O Cadáver Atrás do Biombo
Capítulo VI
O SR. PARSONS EXPLICA O CASO
Ronald Knox
Existe bondade até mesmo nos corações mais empedernidos. O Sr. Parsons — “o nosso vizinho bexigoso” — espontaneamente convidara Wilfred Hope para passar a noite em sua casa e ficar perto da cena do crime, depois daquelas horas angustiosas em que o jovem estudante vira seu futuro cunhado, Robert Ellis, detido pela polícia para novas averiguações, e sua noiva, em companhia dos pais, permanecerem sob evidente vigilância e suspeição. O Sr. Parsons chegou mesmo a preparar uma dose de uísque para Wilfred, depois do jantar, distinguindo seu hóspede com inequívocos sinais de consideração.
— Sinto-me tão desanimado! — estava dizendo Wilfred. — Sei agora, relatado por eles mesmos, todos os movimentos dos Ellis durante a noite de ontem e estou certo de que nenhum deles tem algo a ver com o golpe que liquidou Dudden. O mistério continua e sabe lá que caso a polícia está tramando, para ocultar sua própria incompetência?
O Sr. Parsons se conduziu então de maneira um tanto estranha. Dirigiu-se ao armário da sala de jantar e, abrindo-o, revelou um painel corrediço na parede.
— Tenho certo orgulho disto — confessou. — Fui eu mesmo quem o instalou. Dá para a copa, como vê. É a janelinha que permite brincar de espião. Costumo chamá-la de meu confessionário, pois, indo para a copa, posso ouvir tudo o que for dito aqui nesta sala. Foi o que fiz esta tarde, sabe? Quando o Inspetor Rice pediu a sala emprestada e teve sua entrevista com o verdadeiro criminoso.
— O verdadeiro criminoso? Então o senhor sabe quem é? Oh, pelo amor de Deus, diga-me seu nome; não faça tantos rodeios.
— Devagar, Sr. Hope, devagar. Vamos trocar confidências. Você conhece a história contada segundo os Ellis. Conte-me toda ela primeiro e prometo que a completarei com minha parte.
— Está bem, vou contar, mas bem resumidamente, porque o senhor não quer falar primeiro. Houve naquela noite três projetos e todos entram na história, embora nenhum fosse de assassinato. Dudden insistira com Amy para que ela tivesse uma entrevista comigo, para romper nosso noivado, enquanto ele ouviria tudo, escondido atrás do biombo. Dudden então saiu da sala de jantar, bateu com força a porta da frente, dirigindo-se sorrateiramente para trás do biombo, a fim de escutar a entrevista. A Sra. Ellis, pensando que ele realmente sairia de casa ontem, tinha contratado aquele tal de Hulk para segui-lo e assaltá-lo, a fim de roubar-lhe certos documentos.
— Que documentos? — perguntou o Sr. Parsons.
— Um cheque, se quer saber, com a assinatura de Dudden falsificada por Robert, mais a confissão do rapaz de que cometera a falsificação. Isto, é claro, não aconteceu; Hulk rondou a casa para receber as instruções finais e o pagamento mas, como Dudden não chegou a sair, ele esperou em vão.
— E o terceiro projeto?
— Este foi de Amy. Bem que suspeitei de alguma coisa, pela maneira como ela me interrogou, na semana passada, sobre os efeitos dos narcóticos. Sou estudante de medicina, como o senhor sabe. Bem, Amy conseguiu um pouco de morfina e pôs na cerveja que Dudden deveria beber no jantar. A ideia dela era que ele ficasse anestesiado, quando se instalasse atrás do biombo, permitindo que ela lhe roubasse os documentos. Na realidade, como agora sabemos, tais documentos se encontravam no escritório de Dudden e não em seu bolso.
O Sr. Parsons não pôde conter uma risadinha irônica.
— Essa é muito boa. Não se tratava do cheque de Dudden?
