O Cadáver Atrás do Biombo
Capítulo III
Dorothy L. Sayers
— Falta um bisturi? — gaguejou Wilfred. — O senhor... o senhor tem certeza?
Como resposta, o Inspetor abriu o estojo, mostrando uma fileira de instrumentos cirúrgicos, cada um devidamente encaixado em seu lugar e preso por uma correia de couro. Havia uma coleção de bisturis, arrumados lado a lado, como agulhas em um estojo. O lugar do bisturi do centro estava vazio.
— Oh! É isso? — perguntou Wilfred, o mais despreocupadamente que pôde. — Aquele bisturi... Agora, estou-me... Não tenho bem certeza onde foi mas o deixei em algum lugar. Não quer dizer que esteja faltando. Talvez eu o tenha deixado na sala de autópsias, ou que o tenha emprestado ao colega que trabalha comigo. Ele vive pedindo coisas emprestadas. Bem... Vou dar um jeito nisso quando falar com ele de novo.
— Obrigado, senhor. Isso nos ajudará bastante. Não queremos perder tempo procurando agulha em palheiro, o senhor entende — disse o Inspetor Rice, com uma risadinha despreocupada, embora, para Wilfred, o gracejo tivesse um tom sarcástico e desconfiado.
— Continuemos, Sr. Hope. Pelo que sei, o senhor foi a primeira pessoa a examinar o corpo e foi logo afirmando que se tratava de um assassinato. O que foi que lhe deu essa certeza, Sr. Hope? O ferimento está de tal maneira localizado que bem poderia ser um suicídio. Não é o caso como, por exemplo, de uma punhalada nas costas.
— Naturalmente que não — replicou Wilfred, cônscio de que o médico-legista o observava com divertida atenção — Talvez eu tenha falado um tanto precipitadamente... Mas a direção do ferimento e o fato de não haver qualquer arma à vista... Acho que foi isso que influiu em meu espírito...
— Então não houve nada de particular? O senhor não tinha razões para supor que alguém tivesse um motivo para matar esse... Como é o nome dele? Ah! Esse Sr, Dudden?
— Santo Deus, não! — apressou-se Wilfred em responder.
— O senhor, pessoalmente, mantinha boas relações com ele?
— Na verdade, eu não o conhecia muito bem — replicou Wilfred. — Éramos conhecidos que se tratavam cordialmente, entende?
— Perfeitamente. E o senhor teve conhecimento de qualquer desentendimento dele com alguma pessoa da casa?
Wilfred lembrou-se das impressões do Sr. Ellis, porém respondeu mais apegado às palavras do que ao espírito dessas impressões:
— Nunca vi nem ouvi qualquer manifestação menos amistosa por parte de qualquer membro da família.
— Entendo, entendo. Todos muito amigos. O senhor está noivo da Srta. Ellis, não é verdade?
— Sim, estou — replicou Wilfred, um tanto petulantemente.
— Ah, sim! A moça deve ter sofrido um grande choque. Por acaso o senhor sabe quais eram os sentimentos do Sr. Dudden com relação à Srta. Ellis?
A pergunta foi formulada tão súbita e astutamente que tomou Wilfred de surpresa, fazendo com que ele escondesse seu embaraço em uma risada constrangida.
— Seus sentimentos? Ora, vamos Inspetor, ele não iria confidenciar seus sentimentos para mim, não acha? É claro que admirava a Srta. Ellis. Creio que não há quem não a admire.
— Estou plenamente de acordo com o senhor — replicou o Inspetor, acentuando o tom de gravidade da voz. — Bem, Sr. Hope, o senhor recomendou ao Sr. Ellis que tudo fosse deixado como estava e que chamassem a policia. Tudo muito lógico e correto. O Sr. Ellis foi dar o telefonema, não foi? Bem. O senhor pode nos dizer onde ficou o restante da família nessa ocasião?
— A Srta. Ellis se sentiu mal e a Sra. Ellis levou-a para o quarto no andar de cima. Robert ficou comigo.
— Todo o tempo?
— Não, todo o tempo, não. Ele deu uma saída, mas não sei aonde foi.
— Alguém mais entrou aqui?
— A cozinheira, Sra. Hulk, esteve aqui na sala por uns instantes, pouco antes de o senhor chegar, mas logo se retirou para lhe abrir a porta.
— Entendo. Primeiro, o senhor Robert... depois, o senhor sozinho... depois, em companhia da Sra. Hulk. Nós demoramos uns 10 minutos, após o telefonema, não lhe parece, doutor? Digamos um quarto de hora. Então o senhor esteve sozinho com o corpo durante uns cinco ou seis minutos, não é verdade, Sr. Hope?
