O Cadáver Atrás do Biombo
Capítulo XII
O FURO JORNALÍSTICO FINAL
Dorothy L. Sayers
O Inspetor Smart encontrou Oliver no corredor da nova Scotland Yard.
— Alô! — disse o repórter. — Justamente o homem que eu estava procurando. Tenho boas novas para o senhor. A respeito de Hemingway. Descobri que ele era Tracey.
O Inspetor segurou Oliver pelo braço, amavelmente.
— Vamos entrar, por favor.
— Eu agora pertenço ao corpo redatorial do Daily Courier. não sei se o senhor sabe — informou Oliver, logo que os dois entraram no gabinete de Smart. — Tive de pedir demissão, quando soube que as suspeitas estavam recaindo sobre Redman. Não podia continuar trabalhando lá, tratando de um crime em que o acusado era o meu próprio chefe, entende? É um negócio meio esquisito. Entretanto — acrescentou o repórter — depois daquele ataque covarde na noite passada, pouco me importa quem sofrerá as consequências. E, apesar de tudo, acho que escrevi uma boa reportagem — concluiu com orgulho.
— É, eu li — disse o Inspetor. Espero que a Srta. Blackwood esteja passando bem.
— Muito bem — replicou Oliver. — E a propósito, estamos pensando em nos casar no Ano-Novo.
O Inspetor apresentou suas congratulações, mas não deixou de perguntar:
— E a respeito de Hemingway?
— Pois é. Quando descobrimos que o agressor da Srta. Blackwood não podia ser Redman, comecei a pensar na possibilidade de o homem ser Hemingway. E que ele fosse também o misterioso viajante que trabalhava além de Charing Cross. Afinal, ele não tinha álibi para a noite do crime de Jumbles.
— Não tinha — confirmou Smart. — Sua declaração foi que havia ido ao cinema e voltado para casa às 11 da noite. Não conseguimos provar nem uma coisa nem outra. Todavia, se ele fosse Tracey, teríamos como prova os outros fins de semana que ele passou no bangalô. Rebuscamos tudo isso e concluímos que, quando ele não ficava em casa, ia jogar golfe com um amigo chamado Pyecraft, que mora perto de Guildford. Pyecraft confirmou tudo direitinho. Até costumava ir buscar Hemingway em seu carro. A Sra. Hemingway estava bem a par de tudo.
— Tudo muito bonito — replicou Oliver. — Mas o senhor não granjeou a confiança de Pyecraft. Eu consegui que ele batesse com a língua nos dentes. O obsequioso Pyecraft vinha já há algum tempo cobrindo os pecadilhos de Hemingway. Seu trabalho era apanhar Hemingway nos sábados pela manhã, levá-lo para sua casa, dar-lhe almoço e jogar com ele uma partida de golfe. Logo depois, levá-lo à estação, onde ele pegava um trem cujo destino Pyecraft nunca procurou saber. Se havia um telefonema da mulher desconfiada, a resposta era que o Sr. Hemingway estava em companhia do Sr. Pyecraft, ausente no momento, mas que chamaria tão logo regressasse. Hemingway, por sua vez, telefonava regularmente todas as noites em que se ausentava. Dizia que estava falando da casa de Pyecraft. Tipo do marido atencioso, não acha?
— Hum — resmungou Smart, francamente aborrecido.
— Não creio que Pyecraft seja um cúmplice — continuou Oliver. — Apenas um salafrário. Declarou-me que jamais procurou saber onde Hemingway se metia nos sábados, apenas que tinha um caso amoroso em algum lugar isolado. Parece que certa vez Hemingway confidenciou-lhe que conhecera a garota em Hyde Park e a impressão de Pyecraft era que seu amigo estava desesperadamente apaixonado pela moça.
— Entendo. Isso elimina alguns pontos obscuros. Mas se Hemingway era realmente Tracey, o que você acha que aconteceu exatamente naquele bangalô, na noite do assassinato? Aqueles dois grampos, por exemplo... Como é que eles apareceram?
— Imagino que as coisas se tenham passado assim — replicou Oliver. — Hemingway “descobriu” a garota, como disse Pyecraft, e Geraldine percebeu as vantagens que podia usufruir. Sem dúvida, uma casa própria, perto de Brighton, com uma mesada regular e uma empregada para ajudar na cozinha, era bem melhor do que sua situação de vendedora. Todavia, Jumbles não é Brighton, muito longe disso, e o depoimento da empregada o confirma; em breve Geraldine se sentiu farta de tanta solidão. Hemingway, naturalmente, somente podia estar lá esporadicamente e nos fins de semana, de modo que, quando o gato se encontrava ausente, o ratinho arranjava umas brincadeiras com nosso amigo Fisher. Quanto aos grampos... Hemingway comprou o primeiro em Broad Street...
