O Cadáver Atrás do Biombo
Capítulo IV
NO VASO DE FOLHAGENS
Anthony Berkeley
O Inspetor Rice não pretendia passar a noite dormindo mas, como ninguém iria acreditar nisso, foi com a máxima precaução que ele subiu a escada, à 1:15, pé ante pé, fechando cuidadosamente a porta do quarto. Depois, sentou-se na única cadeira existente no aposento e preparou-se para uma hora de meticuloso raciocínio.
Segundo as notas que tomara de quando em vez, tudo o que o Inspetor pensara até então se resumia em interrogações.
— O criminoso morava na casa ou era alguém de fora?
— Neste caso, como entrara?
— A família contara tudo o que sabia?
— Ela estava escondendo algum de seus membros?
— Aquele estudante Hope...
— Por que a Srta. Ellis não quis falar comigo?
— Quem lavou o chão do banheiro?
— Por que a Sra. Hulk estava cortando carne tão tarde?
O Inspetor releu o último item, coçou a cabeça e sublinhou cada uma das palavras.
Depois, consultou o relógio. Faltavam 20 minutos para as duas.
Começou, então, a relacionar o horário dos acontecimentos da noite, procurando dados entre as páginas de seu caderno de notas.
9:15 — Dudden se levanta da mesa. Ouve-se a batida da porta.
9:20 — Hulk é visto junto à porta dos fundos.
9:25 — A Sra. Hulk corre as cortinas.
9:28 — A família entra na sala.
9:30 — Hulk é visto retirando-se.
10:00 — Hope chega.
Com a fisionomia carregada, o Inspetor estudou o que escrevera. A dificuldade era evidente. Admitindo que a Sra. Hulk não poderia quase tropeçar no corpo sem vê-lo, o horário mostrava que sobravam apenas três minutos para que Dudden fosse apunhalado e escondido atrás do biombo. Isso talvez fosse possível, mas seria provável? Em outras palavras: o horário merecia confiança?
O Inspetor molhou nos lábios a ponta do lápis e rapidamente incluiu mais três perguntas na lista:
— Onde se encontrava Dudden entre 9:15 e 9:28?
— A Sra. Ellis falara a verdade, quando declarou que ninguém deixara a sala?
— Quais os que não estavam mentindo?
Pensou por uns instantes, depois escreveu, com maiúsculas, já desanimado, uma última frase:
— SÃO TODOS ELES CÚMPLICES?
Como se isso nada adiantasse, ele fechou o caderno de notas e se recostou na cadeira, as mãos afundadas no bolsos. Testemunhas independentes — era isso o que ele precisava, mas, exceto o vizinho nervoso e sabe-tudo, o tal de Parsons, não havia mais nenhuma.
Ocorreu-lhe uma ideia. E aquela costureira que deveria trazer o vestido? Teria mesmo vindo? Não se lembrava. Mas se a resposta fosse afirmativa, talvez tivesse visto alguma coisa. Iria verificar esse detalhe na manhã seguinte. Outra ideia: as probabilidades indicavam que a morte ocorrera depois das 10 horas. Hope havia chegado a essa hora. Isso teria ou não algum significado? Se tivesse, deveria haver uma ligação muito íntima entre o estudante de medicina e o cidadão Dudden.
Tirou do bolso novamente o caderno de notas e registrou: Hope — Amy Ellis — Dudden. Pergunta: alguma conexão?
Levantou-se, abriu a porta do quarto, escutou durante um minuto pelo menos e depois dirigiu-se no escuro para a escada, cuja posição guardara na memória. Iria procurar, sem ser estorvado, aquele maldito bisturi. O tempo se escoou rapidamente. Às 2:15 já havia vasculhado a sala; às 2:30, a cozinha. O bisturi continuava desaparecido. Estava prestes a passar para a copa, quando um ruído no andar de cima o imobilizou. Alguém estava descendo a escada. Em três passadas silenciosas, o Inspetor Rice alcançou o interruptor e apagou a luz da cozinha; mas cinco passadas e já entrava de volta na copa, deixando a porta da cozinha entreaberta. É que os passos, chegando ao saguão, haviam indiscutivelmente tomado a direção da cozinha. No instante seguinte, a porta do saguão foi aberta e, logo após, fechada devagar, acendendo-se as luzes. Espiando pela fresta da porta da copa, o Inspetor Rice podia ver claramente o intruso.
