O Cadáver Atrás do Biombo
Capítulo IV
A ARMA DO CRIME
Agatha Christie
— Encontrada? — perguntou Oliver. — Onde?
— Atirada em cima da cabine telefônica na Estação Vitória.
— Uma solução inteligente — admitiu Oliver. — Tão simples... Impressões digitais?
— Bem, a polícia não costuma fazer de nós seus confidentes. Ademais, há certo ressentimento por ter Johnson guardado segredo a respeito de sua descoberta. Temos de ir com jeito, mas acho que não há impressões.
— Realmente, não é provável que haja. Assassino sem luvas é uma espécie tão extinta quanto um dinossauro. Algum detalhe quanto ao tipo da arma?
— Qualquer coisa assim como um punhal ou grampo de cabelo oriental com cabeça de jade. Não se usa mais isso, eu acho. Venha logo e trate de agir.
— Já vou — respondeu Oliver, desligando.
Um grampo oriental com cabeça de jade... A descrição lhe soava familiar. Sentado no trem, tirou do bolso um amarrotado caderno de notas e escreveu: “Oriental”, acrescentando em seguida “Bond Street” e, depois, “Tentar a Casa Araby”.
Às 11 horas da manhã seguinte, a Srta. Beryl Blackwood atendeu o telefone que tocava.
— É o seu estimado Sr. Oliver — gracejou sua colega, Srta. Timmins.
— Aqui é a Srta. Blackwood falando — respondeu Beryl secamente,
— Alô — disse Oliver no outro lado da linha. — O telefonema é para informar uma derrota com pesadas perdas. A polícia não quer nada comigo. Minha simpática presença e meus brilhantes argumentos não conseguiram impressionar ninguém. Entretanto, fui levar-lhes ideias luminosas e pistas inteligentes. Se o tal de grampo ou punhal foi comprado em Bond Street, há apenas duas joalherias que vendem esse tipo de enfeite, a Takurami e a Araby. Ambas trabalham com objetos orientais. Segundo um princípio que aprendi no jogo de bridge, supor que determinada carta se encontre na mão de quem a gente quer que esteja, meu palpite é a Araby. O dono é um velho amigo meu e, quando um oriental é amigo de alguém, é amigo para valer. Ele me ajudará no que for possível, tenho a certeza.
— Parece uma excelente ideia — disse Beryl, no mesmo tom seco com que atendera. — O senhor telefonou... quero dizer... apenas para conversar sobre o assunto?
— Não. Telefonei para convidá-la para almoçarmos juntos. A informação valiosa a respeito de Bond Street foi apenas a isca para atrair você. Atraiu?
Combinaram encontrar-se em um restaurante que ambos conheciam.
A Casa Araby estava situada quase na esquina da Piccadilly com Bond Street. Um balconista, muito insinuante, foi ao encontro de Oliver, ao vê-lo entrar. Oliver disse-lhe que desejava falar com o proprietário. Minutos depois o repórter entrava em um gabinete, no fundo da loja, acompanhando a figura austera do Sr. Araby.
O oriental convidou Oliver para sentar-se e ofereceu-lhe um cigarro, sentando-se também. Por alguns minutos guardaram silêncio, o silêncio do Oriente, onde é considerado como falta de educação entrar logo no assunto da visita. Como que hipnotizado pelo ambiente, Oliver procurou não perturbá-lo com a rispidez do estilo ocidental.
— Não quero roubar muito de seu tempo — começou ele.
O Sr. Araby fez um gesto de quem não tem a mínima pressa, como querendo dizer que, por ele, ficariam os dois ali o dia inteiro, fumando.
— Queria pedir que o senhor me ajudasse, se possível — continuou Oliver.
— Meus préstimos estão sempre a seu serviço — replicou Araby.
— É a respeito do Crime do Bangalô Isolado. Encontraram a arma na Estação Vitória, ontem à noite. Foi comprada aqui, não foi?
Araby assentiu com um grave movimento de cabeça.
— Realmente. O Inspetor da Scotland Yard... ele esteve aqui. Contei-lhe tudo o que eu sabia.
— Pode descrever-me o objeto?
— Propriamente falando, trata-se de um grampo, não de um punhal. Um comprido alfinete de metal com uma cabeça de jade... jade verde... muito bem lavrada... o desenho de peixes entrelaçados, representando o deus tutelar dos rios.
— Imagino que se trata de uma joia rara — arriscou Oliver.
— Aqui no Ocidente, talvez sim. As mulheres não costumam usá-la, como acontece no país de origem, onde prendem os cabelos geralmente com um par desses grampos. O Deus dos Rios assegura fertilidade e uma longa vida, com a Deusa Serpente representando a imortalidade.
