O Imperador-Deus de Duna
Qual a mais profunda diferença entre nós,…
Qual a mais profunda diferença entre nós, entre você e eu? Vocês já sabem. São estas memórias ancestrais. As minhas atingem-me num completo clarão de consciência. As suas atuam pelo lado cego. Alguns chamam isso de instinto ou destino. Essas memórias aplicam suas alavancas sobre cada um de nós: naquilo que pensamos e naquilo que fazemos. Vocês se julgam imunes a tais influências? Eu sou Galileu. Eu me coloco aqui e lhes digo: “E no entanto ela se move.” E aquilo que se move exerce sua força de maneira que nenhum poder mortal jamais se atreveu a estimar. E eu estou aqui para me atrever a isso.
— Os diários roubados
— Quando era criança, ela m e observava, lem bra-se? Quando pensava que eu estava distraído, Siona m e olhava com o o falcão do deserto voando em círculo acim a do refúgio de sua presa. Você m esm o m encionou isso.
Leto rolou seu corpo quarto de volta em sua carreta, enquanto falava. Isso trouxe seu rosto para m ais perto de Moneo, que cam inhava ao lado do veículo.
Era quase aurora na estrada do deserto, que seguia sobre a elevada cordilheira artificial, estendendo-se da Cidadela no Sareer até a Cidade Festival. Essa estrada do deserto seguia com a retidão de um feixe de laser até atingir o ponto em que se curvava am plam ente, descendo por desfiladeiros em terraços até cruzar o Rio Idaho. O ar estava cheio das névoas espessas do rio, que rolava em seu distante clam or, m as Leto abrira a cobertura-bolha que fechava a frente de sua carreta. A um idade fazia seu corpo de verm e com ichar com um vago desconforto, m as havia nessa névoa o perfum e suave das plantas do deserto, e suas narinas hum anas o saboreavam . Ele ordenou que o cortej o parasse.
— Por que estam os parando, Senhor? — indagou Moneo.
Leto não respondeu. A carreta estalou enquanto ele erguia o corpo num a curva arqueada que levantou sua cabeça, perm itindo-lhe olhar por sobre a Floresta Proibida até o Mar de Ky nes, que cintilava prateado bem para a direita. Voltou-se para a esquerda e lá estavam os restos da Muralha Escudo, um a som bra baixa e sinuosa à luz da m anhã. A cordilheira aqui fora erguida m ais de 2 m il m etros para envolver o Sareer e lim itar a um idade do ar. Do seu ponto de vista, Leto podia enxergar até o distante desfiladeiro onde ele fizera erguer a sua Cidade Festival de Onn.
— É um capricho que m e faz parar aqui — ele disse.
— Não deveríam os cruzar a ponte antes de repousarm os? perguntou Moneo.
— Não estou repousando.
Leto olhou adiante. Depois de um a série de trechos de descida em serpentina, visíveis dali apenas com o som bras sinuosas, a estrada elevada atravessava o rio num a ponte etérea, subia um a crista protetora e então descia para a cidade que, dessa distância, oferecia um a visão de agulhas cintilantes.
— O Duncan age de m odo contido — com entou Leto. — Você teve aquela sua longa conversa com ele?
— Precisam ente com o era necessário, m eu Senhor.
— Bem , faz apenas quatro dias. Eles geralm ente levam m ais que isso para se recuperarem .
— Ele tem andado ocupado com a sua Guarda, Senhor. Eles se ausentaram até m uito tarde na noite passada.
— Os Duncans não apreciam a cam inhada neste espaço aberto. Pensam em coisas que poderiam ser usadas para nos atacar.
— Eu sei, Senhor.
Leto virou-se e olhou diretam ente para Moneo. O m aj ordom o usava um a capa verde sobre o uniform e branco. Estava de pé ao lado da cobertura em form a de bolha aberta, exatam ente no lugar no qual suas funções exigiriam que ficasse durante essas excursões.
— Você é m uito esforçado, Moneo — disse Leto.
— Obrigado, Senhor.
