O Cadáver Atrás do Biombo
Capítulo V
E. C. Bentley
O Inspetor Rice não escondia sua satisfação, ao desdobrar o lenço e fazer sinal a Benson para que pusesse a arma cuidadosamente sobre o pano, para preservar possíveis impressões digitais. Assim, carregando na mão direita o bisturi manchado de sangue, ele retornou à sala de estar.
— O senhor vai precisar de mim? — perguntou o Sargento Hall, que acompanhara atentamente, com seus perpicazes olhos azuis, todo aquele ritual.
— É claro que sim — replicou o Inspetor. — As coisas estão começando a acontecer muito rapidamente, Sargento. Quanto a você — acrescentou, dirigindo-se ao envaidecido Benson — fique de vigia aí na porta.
Levando a arma ostensivamente exposta, o Inspetor entrou na sala, seguido por seu auxiliar, e dirigiu-se à mesa sobre a qual se encontrava, aberto, o estojo de instrumentos de Wilfred. A encenação satisfez o Inspetor. A Sra. Ellis deu um grito e cobriu o rosto com as mãos; seu filho, com um soluço abafado, levantou-se da cadeira; depois voltou a sentar-se, tremendo incontrolavelmente.
— É realmente o bisturi que faltava — observou o Inspetor, comparando-o com os do estojo. Depois, encaminhou-se com o Sargento até a janela, onde, com as costas voltadas para a mãe e o filho, iniciou uma conversa em tom baixo.
— Você trouxe sua aparelhagem de colher impressões digitais? — perguntou.
— Está na sala de jantar — respondeu o Sargento.
— Ótimo. Como você já tem as impressões do pessoal da casa, leve a arma e me comunique tão logo tenha concluído os testes de identificação.
O Sargento recebeu o bisturi com as devidas precauções.
— Uma ou duas boas impressões estão bem visíveis — murmurou. — Feitas com dedos sujos de sangue, posso garantir. — Levantou a arma contra a luz e acrescentou: — Existem várias outras. Será muito fácil a identificação.
Ao ouvir um leve ruído atrás de si, o Inspetor Rice fez meia-volta.
— Fique onde está, meu rapaz, e não chegue perto desses bisturis — ordenou energicamente, no momento em que o desnorteado Robert, já com a mão na maçaneta da porta, se voltava tropegamente na direção do estojo. Ao sentar-se novamente, sua mãe foi até junto dele e colocou-lhe a mão no ombro.
— O senhor não tem direito de falar assim com meu filho — protestou com voz enérgica — Ele nada fez de errado.
— Está-se vendo pela cara dele — replicou o Inspetor rispidamente. — Está tudo bem, Sargento, pode ir. E quanto à senhora — acrescentou, dirigindo-se à Sra. Ellis — quer ter a bondade de repetir a surpreendente confissão que me fez poucos minutos atrás?
— Eu disse que fui eu quem o matou — respondeu ela, apertando as mãos trêmulas. — Matei-a. E não vou acrescentar mais uma palavra. Pode prender-me.
O Inspetor coçou o queixo. Aquilo estava-se tornando fácil demais. Teria sido mesmo ela? Como confissão, suas palavras eram muito suspeitas. O Inspetor já sabia — admitindo que o depoimento de Hulk fosse verdadeiro — que a velha senhora, para salvar o filho, seria capaz de atitudes desesperadas. Em um caso assim, pensou o Inspetor, um pouco de astúcia não faria mal.
— Está bem, senhora — tentou ele, em tom suave — mas poderia ao menos dizer-me...
A Sra. Ellis sacudiu a cabeça obstinadamente.
— Nem mais uma palavra. O senhor não conseguirá iludir-me.
O Inspetor Rice esboçou um sorriso. Ali estava uma pessoa pedindo para ser levada ao cadafalso e com receio de ser descoberta. Tal simplicidade, pensou ele, era bem rara.
— Mas, senhora — insistiu ele — é muito difícil acreditar em sua confissão.
— Eu o matei — repetiu ela monotonamente.
— A senhora quer realmente que eu acredite — e o Inspetor apontou-lhe um dedo acusador — que atacou o homem, com quem, durante anos, manteve cordiais relações de amizade? Que agarrou um bisturi e o enterrou no coração dele?
— Sim, senhor — replicou ela secamente. — E não vou dizer mais nada.
O Inspetor sacudiu a cabeça.
