O Cadáver Atrás do Biombo

Agatha Christie e outros · Capítulo 14 de 20

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O Cadáver Atrás do Biombo

Capítulo VI

 

 

AS INVESTIGAÇÕES DA SCOTLAND YARD

Freeman Wills Crotfs

Enquanto o Morning Star continuava a explorar o caso de Jumbles, a Scotland Yard se empenhava ao máximo para resolvê-lo. O Inspetor-Chefe Bradford fora designado para dirigir as investigações e, no momento, se encontrava sentado em seu gabinete, presidindo uma reunião.

— Vamos fazer uma repassada completa sobre o que sabemos — começou ele — mas o ponto principal desta reunião é organizarmos uma relação atualizada dos suspeitos. Conhecemos o quadro geral do crime. Esse sujeito, Tracey, instala a moça em um bangalô em Jumbles. Então, quando ele vira as costas, um outro homem, Fisher, entra em cena. A moça tenta manter-se nessa perigosa situação, até que é assassinada e o Inspetor Smallpiece inicia as investigações. Agora, Smallpiece, conte-nos tudo o que você fez.

— Fui ao bangalô e dei uma olhada — começou Smallpiece. — É uma casa de campo, de quatro peças, escondida em um vale da Baixada do Sul, um lugar muito deserto, o bastante para que, ao fim de uma semana, a moça não aguentasse mais. Depois, dei uma volta pela redondeza e procurei conversar com pessoas da região, criados, vizinhos mais próximos, fornecedores etc... Assim, consegui as primeiras informações. Tracey foi visto, saindo do bangalô, às 7:30 da noite do crime.

— Não me diga! — exclamou o chefe. — Isso é novidade para mim. Quem foi que o viu?

— O motorista de um ônibus que faz a linha de Newhaven para Brighton — replicou Smallpiece. — O rapaz tem uma garota que mora na estrada que passa em Jumbles e foi por meio dela que cheguei ao motorista. Havia algum falatório na região a respeito dos Traceys e, por isso, a garota, ao ver o homem, mostrou-o ao namorado. O motorista o reconheceu logo como sendo um passageiro que entrava no ônibus na estrada de Jumbles e saltava em Brighton.

— Às 7:30? — repetiu o chefe. — E o crime foi cometido entre 7:00 e 9:30. É uma pena. Não é uma prova conclusiva.

— E há mais, senhor. O carro de Fisher foi visto na estrada para Jumbles às 9:00 da noite, aproximadamente.

— Sim, foi isso o que ele disse na delegacia de Brighton, o que, em resumo, quer dizer que tanto Tracey como Fisher podem ter cometido o crime. Entretanto, não temos condições de acusar qualquer um deles, muito mais que umas 50 outras pessoas poderiam também ter estado lá.

Smallpiece não participava dessa opinião. Para ele, o assassino era Tracey.

— Em que você se baseia, Smallpiece? — perguntou o chefe.

— No seguinte, senhor: Tracey instala a garota no bangalô e pouco depois ela inicia um romance com Fisher. Ora, o que acontece, quando Tracey sabe do caso? Suponhamos que naquele sábado Tracey vê o grampo que Fisher deu à moça e pergunta onde foi que ela o comprou. Aí começa a confusão, Tracey descobre que é traído. Apanha o grampo e apunhala a garota.

— Essa é uma boa teoria, mas podemos formular outra, alterando as premissas. Fisher impõe que a garota acabe seu romance com Tracey. Ela concorda e, mais tarde, declara que está livre. Então, um dia, Fisher chega e encontra, digamos, as luvas de Tracey; conclui que a garota o traiu e decide matá-la. Não é muito provável, Smallpiece, mas é possível e não podemos desprezar esta hipótese.

Smallpiece admitiu que o chefe tinha razão.

— E quanto ao tal de Potts? — prosseguiu Bradford. — Foi o sujeito que aquele jornalista, Oliver, descobriu e fez um mistério a respeita

Smallpiece não escondeu certa indignação contra a conduta do repórter.