— O Deus dos Rios não parece haver oferecido proteção desta vez — observou Oliver. — Talvez tenha sido insultado ou qualquer coisa assim.
Ele anotou em seu caderninho: “A maldição do Deus dos Rios” e achou que o título era bem bolado. Uma grande parte dos leitores é constituída de pessoas crédulas que adoram amores ocultos e misteriosas maldições orientais.
— A moda oriental parece que foi adotada no Ocidente — comentou Araby. — Foi para servir como grampo de prender cabelos que eu vendi a joia.
— Como é que o senhor sabe disso? — perguntou Oliver bruscamente.
— Por intermédio do cavalheiro que a comprou. Ele chegou mesmo a gracejar, comentando que voltara a moda dos cabelos longos e que as mulheres estão sempre dispostas a usar os ornamentos mais excêntricos, desde que consigam inventar uma razão qualquer para isso.
— E como era esse cavalheiro? — quis saber Oliver.
— Um homem corpulento, com um bigodinho oleado, sócio da firma Fisher & Flensburger, de Brighton. Identificou-se e pediu um desconto, por trabalharmos no mesmo ramo.
— É estranho — observou Oliver, surpreendido pela maneira ostensiva com que fora feita a compra. — E quando foi isso?
— Na sexta-feira passada, pelas cinco horas da tarde.
— Na tarde de sexta-feira — murmurou Oliver. — Na véspera do assassinato em Jumbles.
Permaneceu sentado ainda uns minutos, pensando. Depois levantou-se. O Sr. Araby, calmo, impassível, não demonstrando qualquer reação, levantou-se também.
— Sou muito grato ao senhor.
— Não há de quê — respondeu Araby, sacudindo as mãos.
— Imagino que... — disse Oliver, hesitante. — Não há dúvida de que os dois crimes foram cometidos com o mesmo grampo?
— O Inspetor parece que estava convencido disso. O senhor deve ter notado que o grampo não era redondo mas retangular e também levemente torcido. Conheço um pouco de cirurgia, meu amigo. Um médico não se deixaria enganar. Deve ter achado o ferimento muito característico.
Meia hora mais tarde, Oliver e Beryl estavam sentados no restaurante.
— E então? — perguntou Beryl ansiosamente, depois que o garçom anotou os pedidos e se retirou. — Como é que foi a entrevista? Correu tudo bem?
Oliver respondeu afirmativamente com um movimento de cabeça.
— Era mesmo da Casa Araby.
— Que ótimo! — exclamou Beryl, entusiasmada. — É que eu estava um tanto temerosa... você compreende... a ligação estava péssima... Mal podia ouvir o que o Sr. Johnson estava dizendo. A princípio, pensei que fosse Broad Street. Seria horrível se eu cometesse um engano.
— Sempre achei que uma mulher deveria interessar-se pelo trabalho de seu marido — disse Oliver. — Você tem vocação para jornalista, Beryl. É um bom augúrio para o nosso futuro.
— O que você quer dizer com isso? — perguntou ela.
— Casamento.
— Ora, vamos falar sobre coisas mais interessantes.
Oliver relatou sua entrevista com o dono da joalheria.
— Veja só — arrematou ele. — Não sei como Fisher conseguiu arranjar um álibi, mas não tenho dúvida de que ele é certamente o assassino.
— Ele comprou o grampo na sexta-feira e a moça foi morta no sábado... Sim, isso parece que encaixa direitinho — disse Beryl.
— Entretanto, ele se identificou e até pediu um desconto... Isso é coisa de doido.
Beryl não concordou.
— Não. Isso prova apenas que o crime não foi premeditado. Ele comprou o grampo como um presente e levou-o para a Sra. Tracey, depois tiveram uma discussão e Fisher a matou, enterrando-lhe o grampo no coração.
— Realmente... — murmurou Oliver. — Está tudo muito bem, mas... há qualquer coisa que não encaixa.
— O que você quer dizer com isso?
— É que, teoricamente, está tudo certo mas, na prática, não joga com Fisher. Ele não pertence a esse tipo de homens. O gesto contraria a natureza humana.
— Tem razão — concordou Beryl pensativamente. — Mas as pessoas não têm geralmente um lado escondido, uma faceta que a gente não conhece ?
— O ego oculto? Sim, talvez tenha razão. O tigre acorrentado. — Seu rosto se alterou por um momento e, com raiva, Oliver fincou o garfo em uma fatia de pão. — E há esse álibi. Sabemos que os dois crimes foram cometidos pela mesma pessoa.
— Foram mesmo? — perguntou Beryl. — Suponhamos, apenas para argumentar, que alguém quisesse matar o Sr. Johnson. Vinham há muito tempo aguardando uma oportunidade. De repente, ela apareceu. Johnson estava voltando para Londres e trazia consigo a arma com que já fora cometido um assassinato. Se ele fosse encontrado morto pela mesma arma, qual a conclusão natural? Que ele fora apunhalado pelo primeiro criminoso, evidentemente.
