O Cadáver Atrás do Biombo

Agatha Christie e outros · Capítulo 11 de 20

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O Cadáver Atrás do Biombo

Capítulo III

 

 

O ÁLIBI DE FISHER

E. C. Bentley

Na manhã seguinte à do inquérito em Brighton, Oliver, o repórter policial, estava novamente em sua sala no edifício do Morning Star, empenhado em uma acesa discussão com Hemingway, o editor do noticiário, a respeito do crime. Àquela hora — pouco antes do meio-dia — os escritórios estavam relativamente silenciosos. Hemingway já despachara uma dezena de repórteres para várias missões; discutira asperamente pelo telefone com uma agência de notícias e uma firma de fotografias, cujos trabalhos, segundo ele, deixaram muito a desejar, prejudicando o jornal; ouviu calado, também pelo telefone, algumas ásperas recriminações do principal acionista e recebeu várias pessoas que queriam oferecer informações muito valiosas sobre os mais absurdos assuntos. No momento, caminhava de um lado para outro da sala, como era de seu costume, e no grande cinzeiro de sua mesa já se amontoava a pilha de pontas de cigarros que ele continuamente tornava maior.

— Bem, e o que sabe você desse tal de Potts? — perguntou a Oliver, que relatava os acontecimentos da véspera. — Disse que era irmão dela, não foi? Nessa é que não caio.

Hemingway trabalhara em jornais dos estados do oeste e suas reações guardavam traços dessa experiência.

— Também desconfiei, mas o que ele contou me pareceu bastante razoável. Disse que era camaroteiro em um navio que faz a linha de Southampton ao Havre e me deu seu endereço em Southampton. É claro que ele compreendeu que a maneira como o surpreendi exigia uma boa explicação. Declarou que há muitos anos não tinha notícias de sua irmã, até aquela tarde, quando fora a Brighton tratar de uns negócios. Ao ler a notícia do inquérito, no jornal da tarde, tomou conhecimento de que o nome de solteira da vítima, Sra. Tracey, era Geraldine Potts, e sabia que ela trabalhara na loja Evanalda. Por isso, foi até o bangalô, ver se havia alguém que lhe pudesse dar alguma informação; não negou que tentara forçar a entrada na casa, para dar uma olhada. Acrescentou que tinha de voltar logo para Brighton, a fim de apanhar o trem de 7:15 para Southampton, uma vez que seu navio partiria ás 11 horas; não fez a menor objeção quando eu disse que voltaria com ele. Conversamos durante toda a viagem e tive oportunidade de constatar que ele entendia do serviço de camaroteiro e estava familiarizado com o percurso até Havre, que eu conheço muito bem.

— Ora essa! — resmungou Hemingway. — Então você poderia contar a mesma história, se fosse surpreendido no lugar dele. Acreditou no homem?

— Bem... — desculpou-se Oliver — acompanhei-o até que ele embarcou no trem que havia mencionado. Depois, telefonei para o escritório da companhia em Southampton e disse que precisava falar com um camaroteiro que trabalha com eles, chamado Potts, e que ficava muito agradecido se pudessem me ajudar. Então eles me deram o nome todo, Arthur Potts, e seu endereço, que era o mesmo que ele me havia dito, acrescentando que o homem estava de serviço no navio que deveria partir às 11 horas naquela noite. Ante tantas provas, não me preocupei mais com o nosso amigo Potts. É claro que ele não é boa coisa mas sua história estava absolutamente correta, inclusive a profissão de camaroteiro.

Hemingway estava com a testa franzida.

— Tomara que você tenha razão. De qualquer modo, não há lugar para Potts neste caso. Trata-se de um crime simples e não devemos deixá-lo complicar-se com misteriosos irmãos, a menos que haja completa evidência. É claro que o homem é Fisher, está na cara. A história que ele contou! Você já ouviu alguma coisa mais absurda? Não comunicou imediatamente à polícia a descoberta do corpo, oh, não! O prudente Sr. Fisher tinha de pensar um pouco, primeiro. Precisava forjar as desculpas que iria apresentar.