Era Robert Ellis. Estava de pijamas, os pés descalços, e evidentemente apavorado. Em uma das mãos levava um embrulho, que ele apertava com força. Hesitou um momento, bem perto da porta, como procurando ouvir algum ruído; depois se dirigiu apressadamente para o forno. Antes, porém, que pudesse levar a cabo sua óbvia intenção de atirar o embrulho no meio das brasas, o Inspetor correu e arrancou-o das mãos.
— Obrigado, Sr. Ellis — disse ele amavelmente. — Acho que talvez seja melhor eu ficar com isto.
Rasgou o papel. Era uma camisa de algodão e o Inspetor notou que os punhos estavam manchados de sangue.
— Como o senhor explica isto? — perguntou asperamente, apontando para as manchas.
Por um momento pareceu que Robert não teria forças para replicar. Seu rosto estava lívido e todo o corpo tremia tão violentamente que os dentes batiam. De súbito, recobrou a voz.
— Eu... eu toquei nele! — exclamou histericamente. — Antes que o senhor chegasse aqui. Quando estávamos olhando, para ver se ele estava morto. Foi assim.
— Então por que quis queimar a camisa?
— Porque a vista do sangue me dá tonturas. Não posso suportá-lo. Tenho vontade de vomitar. É horrível. Não vestiria esta camisa outra vez nem por um milhão de libras. A única coisa a fazer era queimá-la. Já lhe disse. Não posso ver sangue — sua voz tornou-se um sussurro. — Que mais poderia eu fazer senão queimá-la?
— Compreendo — disse o Inspetor pacientemente, contemplando aquele farrapo humano. — Bem, agora é melhor que você volte para a cama, meu rapaz. Pode apanhar um resfriado, com esses pés descalços, se não tomar cuidada
Aparentemente atônito por não ter sido preso, julgado, condenado e enforcado desde logo, Robert bocejou, sorriu constrangidamente e se retirou. O Inspetor voltou a embrulhar a camisa.
— Com que então, era este rapazinho, afinal? — disse para si mesmo. — Não acreditaria, se não tivesse vista Não é de admirar que todos mentissem para salvar-lhe a pele. Bem. Não deverá ser difícil apurar a verdade agora. Esta camisa foi realmente um golpe de sorte.
Se fosse verdade, seria o único acontecimento a recompensar os esforços do Inspetor naquela noite. Duas horas mais tarde, quando ele se acomodou desconsoladamente sobre duas poltronas, na sala, deixando a porta aberta para um repouso de duas ou três horas, o bisturi ainda continuava desaparecido. O Inspetor Rice não tinha a menor duvida de que se tratava da arma com que o crime fora cometido.
Uma leve batida na vidraça da janela, pouco antes das 7:30, despertou-o imediatamente. O Sr. Parsons estava espiando através do vidro e, enxergando o Inspetor, fez sinais de que queria falar com ele. Sob a claridade da manhã radiosa, as marcas no rosto do homenzinho pareciam ainda mais acentuadas.
Reprimindo uma exclamação de enfado, o Inspetor abriu a janela.
— Desculpe, senhor, mas não posso permitir que a esta hora...
— Tenho novidades, Inspetor — começou o Sr. Parsons, em voz baixa, vibrando de excitação. — Novidades realmente importantes. Estava certo de que encontraria o senhor na cena do crime. Instintivamente! Sou assim. O senhor se lembra de minha sugestão de que aquele tal de Hulk poderia ser membro de uma quadrilha? Pois eu estava certo. Certíssimo! É, Inspetor... a Sra. Ellis faz parte dela também. Ouça esta: na noite passada, depois que...
— Um momento — interrompeu o paciente Inspetor. — Se o senhor tem algo a dizer-me, não seria melhor irmos para sua casa? Lá não correríamos o risco de sermos ouvidos.
