O Cadáver Atrás do Biombo

Agatha Christie e outros · Capítulo 16 de 20

Páginas do PDF

O Cadáver Atrás do Biombo

Capítulo VIII

 

A TRISTE VERDADE A RESPEITO DE POTTS

E. C. Bentley

Por algum tempo, depois de ouvir a estranha história de Beryl a respeito do segundo grampo e de seu comprador, tão sintomaticamente chamado Dedham ou Deadman, Oliver refletiu sobre o assunto. A ideia de que Redman pudesse estar de algum modo envolvido em um ou nos dois crimes era totalmente nova. Mas seria digna de exame? A semelhança do nome, segundo se lembrava a dona da loja, constituía um detalhe impressionante, muito mais que a descrição que ela fizera do comprador afinava com a de Redman. Oliver, entretanto, reconhecia que tal descrição servia igualmente para milhares de outros homens, que não têm uma característica que chame atenção. Quanto ao ridículo nome de Deadman, seria o de Redman o que ela queria se lembrar? Por que não Steadman — um sobrenome muito mais comum — ou Denman, ou ainda Denham?

Por outro lado, havia aquela velha rixa entre Redman r o jovem Johnson. No caso de um sujeito esquisito e reservado como era Redman, quem poderia imaginar do que ele seria capaz? E, como Oliver bem sabia, era verdadeira a história que ele contara à polícia, quanto a seus movimentos depois de haver deixado o Morning Star, na noite do crime da Estação Vitória.

A conclusão de Oliver foi que ele não deveria seguir a pista relativa a Redman, se é que se tratava mesmo de uma pista. Os dois homens mantinham relações cordiais e eram colegas em um conjunto que atribui a maior importância à lealdade de seus membros. Ademais, Oliver não era pago pelo Star para verificar atitudes suspeitas de quaisquer outros funcionários do jornal. Se isso tivesse de ser feito, era encargo da polícia.

Um trabalho bem mais substancial, na opinião de Oliver, era o que dizia respeito a Arthur Potts. Beryl e a Srta. Timmins, em suas conversas, renovavam suas suspeitas relativamente ao camaroteiro. Oliver, por sua vez, nunca descartara completamente Potts da relação dos possíveis culpados. Todavia, o homem contara uma história tão verídica a respeito de si mesmo e de seus movimentos, que parecia melhor seguir outras linhas de investigação. Agora, porém, Potts voltara à cena. Surgia a hipótese de que o homem visto por Oliver no bangalô e que dissera chamar-se Arthur Potts, irmão da vítima, tinha apenas assumido a identidade do verdadeiro Potts. Se aquele homem o conhecia com intimidade, estando a par dos detalhes do emprego de camaroteiro, bem que poderia fazer-se passar por ele. A farsa acabaria, naturalmente, se Oliver o tivesse seguido até Southampton, na noite do encontro deles, e verificado qual o verdadeiro Potts que entrava de serviço no navio para o Havre.

E se o suposto Potts estivesse simplesmente fugindo de uma situação embaraçosa? Se ele fosse, de fato, o misterioso Tracey?

Ou, ainda, se Potts fosse mesmo Potts e verdadeira a sua história, apenas com uma exceção: ao invés de ser o irmão da vítima, ele fosse o marido? A opinião de Oliver quanto à inteligência da Srta. Timmins não era muito lisonjeira, mas ele se sentia na obrigação de reconhecer que aquele palpite dela estava longe de ser absurdo. Potts se casa com Geraldine, embora, por motivos desconhecidos, somente fique em casa durante curtos intervalos; Potts descobre que é traído; Potts aparece no bangalô para acusar a mulher e a encontra pronta para receber Fisher, o usurpador dos direitos conjugais; Potts, louco de raiva, Geraldine apanhada em flagrante; Potts transformado em assassino; Potts retornando a Brighton no dia do inquérito, dominado pelo receio de haver deixado algum indício de sua presença no bangalô e disposto a correr o risco de entrar no local do crime e destruir aquele indício. Oliver tinha de reconhecer que tudo se encaixava perfeitamente.

Mas quem era, então, o misterioso sujeito que Beryl surpreendeu no Restaurante Holborn, seguindo Oliver? Quem era o homem assustado que disse chamar-se Potts? O que fazer de todas estas pistas?