— Também acho que as coisas se apresentam assim — disse Oliver — mas a gente precisa levar em conta a impressão do público e não me parece que Fisher seja tido como o culpado. Você se lembra, Hemingway, quando você mesmo era repórter e estava sempre procurando obter mais informações que os outros. Pouco lhe importava se havia ou não provas contra determinado suspeito, se você tinha certeza de que ele não era o criminoso.

Hemingway sorriu um tanto amargurado.

— É verdade. Sempre segui minhas pistas e, em geral, elas estavam certas. Mas pode ter certeza de que, por um lado, nunca topei um caso assim, com tantas provas contra Fisher, não havendo mais nenhum suspeito; por outro lado... ora, meu rapaz, não me leve a mal por eu dizer que não tenho tanta confiança nas suas pistas, como eu tinha, naquele tempo, nas minhas.

— Mas como que não há outros suspeitos? — protestou Oliver. — Posso muito bem citar aquela venenosa Gladys Sharp, a criada, como uma possível criminosa. Conforme eu lhe dizia há pouco, não seria a primeira empregada a dar cabo de sua patroa, com a qual vive sozinha em uma casa, como sabemos. E não esqueça que ela, conforme relatei a você, insistiu muito em lançar suspeitas sobre o marido da vítima: Tracey deve ter sido o assassino. E naturalmente, além da acusação da criada, há uma porção de coisas que apontam o marido como sendo o criminoso. A meu ver, ele é muito mais alvo de suspeitas do que qualquer outra pessoa.

Hemingway deu uma risadinha.

— Como é que você chegou a essa conclusão? Tracey, nem qualquer sujeito parecido com ele, foi visto no local antes ou depois do crime; a criada declarou que ele passava fora de casa a maior parte do tempo; dada a sua profissão de caixeiro viajante, poderia estar a centenas de quilômetros de distância e a própria visita de Fisher naquele fim de semana comprova que Tracey estaria ausente. O que me diz de tudo isto?

— Nada. A história de um crime misterioso começa justamente por não se saber muita coisa a respeito dele, não é? Mas me explique uma coisa: já faz quatro dias que o assassinato foi cometido e todos os jornais estão falando a respeito dele; como é que o marido da vítima não dá sinais de vida?

— Ah, isso não é de causar surpresa — replicou Hemingway. — Se ele for casado com outra mulher, o que está parecendo muito provável, não terá a mínima pressa em se ver envolvido na história. É isso o que eu acho.

Nesse momento o telefone tocou. Hemingway atendeu e 15 segundos depois já tinha terminado a conversa com um interlocutor desconhecido, tendo-lhe dito que o preço seria de cinco guinéus ou nada feito.

Oliver retomou a discussão:

— Não sei por que devemos admitir que Tracey não é o marido. Ninguém levantou essa suspeita, a não ser essa mulherzinha intrigante, a tal de Gladys, que estive recheando de sorvetes ontem. Mas casado ou não, que belos argumentos Tracey teria, se viesse a saber do romance dela com Fisher! Matar a mulher ou a amante por motivo de ciúmes não é coisa rara hoje em dia e, para falar a verdade, não vejo outra razão.

Hemingway sacudiu os ombros, impaciente.

— Você está sofismando contra os fatos. O que realmente sabemos é que a conduta de Fisher, depois de haver encontrado o corpo no bangalô, segundo seu depoimento, foi muito suspeita. Sabemos que ele mora em Brighton; sabemos que o pobre Johnson descobriu a arma do crime e talvez alguma outra prova: sabemos que nada seria mais fácil para o assassino do que esperar por Johnson na estação de Brighton, viajar no mesmo trem e chegar com ele a Londres, em cuja estação o repórter foi assassinado. Sabemos tudo isso, o que para mim representa muito. Agora, o que quero de você é que vá procurar Fisher e descubra o que ele andou fazendo na noite em que Johnson foi morto. Ele deve ter uma história, naturalmente, e a polícia já deve conhecê-la, pois qualquer pessoa ligada ao primeiro crime está no rol dos suspeitos dos dois. E deve ter sido uma história bem contada, pois, caso contrário, Fisher não estaria agora em liberdade. Descubra essa novela, Oliver, e faça bom proveito!