Guardas e cortesãos m antinham um a distância respeitosa, bem atrás da carreta. A m aioria tentava evitar até m esm o a aparência de estar escutando o que Leto e Moneo diziam . Não Idaho. Ele posicionara algum as das Oradoras Peixes em am bos os lados da Estrada Real, espalhando sua guarda. Agora perm anecia olhando para a carreta. Usava um uniform e negro com bordados brancos, presente das Oradoras Peixes, com o Moneo dissera.
— Elas gostam m uito desse aí. Ele é bom no que faz.
— E o que ele faz, Moneo?
— Com o assim ? Guarda a sua pessoa, Senhor.
As m ulheres da Guarda usavam uniform es verdes colantes, todos com o falcão verm elho dos Atreides sobre o seio esquerdo.
Elas o vigiam m uito de perto — com entou Leto.
— Sim , ele está ensinando a elas os sinais com as m ãos. Diz que é o m odo dos Atreides.
— Isso certam ente é correto. Eu m e pergunto por que o anterior não fez o m esm o.
— O Senhor não sabe?...
— Estou brincando, Moneo. O Duncan anterior não se sentiu am eaçado até que fosse m uito tarde. Esse aí aceitou nossas explicações?
— Assim m e disseram , Senhor. Ele com eçou bem no seu serviço.
— Por que ele carrega apenas aquela faca na bainha do cinturão?
— As m ulheres o convenceram de que apenas as especialm ente treinadas dentre elas devem portar pistolas laser.
— Sua cautela carece de fundam ento, Moneo. Diga às m ulheres que ainda é m uito cedo para com eçarm os a tem er esse ai.
— Com o o m eu Senhor ordena.
Era óbvio para Leto que o seu novo Com andante da Guarda não apreciava a presença dos cortesãos. Perm anecia bem distante deles. A m aioria, tinham lhe inform ado, era de funcionários públicos. Estavam vestidos da m aneira m ais luxuosa e elegante para esse dia em que podiam desfilar com todo o seu poder na presença do Im perador-Deus. Leto notava com o os cortesãos deviam parecer tolos aos olhos de Idaho. Mas podia lem brar-se de outras exibições de luxo ainda m ais tolas e achava que a exibição daquele dia podia representar um a m elhoria.
— Já o apresentou a Siona? — perguntou Leto.
À m enção de Siona, as sobrancelhas de Moneo im obilizaram -se num a contraída expressão de aborrecim ento.
— Acalm e-se — disse Leto. — Mesm o quando ela m e espionava, eu a tratava com carinho.
— Sinto o perigo nela, Senhor. Às vezes tenho a im pressão de que ela percebe m eus pensam entos m ais íntim os.
— A criança sabida conhece o pai.
— Não estou brincando, Senhor.
— Sim , vej o isso. Já notou com o o Duncan está im paciente?
— Elas m andaram batedoras sondar a estrada, quase até a ponte.
— E que foi que encontraram ?
— A m esm a coisa que eu achei... um novo Frem en de Museu.
— Outra solicitação?
— Não fique zangado, Senhor.
Um a vez m ais, Leto perscrutou adiante. Essa necessária exposição a céu aberto, a longa e m aj estosa j ornada com todas as suas exigências rituais para tranqüilizar as Oradoras Peixes, tudo isso o perturbava. E agora outro suplicante!
Idaho avançou para se deter diretam ente na frente de Moneo.
Havia um a aparência de am eaça nos m ovim entos de Idaho. “Decerto que não pode vir tão cedo”, pensou Leto.
— Por que param os aqui, m eu Senhor? — perguntou ele.
— Eu paro aqui com freqüência — respondeu Leto.
Era verdade. Ele se voltou e olhou para além da ponte etérea. O cam inho serpenteava para baixo, saindo das alturas do cany on para a Floresta Proibida e daí através dos cam pos ao lado do rio. Leto freqüentem ente se detinha ali para observar o nascer do sol. Mas havia algo de especial nessa m anhã, no m odo com o o sol ilum inava esse panoram a tão fam iliar... algum a coisa que rem exia em antigas m em órias.
