O Cadáver Atrás do Biombo
Capítulo V
TRAÇANDO TRACEY
Anthony Berkeley
Lorde Ludgate deu um soco violento na mesa.
— Temos de encontrar esse tal de Tracey antes que a policia o faça!
O editor-chefe, mais o editor do noticiário e o repórter policial sacudiram a cabeça em solene assentimento. Foi para comparecer a essa importante reunião que Oliver teve de interromper seu encontro com Beryl.
— Com todos os diabos! Um de nossos próprios homens assassinado dessa maneira! Dobro a recompensa.
O editor-chefe, lacônico por natureza, limitou-se a continuar sacudindo a cabeça. Oliver manteve-se em silêncio mas Hemingway comentou:
— Tenho minhas dúvidas de que isso vá adiantar alguma coisa.
O Morning Star, sentindo-se profundamente atingido, já oferecera uma recompensa de 500 libras por qualquer informação que desse como resultado a descoberta de Tracey. Em meio a uma enxurrada de cartas, apareceram umas poucas informações de certa utilidade. Umas 10 pessoas diferentes registraram as viagens normais de Tracey às segundas-feiras, de Jumbles para Brighton, de Brighton para Vitória e dai, no metrô, para Charing Cross. Nessa altura terminavam as informações e Tracey era deixado como se continuasse viajando sempre para leste. Nem o mais histérico informante do Morning Star foi capaz de assinalar a presença dele em qualquer ponto mais longe.
O detalhe mais interessante para Oliver, nessa viagem, era o fato de o trem em que Tracey costumava embarcar em Brigton partir às 9:40, chegando à estação Vitória às 10:59. Assim, somente muito depois das 11 é que poderia alcançar Charing Cross e, bem mais tarde, seu destino final. Se esse destino fosse algum escritório no centro, como parecia mais provável, a inferência era lógica: ele deveria ocupar um cargo elevado; somente quem exercesse funções de chefia poderia chegar ao escritório àquela hora.
Oliver expôs seu ponto de vista na reunião.
— Pode ser um indício — concordou Lorde Ludgate. — De qualquer modo, vamos explorá-lo. Exploraremos tudo. Estou decidido a agarrar o bandido que matou Johnson.
— E o senhor continua pensando que foi Tracey? — perguntou Hemingway, que já expusera sua convicção de que o assassino era Fisher.
— Não devemos esquecer — atalhou o editor-chefe, pausadamente — a hipótese de os dois crimes serem afinal independentes.
— Já pensei nisso — respondeu Lorde Ludgate secamente. — Não tem sentido. Se fosse esse o caso, não está vendo a inferência? Depois do crime em Jumbles, as únicas pessoas que sabiam que Johnson estava viajando de trem para cá eram justamente as daqui do jornal. Não creio que os dois crimes possam ser separados. Em qualquer caso, Johnson era um sujeito muito popular, não é verdade? Não tinha inimigos? Era estimado por todos? Ou será que ouvi uns rumores de certa desavença entre ele e um dos seus colegas?
— Ah, o senhor se refere a Redman? Realmente, houve certa vez uma pequena discussão a respeito de uma garota, creio eu. Nada sério — estava esclarecendo o editor-chefe, quando a campainha do telefone o interrompeu. — Entendido — disse ele por fim, depois de haver escutado atentamente a informação. — Obrigado, Graves.
Recolocou o fone no lugar e voltou-se para Lorde Ludgate:
— A polícia trouxe Fisher de Brighton e o levou para a Scotland Yard. Parece que ele ainda não está preso mas há qualquer coisa no ar.
— Deve ser a respeito da arma — disse Oliver. — É melhor eu ir até lá.
Em rápidas palavras, contou o resultado de sua entrevista com Araby, naquela manhã. Hemingway sacudiu a cabeça, em sinal de aprovação, olhando para Lorde Ludgate, como se dissesse: É Fisher! Como eu sempre disse.
No trajeto até a Scotland Yard, Oliver concluiu que havia uma única razão possível para justificar a convocação de Fisher: ter sido identificado por Araby como sendo o freguês que comprara o grampo. Provavelmente, Fisher havia negado a compra. As possibilidades eram agora mais interessantes.
