O Imperador-Deus de Duna
Pense nela como uma memória plástica, essa…
Pense nela como uma memória plástica, essa força dentro de você e de seus companheiros que os arrasta em direção às formas tribais. Essa memória plástica busca um retorno à sua antiga forma, a sociedade tribal. Está ao seu redor — o feudo, a diocese, a corporação, o pelotão, o clube esportivo, o grupo de dança, a célula rebelde, o conselho de planejamento, o grupo de preces... cada qual com seu senhor e seus servos, seu hospedeiro e seus parasitas. E os enxames de dispositivos alienantes (incluindo estas próprias palavras!) tendem, finalmente, a se unir à argumentação em favor do retorno “aqueles tempos melhores”. Eu me desespero ensinando-lhes outras maneiras. Vocês têm pensamentos quadrados que resistem aos círculos.
— Os diários roubados
Idaho descobriu que podia escalar um rochedo sem m esm o pensar a respeito conscientem ente. Esse corpo criado pelos Tleilaxu lem brava-se de coisas que seus criadores nem m esm o suspeitavam . Sua j uventude original podia estar perdida há eons, m as seus m úsculos eram j ovens, graças aos Tleilaxu, e ele podia enterrar sua infância no esquecim ento enquanto subia. Nessa infância ele aprendera a sobreviver nos rochedos elevados de seu planeta natal. Não im portava se essas rochas diante dele haviam sido levadas ali pelos hom ens, tam bém tinham sido esculpidas por eras de exposição aos elem entos.
O sol da m anhã estava quente em suas costas. Ele podia ouvir os esforços de Siona para alcançar um a posição de apoio relativam ente sim ples num a saliência estreita bem abaixo dele. A posição era virtualm ente inútil para Idaho, m as fora a discussão que finalm ente levara Siona a concordar em que eles deviam tentar a escalada.
Eles.
Ela discordara de que ele tentasse sozinho.
Nay la, três de suas auxiliares Oradoras Peixes, Garun e três escolhidos entre seus Frem en de Museu aguardavam na areia, ao pé da barreira da Muralha que envolvia o Sareer.
Idaho não pensava na altura da Muralha. Só pensava em onde deveria apoiar em seguida a m ão ou o pé. Pensava no rolo de corda leve em torno de seus om bros. A corda era da altura dessa Muralha. Ele a m edira no solo, triangulando-a sobre a areia, sem contar seus passos. Quando a corda era suficientem ente longa, ela o era enfim . A Muralha era tão alta quanto a corda era com prida. Qualquer outro m odo de pensar em botaria sua m ente.
Apalpando em busca de apoios que não poderia ver, Idaho subindo, tateando a face vertical... não, não inteiram ente vertical. O vento, a areia e até m esm o um pouco de chuva, as forças do frio e do calor tinham realizado ali seu trabalho de erosão por durante m ais de 3 m il anos. Durante um dia inteiro, Idaho ficara sentado na areia abaixo da Muralha, estudando o que o Tem po havia realizado. Fixara certos padrões em sua m ente — um a som bra inclinada, um a linha fina, um a protuberância que se esboroava, um a pequena saliência de rocha aqui, outra ali.
Seu dedos entraram num a fenda áspera. Ele testou seu peso delicadam ente nesse suporte. Sim . Repousou brevem ente, pressionando o rosto contra a rocha m orna, sem olhar para cim a nem para baixo. Encontrava-se sim plesm ente ali. Tudo era um a questão de equilíbrio. Não podia perm itir que seus om bros se cansassem logo. O peso devia ser equilibrado entre os pés e os braços. Os dedos sofriam um dano inevitável, m as, onde ossos e tendões resistiam , a pele podia ser ignorada.
Um a vez m ais ele se arrastou para cim a. Um a porção de rocha se esfarinhou em sua m ão, o pé e as agulhas de pedra caíram sobre o lado direito de sua face, m as ele nem m esm o sentiu. Cada átom o de sua consciência concentrava-se na m ão sondando, no equilíbrio de seus pés sobre as m enores saliências. Ele era um ponto, um cisco que desafiava a gravidade... um apoio com o dedo da m ão aqui, outro com o dedo do pé ali, agarrando-se ao paredão de rocha às vezes pela pura força da sua vontade.