— Espere um minuto — interrompeu Smart. — Por que foi que ele disse chamar-se Dedham ou Deadman, quando fez a compra?
— Um simples reflexo de precaução, acho eu — replicou Oliver. — De repente, a mulher da loja perguntou qual o nome dele e ele deu o primeiro que lhe veio à cabeça. Desconfio até que ele disse Redman, talvez mesmo com a ideia de aproveitar a sua ligeira semelhança com Redman como uma espécie de cobertura para suas atividades, no caso de alguém suspeitar de alguma ligação entre o bangalô de Jumbles e o Morning Star. Do que tenho certeza é que, quando ele ia a Jumbles, virava as pontas de seus bigodes para baixo, do jeito que Redman usa, ao invés de conservá-las espetadas para cima. Pyecraft achava muita graça nisso e dizia que esse simples detalhe alterava bastante sua fisionomia. Os óculos de aros de ouro também faziam parte da imagem de Redman. Hemingway costumava usar pincenê.
— Segundo entendi — disse Smart — ele compra o grampo em Broad Street e dá de presente a Geraldine. Quando ficamos sabendo da história desse grampo, interrogamos Fisher a respeito. Ele declara que um dia viu o grampo no bangalô e interpelou Geraldine. Parece que a moça não dera muita importância ao presente, até que ele lhe disse que era uma joia valiosa e devia ser usada aos pares. Ela então ficou louca para ter o segundo grampo e Fisher prometeu que iria arranjá-lo. Bem, na sexta-feira, 6 de novembro, ele descobre um grampo semelhante na Casa Araby, em Bond Street, e o envia pelo correio para Geraldine. Junto com o presente foi uma carta, sugerindo uma visita na noite seguinte, como uma espécie de recompensa por todo o trabalho que ele tivera. Agora, preste atenção. Hemingway... isto é, Tracey, não estava programado para vir naquele sábado, de modo que Fisher pensou que tudo ficara arrumado.
— Por que Hemingway avisou que não viria? — perguntou Oliver.
— Na minha opinião — respondeu Smart — ele estava começando a desconfiar da ligação de Geraldine com seu amigo Fisher e resolveu aparecer de repente, para certificar-se do que estava acontecendo.
— Isso é muito provável — concordou Oliver. — Então ele chega, digamos, às 7:30 ou 8:00 da noite e encontra a moça toda enfeitada com seu par de grampos, esperando o generoso amigo Fisher.
— Precisamente. E percebe que ela está nervosa e nada contente por vê-lo. Hemingway pergunta o que há com ela e então repara no segundo grampo e pergunta quem foi que lhe deu a joia. Ela confessa que o generoso e rico Sr. Fisher comprou para ela em Bond Street. Então houve a natural explosão.
— Estou vendo a cena — disse Oliver. — Hemingway arranca dos cabelos de Geraldine o grampo que Fisher lhe dera e o crava no coração dela.
— Não, não — protesta Smart — O grampo que Johnson encontrou foi o da Broad Street. Ele o reconheceu.
— É verdade. Sei como foi. Hemingway tomou o grampo de Geraldine e disse que iria devolvê-lo ao amiguinho dela. Então a moça atirou-lhe no rosto o grampo que ele lhe dera e teve uma crise de nervos, dizendo que nunca mais queria ver de novo aquele presente, preferindo o ofertado pelo Sr. Fisher. Foi então que, desesperado, Hemingway feriu-a com o grampo... o próprio, comprado por ele, atingindo-lhe o coração.
— E há mais — acrescentou Smart. — Hemingway perde a cabeça e sai correndo, com o grampo de Broad Street na mão e o de Fisher no bolso.
— Sim... é possível... E então se dá conta do que está fazendo e esconde o grampo de Broad Street na árvore onde mais tarde Johnson o encontra.
— Formidável! — exclamou Smart. — Tudo se encaixa direitinho. Depois, a primeira noticia que ele tem é que Fisher encontrou o corpo de Geraldine e é considerado suspeito de tê-la assassinado. Nada mais conveniente para Hemingway. Mas então, na noite de segunda-feira, acontece o telefonema de Johnson, mencionando o grampo de Broad Street.
Oliver bateu com a mão espalmada na mesa.
— Mas está claro! — exclamou. — E agora compreendo uma coisa que sempre me intrigou. Foi por isso que Hemingway fez questão de receber pessoalmente o telefonema de Johnson, ao invés de fazê-lo ditar para o estenógrafo, como de costume. É que ele queria alterar Broad Street para Bond Street, a fim de incriminar Fisher. Foi por isso também que ele fez todo aquele espalhafato, relativo à chegada de Johnson com sua reportagem, em lugar de encaminhá-la diretamente para a redação e para a tipografia.
