O Cadáver Atrás do Biombo

Agatha Christie e outros · Capítulo 15 de 20

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O Cadáver Atrás do Biombo

Capítulo VII

 

BERYL EM BROAD STREET

Clemence Dane

A uma hora da tarde de um nevoento sábado de novembro, a Srta. Beryl Blackwood, elegantemente vestida mas cansada, parou por um momento na porta do edifício do Morning Star para comprar um ramo de violetas de um florista ambulante. Pregando o ramo no casacão, como se anunciasse que estava começando seu fim de semana, ela recompensou o florista com um sorriso e mergulhou no nevoeiro.

Não era em vão que a Srta. Beryl Blackwood, do Morning Star, tinha um belo narizinho arrebitado. Também alguma coisa significava a ruga que havia entre suas cuidadas sobrancelhas, bem como a maneira como ela mordia os lábios com belos dentes brancos, sem falar na firmeza do queixo voluntarioso.

Uma garota menos resoluta teria sido logo conquistada pelo impetuoso Oliver ou pelo coitado do carinhoso Johnson. A Srta. Blackwood, porém, conseguira equilibrar as escalas de suas afeições igualmente entre os dois jovens, até que o destino se intrometera, sob a forma de um grampo com cabeça de jade, alterando o equilíbrio com a exclusão do infeliz Johnson. Como ele havia saído da competição de modo tão trágico, a moça pensava nele com ternura e se tornava mais crítica em relação a Oliver.

Apesar de tudo o que Oliver estava pensando e das pistas que a polícia seguia, ela conhecia muito bem a voz de Johnson e confiava na própria memória. Johnson lhe havia dito, ao telefone, Broad Street e não Bond Street Ela pouco se importava se o grampo viera de Bond Street ou de Timbuktu, mas podia jurar que Johnson falara em Broad Street

Ela estava pensando nessas coisas, enquanto caminhava pela Fleet Street. Havia resolvido ir a pé para casa, naquele sábado, em parte para fazer um pouco de exercício e em parte porque nas ruas de menor movimento ela podia mais facilmente fazer as compras para sua despensa: frutas, um tipo especial de queijo, peixe defumado, salsichas e outras iguarias que uma moça solteira gosta de comer de quando em vez. Foi então que viu, em uma conhecida loja de especialidades, uns vidros de geleia feita em casa. Sem muito refletir, comprou três e achou que já estava carregando muito peso. Logo depois, umas espigas de milho vieram aumentar sua sacola. Na esquina seguinte ela se deixou ficar uns bons 10 minutos observando, em uma casa de venda de animais vivos, a tristeza dos pobres bichinhos, presos em gaiolas e como que pedindo para serem libertados. Havia, em particular, um cãozinho felpudo, com uns olhos suplicantes, que a emocionaram. O pobre animal olhava para ela exatamente como Johnson costumava fazer. Beryl perguntou quanto custava. Uma libra! Muito caro. Pobre cãozinho e pobre Johnson!

O nevoeiro se tornara mais denso e ela apressou o passo, já nervosa, atenta ao menor ruído estranho. Todavia, o nevoeiro que a cercava não era mais intenso do que a sensação que a deprimia e que se apossara dela desde a morte do infeliz e apaixonado Johnson. Para Beryl, esse sentimento de pesar não desapareceria enquanto ela não fizesse alguma coisa que afastasse aquela ideia fixa. De repente, foi tomada de rancor contra o trabalho do escritório, contra Hemingway e mesmo Oliver; sobretudo, contra o grande jornal e seu enorme público. Tudo o que desejavam — o jornal e os leitores que ele servia — era o furo. Ninguém estava se importando com Johnson, responsável pela manchete sensacional. O repórter não era mais do que o personagem sacrificado para gáudio do leitor — mas Johnson dissera Broad Street e não Bond Street! Ela estava cada vez mais convencida disso. Seu pensamento, então, voltou para o cãozinho de olhos suplicantes; nessa altura, porém, ela já não sabia onde se encontrava. O nevoeiro se tornara tão pesado que ela perdera o senso da direção. Chegou a pensar que, se passasse um táxi, poderia tomá-lo, mas logo afastou a ideia, considerando que o preço da corrida seria pelo menos de meia coroa. E o cãozinho custaria oito meias coroas. E novamente, lembrando-se dos olhos tristes do animal, a imagem do amigo assassinado voltou a seu pensamento e, desta vez, ela não pôde apagá-la. Na verdade, nem mesmo tentou fazê-lo. Tinha a impressão de que o nevoeiro se tornara propositadamente mais denso a fim de isolá-la do mundo dos vivos, criando uma câmara privada em pleno coração de Londres. Nessa câmara, ela e o amigo morto — mas tão nitidamente vivo em seu pensamento — iriam ter o último encontro.

