O Imperador-Deus de Duna
— Duncan Idaho se coloca ao m…
— Duncan Idaho se coloca ao m eu lado hoj e — disse Leto. — Duncan está aqui para declarar sua lealdade de m odo que todos possam ouvi-la. Duncan?
Idaho sentiu um frio físico disparar por seus intestinos. Leto lhe dava um a escolha sim ples: “Declare sua lealdade ao Im perador-Deus ou então m orra!”
“Se eu assum ir um a cara am arrada, vacilar ou fizer algum tipo de obj eção, essas m ulheres vão m e m atar com as próprias m ãos.
Um a raiva profunda tom ou conta dele. Engoliu em seco, pigarreou e então disse: — Que ninguém questione a m inha lealdade. Eu sou leal aos Atreides.
Ouviu sua própria voz trovej ar através da câm ara, am plificada pelo engenho Ixiano de Leto.
O efeito espantou Idaho.
— Nós com partilham os! — as m ulheres gritaram . — Nós com partilham os! Nós com partilham os!
— Nós com partilham os — disse Leto.
Jovens recrutas Oradoras Peixes, identificáveis pelos curtos m antos verdes, enxam earam para dentro do salão, surgindo de todos os lados. Pequenos rolos de m ovim ento que rodopiavam através do desenho form ado pelos rostos em adoração. Cada recruta trazia um a bandej a com pequenos biscoitos m arrons em pilhados. Enquanto as bandej as passavam através da m ultidão, as m ãos se estendiam em ondas de m ovim ento gracioso, pegando os biscoitos num a ondulante dança de braços. Cada m ão apanhava apenas um biscoito, segurando-o no alto. Quando um a carregadora de bandej a se aproxim ou da plataform a e ergueu sua carga em direção a Idaho, Leto disse:
— Tire dois e m e passe um .
Idaho aj oelhou-se e pegou dois biscoitos. As coisas eram frágeis, quebradiças. Levantou-se e passou um para Leto.
Num a voz estentórea, Leto perguntou:
— A nova Guarda foi escolhida?
— Sim , Senhor! — as m ulheres gritaram .
— Vocês m antêm a m inha Fé?
— Sim , Senhor!
— Vocês percorrem o Cam inho Dourado?
— Sim , Senhor!
A vibração dos gritos das m ulheres lançava ondas de choque através de Idaho, atordoando-o.
— Nós com partilham os? — perguntou Leto.
— Sim , Senhor!
Enquanto as m ulheres respondiam , Leto colocou seu biscoito na boca. Abaixo da plataform a, cada m ãe deu um a m ordida em seu biscoito e ofereceu o resto ao filho. A m assa de Oradoras Peixes atrás das m ulheres de branco abaixou os braços e com eu seus biscoitos.
— Duncan, com a o seu biscoito — disse Leto.
Idaho colocou a coisa na boca. Seu corpo de ghola não fora condicionado à especiaria, m as a m em ória falou aos seus sentidos. O biscoito tinha um gosto ligeiram ente am argo, com um suave toque de m elange. O gosto trouxe antigas m em órias a consciência de Idaho — refeições num sietch, banquetes na Residência dos Atreides... o m odo com o os sabores de especiaria perm eavam tudo naqueles velhos tem pos.
Enquanto engolia o biscoito, Idaho tornava-se consciente da quietude no salão, um silêncio de respirações presas quebrado por um alto dique da carreta de Leto. Idaho virou-se e procurou a fonte do som . Leto tinha aberto um com partim ento na parte de cim a da carreta e estava retirando um a caixa de cristal dela. A caixa brilhava com um a lum inosidade cinza-azulada em seu interior. Leto colocou a caixa sobre a carreta, abriu a tam pa lum inosa e retirou um a faca cristalina. Idaho reconheceu a lâm ina im ediatam ente — o falcão gravado no cabo, as j óias verdes na beirada.
“A faca cristalina de Paul Muad’Dib!”
Idaho sentiu um a em oção profunda ante a visão dessa faca. Olhou para ela com o se a im agem em seus olhos pudesse reproduzir o dono original.
Leto ergueu a lâm ina e a segurou no alto, revelando sua curva elegante e um a iridescência leitosa.
— O talism ã de nossas vidas — disse Leto.
As m ulheres perm aneceram num silêncio arrebatado, atentas.