Às quatro horas daquela tarde Oliver estava procurando localizar a firma do Sr. Fisher, na Rua Norte, em Brighton. Não foi uma tarefa difícil; se a joalheria não era a melhor de Brighton, pelo menos procurava sê-lo. Sua vitrine e a decoração externa deviam ter custado um bom dinheiro e, embora houvesse uma grande variedade de bijuterias, estas eram estocadas no balcão do fundo, deixando em primeiro plano as joias de maior valor. O ambiente dava a impressão de um estabelecimento respeitável e Oliver concluiu que, se o Sr. Fisher era o responsável por tudo aquilo, é que realmente conhecia seu ofício.

O repórter dirigiu-se ao jornaleiro da esquina e comprou um vespertino já lido. Graças à experiência em situações dessa natureza, não teve dificuldade em puxar conversa, abordando um assunto que fosse do interesse do jovem e gorducho vendedor. Passando os olhos pela página das notícias do turfe, praguejou, fingindo-se irritado; a seguir, analisando os palpites para as corridas do dia seguinte, percebeu que despertara a atenção do jornaleiro.

— Você parece que sabe de alguma barbada — arriscou Oliver.

— No segundo páreo — replicou o jovem. — Vai dar Diabo Manco na cabeça.

Poucos minutos depois ele e Oliver estavam empenhados em detalhada análise dos diferentes páreos, até que o repórter conseguiu mudar de assunto.

— Aquela joalheria Fisher & Flensburger, ali adiante... Esse Fisher é o que depôs no inquérito?

O jornaleiro mostrou-se condescendente em falar a respeito de Fisher, não escondendo sua admiração por um freguês que também gostava de corridas e entendia muito do assunto. Mais de uma vez eles haviam trocado palpites com bons resultados. A joalheria era muito conceituada e dizia-se que, discretamente, emprestava dinheiro a juros módicos. Fisher era bem-visto por aqueles que não condenam um homem que gosta de divertir-se — e era evidente que o jornaleiro pertencia a essa classe de admiradores. Ninguém se surpreendeu ao saber que Fisher estava tendo um romance com uma mulher casada — que não era, evidentemente, o primeiro — mas, quanto a incluí-lo no rol dos suspeitos, quem conhecesse o homem não teria ideia tão absurda. Fisher era a bondade em pessoa, incapaz de matar uma mosca. Além disso, qual a necessidade de andar apunhalando garotas de quem ele tanto gostava? Acontecia ainda que Fisher era solteiro e morava em Hove, na zona de luxuosos edifícios de apartamentos.

Oliver agradeceu a preciosa colaboração do jornaleiro e pouco depois apresentava sua carteira de jornalista na joalheria Fisher & Flensburger, solicitando que o Sr. Fisher o recebesse por uns poucos minutos.

Conforme Oliver esperava, o Sr. Fisher não se fez de rogado e conversou durante mais tempo que “uns poucos minutos”.

O joalheiro estava evidentemente passando por maus momentos. O rosto redondo e o bigodinho levemente oleado deveriam, em situação normal, apresentar um aspecto alegre; agora, porém, havia rugas de ansiedade em suas faces e as olheiras revelavam horas de angústia. Ao abrir a porta do gabinete, no fundo da loja, ele procurou endireitar o corpo e ajeitou, com um gesto instintivo, o alfinete da gravata, onde brilhava uma pérola. A sala era de tamanho médio e mobiliada com bom gosto, tendo ao centro uma mesa envernizada e uma escrivaninha perto da janela.

— Meu sócio utiliza esta sala — explicou Fisher — e é aqui que recebemos as pessoas para tratar de assuntos particulares. Vamos passar para meu escritório, mais atrás, onde poderemos ficar à vontade.

Abriu outra porta, com a metade superior envidraçada, e passaram para uma sala menor e mais simples, exceto quanto a uma larga mesa sobre a qual um cidadão, despreocupado quanto a questões de estilo, podia espalhar à vontade seus objetos de estimação.

Depois de oferecer a Oliver um charuto de boa marca, Fisher foi muito franco em confessar por que recebia tão cordialmente um repórter do Morning Star.

— Sei que estou sob suspeita e quero que toda a verdade a respeito de minha atitude seja conhecida o mais detalhadamente possível, de modo que ficarei muito grato por tudo o que vocês divulgarem a esse respeito. Qualquer pessoa que me conheça sabe que nada tenho a ver com esses dois assassinatos mas há muita gente que nunca ouviu falar em mim e passa a me olhar, desconfiada, toda a vez que sou identificado. Isso está dando cabo de meus nervos. Ora, como o senhor sabe, tudo se resume em provar onde eu estava na noite de segunda-feira, quando aquele pobre repórter foi seguido até Londres e assassinado. Se não cometi o segundo crime, então também não cometi o primeiro.