Beryl pensou com seus botões: “Se eu fosse espírita, diria que estava entrando em transe.” Então, obedecendo a um impulso, parou de súbito na rua deserta, onde não enxergava um palmo adiante do nariz, e disse para a parede de névoa: “Está bem. Se ele deseja dizer-me alguma coisa, que fale agora. Estou pronta a ouvi-lo.” E, supersticiosamente, permaneceu imóvel, esperando que algum tipo de resposta brotasse do silêncio que a cercava.

Nada aconteceu, é claro. Depois de um momento de espera, ela se deu conta de sua tolice, sacudiu os ombros e recomeçou a caminhar, mas logo percebeu que estava completamente perdida, dentro de um nevoeiro tão forte que são conseguia sequer ler o nome da rua.

O que fazer? O braço lhe doía, sob o peso da sacola e ela estava perdendo seu precioso fim de semana.

Nesse momento de indecisão, ela ouviu o som de uns passos conhecidos, o som confortador dos passos do policial londrino, e viu surgir à sua frente o mais real dos fantasmas — um uniforme azul se destacando no ambiente cinzento. Beryl revelou seu contentamento mostrando uma dupla fileira de belos dentes brancos.

— Moço! — disse ela. — Estou meio perdida. Sabe qual o nome desta rua?

— Broad Street, Senhorita.

— Broad Street! — Ela sentiu um ligeiro estremecimento. Era fantástico ter estado durante o último quarto de hora pensando em um homem assassinado e em suas últimas palavras e, de repente, ouvir essas mesmas palavras como um eco, na voz sonora de um policial certamente bem vivo. — Broad Street... Há alguma loja de bijuterias por aqui? — perguntou ela, afinal.

— Sim, Senhorita. Um pouco mais adiante, nesta mesma calçada.

Ela agradeceu e retomou sua caminhada, sentindo-se estranhamente excitada e comentando consigo mesma:

— Oliver naturalmente vai dizer que foi uma coincidência. Até pode ser que seja mas não deixa de ser estranho. Agora, tenho de comprar aquele cãozinho, porque foi ele que me trouxe sorte. Poderei ter o dinheiro, se economizar nos almoços durante uma quinzena. Broad Street... Estou certa de que ele disse Broad Street Ah! É aqui

Não passava de uma pequena loja, com uma portinha estreita e um ar de liquidação. “O meu contrato acaba dentro de cinco anos”, parecia dizer a lojinha, “de modo que não vou me preocupar com nova pintura.”

Apesar disso, a vitrine estava repleta de toda espécie de bugigangas que atraem os colecionadores de coisas exóticas: meia dúzia de estranhas miniaturas, um belo daguerreótipo em uma moldura moderna, alguns vasos boêmios falsificados, uma escova de cabo de marfim, uma bandeja de quinquilharias baratas e uma bola de cristal amarelada.

“Bem o tipo de lojinha de que gosto”, pensou Beryl, que adorava bugigangas. “E ou compro essa bola de cristal ou morro de pesar.”

Entrou, fazendo soar uma campainha presa à porta. Uma cortina de contas, no fundo da loja, deu passagem à proprietária. Beryl jamais havia estado ali mas teve a impressão de que conhecia muito bem aquela matrona, com sua blusa floreada, um ar desleixado, o cabelo corrido, a maquiagem apressada, sua cupidez e loquacidade. Beryl, entretanto, tinha muito jeito para enfrentar esse tipo de vendedoras. Seu ar despreocupado, o sorriso, tudo nela parecia dizer: “Não tenho muito dinheiro, sei muito bem o que quero comprar e será ótimo para nós duas que não percamos tempo.”

A moça não tomou a devida precaução contra a loquacidade da dona da loja e esta começou logo a oferecer bugigangas. Beryl escolheu uma cigarreira para dar de presente a Oliver e começou a discutir o preço da bola de cristal, oferecendo duas libras menos do que o preço marcado. Nessa altura, as duas já estavam íntimas e Beryl achou que poderia iniciar seu interrogatório com vistas ao grampo chinês. Ia começar a jogada!

— A senhora compreende — disse Beryl. — Eu gostaria de levar a bola de cristal para dar de presente, mas estou certa de que é uma extravagância, quero dizer, a minha amiga vai-se surpreender, pois sabe que um presente desse valor...