Nove gram pos im provisados faziam volum e em um de seus bolsos, m as ele resistia à tentação de usá-los. Um m artelo igualm ente im provisado pendia de seu cinturão num a corda curta, cuj o nós seus dedos tinham m em orizado.
Nay la fora difícil. Não entregaria sua arm a laser. Mas tinha obedecido um a ordem direta de Siona para que os acom panhasse. Era um a m ulher estranha, estranham ente obediente.
— Você não j urou m e obedecer? — perguntara Siona.
A relutância de Nay la tinha desaparecido.
Depois Siona explicara:
— Ela sem pre obedece m inhas ordens diretas.
— Então talvez não precisem os m atá-la — dissera Idaho.
— Eu preferiria não tentar. Você não faz a m enor idéia da força e da agilidade dela.
Garun, o Frem en de Museu que sonhava tornar-se um “verdadeiro Naib à m oda antiga”, m ontara o cenário para essa escalada ao responder à pergunta de Idaho:
— Com o o Im perador-Deus virá a Tuono?
— Do m esm o m odo com o nos visitou durante o tem po do m eu bisavô.
— E com o foi? — provocara Siona.
Na ocasião, eles estavam sentados nas som bras poeirentas, do lado de fora da casa de hóspedes, abrigando-se do sol da tarde, no m esm o dia do anúncio de que Leto se casaria em Tuono. Um sem icírculo de auxiliares de Garun agachara-se em torno dos degraus onde Siona e Idaho conversavam com seu líder. Duas Oradoras Peixes apoiavam -se por perto, ouvindo. Nay la devia chegar em questão de m om entos.
Garun apontou para a alta Muralha atrás do vilarej o, sua borda brilhando num distante tom dourado sob a luz do sol.
— A Estrada Real passa por ali e o Im perador-Deus tem um engenho que pode fazê-lo descer suavem ente das alturas.
— Fica em butido em sua carreta — disse Idaho.
— Suspensores — concordou Siona. — Já os vi.
— Meu bisavô contou que eles vieram pela Estrada Real, com um a grande tropa. E o Im perador-Deus deslizou, planando até a praça de nossa vila. Os outros desceram por cordas.
Idaho falou, pensativo:
— Cordas?
— Por que eles vieram ? — perguntou Siona.
— Para confirm ar que o Im perador-Deus não havia esquecido seus Frem en, assim disse m eu bisavô. Foi um a grande honra, m as não tão grande quanto esse casam ento.
Idaho levantou-se enquanto Garun ainda falava. Havia um a visão clara da elevada Muralha nas proxim idades — bem no fim da rua principal, um a vista que ia da base na areia até o topo brilhando à luz do sol. Idaho cam inhara do canto da casa de hóspedes até a rua central. Lá parou e se virou, olhando para a Muralha. A prim eira olhada lhe disse por que todos diziam não ser possível escalar aquela parede de rocha. Mesm o na ocasião, ele resistira em pensar num a m edida da altura. Podiam ser 500 ou 5 m il m etros. O m ais im portante residia naquilo que um estudo m ais cuidadoso revelava: pequenas fendas transversais, pedaços partidos, até m esm o um a estreita proj eção de rocha uns 20 m etros acim a da areia carregada pelo vento na base... e outra saliência, a dois terços da altura até o topo.
Sabia que um a parte inconsciente de si m esm o, um lado antigo e confiável, estaria fazendo as m edidas necessárias, com parando-as com seu próprio corpo — tantos com prim entos de um Duncan até aquele lugar, um apoio para a m ão aqui, outro ali. Suas próprias m ãos. Já podia sentir-se escalando.
A voz de Siona soou j unto de seu om bro direito quando ele se encontrava absorvido naquele prim eiro exam e.
— Que está fazendo? — Ela chegara em silêncio e agora olhava para onde ele olhava.
— Posso escalar aquela Muralha — disse Idaho. — Se levar com igo um a corda leve, posso puxar para cim a um a corda m ais pesada. O resto de vocês subirá facilm ente.
Garun se unira a eles a tem po de ouvir isso.
— E por que você subiria a Muralha, Duncan Idaho?
