O Cadáver Atrás do Biombo

Agatha Christie e outros · Capítulo 18 de 20

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O Cadáver Atrás do Biombo

Capítulo X

 

BERYL SOFRE AS CONSEQUÊNCIAS

Clemence Dane

Beryl Blackwood deu um suspiro de profunda satisfação. Chegara a noite de sábado e novamente o apartamento era apenas dela. A satisfação não resultava de qualquer restrição que ela pudesse ter relativamente à encantadora garota com quem repartia seu pequeno lar. Entretanto, a melhor qualidade dessa companheira estava no fato de que ela passava os fins de semana com os pais, permitindo assim que Beryl e o cãozinho fizessem exatamente o que lhes passava pela cabeça. Enquanto ele arranhava a lata de lixo, ela cozinhava mais comida do que seria necessário, para atender à remota hipótese de que alguém viesse visitá-la — ou, para falar francamente, que Oliver chegasse de repente. Já fazia uma semana que ela não punha os olhos nele. E quando telefonava, era sempre apressadamente, falando aos borbotões, o que queria dizer que estava com a cabeça cheia de problemas e que, mais cedo ou mais tarde, viria desabafar tudo. Tinha esperanças de que, naquela noite, ele viria certamente, pois agora a necessidade de desabafar passara a ser dos dois.

Quanto mais pensava na entrevista com Hemingway, menos satisfeita ficava com o papel que havia representado. Não adiantava querer iludir-se. O melhor mesmo era enfrentar a situação. Ela, uma moça moderna, maior, eleitora, independente, com ideias formadas sobre a vida, deixara-se tolamente dominar. E nem ao menos por um homem de quem gostasse! Ela estava coberta de razão e tinha se comportado com absoluta correção; todavia, aquele bobalhão pretensioso, aquele fiscal da disciplina, aquele tolo Hemingway havia conseguido obrigá-la a pregar uma mentira. Não era uma estupidez?

Quanto mais remoia a tal mentira, mais aborrecida e furiosa ficava — aborrecida consigo mesma e realmente furiosa com Denis Oliver, cuja preocupação com suas próprias teorias e cuja recusa em considerar importante a descoberta fizeram com que ela fosse falar com Hemingway. Percebia agora o quanto fora insensata. Jamais deveria ter ido a Hemingway. Mas já que fizera a tolice de ir, pelo menos não deveria ter-se deixado intimidar. Sobretudo, não deveria ter mentido. O que foi que lhe passou pela cabeça, ao dizer que não contara a ninguém sua aventura na Broad Street, quando sabia perfeitamente que relatara tudo a Denis? Sentia vergonha de si mesma. Não era de seu feitio fazer uma coisa assim. Nem queria pensar no que diria Denis, quando soubesse de tudo! É que, embora não fosse nada agradável confessar-lhe tamanha tolice, era obrigada a fazê-lo, Hemingway ou não Hemingway. Os dois estavam praticamente noivos. Não é direito ter segredos com o futuro marido. Beryl pedia a Deus que Oliver viesse logo.

Ao aproximar-se a hora da chegada dele, Beryl passou a prestar atenção no ruído dos passos dos transeuntes na rua, com uma ansiedade que até a surpreendeu. Quando a campainha do telefone tocou, ela correu para o aparelho, mal escondendo sua alegria. Talvez o telefonema significasse que ele não viria mas pelo menos tivera a gentileza de avisar.

— Alô, Denis, é você, meu bem? — disse ela irrefletidamente. — Fique quieto — acrescentou para o excitado cãozinho que latia aos seus pés. Entretanto, como o animal continuasse a latir, Beryl desculpou-se no telefone: — Espere um minuto. Preciso fazer este bichinho calar a boca.

Depois, estouvadamente, ela soltou o fone, pegou o cãozinho no colo, levou-o para o quarto, fechou a porta e só então, ofegante, retomou a ligação.

— Alô, Denis, você está-me ouvindo? — Percebeu então que fizera outra tolice. Não era Denis. Ela dera uma demonstração de sua vida privada a ninguém menos do que seu próprio chefe! Procurou apressadamente corrigir o mal-entendido. — Oh, queira desculpar-me. É o Sr. Hemingway quem está falando?