— É claro! Ótimo! Ficarei encantado — exclamou o homenzinho. — Vou logo abrir a porta da frente. Neste mesmo instante! — acrescentou correndo através do jardim.
No lado de fora da casa, o Inspetor chamou o sargento que estava de vigia.
— Tome conta da entrada, Benson. Não deixe ninguém entrar na sala. Se precisar de mim, estarei na casa vizinha.
Em seguida, entrou com o Sr. Parsons em Swallow-Cliffe.
Passou-se quase uma hora, antes que o Inspetor ouvisse o final da detalhada história da segunda visita de Hulk. Só então pediu licença para falar ao telefone. O Sr. Parsons acedeu prontamente, não só para aquela, mas ainda para qualquer outra ocasião; parecia a ponto de pôr a casa e todas as suas instalações à disposição do Inspetor Rice. Essa cortesia talvez fosse considerada razão suficiente para ficar, sem a menor cerimônia, junto ao Inspetor, ouvindo seu telefonema.
— É o Sargento Farrar? Aqui fala o Inspetor Rice. Tome nota disto, por favor, Farrar. — O Inspetor ditou uma detalhada descrição de Hulk, conforme as informações de Parsons. — Sim, quero que esse homem seja detido até que eu possa falar com ele. Faça com que a descrição seja transmitida a todas as delegacias. O Sargento Hall está aí? Não? Descubra onde ele anda e peça-lhe para vir aqui imediatamente. É tudo. Não, espere um minuto. Peça à Central que forneça cópias das impressões digitais daquela caixa preta envernizada que mandei para exame ontem à noite. Encaminhe os resultados para cá, tão logo cheguem aí. Sim, neste endereço.
O Sr. Parsons só faltou pular, de tão excitado. Impressões digitais! Aquilo era o máximo.
O Inspetor ficou parado por alguns instantes, pensando em como se livrar daquela figurinha que não saia de seu lado. Depois, pegou o fone novamente e pediu nova ligação. Desta vez era para falar com o médico-legista, mas o Sr. Parsons não ficou sabendo do que se tratava,
— Desculpe incomodá-lo tão cedo, senhor, mas estou particularmente ansioso para ter uma ideia do que constará de seu relatório. A propósito — acrescentou cautelosamente — estou falando de um telefone particular, entendeu?
Ouviu-se uma risadinha no outro lado da linha.
— Entendi. Há alguém ouvindo, não é? Bem, Inspetor, tive tempo apenas para fazer uma rápida autópsia, mas examinei bem o ferimento e parece-me que se podem tirar algumas conclusões. O criminoso (acho que não há dúvida de que se trata de um crime) fez duas tentativas: na primeira, o ferimento foi quase de raspão, cortando apenas uma pequena artéria, sem provocar grandes danos; a segunda, porém, no mesmo ponto da anterior, penetrou profundamente, causando a morte. A vítima, porém, não deve ter morrido instantaneamente; tudo leva a crer que se esvaiu em sangue lentamente até expirar.
— Oh! — exclamou o Inspetor.
— Quanto àquele outro ponto... olhe, não posso dizer nada em definitivo no momento, mas tenho certeza de que aquele palpite que lhe dei era correto; o homem estava realmente sob a ação de algum narcótico, quando morreu. Não quero dizer que isso tenha causado a morte (falta completar a autópsia) mas, em qualquer caso, foi uma dose muito forte.
— Ah!
— É tudo o que lhe posso adiantar no momento.
— Obrigado — disse o Inspetor, desligando.
— Inspetor — murmurou o Sr. Parsons — o senhor ainda não comeu nada. Não quer tomar conosco o café da manhã? Minha mulher e eu teremos o máximo prazer...
— É muita bondade sua — replicou o Inspetor cordialmente. — Bem que me apeteceria comer uns ovos para quebrar o jejum.
Seria forçado a ouvir mais um tedioso palavrório mas talvez tomasse conhecimento de alguma coisa aproveitável. De qualquer modo, estava com fome.