Os cam pos das Plantações Reais estendiam -se para além da floresta, de m odo que, quando o sol se erguia sobre a extensa curva de terra, ele inundava de dourado os cam pos ondulantes de cereais. Esses cam pos lem bravam a Leto a areia, as vastas dunas que um dia haviam m archado por esse m esm o solo.
“E que um dia m archarão um a vez m ais.”
Os cereais não eram exatam ente da cor âm bar brilhante de sílica de seu relem brado deserto. Leto olhou para trás, na direção das distâncias cercadas por penhascos de seu Sareer, seu santuário do passado. As cores eram distintam ente diferentes. Dava tudo no m esm o, e quando ele olhou um a vez m ais para a Cidade Festival, sentiu um a dor onde seus m uitos corações um a vez m ais se encontravam em m utação, reform ando-se em sua lenta transform ação para algum a coisa profundam ente alienígena.
“Que há nesta m anhã que m e faz pensar em m inha hum anidade perdida?”, perguntou-se Leto.
Dentre todos no Cortej o Real olhando para o cenário fam iliar da floresta e dos cam pos de cereais, Leto sabia ser o único ainda capaz de pensar em um a paisagem tão rica quanto o bahr bela m a, o oceano sem água.
— Duncan — disse Leto —, está vendo lá, na direção da cidade? Aquilo era o Tanzerouft.
— A Terra do Terror? — Idaho revelou sua surpresa no rápido olhar que lançou para Onn e na m aneira súbita com o voltou a fitar Leto.
— O bahr bela m a — disse Leto. — Tem estado oculto sob um tapete de plantas por m ais de 3 m il anos. De todos os que vivem em Arrakis hoj e em dia, som ente nós dois vim os o deserto original.
Idaho olhou na direção de Onn.
— Onde está a Muralha Escudo? — perguntou.
— A Fenda do Muad’Dib é bem ali, o lugar exato onde construím os a Cidade.
— Aquela linha de pequenas elevações, aquilo era a Muralha Escudo? Que aconteceu com ela?
— Você está em cim a dela.
Idaho olhou para Leto, depois para a estrada e o que havia à sua volta.
— Senhor? Devem os continuar? — indagou Moneo.
“Moneo, com aquele reloginho tiquetaqueando em seu peito, é o estím ulo ao dever”, pensou Leto. Havia visitantes im portantes para ver e outros assuntos vitais. O tem po o pressionava. E ele não gostava quando seu Im perador-Deus falava com os Duncans sobre os velhos tem pos.
Leto tornou-se subitam ente consciente de que se detivera naquele lugar por m ais tem po do que j am ais o fizera. Os cortesãos e as guardas estavam gelados depois da cam inhada no ar da m anhã. Alguns tinham escolhido suas roupas m ais para se exibirem do que para se protegerem .
“Mas afinal”, Leto pensou, “talvez a exibição sej a um a form a de proteção”.
— Havia dunas — disse Idaho.
— Estendendo-se por m ilhares de quilôm etros — concordou Leto.
Os pensam entos de Moneo se agitaram . Ele estava acostum ado aos períodos de reflexão do Im perador-Deus, m as havia um sentim ento de tristeza nesse dia. Talvez a m orte recente de um Duncan. Leto às vezes deixava escapar inform ações im portantes quando estava triste. Nunca se questionavam os caprichos ou os estados de espírito do Im perador-Deus, m as às vezes eles podiam ser usados.
“Siona terá de ser advertida”, pensou Moneo. “Se aquela j ovem tola m e ouvir!”
Ela estava m ais rebelde do que j á estivera. Muito m ais. Leto havia dom inado o seu Moneo, sensibilizado sua m ente para o Cam inho Dourado e os deveres legítim os para os quais ele fora criado. Mas os m étodos usados com relação a Moneo não funcionariam com Siona. Em sua observação a respeito disso, Moneo aprendera coisas sobre seu treinam ento que ele nunca antes suspeitara.
— Não vej o qualquer acidente geográfico identificável — estava dizendo Idaho.
— Bem ali — disse Leto, apontando. — Onde a floresta term ina. Aquele era o cam inho para a Rocha Partida.