— Pelo amor de Deus, não interrompa. Quando ele se levantou da mesa, Robert o seguiu, pensando em fazer mais um apelo, penso eu. Ao passar pelo saguão, viu meu estojo de material cirúrgico e retirou um dos bisturis, para defender-se, segundo declarou. Quando entrou na sala de estar, a droga já estava produzindo seus efeitos em Dudden, que pareceu não tomar conhecimento da presença de Robert. Essa atitude deixou o jovem furioso, levando-o a desfechar o golpe com o bisturi. Dudden caiu pesadamente. Na ocasião não saiu muito sangue, mas Robert, nada sabendo a respeito da morfina, pensou que tivesse cometido um assassinato. Ao ver as mãos e os punhos da camisa manchados de sangue, dirigiu-se rapidamente para o banheiro, a fim de lavar-se. Ele não se lembrou de que a Sra. Hulk viria correr as cortinas, como de fato aconteceu alguns minutos depois, cerca das 9:25, e encontrar o corpo, como ela disse, atrás do biombo.
— Robert não receou que o restante da família viesse também para a sala de estar?
— Isso seria o normal, porém Amy providenciara para que todos aguardassem na sala de jantar a minha chegada, alegando que queria falar comigo a sós na sala de estar. Não era a primeira vez que isso acontecia, embora o Sr. Ellis não gostasse de retardar seu jogo de paciência. Ao ver que a Sra. Hulk já encontrara o corpo, ela subiu as escadas para saber o que Robert estava fazendo. Os dois irmãos desceram juntos e procuraram os documentos, nada encontrando. Então a Sra. Hulk apanhou o bisturi e levou-o para a cozinha. Neste momento, o restante da família se levantava da mesa e se dirigia para a sala de estar. Robert não teve coragem de confessar o que fizera. Sentou-se e ouviu a leitura costumeira, com a esperança de que nada fosse notado antes que todos se retirassem para seus quartos. O pobre infeliz pretendia enterrar o corpo no jardim, durante a noite.
— Então foi assim que você encontrou a família? Robert sabendo que Dudden estava morto atrás do biombo; Amy pensando que o homem se encontrava apenas drogado; a Sra. Ellis com a esperança de que Dudden tivesse sido assaltado na estrada; a aparência era de uma dessas tranquilas reuniões de família em tomo da lareira. Mas você acha que alguma coisa continua inexplicada?
— Tudo continua inexplicado. Robert não tinha dúvida de que produzira apenas um leve ferimento. Mas houve um segundo golpe, mais profundo, que provocou a morte. Não posso acreditar que a Sra. Hulk fosse capaz de tal ato e ela jura que o homem já estava morto quando o encontrou. Naqueles cinco minutos, mais ou menos, entre 9:20 e 9:25, alguém deve ter entrado e desferido o segundo golpe. A que conclusão nos leva isso? E como o advogado de Robert vai provar que houve esse segundo golpe e que o jovem não é o assassino? O senhor disse que sabe quem é o verdadeiro criminoso. Já contei tudo; agora é a sua vez.
— Estranho, muito estranho — comentou o Sr. Parsons. — Todavia, tudo se encaixa direitinho. Como já lhe disse, tomei a liberdade de ficar escutando atrás do painel, lá pelas cinco horas desta tarde. Ouvi então aquela costureira... Pettigrew é o nome dela, não é?... confessar ao Inspetor Rice que encontrara o corpo de Dudden na sala de estar, mais ou menos ás 9:20, e o golpeara com toda a força, para certificar-se de que ele estava realmente morto.
— O senhor disse que foi a costureira? Mas como poderia ter sido ela? Por que razão entraria nessa história? Deve estar maluca.