— A senhora não precisa mesmo dizer mais nada — respondeu ele calmamente. — Já me deu todas as informações necessárias. E agora — acrescentou, voltando-se para Robert Ellis — que tal essa história de não ter feito nada de errado? Você concorda com o que sua mãe declarou? Não fez mesmo?
Pela primeira vez, desde que enfrentara o Inspetor, o jovem Robert conseguiu controlar-se. Apresentava-se agora pálido, mas calmo.
— Você não passa de um sujo — disse com raiva. — Sabe muito bem que o culpado sou eu. De qualquer maneira, não pense que vou deixar minha mãe tomar o meu lugar, mesmo que você acreditasse nela. Estou liquidado. Matei Dudden. Nunca tive a intenção de fazer isso, mas fiz.
A Sra. Ellis agarrou o braço do Inspetor.
— Não é verdade — balbuciou. — O senhor não pode acreditar nele. Está apenas querendo proteger-me. Já confessei que a culpada sou eu...
— Não adianta, mamãe — interrompeu Robert com voz cansada. — Sou um fraco, bem sei, mas há coisas que não sou capaz de fazer. Vou contar tudo. Já tomei minha decisão e me sinto agora mais aliviada Todos nós tinha-mos nossas razões para odiar Dudden. Sabíamos que andava pressionando Amy para que se casasse com ele, embora houvesse o noivado com Wilfred Hope. Na mesma noite em que tudo aconteceu, papai iria dizer-lhe que fosse embora, mas Dudden lhe havia emprestado dinheiro e estava explorando essa situação. Quanto a mim, parece que o senhor já descobriu o que foi que fiz.
O Inspetor Rice abriu o caderno de notas.
— Se você deseja fazer uma confissão, estou pronto a taquigrafar suas declarações e fazer uma cópia para você ler e assinar.
Foi uma história sórdida a que o jovem contou, enquanto sua mãe soluçava desconsoladamente junto dele. Havia algum tempo que adquirira o vicio do jogo e perdido muito mais do que poderia pagar; estava sendo pressionado fortemente pelos credores e não tinha dúvidas de que perderia o emprego se os fatos fossem divulgados. Sabia que Dudden guardava um talão de cheques na gaveta da mesa de seu quarto e resolveu apelar para a falsificação. Roubou um cheque e imitou a assinatura de Dudden, mas o banco detectou imediatamente a fraude; o pagamento foi recusado e o cheque retido.
Quando Dudden recebeu do banco o cheque falsificado, concluiu logo quem fora o autor da falsificação. Robert planejara, no caso de o plano ser descoberto, negar tudo, fiado no constrangimento de Dudden em denunciar o irmão da moça com quem pretendia casar-se. Todavia, não demorou em descobrir que o homem era capaz de torpezas ainda maiores. Dudden o acusou do crime e passou a maltratá-lo, até que o fraco Robert ficou totalmente dominado. Dudden então estabeleceu suas exigências. Não mais se falaria sobre a falsificação do cheque, se Robert lhe entregasse uma confissão escrita e usasse sua influência junto a Amy, para que ela aceitasse a sua proposta de casamento. Mas como poderia Robert influenciar sua irmã em assunto tão delicado? Dudden, ao ouvir a pergunta, riu cinicamente e disse que o problema era de Robert e que o rapaz deveria descobrir logo um jeito de persuadir a irmã. Dudden se comprometia a devolver, no dia de seu casamento com Amy, o cheque falsificado e a confissão de Robert; no caso de Amy não aceitar sua proposta dentro de 15 dias, os dois documentos seriam entregues à policia.
Robert, encurralado e sem saber o que fazer, acabou aceitando a exigência. Entretanto, percebendo — como Dudden já o havia feito — que Amy somente concordaria se fosse posta a par de toda a triste história, resolveu contar-lhe tudo. O que aconteceu a seguir era fácil de prever-se. Amy, reiterada e desesperadamente, implorou que Dudden tivesse piedade para com ela e o irmão mas todos os apelos foram inúteis. O prazo para sua decisão foi fixado em determinada data — a da noite do crime. Robert não sabia o que Amy pretendia dizer ou fazer, pois a moça se recusara intransigentemente a revelar sua decisão.
