O Cadáver Atrás do Biombo

Agatha Christie e outros · Capítulo 9 de 20

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O Cadáver Atrás do Biombo

História Nº 2

UM FURO JORNALÍSTICO

 

CAPÍTULO I

 

PELO TELEFONE

Dorothy L. Sayers

Os escritórios do Morning Star — o indômito diário londrino — estavam, naquele fim da tarde de 9 de novembro, agitados pelo corre-corre que atingia seu clímax às 18:00. Hemingway, que desempenhava as funções de editor do noticiário — uma espécie de corte suprema de apelação — estava sentado em seu gabinete, organizando a paginação final. A recepção do prefeito merecia a manchete principal e as colunas iniciais da primeira página, com fotografia, naturalmente. O caso da exumação de Newcastle resultara decepcionante — a autópsia não encontrara qualquer sinal de veneno no cadáver. Impossível ir além de um simples registro do resultado. Assim, seria melhor que a coluna quinta fosse destinada para a história do arcebispo que denunciou as uniões ilegais — coabitações à margem do sacramento do matrimônio. Contudo, permanecia a possibilidade de alguma noticia de última hora a respeito do Mistério do Bangalô Isolado.

No departamento administrativo a pressão não era tão acentuada. A Srta. Beryl Blackwood, secretária do gerente, encontrara tempo para ir ao toalete, a fim de retocar a maquilagem e empoar um narizinho petulante e atraente. Lá, ela encontrou a Srta. Irene Timmins, sua colega, empenhada na mesma tarefa. Beryl abandonou provisoriamente seu sisudo ar profissional e se permitiu uns momentos de mexericos.

— Reparei que eles designaram o seu querido Sr. Johnson para encarregado da história do Bangalô Isolado — disse a Srta. Timmins. — Você pode me emprestar o seu creme evanescente, meu bem?

— Está ali no meu armário — replicou a Srta. Blackwood — mas, por favor, não chame o Sr. Johnson de meu querido. Ele não é propriedade minha.

— Não mesmo? Pensei que ainda fosse; desculpe. O caso é que fiquei um pouco surpresa com a decisão do Sr. Hemingway, designando o Sr. Johnson. É que ele me parece ainda muito jovem, você não acha? Quero dizer, ele não tem a experiência do Sr. Oliver, por exemplo. Se você quisesse saber minha opinião, diria que o Sr. Oliver e não o Sr. Johnson é quem deveria ter ido a Jumbles tratar do caso.

— O Sr. Oliver estava às voltas com a exumação em Newcastle — respondeu a Srta. Blackwood pacientemente, embora revelando no tom da voz maior interesse pelo assunto.

— É verdade, mas essa é uma história ultrapassada. Afinal, qual o seu interesse? Um pobre velho de 84 anos. Já estava em tempo de ir embora. Entretanto, o caso do Bangalô Isolado, em Jumbles, esse, sim, é o tipo de crime que me interessa. Aquela pobre moça encontrada sozinha, apunhala no coração... São fatos assim que me horrorizam. Veja só: poderia ter sido você ou eu.

— A moral da história — comentou a Srta. Blackwood — é que quem não anda direito pelo menos deveria ter mais cuidado.

— É justamente o que eu acho. Mesmo que o tal de Tracey fosse o marido dela... e, nesse caso, seria um marido muito estranho, somente vindo para casa nos fins de semana e não aparecendo nem dando sinal de vida quando foi noticiado o assassinato; enfim, ele merece o benefício da dúvida. Mas, então, o que é que uma mulher casada estava fazendo com aquele outro sujeito, o tal de Fisher? Na noite de sábado, quando ela foi assassinada, ele se encontrava lá, não é? E eu gostaria de saber de que negócio ele estava tratando, ainda mais porque a moça se achava sozinha, sem sequer uma criada.

— Fisher deve saber mais do que contou — disse a Srta. Blackwood.

— É claro que sabe! Não me admirarei se ele estiver a par de toda a história. É capaz até de ser o criminoso. Aquela cara não engana. Vê-se pela fotografia que é daquele tipo de gorducho amável. Não me surpreenderei se ele tiver dado cabo também de Tracey. Isso explicaria o fato de ele não ter aparecido, você não acha? Tome nota do que estou dizendo. Qualquer dia destes o corpo de Tracey vai ser encontrado em algum lugar, com um punhal cravado nas costas, como a moça.