— Foi mais ou menos assim — admitiu Wilfred. Sua boca estava seca e as palavras eram pronunciadas com certa dificuldade. — Eu era a pessoa mais indicada para ficar. Sou um estudante de medicina, como o senhor sabe. Não fico chocado com a presença de um cadáver, o que não acontece com muita gente.
— Foi o que pensei. O senhor, durante aqueles cinco ou seis minutos, fez alguma tentativa para encontrar a arma?
— Não, nenhuma. Apenas fiquei na sala. Não toquei em nada.
— Seria muito bom se todos procedessem com tanto critério — disse o Inspetor amavelmente. — Vejamos agora a primeira parte da noite. O senhor chegou mais ou menos às 10 horas, não foi?
— Sim, senhor. A cozinheira me abriu a porta e vim aqui para a sala, onde estava toda a família. Tenho absoluta certeza de que ninguém se levantou da cadeira até o momento em que o corpo foi encontrado. A Sra. Ellis estava lendo em voz alta...
O Inspetor o interrompeu:
— Espere um momento — disse ele, olhando para o corredor. — Quem é o senhor e o que deseja?
Uma pequena figura avançou mais para o interior da sala e Wilfred, com uma boa dose de irritação, reconheceu o persistente Sr. Parsons.
— Peço mil desculpas, Inspetor. Espero que não esteja me intrometendo. A porta da frente estava só com o trinco, de modo que pude entrar sem incomodar ninguém. Achei que o senhor gostaria de ouvir pessoalmente o meu depoimento, embora este jovem com certeza já lhe tenha falado a respeito de tudo o que vi.
— Até agora ele não fez qualquer referência ao senhor — disse o Inspetor, dirigindo um olhar interrogativo a Wilfred.
— Ia justamente repetir-lhe o que ele me contou, Inspetor, tão logo o senhor me desse oportunidade — explicou Wilfred apressadamente. — Tanto assim que já tinha falado com a Sra. Hulk e perguntado sobre o que ele me contou. Uma vez que tudo ficou esclarecido, não me apressei em interromper o interrogatório que o senhor fazia.
— Acho que cabe a mim julgar essas prioridades, senhor — disse rispidamente o Inspetor, voltando-se a seguir para o Sr. Parsons, que imediatamente desandou a falar sobre o sujeito que ele vira rondando a casa.
— Hum... — resmungou o Inspetor Rice. — É uma pena que eu não tivesse sabido disso antes.
— Mas, senhor, com sua licença — disse Wilfred Sentindo sua posição enfraquecida, ele tratou de apresentar a explicação da Sra. Hulk e prosseguiu:
— Afinal de contas, Inspetor, não vejo o que isso possa ter com o caso. Dudden não estava fora da casa às 9:30 e, se foi assassinado a essa hora, o sangue já estaria coagulado muito antes das 10:25, quando o vi escorrendo por baixo do biombo. Naturalmente, o linóleo estava encerado e o soalho não muito plano, o que teria facilitado o escoamento do sangue; além do mais a sala estava muito aquecida. Mesmo assim, o chão é a parte mais fria e o sangue deve coagular dentro de uns 15 minutos, mais ou menos... quero dizer...
Interrompeu-se bruscamente, ao perceber, tarde demais, para onde o estava levando aquela demonstração de conhecimentos da ciência médica.
— Exatamente — disse o Inspetor com o ar triunfante de quem vê funcionar a mola da armadilha — mas o senhor não vê que, assim, a hora do crime passa a ser às 10:10? Entretanto, o senhor me afirma que estava, em companhia de toda a família, sentado nesta sala desde as 10 até às 10:25. Como explica isso?
— Tem razão — admitiu Wilfred, desconsoladamente. — Na verdade, não sei explicar. Deve ter sido antes, é claro que deve.
O Dr. Larkin se mantinha sorridente.
— De qualquer maneira, não é necessário presumir que a vitima tenha morrido imediatamente após a punhalada. Um fluxo constante de sangue quente ajudaria a retardar a coagulação.
— É claro que ajudaria — respondeu Wilfred A armadilha não era real, não passava de um blefe. O Inspetor pelo menos nada ganhara com ela.
Entrementes, o Sr. Parsons não tirava os olhos do cadáver, com evidente interesse.