— A faca do Muad’Dib — disse Leto. — O dente do Shai-Hulud. Irá o Shai-Hulud retornar outra vez?
A resposta foi um m urm úrio contido, feito m ais poderoso pelo contraste com os gritos anteriores.
— Sim , Senhor.
Idaho voltou sua atenção para os rostos extasiados das Oradoras Peixes.
— E quem é o Shai-Hulud? — perguntou Leto.
Novam ente o m urm úrio profundo:
— O Senhor.
Idaho assentiu para si m esm o. Ali se encontrava a evidência inquestionável de que Leto liberara um m onstruoso reservatório de poder, nunca antes produzido desse m esm o m odo. Leto dissera isso, m as as palavras eram um ruído sem sentido com paradas ao que se via e sentia nesse grande salão. E as palavras de Leto retornaram à m ente de Idaho, com o se estivessem esperando por esse m om ento para se revestirem de seu verdadeiro significado. Idaho relem brou o que vira na cripta, aquele lugar som brio e úm ido que Leto parecia achar tão atraente e que ele próprio achava repugnante — a poeira dos séculos que havia lá, os odores de antiga decom posição.
— Eu estive form ando esta sociedade hum ana, m oldando-a por m ais de 3 m il anos, abrindo um a porta que levasse toda a espécie para fora da adolescência — dissera Leto.
— Nada do que diz explica um exército fem inino! — protestara Idaho.
— O estupro é um a coisa estranha à m entalidade das m ulheres, Duncan. Você m e pergunta por um a diferença de com portam ento com base sexual? Aí está um a.
— Pare de m udar de assunto!
— Não estou m udando. O estupro é sem pre um pagam ento para a conquista m ilitar m asculina. Os hom ens não precisam abandonar nenhum a de suas fantasias adolescentes enquanto se entregam ao estupro.
Idaho lem brou-se do ódio que tom ara conta dele ante essa provocação.
— Minhas huris dom esticam os hom ens — disse Leto. E essa dom esticação é um a coisa que as m ulheres conhecem a partir de eras de necessidade.
Idaho olhara sem palavras para o rosto encapuzado de Leto.
— Dom esticar — dissera Leto. — Encaixar em algum padrão ordeiro de sobrevivência. As m ulheres aprenderam isso nas m ãos dos hom ens; agora os hom ens aprendem nas m ãos das m ulheres.
— Mas acabou de dizer..
— Minhas huris freqüentem ente se subm etem a um a form a de estupro, a princípio, m as apenas para converter isso num a profunda e unificadora dependência m útua.
— Maldição! Esta...
— Unindo, Duncan! Unindo.
— Eu não m e sinto ligado a...
— A educação leva tem po. Você é a norm a antiga em relação à qual a nova pode ser j ulgada.
As palavras de Leto m om entaneam ente esgotaram Idaho de todas as em oções, exceto um profundo sentim ento de perda.
— Minhas huris ensinam a m aturação. Elas sabem que devem supervisionar a m aturação dos hom ens. E através disso encontram sua própria m aturação. No final, as huris transform am -se em esposas e m ães, e nós afastam os os im pulsos violentos de suas fixações adolescentes.
— Eu terei de ver para crer!
— Você vai ver durante o Grande Partilhar.
E enquanto perm anecia ao lado de Leto, no salão do Siay noq, Idaho adm itia a si m esm o ter presenciado algum a coisa de enorm e poder, algum a coisa que poderia criar a espécie de universo hum ano que as palavras de Leto proj etavam .
Leto recolocara na caixa a faca cristalina, depositando a caixa em seu com partim ento sobre a Carreta Real. As m ulheres observavam em silêncio, até m esm o as crianças pequenas — todas dom inadas pela força que se podia sentir nesse salão.
Idaho olhou para as crianças, sabendo, a partir das explicações de Leto, que elas seriam recom pensadas com posições de poder
— hom em ou m ulher, cada qual num nicho poderoso. As crianças do sexo m asculino seriam dom inadas por fêm eas durante toda a vida, fazendo (nas palavras de Leto) “um a fácil transição da adolescência para a m asculinidade reprodutora”.
As Oradoras Peixes e sua prole viviam existências “dom inadas por um a certa excitação que não é disponível aos outros
“Que irá acontecer aos filhos de Irti?”, perguntou-se Idaho. “Será que m eu antecessor ficou aqui e observou sua esposa vestida de branco partilhar o ritual de Leto?