— Não havia punhal algum nas costas da moça — corrigiu a Srta. Blackwood.

— Bem, era um ferimento produzido por um punhal, uma faca ou qualquer coisa assim. Você não precisa tomar as palavras tão ao pé da letra; sabe muito bem o que quero dizer. O que acho é que essas histórias acontecem Quando uma garota salta fora dos trilhos, na certa acabará se complicando. Olhe, se eu resolvesse enveredar por esse caminho, faria tudo em alto estilo, com apartamento em Park Lane ou uma vila na Riviera, pelo menos. Chego a tremer só ao pensar naquele horrível bangalô, longe de tudo, isolado e úmido. Gosto dos lugares iluminados. Bem, desejo que o seu estimado Sr. Johnson... desculpe, o nosso estimado Sr. Johnson... consiga alguma coisa, embora eu continue a achar que eles deveriam ter mandado o Sr. Oliver. Mas estou atrasada, minha querida. Obrigada pelo creme.

A Srta. Blackwood voltou para sua sala e passou a arquivar a correspondência. Trabalhou tranquilamente até 6:45, quando o gerente saiu para fazer um lanche. Ela resolveu imitá-lo mas, ao levantar-se, o telefone tocou.

— Alô! Sim, é o ramal 148, escritório do gerente. Sim... A secretária dele falando... Quem?... Ah! É o Sr. Johnson! Onde é que o senhor está?... O quê? Em Jumbles?... Ah! Agora estou entendendo... O senhor conseguiu o quê?... Um formidável furo jornalístico?... Oh, que ótimo!... Não estou ouvindo bem... Sim, a ligação está horrível... O senhor achou o quê?... Ah, a arma! Santo Deus!... Eu nunca poderia imaginar! O senhor está certo de que pode identificá-la?... Como?... Sim... Onde?... Ouvi, sim... O senhor acha que a viu em uma vitrine, mas não se lembra onde... Broad Street?... O quê?... Olhe, espere um minutinho. Vou pedir uma nova ligação. Telefonista! Pode dar um jeito nesta linha? Mais parece uma barragem de metralhadora... Ah, agora, sim! Está bem melhor, obrigada... Alô, Sr. Johnson. Repita, por favor... Sim, estou ouvindo muito bem. Sim... Sim... O que o Sr. Hemingway pensa a respeito disto?... O quê? Não dar conhecimento ao Sr. Hemingway? Mas meu caro rapaz, você não deve perder seu tempo falando comigo... Não... Não... Está enganado... É claro que você deve falar diretamente com o Sr. Hemingway... O quê?... Não... não posso... Não. Sr. Johnson, não diga bobagens... Não me chame de querida... Não seja ridículo... Vou transferir a ligação... Telefonista! Alô, telefonista! Por favor transfira esta chamada para o escritório do Sr. Hemingway... Sim... Vou desligar... Pronto!

A Srta. Blackwood repôs o fone no lugar. Esse moço, Johnson, estava fazendo uma complicação dos diabos. Mas o engraçado é ele conseguir um furo daquela natureza. Encontrar a arma do crime! E, além disso, teve a sorte de identificá-la. Apesar de tudo, era uma pena que o Sr. Oliver não tivesse tido sua oportunidade. Ela deu um suspiro de resignação e foi apanhar o chapéu e o casaco.

Entrementes, a ligação foi transferida para a sala do editor do noticiário. Hemingway, alerta e decidido como sempre, o eterno cigarro pendurado no canto da boca, gritou logo no fone:

— Alô!... Quem é?... Johnson?... Sim... O que há?... Ótimo!... Encontrou o homem?... Ah, a arma?... Onde?... É um punhal?... Você acha o quê?... Pode identificá-lo? Como? Não perca tempo... Como é? Espere um momento.

Apanhou um bloco de memorando e retomou o fone.