— Parece mentira — resmungava ele — como as coisas se apresentam de maneira estranha. Um homem tão grande e bastou um pequeno ferimento para matá-lo. A morte tem várias portas para roubar a vida, como disse o poeta. Não tão largas como as de uma igreja mas o bastante para serem utilizadas. Shakespeare, não é? E nem o menor sinal de luta. Pensavam que ele estava morrendo, quando apenas dormia, e dormindo, quando já estava morto. Não me lembro quem foi que escreveu isso. Realmente, um estranho lugar, esse onde foi encontrado, não acham? Mas ele não foi carregado para lá; estava sentado ou mesmo em pé ali, quando foi ferido, e apenas caiu de bruços; pode-se ver pela maneira como o sangue escorreu diretamente, sem se espalhar. Até pareço um Sherlock Holmes, não é verdade? Imagino que este salpico no biombo aconteceu quando houve o primeiro esguicho de sangue. Que pena! Correu pelo chão e manchou um tapete tão bonito! Não faço ideia de qual a razão para que ele estivesse se escondendo atrás do biombo!
— É justamente o que ainda não sabemos — concordou o Inspetor.
— Se ele não morreu logo — continuou o homenzinho — por que não gritou ou não tentou arrastar-se para fora do biombo? O senhor vai perdoar minhas intromissões, mas isto tudo é tão interessante! Sou muito observador. Nenhum ser humano é indiferente para mim, como dizia Horácio... Acho que foi Horácio, não foi? Bem. Ele deve ter adormecido, o senhor não acha, Inspetor? E dormido muito profundamente.
O Inspetor e o Médico se entreolharam, e Wilfred ficou imaginando se os dois também teriam notado a estranha contração das pupilas do cadáver.
— Saberemos mais alguma coisa a esse respeito — esclareceu Rice — quando determinarmos exatamente quando e como ele chegou aqui.
— Ora, a esse respeito eu posso ajudar, Inspetor — exclamou o Sr. Parsons, muito excitado. — Meu Deus! Como estou contente por ter vindo. Estou vendo que posso ser muito útil, afinal. Agora que vi o corpo caído assim perto da janela, posso garantir que não há hipótese de ele ter estado aqui antes das 9:25. Espere... Vou explicar por que tenho essa certeza. É que, depois do jantar, dei uma saída para colocar uma carta na caixa do correio na margem da estrada e, quando passei por aqui, notei... sempre noto as coisas que acontecem... notei que se acendiam as luzes da sala e alguém corria as cortinas. Tenho certeza quanto à hora, porque olhei no meu relógio para ver se ainda apanhava a coleta das 9:30, e meu relógio sempre está certo, porque confiro com o sinal do rádio. Assim, o pobre sujeito não poderia estar aqui às 9:25, pois a pessoa que correu as cortinas o teria visto, não é mesmo?
— Deve ter sido a Sra. Hulk, acho eu — sugeriu Wilfred. — Quer que eu a chame?
— Não, obrigado — replicou o Inspetor, amavelmente, mas com firmeza. — Prefiro ir pessoalmente falar com ela.
Rice dirigiu-se para a cozinha, deixando o Sr. Parsons expondo suas teorias ao Dr. Larkin. Wilfred acompanhou o Inspetor, mas, no caminho, encontrou a Sra. Ellis no saguão e pediu notícias de Amy.
— Acabou de pegar no sono, a coitadinha. Ela está simplesmente atordoada pelo golpe. Tudo aconteceu tão subitamente... Já nem sei onde tenho a cabeça. O que devemos fazer? Será o caso de velório? O Sr. Dudden não tem parentes e... infelizmente ninguém gostava dele... Mas morrer desse jeito, em nossa casa... Oh, meu Deus! Tinha mandado fazer um vestido preto que deve ter ficado pronto hoje. A Srta. Pettigrew disse que viria trazê-lo esta noite. Acho que eu devia usá-lo, mas não sei se ela o trouxe. A Sra. Hulk com certeza sabe. Vou perguntar a ela.
— Acho que é melhor a senhora não procurar a Sra. Hulk agora — aconselhou Wilfred. — O Inspetor a está interrogando na cozinha.
— É mesmo? — A Sra. Ellis juntou as mãos em um gesto quase de desespero. — O que será que ele vai perguntar? Bem. Pelo menos ele não está importunando Amy, mesmo porque eu não deixaria. É melhor voltar para junto dela.
Subiu penosamente as escadas, com uma nova expressão de terror.
Entrementes, o Inspetor Rice arrancara da Sra. Hulk toda a história da presença de seu marido em torno da casa e passara ao segundo ponto do interrogatório.
— Não me lembro exatamente quando foi que corri as cortinas — respondeu a Sra. Hulk, interrompendo a tarefa em que estava empenhada, de cortar a carne para preparar um guisado, fincando a faca na madeira, enquanto puxava pela memória. — Deve ter sido mais tarde do que habitualmente, pois o jantar foi servido atrasado. Se o vizinho disse que eram 9:25, não sou eu quem vai desmenti-lo.