Evidentemente, segundo Oliver, a primeira coisa seria procurar o verdadeiro Potts em Southampton e verificar o elo inicial da corrente. Se esse Potts fosse um homem que Oliver nunca vira, então não haveria dúvida de que o repórter deixara o assassino escapar, o que seria altamente humilhante e não esclareceria nada. Se, porém, o verdadeiro Potts fosse o homem do bangalô, então seria necessário um meticuloso trabalho de investigação da história e dos movimentos daquele empregado da Southern Railway Company.

De manhã, depois da visita à Scotland Yard e à Butique Evanalda, Oliver foi discutir com Hemingway os novos aspectos do caso. Encontrou-o em seu gabinete, disposto a expor seus próprios pontos de vista.

— Repare só — disse ele. — Com o que nós e a polícia descobrimos a respeito de Fisher e da compra do grampo, há cada vez menos dúvida de que ele é o criminoso. Mas Fisher não pode escapar; eles o têm fisgado. E essa hipótese de Potts ser o marido é um prato bom demais para não ser aproveitado. Se o fato for verdadeiro, teremos uma bela história. Naturalmente, Fisher continuará como o suspeito mais provável, mesmo que se encontre um caminhão de maridos andando por aí. Vá em frente, Oliver.

Em Southampton, naquela tarde, Oliver começou suas investigações no escritório da companhia, perto do cais. Fazendo-se passar por um passageiro para o Havre, ele verificou que o serviço era principalmente noturno; que a hora de partida dos navios, como informara o sujeito que dizia ser Potts, era às 11:15 da noite, com a chegada prevista para as 6:20 da manhã seguinte, iniciando-se o retorno em Southampton nessa mesma noite às 11:30 e chegando às 6:30 do outro dia. Assim, um camaroteiro passaria alternadamente os dias em Southampton e no Havre, com tempo de sobra para descansar, divertir-se ou tratar de interesses particulares. No caso pouco provável de um empregado da companhia trabalhar mais de oito horas, sobraria muito tempo para ele, segundo o raciocínio maldoso de Oliver, se meter em encrencas no restante das 24 horas, isso sem contar o dia de folga semanal, qualquer que fosse. Como membro do sindicato, Potts estaria com seus horários bem registrados.

A residência de Potts — que tanto o homem do bangalô como a companhia tinham fornecido a Oliver — se localizava em uma rua muito estreita e era cercada de casas na maior parte de aspecto decente, perto do cais.

Cortinas claras, janelas bem pintadas, gaiola com canários pendurada na varanda e um vaso com flores contribuíam para a impressão de limpeza e respeitabilidade. Oliver se apresentou como um velho amigo de Potts, demonstrando ansiedade por encontrá-lo e carregando no sotaque de Yorkshire. Não se surpreendeu quando foi informado de que Potts estava naquele dia no Havre e somente voltaria para o café da manhã seguinte. A senhora que abriu a porta para Oliver era uma velhinha simpática, das que não desprezam uma boa conversa. O Sr. Potts, tinha certeza, ficaria muito contente em revê-lo, muito mais que raramente recebia visitas. Não, o Sr. Potts não se casara, durante aqueles anos, desde que Oliver o vira pela última vez. A impressão era que ele se sentia satisfeito com a vida que levava.

Não houve a menor dificuldade para Oliver prolongar a conversa, sabendo então que a velhinha cuidava da casa já havia 18 meses, como empregada de Potts. Partindo desse detalhe, Oliver ficou à vontade para elogiar o aspecto da casa, com especial referência aos canários. Foi o bastante para que, sem pedir, Oliver fosse convidado para entrar, a fim de ver melhor a varanda e os recentes melhoramentos na mobília e na decoração. Quando Oliver comentou que Potts parecia ser um homem em boa situação econômica, ela informou logo que seu patrão recebera uma herança, não fazia ainda um ano. Fora ele mesmo quem lhe dissera, acrescentando que poderia deixar de trabalhar e viver de rendas.

O que parecia bem claro a Oliver era que Potts desfrutava, sem qualquer mistério, de um padrão de vida acima dos recursos de um camaroteiro. O repórter notou, particularmente, um aparelho de rádio que, segundo lhe pareceu, devia ter custado muito mais do que a empregada, que pensando em impressionar o visitante, disse que Potts havia pago; também não escapou ao olho observador do repórter um pequeno cofre no fundo da sala.

Oliver sugeriu que talvez a melhor ocasião para uma visita a Potts fosse em seu dia de folga, pois assim eles poderiam programar uma noitada juntos. A informação foi que o dia de folga do Sr. Potts era aos sábados, mas que, após a sesta, ele geralmente arrumava a maleta e ia visitar alguém, regressando apenas no dia seguinte. O Sr. Potts queria conhecer um pouco o mundo, conforme confessara à empregada, e passar a noite em um hotel, para variar. E por que não podia se dar a essas extravagâncias?

