O Cadáver Atrás do Biombo
Capítulo I
O CADÁVER ATRÁS DO BIOMBO
CAPÍTULO I
Hugh Walpole
O ódio era o sentimento que dominava o espírito do jovem Wilfred Hope, enquanto caminhava apressadamente pela Estrada Sunflower, em uma noite fria e tempestuosa Odiar não era uma emoção que afinasse com seu caráter. Na verdade, até um ano atrás ele fora um jovem estudante inteligente, despreocupado e feliz, trabalhando como interno em um dos maiores hospitais de Londres, com excelentes perspectivas de uma bela carreira; seus únicos pensamentos eram dedicados ao trabalho e à noiva, a quem amava mais do que a esse trabalho e mesmo à própria vida. Sempre se considerara feliz e alegre, mas agora, apressando o passo, tudo lhe parecia sinistro e hostil. Durante muitos meses passara as noites, após o jantar, na confortável e acolhedora casa dos Ellis, a família de sua noiva, Amy Ellis. Ao dirigir-se para lá, pensava — a despeito de seu nervosismo, sua perturbação e até mesmo certo terror, pois conhecia exatamente o que lhe ia na alma — como as coisas se haviam alterado ultimamente, tudo devido, como ele bem sabia, a uma única pessoa. Era essa pessoa que agora dominava seus pensamentos.
Quase exatamente um ano antes, os Ellis haviam admitido, como uma espécie de pensionista, um senhor chamado Paul Dudden. Era um homem de seus 45 anos, corpulento, introvertido, monossilábico, que tinha um emprego qualquer no centro. Ele oferecera aos Ellis — que não dispunham de grandes rendas — uma tentadora mensalidade para ser seu hóspede, o que foi prazerosamente aceito. Recebido de braços abertos, Dudden, que a princípio parecia uma pessoa pacata, passou a exercer uma singular influência sobre a família de seus hospedeiros: a gorda e bondosa Sra. Ellis, com seu sorriso alegre e sua maneira franca de dizer as coisas; o idoso Sr. Ellis, muito mais velho que a mulher e sem voz ativa na casa; o jovem Robert, com uns 20 anos de idade, não muito atraente, com seu ar indolente, sua palidez e total falta de vocação para o trabalho, representando uma fonte de preocupação para seus pais; e, como quarto membro da família, a própria Amy que, para os olhos apaixonados de Wilfred, era a mais linda garota de toda a Inglaterra; na verdade, mesmo descontando a parcialidade natural do noivo, ela era uma moça de extraordinário encanto. Assim era a família Ellis, mas, pouco tempo depois da inclusão de Dudden em sua intimidade, começou a operar-se uma misteriosa alteração. O velho Ellis, que sempre fora um homenzinho nervoso e tímido, parecia ter redobrado sua timidez e nervosismo. A própria Amy dava a impressão de haver perdido parte de sua beleza. O jovem Robert se tornara mais mal-humorado e silencioso do que nunca. Somente a alegre Sra. Ellis parecia não ter sofrido qualquer alteração. Quanto a Wilfred, quem poderia descrever as mágoas de seu coração? Enquanto caminhava, a chuva miúda batendo-lhe no rosto, o vento agitando as árvores das margens da estrada, a tempestade que se avizinhava — tudo parecia retratar os negros sentimentos que lhe afligiam a alma. Ele, que em toda a sua vida jamais odiara alguém, agora desejava que todos os males do mundo se abatessem sobre aquele homem que, não satisfeito em perturbar a paz e a felicidade da família que Wilfred mais estimava no mundo, também passara a mostrar-se ultimamente como exercendo uma estranha influência sobre a própria Amy, a ponto de Wilfred temer que ela chegasse a desmanchar o noivado com ele. Assim, quem caminhava apressadamente não era mais do que uma criatura infeliz.