Entretanto, transcorreu bastante tempo antes que Oliver pudesse satisfazer sua curiosidade. Graças a cuidadosa investigação, descobriu que iria realizar-se uma acareação, o que confirmava sua hipótese. Era absolutamente necessário que ele soubesse do resultado.
Enquanto procurava resolver esse problema, um homenzinho muito agitado apareceu na entrada do edifício, com um guarda-chuva em uma das mãos e um chapéu-coco na outra, gesticulando nervosamente para o policial que o acompanhava. Vendo o sargento com quem Oliver estava conversando, correu a seu encontro, exclamando:
— Não posso esperar aqui o resto da vida. Meu tempo é precioso, vocês devem compreender. Tenho meus direitos como cidadão. Vocês têm de achar alguém para substituir-me no testemunho desta acareação. Estou com muita pressa.
Antes que o sargento pudesse replicar, Oliver se adiantou e respondeu por ele:
— É claro, senhor. Concordo plenamente. Isso é uma prepotência. Apoio integralmente seu protesto e me ofereço com prazer para tomar o seu lugar.
Piscou o olho para o sargento e bateu com o cotovelo em suas costas. O sargento hesitou por um momento, mas acabou por dar a permissão, deixando o homenzinho partir, agitando seu guarda-chuva em triunfo. Depois que Fisher foi identificado por Araby, Oliver, para seu desgosto, foi posto para fora da sala, sem ficar sabendo se, afinal, Fisher fora ou não detido. Não conseguiu qualquer informação a esse respeito e teve de conformar-se em esperar.
Finalmente, cerca de duas horas mais tarde, o próprio Fisher apareceu, sem qualquer escolta. Oliver correu para ele, como um cão para um osso. Fisher, aparentemente satisfeito por encontrar um rosto amigo, concordou imediatamente em ir para um bar, a fim de tomar qualquer coisa. Oliver não teve a menor dificuldade em ficar conhecedor de toda a história. Fisher, trocando gradualmente seu papel de um homem assustado para o de alguém satisfeito com o seu desempenho, entrou em detalhes.
A princípio, negou que tivesse comprado o grampo. Foi uma tolice, como verificou mais tarde. Entretanto, como seguira essa linha em um momento de alarme, sentiu-se obrigado a sustentá-la. Naturalmente, isso despertou suspeitas na policia. Nada mais lógico. Entretanto, agora, depois que ele, de um modo franco e sincero, admitira a compra e explicara tudo, eles se mostraram inteiramente satisfeitos.
Oliver concordou, demonstrando sua integral simpatia. Percebera claramente que Fisher, insistindo a respeito da completa satisfação da polícia, estava realmente procurando convencer-se a si próprio; o que ele desejava era que a polícia estivesse satisfeita. À medida que ouvia os detalhes da história, Oliver passou a alimentar suas dúvidas.
Em resumo, Fisher contou que a polícia, com desagradável rudeza, havia-lhe apresentado, naquela manhã, em seu próprio escritório, um grampo com cabeça de jade e marcas de sangue, perguntando-lhe se já o tinha visto antes. Foi somente nessa ocasião que Fisher tomou conhecimento da natureza da arma; chegou mesmo a perguntar se o crime fora cometido com ela.
— Não se preocupe com isso — replicou o policial asperamente. — Já a tinha visto alguma vez?
Fisher, sem poder desviar os olhos daquelas manchas de sangue, perdeu a cabeça por uns instantes e respondeu que não. Perguntado a respeito do fato de o comprador haver apresentado o cartão de Fisher, este ponderou (e a polícia foi obrigada a concordar) que qualquer pessoa poderia ter feito isso.
Depois que, em consequência da acareação com Araby, ele admitiu ter sido o comprador, a policia tentou fazê-lo confessar que levara o grampo consigo, por ocasião de sua visita a Jumbles, no sábado à noite, porém mais uma vez Fisher tinha argumentos a seu favor. O grampo fora enviado pelo correio, na sexta-feira. O detalhe, reforçando a suspeita de que aquela era a arma do crime, pareceu agradar à polícia, mas inocentava Fisher, pois ele tivera a precaução de registrar a remessa e guardara o recibo. A polícia então lhe perguntou se vira o grampo outra vez, depois de havê-lo posto no correio, mas Fisher — que realmente nunca mais pusera os olhos na arma — respondeu que não, sem hesitar. Assim, embora a contragosto, as autoridades policiais foram obrigadas a liberá-lo.