— Realmente — concordou Oliver. — Todo mundo aceita que o álibi será válido para os dois assassinatos.

— Pois é — continuou Fisher. — Acontece que Flensburger e eu estamos em negociações para aumentar a loja, admitindo mais um sócio. Inesperadamente, a pessoa que tínhamos em vista telegrafou, na segunda-feira, avisando que estaria em Brighton na manhã de terça e pedindo que discutíssemos então as condições da nova sociedade. Ora, Flensburger entende de contabilidade mais do que eu, porém não é muito bom em contratos, de modo que tive de me encarregar pessoalmente do problema, muito mais que algumas de nossa transações são tão confidenciais que somente os sócios tomam parte nelas. É claro — apressou-se Fisher a acrescentar — que este detalhe não é para ser publicado.

— Evidentemente que não — confirmou Oliver, lembrando-se da alusão do jornaleiro às atividades de agiotagem da firma.

— Vi logo que teria de passar a noite aqui — continuou Fisher — e até que achei uma boa ideia, pois eu tiraria da cabeça aquela preocupação com os malfadados acontecimentos da noite de sábado. Trouxe todos os livros e documentos para esta sala e comecei a trabalhar. Quando os empregados foram embora, no fim do expediente, fiquei sozinho aqui, sem contar a faxineira que vem fazer a limpeza todas as noites. Pelas sete horas telefonei para o Royal Cambridge Hotel, aqui perto, onde sou muito conhecido, e pedi que me mandassem o jantar e meia garrafa de Pommery. O prato do dia era galinha à caçarola e queijo Camembert e o mâitre assegurou que me enviaria a refeição dentro de uma hora. Quando o garçom chegou com o jantar, exatamente ás 8:15, suspendi o trabalho. Abri a porta e disse-lhe que pusesse os pratos na mesa grande da outra sala e que viesse para levá-los de volta, mas não antes das nove. Trocamos algumas palavras enquanto ele punha a mesa. Depois de sua partida, sentei-me para comer e, ao terminar, retomei o trabalho. Ouvi, quando o garçom voltou mais tarde, os ruídos dos pratos colocados na bandeja e a batida da porta. Não reparei que horas eram e havia recomendado que ele não me interrompesse. Todavia, é claro que ele viu, através da vidraça da porta, que a luz estava acesa e meu chapéu e o sobretudo estavam em cima da cadeira. Bem, acabei o serviço aproximadamente às 11:45 e então, precisando de um pouco de ar fresco, fui a pé até meu apartamento em Hove. Não posso precisar que horas eram, quando lá cheguei, mas deveria ser mais de meia-noite; tomei um drinque reforçado e fui dormir, bastante cansado. Esta é toda a história — concluiu Fisher, olhando ansiosamente para seu visitante.

Oliver disse para si mesmo que, se o ar de perfeita sinceridade de Fisher fosse fingido, o homenzinho seria um excelente ator. Apesar de tudo...

— Foi realmente uma pena — comentou o repórter, com os olhos na brasa do charuto — que o garçom não tenha falado com o senhor, quando veio buscar os pratos.

— Então não sei? — exclamou Fisher, agitado. — Se ele me tivesse visto, ninguém seria capaz de pensar que fui eu quem viajou com Johnson daqui para Londres, no 8:35; e eu não sofreria o vexame de ver as pessoas olhando para mim como se eu fosse um leproso. Mas o senhor não acha, Sr. Oliver, que o que lhe contei é mais do que suficiente para inocentar-me, desde que não haja má vontade? É por isso que desejo que a história seja bem divulgada. O lugar onde moro dista da estação uns bons 10 minutos a pé; meu carro estava na garagem e, naturalmente, se eu tivesse tomado um táxi, logo se ficaria sabendo. Assim, eu não teria tido tempo para ir até a estação, apanhar aquele trem, depois de o garçom haver trazido o jantar e se retirado; não poderia fazer isso, a menos que, logo que o rapaz saiu, eu tivesse feito todo o percurso correndo — mas infelizmente já vai longe o tempo em que eu era capaz de correr um quilômetro, ainda mais em subida, Sr. Oliver. Além disso, a faxineira estava trabalhando na parte da frente, justamente àquela hora, e fatalmente me teria visto, se eu passasse. E há ainda o jantar. Comi e bebi tudo o que o garçom trouxe, conforme ele pôde verificar, quando veio buscar os pratos.

