O Cadáver Atrás do Biombo
Capítulo XI
AS DESCOBERTAS DO INSPETOR SMART
Freeman Wills Crofts
O repórter Oliver ficou gelado de pavor, quando encontrou Beryl Blackwood inconsciente, com a cabeça dentro do forno na cozinha de seu apartamento. Sem hesitar sequer por um segundo, deitou no chão a garota desmaiada e começou a aplicar-lhe vigorosamente respiração artificial, enquanto gritava para o policial que telefonasse primeiro para um médico, depois para a Scotland Yard.
Meia hora depois o Inspetor Smart chegava ao apartamento. Beryl acabara de recobrar os sentidos e já podia, embora com alguma dificuldade, relatar sua história. Smart percebeu logo que se tratava de uma bem planejada tentativa de assassinato. O crime não fora completado devido apenas a um desses extraordinários descuidos que os criminosos parece que não podem evitar. O assaltante esquecera de colocar uma moeda no medidor, de modo que o gás foi cortado no momento exato!
Smart deu, a seguir, dois telefonemas: um para a Scotland Yard, chamando técnicos em impressões digitais para que examinassem os objetos possivelmente tocados pelo frustrado assassino; outro, para a central telefônica local, procurando descobrir quem telefonara para Beryl naquela noite. Depois, correu para o Morning Star.
Já se registrara um considerável progresso nas investigações, desde o dia em que o Inspetor-Chefe Bradford presidira a reunião da qual resultaram, como suspeitos, Tracey, Fisher, Potts, Redman e Oliver. Três deles estavam agora eliminados da relação. Na noite do crime de Vitória, Fisher, conforme provara, estivera trabalhando durante três horas, das nove à meia-noite; Oliver fora visto em Oxford Circus às 10 horas. Na noite do crime de Jumbles, Potts se encontrava em Londres. Fora aceita a premissa de que a inocência em um dos crimes implicava inocência no outro; assim, os suspeitos ficaram reduzidos a Tracey e Redman. A seguir, aceitou-se que Tracey, como tal, não tinha existência independente, mas que alguém se disfarçava, usando esse nome. A sugestão do chefe, de que Tracey pudesse ser realmente Redman, ainda estava de pé, pois os que haviam visto Tracey não foram capazes de assegurar se se tratava ou não de Redman. Era verdade que a polícia não conseguira provar que Redman fora o comprador do grampo na loja de Broad Street. A velha senhora proprietária da loja afirmou com segurança que nunca vira antes aquele homem. Smart, entretanto, continuava impressionado com as declarações de Beryl e, quando ouviu o nome de Redman ligado ao ataque à moça, achou que o caso estava chegando ao fim.
Ao chegar na redação do Morning Star, viu suas esperanças desmoronarem. Havia provas irrefutáveis de que Redman não saíra do edifício durante toda a noite. Essa constatação acabou com a alegria de Smart. Se Redman era inocente no caso do ataque a Beryl, quem era então o culpado?
Smart lembrou-se então de que Beryl dissera que a voz do desconhecido se parecia com a de Hemingway. Será que ela estava certa? Smart ficou desanimado ao pensar na confusão que ele iria criar. Se Hemingway tivesse comprado o grampo e planejado o ataque a Beryl para evitar que o fato fosse conhecido, então Hemingway deveria ser o homem procurado, o responsável pelos dois crimes, o sujeito que usava o nome de Tracey!
A seguir, Smart recordou um detalhe que o fez pensar ainda mais furiosamente. Naquele mesmo dia, Hemingway obtivera uma informação que, se ele fosse realmente o criminoso, deveria tê-lo deixado em pânico. É que ele ficara sabendo dos detalhes que Johnson contara a Beryl, relativamente ao grampo de Broad Street. Ora, se ele tivesse de fato comprado um grampo na loja de Broad Street, teria de concluir que a informação de Beryl, se conhecida, acabaria com ele. Seria levado até a loja e identificado como o comprador. Seria também levado a Jumbles, onde alguém o reconheceria como sendo Tracey. Assim, era indispensável silenciar Beryl. Entretanto, Smart não demorou em reconhecer que toda esta especulação nada valia. O homem tinha um álibi. Hemingway era inocente pelo menos do assassinato da Estação Vitória, pois não se encontrava lá à hora do crime.