Oliver sabia muito bem que a polícia não podia estar satisfeita, mas soltara Fisher simplesmente porque não conseguira uma prova concreta contra ele; entretanto, era mais do que certo de que o manteria sob observação. As possibilidades eram óbvias, mas continuavam apenas como tais; que o pacote remetido sob registro, por exemplo, bem poderia conter qualquer outra coisa que não o grampo; que Fisher o teria realmente enviado mas o apanhara novamente em Jumbles e com ele cometera o crime; que o reconhecera, cravado no corpo de Geraldine Tracey, ao chegar no bangalô naquela noite, às 9:00 e o removera, escondendo-o depois na árvore onde mais tarde Johnson o encontraria; e assim por diante. Contudo, Oliver não disse uma palavra a respeito desses pontos. Limitou-se a extrair de Fisher o maior número possível de informações e se despediu.
Consultando o relógio, ao chegar à rua, viu que faltavam 10 minutos para as seis, tempo bastante para a outra entrevista que ele queria fazer, antes de voltar para o escritório, a fim de escrever a reportagem.
A Butique Evanalda não ficava na Praça Hanover nem na Rua Hanover mas sim distante de qualquer das duas. Já passavam das 6:00 quando Oliver conseguiu chegar lá. Felizmente encontrou, no momento em que ela saía, a vendedora que ele já tivera o cuidado de identificar.
O repórter sabia como adaptar seus métodos aos indivíduos. Se bolos e sorvetes constituíam iscas excelentes para Gladys Sharp, o indicado para a Srta. Amethyst Mainwaring eram drinques em Picadilly Palace.
A Srta. Mainwaring — uma moça alta e muito loura — além de ser o principal manequim de Evanalda, considerava-se a melhor amiga de Geraldine Potts na butique. Depois de alguns comentários a respeito de uma exposição em Monte Cario, do fracasso da última temporada de corridas e dos méritos comparativos de John Galsworthy e A. S. M. Hutchinson, que Oliver ouviu pacientemente, pois sabia que ela precisava expor para alguém suas ideias, a Srta. Mainwaring consentiu em contar-lhe o que sabia a respeito de Tracey.
Infelizmente, as informações que ela prestou não acrescentaram muito ao que já era sabido. Geraldine — segundo a Srta. Mainwaring — falara abertamente sobre Tracey, mas como ela mesma não sabia muita coisa, pouco havia o que contar. As duas amigas se referiam ao casamento como se ele tivesse mesmo se realizado, pois Geraldine jamais deixara escapar qualquer indício em contrário; a Srta. Mainwaring, porém, nunca se iludira.
— Pois veja só, Sr. Oliver — disse ela, saboreando um canapé com extrema delicadeza — o senhor acha que Geraldine iria se casar sem me convidar? Acha isso possível?
— Realmente, parece inadmissível — concordou Oliver.
No mesmo tom, a Srta. Mainwaring deixou perceber que o detalhe de Tracey ser um caixeiro viajante fazia parte da história. A própria Geraldine não se detinha muito nesse ponto, dando a entender que a área de ação de Tracey abrangia altos negócios, tais como vendas de navios ou blocos de apartamentos. A esse respeito, a Srta. Mainwaring também não se iludira. Estava certa de que Tracey não era caixeiro viajante e que Geraldine estava farta de saber disso.
— A verdade é que ele era um perfeito cavalheiro — arrematou a Srta. Mainwaring — como Geraldine não se cansava de acentuar.
— Então qual a profissão que ele exercia? — perguntou Oliver, fingindo-se de ingênuo. — Com escritório no centro da cidade? Um corretor ou coisa assim?
A Srta. Mainwaring, porém, não achava que ele fosse corretor. Não tinha cara disso.
— Como é que você sabe qual a cara dele? — perguntou Oliver, já em tom de muita ingenuidade.