Siona respondeu por ele, sorrindo para Garun.
— Para proporcionar um a recepção adequada ao Im perador-Deus.
Isso fora antes de suas dúvidas, antes que os olhos dela e sua ignorância quanto a tal escalada com eçassem a m inar sua confiança.
Com a em polgação inicial, Idaho perguntou:
— Qual a largura da Estrada Real lá em cim a?
— Eu nunca vi — respondeu Garun. — Mas m e disseram que é m uito larga. Um a grande tropa pode m archar através dela, assim dizem . E tem as pontes, os m irantes para olhar o rio... e... oh, é um a m aravilha.
— Por que nunca subiu lá em cim a para ver por si m esm o? — perguntou Idaho.
Garun apenas encolheu os om bros e apontou para a Muralha. Nay la chegou então e teve início a discussão a respeito da escalada. Idaho pensou a respeito daquela discussão enquanto subia. Com o era estranho esse relacionam ento entre Nay la e Siona! Elas eram com o duas conspiradoras... m as não eram conspiradoras. Siona ordenava e Nay la obedecia. Mas Nay la era um a Oradora Peixe, a Am iga a quem Leto confiara o prim eiro exam e do novo ghola. Ela adm itira ter estado na Guarnição Real desde a infância. E a força que havia nela! Considerando-se essa força, havia algo de espantoso na m aneira com o se curvava à vontade de Siona. Era com o se Nay la escutasse vozes interiores que lhe dissessem o que fazer. Então ela obedecia.
Idaho tateou procurando outro apoio para a m ão. Seus dedos serpentearam ao longo da rocha, para cim a e para a direita, encontrando afinal um a fenda não-vista onde podiam penetrar. Sua m em ória fornecia a linha natural da ascensão, m as só o seu corpo podia aprender o cam inho seguindo aquela linha. Seu pé esquerdo encontrou um a saliência... devagar, tentando. Mão esquerda para cim a agora... nenhum a fenda, m as um a saliência. Seus olhos e depois seu queixo ergueram -se sobre a elevada plataform a de rocha que tinha visto lá de baixo. Ele subiu apoiando-se nos cotovelos, rolou para a saliência e repousou, olhando para cim a e não para baixo. Havia um horizonte poeirento lá fora, um a brisa carregada de areia lim itando a visão. Ele tinha visto m uitos horizontes assim em seus dias de Duna.
Daí a pouco virou-se para encarar a Muralha, erguendo-se sobre os j oelhos, as m ãos apalpando para o alto, e continuou a escalada. A im agem da Muralha perm anecia em sua m ente com o a tinha visto lá em baixo. Só precisava fechar os olhos e o padrão estava lá, fixado da m aneira com o ele tinha aprendido a fazer quando ainda era um a criança escondendo-se dos caçadores de escravos dos Harkonnen. As pontas dos dedos encontraram um a fenda onde podiam apoiar-se. Agarrando-se, ele prosseguiu o cam inho para o alto.
Observando de baixo, Nay la experim entava um a crescente afinidade com o alpinista. A distância reduzira Idaho a um a form a m uito pequena e solitária sobre o paredão da Muralha. Ele devia saber o que era estar sozinho com decisões graves a serem tom adas.
“Eu gostaria de ter um filho dele”, pensou ela. “Um filho nosso seria forte e desem baraçado. Por que o Im perador-Deus quer um filho de Siona com esse hom em ?”
Nay la havia despertado antes da aurora e cam inhado até o topo de um a duna baixa, na extrem idade do vilarej o, para pensar a respeito dessa coisa que Idaho propusera. Fora um a aurora esverdeada, com um a cam ada de poeira na distância, depois aquele dia im placável e a terrível im ensidão do Sareer. Ela soube então que esta questão j á fora prevista por Deus. Que se poderia ocultar de Deus? Nada poderia ser oculto, nem m esm o a rem ota figura de Duncan Idaho tateando em busca de um cam inho na borda do céu.
Enquanto observava Idaho subindo, a m ente de Nay la fazia um truque com ela, virando a parede da Muralha na horizontal e transform ando Idaho num a criança engatinhando sobre um a superfície acidentada. Com o ele parecia pequeno... e se tornava cada vez m enor.