“E o que Leto m e oferece aqui?”
Com esse exército fem inino, um com andante am bicioso poderia assum ir o controle do Im pério de Leto. Ou não poderia? Não... não enquanto Leto vivesse. Leto dizia que as m ulheres não eram m ilitarm ente agressivas “por natureza”.
Ele dizia:
— Eu não estim ulo isso nelas. Elas conhecem um padrão cíclico, com um Festival Real a cada 10 anos, um a m udança da Guarda, um a bênção para a nova geração e um pensam ento silencioso para as irm ãs tom badas e outros seres am ados perdidos para sem pre. Siay noq após Siay noq m archam para o futuro a um passo previsível. A própria m udança torna-se em um a não-m udança.
Idaho ergueu os olhos das m ulheres de branco e suas crianças. Olhou através da m assa de rostos silenciosos, dizendo para si próprio que esse era apenas um pequeno núcleo da enorm e força fem inina que espalhava sua teia através do Im pério. Ele podia acreditar nas palavras de Leto:
— O poder não se enfraquece. Torna-se m ais forte a cada década.
“Com que finalidade?”, perguntou-se Idaho.
Ele olhou para Leto que estava erguendo as m ãos em bênção sobre o salão de suas huris.
— Nós cam inharem os entre vocês agora — disse Leto. As m ulheres abaixo da plataform a abriram cam inho, pressionando para trás. A abertura aum entou cada vez m ais, com o um a fissura se abrindo sobre a terra depois de um trem endo desastre natural.
— Duncan, você m e precederá.
Idaho engoliu em seco. Colocou a palm a de um a das m ãos sobre a beirada da plataform a e saltou para o espaço aberto, m ovendo-se para dentro daquela fissura por saber que som ente isso poderia dar fim a essa provação.
Um a rápida olhada para trás revelou a carreta de Leto flutuando m aj estosam ente em seus suspensores.
Idaho virou-se e acelerou o passo.
As m ulheres estreitaram o cam inho através de suas fileiras. Era algo feito com um a estranha calm a, com um a atenção fixa — prim eiro em Idaho, depois naquele enorm e corpo pré-verm e, avançando atrás dele na carreta Ixiana.
E enquanto Idaho m archava à frente com estoicism o, as m ulheres estendiam as m ãos de todos os lados para tocá-lo, para tocar em Leto ou m eram ente tocar na Carreta Real. Idaho sentiu a paixão contida desse toque, e conheceu o m edo m ais profundo de sua vida.
O problem a com a liderança é inevitável: quem vai bancar Deus?
— Muad’Dib,
Da História Oral
Hwi Noree seguia um a j ovem Oradora Peixe para baixo ao longo de um a ram pa larga que se espiralava rum o aos subterrâneos de Onn. O cham ado de Lorde Leto viera no final da tarde do terceiro dia do Festival, interrom pendo um acontecim ento que punha à prova sua capacidade de m anter o equilíbrio em ocional.
Seu prim eiro assistente, Othwi Yake, não era um hom em agradável — um a criatura de cabelo louro-palha, com rosto com prido e estreito e olhos que j am ais olhavam algum a coisa por m uito tem po, que nunca olhavam diretam ente nos olhos de alguém com quem ele falasse. Yake lhe apresentara um a única folha de papel m em oapaga, contendo o que ele descrevia com o “um resum o da violência recentem ente relatada na Cidade Festival”.
De pé j unto à escrivaninha diante da qual ela estava sentada, Yake olhara para algum ponto à esquerda dela e dissera:
— Oradoras Peixes estão m atando Dançarm os Faciais por toda a Cidade. — Ele não parecia particularm ente im pressionado com Isso.
— Por quê? — ela quis saber.
— Dizem que a Bene Tleilaxu fez um atentado contra a vida do Im perador-Deus.
O frio do m edo percorreu o corpo de Noree. Ela apoiou-se no assento e deu um a olhada no escritório da em baixada — um a sala redonda com um a única escrivaninha em form a de m eio círculo, a qual ocultava os controles de m uitos engenhos Ixianos em baixo de sua superfície altam ente polida. A sala era um lugar escuro, de aparência im ponente, com painéis de m adeira m arrom ocultando os instrum entos que a protegiam contra a espionagem . Não havia j anelas.
Tentando não se m ostrar perturbada, Hwi olhou para Yake.
— E Lorde Leto...