— Não penso assim. Considere o seguinte: Rice investigara a vida pregressa de Dudden e descobrira que ele tinha uma mulher, a quem abandonara e cujo nome de solteira era Pettigrew. Depois, examinando as contas da Sra. Ellis, verificou que a costureira estava cobrando preços ridiculamente baixos, evidentemente para ter acesso à casa onde morava seu infiel marido. Ela estava esperando no saguão que Dudden passasse, tendo acabado de saber que ele pretendia casar-se com Amy. Decidida a vingar-se, encontrou o ex-marido já aparentemente morto e deu vazão a seu ódio, enterrando-lhe o bisturi na garganta. Usava luvas e foi muito cuidadosa. A seguir, abriu a porta da frente e foi-se embora. Isso aconteceu pouco antes das 9:25, quando fui colocar minhas cartas no correio; se não fosse isso, eu a teria visto.
— Então... — comentou Wilfred — está tudo bem? A acusação de assassinato vai ser feita contra ela, a pobre infeliz? E Robert, na pior hipótese, poderá ser condenado apenas por tentativa de morte. Enfim, demos graças a Deus por tudo haver terminado dessa maneira,
— Sim — replicou o Sr. Parsons — acho que é o que vai acontecer. É claro que, se eu expuser minha teoria à polícia, ela terá de pensar duas vezes, mas não quero provocar confusões.
— Sua teoria? O que quer dizer com isso?
— Você não percebeu que as duas confissões são falsas? Que foi realmente a Srta. Pettigrew que entrou primeiro e fez o pequeno corte no pescoço de Dudden? Que Robert chegou logo depois e infligiu o golpe mortal?
— Mas isso é um absurdo! Por que cargas d’água ambos iriam mentir assim?
— Robert sabe que o segundo golpe foi o que provocou a morte; então, afirma que foi o autor do primeiro. A Srta. Pettigrew imaginou que Dudden já estava morto; então confessa que desfechou o segundo. Se ela estivesse mesmo no saguão, por que Robert não a viu? E por que ela não viu Robert passar? A resposta é que ela não se encontrava mais no saguão, no momento em que Robert passou; fugira depois de infligir um leve ferimento no pescoço de seu ex-marido. Cheguei à conclusão de que Robert e a Srta. Hulk inventaram uma história falsa a respeito do tempo e o restante da família foi persuadido a apoiá-los. Acho também que o segundo golpe foi desfechado por Robert poucos minutos antes de você chegar, o que explica por que ainda correu tanto sangue. Você mesmo me confessou sua surpresa pelo fato de o corpo ainda sangrar.
— É verdade, mas estive estudando esse problema. Taylor diz que, se não forem seccionados alguns vasos importantes, mas apenas ramos deles, a vitima pode sangrar até morrer, de acordo com o tempo que se desejar. Ele cita um caso em que a sangria durou sete horas. Assim, sob este aspecto, sua teoria está realmente correta.
— Bem. Deixemos esse ponto. Continuo afirmando que, se a Srta. Pettigrew se encontrasse no saguão no instante em que Robert passou, eles se teriam visto e o fato apareceria nos depoimentos. Não há razão para que um quisesse proteger o outro. A Srta. Pettigrew foi, segundo declaração da Sra. Hulk, deixada no saguão às 9:10. Quando Robert saiu da sala de jantar, ela não estava mais lá. Por conseguinte, concluo que já havia ferido Dudden levemente, como ficou comprovado, e ido embora. Robert deve ter desfechado o segundo golpe não antes das 9:25.
— O senhor não me convence. Robert pode ter enganado o Inspetor mas não acredito que haja iludido sua própria família. E foi da boca da Sra. Ellis que fiquei sabendo de toda a história.
— Bem... Compreendo que você se satisfaça com esse argumento, mas veja minha posição. Tenho-me perguntado uma porção de vezes se toda a família não estava metida no complô. Será que Robert deixou seus pais ignorando tudo? Ou eles já sabiam, mesmo quando você entrou na sala, o que havia atrás do biombo?
— Desculpe-me — respondeu Wilfred um tanto rispidamente. — O senhor se esquece de que conheço essas pessoas e confio nelas cegamente.
