O Cadáver Atrás do Biombo
Capítulo II
Agatha Christie
Com o grito da Sra. Ellis, Wilfred retomou a posse de suas faculdades, dominando a constrangedora sensação de paralisia. Voltou a seu estado normal, calmo, eficiente, capaz de assumir o controle da situação.
Atravessando a sala, ajoelhou-se junto ao corpo de Dudden. Percebia, vagamente, a presença dos outros ocupantes da sala. O Sr. Ellis, levantando-se de sua cadeira, a boca aberta, os olhos arregalados; Amy, Robert e a Sra. Ellis, todos atrás dele, esperando, olhando furtivamente, prontos a cumprir as instruções que certamente iriam em breve receber.
Wilfred procurou cuidadosamente não alterar a posição do corpo — aliás muito curiosa, conforme ele notou, quase inconscientemente. Tudo o que se fazia necessário era um exame superficial. Dudden estava morto. O sangue escorria de um ferimento no pescoço, perto do ângulo do maxilar.
O rosto de Wilfred refletiu uma curiosa expressão, ao debruçar-se sobre o cadáver. Aqueles olhos... aquele olhar fixo... algo bem singular... Mas o problema não era de sua conta. Não devia ficar imaginando coisas. Entretanto, aquilo era estranho, muito estranho mesmo.
Levantou-se.
— Está morto — declarou secamente.
— Oh! — foi o grito abafado que saiu da garganta de Amy.
Ele se voltou, mortalmente pálida, atirando-se nos braços de sua mãe.
— Calma, minha querida, calma — pedia a gorda senhora. — Procure controlar-se...
Com o braço sobre os ombros da filha, ela a levou carinhosamente para fora da sala.
Wilfred deixou escapar um suspiro de alívio, ao ver a Sra. Ellis praticamente carregando a moça no colo. Depois, seu olhar encontrou o do Sr. Ellis, que parecia estar-se recobrando do choque.
— Uma coisa terrível... terrível — balbuciou ele. — O que foi isso, meu rapaz? Suicídio, parece. Como é que acontece uma tragédia assim na casa da gente?
— Não foi suicídio — respondeu Wilfred.
— Não foi?
— Não estou afirmando que o ferimento não pudesse ter sido produzido pela própria vitima. Até que podia, embora seja improvável. Neste caso, porém, a arma ainda estaria cravada no ferimento.
— A arma?
— Sim. Ele foi apunhalado... apunhalado com uma lâmina estreita e afiada, não havendo perto dele qualquer instrumento dessa natureza. É um caso de policia, Sr. Ellis.
— Você quer dizer que...
— Que se trata de um assassinato, sim, senhora. Assassinato! — repetiu.
— Tem certeza?
— Absoluta. O senhor deve chamar a polícia imediatamente.
— Eu... eu...
O Sr. Ellis hesitou, engoliu em seco; depois saiu da sala, cambaleando.
Wilfred chegou a pensar, arrependido, que deveria ter-se oferecido para dar o telefonema. O velho estava tão abatido que dificilmente poderia controlar seus atos, enquanto ele, Wilfred, se mantinha perfeitamente calmo e controlado. Apesar de tudo, julgava que não deveria sair da sala. Seu lugar era ali.
De repente, lembrou-se de Robert. O jovem permanecia imóvel junto ao biombo, fascinado, os olhos arregalados. O pomo-de-adão subindo e descendo, os longos dedos pálidos se entrelaçando nervosamente. Um sujeito tipicamente neurótico, pensou Wilfred, irritado.
A maneira como Robert olhava para Dudden era muito estranha, fixando-se no fio de sangue que continuava escorrendo. A cena parecia fasciná-lo, mantendo-o como que hipnotizado. De súbito, com um convulsivo sacudir de ombros, o rapaz pareceu recobrar-se e, voltando-se abruptamente, saiu quase correndo da sala.
Wilfred experimentou uma sensação de alivio. Uma vez mais se debruçou sobre o cadáver, examinando-o cuidadosamente. Sua posição era curiosa, parecendo estar dormindo, não fosse aquele fio de sangue em seu pescoço. Mas seus olhos! Algo muito singular. Um homem antipático, com manias desagradáveis, mas ainda assim Wilfred jamais notara antes... O que deveria pensar daquilo?