— Ele pensou que havia descoberto uma pista e guardou todas as informações para o Morning Star. Nem sequer se dignou comunicar o fato à polícia. Encontrou o homem tentando entrar no bangalô e dai por diante fez uma trapalhada dos diabos. Se tivesse o raciocínio de um chimpanzé, teria deixado o homem entrar, achar o que procurava e somente então o agarraria. O pior é que deixou que ele fosse embora! Fico furioso só em pensar na oportunidade que perdemos.

— Tem razão — concordou o chefe — mas devemos ao Morning Star um punhado de informações sobre o casa Quem está nas pegadas de Potts? Ah, é você, Tinsley. Soube de alguma coisa?

Um policial alto e corpulento levantou a cabeça.

— Acho que Potts é inocente, senhor, mas ainda não consegui provar. Ele disse a Oliver que era camaroteiro de um navio da linha Southampton—Havre. Há realmente um camaroteiro com esse nome mas, enquanto não o pusermos frente a frente com Oliver, não saberemos se é o mesmo homem. Quanto ao que ele procurava no bangalô, não sei, mas o senhor deve lembrar-se de que no inquérito foi mencionado que a moça tinha um irmão, embora não o visse há muito tempo. Estou investigando e provavelmente ele é esse irmão desaparecido.

O chefe concordou com um sinal de cabeça.

— Considere esse ponto como aceito — ordenou ele. — Entrementes, manterei Potts na minha lista de suspeitos. Agora, Smallpiece, termine o relato que você nos estava apresentando.

— Obtive ainda outras informações do motorista do ônibus, senhor. Ele se lembrava de haver levado Tracey em uma segunda-feira de manhã. Tomei o mesmo ônibus na segunda-feira seguinte e procurei conversar com os passageiros habituais. Afinal, encontrei um homem que viajara com Tracey até a cidade e, por acaso, os dois deveriam apanhar o mesmo trem na Estação Vitória. O homem saltou em Charing Cross mas Tracey continuou no trem. Assim, concluímos que ele trabalha em algum lugar depois de Charing Cross.

— Perfeito, Smallpiece — aprovou o chefe. — Alguma coisa mais, no caso de Jumbles? — Esperou um momento, olhando para cada um de seus auxiliares, e prosseguiu: — Agora, com relação ao crime da Estação Vitória. Aqui, a meu ver, a questão se resume na seguinte: quem sabia que Johnson descobrira qualquer coisa e estava vindo para a cidade no trem das 8:35?

Houve murmúrios de aprovação e o chefe continuou:

— Vamos começar com nossos três suspeitos de Jumbles. Será que Tracey ou Fisher ou Potts poderia ter sabido da viagem de Johnson?

— Facilmente, senhor — respondeu Smallpiece. — Imagine o seguinte: o assassino, tendo perdido a cabeça, procura livrar-se da arma e a esconde no toco de uma árvore, um lugar onde ela poderia ser facilmente achada. Depois de retirar-se, o criminoso se arrepende e resolve voltar, a fim de descobrir um lugar melhor. Por acaso, chega justamente no momento em que Johnson encontrava a arma. O que fazer, então? Seguir Johnson, a fim de dar cabo dele; chega, porém, até à Estação Vitória sem encontrar uma oportunidade.

— Sim, essa hipótese é plausível — admitiu o chefe. — Muito bem, suponhamos que foi assim. Agora, pelo que sabemos, tanto Tracey como Potts poderiam ter feito o serviço. E Fisher? Ele tem um álibi para o crime de Vitória.

— Examinei esse ponto, senhor — interveio uma voz. — O homem tem realmente um álibi, mas acho que posso destruí-lo. Isso não quer dizer que não ache que ele seja inocente.

— Vejamos os detalhes.

— Antes de tudo, registre-se que não havia ninguém na joalheria de Fisher, no intervalo entre a saída dos empregados e a entrada em serviço da faxineira. Nesse meio tempo ele poderia ter ido até Jumbles e visto Johnson apanhar a arma. Quanto ao jantar: se Fisher estava fingindo, poderia ter jogado a comida no lixo, e sair do edifício em cinco minutos. Ele declarou que a faxineira estava trabalhando na parte da frente, o que é verdade, mas há uma porta nos fundos, que ele prudentemente não mencionou. Assim, poderia ter apanhado o 8:35, cometido o crime em Vitória e retornado para Brighton no 11:05. A seguir, dirigiu-se para o escritório, apagou as luzes e apanhou o sobretudo e o chapéu. Não esqueça, senhor, que ele somente chegou em casa depois da meia-noite.