— Quando, na realidade, os dois crimes são independentes entre si — arrematou Oliver. — A propósito, há em favor de Fisher um detalhe importante, que parece que ninguém está levando em conta.
— Qual é?
— O seguinte: Johnson tinha a arma consigo, não é? Ora, se Fisher o seguiu desde Brighton, como é que ele se apossou da arma, a fim de usá-la contra sua vítima?
— Está aí um ponto bem interessante — concordou Beryl.
— Johnson não iria entregar seu precioso achado a uma pessoa totalmente estranha e é claro que não houve luta na Estação Vitória. Johnson deve ter sido apunhalado completamente desprevenido.
— Como o seria se se tratasse de alguém que ele conhecesse — completou Beryl.
— De fato. O diabo é que ninguém sabia que ele viria de trem, exceto o pessoal do Morning Star. Por isso mesmo, a polícia nos interrogou a respeito das atividades de cada um de nós à hora do crime. Mas você já sabia disso.
— Não, não sabia.
— Bem, foi o que a polícia fez, de acordo com a rotina. Mas não surgiu nenhuma circunstância discordante. Realmente, o que não encaixa é...
Hesitou por um momento, olhando interrogativamente para Beryl.
— Sei qual é — disse ela, meneando a cabeça. — A principal objeção à minha teoria está em que não se conhece uma única pessoa que possivelmente quisesse matar o Sr. Johnson. Falta o motivo.
— Mas podemos examinar o problema ao contrário. Johnson tinha um motivo para me matar. O rival que o desbancou.
— Você é realmente um sujeito muito convencido.
— E você uma garota muito ardilosa. E por falar em garotas, você sabe que talvez Johnson tenha sido assassinado por uma mulher?
— Por quê?
— Porque isso resolveria tudo. Apunhalar pelas costas é um crime tipicamente feminino e um grampo com cabeça de jade é uma arma também feminina. Imagine o seguinte: a garota e Johnson perto da cabine telefônica... Ele mostra a descoberta que fizera, identificando a arma do crime... A garota se apossa do grampo, elogiando a inteligência do repórter. O pobre coitado, sem suspeitar de nada, vira-lhe as costas e entra na cabine, sendo logo apunhalado. Estou vendo a cena. Johnson era o tipo do sujeito que confiaria cegamente em uma mulher.
— É, mas infelizmente não existe mulher alguma para confirmar sua teoria — atalhou Beryl, impiedosamente, acabando com as fantasias de Oliver.
— Realmente, não existe — disse ele, desconsolado. Depois, consultou o relógio. — Já está na minha hora. Vamos apenas resumir o caso, como ele se encontra agora. Hipótese n.º 1: Fisher cometeu os dois crimes, fez camaradagem com Johnson no trem e perguntou o que havia naquele esquisito embrulho que ele colocara sobre os joelhos. Ou então, apanhou o grampo que estava dentro da pasta de Johnson, quando este se encontrava fora do vagão.
Parou por um momento e bateu com a ponta do dedo na mesa.
— Hipótese nº 2: Fisher cometeu o primeiro crime e um desconhecido inimigo de Johnson cometeu o segunda Hipótese abandonada, porque não acreditamos que Johnson tivesse qualquer espécie de inimigo. Hipótese nº 3: Tracey...
— Essa é a sua hipótese favorita. Você sempre quis que o criminoso fosse Tracey.
— Ora, e por que não poderia ter sido? A ausência de Tracey é muito sintomática. Toda a Inglaterra procurando por ele, inutilmente. Parece até que se trata de um ser mítico. Entretanto, sabendo que está sendo procurado, ele acabará por se entregar. Salvo se...
— O quê?
— Salvo se também já estiver morto — concluiu Oliver gravemente.
Houve um longo silêncio. Afinal, ele retomou a palavra, em tom mais alegre:
— E temos assim completada nossa lista de suspeitos.
— Não — disse Beryl. — Falta aquele tal de Potts.
— Um tipo desagradável — comentou Oliver. — Mas realmente não vejo como encaixá-lo.
— A menos que... Beryl hesitou, encabulada. — A menos que Tracey seja Potts.
— Mas, minha querida, a cicatriz...
— É muito fácil simular uma cicatriz. Sinto que estou na pista certa. Potts é Tracey. Ele voltou ao bangalô porque havia esquecido alguma coisa lá... alguma coisa que o incriminava. Quando você o surpreendeu, ele se atrapalhou um pouco mas logo inventou uma história. Durante o inquérito tinha ouvido falar que a vítima tinha um irmão. Assim, ousadamente, se apresentou como sendo esse irmão.