Levantou a mão para afastar a mecha de cabelos que lhe caíra sobre a testa e interrompeu o gesto, nervosamente.
Havia sangue em seus dedos!
Como acontecera isso? Tivera o máximo cuidado ao examinar o cadáver de Dudden, evitando tocar no ferimento. Havia manchas escuras na aba do casaco de Dudden. Wilfred tocou nelas de leve, sentindo que estavam úmidas, com todo o aspecto de serem de sangue. De que modo elas teriam sido produzidas?
Um leve ruído fê-lo levantar a cabeça. Por um momento nada viu. A sala estava como de costume — quase indecentemente tranquila. As cartas do baralho continuavam na mesa; o livro da Sra. Ellis, com um corta-papel entre as páginas, ficara em cima de uma cadeira e uma echarpe de seda de Amy, no braço do sofá. Tudo como de costume, da mesma maneira como ele vira centenas de vezes antes.
O ruído se repetiu e agora Wilfred o identificou. Alguém estava cautelosamente abrindo a porta. Ele esperou. De súbito, o rosto rubicundo da Sra. Hulk apareceu na fresta da porta, com uma expressão mista de temor e curiosidade. Ela ainda quis recuar, ao se dar conta da presença de Wilfred. Depois, abriu mais a porta e entrou, as mãos amarrotando o avental.
— Ele está morto, não é? — perguntou com voz abafada.
Wilfred confirmou com um aceno de cabeça. Nesse momento a campainha soou e a Sra. Hulk, visivelmente satisfeita, apressou-se em ir atender. Ouviu-se um murmúrio indistinto de vozes e, em seguida, a da Sra. Hulk.
— Está lá dentro. O moço doutor também.
Dois homens entraram na sala. O primeiro usava o uniforme de inspetor de polícia; o segundo pareceu a Wilfred que deveria ser o médico legista — o que realmente era.
— Boa-noite — disse o Inspetor. — O senhor é o dono da casa?
— Não. A casa é do Sr. Ellis. Meu nome é Hope.
A seguir, relatou o acontecido, indicou o corpo (que o Inspetor olhou ligeiramente, sem demonstrar a menor emoção) e se propôs a ir buscar o Sr. Ellis.
— Está bem — respondeu o Inspetor. — Mas não saia de casa, Sr. Hope. Precisamos ter uma conversa mais tarde. Pode começar, Dr. Larkin.
Wilfred deixou a sala. A porta que ligava o saguão com a cozinha estava aberta e, de relance, ele viu a Sra. Ellis calma e metodicamente ajudando a Sra. Hulk a lavar a louça do jantar.
— É você, Wilfred? — perguntou ela. — A Sra. Hulk me disse que a polícia já chegou.
— Já. Querem falar com o Sr. Ellis.
— Acho que ele está na sala de jantar.
Acabou de enxugar uma xícara, pendurou o pano de prato cuidadosamente no gancho e foi ao encontro de Wilfred no saguão.
— Como está Amy?
— Coloquei-a na cama, a coitadinha, e dei-lhe um sedativo. Foi um choque terrível para ela. Está completamente abalada. Amy sempre foi muito sensível. A polícia não vai interrogá-la, você não acha?
— Provavelmente não.
— O pai está aqui — disse a Sra. Ellis, abrindo a porta da sala de jantar.
O Sr. Ellis estava sentado em uma cadeira junto à janela, com o rosto escondido nas mãos. Levantou-se nervosamente, quando os dois entraram.
— O que há? Eu...
— É a policia, meu bem. Acaba de chegar.
— Ah, sim! É claro! Eles querem saber o que foi que aconteceu, não é mesmo? Precisam fazer perguntas...
— Naturalmente perguntarão quando foi que o senhor viu Dudden pela última vez, vivo, é claro. E por falar nisso, quando foi?
— No jantar — respondeu a Sra. Ellis. — Fomos tarde para a mesa... O pai atrasou-se hoje.
— Nós todos estávamos na mesa, quando ele saiu — informou o Sr. Ellis.
— Saiu?
