitante:
— Foi um grande choque para mim... um choque enorme. Sofro do coração. — (“Bebida”, murmurou a gorducha). — Tenho palpitações. Eu... continuei guiando durante muito tempo, procurando descobrir qual a melhor coisa a fazer.
— Ah, entendo! — repetiu o delegado. Com essas duas palavras externou toda a censura de que era capaz. Lamentava amargamente as limitações que impunham à policia.
— Mas afinal o senhor resolveu dar parte à polida, Sr. Fisher?
— Sim... de fato... eu... lá pela meia-noite decidi telefonar.
— Ah, entendo! — repetiu o delegado pela terceira vez, com uma entonação aperfeiçoada pela prática. Suspirou fundo. — É tudo, Sr. Fisher.
Seguiram-se os testemunhos oficiais. Como resultado do telefonema, a polícia local chegou ao bangalô pouco depois da uma hora da madrugada.
A testemunha seguinte a ser chamada foi Gladys Sharp.
— Você era a cozinheira da falecida?
— Não, apenas arrumadeira, durante o dia — respondeu ela friamente.
— Há quanto tempo estava empregada no bangalô?
— Uns dois meses.
— E foi a última pessoa que viu a Sra. Tracey viva?
— Como é que vou saber?
— Por favor, limite-se a responder as perguntas que lhe são feitas. Quando viu a falecida pela última vez?
— Às três da tarde. Eu estava indo embora, como de costume.
— Você saia sempre a essa hora?
— Não... normalmente era mais cedo, porém ela me pediu para arrumar umas coisas para o fim de semana e me atrasei um pouco.
— Você não deveria voltar antes da manhã de segunda-feira, não é verdade?
A Srta. Sharp piscou o olho, num gesto vulgar.
— O que é que o senhor acha? Que eu não iria atrapalhar?
— Faça o favor de responder as perguntas de maneira adequada.
— Está muito bem.
— Era assim que fazia normalmente?
— Sim, sempre que ela planejava uma festinha.
O delegado esteve para protestar ainda uma vez, mas afinal decidiu que era melhor deixar que a Srta. Sharp depusesse a seu modo.
— Estava sendo esperado um visitante para o fim de semana?
— Estava.
— A Sra. Tracey mencionou o nome do visitante?
— Disse que seria o marido, mas é claro que essa eu não engoli.
— O que você quer dizer com isso?
— Ora, não sou tão boba. Evidentemente era o Sr. Fisher quem viria; se fosse Tracey, ela não teria feito tantos preparativos, a não ser que ele não fosse o marido, isso eu posso garantir...
— Por favor, limite-se a responder minhas perguntas. Diga-me: você tem absoluta certeza de que o Sr. e a Sra. Tracey não eram casados?
— Acho que não tenho o que o senhor chama de absoluta certeza, mas a gente percebe as coisas, não é mesmo? Esses homens que só vêm para casa nos fins de semana e dizem que são caixeiros viajantes... Belos tipos de marido, hem?
— Este ponto já está esclarecido. Agora, vamos adiante. Você declarou que viu a Sra. Tracey pela última vez às três horas da tarde. O estado dela era normal?
— Completamente.
— Não mostrou sinais de aborrecimento ou preocupação?
— Pelo contrário, quando sai, ela estava fazendo as unhas e se embonecando toda. Oh! É claro que o Sr. Fisher viria.
— Quando foi que você soube do que havia acontecido?
— No dia seguinte. Foi minha tia quem me contou. O marido dela ouviu a história no bar, quando vinha para casa. Levei um susto enorme e comentei: “O quê? Assassinada?”
— Obrigada, Srta. Sharp. É tudo.
Não muito feliz por ter sido interrompida justamente quando ia soltar a língua, a Srta. Sharp deixou o banco das testemunhas.
O laudo médico encerrou a parte preliminar. Era um documento técnico e sem comentários. Traduzido em linguagem para leigos, o relatório dizia que a falecida fora apunhalada com um instrumento afiado, de lâmina triangular, que lhe atingira o coração. O ferimento não poderia ter sido produzido pela própria vítima. O médico não se julgava em condições de opinar a respeito da natureza da arma. Não fora encontrado qualquer instrumento que pudesse ter sido utilizado. O exame do corpo se realizou à 1:30 da madrugada. A morte ocorrera entre quatro e seis horas antes. Impossível determinar exatamente.
O inquérito foi então suspenso por uma semana.
Muitas pessoas, além de Beryl Blackwood, achavam que Oliver tinha “um jeito especial” para conquistar simpatias. Gladys Sharp não escapou à lábia do repórter.
Ela mesma não saberia explicar como tudo aconteceu, tão ansiosa estava para abrir-se com alguém que fosse capaz de escutá-la. O fato é que, quando deu conta de si, já aceitara o convite e se encontrava sentada a uma pequena mesa do Café Lido, tendo à frente um simpático jovem de cabelos vermelhos.