— O atentado contra sua vida parece ter sido totalm ente ineficaz. Mas isso pode explicar aquele açoite.
— Então você acha que houve tal atentado?
— Sim .
A Oradora Peixe de Lorde Leto entrara nesse m om ento, anunciando logo sua presença no escritório exterior. Era acom panhada por um a Bene Gesserit, um a velha que ela apresentou com o “a Reverenda Madre Anteac”. Anteac olhara intensam ente para Yake enquanto a Oradora Peixe, um a j ovem com feições quase infantis, passava sua m ensagem .
— Ele m e disse para lem brá-la: “Retorne rapidam ente se eu a cham ar.” Ele a cham a.
Yake com eçou a se m exer inquieto enquanto a Oradora Peixe falava. Sua atenção percorria a sala inteira com o se ele estivesse procurando algum a coisa que não estava lá. Hwi deteve-se apenas para colocar um m anto azul-escuro sobre o vestido, instruindo Yake para que perm anecesse no escritório até ela retornar.
À luz alaranj ada do entardecer fora da em baixada, em um a rua estranham ente vazia de qualquer tráfego, Anteac olhou para a Oradora Peixe e disse sim plesm ente:
— Sim .
Saiu, então, e a Oradora Peixe levou Hwi através de ruas vazias até um prédio alto e sem j anelas, cuj o subsolo guardava a ram pa espiralada.
As curvas apertadas da ram pa deixavam Hwi tonta. Pequenos e brilhantes globos lum inosos brancos flutuavam no poço central, ilum inando um a trepadeira verde-arroxeada com folhas im ensas. A trepadeira pendia de brilhantes fios dourados.
A suave superfície negra da ram pa engolia os sons que seus pés produziam , tornando Hwi extrem am ente consciente dos fracos sons abrasivos causados pelos m ovim entos do seu m anto.
— Aonde está m e levando? — perguntou Hwi.
— A Lorde Leto.
— Eu sei, m as onde ele está?
— Em seus aposentos particulares.
— É m uito lá em baixo?
— Sim , o Senhor sem pre prefere as profundezas.
— Cam inhar dando voltas assim deixa-m e tonta.
— É m elhor não olhar para a trepadeira.
— Que é aquela planta?
— É cham ada de trepadeira Tuny on, e se diz que não produz cheiro algum .
— Nunca ouvi falar dela. De onde ela vem ?
— Som ente Lorde Leto sabe.
Elas çam inharam em silêncio, Hwi tentando com preender seus próprios sentim entos. O Im perador-Deus a enchera de tristeza. Ela podia sentir o hom em que havia nele, o hom em que ele poderia ter sido. Por que esse hom em escolhera tal curso para a sua vida? Será que alguém saberia?
Talvez Duncan Idaho soubesse.
Seus pensam entos gravitaram em torno de Idaho — um hom em m uito atraente fisicam ente. Tão intenso! Podia sentir-se atraída por ele. Se ao m enos Leto tivesse o corpo e a aparência de Idaho... Moneo, porém — esse era outro caso. Olhou para as costas de sua acom panhante Oradora Peixe.
— Pode m e falar a respeito de Moneo? — perguntou Hwi.
A Oradora Peixe olhou para trás, por sobre o om bro, um a estranha expressão em seus pálidos olhos azuis — apreensão ou algum a form a bizarra de adm iração.
— Há algo errado? — perguntou Hwi.
A Oradora Peixe voltou sua atenção para a espiral descendente da ram pa.
— O Senhor disse que iria perguntar a respeito de Moneo.
— Então, fale-m e a respeito dele.
— Que há para dizer? Ele é o confidente m ais íntim o do Senhor.
— Mais ainda do que Duncan Idaho?
— Oh, sim , Moneo é um Atreides.
— Moneo veio a m im ontem — disse Hwi. — Ele falou que eu devia conhecer um a coisa a respeito do Im perador-Deus. Moneo disse que o Im perador-Deus é capaz de fazer qualquer coisa, qualquer coisa se j ulgar que sej a instrutiva.
— Muitos acreditam nisso — disse a Oradora Peixe.
— Mas você não acredita?
Hwi fez a pergunta enquanto a ram pa dava um a volta final e se abria para um a pequena ante-sala, com um a entrada em arco a apenas alguns passos de distância.
— Lorde Leto a receberá im ediatam ente — disse a Oradora Peixe.