— Porque o vi pessoalmente. Geraldine me mostrou quando ele estava na calçada do Forum, conversando com um amigo. Geraldine ia encontrar-se com ele em Charing Cross, mas nós o vimos quando passamos de ônibus em frente ao Forum.
Oliver mal podia conter a excitação
— Você o viu? Eu não sabia disso. Pode descrevê-lo para mim? Você o reconheceria se o encontrasse outra vez?
A Srta. Mainwaring não tinha muita certeza. Fora apenas um rápido golpe de vista. Pareceu-lhe que ele era jovem, bem jovem, mas naturalmente, naquela distância... Um tipo comum, talvez mais para louro do que para moreno, mas era difícil dizer, ainda mais que ele estava de chapéu.
Oliver reconheceu que a descrição, embora vaga, diferia da prestada por outras testemunhas oculares de Tracey; entretanto, talvez houvesse uma razão para isso. A pergunta veio logo.
— E o homem com quem ele estava conversando? Pode descrevê-lo?
A Srta. Mainwaring sorriu com ar superior.
— Bem... as pessoas são muito parecidas, vistas de costas, não acha? Na verdade, poderia ter sido o senhor ou qualquer outro cavalheiro, Sr. Oliver.
— E virando-me de costas, não vai adiantar nada? — gracejou Oliver.
A Srta. Mainwaring não respondeu.
Vinte minutos mais tarde, ao despedir-se dela, Oliver resolveu guardar segredo a respeito das informações que obtivera da Srta. Mainwaring. Elas, no momento, não tinham qualquer valor; talvez se tornassem úteis mais tarde, inclusive a própria informante. Era melhor guardar essa possibilidade do que divulgá-la prematuramente.
Oliver apanhou um ônibus que se dirigia para Fleet Street. Por uma dessas coincidências que acontecem sobretudo nos ônibus, o repórter encontrou um lugar vago ao lado da loquaz Srta. Timmins, a colega de Beryl, que logo anunciou suas teorias sobre o crime, julgando que Oliver deveria explorá-las.
— Então comece logo a expô-las — disse Oliver, divertido. — Já descobriu quem é o criminoso?
— Claro — respondeu a Srta. Timmins prontamente.
— Não pode haver dúvida. Está na cara que é o tal de Potts.
— Ah! — exclamou Oliver, demonstrando o máximo interesse e recordando-se das observações de Beryl sobre o assunto. — O próprio irmão dela?
— Ora, Sr. Oliver, não me diga que o senhor acredita mesmo que Potts seja realmente irmão dela, acredita?
— Então quem você pensa que ele seja? — perguntou ele sorrindo.
— O marido dela! Ora, Sr. Oliver, não precisa sorrir. Tenho absoluta certeza. Acho que não há nada mais claro. Era casado com ela e a matou, juntamente com o amante. Claríssimo!
— Será mesmo? — perguntou Oliver, sentindo um pouco mais de respeito por sua irrequieta companheira de viagem. A hipótese era plausível e não havia qualquer prova que a contrariasse.
— Acho que não é justo impedir que o pessoal do jornal faça jus à recompensa pela descoberta de Tracey — lamentou a Srta. Timmins.
— Espere um pouco! Você quer dizer que também sabe onde Tracey se encontra?
— Sei quem é ele — corrigiu a Srta. Timmins — pois é claro que usava um nome falso, quero dizer, não se chamava realmente Tracey.
— Então qual o seu verdadeiro nome?
— A ideia me veio quando eu comentava o crime cora a Srta. Blackwood. Eu dizia: “Tome nota de minhas palavras, querida” (sempre chamei Beryl de querida; ela é um amor, não acha, Sr. Oliver?). “Tome nota do que estou dizendo: A Sra. Tracey foi assassinada e o Sr. Tracey desapareceu. Sabe por que não encontram o corpo? Ora, o pobre do Sr. Johnson também foi assassinado, não foi?”
— Srta. Timmins! — exclamou Oliver, atônito. — O que está sugerindo?
— Mas qual é a dúvida? — estranhou a Srta. Timmins, ante tamanha obtusidade. — O Sr. Johnson era Tracey, evidentemente.