O Imperador-Deus de Duna

Frank Herbert · Capítulo 4 de 25

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O Imperador-Deus de Duna

Vocês devem lembrar-se de que eu possuo…

Vocês devem lembrar-se de que eu possuo internamente, ao meu alcance, cada habilidade e cada experiência conhecida em nossa história. Esse é o reservatório de energia no qual me alimento quando abordo a mentalidade da guerra. Se vocês nunca ouviram os gritos e os gemidos dos feridos e agonizantes, então não conhecem a guerra. Eu já ouvi tais gritos em tamanho número que eles me perseguem. Eu mesmo já gritei no final de uma batalha. E sofri ferimentos de todas as épocas: ferimentos jeitos com punhos, pedras e cajados. Com membros couraçados e espadas de bronze, maça e canhão. De espadas e armas laser à silenciosa asfixia da poeira atômica. De invasões biológicas que enegrecem a língua e afogam os pulmões ao esguicho rápido de chamas, ao trabalho silencioso de venenos lentos... e mais ainda que não contarei! Eu os vi e senti a todos. E àqueles que se atrevem a me perguntar por que me comporto da maneira como me comporto, eu respondo: Com minhas memórias, não posso fazer outra coisa. Não sou um covarde, e um dia já fui humano.

— Os diários roubados

 

Na estação quente, quando os controladores do satélite m eteorológico eram forçados a lidar com ventos atravessando os grandes m ares, o cair da tarde freqüentem ente presenciava a queda de chuva nas extrem idades do Sareer. Moneo, retornando de um a de suas inspeções periódicas ao perím etro da Cidadela, foi apanhado num a dessas pancadas súbitas. A noite caiu antes que ele alcançasse o abrigo, e um a guarda das Oradoras Peixes o aj udou a retirar sua capa úm ida no portal sul. Era um a m ulher corpulenta, de constituição rij a, com o rosto quadrado, do tipo que Leto preferia para suas guardiãs.

— Aqueles m alditos controladores do clim a deviam ser obrigados a trabalhar m elhor — disse ela enquanto pegava a capa.

Moneo assentiu rapidam ente com a cabeça antes de com eçar a subida para seus aloj am entos. Todas as Oradoras Peixes conheciam a aversão que o Im perador-Deus tinha por um idade, m as nenhum a delas fazia a distinção de Moneo.

“E o Verm e que odeia a água”, pensou Moneo. “O Shai-Hulud anseia por Duna.”

Em seus aposentos, Moneo enxugou-se e vestiu roupas secas antes de descer para a cripta. Não havia razão para atrair o antagonism o do Verm e. Um a conversa ininterrupta com Leto era necessária agora, um a conversa franca a respeito da pendente peregrinação à Cidade Festival de Onn.

Apoiando-se contra a parede do elevador que descia, Moneo fechou os olhos. Im ediatam ente a fadiga o dom inou. Sabia não ter dorm ido o suficiente nos últim os dias, e não havia descanso à vista. Invej ava a aparente liberdade de Leto quanto à necessidade do sono. Algum as horas de sem i-repouso por m ês pareciam o suficiente para o Im perador-Deus.

O cheiro da cripta e a parada do elevador arrancaram Moneo de seu cochilo. Ele abriu os olhos e fitou o Im perador-Deus sobre sua carreta no centro da Grande Câm ara. Moneo em pertigou-se e fez a cam inhada fam iliar até aquela terrível presença. Com o era de se esperar, Leto parecia alerta. Isso, pelo m enos, era um bom sinal.

Leto ouvira o elevador se aproxim ando e viu Moneo despertar. O hom em parecia cansado e isso era com preensível. A peregrinação a Onn estava próxim a, com todas as obrigações cansativas referentes aos visitantes de fora do planeta, o ritual das Oradoras Peixes, os novos em baixadores, a m udança da Guarda Im perial, as aposentadorias e nom eações, e agora o novo ghola, Duncan Idaho, a ser encaixado na engrenagem bem lubrificada do aparato im perial. Moneo ocupava-se com um núm ero crescente de detalhes e com eçava a dem onstrar sua idade.

“Deixe-m e ver”, pensou Leto. “Moneo fará 180 anos de idade na sem ana após nosso regresso de Onn.”

Um hom em poderia viver m uitas vezes esse tem po se consum isse a especiaria, m as ele se recusava. Leto não tinha dúvidas quanto à razão: Moneo entrara naquela condição hum ana peculiar em que ansiava pela m orte. Agora apenas esperava para ver Siona instalada no Serviço Real, a próxim a diretora da Sociedade Im perial das Oradoras Peixes.

“Minhas huris”, com o Malky costum ava cham á-las.

E Moneo conhecia a intenção de Leto de unir Siona a Duncan. Era época.

Moneo parou a dois passos do carro e olhou para Leto. Algum a coisa em seu olhar fez Leto lem brar-se do rosto de um sacerdote pagão dos tem pos da Terra, em dedicada súplica num santuário fam iliar.

— Senhor, passou m uitas horas observando o novo Duncan — disse Moneo. — Terão os Tleilaxu alterado suas células ou sua psique?

— Ele está im aculado.

Um profundo suspiro fez Moneo estrem ecer. Não havia prazer nele.

— Faz obj eção ao seu uso com o reprodutor? — indagou Leto.

— Acho peculiar pensar nele ao m esm o tem po com o ancestral e pai de m eus descendentes.

— Mas ele m e dá acesso a um cruzam ento de prim eira geração entre um a form a hum ana m ais antiga e os atuais produtos de m eu program a de procriação controlada. Siona está afastada 21 gerações de tal cruzam ento.

— Não consigo perceber o propósito de tal coisa. Os Duncans são m ais lentos e m enos alertas do que qualquer um de sua guarda.