Oliver percebeu o fraco da Srta. Sharp e pediu à garçonete que servisse chá, bolos, massas folheadas e, depois de muitas explicações, duas misteriosas iguarias com os nomes de Manhã Gloriosa e Doce de Chocolate Delícia.
Quando a Srta. Sharp deu a primeira dentada em uma apetitosa fatia de bolo coberta de sorvete, Oliver puxou a conversa.
— Foi um espetáculo extraordinário este de hoje. Na minha opinião, o delegado não soube conduzir o interrogatório. Você poderia ter dado um depoimento muito mais valioso, se ele não atrapalhasse, evidentemente de propósito.
— Justamente o que eu acho. Interrompendo-me daquela maneira! Se eu tivesse contado tudo o que sei... — acrescentou ela, sacudindo a cabeça.
— Ah! Percebi logo que você é discreta por natureza. Conheço as pessoas.
— Não sei como foi o que o senhor percebeu, mas é a pura verdade. Sempre desconfiei daqueles dois. Quando chegava no sábado, ela me dispensava e não queira saber o estado da louça na segunda de manhã! Nem sequer uma colher lavada. Tudo empilhado na pia da cozinha a ela toda empoada!
— Incrível — comentou Oliver. — E Tracey, como era ele?
— Só botei os olhos nele uma única vez. Um sujeito do tipo comum.
— Assim como eu?
— Ora, o que é isso? Imagine. Como o senhor! Vê-se logo que é uma pessoa fina. Boa pinta, como dizem por aí. Mas esse tal de Tracey... Bem, ele era do tipo comum.
— Louro ou moreno?
— Oh, bem moreno.
— Alto ou baixo?
— Altura média.
— Os olhos, de que cor?
— Azuis, acho eu... não, parece que eram castanhos. Na verdade, não me lembro. Nunca cheguei muito perto dele, entende?
— Prove mais um destes — ofereceu Oliver, aproximando mais dela o prato.
— Bem, já que o senhor insiste... — disse ela, apanhando outra fatia.
— Ele não tinha qualquer traço característico? Orelhas de apagar vela, caminhar coxeando, coisas assim?
— Não — respondeu Gladys — mas usava bigode! — acrescentou entusiasmada.
— Bom, mas é tão fácil raspá-lo, não lhe parece? É estranho que ele não tivesse aparecido, não acha?
— Ele não se arriscaria assim.
— O que quer dizer?
— Que foi ele, é claro. Quem mais poderia ter sido?
— Bem... Há o nosso amigo Fisher, o homem que esteve lá.
— O Sr. Fisher é uma excelente pessoa.
— Ah! — exclamou Oliver, vendo mentalmente uma nota de uma libra escorregada para a mão dela. — Claro que é um sujeito distinto.
— Foi Tracey quem a matou, não tenha dúvidas. Brigavam muito, sabe? Como cão e gato. Não que eu tivesse ouvido alguma coisa, mas percebi sinais várias vezes nas manhãs de segunda-feira. Os homens querem as coisas sempre à moda deles. Deixam uma garota sozinha em um fim de mundo a semana inteira... Para mim, ele voltou naquele dia, houve briga e ele a liquidou. Segundo ela me disse, o sujeito era muito ciumento.
— Sim, talvez você tenha razão. A intuição feminina é uma coisa muito séria. Entretanto, tenho um palpite de que Tracey já está morto. O corpo vai aparecer a qualquer momento. O terceiro assassinato...
— Manhã Gloriosa — disse a garçonete, com um sorriso de cumplicidade.
Oliver contemplou com fascinado horror a montanha de sorvete de creme e morango, uma rodela de abacaxi, duas ou três cerejas, molho de chocolate, algumas nozes, uma banana em fatias e os restos de uma lata de ameixas cozidas.
— Não é de admirar — murmurou Oliver — que as mulheres tenham intuição. Elas bem que precisam disso.
— O senhor não está comendo nada.
— Dieta — apressou-se Oliver a explicar. — Tenho a impressão — acrescentou com ar pensativo — de que deve ser muito triste morar em um lugar tão isolado.
— Ah, para mim era um sacrifício. Tinha de caminhar até o ônibus, que passava só de hora em hora. Depois, 45 minutos para chegar em Brighton. Não é de admirar que ela se enchesse. Os homens são uns egoístas, não se pode negar. Retirar uma garota do meio de seus amigos e esperar que ela fique feliz metida em um buraco, sem nada para fazer o dia inteiro! Naturalmente ela se apoiou no Sr. Fisher. Olhe: não serei eu quem vai condená-la.
— Você é muito bondosa.
— É claro que eu não teria ficado se o lugar não fosse respeitável. Sou uma pessoa de bom gênio, desde que não me pisem nos calos. Ainda na tarde da última sexta-feira ela veio falar comigo, furiosa, apenas porque eu estava usando, para prender os cabelos, um desses grampos ornamentais, com uma cabeça de jade. Que mal havia nisso, pelo amor de Deus? Pois ela ficou possessa.