— Exatamente. Levantou-se de repente e foi embora. Até bateu com a porta da frente. Havia algo estranho com ele esta noite, você não achou, meu bem?
— A gente sempre é levada a pensar coisas, depois que tudo já aconteceu — replicou a Sra. Ellis.
— A que horas ele saiu? — perguntou Wilfred.
— Não tenho certeza. Deve ter sido lá pelas 9:15.
— E ninguém aqui o viu novamente? — comentou Wilfred. — Nem se sabe a que horas ele voltou para casa?
A Sra. Ellis sacudiu a cabeça negativamente.
— E os outros? O que fizeram?
— Bem... Ficamos sentados em torno da mesa durante mais algum tempo... talvez uns 10 minutos. Depois, fomos para o salão.
— E ninguém deixou a sala de jantar durante aqueles 10 minutos?
— Ficamos todos li — respondeu imediatamente a Sra. Ellis. — Papai, é melhor você ir andando. A polícia está à sua espera.
O Sr. Ellis retirou-se apressadamente. Wilfred ficou pensando se fora uma impressão falsa de sua parte ou se realmente houvera um ar de espanto no rosto do Sr. Ellis, ante a declaração de sua mulher. Será que ele teria dado uma resposta diferente?
— A Sra. Hulk deve ter visto quando Dudden voltou para casa — arriscou Wilfred.
— Possivelmente, mas não esqueça que ele tinha a chave e não precisava tocar a campainha.
— De qualquer modo, farei essa pergunta para ela.
A Sra. Ellis não apresentou qualquer objeção e Wilfred deixou a sala, decidido a interrogar a Sra. Hulk. Todavia, ao cruzar o saguão, ouviu umas batidas na porta da frente e foi abri-la. No lado de fora estava um sujeito que ele sempre conhecera como “o nosso vizinho bexigoso”, porque a Sra. Ellis certa vez dissera que o Sr. Parsons, o proprietário de Swallow-Cliffe, tivera varíola e o apelido pegara.
De tão excitado, o Sr. Parsons parecia mais marcado do que nunca, chegando até a gaguejar.
— Não reparem. Queiram desculpar, mas é verdade mesmo que houve um assassinato aqui? Ouvi a notícia de boa fonte, mas nem quis acreditar.
— Pois é verdade — replicou Wilfred secamente, disposto a bater com a porta na cara do importuno visitante.
— Foi o Sr. Dudden, segundo me disseram.
— Foi.
Desta vez Wilfred começou realmente a fechar a porta mas o Sr. Parsons avançou um passo e se colocou de permeio.
— Perdoe se parece que estou me metendo, mas é que tenho uma informação a prestar, aliás, uma valiosa informação.
— E qual é?
— Vi o assassino... Estou convencido de que o vi Eram 9:20, lembro-me perfeitamente. Eu estava debruçado na janela de meu gabinete. Um sujeito grandalhão... não pude ver distintamente, mas estou certo de que era um homem, possivelmente bêbado. Entrou pelo portão do jardim e arrodeou a casa de um modo que só posso classificar de suspeito. Dez minutos mais tarde, apareceu de novo, sempre andando às escondidas. Um tipo muito esquisito, certa mente bem conhecido da policia, talvez mesmo membro de alguma quadrilha.
Wilfred ficou imaginando que toda aquela história não passava de fantasia mas a convicção do Sr. Parsons acabou por convencê-la
— Está bem. Vou transmitir tudo isso ao Inspetor. Fico-lhe muito grato pela colaboração.
— Não há de quê. Apenas cumpri meu dever.
— Sem dúvida. A propósito, o Sr. Dudden saiu às 9:15, não foi? Por acaso o senhor viu a que horas ele voltou?
— Não, não vi. Também não o vi sair. Tenho absoluta certeza de que o Sr. Dudden não se afastou da casa esta noite. A janela de meu gabinete, compreende?
— Talvez o senhor não tivesse notado.
O Sr. Parsons reagiu francamente indignada
— Eu noto tudo, entendeu? Tudo! Nada me escapa. Eu mesmo me treinei na técnica de observação. Posso garantir-lhe que noto tudo. Vi até mesmo quando acenderam a luz do banheiro... uma coisa um tanto estranha àquela hora da noite...