O chefe sacudiu a cabeça, concordando em silêncio.

— Além disso — prosseguiu o policial — se Fisher não estivesse forjando um álibi, por que não foi jantar no hotel? É apenas no outro lado da rua. E há também o fato de ele não ter comunicado o crime, somente tendo admitido que o descobrira três horas mais tarde. Somem-se a tudo isso suas mentiras e a negativa inicial a respeito da compra do grampo.

— Então, por que você acha que ele é inocente?

— Por três razões, senhor. A primeira é sua própria personalidade. Fisher não parece ser do tipo que comete assassinatos. A segunda é que ele é muito conhecido em Brighton e não foi visto na estação. A terceira é que sua história a respeito do novo sócio que deveria comparecer no dia seguinte é verdadeira. Naturalmente, bem sei que nenhum desses detalhes é conclusivo.

— Manteremos Fisher em nossa relação — resmungou o chefe. — Vejamos agora o pessoal do Morning Star. Quem está tratando deste ângulo em Londres? É você, Smart? Muito bem, conte-nos o que sabe.

Smart* era um policial cujo nome afinava com sua personalidade. Era tido como um dos mais competentes da Scotland Yard.

* Esperto, em inglês. (N. do T.)

— Comecei, senhor, por fixar a hora do crime. Como o senhor sabe, Johnson estava justamente dando um telefonema, quando foi apunhalado. Ele chegara a tirar o fone do gancho mas não teve tempo para anunciar o número à telefonista. Procurei informar-me e verifiquei que a tentativa de chamada ocorrera às 10:04, isto é, quatro minutos após a chegada do trem. A seguir, dei uma busca na cabine telefônica e, além de encontrar a arma em cima do teto, como já foi divulgado, achei apenas mais uma pista. O assassino havia pendurado na porta um aviso de NÃO FUNCIONA, naturalmente para evitar que alguém entrasse e descobrisse o corpo. O aviso estava escrito em um pedaço de papelão, cortado de uma folha maior, e as palavras NÃO FUNCIONA escritas apressadamente com um lápis de cor. Infelizmente, o papelão era muito áspero, não permitindo impressões digitais.

— Isso tudo é muito interessante, Smart — comentou o chefe — mas não nos afastemos do ponto que estamos examinando, isto é, quais as pessoas, no jornal, que sabiam da vinda de Johnson naquele trem?

— Sim, senhor. Bem... Realmente uma porção de gente estava a par da chegada de Johnson naquela noite. O editor diurno do noticiário, Hemingway, certamente sabia, pois foi quem recebeu o telefonema de Johnson. O editor da noite, Redman, ficou sabendo, quando chegou, às 7:30. O subeditor, também. De fato, pelo menos uma dúzia de repórteres tomaram conhecimento do telefonema, o nosso amigo Oliver entre eles.

O chefe sacudiu os ombros.

— Não interessa enumerar quem sabia do telefonema, uma vez que ninguém deixou o edifício do jornal.

— Foi isso justamente o que procurei apurar, senhor: se alguém havia saído. Foram quatro, a saber: Hemingway e Redman, editores do dia e da noite, o repórter Oliver e um outro, chamado Peters. Depois, falei com os quatro, perguntando onde se encontrava cada um deles às 10 horas, quando o trem chegou. Dois tinham álibis; os outros dois, não.

Todos estavam prestando a máxima atenção. Smart tinha uma reputação mais do que justificada.

— Vamos ouvir todo o seu raciocínio — disse o chefe. — Mesmo que não conduza a um resultado final, é interessante conhecermos os detalhes. Quais os que tinham álibis?

— Hemingway e o repórter Peters.

— Bem. Vejamos Hemingway. Ele é o editor diurno, com quem Johnson falou ao telefone. Qual é o álibi dele?