Hwi passou pelo arco e se viu num a sala de teto baixo. Era m uito m enor que a câm ara de audiências e o ar parecia seco e quente. Um a pálida luz am arelada vinha de um a fonte oculta nos cantos superiores. Ela fez com que seus olhos se aj ustassem à fraca ilum inação, notando tapetes e alm ofadas espalhadas ao redor de um m onte de... Hwi levou a m ão à boca quando o m onte se m oveu e ela percebeu que era Leto em sua carreta, m as a carreta se encontrava num a área m ais baixa. E ela percebeu im ediatam ente por que a sala tinha esse detalhe. Aquilo o tornava m enos im ponente aos convidados hum anos, m enos dom inador por sua elevação física. Nada podia ser feito, contudo, quanto ao com prim ento e à m assa inescapável do seu corpo, exceto m antê-lo nas som bras, j ogando a m aior parte da luz em seu rosto e suas m ãos.
— Entre e sente-se — disse Leto. Falou com voz baixa e agradável.
Hwi cam inhou até um a alm ofada verm elha, a apenas alguns m etros de distância do rosto de Leto, e se sentou.
Leto observou-lhe os m ovim entos com óbvio prazer. Ela usava um vestido dourado escuro e seu cabelo estava preso em tranças e am arrado para trás, o que fazia seu rosto parecer viçoso e inocente.
— Eu enviei sua m ensagem para Ix — ela disse. — E lhes disse que desej a saber m inha idade.
— Talvez eles respondam — disse Leto. — E a resposta pode até ser verdadeira.
— Eu gostaria de saber quando nasci. Todas as circunstâncias. Mas não sei por que isso lhe interessa.
Tudo a seu respeito m e interessa.
— Eles não vão gostar que m e tenha feito Em baixadora perm anente.
— Seus m estres são um a m istura curiosa de m eticulosidade e lassidão. E não gosto de aturar os tolos.
— Julga-m e tola, Senhor?
— Malky não era um tolo; nem você o é, m inha querida.
— Não ouço falar do m eu tio há anos. Algum as vezes m e pergunto se ele ainda vive.
— Talvez venham os a descobrir isso tam bém . Algum a vez Malky falou com você sobre a prática do Taquiy y a?
Ela pensou a respeito por um m om ento, depois disse:
— Era cham ado de Ketm an entre os antigos Frem en?
— Sim . É a prática de ocultar a identidade quando revelá-la pode ser danoso.
— Eu m e lem bro agora. Ele m e contou que o Senhor escreveu histórias sob pseudônim o, algum as delas m uito fam osas.
— Foi nessa ocasião que conversam os sobre o Taquiy y a.
— Por que fala a respeito disso, Senhor?
— Para evitar outros assuntos. Sabe que fui eu que escrevi os livros de Noah Arkwright?
Ela não conseguiu conter um pequeno riso.
— Que divertido, Senhor. Fizeram -m e ler a respeito da vida dele.
— Escrevi esse relato tam bém . Que segredos lhe pediram que obtivesse de m im ?
Ela nem m esm o piscou ante essa estratégica m udança de assunto.
— Estão curiosos a respeito do funcionam ento interno da religião de Lorde Leto.
— Ah, agora estão.
— Querem saber com o tom ou o controle religioso das m ãos da Bene Gesserit.
— Sem dúvida esperando repetir m eu desem penho em proveito próprio?
— Tenho certeza de que tal idéia se encontra na m ente deles.
— Hwi, você é um a terrível representante dos Ixianos.
— Sou sua serva, Senhor.
— E não tem suas próprias curiosidades?
— Tem o que m inhas curiosidades possam perturbá-lo — ela disse.
Leto a fitou por um m om ento e disse:
— Percebo. Sim , você está certa. Por ora devem os evitar conversas m ais íntim as. Gostaria que eu falasse a respeito da Irm andade?
— Sim , isso seria bom . Sabe que hoj e encontrei um a integrante da delegação Bene Gesserit?
— Deve ser Anteac.
— Eu a achei assustadora.
— Não tem a nada quanto a Anteac. Ela foi à sua Em baixada por ordem m inha. Está consciente de que vocês foram invadidos por Dançarinos Faciais?
Hwi espantou-se, deixando escapar o fôlego. Depois ficou quieta enquanto um a sensação de frio lhe invadia o peito.
— Othwi Yake? — perguntou ela.
— Você suspeitava?