Um a aj udante ofereceu-lhe água, que ela bebeu. A água trouxe a Muralha de volta à sua verdadeira perspectiva.
Siona agachou-se na prim eira saliência, inclinando-se a fim de olhar para o alto. “Se você cair, eu tentarei”, tinha prom etido a Idaho. Nay la achara estranha essa prom essa. Por que os dois queriam tentar o im possível?
E Idaho não conseguira dissuadir Siona dessa prom essa im possível.
“E o destino”, pensou Nay la. “E a vontade de Deus.”
Os dois eram a m esm a coisa.
Um fragm ento de rocha caiu de onde Idaho se agarrara. Isso j á tinha acontecido várias vezes. Nay la observou a rocha caindo. Ela levou um longo tem po para chegar ao chão, saltando e quicando da face da Muralha, num dem onstração daquilo que os olhos deixavam de enxergar ao revelarem a Muralha com o vestical.
“Ele vai conseguir ou não vai”, pensou Nay la. “O que acontecer será a vontade de Deus.”
Ela podia sentir, contudo, seu coração bater m ais forte. A aventura de Idaho era com o o sexo, ela pensou. Não era passivam ente erótica, m as próxim a de um a rara m agia no m odo com o a envolvia. Tinha que continuar se lem brando de que Idaho não era para ela.
“Ele é para Siona. Se sobreviver.”
E se ele falhasse, então Siona tentaria. E Siona teria sucesso ou não teria. Nay la se perguntou se seria capaz de experim entar um orgasm o caso Idaho chegasse ao topo. Ele estava tão perto agora.
Idaho respirou fundo várias vezes antes de deslocar a rocha. Foi um m au m om ento e ele levou algum tem po para se recuperar, segurando-se num apoio de três pontos na Muralha. Quase que por sua própria vontade, a m ão livre tateou para o alto um a vez m ais, serpenteando por sobre um lugar roído para alcançar outra fenda delgada. Lentam ente ele passou o peso para a outra m ão. Lentam ente... lentam ente. Seu j oelho esquerdo sentiu um a posição onde poderia conseguir um apoio para o dedo do pé. Ergueu o pé para esse lugar e o testou. A m em ória dizia-lhe que o topo estava próxim o, m as ele a afastou. Havia apenas a escalada e o conhecim ento de que Leto chegaria am anhã.
“Leto e Hwi.”
Ele não podia pensar nisso tam bém . Mas o pensam ento não se afastava. “O topo... Hwi... Leto... am anhã...”
Cada. pensam ento alim entava o seu desespero, forçando-o a um a recordação im ediata das escaladas de sua infância. E quanto m ais ele se relem brava conscientem ente, m ais suas habilidades eram bloqueadas. Foi forçado a fazer um a pausa, respirando profundam ente num a tentativa de se concentrar, de retornar às m aneiras naturais de seu passado.
Mas seriam naturais essas m aneiras?
Havia um bloqueio em sua m ente. Podia sentir introm issões, um a finalidade... a fatalidade do que poderia ter sido e agora nunca seria.
Leto chegaria lá am anhã.
Idaho sentiu a transpiração escorrendo em seu rosto, em torno do lugar onde o pressionava contra a rocha.
“Leto.”
“Vou derrotá-lo, Leto. Vou derrotá-lo por m im m esm o, não por Hwi, apenas por m im m esm o.”
Um a sensação de lim peza com eçou a se propagar por ele. Era com o a coisa que lhe acontecera na noite em que se preparava para essa subida. Siona percebera sua falta de sono. Conversara com ele, contando-lhe os m enores detalhes de sua corrida desesperada através da Floresta Proibida e seu j uram ento na beira do rio:
— Agora fiz m eu j uram ento com o Com andante das Oradoras Peixes — ela disse. — Honrarei esse j uram ento, m as espero que não aconteça do m odo com o ele desej a.
— E que ele desej a? — perguntou Idaho.
— Ele tem m uitos m otivos e eu não posso vê-los todos. Quem poderia com preendê-lo? Só sei que nunca vou perdoá-lo.
Essa m em ória trouxe Idaho de volta à sensação da rocha contra sua face. Sua transpiração secara na brisa e ele se sentia refrescado. Mas havia encontrado o seu centro.