— Que injustiça! — comentou Oliver. — Você deve ter uma enorme experiência a respeito da natureza humana. Como era a sua patroa anterior?
— O sobrenome era Catsby. Uma fera! Imagine que...
— Doce de Chocolate Delícia — interrompeu a garçonete.
— Parece muito gostoso, não acha? — comentou Gladys.
Oliver estremeceu, apavorado. Nunca tinha visto um sorvete assim.
— Catsby... — disse Oliver, olhando para o teto. — Será daqueles Catsby que moram em Monmouth Drive?
— Não. É a Sra. Walter Catsby, da Avenida Maidstone, 18. Como eu ia dizendo... O que era mesmo que eu ia dizendo?
Nesse momento Oliver levantou-se da cadeira e olhou para o relógio de pulso com uma exclamação de pesar.
— Santo Deus! Tinha-me esquecido completamente de um encontro muito importante. Você não leva a mal se eu me retirar agora? Tive o máximo prazer em conhecê-la.
— Oh, não se preocupe — respondeu Gladys, saboreando o Chocolate Delícia.
Oliver pôs uma cédula no bolso da garçonete e saiu apressadamente do Café Lido. Havia uma porção de coisas que ele queria fazer antes de regressar a Londres.
Começou dando um telefonema para a Avenida Maidstone e tendo a sorte de conseguir uma entrevista com a Sra. Catsby. Improvisando uma história a respeito de uma irmã inválida, Oliver conseguiu alguns detalhes sobre a personalidade de Gladys Sharp. A Sra. Catsby — uma matrona respeitável — foi muito franca:
— Perigosa, muito perigosa. Tenho o dever de alertar o senhor. Ela fala demais. Mexeriqueira.
Oliver disse que tivera essa impressão.
— E se o senhor reclamar, ela se torna vingativa. Tive vários exemplos. Pura maldade. Um bico de gás deixado aceso a noite inteira, apenas para aumentar a conta. E quebrou uma porção de minhas melhores porcelanas. Não se pode provar nada, naturalmente. Também tenho sérias dúvidas de que ela seja uma moça séria. Eu mesma tive ocasião de vê-la acompanhada de homens de aspecto muito estranho. E imagine onde ela esteve empregada ultimamente? Talvez tenha escondido de sua irmã este fato. No Bangalô Isolado, Sr. Oliver! Agora eu pergunto ao senhor: uma moça decente iria envolver-se em um caso de assassinato? Quanto à honestidade — apressou-se a Sra. Catsby a acrescentar, sem dar tempo a Oliver de responder à última pergunta — devo confessar que jamais dei falta de nada. Mas fora isso, acho que ela é capaz de tudo. Não queira saber as coisas impertinentes que ela me dizia!
— Então ela não era de confiança?
— Adotei como norma nunca acreditar no que ela dizia — respondeu a Sra. Catsby. — É sempre assim que procedo e olhe que tenho uma larga experiência. Estou sempre trocando de empregada.
— Entendo — disse Oliver. — Muito natural
— Adeus, senhor — arrematou a Sra. Catsby, estendendo-lhe a mão. — Fiquei muito contente porque veio pessoalmente. Se fosse por escrito, eu seria obrigada, naturalmente, a dizer que ela era honesta e digna de confiança. A língua é mais poderosa que a pena, Sr. Oliver.
— Estou começando a acreditar que a senhora tem toda a razão — respondeu o repórter, retirando-se.
Antes de regressar a Londres, ele resolveu ir até a cena do crime — deserta àquela hora da noite. Como Gladys dissera, o lugar era muito isolada
Oliver identificou sem dificuldade o toco de árvore onde Johnson fizera sua sensacional descoberta. Foi uma pena que ele não tivesse descrito os detalhes quando telefonou! Infelizmente, parece que o telefonema foi feito do botequim mais próximo e, como é natural, ele falou o menos possível, com receio de que pudesse estar sendo seguido.
Será que havia alguém escutando? Alguém que tivesse visto quando ele achou a arma?
Oliver olhou em torno de si, com um ligeiro arrepio. O bangalô estava situado apenas a algumas centenas de metros. O repórter aproximou-se. De repente, suspendeu a respiração. Como uma sombra imprecisa, ele viu o vulto de um homem que tentava forçar uma das janelas. Silenciosamente, Oliver atravessou o pátio gramado. O homem pressentiu a presença dele e voltou-se. O repórter projetou a luz de sua lanterna em cheio no rosto do outro. Era um homem de meia-idade, bem barbeado, com uma feia cicatriz em uma das faces.
— Que diabo é você? — berrou o sujeito.
— E que diabo você está fazendo aí, forçando essa janela? — retorquiu Oliver.
O homem deu uma risadinha debochada:
— E por que não posso fazer? Pode estar certo de que tenho mais direitos que você. Este bangalô era de Geraldine Tracey e eu sou irmão dela, Arthur Potts. O que tem a dizer?