— Apenas não gostava dele, e m e haviam dito que... — Ela encolheu os om bros ao com preender: — Que aconteceu com ele?
— O original? Está m orto. Essa é a prática norm al dos Dançarinos Faciais em tais circunstâncias. Minhas Oradoras Peixes têm ordens explícitas para não deixarem vivo nenhum Dançarino Facial na sua Em baixada.
Hwi perm aneceu em silêncio, m as as lágrim as rolaram em seu rosto. Isso explicava as ruas vazias, o enigm ático “sim ” de Anteac. Explicava m uitas coisas.
— Eu lhe darei assistência através das Oradoras Peixes até que possa fazer outros arranj os — disse Leto. — Minhas Oradoras Peixes a guardarão bem .
Hwi sacudiu as lágrim as de seu rosto. Os Inquisidores de Ix reagiriam com ódio contra os Tleilaxu. Será que acreditariam em seu relatório? Todos em sua Em baixada substituídos por Dançarinos Faciais! Era difícil de acreditar.
— Todos? perguntou ela.
— Os Dançarm os Faciais não tinham m otivo para deixar vivo quem quer que fosse de seu pessoal original. Você seria a próxim a.
Ela estrem eceu.
— Eles dem oraram — explicou ele. — Porque sabiam que teriam de copiá-la com precisão para poderem desafiar m eus sentidos. Eles não estão certos quanto às m inhas habilidades.
— Então Anteac...
— A Irm andade e eu com partilham os a habilidade de detectar Dançarm os Faciais. E Anteac... bem , ela é m uito boa no que faz.
— Ninguém confia nos Tleilaxu. Por que não foram exterm inados há m uito tem po?
— Os especialistas possuem seus usos, assim com o suas ilim itações. Você m e surpreende, Hwi. Eu não suspeitava de que pudesse ser tão radical.
— Os Tleilaxu... eles são m uito cruéis para serem hum anos. Eles não são hum anos.
— Pois eu lhe asseguro que os hum anos podem ser igualm ente cruéis. Eu m esm o j á fui cruel em várias ocasiões.
— Eu sei, Senhor.
— Sob provocação. Mas as únicas pessoas que j á pensei em elim inar foram as Bene Gesserits.
O choque foi m uito grande para ser verbalizado.
— Elas estão próxim as do que deveriam ser, e contudo m uito distantes — ele disse.
Hwi encontrou sua voz.
— Mas a História Oral diz...
— A religião das Reverendas Madres, sim . Certa vez elas proj etaram religiões específicas para sociedades específicas. Cham avam isso de engenharia. Com o lhe parece?
— Desum ano.
— De fato. E os resultados correspondem ao engano. Mesm o depois de todas as grandes tentativas no sentido de se conseguir o ecum enism o, havia incontáveis deuses, divindades m enores e pretensos profetas através do Im pério.
— E o Senhor m udou isso.
— De certo m odo. Mas os deuses não m orrem com facilidade, Hwi. Meu m onoteísm o predom ina, m as o panteão original perm anece; tornou-se clandestino, sob vários disfarces.
— Senhor, sinto em suas palavras... um a... — Ela sacudiu a cabeça.
— Que sou tão friam ente calculista quanto a Irm andade?
Ela assentiu com a cabeça.
— Foram os Frem en que endeusaram m eu pai, o grande Muad’Dib. Em bora ele realm ente não se im portasse de ser cham ado grande.
— Mas os Frem en...
— Se eles estavam certos? Minha querida Hwi, eles eram sensíveis aos usos do poder e pretendiam m anter sua ascendência.
— Acho isso... perturbador, Senhor.
— Percebo. Você não aprecia a idéia de que se tornar um deus sej a sim ples assim , com o se qualquer um pudesse fazer isso.
— Parece trivial dem ais, Senhor. — A voz dela tinha o tom rem oto de alguém que sonda o terreno.
— Eu lhe asseguro que não é um a coisa que qualquer um possa fazer.
— Mas o Senhor sugere ter herdado sua divindade dos...
— Nunca diga isso a um a Oradora Peixe. Elas reagem violentam ente à heresia.
Ela tentou engolir, sentindo a garganta seca.
— Eu disse isso apenas para protegê-la.
A voz dela era fraca:
— Obrigada, Senhor.
— Minha divindade com eçou, quando eu disse aos m eus Frem en que não m ais poderia dar a água da m orte para as tribos. Sabe o que é a água da m orte?