“Nunca perdoar.”
Idaho sentiu os fantasm as de todos os seus outros eus, os gholas que tinham m orrido a serviço de Leto. Poderia acreditar nas suspeitas de Siona? Sim , Leto era capaz de m atar com seu próprio corpo, com suas próprias m ãos. O boato que Siona contara tinha um sentim ento de verdade em si. E Siona tam bém era Atreides. Leto se tornara um a outra coisa... não m ais Atreides, nem m esm o hum ano. Ele se tornara m enos um a criatura viva e m ais um fato brutal da natureza, opaco e im penetrável, com todas as suas experiências seladas dentro de si. E Siona opondo-se a ele. Os verdadeiros Atreides afastavam -se dele.
“Com o eu faço.”
Um a realidade brutal da natureza, nada m ais. Com o essa Muralha.
A m ão direita de Idaho tateou para cim a e encontrou um a saliência afiada. Não pôde sentir coisa algum a acim a dela, e tentou lem brar-se de um a fenda larga que havia nesse lugar, de acordo com o padrão. Ainda não se atrevia a crer que havia alcançado o topo... ainda não. A borda afiada cortou-lhe os dedos enquanto colocava o peso sobre eles. Levou a m ão esquerda para esse nível, encontrou um apoio e se ergueu lentam ente. Seus olhos alcançaram o nível das m ãos. E ele olhou através de um a superfície plana que se estendia à sua frente... até o céu azul. A superfície à qual suas m ãos se agarravam m ostrava antigas fendas provocadas pelo tem po. Arrastou os dedos sobre essa superfície, um a das m ãos de cada vez, buscando as fendas, arrastando para cim a o peito... a cintura... os quadris. Rolou então sobre a borda, torcendo-se e se arrastando, até que a Muralha estava bem atrás. Só então se colocou de pé e se perm itiu acreditar no que os sentidos lhe diziam .
“O topo.” E não haviam sido necessários m artelos ou gram pos.
Um som fraco o alcançou. Palm as?
Ele cam inhou para a beirada, olhou para baixo e acenou. Sim , eles estavam aplaudindo. Voltando-se, cam inhou até o centro da estrada, sentindo o j úbilo, o trem or nos m úsculos, a dor de seus om bros dim inuindo. Lentam ente, descreveu um círculo com pleto, exam inando o topo enquanto deixava que suas m em órias finalm ente estim assem a altura da escalada.
Novecentos m etros... no m ínim o isso.
A Estrada Real lhe interessava. Não era com o ele a tinha visto no cam inho para Onn. Era larga, m uito larga... pelo m enos 500 m etros de largura. O piso era liso, um cinza contínuo, com sua beirada a uns 100 m etros de cada borda da Muralha. Pilastras de rocha da altura de um hom em m arcavam a beira da estrada, estendendo-se com o sentinelas ao longo da trilha que seria usada por Leto.
Idaho cam inhou para o outro lado, oposto ao Sareer, e olhou para baixo. Bem longe, nas profundezas, o fluxo verde de um rio despencava transform ando-se em espum a contra as rochas dos contrafortes. Olhou para a direita. Leto viria dali. Estrada e Muralha curvavam -se suavem ente naquela direção, a curva com eçando a uns 300 m etros do lugar onde ele se encontrava. Idaho voltou para a estrada e cam inhou ao longo de sua beirada, seguindo a curva até onde ela fazia um “S” e se estreitava, inclinando-se suavem ente para baixo. Ele parou e olhou o que se revelava agora, vendo um novo padrão tom ar form a.
Uns três quilôm etros abaixo daquela suave descida, a estrada se estreitava e cruzava um a garganta sobre um a ponte cuj as treliças pareciam etéreas e insubstânciais com o um brinquedo na distância. Idaho lem brou-se de um a ponte sem elhante na estrada para Onn, o sentim ento de tê-la percebido consistente sob seus pés. Confiava em sua m em ória, pensando nas pontes com o fora forçado a pensar nelas na qualidade de líder m ilitar — passagens ou arm adilhas.