— Você está esquecendo que telefonei para Southampton e verifiquei sua história.
— Isso pode ser explicado. Ele talvez seja mesmo Potts e tenha adotado o nome de Tracey para frequentar o bangalô.
— Mas por que eles alugaram um bangalô com o nome de Tracey? — insistiu Oliver, já fascinado pela teoria de Beryl, mas sentindo-se no dever de apresentar todas as objeções possíveis.
— Ah, isso eu não sei — confessou a moça.
— Deve haver alguma razão suspeita, algo assim como chantagem. Fisher talvez esteja envolvido nisso. Tenho de ir embora — acrescentou Oliver, levantando-se. — Não vou me esquecer de sua ideia, Beryl. Você vai ficar?
— Apenas alguns minutos mais — respondeu ela, consultando o relógio. — Ainda não está na hora de reabrir o expediente e gostaria de repassar alguns pontos que não entendi bem.
Oliver assentiu com um movimento de cabeça e, apanhando o sobretudo e o chapéu, deixou o restaurante. Depois que ele passou pela mesa ao lado, ouviu-se o ruído característico de um jornal quando é dobrado apressadamente.
Beryl se surpreendeu e levantou os olhos. A mesa vizinha estava ocupada por um freguês solitário, sentado de costas para eles. Naquele momento, o homem segurava o jornal de um modo esquisito e parecia muito absorvido em sua leitura. Beryl observou que, mantido naquela posição, o jornal escondia o rosto de seu leitor para quem passasse pelo intervalo das mesas.
Uma invencível curiosidade tomou conta dela. Levantou-se, como se fosse sair; depois fez a volta da mesa, olhando para o chão, fingindo que procurava uma luva. Desse modo, sem despertar suspeitas no misterioso ocupante da mesa vizinha, pôde ver-lhe claramente o rosto refletido em um espelho na parede.
Sentindo-se coberto pelo jornal que mantinha à sua frente, o homem não tirara os olhos da porta por onde Oliver acabara de sair. A expressão de seu rosto era muito estranha — uma espécie de satisfeito triunfo, mas com um traço de outro sentimento que mais se assemelhava ao temor. Assim pareceu a Beryl. O homem era moreno, de meia-idade e na face direita havia, no sentido diagonal, uma feia cicatriz vermelha.
Potts! Era ele, com certeza!
Beryl esperou que ele pagasse a conta e se retirasse. Depois, a uma discreta distância, seguiu atrás dele. A moça não receava que o homem desconfiasse de alguma coisa. Se, como ela supunha, Potts houvesse seguido Oliver até o restaurante e tentado ouvir a conversa, provavelmente teria prestado pouca atenção à garota com quem o repórter estava conversando.
Em frente à estação Holborn do metrô o homem se deteve e ficou esperando. Uma porção de gente estava saindo da estação. A Beryl pareceu que Potts, no meio de toda aquela gente, entregara uma folha de papel a um dos passageiros. A moça pensou que talvez se tivesse enganado, mas pouco depois, tendo atravessado a rua, o homem repetiu o mesmo procedimento em frente à estação do Museu Britânico.
Potts continuou seu caminho. Na esquina de Tottenham Court Road, Beryl colocou-se ao lado dele, suspeitando que a mesma manobra iria ser novamente executada. Desta vez não houve dúvida. Beryl viu perfeitamente quando a folha de papel branco mudou de mãos. A pessoa que a recebeu era uma mulher bem vestida, muito elegante. Nem olhou para o papel que recebera e se dirigiu para a bilheteria. Potts fez o mesmo e Beryl os seguiu mas não a tempo de ouvir para qual estação Potts comprara os bilhetes. Pelas dúvidas, Beryl resolveu pedir uma passagem até o fim da linha.
Na plataforma de Hampstead os três ficaram esperando a chegada do trem. Havia muita gente. Quando as portas se abriram, Potts entrou logo. No momento em que a mulher quis fazer o mesmo, o papel lhe escapou das mãos e, sem que ela o percebesse, caiu no chão. Rapidamente, Beryl se abaixou e o apanhou mas, com isso, perdeu a oportunidade de entrar no trem. As portas já estavam fechadas.
Beryl permaneceu imóvel, com a folha de papel na mão, enquanto o trem passava por ela ganhando velocidade. De repente, divisou o rosto de Potts, os olhos fixos nela e no papel. Um sorriso sardônico contorcia-lhe o rosto desfigurada
Ansiosamente, Beryl olhou para o que ela julgara um grande achado e experimentou uma penosa decepção. Era uma folha impressa com os seguintes dizeres:
TER RELIGIÃO É MELHOR DO QUE TER UM EMPREGO.
SUA ALMA ESTA SALVA?