Wilfred chegou ao portão, abriu-o, entrou no pequeno jardim e tocou a campainha. Durante uns instantes, teve uma estranha sensação de que deveria desistir. Alguma coisa lhe dizia que seria melhor ir embora. Ultimamente, tivera essa mesma sensação inúmeras vezes e suas visitas à noite não tinham o mesmo encanto de outrora. Mas, não, seu orgulho o impedia de recuar. Tocou novamente a campainha e esperou. A porta foi aberta quase imediatamente por alguém muito familiar — a Sra. Hulk, antiga e fiel empregada da família havia vários anos. Wilfred normalmente ficava durante uns minutos conversando com ela mas, naquela noite, dominado por sua agitação e nervosismo, apenas a cumprimentou com um ligeiro aceno de cabeça e entrou apressadamente no pequeno saguão. Sua preocupação era tamanha que nem notou que, após tê-lo deixado entrar, a Sra. Hulk, ao invés de fechar a porta, saiu de casa, enfrentando a chuva e o vento, atravessou o jardim e ficou parada junto ao portão, olhando ansiosamente a estrada, para um lado e para o outro. Esse era realmente um estranho procedimento da parte dela, por se tratar de uma pessoa tranquila e ponderada; naquela noite, porém, seu largo rosto redondo estava enrugado de ansiedade, enquanto vigiava. Estaria esperando alguém? Teria suspeitado de que alguém estivesse escondido atrás daquelas árvores escuras e agitadas pelo vento? Ou quem sabe esperava um sinal, um aviso? De qualquer modo, lá estava ela, na chuva e no vento, tão absorta no cumprimento de sua missão que mais tarde não conseguiu lembrar-se do que acontecera perto dela. Entrementes, Wilfred pendurou o chapéu, tirou o sobretudo e bateu na porta da sala, entrando, sem esperar resposta, no ambiente que lhe era tão familiar.
A sala de visitas dos Ellis era do tipo antigo, usada por eles durante muitos anos, mas agora terrivelmente atravancada com numerosas mesinhas cheias de fotografias e bugigangas; em cima da lareira, exóticos bibelôs chineses, cãezinhos com focinhos azuis, mandarins e suas mulheres, grandes vasos com perpétuas agrupados uns em cima dos outros. Ocultando quase toda a parede do fundo, havia um enorme e antigo biombo japonês, agora tão familiar para Wilfred como suas próprias roupas — um biombo bordado com figuras negras e douradas, tendo junto dele um grande vaso de folhagens. A Sra. Ellis estava sentada perto do fogo, lendo uma novela em voz alta, como gostava de fazer. No sofá em frente, Amy, recebendo Wilfred com um sorriso. Ao lado dela, agitando-se inconfortavelmente em sua cadeira, estava Robert e, atrás de uma pequena mesa, não muito afastado, o velho Ellis movia as cartas, jogando sua paciência favorita, como sempre fazia depois do jantar.
Wilfred sentou-se no lado oposto ao do biombo e perto da Sra. Ellis, que continuava em sua leitura:
“— Oh, Robert! — exclamou Lucy”.
“— És minha, afinal — respondeu ele, correndo através da sala e ajoelhando-se aos pés de sua amada”.
— E então? — perguntou a Sra. Ellis, interrompendo a leitura. — Isto não é uma beleza?
Amy concordou com um aceno de cabeça, para ser amável com a mãe. Wilfred na verdade nem ouviu a pergunta, pois, desde o momento em que entrara na sala e se sentara, ficara dominado por uma intranquilidade inteiramente nova para ele. Seria apenas uma falsa impressão ou havia de fato alguma coisa estranha na sala? Por mais que dissesse a si mesmo que tudo não passava de uma tolice, a desagradável impressão se acentuava cada vez mais. Lá estavam os objetos de costume, as mesinhas, as fotos, os bibelôs chineses, o biombo, tudo em seus lugares, o fogo crepitando, a família que ele conhecia tão bem. Entretanto, crescia em seu espírito a impressão de que em algum lugar, atrás do biombo, talvez mesmo atrás dele — e esta era a pior impressão — havia mais uma pessoa na sala, com os olhos fixos nele, observando todos os seus movimentos.