Cam inhando para a esquerda, ele olhou para baixo e para a frente em direção a outra Muralha elevada, situada do lado oposto da ponte. A estrada continuava, form ando um a curva suave até se transform ar num a linha que seguia reta para o norte. Havia duas Muralhas, com o rio correndo entre elas. O rio deslizava num desfiladeiro íngrem e, feito pelo hom em , sua um idade confinada e canalizada para o norte através do vento, enquanto a água em si fluía para o sul.
Idaho passou a ignorar o rio. Ele estava lá em baixo e lá continuaria no dia seguinte. Fixou sua atenção na ponte, deixando seu treinam ento m ilitar exam iná-la. Assentiu um a vez para si m esm o antes de voltar pelo cam inho por onde viera, erguendo a corda dos om bros enquanto cam inhava.
E foi apenas ao ver a corda serpenteando para baixo que Nay la teve seu orgasm o.
Que estou eliminando? A paixão burguesa pela pacífica conservação do passado. Essa é uma força de união, algo que mantém a humanidade como uma unidade vulnerável, a despeito da ilusória separação através dos parsecs do espaço. Se eu posso encontrar os fragmentos separados, então outros também podem localizá-los. Quando vocês estão juntos, podem compartilhar a catástrofe comum. Podem ser exterminados juntos. Assim eu demonstro o perigo terrível de uma mediocridade desapaixonada, do movimento sem ambições nem objetivos. Mostro a vocês que civilizações inteiras podem fazer isso. Dou-lhes eons de uma vida que escorrega suavemente em direção à morte, sem confusão, sem se mexer, sem mesmo perguntar por quê. Mostro-lhes a falsa felicidade e o guarda-catástrofe chamado Leto, o Imperador-Deus. Será que agora vocês aprenderão o que é a felicidade verdadeira?
— Os diários roubados
Tendo passado a noite com apenas um breve cochilo, Leto estava acordado quando Moneo em ergiu da casa de hóspedes ao raiar do dia. A Carreta Real estivera estacionada quase no centro de um pátio triangular. Sua cobertura fora regulada para a opacidade em um a única direção, ocultando seu ocupante de olhares externos, e estava totalm ente selada contra a um idade. Leto podia sentir o ligeiro ruído dos ventiladores que faziam o ar passar através de um ciclo de secam ento.
Os pés de Moneo fizeram barulho nas pedras arredondadas da pavim entação do pátio enquanto ele se aproxim ava da carreta. A luz da aurora delineou em laranj a o telhado da casa de hospedagem acim a do m aj ordom o.
Leto abriu a cobertura da carreta quando Moneo parou diante dele. Havia um cheiro de suj eira ferm entando no ar, e a acum ulação de um idade na brisa era dolorosa.
Devem os chegar a Tuono por volta do m eio-dia — disse Moneo. — Gostaria que m e deixasse trazer tópteros para guardar o céu.
— Não quero tópteros — disse Leto. — Podem 9s descer em Tuono usando suspensores e cordas.
Leto m aravilhou-se com as im agens plásticas dessa breve troca de palavras. Moneo j am ais gostara de peregrinações. Sua j uventude com o rebelde deixara-o com suspeita de tudo que não pudesse ver ou rotular. Ele perm anecia um a m assa de j ulgam entos latentes.
— O Senhor sabe que não quero tópteros para transporte — disse Moneo. — Eu os quero para vigiar...
— Sim , Moneo.
Moneo olhou para a extrem idade aberta do pátio, que se voltava sobre o cany on. A luz da aurora dava um tom gelado à névoa que se erguia lá no fundo. Ele im aginou até onde o cany on descia... um corpo que se torcia, que girava enquanto caia. Moneo sentira-se incapaz de ir até a borda do desfiladeiro, na noite passada, e olhar para baixo. A queda era um a... enorm e tentação.
Com aquele poder de percepção que enchia Moneo de assom bro, Leto disse:
— Existe um a lição em cada tentação, Moneo.
Sem fala, Moneo virou-se para olhar diretam ente nos olhos de Leto.
— Pode ver a lição em m inha vida, Moneo?
— Senhor? — Era apenas um sussurro.
— Eles m e tentaram prim eiro com a m aldade, depois com a bondade. Cada tentação m oldada com delicada atenção às m inhas suscetibilidades. Diga-m e, Moneo: se eu escolho o bem , isso m e torna bom ?