Não houve resposta imediata, apenas uma pausa e o ruído do telefone; depois uma voz meio abafada repetindo “alô”, como se não a tivesse ouvido.

— Alô! Agora, sim. É a Srta. Blackwood? Redman falando.

— Quem? — exclamou ela, tão surpresa que chegou a esquecer seu desgosto. — Ah! É o Sr. Redman? Engraçado! A princípio me pareceu que fosse o Sr. Hemingway.

Veio do outro lado da linha um risinho amável.

— É mesmo? Desculpe se a estou incomodando. Pareceu-me que estava com visitas.

— Oh, não. Está tudo bem — respondeu Beryl imediatamente. — Estou sozinha... Mas — acrescentou com uma incerteza que surpreendeu a si mesma — é mesmo Sr. Redman quem está falando?

— Naturalmente. Por que pergunta?

— É que sua voz me pareceu diferente.

— Estou um pouco gripado.

Realmente, pela manhã ela lhe tinha dado um comprimido, quando o vira fungando. Apesar de tudo, Beryl não podia evitar uma estranha impressão de que as inflexões daquela voz não pareciam naturais. Enfim, uma gripe é bem capaz de alterar o tom normal.

Tudo isso passou rapidamente pela cabeça dela, enquanto ouvia Redman, um Redman muito menos patronal do que de costume. Talvez, imaginou Beryl, fosse porque estivesse constrangido por ter interrompido o tempo de folga da secretária com seu inoportuno telefonema.

— Alô! Está-me escutando, Srta. Blackwood? Sinto muito incomodá-la a esta hora da noite, mas acabei de falar com Hemingway e soube das informações que você nos forneceu.

— O quê? — estranhou ela, realmente espantada. A necessidade de guardar segredo fora tão recomendada na entrevista poucas horas antes, que ela se recusava a acreditar que Hemingway tivesse contado tudo a Redman.

— Como é que o senhor sabe? Foi por intermédio do Sr. Hemingway?

— Foi. Ele me disse que você relatara uma conversa telefônica que tivera com Johnson.

— Mas o Sr. Hemingway me recomendou muito que não contasse nada a ninguém.

— É verdade, mas ele naturalmente resolveu discutir o caso comigo — respondeu a voz, um tanto irritada, seguindo-se um acesso de tosse, antes que as palavras tornassem a ser ouvidas. — Agora, quero pedir-lhe um favor, Srta. Blackwood. Bem sei que deve estar cansada de tratar deste assunto, mas será que não se importa de discutir uns pequenos detalhes comigo? Queria falar-lhe a respeito da conversa que você teve com Johnson.

— Mas já contei ao Sr. Hemingway tudo o que eu sabia — protestou ela.

— Eu sei, mas me ocorreu que, dadas as circunstâncias...

— Que circunstâncias? — perguntou Beryl, irritada.

— Ora, minha cara Srta. Blackwood, não vai-me dizer que o pobre Johnson não conversou com você um bocado de tempo.

— Bem, posso repetir para o senhor tudo o que sei — disse ela, constrangida — mas, honestamente, acho que não falta contar mais nada.

— Estou certo de que você acha isso mesmo.

— É claro que acho.

— Srta. Blackwood, você se lembra daquele brinquedo do dedal escondido, no seu tempo de criança?

— O que o senhor quer dizer com isso?

— Minha cara Srta. Blackwood, quando você estivesse certa de que o dedal não se encontrava escondido em determinado lugar, então, se fosse esperta, procuraria novamente no mesmo lugar. Agora, ouça esta...

— O quê?

— Estive interrogando a telefonista. Não é verdade que Johnson conversou com você durante uns três minutos, antes que a ligação fosse transferida para Hemingway?

Beryl, embora mais aborrecida do que nunca, não pôde esconder certa admiração por aquela insistência.

— O senhor é ainda mais detalhista que o Sr. Hemingway.