Moneo procurou não ouvir as vozes. “Foi o fascínio básico pelo Im perador-Deus que finalm ente m e dom inou.” Leto nunca deixava de surpreender e assom brar. Ele não era realm ente previsível. Moneo olhou para o perfil do Im perador-Deus. “No que ele se tornou?”
Com o parte de seus deveres iniciais, Moneo havia estudado os registros particulares da Cidadela, os relatos históricos da transform ação de Leto. Mas a sim biose com a truta da areia perm anecia um m istério que nem m esm o as próprias palavras de Leto poderiam decifrar. Se os registros eram confiáveis, a pele de truta da areia tornava seu corpo quase invulnerável ao tem po ou à violência. O núcleo do grande corpo frisado poderia m esm o absorver disparos de arm as laser!
“Prim eiro a truta da areia, depois o verm e — tudo parte do grande ciclo que produzira a m elange.” E esse ciclo encontrava-se dentro do Im perador-Deus... m arcando a passagem do tem po.
— Vam os prosseguir — disse Leto.
Moneo percebeu que perdera algum a coisa. Saiu de seu devaneio e olhou para um sorridente Duncan Idaho.
— Costum ávam os cham ar isso de sonhar acordado — disse Leto.
— Sinto m uito, Senhor — disse Moneo. — Eu estava...
— Você estava sonhando acordado, m as está tudo bem .
“O estado de espírito dele m elhorou”, pensou Moneo. “Devo agradecer ao Duncan por isso. Creio.”
Leto aj ustou sua posição na carreta, fechou parte da cobertura-bolha de m odo a deixar apenas a cabeça livre. A carreta esm agou pequenas rochas no leito da estrada enquanto Leto a ativava.
Idaho tom ou posição j unto a Moneo, cam inhando ao lado dele.
— Existem bulbos flutuadores sob a carreta, m as ele usa as rodas. Por quê? — perguntou Idaho.
— Agrada a Lorde Leto o uso de rodas em lugar da antigravidade.
— Que faz essa coisa funcionar? Com o ele a dirige?
— Já perguntou a ele?
— Ainda não tive a oportunidade.
— A Carreta Real é de m anufatura Ixiana.
— E que isso significa?
— Dizem que Lorde Leto ativa sua carreta e a controla unicam ente pensando de determ inado m odo.
— Você não sabe?
— Esse tipo de perguntas não lhe agrada.
“Mesm o para aqueles que partilham de sua intim idade”, pensou Moneo, “o Im perador-Deus perm anece um m istério.”
— Moneo! — cham ou Leto.
— É m elhor você voltar para as suas guardas — disse Moneo, gesticulando para que Idaho fosse para a retaguarda.
— Eu preferiria ficar na frente com elas — retrucou Idaho.
— Lorde Leto não quer isso! Agora volte.
Moneo correu para se colocar j unto de Leto, ao lado da face do Im perador, notando que Idaho recuava através dos cortesãos até o círculo de guardas da retaguarda.
Leto olhou para Moneo.
— Acho que cuidou daquilo m uito bem , Moneo.
— Obrigado, Senhor.
— Você sabe por que os Duncans querem ficar na frente?
— Certam ente, Senhor. É onde a sua Guarda deveria ficar.
— E esse aí sente o perigo.
— Eu não o com preendo, Senhor. Não entendo por que faz essas coisas.
— Isso é verdade, Moneo.
O senso feminino de participação originou-se do modo familiar de compartilhar a vida em comum — o cuidado para com os jovens, a obtenção e o preparo do alimento, o partilhar das alegrias, do amor e das tristezas. As lamentações funerais originaram-se com as mulheres. A relegai-o tornou-se um monopólio feminino, que só foi arrancado das mãos das mulheres quando seu poder social se tornou muito importante. As mulheres foram as primeiras pesquisadoras e praticantes da medicina. Nunca houve qualquer equilíbrio claro entre os sexos porque o poder acompanha certas atividades, assim como o conhecimento.