Comeu os dois ovos fritos e foi apresentado à Sra. Parsons, uma tímida mulherzinha que olhava para ele com muito respeito e falava o menos possível. Quando o Inspetor deixou a casa dos Parsons, pouco depois das nove da manhã, não levava consigo nada que valesse a pena (além dos dois ovos fritos) que compensasse o tempo perdido.
O policial de vigia informou que a família estava terminando de tomar o café da manhã. A Srta. Ellis ainda guardava o leito e não queria ver ninguém.
— Ah! É assim? — estranhou o Inspetor.
O Sargento Hall estava na sala, esperando por ele.
— Bom-dia, Sargento. Tenho um trabalhinho para você. Quero as impressões digitais de todas as pessoas da casa, sem que elas saibam que estão sendo fichadas... Entendeu?
O Sargento sorriu e retirou-se. O Inspetor Rice acomodou-se em uma poltrona e começou a anotar em seu caderninho os fatos de que tivera conhecimento naquela manhã. Ouviu-se uma leve batida na porta e o policial entrou, tendo o cuidado de fechar a porta antes de falar.
— É a costureira, senhor, a Srta. Pettigrew. Acho que o senhor gostaria de saber que ouvi a cozinheira dizer que ela esteve aqui ontem à noite e imaginei que uma conversinha com ela...
O Inspetor sacudiu a cabeça em sinal de aprovação.
— Muito bem. Onde está ela?
O policial apontou para trás com o polegar sobre o ombro e foi abrir a porta. O tom rebuscado de uma vozinha lacrimosa invadiu a sala.
— ...e assim julguei que a senhora não queria ser incomodada àquela hora tão adiantada da noite e resolvi ir embora. Não sei se fiz como a senhora esperava, Sra. Ellis, mas logo que vi a notícia no jornal, disse para mim mesma: “Agora, um vestido preto é justamente o que a Sra. Ellis está precisando.” Então, tratei de vir logo...
— A verdade mesmo — observou o Inspetor, com bom humor, quando o policial se retirava — é que, quando ela soube da novidade, não descansou enquanto não veio meter o nariz aqui na casa. São todas assim...
— Tem toda a razão, senhor — comentou o policial, orgulhoso por ter sido o interlocutor no gracejo de tão ilustre chefe.
Com firmeza, o Inspetor interrompeu as explicações da Srta. Pettigrew à Sra. Ellis e levou a costureira para a sala. Era uma mulher alta e pálida, quarentena, com uns olhos empapuçados, nariz pontudo e vermelho, usando um chapéu esquisito e luvas de algodão cinzentas. A entrevista era uma punição com que o Inspetor iria castigar a curiosidade dela. A despeito dos esforços da Srta. Pettigrew, suas mãos tremiam visivelmente. O Inspetor Rice não encontrou dificuldade em classificá-la como uma daquelas pessoas que acham que qualquer relacionamento com a polícia, por mais inocente que seja, não é vista com bons olhos.
Por isso, o tato é condição essencial. O Inspetor resolveu agir assim. Cerimoniosamente, ofereceu uma cadeira à Srta. Pettigrew, pediu desculpas pelo incômodo que lhe estava causando e em tom confidencial deu a entender que o depoimento dela representava a peça mais importante das averiguações; para obtê-lo, a polícia não pouparia sacrifícios.
— Assim, espero que a Senhorita não se aborreça, se eu lhe fizer algumas perguntinhas — disse o Inspetor com voz melosa.
— Absolutamente — replicou a Srta. Pettigrew, em tom afetado, ainda que ligeiramente trêmulo, sentando-se na beirada da cadeira mais desconfortável da sala.
Com o mesmo ar misterioso, o Inspetor começou a fazer suas perguntas e a Srta. Pettigrew foi aos poucos relaxando. Suas mãos cessaram de tremer, a voz tornou-se mais firme e até seu nariz adquiriu um tom róseo. Reafirmou sua disposição em colaborar com a justiça na medida de suas possibilidades, assegurando que contaria tudo o que soubesse. Nessa altura, a Srta. Pettigrew já se mostrava até bastante animada.