Quando Oliver chegou ao fim de uma visita que lhe rendeu muito mais informações do que esperava, a empregada se prontificou a transmitir ao Sr. Potts o nome do amável visitante, que disse chamar-se Sam Beasley e que voltaria à hora do chá no dia seguinte.

Oliver dispunha agora de abundante material para conjeturas. Mais do que nunca era preciso ficar de olho no misterioso Potts e provar se ele era ou não o homem do bangalô. Um Potts relativamente humilde, irmão da mulher assassinada, era uma coisa; mas um Potts com bons recursos financeiros, que normalmente passava fora de casa as noites de sábado... Qual o verdadeiro?

Oliver remoia essas ideias, um tanto excitado, enquanto bebia um drinque no bar de um hotel perto do cais. O lugar era bem frequentado e de repente o repórter deu com os olhos em uma pessoa que lhe pareceu conhecida. Menos de meia hora antes, ao despedir-se da empregada de Potts na porta da casa, ele inconscientemente notou um homem que passava na calçada. Era baixo, moreno, usando um pequeno bigode e tendo um ar mais de soldado do que de marinheiro. O homenzinho, percebendo que Oliver o observava, cumprimentou amavelmente e veio com seu drinque para a mesa onde estava o repórter.

— Vi que o senhor estava de visita na casa de Arthur Potts — disse o visitante, sem mais preâmbulos. — É amigo seu, sem dúvida?

Oliver olhou para ele com a fisionomia carregada.

— Não sei — respondeu, após um momento de silêncio. — O que o senhor tem com isso? A não ser que...

Sua memória funcionou, confirmando a suspeita sobre a identidade do estranho personagem.

O cartão que seu interlocutor lhe apresentava trazia o nome do Inspetor C. F. S. Oates e, no canto esquerdo, a inscrição: “Ministério do Interior. Cairo.”

Oliver olhou para seu visitante, espantado.

— Cairo? — conseguiu balbuciar.

— Capital do Reino Independente do Egito — explicou o homenzinho, com um sorriso amável. — Mas não se importe com isso agora. Não creio que o senhor seja um amigo de Potts; está-se vendo que é uma pessoa respeitável. Mas se o senhor estivesse apenas fazendo uma visita de amigo, por que aquele sotaque de Yorkshire... muito bem imitado, diga-se de passagem... para enganar a velhinha?

— Eu estava falando com sotaque de Yorkshire simplesmente porque nasci lá.

— Eu também — replicou o Inspetor Oates. — A saúde!

Os dois homens esvaziaram os copos.

— Também resolvi acentuar o sotaque — explicou Oliver — porque, se eu falasse como nós estamos fazendo agora, aquela velhinha jamais se abriria comigo nem acreditaria que eu era amigo íntimo de Arthur Potts. Tais são as dificuldades da democracia nesta nossa terra, Inspetor. Veja o meu caso — acrescentou, apresentando seu próprio cartão.

O outro olhou rapidamente, verificando a profissão do jornalista.

— Realmente, tive a impressão de que o senhor era repórter. Estou a par, naturalmente, do crime de Jumbles, embora tenha chegado recentemente do Egito. O que me admira, porém, é que o senhor dispense tanto interesse ao irmão de Geraldine Potts.

— Ora — contestou Oliver — o senhor não está interessado em falar comigo?

— De fato — replicou o Inspetor — como estou interessado em falar com qualquer pessoa que conheça Arthur Potts. Bem, acho que irei encontrá-lo amanhã de manhã, na hora da chegada do navio.

— Pretendo encontrar-me com Potts — anunciou Oliver.

— É mesmo? Duvido que o consiga — disse o Inspetor friamente. — O senhor talvez o veja, acho eu, se se interessar por uma cena desagradável.

Com isto, o Inspetor terminou o drinque, cumprimentou o repórter com um aceno de cabeça e se retirou bruscamente.