Oliver contemplou pensativamente aquele rosto ansioso. Não lhe podia passar pela cabeça que o homem estivesse mentindo.

— Está bem, Sr. Fisher, esta história é perfeitamente lógica e não quero roubar mais o seu tempo, mas me diga uma coisa: o que pensa a polícia a respeito de tudo isso que o senhor me contou?

— Só posso imaginar que eles pensam que está tudo correto — respondeu Fisher, enquanto os dois se levantavam. — Tomaram nota do nome e do endereço do nosso novo sócio, a fim de verificarem aquele detalhe da história. Interrogaram a faxineira e, quanto ao garçom, fizeram uma porção de perguntas durante mais de meia hora, conforme fiquei sabendo depois. Olhe — acrescentou Fisher com entusiasmo — o senhor pode falar com ele pessoalmente, bastando ir ao Cambridge na hora do jantar. Ele atende exatamente as mesas do lado oposto de quem entra. É um rapaz de cara comprida, sempre sorrindo; o senhor vai identificá-lo imediatamente. Bem, adeus, Sr. Oliver. Foi um grande prazer conhecê-lo. Outro charuto? Não? Então adeus e, se houver alguma coisa mais que o senhor queira perguntar, não hesite em visitar-me outra vez.

O gorducho amigo de Oliver, dentro da banca de jornais, olhou para ele com maior respeito, ao ver a maneira efusiva com que Fisher lhe apertava a mão, despedindo-se na porta da joalheria.

— Está-se vendo que ele quer conquistá-lo — comentou o jornaleiro, quando Oliver se aproximou. — O senhor é da polícia ou jornalista, uma coisa ou outra, sou capaz de jurar.

— Tenho minhas ligações com a imprensa, como você também tem — replicou Oliver, provocando um sorriso de satisfação no jornaleiro. — Fisher é um sujeito decente, conforme você já me havia informado. Tivemos uma longa conversa. Chegou mesmo a dizer-me que a firma estava admitindo um novo sócio.

— É verdade. Eu já sabia, porque o sujeito esteve lá por mais de uma hora na terça-feira de manhã. Veio de Londres em um belo carro, que ficou estacionado bem ali perto da esquina. O motorista veio conversar comigo, assim como o senhor fez. Falamos sobre corridas e ele me disse que seu patrão iria entrar na firma, se achasse que tudo estava em ordem.

Oliver jantou, uma hora mais tarde, em uma das mesas do Royal Cambridge, que Fisher mencionara. Ainda era um pouco cedo, o restaurante estava quase vazio, de modo que o sorridente garçom pôde dar-lhe inteira atenção. Parecia não haver dúvida relativamente à hora em que o jantar fora deixado na sala ao lado do gabinete de Fisher e também ficou comprovado que o garçom viera apanhar os pratos às 9:15. A luz estava acesa no gabinete; o sobretudo e o chapéu de Fisher estavam realmente sobre uma cadeira, em um lugar que, como acentuou o garçom, não seria possível deixar de vê-los. Quanto à comida e à bebida, não sobrou nada.

— Tudo o que encontrei — disse o garçom, alargando o sorriso — foi uma boa gorjeta para mim. E o senhor não precisa perder seu tempo, como fez a polícia, imaginando que ele pudesse ter engolido tudo de uma assentada só. Todos os pratos e talheres foram usados de maneira regular. Um garçom tem prática dessas coisas e pode afirmar com segurança. Muito obrigado, senhor. Boa-noite.

Fechado na cabine telefônica do hotel, Oliver entrou logo em ligação com Redman, o editor noturno do noticiário em Londres. Entretanto, mal começara a contar a história de Fisher, foi interrompido.

— Venha para cá no próximo trem e escreva sua reportagem no caminho. Precisamos de você aqui. A arma foi encontrada.