— É claro que sim , Senhor.
— Talvez você nunca perca o hábito de fazer j ulgam entos.
Moneo olhou um a vez m ais para a direção oposta ao Im perador, contem plando a borda do abism o. Leto rolou o corpo a fim de ver para onde ele olhava. Pinheiros anões tinham sido cultivados na beirada do cany on. Havia gotas de orvalho pendendo das agulhas úm idas, cada um a delas enviando um a prom essa de dor para Leto. Ele desej ava fechar a cobertura da carreta, m as havia algo naquelas j óias que atraía suas m em órias, m esm o que lhe repelisse o corpo. A sincronia oposta am eaçava perturbá-lo.
— Eu apenas não gosto de andar a pé — disse Moneo.
— Era o m odo Frem en — replicou Leto.
Moneo suspirou.
— Os outros estarão prontos dentro de alguns m inutos. Hwi estava fazendo o desj ej um quando eu sai.
Leto não respondeu. Seus pensam entos estavam perdidos em m em órias da noite aquela que acabara de passar e as m ilhares de noites que se apinhavam no passado —, das nuvens e das estrelas, das chuvas e do negrum e aberto, salpicado com flocos brilhantes de um cosm o despedaçado, um universo de noites, extravagante com elas com o ele fora com as batidas de seu coração.
Moneo subitam ente perguntou:
— Onde estão suas guardas?
— Eu as m andei com er.
— Não gosto que o deixem desguarnecido!
O som cristalino da voz de Moneo vibrou nas m em órias de Leto, falando coisas que não eram expressas em palavras. Moneo tem ia um universo onde não houvesse Im perador-Deus. Preferia m orrer a viver em tal universo.
— Que irá acontecer hoj e? — ele quis saber.
Era um a pergunta dirigida, não ao Im perador-Deus, m as ao profeta.
— Um a sem ente soprada pelo vento pode ser o salgueiro de am anhã — ele disse.
— O Senhor conhece nosso futuro! Por que não o com partilha?
— Moneo estava perto da histeria... recusava qualquer coisa que seus sentidos im ediatos não lhe relatassem .
Leto virou-se com um olhar penetrante para seu m aj ordom o, um olhar tão obviam ente cheio de em oções acum uladas que Moneo recuou.
— Cuide de sua própria vida, Moneo!
Moneo respirou fundo, trêm ulo.
— Senhor, não queria ofendê-lo. Buscava apenas.
— Olhe para cim a, Moneo!
Involuntariam ente ele obedeceu, olhando para um céu sem nuvens, onde a claridade da m anhã se intensificava.
— Que é, Senhor?
— Não existe um teto protetor acim a de você, Moneo. Som ente um céu aberto, cheio de m udanças. Dê graças a ele. Cada sentido que você possui é um instrum ento para reagir à m udança. Isso não lhe diz nada?
— Senhor, vim aqui apenas para perguntar quando estaria pronto para prosseguir.
— Moneo, peço-lhe para ser sincero com igo.
— Mas eu sou sincero, Senhor!
— Mas se você vive na m á fé, as m entiras lhe parecem verdades.
— Senhor, se eu m enti... então não sei.
— Isso tem a m arca da verdade. Mas sei o que você tem e e que não irá contar.
Moneo com eçou a trem er. O Im perador-Deus estava no m ais terrível dos estados de espírito, com um a am eaça profunda em cada palavra.
— Você tem e o im perialism o da consciência — disse Leto. — E tem razão de tem ê-lo. Mande Hwi para cá im ediatam ente!
Moneo virou-se nos calcanhares e correu de volta para a casa de hospedagem . Foi com o se sua entrada alvoroçasse um a colônia de insetos. Em questão de segundos, as Oradoras Peixes em ergiam tom ando posição ao redor da Carreta Real. Cortesãos olhavam das j anelas da hospedaria ou saiam para se colocar sob as beiradas do telhado, com m edo de se aproxim arem dele. Em contraste com toda essa excitação, Hwi saiu daí a pouco pela am pla porta central e cam inhou para fora das som bras, aproxim ando-se lentam ente de Leto, queixo levantado, o olhar buscando-lhe a face.