— Os diários roubados
Para a Reverenda Madre Tertius Eileen Anteac, essa fora um a m anhã desastrosa. Ela havia chegado a Arrakis j unto com sua com panheira Reveladora da Verdade Marcus Claire Luy sey al, am bas descendo com sua com itiva oficial m enos de três horas atras, na prim eira lançadeira do heighliner da Corporação, flutuando em órbita estacionária. Prim eiro haviam recebido quartos nos confins m ais rem otos do Quarteirão das Em baixadas, na Cidade Festival. E os quartos eram pequenos e não m uito lim pos.
— Um pouco m enos do que isso e nós estaríam os acam pando nas favelas — dissera Luy sey al.
E para com pletar lhes tinham sido negados instrum entos de com unicação. Todas as telas perm aneciam apagadas, não im portando quantos interruptores fossem acionados ou quantos controles de palm a fossem girados.
Furiosa, Anteac se dirigira à corpulenta oficial com andante da escolta de Oradoras Peixes, um a m ulher irada com a testa baixa e os m úsculos de um trabalhador braçal.
— Desej o queixar-m e à sua Com andante!
— Não serão perm itidas queixas na época do Festival — retrucara a am azona.
Anteac dirigira um olhar furioso à oficial, um olhar que, em seu rosto velho e cheio de vincos, costum ava fazer hesitar até m esm o as suas com panheiras Reverendas Madres.
A am azona m eram ente sorrira, dizendo:
— Eu tenho um a m ensagem . Devo dizer-lhe que sua audiência com o Im perador-Deus foi transferida para a últim a posição.
A m aior parte da com itiva Bene Gesserit tinha ouvido isso, e m esm o as que ocupavam os postos inferiores reconheceram o significado. Todas as quotas de especiaria seriam m antidas ou (Que Deus nos protej a!) canceladas dessa vez.
— Nós estávam os em terceiro lugar — disse Anteac, a voz extraordinariam ente branda para aquelas circunstâncias.
— É um a ordem do Im perador-Deus!
Anteac reconheceu o tom de voz da Oradora Peixe. Desafiá-lo seria arriscar-se a sofrer violências.
“Um a m anhã de desastres e agora isto!”
Anteac ocupava um banco baixo, encostado à parede de um quarto m inúsculo, quase vazio, perto do centro de seus inadequados aloj am entos. Ao lado havia um catre baixo, não m elhor do que seria destinado a um a acólita! As paredes eram de um verde pálido, rugoso, e só havia um velho globo lum inoso, tão defeituoso que só podia ser aj ustado no am arelo. A sala dava m ostras de ter sido um a câm ara de arm azenagem . Tinha cheiro de m ofo. Arranhões e denteados m arcavam o plástico negro do piso.
Alisando o m anto aba negro sobre os j oelhos, Anteac inclinou-se para a m ensageira-postulante, que se aj oelhava, a cabeça curvada diretam ente em frente da Reverenda Madre. A m ensageira era um a criatura loura de olhos de corça, com a transpiração do m edo e da excitação no pescoço e no rosto. Usava um m anto cor de bronze, em poeirado com a suj eira das ruas ao longo da bainha.
— Você está certa, absolutam ente certa? — Anteac falava com suavidade, tentando acalm ar a pobre m oça, que ainda trem ia com a gravidade de sua m ensagem .
— Sim , Reverenda Madre. — A garota continuava olhando para o chão.
— Repita um a vez m ais — disse Anteac, e pensou: “Estou ganhando tem po. Eu a ouvi corretam ente.”
A m ensageira ergueu o olhar para Anteac, olhando direto em seus olhos totalm ente azuis, com o todas as acólitas e postulantes eram ensinadas a fazer.
— Com o m e foi ordenado, fiz contato com os Ixianos em sua Em baixada e apresentei suas saudações. Então perguntei se eles tinham algum a m ensagem para que eu trouxesse.
— Sim , sim , garota! Vá ao âm ago da questão.
A m ensageira engoliu em seco.
— O porta-voz identificou-se com o Othwi Yake, superior tem porário na Em baixada e assistente do antigo em baixador.
— Você está certa de que não era um Dançarino Facial substituto?
