O Cadáver Atrás do Biombo

Agatha Christie e outros · Capítulo 17 de 20

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O Cadáver Atrás do Biombo

Capítulo IX

 

 

BOND STREET OU BROAD STREET?

Anthony Berkeley

Oliver fora a Southampton e Beryl, pelo menos desta vez, sentiu sinceramente sua ausência. Não havia ninguém mais com quem ela pudesse trocar ideias a respeito dos problemas que se tinham tornado uma obsessão para ela: o grampo de Broad Street e o misterioso “Deadman” que fora mencionado como seu comprador.

Na verdade, qualquer discussão adicional com Oliver daria algum resultado, pensava Beryl, sentada sozinha à mesa de almoço. Oliver a decepcionara. A princípio, quando lhe contara sua aventura de véspera, ele parecera tão impressionado quanto ela. Depois, aos poucos, como se estivesse persuadindo a si mesmo, aquela impressão fora gradualmente se enfraquecendo até que, por fim, ele positivamente troçara dos temores dela e deixara de lado suas suspeitas. Segundo ele, o incidente não passara de uma coincidência. Era ridículo imaginar que Redman — logo quem! — estivesse metido na história. Ela estava se deixando levar pela imaginação.

No momento, a convicção de Oliver produzira seus resultados mas, com a ausência dele, as suspeitas retornaram. Não era assim tão impossível que Redman estivesse envolvido nos crimes, como não foi impossível que o jovem e alegre Johnson aparecesse em uma cabine telefônica da Estação Vitória assassinado com um grampo de cabelo. Depois disso, qualquer coisa lhe parecia possível.

Ademais, havia aquela confusão entre Bond Street e Broad Street. Seria ridículo dizer que tudo não passava de uma coincidência, principalmente depois que um grampo de jade fora comprado em Broad Street, justamente o nome da rua que Johnson lhe pareceu ter mencionado em seu telefonema. Se coincidência houve, então foi com o grampo de Bond Street, não com o de Broad Street. Apesar disso, Hemingway ouvira Johnson dizer Bond Street e realmente aparecera um grampo comprado lá. Tudo isso era muito confuso. Beryl tamborilou com os dedos na mesa e deixou esfriar o café enquanto sua imaginação vagava de uma possibilidade para outra, sem se fixar em nenhuma.

“Houve um freguês o mês passado...”, dissera a mulher da loja de Broad Street. Mês passado... Mas Fisher havia comprado o grampo na Casa Araby justamente na véspera do dia em que Geraldine Potts fora assassinada com ele. Seria o mesmo grampo? Poderia esse grampo ter percorrido um incrível itinerário, passando da Broad Street para o desconhecido Deadman, de Deadman para Araby, de Araby para Fisher, de Fisher para Geraldine? Mas as descrições das cabeças dos grampos eram diferentes. Indiscutivelmente, tratava-se de dois grampos, não de apenas um. Então, por que ela estava tão certa de que era o segundo grampo o que tinha ligação com o crime? Deadman era tão parecido com Redman e a descrição do comprador se ajustava tanto com Redman... Nada mais do que isso. Nada mais, excetuando sempre aquela certeza de que Johnson, quando falara ao telefone com ela, dissera Broad Street. E Oliver repetia, com muita convicção, que os indícios eram muito fracos.

Oliver estava errado. Beryl se atirou para trás na cadeira, quase entornando a xícara de café com o cotovelo. Como eles tinham sido estúpidos, incrivelmente estúpidos! Havia uma prova que estivera todo o tempo bem na frente do nariz de cada um deles e ninguém percebera. Isso era importante, terrivelmente importante. A informação deveria ser imediatamente transmitida para quem tivesse condições de utilizá-la. O próprio Oliver concordaria com ela agora. Era uma pena que ele estivesse ausente, pois seria capaz de expor o caso com muito mais competência do que ela. Oliver jamais perdia a cabeça. Bem, não havia outro remédio — ela teria de fazê-lo pessoalmente. De repente, sentiu que não havia um segundo a perder; era evidente, porém, que não adiantava sair correndo àquela hora; o editor de noticias só regressaria do almoço no mínimo dentro de meia hora. Com toda a paciência que pôde reunir, Beryl decidiu-se a enfrentar aquele intervalo, até que pudesse transferir o novo fardo de seus frágeis ombros para as costas largas de Hemingway.