— Depende da categoria dessa sua amiga. Mas e que posso dizer é que, quando se topa com uma oportunidade, não se deve deixá-la passar. Eu somente posso fazer um abatimento maior porque comprei por um preço muito baixo.

— É o trabalho de remeter — alegou Beryl. — A senhora coloca em uma caixa para mim?

— Ah, não! — disse a dona da loja, firmemente. — Isso eu não faço. Se fosse apenas embrulhar em uma folha de papel pardo...

— Quem sabe a senhora tem algum artigo menos volumoso... um adorno qualquer...

— O que acha de uns brincos? Tenho uns de topázio oriental.

— As orelhas dela não são furadas.

— Ora, meu bem, é apenas uma questão de colocar tarraxas.

— A senhora pode providenciar isso para mim? — perguntou Beryl ousadamente.

— Desculpe, mas não posso. Se eu tivesse de andar por aí, mandando colocar tarraxas em brincos... Quero dizer que perco meu dia inteiro procurando coisas para vender e se fosse atender o gosto de cada freguês... Houve um no mês passado, que se interessou por um grampo chinês, que estava na vitrine. “A senhora não pode me conseguir um par?”, perguntou ele. “Impossível”, respondi. “Este grampo é muito raro. Se o senhor quer uma réplica, tem de ir a Birmingham. Não há um único artigo vendido aqui nesta loja que não seja autêntico e garantido.” O homem ainda desculpou-se e eu insisti em afirmar que a joia era muito rara.

— Como era o feitio desse grampo? — perguntou Beryl.

— Bem... Um desses ornamentos orientais — respondeu a matrona vagamente. — Há gente que consegue prender o cabelo com essa coisa, que mais parece um espeto do que um grampo! Foi por isso que vendi tão barato. Ainda mais com toda esta onda de cabelos curtos...

— É justamente o tipo de presente que eu estava procurando — disse Beryl, controlando sua excitação. — Um grampo para cabelo, a senhora disse?

— Sim, meu bem. Para o cabelo. De jade.

— Quanto custou?

— Deixei por duas coroas — informou a dona da loja, satisfeita com o pesar daquela freguesa por não ter chegado antes. — Foi barata Você iria gostar. Muito artístico. Uma cabeça de mulher envolta em serpentes. Tudo lavrado.

Beryl se surpreendeu. Estava certa de que Oliver havia descrito de maneira diferente o grampo que matara o pobre Johnson. Sim, era chinês e com o cabo de jade, mas representando uma cabeça de homem em um corpo de peixe. Assim, se o falecido Johnson estava certo e se o grampo que ele encontrara — o grampo que indiscutivelmente fora utilizado contra a moça em Jumbles — fora comprado na Broad Street, então a arma que o matara tinha de ser outra. No grampo de Johnson o cabo representava uma cabeça de mulher envolta por uma serpente. Parecido, mas não o mesmo. Nesse caso... um assassinato e dois grampos? Dois assassinatos e um grampo? Essa terrível aritmética era demais para ela. Imediatamente seu ressentimento contra Oliver se amorteceu. Ele tinha um raciocínio tão rápido! Sempre sabia o que deveria ser feito. Beryl lamentou não tê-lo a seu lado. Enquanto puxava pela cabeça, procurando uma pergunta inteligente que Oliver faria sem esforço, a dona da loja lhe poupou o trabalho.

— Se eu fosse você, não me preocuparia, meu bem. Afinal, precisava de um pequeno conserto. Essa é a regra de todos os fregueses — lamentou ela, amargamente. — Primeiro, querem um artigo tão velho quanto as Escrituras e então esperam que ele esteja novinho em folha. E você tem de providenciar o conserto — continuou a matrona, elevando a voz e encarando Beryl ameaçadoramente. — “Naturalmente, você tem de fazê-lo funcionar; naturalmente vai desamassá-lo; naturalmente mandará enfiar as contas novamente” Nem queira saber, às vezes ficam mais de uma hora regateando preços de cada artigo e afinal se decidem por um broche vulgar de meia coroa e ainda pedem que eu mande soldar um alfinete nele. Parece que mantenho esta loja apenas para servi-los. Estou cansada de repetir que esta é uma casa de antiguidades e não de reparos. Foi isso mesmo que disse para o homem que comprou o grampo chinês...

— Ah! Foi um homem? — perguntou Beryl.