— Johnson! Faça um resumo rápido dessa história... Sim... Sim... Continue... Sim... Sabe o nome da loja?... Está bem... Talvez daqui a pouco você se lembre. Agora, preste atenção. Naturalmente você não falou a ninguém a respeito disto... Não?... Correto... Watkins, dê-me uma tabela de horários. Obrigado Alô, Johnson! De onde você está falando? De um botequim? Quanto tempo você levará para voltar para Brighton?... Ah, compreendo... Bem, parece melhor você vir diretamente para a cidade. Traga a arma e escreva sua reportagem durante a viagem. Será que dá para apanhar o 7:35?... Bem, se perder esse, há o 8:35... Chega às 9:48... Ainda a tempo. Providenciarei para que tudo esteja aqui esperando a sua reportagem... Certo... Vou dar uma saída mas o Sr. Redman estará a postos... Correto... Isso mesmo... Até logo.

Rabiscou apressadamente algumas instruções e chamou com urgência o chefe da tipografia, que se apressou a vir, com uma porção de provas na mão.

— Olhe aqui, Bill. O Johnson chegará mais tarde com uma reportagem a respeito do Crime do Bangalô de Jumbles. Vou querer duas colunas na primeira página para um grande furo. Cancele a manchete sobre a recepção do prefeito e transfira tudo para as colunas cinco, seis e sete, pondo a fotografia na página dois. Perks, preciso de um fotógrafo e de paginadores prontos para um trabalho urgente. Simmonds está na casa? Mandem chamá-lo. Está tudo bem claro? Perfeito. O Sr. Redman resolverá qualquer problema que surgir. Alô! Simmonds? Johnson telefonou, avisando que tem um furo... O assassinato em Jumbles... Ele encontrou a arma... Vamos aos detalhes... Reserve uma manchete e um título em duas colunas. Bill se encarregará de tudo, está bem? Johnson deve chegar aqui com a arma e o resto da história dentro de uma ou duas horas, o mais tardar às 10.

Desligou e, com um gesto, despediu o tipógrafo. De» pois, consultou o relógio.

— Sete e cinco. Digamos que ele pegue o 7:35. Haverá tempo de sobra. Onde está aquela reportagem sobre o choque de trens?

Às 7:25, com todas as providências tomadas, Hemingway se levantou e decidiu ir para casa. O editor noturno do noticiário ainda não havia chegado; na ausência dele, Hemingway chamou o subchefe, entregando-lhe as notas que havia rabiscado durante o telefonema.

— Entregue isto ao Sr. Redman, quando ele chegar. Não se esqueça de que Johnson acha que pode identificar a arma, porque a viu em uma vitrine. Infelizmente, como não consegue lembrar-se do nome da loja, não podemos aproveitar o resto da noite para obter maiores detalhes. Entretanto, quando ele chegar, talvez possamos fazer mais alguma coisa. Tenho de sair agora. Tome conta.

 

Redman, o editor noturno do noticiário, entrou apressadamente na sala um pouco depois das 10. Ele já havia estado lá às 7:30, para saber das novidades da noite: informado de que Johnson não deveria chegar com sua reportagem antes das 10, saíra novamente, deixando recado de que estaria no Cheshire Cheese. Agora, passava os olhos pela papelada em cima da mesa.

— Onde está a reportagem sobre o caso de Jumbles? — perguntou, irritado.

— Ainda não chegou — informou o subchefe.

— Por quê? — quis saber Redman.

— Johnson não veio no trem das 7:35. Talvez tenha apanhado o que sai de Brighton às 8:35 e chega às 9:48.

— Às 9:48? Então já deveria estar aqui. Vá ver o que aconteceu com ele. Deveria ter vindo da estação diretamente para cá. Talvez esteja na sala dos repórteres.

Johnson não foi encontrado em lugar algum do edifício. O relógio marcava 10:15. Bill, o chefe da tipografia, entrou com ar desanimado na sala do editor do noticiário.

— O que vamos fazer com a primeira página, Sr. Redman? Não vão me entregar o material? Preciso começar a rodar as máquinas dentro de meia hora.

— Não é melhor telefonar para a Estação Vitória? — sugeriu o subchefe. — Talvez o trem esteja atrasado. Eles poderão informar a hora da chegada.