O navio que encostou no cais na manhã seguinte, às 6:30, vinha repleto de passageiros. Misturando-se à pequena multidão que os esperava, Oliver se colocou perto do Inspetor Oates, que se dignou saudá-lo com um breve movimento de cabeça. As escadas foram estendidas e um enxame de carregadores invadiu o barco, enquanto os passageiros iniciavam a lenta procissão desde o cais até os armazéns da Alfândega. Logo depois, Oliver divisou o rosto, marcado pela cicatriz, do homem do bangalô, o verdadeiro Potts, em seu uniforme de camaroteiro, lutando com uma pesada mala e várias sacolas, e acompanhado de um homem alto e magro, com ar de estrangeiro, evidentemente dono da bagagem e cuja opulência era acentuada por um rico sobretudo de astracã. A revista na Alfândega se processou sem novidade e logo após o camaroteiro arrumava a bagagem do homem alto em um compartimento de primeira classe do trem de Londres, estacionado junto ao cais. Oliver percebeu que o Inspetor por um instante sequer deixou de acompanhar os passos dos dois homens, desde o momento em que desceram do navio, e continuava agora a observá-los atentamente, postado na plataforma onde se aglomeravam os que esperavam os passageiros.

O homem alto tomou o seu lugar no trem e deu uma gorjeta que Potts recebeu com evidente prazer. Logo em seguida, o passageiro entregou-lhe também um maço de jornais amassados e uma revista com uma capa colorida, como se lhe perguntasse: “Você se interessa por isso?” Nesse momento, o Inspetor Oates levantou a mão direita acima da cabeça e imediatamente dois homens corpulentos se aproximaram de Potts. Um deles disse qualquer coisa, que fez o camaroteiro empalidecer. O Inspetor, avançando rapidamente, arrancou-lhe das mãos os papéis que o passageiro acabara de entregar e folheou as páginas amarrotadas. Um simples olhar foi o bastante. O Inspetor levantou novamente a mão e mais dois homens avançaram até a porta do compartimento onde se sentara o passageiro. A troca de palavras foi também rápida e ele desceu para a plataforma, pálido e silencioso. Logo após, os dois detidos foram levados para a delegacia do cais, com o Inspetor Oates caminhando atrás.

Uma hora mais tarde, sentado a uma mesa do restaurante do South Western Hotel, o Inspetor Oates não apenas concordou em receber Oliver mas ainda o convidou para o almoço. O policial estava muito bem-humorado e não opôs qualquer dificuldade em relatar, não oficialmente, o golpe daquela manhã.

— Não há ninguém aqui que possa acusar-me de intromissão — disse ele. — Meu chefe no Cairo deseja que seja elogiado esse trabalho dos senhores.

Explicou, então, os malefícios do tráfico de drogas no Egito, com seu meio milhão de viciados; a criação do Departamento de Narcóticos por Russell Pasha e seus esforços no sentido de descobrir as fontes fornecedoras de drogas, solicitando a cooperação dos órgãos policiais de outros países para seguir a pista dos verdadeiros organizadores do comércio, os “cabeças”. O Inspetor fora designado para entrar em contato com a Scotland Yard, onde encontrou, entre outros suspeitos da distribuição no varejo, um cama-roteiro chamado Potts. Com a confissão de um de seus clientes, a polícia dispunha de provas suficientes para condená-lo, mas ficou resolvido adiar-se sua prisão até que o Inspetor Oates, com seus conhecimentos especializados sobre os membros da quadrilha no continente, viesse observá-lo em Southampton, no Havre e nas viagens entre os dois portos.

A sorte coroou seus esforços desde o início. Pela descrição que tinha de Potts, foi fácil identificá-lo naquela manhã; mas o homem alto era um estrangeiro muito seu conhecido sob o nome de Crescenzi, austríaco e figura de destaque no tráfico de drogas, embora nunca tivesse sido apanhado. A prisão de Potts, quando os papéis mudaram de mãos, não envolvia qualquer risco, pois o camaroteiro já estava fichado; entretanto, no momento em que o Inspetor encontrou entre os jornais e a revista uns pacotinhos quadrados e bem fechados — justamente o que ele estava procurando — teve a prova que faltava. Crescenzi fora apanhado também e sua maleta de mão, com fundo falso, entrou como prova para que fosse aberto o inquérito.

Oliver não cabia em si de satisfação. Era uma excelente reportagem, de sua inteira exclusividade.

— Há apenas uma coisa que está me faltando — disse ele para o Inspetor. — Preciso provar que Potts estava nas proximidades de Brighton na noite de sábado, sete, data do crime de Jumbles.

— Esta o senhor não pode carregar em cima dele — declarou o Inspetor com convicção. — Potts refazia seus estoques duas vezes por semana em Londres, encontrando seus clientes em lugares combinados por telefone. Depois, ele tomava o 7:30 de volta para Southampton ou, se fosse sábado, dormia em um hotel na cidade. Na noite a que o senhor se refere, Potts, em companhia de uma garota, foi ao Radiant Palace, ver o filme Let’s All Get Divorced.