Leto sentiu que se acalm ava ao olhar para ela. Hwi usava um vestido dourado que ele não vira antes. Fora bordado com linha cor de prata e j ade em torno da gola e dos punhos das longas m angas. A bainha, quase arrastando-se no chão, tinha um espesso bordado verde para delinear guarnições de um verm elho profundo.
Ela sorriu ao parar diante dele.
— Bom dia, am or — disse ela suavem ente. — Que fez para deixar o pobre Moneo tão perturbado?
Tranqüilizado pela presença dela e por sua voz, ele sorriu.
— Fiz o que sem pre espero fazer. Produzi um efeito.
— Certam ente que produziu. Ele contou às Oradoras Peixes que você estava num furioso e terrível estado de espírito. Está aterrorizador, am or?
— Som ente para aqueles que se recusam a viver com suas próprias forças.
— Ah, sim . — Ela voltou-se para ele, então, exibindo seu novo vestido... — Gosta dele? Foram suas Oradoras Peixes que m e deram . Elas m esm as o decoraram .
— Meu am or — disse ele com um tom caloroso. — Decoração! É assim que você prepara o sacrifício.
Ela veio até a beirada da carreta e se inclinou, apoiando-se nela, logo abaixo do rosto de Leto, um a expressão falsam ente solene em seus lábios.
— Elas vão m e sacrificar, então?
— Algum as delas gostariam .
— Mas você não perm itirá.
— Nossos destinos estão unidos.
— Então não vou ter m edo.
Ela estendeu a m ão, tocando a pele prateada de um a das m ãos dele, m as recuou rapidam ente quando os dedos dele com eçaram a trem er.
— Perdoe-m e, am or. Esqueci que estam os unidos em nossas alm as, não em nossa carne — ela disse.
A pele de truta da areia ainda estrem ecia com o toque de Hwi.
— A um idade no ar m e torna excessivam ente sensível — explicou ele.
Lentam ente, os trem ores desapareceram .
— Recuso-m e a lam entar o que não pode ser — sussurrou ela.
— Sej a forte, Hwi, pois sua alm a é m inha.
Ela voltou-se ante um som vindo da hospedaria.
— Moneo está de volta — ela disse. — Por favor, am or, não o assuste.
— Moneo é seu am igo tam bém ?
— Som os am igos pelo estôm ago. Am bos gostam os de iogurte.
Leto ainda estava rindo quando Moneo parou ao lado de Hwi. Arriscou um sorriso, lançando um olhar intrigado para a m oça. Havia gratidão nos m odos do m aj ordom o, e algo da subserviência que ele acostum ara a m ostrar com relação a Leto agora se voltava para Hwi:
— Está tudo bem com a Senhora, Lady Hwi?
— Vai tudo bem com igo.
Leto disse:
— Na hora do estôm ago, os am igos do estôm ago devem ser nutridos e cultivados. Vam os prosseguir em nosso cam inho, Moneo. Tuono nos espera.
Moneo voltou-se, gritando ordens para cortesãos e Oradoras Peixes.
Leto sorriu para Hwi.
— Eu não faço o papel do noivo im paciente com certo estilo?
Ela saltou num ágil m ovim ento para o leito da carreta, a saia segura por um a das m ãos. Desdobrou o assento para si m esm a. Só quando estava sentada, seus olhos no m esm o nível dos de Leto, foi que Hwi respondeu, e num a voz apenas para os ouvidos dele.
— Am or de m inha alm a, capturei outro de seus segredos.
— Diga-m e de seus próprios lábios — ele disse, brincando nessa nova intim idade que havia entre eles.
— Você raram ente precisa de palavras — disse ela. — Você fala diretam ente aos sentidos com sua própria vida.
Um estrem ecim ento percorreu o corpo inteiro de Leto. Dem orou um instante antes que ele pudesse falar, e então foi num a voz que a obrigou a se esforçar para ouvir, acim a do burburinho do cortej o que se agrupara.
— Entre o sobre-hum ano e o inum ano — ele disse —, tenho m uito pouco espaço para ser hum ano. Eu lhe agradeço, gentil e adorável Hwi, por esse pequeno espaço.