— Devo dizer que era um homem. Desses que têm o rei na barriga. “Se o senhor quer que o grampo seja desentortado, por que não o leva a alguma oficina? Onde é que o senhor costuma levar seus óculos, quando eles se quebram? Eles lá farão o conserto que o senhor quer.” Tive vontade de fazer a comparação, porque ele estava usando óculos com aros de ouro... Todavia, ele podia aborrecer-se e Deus me livre de perder um freguês. Então eu disse: “Está bem, deixe o seu endereço que eu vou providenciar. Qual é o seu nome?” Ele me olhou, espantado, como se eu lhe tivesse pedido para explicar a teoria de Einstein. Gaguejou: “Dedham” ou “Deadman”, uma coisa assim, mas antes que eu pudesse anotar o nome, ele pareceu mudar de ideia. Disse que não queria causar incômodo, imagine só! Depois de me fazer perder 20 minutos de meu precioso tempo, atirou sobre o balcão uma nota de 10 xelins e foi embora. Os homens, os homens! — exclamou dramaticamente a dona da loja — mas a gente tem de se conformar com certas coisas. E se você quer o meu conselho, meu bem, leve a bola de cristal. É um presente original.

Beryl, alegando que já estava com muitos pacotes, prometeu voltar outro dia. Na hora do almoço estava bem? Mesmo que ela não pudesse vir pessoalmente, pediria a um amigo chamado Oliver para vir em lugar dela. Entrementes, se o Sr. Deadham, Deadman, ou lá o nome que fosse, aparecesse para trocar sua compra (isso acontece algumas vezes, não é mesmo?) Beryl gostaria muito de saber. Para tanto, deixou seu nome, endereço e o melhor sorriso, ao sair da loja, a cabeça em um redemoinho.

O que foi que ela ficou sabendo? Alguma coisa? Nada? Quem fora o comprador do grampo? O homem de óculos de aros de ouro, que não quis deixar seu endereço dera um nome parecido com Redman... Dedham, Deadman, Redman! Mas isso era trabalho para Oliver, não para ela. E somente então se lembrou de que convidara Oliver para o chá e, àquela hora, ele certamente estaria sentado na porta do apartamento, esperando por ela. Bem. Ele podia esperar mais um quarto de hora, pois Beryl não iria esquecer quem fora sua mascote.

Voltou sobre seus passos, rapidamente, pois o nevoeiro estava levantando, como acontece de repente em Londres, e ela não demorou a encontrar a loja de animais. Lá estava o cãozinho, esperando por ela. Era uma extravagância gastar uma libra daquela maneira, sem falar no trabalho que daria: mingau de aveia, potes de leite e biscoitos especiais durante uma porção de tempo, até ficar maior. Beryl pesou todos os prós e contras, depois entrou na loja e comprou o cãozinho. E como ficara difícil carregar o pequeno animal, pulando de contentamento, mais a geleia e as hortaliças na sacola! Beryl coroou suas extravagâncias indo de táxi para casa.

Sua previsão fora perfeitamente acertada. Oliver estava sentado na escada, de mau humor e tiritando de frio. Mostrou no relógio que já se haviam passado sete minutos e assumiu aquela posição de mártir conformado. Depois que Beryl lhe pediu bastante desculpa, ele tomou a chave das mãos dela, com aquele ar superior de quem mostra que sabe fazer as coisas — o que, nele, indicava perdão.

— Comprei um cãozinho — disse Beryl, ofegante, deixando o pequeno animal saltar de seu colo.

— Minha querida Beryl, por que diabo fez isso? Detesto cães — disse Oliver, enquanto acariciava o bichinho, da maneira como eles gostam, deixando-o agitado, a correr de um lado para outro, como demonstrando que gostava dos dois. Então Beryl sorriu para Oliver e Oliver sorriu para Beryl, enquanto o cãozinho, sentindo-se desprezado, começou a latir.

— Onde você o arranjou? — perguntou Oliver.

— Em uma loja da Broad Street — respondeu ela em tom misterioso.

— Broad Street? — repetiu ele, desconfiado. — O que quer dizer com isso? Você está escondendo alguma coisa. Desembuche.

— Se eu lhe disser que o Sr. Redman comprou um grampo chinês exatamente igual ao que Johnson viu em uma loja da Broad Street, o que você vai responder?

— Que não acredito.

— Mas eu posso provar — disse Beryl.

— Redman? — perguntou Oliver, incrédulo.

— Dedham foi o nome que a dona da loja me disse, mas é muito semelhante a Redman e a descrição que ela me fez corresponde perfeitamente à dele. Será mesmo, Oliver?

Os dois ficaram olhando um para o outro, enquanto o cãozinho latia mais furiosamente.