— Ah! Ele também observou isso? Não pense que a estou repreendendo. Foi um ato perfeitamente natural. Entretanto, me ocorreu que, embora você tivesse relatado ao Sr. Hemingway a essência da conversa, provavelmente não desceu ao detalhe de repetir exatamente as palavras empregadas por Johnson. Será que você pode tentar recordar o que ele disse? Suas próprias palavras, ainda que não pareçam importantes, talvez pudessem ajudar.

— Ele não falou muito — desculpou-se a moça, com relutância.

— Não faz mal. Tente repetir tudo o que ele disse.

Beryl manteve-se em silêncio, hesitando. A voz insistiu, no outro lado da linha:

— E então?

— Bem... A ligação não estava muito boa. Ele começou dizendo que estava falando de uma casa de campo e que obtivera um verdadeiro furo jornalístico; que havia encontrado a arma do crime e achava que podia identificá-la. Mas o senhor já sabe de tudo isso por intermédio do Sr. Hemingway.

— Não faça caso. Quero a suo versão. De que modo ele pretendia identificar a arma, quero dizer, o grampo chinês?

— Achava que tinha visto um igual na vitrine de uma loja.

— Onde foi que ele disse que era a loja?

Novamente a voz se alterou e novamente a moça teve a impressão de que havia algo estranho, mas respondeu:

— Bem... A ligação continuava péssima, mas me pareceu que ele descrevia uma lojinha de bugigangas na Broad Street.

— Você tem certeza quanto ao nome da rua?

— Certeza absoluta.

— Por que absoluta?

— Porque ele soletrou.

Seguiu-se um longo silêncio. Por mais que Beryl insistisse em dizer “alô”, não obtinha qualquer resposta. O telefone se mantinha mudo.

Ele ligará de novo, se estiver interessado, pensou ela filosoficamente. O problema é dele e não vou me incomodar mais com isso.

Dirigiu-se para a cozinha e, ao passar pela porta do quarto, libertou o cão, que ainda estava preso.

— Já são 10 horas — murmurou ela. — Ele não virá mais. Ou quem sabe ainda venha... É melhor eu preparar o jantar.

Tirou os ingredientes da geladeira, cortou uns pedaços de presunto, quebrou alguns ovos, acrescentou sal e pimenta e deixou a omelete pronta para ir ao fogo, tão logo ele chegasse. Durante todo esse tempo, ela não tirou os olhos do relógio. Não deixava de ser curioso que Redman não tivesse ligado outra vez. Curioso também que a ligação sempre caísse quando mais se precisava dela. Vinte e cinco para as onze. Não, Denis certamente não viria mais. Era melhor ir para a cama.

Decepcionada — e ainda mais por não poder conter a decepção — Beryl estava começando a guardar a louça do jantar, não utilizada, quando a campainha da porta tocou Não a do telefone, como ela a princípio pensara, pois sempre confundia as duas. Não, era a bendita campainha da porta do apartamento.

Alegremente, o cãozinho correu na frente dela até a pequena saleta de entrada, mas, enquanto a moça se apressava em correr o ferrolho, o animalzinho começou a rosnar e a latir em direção ao corredor escuro. Beryl ficou imóvel na porta. Não havia ninguém.

Resolveu então percorrer o corredor até a escada, chamando:

— É você, Denis? Quem está aí?

Como uma espécie de resposta, houve um ruído na curva da escada acima da cabeça dela, e um latido mais forte do cão. Ao tentar fugir, uma escuridão a envolveu. Beryl ainda tentou com a mão afastar aquela nuvem que a sufocava mas sentiu um pano tapando-lhe o rosto, um clarão dentro da cabeça e, depois, a escuridão completa.