— Nos tem pos de Duna, era a água recuperada dos corpos dos m ortos — disse ela.
— Ah, você leu Noah Arkwright.
Hwi conseguiu esboçar um leve sorriso.
— Eu disse aos m eus Frem en que a água seria consagrada a um a Divindade Suprem a, à qual não daríam os nom e. Ainda se perm itia que os Frem en controlassem essa água, graças à m inha generosidade.
— A água devia ser m uito preciosa naqueles tem pos.
— Muito! E eu, com o delegado dessa divindade sem nom e, detive um controle pouco rigoroso dessa preciosa água por quase 300 anos.
Ela m ordeu o lábio inferior.
— Ainda parece calculista? — perguntou ele.
Ela acenou afirm ativam ente.
— E era. Quando chegou a ocasião de consagrar a água da m inha irm ã, eu realizei um m ilagre. As vozes de todos os Atreides falaram de dentro da urna de Ghani. Assim , m eus Frem en descobriram que eu era a Divindade Suprem a.
Hwi falou com tem or, a voz cheia de incertezas ante essa revelação:
— Senhor, está m e dizendo que não é realm ente um deus?
— Estou lhe dizendo que não brinco de esconder com a m orte.
Ela olhou para ele durante vários m inutos, antes de responder de um m odo que lhe assegurava estar entendendo seu profundo significado. Era um a reação que, para ele, apenas lhe intensificava o encanto.
— Sua m orte não será com o as outras m ortes — disse ela.
— Preciosa Hwi — m urm urou ele.
— Calculo que o Senhor não tem a o j ulgam ento de um a verdadeira Divindade Suprem a — ela disse.
— Está m e j ulgando, Hwi?
— Não, m as tem o pelo Senhor.
— Pense no preço que eu pago — ele disse. — Cada parte descendente de m im irá carregar algo da m inha consciência preso dentro dela, perdida e desam parada.
Ela colocou am bas as m ãos sobre a boca e olhou para ele aterrorizada.
— Esse é o horror que m eu pai não pôde enfrentar e que tentou evitar: a infinita identidade vega.
Ela abaixou as m ãos e sussurrou:
— E o senhor será consciente?
— De certo m odo... m as m udo. Um a pequena pérola da m inha consciência acom panhará cada verm e e cada truta da areia
— dotada de conhecim ento e no entanto incapaz de m ovim entar um a única célula, consciente num interm inável sonho.
Ela estrem eceu.
Leto observou enquanto ela tentava com preender tal existência. Poderia im aginar o clam or final, quando as peças subdivididas de sua identidade buscassem um m inguante controle sobre a m áquina Ixiana que escrevia os seus diários? Poderia sentir o silêncio esm agador que se seguiria àquela espantosa fragm entação?
— Eles usariam tal conhecim ento contra o Senhor, se eu o revelasse.
— E vai contar?
— É claro que não!
Ela sacudiu a cabeça lentam ente de um lado para o outro. Por que ele teria aceito essa transform ação terrível? Não haveria escapatória?
Daí a pouco ela disse:
— A m áquina que escreve seus pensam entos não poderia ser sintonizada a.
— A 1 m ilhão de partes de m im ? A 1 bilhão? A m ais? Minha querida Hwi, nenhum a daquelas pérolas de consciência será verdadeiram ente eu.
Os olhos dela turvaram -se de lágrim as. Ela piscou e respirou fundo. Leto reconheceu nisso o treinam ento Bene Gesserit, o m odo com o ela aceitava um fluxo de calm a.
— Senhor, deixou-m e terrivelm ente tem erosa.
— E não com preende por que fiz isso.
— É possível que eu com preenda?
— Oh, sim . Muitos podem entender. O que as pessoas fazem com a com preensão é outra coisa.
— Vai m e ensinar o que fazer?
— Você j á sabe.
Ela absorveu isso silenciosam ente, e então disse:
— Tem algum a coisa a ver com religião. Posso sentir.
Leto sorriu:
— Posso perdoar seus m estres Ixianos por quase qualquer coisa devido à preciosa dádiva que m e deram através de você. Peça e receberá.
Ela inclinou-se em direção a ele oscilando na alm ofada.
— Fale-m e a respeito dos fundam entos da sua religião.
— Logo você vai conhecer tudo a m eu respeito, Hwi. Prom eto. Apenas se lem bre de que a adoração do sol entre nossos prim itivos ancestrais não estava m uito distante do alvo.