— Se nessa ocasião o Sr. Dudden estivesse sentado ou deitado atrás do biombo, a senhora teria notado?
— Bem, quanto a isso... — A Sra. Hulk olhou firmemente para o Inspetor — tanto poderia dizer que sim ou que não. É que, quando as luzes estão acesas, fica uma sombra muito escura atrás do biombo, como o senhor pode verificar.
— Quer dizer que a senhora não viu o corpo?
— Bem... Não, não vi o corpo mas, pensando melhor, acho que ouvi uma espécie de respiração ofegante. Entretanto, não dei muita importância ao fato, julgando que fosse o velho Grip.
— Quem é Grip?
— O buldogue — explicou a Sra. Hulk. — Ele costuma respirar assim, por causa daquele focinho achatado. Dizem que é normal.
— Entendo — disse o Inspetor, anotando mentalmente que teria de investigar os movimentos de Grip, juntamente com os de todos os membros da família. — Muito bem, Sra. Hulk, agora me mostre o banheiro de que tanto falaram.
— Logo à direita no topo da escada, senhor. Não tem como errar. Do saguão, embaixo, já se pode ver a porta.
O Sr. Parsons já estava subindo a escada e Wilfred o acompanhava, em parte porque não confiava nele e em parte porque queria ver o que o Inspetor faria quando visse as manchas de sangue no chão do banheiro. Todavia, quando a porta foi aberta, Wilfred se deu conta de que haviam chegado tarde demais. As manchas tinham desaparecido — e recentemente, pois o chão mostrava sinais de haver sido lavado pouco antes. O fato não escapou ao olhar atento do Inspetor.
— Parece que alguém andou lavando este chão. Quem teria feito isso?
— Talvez o moço aí possa informar — sugeriu o Sr. Parsons, um tanto maliciosamente. — Ao entrar, quando vim falar com o senhor, reparei que ele saía por esta porta.
— Isto é uma insinuação grosseira — exclamou Wilfred, sentindo que, se os assassinatos ficassem na moda, ele gostosamente esgoelaria o Sr. Parsons. — Jamais toquei no chão deste banheiro. Não tenho nada a ver com isso.
O Inspetor se manteve em silêncio, preocupado em examinar uma fileira de frascos no armarinho acima da pia — aspirinas, pó para escovar dentes, sais, quinino amoniacado e outros artigos de toucador. Depois, sua atenção foi despertada por um armário maior. Ao abri-lo, deparou com uma grande prateleira atulhada de frascos, caixas, livros, latas, bibelôs quebrados — um verdadeiro depósito de coisas velhas e inúteis. O Inspetor vasculhou aquelas quinquilharias e finalmente encontrou uma caixa preta envernizada.
Era do tipo das que foram fornecidas aos oficiais médicos, durante a guerra, com diversas espécies de drogas, muitas das quais altamente tóxicas, contidas em frascos, com rótulos bem visíveis. Um desses frascos — que o Inspetor logo retirou da caixa — tinha em seu rótulo a palavra MORFINA em letras vermelhas e a metade de seu conteúdo já fora consumida.
A fisionomia do Inspetor traduzia sua preocupação, quando foi ao encontro do Sr. Ellis, que se achava sentado na sala de jantar, tendo Grip a seus pés. O Sr. Ellis confirmou imediatamente que a caixa era dele. Ganhara-a como lembrança de seu trabalho em um depósito do Exército. Oh, sim! Todos sabiam de sua existência; achava, porém, que a caixa nunca fora sequer tocada durante os últimos anos. Se o Inspetor afirmava que ela parecia ter sido manuseada recentemente, a única hipótese que lhe ocorria era de alguém ter feito uma faxina no banheiro. A Sra. Hulk deveria saber. Nenhuma das drogas jamais fora utilizada, pelo menos que ele soubesse.
O Inspetor chamou-lhe a atenção para os tabletes de morfina, que estavam faltando. O Sr. Ellis empalideceu e pareceu ficar ainda menor e mais curvado.
— Ah, sim! — disse ele, visivelmente constrangido. — Agora me lembro. Acho que usei uns tabletes, já faz muito tempo... para... para matar um cachorro... Foi isso.
— Ora, que cachorro é esse? — perguntou o Sr. Parsons, que não arredara pé de junto do Inspetor. — Nunca ouvi falar de cachorro nenhum, a não ser Grip, e somos vizinhos desde o tempo da guerra. É engraçado o senhor ter um animal em casa e eu não notar! E logo eu, que tenho o orgulho de notar tudo o que acontece!