O detalhe que havia assumido de repente tamanha importância foi uma observação casual que Oliver lhe fizera, uns dois dias antes, quando ambos discutiam o caso, logo após a polícia haver descoberto a arma do crime. “Um grampo com cabeça de jade”, acentuara Oliver, com aquele ar, por vezes irritante, de quem percebe as coisas um pouco antes dos outros. “Sim, já tinha ouvido falar desse grampo.” E contou para Beryl que Gladys Sharp, a empregada do bangalô, mencionara o grampo ao comentar o temperamento de sua falecida patroa. Gladys Sharp experimentara o grampo em seus próprios cabelos na tarde de sexta-feira e Geraldine “avançara contra ela como uma fera”. Em outras palavras, a Sra. Tracey já estava de posse de um grampo de jade antes que Fisher tivesse sequer comprado o outro — um grampo que desde então havia desaparecido e do qual não havia qualquer referência oficial, pelo menos quanto ao que Beryl sabia. Ademais, tratava-se de um grampo que o criminoso procurava ocultar, pois quem mais, a não ser ele, tinha interesse em que a existência da arma não fosse conhecida? Beryl tinha a impressão de que, com esse detalhe, a solução do mistério estava em suas mãos.

A meia hora acabou por passar, finalmente, e ela se apresentou no gabinete de Hemingway, trêmula de excitação ante tamanha responsabilidade.

Hemingway olhou para ela com ar de surpresa, quando a moça fechou a porta atrás de si e se aproximou da escrivaninha dele.

— O que há, Srta. Blackwood? — perguntou o editor amavelmente. — Algo especial?

— Muito, Sr. Hemingway. Quero contar-lhe uma coisa.

Sucintamente, friamente, quase com tanta competência como o faria Oliver, Beryl pôs o editor a par dos fatos e das ideias dela a respeito dos dois grampos.

A atenção que Hemingway lhe dispensou foi certamente mais gratificante do que a de Oliver. Antes que ela tivesse completado meia dúzia de frases, Beryl percebeu no rosto de seu intelocutor que ele considerava o problema com a mesma importância que a moça lhe atribuía. Esperou, em silêncio, até que ela terminasse; depois disse.

— Faça o favor de sentar, Srta. Blackwood. É uma coisa muito séria o que está me contando. Quero ficar conhecendo os menores detalhes. Deixemos de lado por um momento o fato de haver dois grampos; você disse que Johnson lhe falou pelo telefone. Não teria sido um engano da telefonista? Será que ela ligou para o ramal correto?

Beryl sentara-se na cadeira em frente à escrivaninha, conforme Hemingway lhe havia indicado com um movimento da cabeça. Já repetira uma porção de vezes a conversa com Johnson pelo telefone. Na verdade, não tinha culpa de Johnson ter ligado primeiro para ela e não para o editor de notícias; também não ignorava que isso constituía uma grave violação das normas disciplinares e que Hemingway era muito rigoroso a esse respeito.

— Não — respondeu ela, um tanto nervosamente. — Acho que o Sr. Johnson pediu mesmo o número de meu ramal.

— Por quê?

— Bem... não sei — gaguejou a moça, embaraçada.

— Foi antes de ele ter falado comigo? — insistiu Hemingway, irritado.

— Sim — admitiu Beryl, ainda mais constrangida.

— Ele falou com você antes de falar comigo! Não posso compreender uma coisa dessas. Por que será que ele fez isso?

Beryl não respondeu. Se Hemingway não era realmente capaz de compreender a importância da informação, então ele era um tolo. De qualquer maneira, não era correto mostrar-se irritado, como se ela fosse a culpada de tudo. A moça não podia evitar que os repórteres jovens preferissem falar com ela ao invés de com seus editores.

— Quanto tempo durou essa conversa? — perguntou Hemingway a seguir.

— Ah, não mais do que alguns segundos — replicou Beryl apressadamente, sem muita veracidade. — Tudo não passou de duas ou três frases. E o curioso da história é que eu pensei que ele tivesse dito Broad...

— Por que não me relatou isto antes, Srta. Blackwood?

Com a pergunta, Hemingway cortou a tentativa de Beryl, no sentido de mudar de assunto.

— Mesmo que fossem apenas duas ou três frases, como agora está afirmando, você deveria transmitir a informação imediatamente a mim ou ao Sr. Lucas.

O Sr. Lucas era o editor-chefe, a quem Beryl jamais imaginaria dirigir-se, por mais importante que fosse a informação.

— Mas nunca pensei que fosse alguma coisa importante, Sr. Hemingway — protestou ela. — O que quero dizer é que, quando o senhor entendeu que o Sr. Johnson dissera Bond Street e que um grampo fora vendido em uma loja dessa mesma rua, eu naturalmente pensei que tinha havido algum engano...