— É uma boa ideia. Telefone — respondeu Redman. — Se Johnson não chegar a tempo, devemos arranjar-nos com as notas que Hemingway deixou.

Folheou, nervosamente, os papéis espalhados sobre a mesa, perguntando:

— Há alguém aí que possa escrever uma reportagem com base nestas notas?

— O Sr. Oliver já chegou de Newcastle.

— Peça que ele venha cá.

O subchefe conseguiu a ligação com Vitória justamente no momento em que Oliver entrava na sala — um jovem alto, com fartos cabelos vermelhos e a fama de melhor repórter de polícia do Morning Star.

— Eles informaram — disse o subchefe — que o 9:48 atrasou, tendo chegado somente às 10 horas.

— Que azar! — exclamou Redman. — Bem, não adianta chorar. Se ele não estiver aqui dentro de 10 minutos, Oliver, você terá de fazer o melhor possível com estas notas. É isto o que temos: um punhal encontrado em um toco de árvore; Johnson pensa que foi adquirido em uma loja de Bond Street. Explore isso o quanto puder. Temos de dar a notícia mesmo sem a fotografia. Espere, talvez seja Johnson.

O telefone tocava, estridente. Redman atendeu, ouviu por uns instantes e se voltou alegremente para Oliver:

— É da Estação Vitória. Encontraram um corpo em uma cabine telefônica. Pode haver uma história aí. É melhor você dar um pulo até lá, Oliver, para ver o que há. Pegue um táxi. Telefone logo que souber alguma coisa.

Dez horas e 20 minutos; 25; 10:30.

Somente então o telefone tocou na sala do editor de noticias — um som agudo, insistente.

— Pronto... Sim, é do Morning Star... O editor de notícias falando... Como é mesmo?

— Oliver falando de Vitória. O cadáver encontrado na cabine telefônica é de Johnson. Apunhalado pelas costas. Bem no coração. O mesmo tipo de ferimento da moça de Jumbles. O caderno de notas dele foi roubado, assim como a arma que trazia. Também não se achou a que produziu o ferimento. O assassino deve ter entrado na cabine e matado Johnson para se apossar da prova. Continuo investigando.

— Santo Deus! — exclamou Redman. — Johnson assassinado! O criminoso de Jumbles o matou também.

Ficou imóvel por uns instantes, consternado, mas o instinto jornalístico foi mais forte. Começou a apertar os botões do interfone.

— bem, temos uma grande reportagem. Simmonds, suba logo. Avise ao pessoal da composição para aguardar novas ordens. Peters, tome nota.

Ditou a reportagem rapidamente, com um sentido de triunfo. O lápis grosso desenhou as manchetes:

REPÓRTER DO MORNING STAR APUNHALADO O ASSASSINO DE

JUMBLES ESTA SOLTO EM LONDRES

MATA JORNALISTA A FIM DE SUPRIMIR PROVA REVELADORA

CARREGADOR ENCONTRA O CORPO EM UMA CABINE TELEFÔNICA

Redman sacudiu a cabeça, aprovando.

— Leve para a tipografia... Rápido... Mande Bill subir... Veja se há uma fotografia de Johnson no arquivo. Olhe aqui, Mathews... dê uma busca e obtenha uma entrevista com a mãe dele, se é que ela existe. Quem sabe uma namorada? Vamos, mexam-se. Não fiquem olhando para mim.

 

Bill, o tipógrafo-chefe, deteve-se por um momento na amurada da galeria, contemplando no andar de baixo as máquinas que eram o orgulho de sua vida. As páginas externas, recém-saídas do prelo, estavam sendo empilhadas, prontas para compor os cadernos. Eram 11 horas da noite. Ele levantou a mão para acionar o botão de comando

— Tudo pronto aí?

— Pronto.

— Vamos lá.

Ouviu-se um estalido. Com um ronco crescente e firme, as máquinas começaram a rodar. O papel foi passando pelos rolos. Todo o grande edifício estremecia sob o impacto da reverberação.

Com o orgulho de sua enorme circulação, dois milhões de exemplares do Morning Star pareciam formar um enorme coro, festejando seu êxito. Afinal, fora obtido um grande furo jornalística