— Adoração... do sol? — Ela se balançou para trás na alm ofada.
— O sol que controla todos os m ovim entos, m as que não pode ser tocado. O sol que é m orte.
— Sua... m orte?
— Qualquer religião circula com o um planeta em torno de um sol que ela deve usar para obter sua energia, e do qual ela depende para sua própria existência.
A voz dela respondeu com pouco m ais que um sussurro:
— Que vê no seu sol, Senhor?
— Um universo de m uitas j anelas através das quais posso olhar. E quaisquer que sej am as m olduras das j anelas, isso é o que eu vej o.
— O futuro?
— O universo, em suas raízes, não conhece o tem po, e contém por isso todos os tem pos e todos os futuros.
— É verdade então — ela disse. — O Senhor viu um a coisa que isto — ela fez um gesto indicando o longo corpo anelado — evita.
— E você j ulga poder acreditar que isto sej a, de algum m odo, sagrado? — perguntou ele.
Ela só pôde assentir com a cabeça.
— Se você o partilhar todo com igo — ele disse —, eu lhe previno de que será um a carga terrível.
— E isso tornará sua carga m ais leve, Senhor?
— Não m ais leve, porém m ais fácil de aceitar.
— Então eu a com partilharei. Diga-m e, Senhor.
— Não ainda, Hwi. Você deve ser um pouco m ais paciente.
Ela absorveu o desapontam ento suspirando.
— É apenas que o m eu Duncan Idaho se torna cada vez m ais im paciente — explicou Leto. — Devo cuidar dele.
Ela olhou para trás, m as a pequena sala continuava vazia.
— Quer que eu saia agora?
— Gostaria que você nunca m e deixasse.
Ela olhou para ele, notando a intensidade de seu olhar, o fam into vazio de sua expressão que a enchia de tristeza.
— Senhor, por que m e conta os seus segredos?
— Eu não lhe pediria para ser a noiva de um deus.
Os olhos dela se arregalaram com o choque.
— Não responda — disse ele.
Quase sem m over a cabeça, ela enviou o olhar ao longo da extensão som breada do corpo dele.
— Não procure por m inhas partes que não m ais existem — ele disse. —
Algum as form as de intim idade física não m e são m ais possíveis.
Ela voltou a atenção para o rosto envolto nas dobras da pele de truta, notando com o a epiderm e era rosada naquele rosto, o efeito intensam ente hum ano daquelas feições num a m oldura tão alienígena.
— Se você quiser filhos — acrescentou ele —, só lhe peço que m e deixe escolher o pai. Mas ainda não lhe pedi coisa algum a.
A voz dela era fraca.
— Senhor, não sei o que...
— Vou retornar logo à Cidadela — ele explicou. — Você virá ao m eu encontro e então conversarem os. E lhe contarei a respeito da coisa que eu evito.
— Estou assustada, senhor, m ais assustada do que j am ais im aginei que pudesse ficar.
— Não tenha m edo de m im . Não posso ser outra coisa senão gentil com a m inha gentil Hwi. Quanto aos outros perigos, m inhas Oradoras Peixes a protegerão com os próprios corpos. Elas não se atreverão a perm itir que algum m al lhe aconteça.
Hwi levantou-se, trêm ula.
Leto notou quão profundam ente suas palavras a tinham afetado e sentiu a dor que havia nisso. Os olhos de Hwi brilhavam com lágrim as e ela apertou as m ãos fechadas para controlar seus trem ores. Ele sabia que de boa vontade ela iria ao seu encontro na Cidadela. Não im portando o que ele pedisse, a resposta dela seria a m esm a das Oradoras Peixes:
— Sim , Senhor.
Ocorreu a Leto que, se pudesse trocar de lugar com ele, aceitar sua carga, ela se ofereceria. E o fato de não poder fazer isso aum entava-lhe a dor. Ela era um a inteligência construída sobre um a profunda sensibilidade, sem qualquer das fraquezas hedonistas de Malky. Hwi era assustadora em sua perfeição. Tudo com relação a ela reafirm ava sua certeza de que Hwi era o tipo de m ulher que, caso tivesse crescido com o um hom em norm al, Leto desej aria (Não! Exigiria!) com o esposa.
E os Ixianos sabiam disso.
— Deixe-m e agora — sussurrou ele.