Smart voltou para o apartamento de Beryl, a fim de encontrar-se com o Inspetor-Chefe Bradford, que acabara de chegar.
— O que você conseguiu, Smart? — perguntou o chefe.
Smart fez o relato, mencionando suas dúvidas. Para seu espanto, o chefe se mostrou entusiasmado.
— Você resolveu tudo! Hemingway é certamente o nosso homem!
— Mas ele tem um álibi, senhor. Indestrutível.
— Olhe aqui, Smart — respondeu o chefe, lentamente — é claro que foi Hemingway, pois, com Redman excluído, não há mais ninguém que pudesse ser. Hemingway está inocente do ataque a Beryl?
— Ainda não verifiquei, senhor.
— Pois então verifique e preste atenção no que estou lhe dizendo. Se Hemingway não provar que não atacou Beryl, pode estar certo de que ele é culpado dos dois assassinatos. Quanto ao tal álibi — acrescentou o chefe, sacudindo os ombros — ele tapeou você. Tente outra vez.
Smart não pensava assim. Estava certo de que não fora enganado quanto ao álibi. O chefe tinha cada ideia! Enfim, não teve outra solução, a não ser tomar um táxi até a casa de Hemingway, em Hampstead.
— Boa-noite, inspetor. Qual é o problema agora? — saudou-o Hemingway.
— Ainda o mesmo, senhor. O chefe mandou que eu viesse visitá-lo. Ele acha que o senhor deveria saber que a tentativa de assassinato de Beryl Blackwood fracassou Ela vai ficar boa.
Fora um tiro dado às escuras. Smart sorria amavelmente, mas seus olhos agudos não se afastaram do rosto do outro e perceberam que o alvo fora atingido. Hemingway recuou um passo, como se tivesse sido atingido por um golpe, e o sangue lhe fugiu completamente do rosto. Depois de um instante, conseguiu recobrar-se.
— A tentativa de assassinato de Beryl Blackwood? — repetiu, com voz um tanto trêmula. — Santo Deus, Inspetor! Isso é novidade para mim. Que ataque?
Smart se encheu de desculpas.
— Ah, o senhor não sabia? Pensei que tivesse sido avisado logo do escritório. — Começou a dar detalhes. — Felizmente há uma pista. A Srta. Blackwood tinha muitos admiradores e um deles, que ela recusara, foi visto nas proximidades de seu apartamento à hora do crime.
Hemingway estava positivamente intrigado. Smart, entretanto, se mostrava tão seguro da culpabilidade do rejeitado admirador, que o editor começou a voltar à calma. Quando, afinal, Smart se despediu, os modos de Hemingway eram praticamente normais.
Do primeiro telefone que encontrou, Smart fez seu relatório ao chefe.
— Ótimo. Olho nele — recomendou Bradford. — Fique vigiando a casa até que chegue aí o substituto que vou mandar. Depois, vá reexaminar aquele álibi.
Com um suspiro de resignação Smart se dispôs a obedecer. Era uma tolice pôr em dúvida o álibi. Em pensamento, repassou uma a uma todas as providências que havia tomado para testá-lo, nada mais conseguindo do que convencer-se de sua veracidade.
Começara com a reconstrução do crime. Com um automóvel veloz e acompanhado de um sargento, fora até a Estação Vitória, aproximando-se da cabine telefônica às 10:04, hora do crime. O sargento então atirou-se no chão da cabine e Smart puxou rapidamente o corpo para dentro, revistou-lhe os bolsos, pendurou o cartão de aviso e fechou a porta. Caminhando não muito apressadamente para não despertar atenção, voltou para o carro e partiu. Em Hampstead, estacionou o automóvel em uma rua transversal — pois Smart não acreditava que Hemingway fosse deixar o carro em frente á casa — e correu até a porta. Eram precisamente 10:23. Somando dois minutos para que Hemingway abrisse a porta, tirasse o sobretudo e chegasse à sala de estar, o total daria 10:25. Assim, não havia hipótese possível de que o homem fosse capaz de estar de volta às 10:10.