No jantar daquela noite, quando Dudden se levantou da mesa, dizendo que tinha de sair, Robert, já meio transtornado, também se levantou e seguiu atrás dele. Assim, viu quando Dudden abriu e fechou a porta da frente, encaminhando-se para a sala de estar. O rapaz imaginou que Amy não tardaria em vir encontrar-se com Dudden, antes que os pais dela deixassem a mesa. Robert, mal sabendo o que fazia, retirou um bisturi do estojo de Wilfred, que estava sobre a mesinha do saguão; em seu perturbado raciocínio, predominava uma vaga ideia de ameaçar Dudden, quando seguiu atrás de seu torturador, entrando também na sala então vazia.
O que Robert contou a seguir fez com que o Inspetor levantasse os olhos do caderno, onde estenografava o depoimento, e encarasse o jovem com redobrado interesse. Dudden, ao ver-se ameaçado e injuriado com palavras violentas, reagiu de maneira muito estranha. Ao invés de recorrer ao seu tom agressivo habitual, manteve-se em silêncio, apoiado em uma cadeira, com os olhos semicerrados, aparentemente não prestando a menor atenção às palavras de Robert e mesmo à sua presença. Robert, interpretando essa atitude como mais uma prova de desprezo por parte de Dudden, perdeu completamente o controle e avançou contra ele, desfechando-lhe um golpe contra a garganta. Nesse exato momento, porém, Dudden cambaleou e o bisturi apenas produziu-lhe um corte no pescoço. Robert percebeu que o ferimento não fora profundo mas provocara muito sangue, manchando-lhe as mãos. Dudden saíra, a princípio sobre os joelhos, depois se estendera no chão, no lugar onde o corpo fora posteriormente encontrado.
— Um momento — interrompeu o Inspetor. — Houve muito sangue, não foi? Por acaso você sabia (tenho boas razões para fazer esta pergunta) se o Sr. Dudden era um homem que sangrava facilmente?
Robert olhou para ele, tomado de surpresa.
— Não sei. Acho que... Não, não sei.
— Está bem. Não faz mal. Pode continuar.
Robert, apavorado com o que fizera, saiu correndo da sala e se dirigiu para o banheiro, para lavar as mãos sujas de sangue, em uma desesperada tentativa de ocultar o crime. Descobriu então, para agravar seus temores, que havia manchas também nos punhos da camisa. Sem tempo para trocá-la, ele voltou para a sala e tomou o seu lugar na mesa, até que os pais e a irmã também chegassem.
Foi nesta altura do depoimento de Robert que o Inspetor novamente o interrompeu:
— Então você colocou o biombo na frente do corpo, antes que os outros entrassem na sala?
— Nem sequer toquei nele — replicou o rapaz, sacudindo a cabeça. — O biombo sempre esteve naquele lugar. Dudden se encontrava atrás dele, apoiado no encosto da cadeira, quando o ataquei. Havia bastante espaço entre o biombo e a janela.
— Vamos ver bem como estava — disse o Inspetor.
Retirou o biombo do lugar para onde fora transferido, encostado à parede, e, com o auxílio de Robert, recolocou-o na posição em que se encontrava no momento do crime. O Inspetor Rice tinha suas razões para essa reconstrução da cena; sua atenção fora despertada por uma curiosa discrepância no depoimento de Robert. A experiência profissional de Rice dizia-lhe que o que ele estava ouvindo era a verdade, porém...
— Você contou tudo o que aconteceu quando o homem foi morto? Será bem melhor se não tentar esconder alguma coisa.
Robert protestou que nada omitira. Não fazia qualquer objeção em mostrar exatamente como tudo acontecera. Com o Inspetor colocando-se no lugar ocupado pela vitima, Robert demonstrou precisamente como e onde aplicara o golpe. Era evidente para o Inspetor Rice que havia alguma coisa muito estranha no quadro tal como agora se apresentava; e estranha em mais de um aspecto.
Apesar disso, o criminoso confesso estava dizendo o que fizera, exatamente de acordo com a realidade. Rice não tinha dúvidas a esse respeito. O comportamento do jovem não era fingido; de um vil covarde ele se transformara em um homem — não um tipo muito admirável, mas pelo menos em um homem com aquela espécie de força moral que resulta de haver confessado tudo e assumido a responsabilidade de seu ato. O Inspetor já presenciara esse fenômeno um número suficiente de vezes para reconhecê-lo infalivelmente. O jovem não estava representando; mesmo que o tentasse, Robert Ellis decididamente não serviria como ator.
Mas, não sendo possível aceitar a versão de Robert como a verdadeira a respeito dos intricados e sinistros fatos já conhecidos, que rumo seguir, em busca da solução?