— Peço-lhe que desculpe — interrompeu Wilfred delicadamente. — São informações muito importantes e... como direi?... detalhadas. Transmitirei aos Ellis.
— Se eu puder ser útil em alguma coisa... — insistia o Sr. Parsons.
— Obrigado — apressou-se Wilfred em responder — mas não creio que haja mais nada. A policia, como o senhor sabe, se encarrega de deslindar tudo.
Afinal, conseguiu fechar a porta, muito intrigado cora o que ouvira do Sr. Parsons. Depois de uns instantes de reflexão, dirigiu-se para a cozinha. A Sra. Hulk encontrava-se lá, sozinha.
Wilfred começou por perguntar se ela sabia a que horas Dudden havia retornado. A resposta dela foi irritada.
— Sei lá! Como vou adivinhar? Ele tinha chave.
— Ele saiu, não foi?
— É claro que saiu. Bateu com a porta como se fosse derrubar a casa. Grosseiramente, se o senhor quer saber. Fez isso mais de uma vez.
— Veio alguém aqui esta noite?
— O que o senhor quer dizer com “veio aqui”?
— Bem... Parece que foi visto um homem rondando a casa e indo até a porta dos fundos... Um sujeito grandalhão...
A Sra. Hulk ficou muito vermelha.
— Onde o senhor quer chegar com suas insinuações?
— Insinuações? Não estou entendendo...
— O senhor falou em um sujeito grandalhão, não falou? Sim, foi mesmo o meu marido. Pedindo dinheiro, como sempre. Tive de dar-lhe a metade de meu salário, para que ele fosse embora. Está cada vez pior. Não foi a primeira vez.
Wilfred tranquilizou-a, reafirmando-lhe que não fizera qualquer insinuação. O assunto pareceu ter ficado suficientemente esclarecido.
De repente, lembrando-se da observação de Parsons a respeito da luz no banheiro, Wilfred resolveu averiguar e, como obedecendo a um impulso, correu escada acima. A porta do banheiro estava aberta e ele entrou. Não havia nada de luxuoso; era uma peça comum da casa, talvez pequena demais e de aspecto desagradável. O papel da parede estava despregando em alguns lugares. Wilfred fez uma rápida inspeção. Nada viu de extraordinário. Na verdade, o que esperava encontrar? Foi ao sair que notou umas manchas escuras no linóleo embaixo da pia. Ele parou, abaixou-se e tocou uma delas com a ponta do dedo. Seu rosto tornou-se muito pálido. As manchas eram de sangue... Nesse momento, ouviu alguém que o chamava. Era a Sra. Hulk:
— A policia quer falar com o senhor lá na sala.
Wilfred desceu as escadas mecanicamente, as ideias baralhando-lhe na cabeça. Na sala, encontrou o Inspetor sentado à mesa. O médico estava em pé, junto à janela.
— Muito bem, Sr. Hope. Gostaria de trocar algumas palavras com o senhor.
— Às suas ordens, embora me pareça que não poderei acrescentar muita coisa ao que o senhor já sabe.
— Tivemos um relato completo feito pela Sra. Ellis mas há um ou dois pequenos detalhes que o senhor talvez nos possa esclarecer.
— É claro que terei a máxima satisfação se lhe puder ser útil.
— Obrigado. Esta caixa, por exemplo — disse o Inspetor, colocando-a um tanto teatralmente em cima da mesa. — O senhor a reconhece, pois não?
— Evidente que a reconheço. É minha.
— Um estojo de instrumentos cirúrgicos?
— Sim.
— O senhor o trouxe para cá quando?
— Ontem, se não me engano. Devo tê-lo esquecida
— Entendo. Estava completo? Não faltava nenhuma peça?
Wilfred ficou olhando para ele, sem entender.
— É claro que estava completo. É praticamente novo.
— Não faltava nada, mesmo? Tem certeza?
— Absoluta.
— Pois há alguma peça faltando — disse o Inspetor, abrindo o estojo. — Um dos bisturis não está no lugar, Sr. Hope.
Estarrecido, Wilfred sentiu o olhar do Inspetor fixado nele. O que significava aquele olhar severo? Suspeita?
Uma desagradável sensação de mal-estar apossou-se dele.