— Nenhum dos sinais estava lá, Reverenda Madre.
— Muito bem , nós conhecem os esse Yake. Pode continuar.
— Yake disse que eles estavam esperando a chegada da nova...
— Hwi Noree, a nova Em baixadora. Sim , ela é esperada hoj e.
A m ensageira um edeceu os lábios com a língua.
Anteac fez um a anotação m ental para m andar de volta essa pobre criatura a um program a de treinam ento m ais elem entar. As m ensageiras deviam ter m elhor autocontrole, em bora algum desconto devesse ser dado quanto à seriedade dessa m ensagem .
— Ele então m e pediu que esperasse — disse a m ensageira.
— Saiu da sala e voltou pouco depois com um Tleilaxu, um Dançarino Facial. Tenho certeza disso. Havia certos indícios de.
— Tenho certeza de que está certa, m enina — disse Anteac.
— Agora vá direto ao...
Anteac se interrom peu com a chegada de Luy sey al.
— Que história é essa que ouvi quanto a m ensagens dos Ixianos e dos Tleilaxu? — ela perguntou.
— Esta garota está repetindo agora m esm o — disse Anteac.
— Por que não fui cham ada?
Anteac olhou para sua com panheira Reveladora da Verdade, pensando que Luy sey al poderia ser um a das m elhores praticantes da arte, m as perm anecia extrem am ente consciente do seu posto, Luy sey al era j ovem , entretanto, com as sensuais feições ovais do tipo Jessica, e esses genes costum avam carregar um a natureza obstinada.
Anteac disse suavem ente:
— Sua acólita disse que estava m editando.
Luy sey al assentiu com a cabeça, sentou-se no catre e disse à m ensageira:
— Continue.
— O Dançarino Facial disse que tinha um a m ensagem para as Reverendas Madres. E usou o plural — disse a m ensageira.
— Ele sabia que haveria duas de nós desta vez — observou Anteac.
— Todo o m undo sabe disso — disse Luy sey al.
Anteac retornou sua plena atenção para a m ensageira.
— Você entraria em transe-m em ória agora, m enina, e nos daria as palavras exatas do Dançarino Facial?
A m ensageira assentiu, agachou-se nos calcanhares e colocou am bas as m ãos sobre o colo. Respirou fundo três vezes, fechou os olhos e arriou os om bros. Quando ela falou, sua voz tinha um tom nasal agudo.
— Diga às Reverendas Madres que ao cair desta noite o Im pério estará livre de seu Im perador-Deus. Nós atacarem os hoj e, antes que ele alcance Onn. Não falharem os.
Um a inspiração profunda fez trem er a m ensageira. Seus olhos se abriram e ela olhou para Anteac.
— O Ixiano, Yake, disse para que eu corresse com esta m ensagem . Depois tocou as costas da m inha m ão esquerda daquele m odo particular, convencendo-m e ainda m ais de que ele não era...
— Yake é um dos nossos — disse Anteac. — Diga a Luy sey al sobre a m ensagem dos dedos.
A m ensageira olhou para Luy sey al.
— Nós fom os invadidos por Dançarm os Faciais e não podem os nos m over.
Quando Luy sey al se sobressaltou e com eçou a se levantar. Anteac disse:
— Já tom ei as m edidas necessárias para guardar nossas portas. — Anteac olhou em seguida para a m ensageira. — Você pode ir agora, garota. Desem penhou sua tarefa de m aneira adequada.
— Sim , Reverenda Madre.
A m ensageira ergueu seu corpo flexível com certa graça, m as não havia dúvida em seus m ovim entos de que ela conhecia a im portância das palavras de Anteac. Adequado não era bem -feito.
Depois que a m ensageira saiu, Luy sey al disse:
— Ela devia ter conseguido algum a desculpa para estudar a Em baixada e descobrir quantos Ixianos foram substituídos.
— Acho que não — discordou Anteac. — A esse respeito, ela agiu bem . Não, m as teria sido m elhor se ela tivesse encontrado um m odo de conseguir um relatório m ais detalhado de Yake. Tem o que o tenham os perdido.