A sensação de desconforto era cada vez maior. A voz da Sra. Ellis parecia vibrar em um tom estranho, diferente. Não conseguia entender as palavras dela. Olhava para Amy, para tranquilizar-se, mas então, estranhamente, embora a amasse tanto, receava que ela o encarasse e visse o temor nos olhos dele. Esse receio de revelar-se acentuava ainda mais sua ansiedade. Fixou o olhar, então, no jovem Robert, magro, alto, vestindo uma roupa que não lhe assentava bem e remexendo-se inquieto em sua cadeira, para frente e para trás. Foi então que Wilfred de repente notou que os punhos da camisa branca apareciam por fora das mangas do casaco do jovem, cada vez que ele se inclinava para trás. Esse movimento chamou a atenção de Wilfred que, olhando mais detidamente, notou que havia nos punhos umas marcas estranhas. Seria alguma sujeira, talvez tinta? Não. Era outra coisa. Wilfred tentou olhar mais de perto mas começou a sentir-se mal — possivelmente devido ao calor da sala — e então se deu conta de que o jovem Robert percebera seus olhares e puxara as mangas do casaco, chegando mesmo a colocar a mão sobre elas, para escondê-las melhor. Que manchas seriam aquelas? Havia alguma coisa que Robert queria ocultar? Mas Wilfred teve de rir de suas fantasias. O que poderia ser mais sossegado, mais tranquilo do que aquela sala, com pessoas amigas e tudo normal, o tique-taque monótono do relógio marcando o escoar dos minutos? Sua agitação, porém, não diminuía. Passou a ficar desesperadamente inquieto. Arrastou a cadeira mais para perto do Sr. Ellis, absorvido em suas cartas. Ficou observando a paciência durante uns momentos, tentando esquecer a própria irritação, até que, de repente, se deu conta de um fato estranho. O velho Ellis — tão tímido e pacato, que jamais fez qualquer coisa errada na vida, sempre dominado por sua encantadora e alegre mulher — o velho Ellis não estava jogando paciência, embora mexesse com as cartas. Colocava-as uma em cima das outras, mas em completa desordem, não observando qualquer regra quanto a naipes ou valores das cartas; limitava-se a arrumá-las em pilhas, distraidamente. O que estaria acontecendo? Qual a preocupação que lhe dominava o pensamento? Por que não estava jogando? Wilfred tentou descobrir no velho algum indicio de mal-estar, porém o rosto dele estava abaixado. Enquanto observava, Wilfred — agora convencido de que havia alguém mais na sala — teve vontade de explodir, interrompendo a leitura com uma pergunta: “Dudden não virá esta noite?”, embora soubesse que a simples menção do nome daquele homenzarrão de aspecto sinistro deixava toda a família Ellis perturbada, como se necessitasse proteger-se contra algum inimigo. Tão consciente estava Wilfred de que, qualquer que fosse sua pergunta, o nome de Dudden não deveria ser pronunciado, mas desejando com indisfarçável ansiedade voltar-se para Amy e reclamar: “O que foi que este homem andou dizendo para você hoje, querida?” — sabendo que isso teria para a família o efeito de uma explosão, ele conseguiu conter-se, permanecendo sentado, imóvel e, apesar de seus esforços, convencido de que estava esperando que acontecesse alguma coisa.
Se pudesse, queria chegar mais perto de Robert, com uma estranha sensação de que o rapaz estava desesperadamente aflito; embora não gostasse muito dele e não houvesse entre ambos nada em comum, ainda assim Wilfred sentia que talvez pudesse ter alguma explicação daquele visível sofrimento. Arrastou mais uma vez a cadeira e se deu conta de que ficara agora muito perto da alegre Sra. Ellis. Parecia-lhe que toda a sala mudara de posição. Seus pensamentos se tornaram tão absurdos que cada peça do mobiliário — mesmo os pequenos bibelôs chineses, as fotografias, o álbum da família — parecia-lhe desempenhar algum papel, como tendo a consciência da presença de alguém mais na sala. Sua vontade era de levantar-se, apanhar um daqueles enfeites de porcelana e pedir que lhe revelassem qual o segredo que eles escondiam.
Percebeu que chegara às raias do absurdo. Reagiu, lembrando-se de que era um aplicado estudante de medicina, que já presenciara na vida muitas coisas estranhas, mas reais, tendo experiência bastante para saber controlar-se. Assim, fiado em que não revelaria suas emoções, arrastou novamente a cadeira, até que, subitamente, ficou na situação de ver a parte da sala que ficava oculta pelo biombo. Fixando o olhar, distinguiu algo que o apavorou. Agora, realmente, havia um motivo. Apertou com força os braços da cadeira. Toda a sala oscilou como o tombadilho de um navio em meio a uma tempestade e pareceu-lhe ouvir os pequenos bibelôs e as mesinhas e o álbum suspirarem aliviados. É que, atrás do biombo, estirado no chão, como se estivesse dormindo, o rosto macilento voltado para Wilfred, o enorme corpanzil torcido em uma estranha posição, como se alguém tivesse quebrado suas costelas, em diferentes partes — lá estava Dudden, indiscutivelmente, horrivelmente morto. Do lugar onde se encontrava, Wilfred podia ver, horrorizado, que da gola do casaco, junto ao pescoço, corria um fio de sangue, manchando o tapete e vertendo em ininterrupta sequência. Percebeu, com redobrado terror, que o fio de sangue não demoraria a aparecer no outro lado do biombo. Em breve, todos na sala iriam notá-lo. O pavor que o dominava se estenderia aos demais. Fez um esforço para não gritar. O sangue continuava escorrendo, espalhando-se, como se fosse inundar toda a sala. A Sra. Ellis, com um suspiro de satisfação ante a beleza do trecho que estava lendo, mais uma vez deixou o livro repousar sobre os joelhos e olhou sorrindo para seus ouvintes. Foi então que viu o risco de sangue no chão e soltou um grito estridente:
— Olhem! É sangue!