Ela batera na porta dos fundos, na noite anterior às... talvez uns 10 minutos depois das 9:00. De qualquer forma, a Sra. Hulk deveria saber. A família estava jantando, de modo que a Sra. Hulk levou-a para o saguão, a fim de que esperasse ali. A Sra. Hulk lhe parecera... como dizer ?... com uns modos um tanto estranhos, pensou a Srta. Pettigrew. Ela aguardou no saguão durante cerca de 10 minutos; depois, achando que já era muito tarde para incomodar a Sra. Ellis resolveu retirar-se pela porta da frente.
O Inspetor esteve a ponto de esfregar as mãos de contentamento. Aquela informação era tão valiosa que teve dificuldade em esconder sua excitação, ao continuar o interrogatório. Sim, ela ficara postada na extremidade do saguão, na parte mais sombria. Sim, certamente teria visto o Sr. Dudden sair da sala de jantar.
— E o que fez ele?
Na ocasião, pareceu à Srta. Pettigrew que a atitude do Sr. Dudden era muito estranha. Na verdade, ela não conhecia o pessoal da casa tão bem quanto pensava; era constrangedor confessar mas, segundo lhe pareceu, o Sr. Dudden estava bêbado. Ao invés de caminhar em linha reta, cambaleava. E antes de passar para a sala de estar, abriu a porta da frente e tornou a fechá-la com violência. Tudo muito estranho!
— É claro, é claro — concordou o Inspetor. — Então ele entrou na sala de estar. Mas quem saiu atrás dele, da sala de jantar?
A Srta. Pettigrew mostrou-se espantada.
— Atrás dele? Desculpe, mas não estou entendendo. Não saiu ninguém.
— Bem, então qual foi a primeira pessoa que apareceu durante os cinco minutos seguintes, se prefere que a pergunta seja assim.
— Na verdade, não vi ninguém sair da sala de jantar.
— Como é? — exclamou o Inspetor, não querendo acreditar. — Ninguém, durante todo o tempo em que a Senhorita esteve esperando? Ora, vamos!
A Srta. Pettigrew começou a tremer novamente.
— O senhor... o senhor está insinuando que não falo a verdade?
O Inspetor apressou-se em reafirmar sua confiança mas a Srta. Pettigrew continuou afirmando, com convicção, que ninguém saíra da sala de jantar depois do Sr. Dudden, pois que essa era a verdade.
— Nem mesmo Robert Ellis? — arriscou o Inspetor.
— Certamente que não — replicou a Srta. Pettigrew, já em tom ofendido por aquela nova insinuação.
O Inspetor decidiu liberá-la, embora pesarosamente. Um depoimento, que se iniciara tão promissor, acabara dando em nada. De acordo com ele, Robert Ellis deixava de ser suspeito. Mas ele seria mesmo inocente? O Inspetor se dirigiu para trás do biombo. Aquela janela ali...
Uma leve batida na porta interrompeu o curso de seus pensamentos. O Sargento Hall entrou na sala, com um ar de triunfo.
— Trago uma porção de novidades para o senhor. Primeiro, consegui todas aquelas impressões digitais que o senhor pediu.
— Ah! — exclamou o Inspetor, sem se preocupar em saber como fora realizada uma tarefa tão difícil; afinal, aquilo fazia parte da rotina.
— E uma foto daquelas impressões digitais na caixa preta envernizada já veio da Central. São mesmo da moça, Amy Ellis, sem a menor dúvida.
— Ah! — exclamou novamente o Inspetor. As informações não pareciam surpreendê-lo muito. — Alguma coisa mais?
— Sim. Agarraram o tal de Hulk, em Wapping. O sujeito está à disposição do senhor. Para adiantar o ser-viço, já lhe fizeram umas perguntas e ele contou sua história.
O Sargento Hall repetiu então o depoimento de Hulk. Ele admitira ter recebido dinheiro da Sra. Ellis para assaltar Dudden na noite anterior e apossar-se de sua carteira. Hulk ignorava o motivo pelo qual a Sra. Ellis tanto desejava a carteira. Não era certamente por causa do dinheiro mas talvez porque contivesse algum documento de que o Sr. Ellis desejava desesperadamente apossar-se.