Smart passou então a verificar a hora em que Hemingway chegara em casa, vindo do escritório. Estava um pouco atrasado para o jantar às 8:15 e recomendou aos outros que fossem ocupando seus lugares à mesa, pois ele não demoraria. Depois do jantar, dera uma saída, tendo regressado às 10:10 e imediatamente ligado o rádio. Era um entusiasta dos aperfeiçoamentos dos aparelhos e gostava de verificar-lhes as válvulas e circuitos. Estava sendo irradiado um concerto sinfônico, mas o som se mostrava defeituoso, fazendo com que Hemingway fosse buscar algumas ferramentas para ajustar as conexões. Logo depois que ele deixou a sala, ouviu-se o sinal de 10:15 do sistema de hora certa da BBC. Hemingway retornou e deu início a seu trabalho mas, infelizmente, uma válvula escapou de suas mãos e quebrou-se, impedindo o funcionamento do aparelho.
Tudo isso foi testemunhado pela Sra. Hemingway, pela empregada e pela sogra de Hemingway, que estava de visita. O incidente foi relembrado, porque a velha senhora ficara muito pesarosa por não poder ouvir o resto da sinfonia.
Smart não tinha dúvida de que as senhoras estavam dizendo a verdade, não apenas porque se mantinham serenas mas também porque ignoravam de todo qual o objetivo das perguntas. Mesmo assim, antes de aceitar o álibi, Smart colheu numerosos fatos que o confirmavam. Primeiro, o relógio da sala estava certo com os sinais da BBC. Segundo, os relógios do saguão e da sala bateram horas ao mesmo tempo, não apenas naquela noite, mas em todas as demais, antes e depois. Terceiro, os relógios estavam certos porque a Sra. Hemingway, que fora ao centro naquele dia e no dia seguinte, havia, nas duas ocasiões, controlado a hora por intermédio de seu relógio de pulso. Quarto, não havia possibilidade de confundir aquela noite com outra, pois fora a da festa do Prefeito. E quinto, naquela noite o programa regional fora de música sinfônica até às 10:15.
E agora, depois de todas estas provas cumulativas, o Inspetor-Chefe insinuava que Smart fora tapeado com um falso álibi. Pois não fora e lá estavam as provas para quem quisesse ver.
Durante algumas horas, Smart se sentiu como um leão preso em uma jaula. O que mais poderia fazer, que já não tivesse feito? Fora testada a mínima possibilidade de engano na longa série de investigações. O inspetor não sabia mais que novos recursos poderia utilizar.
Ocorreu-lhe, então, que havia um detalhe que não fora verificado. Ele havia perguntado à Sra. Hemingway e à empregada qual a música que estava sendo irradiada naquela noite, mas elas não souberam informar. Julgando que tal detalhe era sem importância, Smart deixou-o de lado. Agora, porém, resolveu fazer a mesma pergunta à idosa Sra. Kent, sogra de Hemingway. Como ficara decepcionada pelo fato de a música ter sido interrompida, ela provavelmente sabia qual era. Uma hora depois Smart batia na porta da casa dela em Surbiton, para onde já havia regressado.
A Sra. Kent não teve dúvidas em responder à pergunta. Tratava-se da Quinta Sinfonia, de Beethoven. E mais: ela sabia exatamente a parte que fora tocada durante os cinco minutos que mediaram entre o momento em que o rádio foi ligado e o acidente com a válvula. A velha senhora se lembrava claramente de ter ouvido a longa nota sustentada entre o terceiro e o quarto movimentos. Acontecera justamente no momento em que a irradiação fora interrompida.
A visita seguinte feita por Smart foi à sede da BBC, em Savoy Hill, onde foi atendido por um atencioso funcionário do Departamento de Música.
— Gostaria de saber — perguntou o inspetor — a que horas foi irradiada a Quinta Sinfonia, de Beethoven, na noite de nove de novembro?
O jovem funcionário consultou alguns registros.
— Desculpe, mas essa sinfonia não constou de nossos programas da noite de nove.
O coração de Smart bateu mais aceleradamente.
— Será que foi irradiada de qualquer outra estação, na mesma noite?