O cãozinho, entretanto, percebera que havia algo errado, que seu universo se alterara. Antes de ser incluído no paraíso do apartamento de Beryl, com refeições regulares, exercícios incertos e um montão de guloseimas, tivera uma vida muito dura. Tendo sido abandonado, antes de ser exposto na loja de vendas de animais, conheceu todas as humilhações dos pontapés e das lutas na escuridão, em busca de um osso. Ao receber um violento chute, na escada, recordou-se dos velhos tempos e desceu os degraus aos saltos, escondendo-se no saguão da entrada, até que o susto desaparecesse. Mas o tempo passava e nenhuma voz familiar o chamava de volta no alto da escada. Ao invés disso, ouviu uns passos e reconheceu, pelo ruído, a pesada bota que lhe dera o pontapé. “Não vou deixar que aconteça outra vez”, pensou o cãozinho. Dominado pelo terror, saiu correndo para dentro da noite, desviando-se das pernas dos transeuntes e das rodas dos carros, enfrentando o nevoeiro, a umidade, o frio, sempre correndo, até que, de súbito, farejou a bênção de um cheiro conhecido. O excitado animalzinho começou a pular em torno das pernas da criatura que, no seu mundo, ocupava o lugar logo abaixo do de sua dona, o homem cujos sapatos ele tão bem conhecia, que o chamava pelo nome e lhe pegava no colo.

Oliver, caminhando apressadamente, quis desviar-se do animal, mas logo o reconheceu. Apreensivo, procurou uma explicação para aquele fato inusitado: o cãozinho de Beryl encontrar-se tão longe do apartamento. Estaria ela ali por perto? Teria sido por isso que o telefone dela não atendera, quando ele chamara, 10 minutos antes? Realmente, se Beryl andava na rua, justamente na hora em que prometera esperá-lo em casa, tratava-se de uma grave falta de consideração.

Apressou-se até ver, tranquilizado, a luz acesa, como de costume, na janela da sala de estar do segundo pavimento. Beryl então estava em casa. Oliver subiu as escadas correndo, com o cãozinho em seus calcanhares. Entretanto, embora a luz estivesse acesa e a campainha tocasse ruidosamente, Beryl não viera logo abrir a porta. Ele tentou ainda, com o auxilio do isqueiro, achar o aviso costumeiro “Voltarei em cinco minutos”, pregado na fechadura. Finalmente, levantou a tampa da fresta da caixa da correspondência e começou a chamar:

— Beryl! Sou eu, Beryl! Onde está você? Beryl! Aconteceu alguma coisa?

Nenhuma resposta. O cãozinho gania e Oliver, mais preocupado do que desejava parecer, ajoelhou-se para ver se conseguia divisar alguma coisa através da fresta. Seu pé escorregou, fazendo com que ele se apoiasse no chão, sentindo-o estranhamente úmido. Hesitou ainda um instante; depois, com um gesto de impaciência — recomendara tanto a Beryl que reclamasse do porteiro a lâmpada queimada! — acendeu ainda uma vez o isqueiro. Horrorizado, percebeu por que havia escorregado; pisara em uma poça de sangue e sua mão estava manchada de vermelho.

Ele permaneceu imóvel por um instante, dominado por aquela sensação que uma mulher sofre, ao ver o filho à beira de um precipício. Depois, como seu instinto avisou que não adiantaria tentar arrombar a porta, correu escada abaixo, sempre seguido do cãozinho, e alcançou a rua, onde seu subconsciente havia notado uma barraca, na calçada do outro lado, 10 metros adiante, onde operários estavam, com arames e maçaricos, soldando fios telefônicos.

Apanhando um pé-de-cabra e gritando que chamassem a polícia, Oliver tornou a atravessar a rua e, subindo rapidamente as escadas, com poucos golpes arrombou a porta e conseguiu entrar.

Foi um choque encontrar vazia a sala fartamente iluminada, até que se lembrou do quarto; este se encontrava às escuras e, procurando o interruptor com mãos trêmulas, ele continuava chamando:

— Beryl! Onde está você?

Uma vez mais, porém, não encontrou sinais da moça. Restava apenas a cozinha e certamente ela não poderia estar vazia, embora mergulhada em silêncio. É que um forte cheiro de gás inundava o compartimento. Beryl estava deitada em frente ao pequeno forno, o queixo apoiado na grade, desmaiada, as mãos crispadas e o rosto manchado de graxa.

Oliver teve tempo apenas para arrastá-la, livrando-a da ação direta do gás. Já soavam passos e se ouviam vozes na saia; a polícia e o vigia noturno acabavam de chegar.