— Acho que você tem razão — comentou o Inspetor.
— Bem, nesse caso, Hemingway deve ter preparado sua manobra antes de ter deixado o escritório. Foi em casa, apanhou o grampo de Bond Street, o grampo de Fisher, escreveu o aviso NÃO FUNCIONA para a cabine e se dirigiu para a Estação Vitória, a fim de encontrar-se com Johnson. O que ele teria dito, quando chegou lá?
— Deve ter pedido para ver a arma — sugeriu Oliver — e conversado sobre a reportagem, a manchete, coisas assim. Depois, levou Johnson para a cabine.
— Sob que pretexto?
— Ora, poderia ter sugerido um telefonema para a loja de Broad Street, perguntando se a proprietária estava disposta a reconhecer o grampo. Empurrou Johnson para dentro e paft! Um único golpe e adeus Johnson e sua prova. Repare que foi utilizado não o grampo de Broad Street, mas o de Bond Street, o grampo de Fisher, que foi deixado no local, adequadamente manchado de sangue e em condições de ser logo encontrado, documentando a culpabilidade de Fisher. Desse modo, tudo se encaixaria direitinho, não fosse o detalhe de a Srta. Blackwood haver recebido aquele telefonema... Devo confessar — interrompeu-se Oliver — que pensei que Hemingway tivesse um álibi para todo esse tempo que gastou para ir à Estação Vitória.
— Eu também — admitiu Smart, constrangidamente — mas o álibi é forjado.
Contou então a Oliver o truque do sinal da hora certa e o atraso dos relógios.
— Essa é ótima! — exclamou o repórter. — Sensacional! Dê-me licença, mas tenho de ir imediatamente para o Courier, completar a reportagem. Eu...
— Não pode fazer isso, Sr. Oliver. Estou seguindo para Jumbles, para trazer Gladys Sharp; se ela identificar Hemingway como sendo Tracey, poderemos prendê-lo ainda esta tarde.
Hemingway, regressando para a redação do Morning Star depois do almoço, passou os olhos, como se acostumara a fazer, pelo grupo de curiosos que se aglomeravam junto ao tabique que protegia as obras de demolição do velho edifício do Morning Star, a fim de que fosse erguida, no mesmo local, a nova e sofisticada sede do jornal. Sim, o homem estava lá. Um sujeito grandalhão, que Hemingway havia notado, nos últimos dois dias, andando por ali — realmente, desde que o nome de Redman fora mencionado em conexão com o ataque a Beryl Blackwood. Um curioso muito persistente.
Ao entrar no edifício pela porta da frente, ele deparou com outro sujeito cujo corpanzil lhe era vagamente familiar — um camelô, empurrando um carrinho cheio de maçãs.
Hemingway franziu o cenho. Procurara convencer-se de que toda aquela vigilância era dirigida contra Redman, mas sofria agora a desagradável sensação de estar sendo vigiado durante toda a manhã, tanto em sua casa em Hampstead como durante o percurso pelo metrô.
Tomou o elevador para seu gabinete mas, ao invés de despachar o expediente, deixou-se ficar imaginando coisas, comportando-se de maneira muito pouco habitual. Aquele tal de Smart estivera de novo no escritório, fazendo perguntas. Felizmente, o álibi para aquela noite do assassinato de Johnson era absolutamente perfeito. Havia, porém, outras coisas.
Com a mão direita verificou o conteúdo do bolso do paletó. Havia uma providência que ele já devia ter tomado, algo de que tinha de livrar-se. Mas onde e como? Passou os olhos pela sala. O subeditor lá estava, discutindo com o chefe da tipografia e agitando umas folhas impressas. Não havia a menor privacidade naquela sala de redação. Também era arriscado esconder qualquer coisa em Hampstead. E ele desconfiava que a polícia já obtivera um mandado de busca.
A campainha do telefone tocou. Dois navios haviam colidido no meio do Canal da Mancha. O que mais se poderia esperar daquele nevoeiro todo? Hemingway tomou as decisões que devia e deu suas ordens mecanicamente.
A tarde parecia escoar-se com uma lentidão enervante. Trouxeram-lhe uma taça de chá, que ele bebeu sofregamente. Houve um problema na composição da página nove. Preocupado em resolvê-lo, ele quase esqueceu suas ansiedades e, quando a campanha do telefone tocou outra vez, Hemingway atendeu naturalmente.
— O Inspetor Smart deseja vê-lo, senhor.
Hemingway engoliu em seco.
— Peça-lhe que suba.
O subeditor levantou os olhos, interrogativamente.