— A razão pela qual os Tleilaxu nos enviaram a m ensagem é óbvia — disse Luy sey al.
— Eles vão realm ente atacá-lo — disse Anteac.
— Naturalm ente. E o que os tolos vão fazer. Mas eu m e pergunto por que eles nos enviaram essa m ensagem .
Anteac assentiu.
— Eles acham que não tem os escolha agora senão nos j untarm os a eles.
— E se tentarm os advertir Lorde Leto, os Tleilaxu descobrirão nossas m ensageiras e seus contatos.
— E se os Tleilaxu tiverem sucesso? — perguntou Anteac.
— Pouco provável.
— Não conhecem os seu verdadeiro plano, apenas a hora, m ais ou m enos.
— E essa garota, Siona, tem parte nisso? — perguntou Luy sey al.
— Fiz a m esm a pergunta a m im m esm a. Já ouviram o relatório com pleto da Corporação?
— Som ente o resum o. Não é o bastante?
— Sim , com elevada probabilidade.
— Você deve ser cuidadosa com term os com o elevada probabilidade — advertiu Luy sey al. — Não querem os ninguém pensando que é um Mentat.
O tom de Anteac foi ríspido.
— Presum o que não vai m e revelar.
— Acha que a Corporação está certa a respeito dessa Siona? — indagou Luy sey al.
— Não tenho inform ação suficiente. Se eles estão certos, ela é algo de extraordinário.
— Com o o pai de Lorde Leto era extraordinário?
— Um navegador da Corporação podia ocultar-se do olhar oracular do pai de Lorde Leto.
— Mas não de Lorde Leto.
— Li com cuidado o relatório com pleto da Corporação. Ela não apenas oculta a si m esm a e as ações em torno dela, m as tam bém ...
— Ela se apaga. Ela se apaga da visão deles.
— Ela apenas — disse Anteac.
— E da visão de Lorde Leto tam bém ?
— Eles não sabem .
— Nós nos atreveríam os a fazer contato com ela?
— Não nos atreveríam os? — perguntou Anteac.
— Isso tudo pode ser discutível se os Tleilaxu... Anteac, devem os ao m enos fazer um a tentativa de avisá-lo.
— Não tem os equipam ento de com unicação e agora há guardas Oradoras Peixes na porta. Elas deixam nosso pessoal entrar, m as não deixam sair.
— Devem os falar com um a delas?
— Já pensei nisso. Sem pre podem os alegar que tem íam os que fossem substitutos Dançarm os Faciais.
— Guardas na porta — m urm urou Luy sey al. — Será possível que ele saiba?
— Tudo é possível.
— Sobre Lorde Leto, essa é a única coisa que você pode dizer com certeza? — com entou Luy sey al.
Anteac perm itiu-se um leve suspiro enquanto se levantava do banco.
— Com o sinto saudade dos velhos tem pos, quando tínham os toda a especiaria de que j am ais pudéssem os precisar.
— Jam ais era apenas outra ilusão — respondeu Luy sey al. — Espero que tenham os aprendido bem esta lição, não im porta de que m aneira os Tleilaxu se saiam hoj e.
— Qualquer que sej a o resultado, eles o farão de m odo grosseiro — resm ungou Anteac. — Deuses! Não se encontram m ais bons assassinos em parte algum a.
— Há sem pre os gholas Idahos — disse Luy sey al.
— Que você disse? — Anteac olhou para a com panheira.
— Existem sem pre os.
— Sim !
— Os gholas são m uito lentos de corpo — com entou Luy sey al.
— Mas não de m ente.
— Em que está pensando?
— É possível que os Tleilaxu... não, nem m esm o eles poderiam ser tão.
— Um Dançarino Facial Idaho? — sussurrou Luy sey al.
Anteac assentiu m udam ente.
— Tire isso de sua cabeça — disse Luy sey al. — Eles não poderiam ser tão estúpidos.
— Esse é um j ulgam ento perigoso de se fazer quanto aos Tleilaxu — disse Anteac. — Devem os preparar-nos para o pior. Traga aqui um a daquelas guardas Oradoras Peixes!