— É claro, é claro — replicou o Sr. Parsons, em tom apaziguador. — Mas estive imaginando o que um júri britânico pensaria disso. Vamos, meu amigo, você mesmo notou, ao entrar na sala, que havia uma atmosfera de nervosismo gerai. Não é de supor-se que todos já estavam a par do segredo? E ficaram sentados, ouvindo a leitura até o último momento, para que você pensasse que tudo estava em paz?
— Confesso que cheguei a pensar nisso... Apanhei o livro que a Sra. Ellis estava lendo e medi o tempo de leitura desde o começo do capítulo até o ponto em que ela se interrompeu com a minha chegada; foram exatamente 25 minutos. Teria sido uma coincidência?
— Mas havia o jogo de paciência. O Sr. Ellis não estava realmente jogando, conforme você mesmo me confessou. Apenas movia as cartas.
— Ora, isso demonstra que ele não estava realmente nervoso. Se estivesse, dedicar-se-ia à paciência para acalmar os nervos. O papel do Sr. Ellis era fazer um sinal para a mulher dele. Quando ele lhe mostrasse determinada carta, ela deveria interromper a leitura e ambos sairiam da sala, deixando-me sozinho com Amy. Era o três de paus. “Dois é bom, três é demais”, como diz a canção. Essa era a ideia.
— Bem, vamos absolver a família. Entretanto, ainda tenho a impressão... Você vai-me desculpar, mas acho que o jovem Robert não confessou tudo a ninguém. Estou convencido de que foi ele o autor do golpe fatal.
— Sim, Sr. Parsons, mas há um ponto que o senhor não considerou. Quando Robert subiu para lavar as mãos, acendeu a luz do banheiro, conforme o senhor notou. Foi depois isso que ocorreu a sua caminhada até o correio, para postar a carta. Justamente nessa ocasião, quando o senhor não podia avistar a porta da frente, a Srta. Pettigrew escapou.
— Você me convenceu, realmente. A propósito, qual o papel da Sra. Hulk em toda esta história?
— Ela achou o bisturi junto ao corpo e o apanhou, enrolando-o em um pedaço de papel. Foi esse papel que ela, mais tarde, enrolou na carne, fingindo que cortava o guisado, a fim de ocultar as manchas de sangue. De que maneira ela se livrou do bisturi, nunca cheguei a descobrir.
— É aí que eu entro. Quando a polícia chegou, ela correu até a minha janela, que estava aberta, e gritou: “Oh, meu Deus! Um assassinato!” Corri para a porta da frente e ela então se aproveitou e escondeu a arma no meu vaso de folhagens. É uma mulher bem esperta.
— É mesmo. Foi ela quem sujou de tinta os punhos de uma camisa limpa de Robert, com receio de que eu tivesse notado as manchas de sangue na que ele estava usando. Mas antes que me esqueça, Sr. Parsons, devo confessar que houve um momento em que suspeitei do senhor.
— Por causa do vaso de folhagens? Acho que não seria difícil reconstituir meu álibi. Vi quando foi acesa a luz no banheiro... o que só seria possível se eu me encontrasse na janela de meu escritório. Sai para pôr a carta no correio mas voltei logo depois, a tempo de ver Hulk passar. Haveria tempo suficiente, durante aqueles 12 minutos, para eu forçar minha entrada na casa? Era uma noite úmida e ventosa, lembra-se? E a janela naturalmente estava fechada.
Assim, os dois amadores juntaram os pedaços do quebra-cabeça. Todavia, não lhes era possível conhecer todos os detalhes. Não podiam saber que a Srta. Pettigrew, ao invés de permanecer esperando no saguão todo o tempo, foi até a copa furtar uns biscoitos e, por isso, não viu Robert passar. Este detalhe somente veio à luz durante o julgamento e foi considerado pelo júri, um tanto forçadamente, como prova de que a Srta. Pettigrew, no momento do crime, já sofria das faculdades mentais.