A voz dela foi sumindo aos poucos. Beryl estava se sentindo repreendida e não merecia isso. Esperava ser louvada por sua astúcia e agora era criticada por sua estupidez. O Sr. Hemingway estava visivelmente aborrecido com ela, o que por certo não era justo.

— Qualquer detalhe é importante em um caso de assassinato — continuou Hemingway asperamente. — Pensei que, pelo tempo que você trabalha aqui, já deveria ter aprendido pelo menos isso. Foi uma grande demonstração de desleixo e de incúria não ter relatado essa informação, tão logo você soube da morte de Johnson. E quando falo em relatar, quero dizer a alguém que tenha competência para tratar do assunto, pois não tenho dúvida — Hemingway esboçou um sorriso de sarcasmo — de que, com relação a este importante detalhe que chegou ao seu conhecimento, dizendo respeito a um destacado colega de trabalho, você deve ter batido com a língua nos dentes, transmitindo a informação a qualquer funcionariozinho. Vai ver que, na realidade, as únicas pessoas que não ficaram sabendo do fato foram o Sr. Lucas e eu. Não me admirarei se, a esta hora, o Courier já esteja a par de tudo.

O Courier era o maior rival do Morning Star.

— Eu não costumo “bater com a língua nos dentes”, Sr. Hemingway — protestou Beryl, indignada.

— Bem, então a quantas pessoas você contou a história? — insistiu o editor, implacavelmente. — Quantas, hein?

— Não falei com ninguém! — exclamou Beryl, alarmada. Hemingway jamais a perdoaria se soubesse que ela já havia conversado com Oliver, pois isso representava uma violação da disciplina muito pior que a de ter falado com Johnson. Era preferível sacrificar a verdade do que seu emprego, não se esquecendo de avisar Oliver para não denunciá-la. — Não falei com ninguém! — repetiu.

— Então você até que tem mais juízo do que pensei — rosnou Hemingway. — E não conte para ninguém.

— Certamente que não — replicou Beryl, procurando retomar sua dignidade.

Hemingway tamborilava na mesa com o corta-papéis e parecia mergulhado em profunda meditação.

— Tenho de falar pessoalmente com essa mulher — anunciou por fim.

— Também acho — apressou-se Beryl a dizer. — O senhor saberá arrancar muito mais informações do que eu fui capaz. Todos sabemos — acrescentou com intenção conciliatória — que o senhor foi dos melhores repórteres policiais que já trabalharam no Star, Sr. Hemingway.

— Ah, sim... — resmungou o editor, distraidamente.

Beryl permaneceu em respeitoso silêncio, aguardando nova observação.

Ela veio sob a forma de uma série de perguntas. Hemingway esmerou-se em realizar um meticuloso exame da história de Beryl, analisando cada parte, aprofundando cada detalhe, até que ela se convenceu de que não abrigava um único pensamento que não fosse do conhecimento dele.

— É isso — disse Hemingway por fim. — Pela firmeza de suas declarações, estou certo de que Johnson lhe deve ter dito Broad Street. Pelo menos não posso imaginar como você poderia meter em sua cabeça um nome que ele não pronunciou. Broad... Bond... Afinal, não são palavras tão parecidas que possam ser confundidas uma com a outra.

— Mas o senhor pensou que ele tivesse dito “Bond” — ponderou Beryl.

— Pensei, realmente, mas pode ter sido por uma associação de ideias — admitiu Hemingway, generosamente.

— Essa sua informação, porém, me deixa em dúvida. De qualquer modo, um de nós dois se enganou e não vou dizer que não fui eu. Você já percebeu, naturalmente, que agora o caso se alterou completamente, de alto a baixo? Quero dizer que, mesmo deixando o Sr. Redman provisoriamente de fora, a possibilidade de haver dois grampos significa que tudo o que a polícia e nós mesmos estamos fazendo pode estar apoiado em bases completamente falsas, devendo, pois, todas as investigações serem revistas de fio a pavio.

— Tem razão — apoiou Beryl com ar compenetrado. — Também penso assim.

— Então, creio que não preciso recomendar-lhe a necessidade de absoluto segredo — disse Hemingway, em tom muito amável. — Você cumpriu sua parte e agora o problema fugiu de suas mãos. Vou falar com o Sr. Lucas, naturalmente, e ele talvez mande chamá-la para esclarecer um ou dois pontos. Fora disso, porém, a melhor coisa que você tem a fazer é esquecer que um dia soube qualquer coisa a respeito desta história.

— Sim, senhor — concordou Beryl. — O senhor pode não acreditar, mas sei bem como guardar um segredo.

O Sr. Hemingway sorriu discretamente.