Novas pesquisas nos registros e a informação segara:
— Na Rádio Paris. Uma noite de Beethoven. O último número foi precisamente a Quinta Sinfonia. Acho que é o que o senhor procurava, inspetor.
Um calafrio percorreu a espinha de Smart, mas ele insistiu:
— Seria possível saber-se a que horas começou a irradiação?
— Aqui nos meus registros não possuo esse dado, mas é fácil perguntar a Paris, se o senhor pagar a ligação.
— Com muito prazer.
Menos de uma hora depois Smart recebia a informação desejada. A sinfonia começara às 10:10.
O calafrio já não era mais de dúvida mas de confiante certeza. Com os dentes cerrados, Smart prosseguiu em suas investigações. Depois de muitos apelos, conseguiu que um dos programadores da BBC rodasse o disco da sinfonia, desde o começo até a nota interrompida. O tempo foi precisamente de 20 minutos
A conclusão foi que a interrupção ocorrera na noite do crime exatamente às 10:30. Se a Sra. Kent não estava enganada, fora um programa de Paris — e não o da BBC — que estava sendo ouvido pela família Hemingway; além disso, a hora da interrupção fora às 10:30 e não às 10:15.
Smart assobiou baixinho. Se Hemingway chegou em casa cinco minutos antes de a música ter sido interrompida, então seriam 10:25. Nesse caso, o álibi fora forjado e ele poderia ter assassinado Johnson na Estação Vitória!
Entretanto, havia ainda os relógios e aquele maldito sinal de hora certa às 10:15. Smart voltou à casa de Hemingway e deu início a novas investigações. Primeiro, se concentrou nos relógios e, após rigorosos interrogatórios, conseguiu duas descobertas. A primeira foi que, na noite do crime da Estação Vitória, o relógio da cozinha parara misteriosamente durante o jantar; a segunda: à hora de deitar-se, a empregada verificou que seu relógio tinha rebentado a corda. Tanto ela como a Sra. Hemingway somente usavam seus relógios de pulso quando saíam e naquela noite, como havia a visita da Sra. Kent, tinham permanecido em casa. Assim, os dois relógios permaneceram nos respectivos quartos durante o jantar.
Smart sentou-se no gabinete de Hemingway e reexaminou o problema. Durante muito tempo não percebeu qualquer novo indício, até que se lembrou de que Hemingway se atrasara para o jantar e recomendara que a refeição fosse iniciada sem a presença dele.
Aí então percebeu o quadro completo. No começo do jantar, toda a família estava reunida na sala. O que impediria Hemingway de atrasar todos os relógios um quarto de hora, exceto o da cozinha? Se a empregada preparasse o jantar para as 8:15 e depois descobrisse que eram apenas 8:05, a confusão estaria criada.
Smart concluiu que, se Hemingway atrasara os relógios 15 minutos, teria logicamente de acertá-los mais tarde. Mas quando? Tinha de ser no meio da noite. Entretanto, ele não poderia correr o risco de ir ao quarto da empregada, àquela hora. A solução seria rebentar-lhe a corda.
Restava ainda o exasperante detalhe do sinal da hora certa.
As duas senhoras afirmavam que Hemingway acabara de deixar a sala quando soou o sinal marcando 10:15. Hemingway deveria estar no saguão naquele momento. Smart, então, concentrou suas buscas no pequeno compartimento. E foi assim que compreendeu tudo.
Pendurado no cabide dos chapéus estava um desses chicotinhos de criança, em cujo cabo há um apito. Smart soprou-o. O som era perfeitamente idêntico ao do sinal de hora certa da BBC! Seis apitos no lado de fora da porta aberta da sala faziam o mesmo efeito.
Smart compreendeu então por que Hemingway deixara quebrar-se a válvula. Era preciso esconder o fato de que não haveria o noticiário costumeiro, após o sinal da hora certa.
A verdade final se apresentava agora claramente. Nem queria pensar nas observações irônicas de seu chefe! Todavia, os comentários de Bradford, depois de ouvir o relato de Smart, foram de outra ordem:
— Está bem. Então foi assim que aconteceu. Entretanto você não tem provas, Mexa-se e arranje algumas que possam ser apresentadas no tribunal.
Smart, ressentido e humilhado, foi tratar de conseguir provas.