— Hemingway esteve em seu clube naquela noite e depois foi para casa, em Hampstead, aproximadamente às 10 horas. Tudo para mim se resumia em determinar a que horas ele realmente chegou em casa. Consegui provas de que eram, no máximo, 10:10. O crime foi cometido às 10:40. Ora, seria fisicamente impossível para qualquer pessoa ir daquela cabine telefônica em Vitória até Hampstead em apenas seis minutos.

— Como você tem certeza de que ele chegou em casa às 10:10?

— Pelo seguinte, senhor. Quando ele entrou em casa, ligou o rádio, e, cinco minutos depois, ouviu-se o apito característico da BBC, anunciando 10:15.

— Está bem — concordou o chefe. — Vimos Hemingway. Qual o próximo? O repórter Peters?

— Ele foi diretamente do escritório para casa — esclareceu Smart. — Isso foi confirmado por sua mulher, sua mãe, duas irmãs e um amigo que estava lá em visita.

— Muito bem.

— Sim, mas apenas para o crime de Vitória, senhor, pois nem Hemingway nem Peters têm álibis para o de Jumbles.

— Se foi o mesmo homem que cometeu ambos os crimes, o álibi para um deles é suficiente Deixemos esses dois de lado.

— O seguinte, senhor, é Oliver, o repórter policial.

— O jornalista que mais nos incomodou em toda esta história — comentou o chefe amargamente.

— Ele mesmo. Oliver não tem álibi para o crime de Vitória. Segundo seu depoimento, jantou na própria redação e, pelas nove horas, foi dar uma caminhada, regressando para o jornal às 10:20. Assim, teve tempo para cometer o crime. Acontece, porém, que ele tem um álibi para o crime de Jumbles: esteve na redação trabalhando naquele sábado e há o testemunho de mais de 10 pessoas.

O chefe aprovou com um sinal de cabeça.

— O seguinte — ordenou laconicamente.

— É a vez de Redman, o editor da noite. Relativamente a álibis, ele é o que está em piores condições, pois não tem para nenhum dos crimes. É um sujeito esquisito esse tal de Redman. Não que seja do tipo carrancudo; ao contrário, é bastante amável mas mora em um apartamento sozinho e parece não ter amigos. Ainda assim, não seria de estranhar que ele fosse visitar uma bela garota em um bangalô isolado. Ademais, o fato de viver só o deixa completamente livre para passar fora os fins de semana, sem que ninguém tome conhecimento de sua ausência.

— Há qualquer indicio que o ligue aos crimes?

— Nenhum, senhor, embora deva referir que ele e Johnson não se davam bem. Ainda não consegui saber a razão de malquerença, mas vou apurar.

O chefe assobiou pensativamente e acrescentou mais uma nota a sua lista.

— Essa história está mal contada. Temos de manter Redman na relação. Assim, ficamos com quatro suspeitos: Tracey, Fisher e Potts para o crime de Jumbles, mais Redman, do jornal. Você eliminou todos os outros, Smart?

— Não cheguei a tanto, senhor — admitiu Smart, hesitante. — Devo confessar que tenho pensado muito em Oliver. É que os dois crimes podem ter autores diferentes e Oliver haver cometido o de Vitória. Como o senhor sabe, ele e Johnson estavam muito caídos pela secretária do gerente, a Srta. Beryl Blackwood. Eram rivais também no trabalho e o furo jornalístico que Johnson conseguiu deve ter deixado Oliver muito aborrecido. Se Oliver quisesse ver-se livre de seu rival, não poderia achar uma oportunidade melhor. E como disse, ele não tem álibi.

O chefe se manteve pensativo por uns instantes.

— Tire isso a limpo — disse ele, afinal. — Você é capaz de fazer isso facilmente. Incluo mais um suspeito. Ficamos com cinco. Cinco suspeitos — repetiu lentamente — mas, na minha opinião, Fisher, Potts e Oliver não são tão prováveis como os outros dois.

Houve um murmúrio geral de aprovação.

— Desse modo — concluiu o chefe — ficamos provisoriamente com Tracey e Redman na cabeça da fila. — Interrompeu-se por um instante, coçando o queixo e olhando interrogativamente para seus auxiliares. — E o que há de errado — perguntou de repente — se se imaginar que Tracey é Redman?