— Bobagem — resmungou o Inspetor. — O que estão querendo inventar? Eu mesmo examinei a carteira. Não havia documento algum dessa natureza.
— Mas tudo se ajusta perfeitamente, senhor! — retrucou o Sargento Hall com entusiasmo. — Merriman telefonou pouco depois. Ele fora incumbido de ir ao escritório de Dudden, de manhã cedo, e dar uma olhadela nos papéis. Não transmiti antes a notícia ao senhor porque ele está vindo para cá. Disse que não encontrou nada interessante, que estava tudo em ordem, exceto que havia um envelope no cofre de Dudden, contendo um cheque de 150 libras com o carimbo “Assinatura diferente” e uma confissão assinada por Robert Ellis, declarando que Robert falsificava o cheque.
O largo sorriso do Sargento Hall indicava que, em sua opinião, o caso estava encerrado.
O Inspetor parecia concordar.
— Está bem. Isso encerra o assunto, encontrando-se ou não a arma. Parece que temos o nosso peixe fisgado. Traga o moço Robert e fique de olho.
Depois que o Sargento Hall se retirou, o Inspetor Rice chamou o policial que estava de vigia no saguão.
— Telefone para o Sargento Farrar e peça uma ordem de prisão, Benson — ordenou em voz baixa. — O nome é Robert Ellis, acusado de assassinato. Não fale daqui. É melhor pedir licença para usar o telefone do vizinho.
O policial fez continência e desapareceu. Um minuto depois o Sargento Hall regressou, trazendo, meio arrastado e cheio de pavor, o jovem Robert.
O Inspetor Rice contemplou sua vítima.
— Vamos lá, Ellis, é melhor confessar tudo — disse em tom grave. — Vai sentir-se mais aliviado. Pode começar.
— Não sei o que o senhor quer dizer — balbuciou Robert. — Não tenho nada para confessar. Por favor, deixe-me voltar para meu quarto!
— Não adianta tomar essa atitude, meu rapaz. Não tem nada para confessar, é? Muito bem. Então o que me diz daquele cheque de Dudden que você falsificou? E o documento que assinou, confessando tudo? Vamos lá. Onde foi que escondeu o bisturi?
O Inspetor fez uma pausa. Adotara deliberadamente aquele tom belicoso como o melhor recurso para conter a incipiente histeria do jovem, mas já não havia necessidade de continuar assim. A referência à descoberta do cheque falsificado destruíra qualquer resistência que ainda houvesse no ânimo enfraquecido de Robert. Ele se deixou cair na cadeira mais próxima, trêmulo e apavorado; gotas de suor afloravam em sua testa. Para o olho experiente do Inspetor, chegara o momento da confissão.
— Eu... eu... — gaguejou o rapaz.
— Não há necessidade de maltratar meu filho, Inspetor — disse a Sra. Ellis, com voz um tanto trêmula mas decidida, entrando na sala.
O Inspetor se voltou para ela, irritado.
— Desculpe, senhora, mas sou obrigado a pedir-lhe que se retire. Já disse...
— E eu disse que não há necessidade de maltratar meu filho — repetiu a Sra. Ellis calmamente. — Estou pronta a revelar toda a verdade. Fui eu quem matou o Sr. Dudden.
Esquecido de sua irritação, o Inspetor ficou olhando para ela, atônito. A confissão o apanhara totalmente de surpresa. Entretanto, era uma hipótese plausível. Aquela história contada por Hulk..
De súbito, percebeu que o policial Benson, postado na entrada da sala, lhe fazia sinais. Instintivamente, o Inspetor foi ao encontro de seu auxiliar, que parecia extremamente satisfeito. Orgulhosamente, apresentou ao Inspetor, segurando-a com todo o cuidado pelas extremidades, a arma do crime, ainda manchada de sangue.
— Imaginei que o senhor andasse procurando por isto, senhor. Assim, quando fui à casa do vizinho para telefonar, dei uma busca rápida e encontrei isto... estava escondida no vaso de folhagens do Sr. Parsons.