— O cachorro não era meu — disse o Sr. Ellis, em tom nada convincente. — Era... pertencia a um amigo meu. Um pequinês — acrescentou, confiando no reforço do detalhe. — Tinha uma orelha gangrenada o pobre animal.
— Bem, devo apreender a caixa — disse o Inspetor, embrulhando-a cuidadosamente e guardando-a no bolso. — Terei de mandá-la para o laboratório, a fim de verificar se há impressões digitais.
— Mas o homem não foi envenenado, foi, Inspetor? — perguntou o Sr. Ellis, espantado.
— Nada se pode dizer definitivamente sem a autópsia. E, agora, eu gostaria de trocar umas palavras com o Sr. Robert Ellis.
O jovem devia ter ido para seu quarto e, quando chamado por Wilfred, apareceu em mangas de camisa. Wilfred, lembrando-se dos gestos dissimulados de Robert, quando estava sentado na sala, olhou detidamente para os punhos de sua camisa, que não estavam muito limpos, certamente, mas as manchas que havia neles eram sem dúvida produzidas por tinta comum, que ele não fazia questão de esconder.
O depoimento de Robert não foi de qualquer utilidade. Ele não sabia de nada e, até o momento em que o corpo fora descoberto, pensara que Dudden havia ido ao clube. A vista do sangue o fizera sentir-se mal — era muito sensível sob este aspecto — e se via obrigado a ir para o quarto e deitar-se. Realmente, sua fisionomia estava tão horrivelmente pálida e desfigurada, que o Inspetor piedosamente o dispensou.
— Bem, agora — disse o Inspetor Rice, depois que O Dr. Larkin se retirou, seguido relutantemente pelo Sr. Parsons — parece-me que, como há alguns vultos suspeitos rondando a casa, é melhor eu passar a noite aqui. Não é preciso incomodar a Sra. Ellis. Basta um lugar onde eu possa esticar as pernas. Assim, estarei a postos em caso de necessidade.
Wilfred ficou admirado por ninguém ter protestado, embora nenhum membro da família demonstrasse simpatia pelo Inspetor. Todos se limitaram a trocar impressões em voz baixa, enquanto o Inspetor dava um telefonema.
— Está tudo bem — concluiu Rice, satisfeito. — Vão mandar buscar o corpo mais tarde. Todos ficarão mais descontraídos, depois disso.
— Eu posso ir para casa? — perguntou Wilfred, sem muita esperança.
— Mas claro! — replicou o Inspetor. — Peço apenas que me deixe seu endereço. Posso precisar de sua presença pela manhã.
Wilfred deu o endereço, despediu-se carinhosamente do Sr. e da Sra. Ellis e dirigiu-se pesarosamente para a porta. Na rua, teve a impressão de que alguém ou alguma coisa seguia atrás dele, em meio à chuva e à escuridão, acompanhando-lhe os passos até a porta de sua casa.
O Sr. Parsons, que também se retirara, não fora para a cama, tendo permanecido no portão da frente, fumando e observando, até a rua ficar completamente deserta. Viu quando se apagaram as luzes na casa dos Ellis — todas, exceto uma no primeiro andar, que deveria ser a do quarto de Amy, e outra na sala de estar, onde o Inspetor Rice vigiava.
Cerca de uma hora da madrugada, um furgão preto estacionou em frente à casa. Saltaram quatro homens trazendo uma padiola e entraram; pouco depois saíram, carregando um fardo envolto em pano preto, que colocaram no furgão. O motor foi ligado e o veículo se afastou.
O Sr. Parsons ainda permanecia em seu posto. Notou que alguma coisa se movia sob as árvores molhadas, cujos galhos se debruçavam por cima do muro do jardim. Por fim, um vulto escuro aproximou-se.
— Diga-me uma coisa, chefe — murmurou uma voz cava.
— O que é? — perguntou o Sr. Parsons.
— Aquilo era da polícia, não era? Ele já fez o serviço, não?
— Quem fez que serviço?
— O Sr. Robert. Foi ele quem resolveu tudo.
— Por quê? — insistiu o Sr. Parsons. — O que leva você a pensar assim? O que sabe a respeito do crime?
— Eu? Nada, chefe, não sei de nada, mas olhe aqui. Quando botar os olhos nela... na Sra. Ellis, entende?... diga-lhe que não foi culpa aqui do papai. Ele não apareceu. A madame vai compreender. Basta dizer-lhe isto: Ele nunca apareceu.