— Sim — disse Hemingway com a garganta seca. — É melhor você sair, Perkins. E avise que não deveremos ser perturbados.
Perkins saiu pela porta de vidro que ligava o escritório à sala da redação. Hemingway olhou para trás de sua escrivaninha, onde havia uma segunda porta, agora fechada, porque conduzia aos antigos escritórios, ora em processo de demolição. Hemingway dirigiu-se rapidamente para a porta, abriu-a e passou a chave para o lado de fora.
Nesse momento, o Inspetor Smart entrava no escritório, com outra pessoa meio oculta atrás dele.
— Como vai, Inspetor? — exclamou Hemingway espalhafatosamente. — É um inesperado prazer.
— Boa-tarde, senhor — respondeu Smart, dando um passo para o lado e deixando visível a pessoa que o acompanhava.
— Ora vejam só — disse esta. — Sim, não há dúvida, é o Sr. Tracey. Quase que não o reconheci por causa do bigode com as pontas viradas ao contrário.
Hemingway hesitou, a mão procurando o bolso; depois, deu alguns passos para trás da escrivaninha.
— Não adianta reagir, senhor — preveniu Smart — É melhor entregar-se. Assassinato em Jumbles, Sr. Hemingway, e na Estação Vitória também. Estivemos verificando aquela história da hora certa... Oh, não! Espere aí!
Os dois homens correram para a porta de trás. A mão de Hemingway mergulhou no bolso do paletó. Houve um brilho de aço e um grito de dor. A seguir, ele abriu a porta, passou e fechou-a por fora, cortando o caminho de Smart que, com um braço escorrendo sangue levava o apito â boca e, com o outro, procurava forçar a porta.
Hemingway correu ao longo dos corredores desertos, subiu e desceu escadas, tentando uma saída após outra. Um ruído distante atrás dele avisou-o de que a porta fora arrombada, mas ainda havia esperanças. A escada de ferro para a tipografia, depois a escavação do novo edifício. Com certeza poderia escapar por ali.
E correu. Atravessou os escritórios agora vazios, passou para a nova sala de redação e alcançou a porta da escada de ferro. Arquejando, chegou ao topo e se deteve.
O antigo bloco que era ligado pela escada de ferro fora demolido. O ronco do tráfego de Londres subia até ele, como se furasse o nevoeiro. Um enorme guindaste se balançava sobre sua cabeça. Sessenta metros mais abaixo, um grupo de operários ultimava a demolição.
Hemingway ouviu alguém gritar atrás dele. Soaram passos no corredor. Ele saltou, em desespero, para o andaime. Alertado por um apito, o guindasteiro girou o enorme braço de ferro, transportando uma escada para junto do andaime. Aquela possível saída estava agora fechada. Hemingway decidiu, desesperado, enfrentar seus perseguidores mas, ao voltar-se, escorregou na prancha engraxada.
Suas mãos se agitaram no ar durante um instante crucial. E então, tudo girou em torno dele, como uma roda perdida, enquanto o chão subia velozmente a seu encontro.
No momento em que o Inspetor Smart, com o braço improvisadamente colocado em uma tipoia, se inclinava sobre o corpo de Hemingway, percebeu a presença de Oliver junto dele.
— Que pena! — exclamou o Inspetor. — Lá se foi o meu caso. Justamente quando consegui a última prova que me faltava!
Esticou o braço livre. Na palma da mão estava um punhal fino e comprido — um grampo oriental com a cabeça de uma deusa entalhada em janela verde.
— Tem razão — disse Oliver, contemplando com um estremecimento o corpo mutilado de Hemingway. Entretanto, o instinto profissional fez-se sentir. — Tem razão, mas veja só, já posso publicar minha reportagem!
O chefe da tipografia do Daily Courier vigiava, do alto da galeria, a preparação do serviço de suas máquinas. As páginas externas, ainda quentes da impressão, tinham sido retiradas dos cilindros, colocadas em pilha, prontas para a composição dos cadernos. Eram 11 horas. Ele levantou a mão para acionar o interruptor.
— Tudo pronto aí embaixo? Vamos lá!
Ouviu-se um estalido. Com um ronco crescente e firme, as máquinas começaram a rodar. O papel foi passando pelos rolos. Milhares e milhares de exemplares do Courier foram-se amontoando, para contarem, a um inundo sedento de sensacionalismo, os crimes de um editor da Fleet Street e sua morte trágica. Por todo o edifício, o pessoal esfregou as mãos, satisfeito.
— Foi um belo furo para o Courier, sem dúvida. Um furo jornalístico sensacional!
FIM
FONTES ARQUIVO .DOC
FORMATAÇÃO .EPUB
2013
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Agatha Christie e outros