— Quanto ao Sr. Redman — acrescentou ele — parece a mim, como também pareceu a você, que é uma hipótese absurda considerá-lo como envolvido no caso. Pura fantasia. Afinal de contas, temos apenas a coincidência de uma pequena semelhança de nomes e de aparência, o que aliás poderia aplicar-se a centenas de pessoas. Naturalmente, porém, isso não significa que ele seja excluído e o fato de todos gostarmos dele e de tratar-se de um companheiro de trabalho não deve influir no problema.

— É claro que não — apressou-se Beryl em concordar. Essa era precisamente sua opinião. A expressa relutância e mesmo a recusa de Oliver, para levar a cabo investigações capazes de envolver algum funcionário do jornal, pareciam a Beryl um tipo de lealdade despropositado e prejudicial.

— Como disse — continuou Hemingway — falarei com o Sr. Lucas a respeito da linha de ação que devemos adotar, mas estou certo de que ele concordará com a minha ideia de ter uma conversa particular com o Sr. Redman. Posso sondá-lo de tal maneira, que ele não perceberá que suspeitamos de alguma coisa. Mas devo confessar — acrescentou Hemingway, em um tom de voz muito humano — que é uma espinhosa missão, Srta. Blackwood. Desejaria que tudo isso estivesse terminado, mas receio que...

A entonação de suas últimas palavras revelaram sua descrença.

— É terrível — concordou Beryl — mas é nosso dever. Afinal, não podemos esquecer o pobre Sr. Johnson.

Um soluço interrompeu sua frase. Hemingway veio em seu auxílio.

— Tem toda a razão. Faremos o possível.

Seguiu-se um pequeno silêncio. A entrevista evidentemente chegara ao fim. Visivelmente aliviada, Beryl levantou-se e deixou a sala. Apesar da repreensão que recebera, sentia-se descontraída pela primeira vez, desde que deixara a loja de Broad Street. Sem dúvida, Oliver fora desbancado.

Depois que a secretária se retirou, Hemingway se manteve durante alguns minutos mergulhado em profunda meditação. As informações de Beryl, por mais que ele tivesse deplorado a falha da moça em avisá-lo desde logo, o deixavam em uma situação muito desagradável. Não chegara a uma conclusão quanto à maneira de resolvê-la. Por fim, sacudiu os ombros, como se se tratasse de escrúpulos ridículos, e levantou-se com um suspiro resignado.

Seu olhar deteve-se na larga escrivaninha que ele e Redman utilizavam. Em cada uma das extremidades, da tampa até embaixo, havia uma série de gavetas, não muito estreitas, como nas escrivaninhas comuns, mas largas e compridas. A maioria delas continha objetos próprios da profissão — resmas de papel, borrachas, lápis de cor etc. — mas a última em cada lado era reservada para os pertences pessoais, a de Hemingway à direita, a de Redman à esquerda. Hemingway contornou lentamente a escrivaninha, abriu a última gaveta da esquerda e ficou olhando para ela.

A primeira vista, ela parecia conter nada mais do que uns objetos masculinos normais: um par de cachimbos, luvas, algumas cartas, dois ou três retratos, uma lata de fumo, um maço de cigarros e coisas assim, enchendo a gaveta até a metade pelo menos. Hemingway se abaixou e lentamente empurrou para o fundo todos os objetos, deixando à mostra o que se encontrava embaixo deles. Aparentemente não se tratava de nada importante — nada mais do que uma folha de papelão cinzento que fora cortado de maneira a encaixar-se nos contornos da gaveta e servir como uma espécie de forro. Com a ajuda da unha, Hemingway levantou a ponta do papelão e puxou-o para fora.

Era evidente que a folha não cobria totalmente o fundo da gaveta. Faltava-lhe um pedaço, talvez uns 20 centímetros. Hemingway examinou a extremidade. Ela também fora cortada por uma faca, mas, ao passo que nos lados e na parte da frente os cortes eram bem-feitos, na de trás notava-se que o trabalho fora realizado sem cuidado, apressadamente.

Hemingway ficou por uns instantes olhando para a folha de papelão, especialmente a parte cortada. Depois, dirigiu-se cautelosamente para a porta, passou a chave, voltou com o papelão para junto da lareira e começou lentamente a fazê-lo em pedacinhos, com auxilio de um canivete. Terminado o trabalho, riscou um fósforo e queimou totalmente a pequena pilha do que restara da folha rasgada. Afinal, com um lápis, misturou as cinzas.

A polícia registrara o fato de que o aviso “NÃO FUNCIONA”, que estava pendurado na porta da cabine telefônica na Estação Vitória, fora feito com um pedaço de papelão cinzento.