O Inspetor disse para si mesmo, em tom de censura, que havia uma hipótese bastante possível, que ele até então negligenciara. Não podia haver dúvida de que Robert estava dizendo a verdade. Mas qual seria toda a verdade? Se qualquer outra pessoa tivesse tido participação no crime, inevitavelmente Robert Ellis deveria saber. Era esse ponto que o Inspetor queria esclarecer. Da maneira como se apresentavam os fatos, ele estava longe, muito longe mesmo, de ter o caso liquidado. Decidiu, então, lançar uma isca.
— Quer dizer que o seu depoimento representa a verdadeira história do assassinato de Paul Dudden? Que tudo o que ouvi é precisamente o que aconteceu?
Robert demonstrou uma leve hesitação para responder.
— Sim — disse finalmente. — Foi bem como relatei.
— Tem certeza?
Ante a pressão, o frágil autocontrole do jovem desmoronou.
— Sim... é claro... Não havia mais ninguém.
— Mas eu não insinuei que houvesse mais alguém — retrucou o Inspetor.
Seguiu-se uma pausa. Robert não tirava os olhos de seu interrogador, evidentemente resolvido a nada mais dizer. Afinal, o Inspetor Rice rompeu o silêncio, apelando para o tom mais persuasivo de sua voz:
— Você deve compreender que, além de seu depoimento, disponho de vários outros que me forneceram pistas valiosas, as quais tendem a incriminar outros membros da família.
Como Robert permanecesse em silêncio, o Inspetor acrescentou lentamente:
— Vamos lá. Acho que compreendo sua atitude e não nego que até a respeito. Entretanto, se ela estava...
— Tudo o que lhe disse é a pura verdade — replicou Robert impetuosamente. — Repito que, quando ataquei Dudden, ela... ninguém mais estava na sala.
Era o suficiente para o Inspetor Rice. Abrindo a porta, fez um sinal para o policial que se mantivera em seu posto.
— Diga à Srta. Ellis que desejo vê-la e que é importante não perdermos mais tempo.
A Sra. Ellis, que continuava chorando baixinho no fundo da sala, ouviu a ordem com sinais de renovada agitação.
— Amy não pode ser envolvida nisto. Não há nada contra ela. Oh, meu Deus! Já não basta que queiram tirar um deles de mim?
Seus lamentos cessaram subitamente quando a filha apareceu, com inesperada rapidez, acompanhada pelo policial. Era evidente que ela conseguira controlar as emoções que, segundo sua mãe, a tinham prostrado completamente. Estava pálida e desfigurada. Ao entrar, sem sequer tomar conhecimento da presença do Inspetor, dirigiu um olhar interrogativo para o irmão.
— Está tudo acabado — disse Robert, em resposta à pergunta muda. — Contei tudo para ele.
A moça se voltou para o Inspetor.
— Isso é impossível — falou ela em tom enérgico. — Ele não pode ter contado tudo pela boa razão de que não conhece todos os fatos. Mas se ele falou a respeito da atitude de Dudden em relação a mim, como imagino que deve ter falado... e de qualquer modo o senhor viria a saber, então tenho algo a acrescentar.
O Inspetor encarou a moça com um olhar de agradável expectativa, que não tentava disfarçar. Mas antes que pudesse replicar, o Sargento Hall apareceu na porta da sala e, depois de um sinal de assentimento do Inspetor, dirigiu-se com ele para a janela, onde novamente entraram a confabular em voz baixa.
— As impressões dele estavam no bisturi? — perguntou Rice, indicando Robert com um movimento de cabeça.
— Com toda a clareza. Entretanto, há uma coisa estranha em relação às outras, as manchadas de sangue. Estão todas sobrepostas às dele, sempre que aparecem juntas. É evidente o que isso quer dizer.
— Sim, é claro — replicou o Inspetor irritadamente. — Não nasci ontem. E você sabe de quem são essas impressões posteriores?
O Sargento Hall não escondeu um sorriso de satisfação ante o efeito que sua resposta iria produzir.
— São da velha — sussurrou.
— O quê? — Rice estava realmente espantado. — Santo Deus! Então ela vinha mesmo dizendo a verdade o tempo todo!
— Não sei o que ela vinha dizendo ao senhor — comentou o Sargento com evidente satisfação. — Nem sabia que o senhor já a havia interrogado. Mas não há a menor dúvida de que as impressões digitais são da Sra. Hulk.