— Não estou procurando bons resultados individuais, Moneo. Você acha que não tenho consciência da progressão geom étrica ditada pelas leis que governam m eu program a de procriação?

— Já vi seu livro de estoque genético, Senhor.

— Então sabe que m antenho registro dos recessivos e os elim ino. As chaves genéticas dom inantes são m eu obj etivo.

— E as m utações, Senhor? — Havia um a nota de astúcia na voz de Moneo que fez com que Leto observasse o hom em atentam ente.

— Não discutirem os esse assunto, Moneo.

Leto observou Moneo recolocar sua arm adura de cautela. “Com o ele é extrem am ente sensível aos m eus estados de espírito. Creio que ele possui algum as de m inhas habilidades, em bora elas operem no nível do inconsciente. Sua pergunta sugere que ele pode m esm o suspeitar do que conseguim os em Siona.”

Testando isso, Leto disse:

— Parece-m e evidente que não com preende o que busco conquistar com m eu program a de procriação.

Moneo pareceu anim ar-se.

— Meu Senhor sabe que tento perceber suas regras.

— As leis tendem a se tornar tem porárias a longo prazo, Moneo. Não existe tal coisa com o a criatividade governada por regras.

— Mas o Senhor m esm o falou em leis que governariam seu program a de procriação.

— O que acabei de lhe dizer, Moneo? Tentar encontrar regras para a criação é com o tentar separar a m ente do corpo.

— Mas algum a coisa está evoluindo, Senhor. Eu sei por m im m esm o!

“Ele sabe por si m esm o! Querido Moneo. Está tão perto.”

— Por que você sem pre busca traduções absolutam ente derivativas, Moneo?

— Eu o ouvi falar em evolução transiorm acional, Senhor. Esse é o título em seu livro sobre genética. Mas e quanto à surpresa.

— Moneo! As regras m udam com cada surpresa.

— Senhor, não tem em m ente nenhum aperfeiçoam ento do estoque hum ano?

Leto olhou para ele pensando: “Se eu usar agora a palavra-chave, será que ele com preenderá?”

— Eu sou um predador, Moneo.

— Pred... — Moneo não chegou a term inar, sacudindo a cabeça.

Ele sabia o significado da palavra, m as esta em si o chocara. Estaria o Im perador-Deus brincando?

— Predador, Senhor?

— O predador m elhora a espécie.

— Com o pode ser, Senhor? O Senhor não nos odeia.

— Você m e desaponta, Moneo. O predador nem sem pre odeia sua presa.

— Os predadores m atam , Senhor.

— Eu m ato, m as não odeio. A presa sacia a fom e. A presa é boa.

Moneo fitou o rosto de Leto em seu capuz cinzento. “Terei deixado de perceber a aproxim ação do Verm e?”, adm irou-se Moneo.

Tem eroso, Moneo buscou os indícios. Não havia trem ores no corpo, em baçam ento no olhar ou contorcer das inúteis barbatanas.

— De que tem fom e, Senhor? — arriscou Moneo.

— Anseio por um a hum anidade verdadeiram ente capaz de tom ar decisões a longo prazo. Sabe qual é a chave para essa habilidade, Moneo?

— O Senhor o disse m uitas vezes. E a habilidade de m udar de opinião. Mudar de ponto de vista.

— Mudar, sim . E você sabe o que quero dizer com longo prazo?

— Para o Senhor, longo prazo deve significar m ilênios.

— Moneo, até m esm o os m eus m ilênios não passam de um ponto insignificante em relação ao Infinito.

— Mas sua perspectiva deve ser diferente da m inha, Senhor.

— Em vista do Infinito, qualquer longo prazo definido se torna um curto prazo.

— Então, verdadeiram ente, não existem regras, Senhor? — A voz de Moneo transm itia um fraco indício de histeria.

Leto sorriu para aliviar as tensões do hom em .

— Talvez um a: as decisões tom adas a curto prazo tendem a fracassar a longo prazo.

Moneo sacudiu a cabeça, frustrado.

— Mas Senhor, sua perspectiva é...

— O Tem po se esgota para qualquer observador finito. Não existem sistem as fechados. Até m esm o eu apenas estico um a m atriz finita.

Num m ovim ento brusco, Moneo afastou sua atenção da face do Im perador, olhando as distâncias sugeridas pelos corredores do m ausoléu. “Eu estarei lá algum dia. O Cam inho Dourado poderá continuar, m as eu term inarei.” Isso não era im portante, é claro. Apenas o Cam inho Dourado que ele podia sentir em ininterrupta continuidade, apenas aquilo im portava. Voltou a olhar para Leto, m as não para seus olhos com pletam ente azuis. Haveria realm ente um predador à espreita naquele corpo volum oso?

— Você não com preende a função de um predador — disse Leto.

As palavras chocaram Moneo, pois indicavam um a leitura de m ente. Ele voltou seu olhar para os olhos de Leto.

— Você sabe intelectualm ente que até m esm o eu sofrerei algum tipo de m orte, algum dia — disse Leto. — Mas não acredita nisso.

— Com o posso acreditar em algo que nunca testem unharei?

Moneo nunca se sentira m ais solitário e tem eroso. Que estaria fazendo o Im perador-Deus? “Eu desci aqui para discutir os problem as da peregrinação — . — e para descobrir suas intenções com relação a Siona. Será que ele está brincando com igo?”

— Vam os falar sobre Siona — disse Leto.

“Leitura da m ente outra vez!”

— Quando irá testá-la, Senhor? — A pergunta estivera aguardando diante de sua consciência por todo o tem po, m as, agora que a enunciara, Moneo a tem ia.

— Logo.

— Perdoe-m e, Senhor, m as certam ente sabe o quanto tem o pelo bem -estar de m inha única filha.

— Outros sobreviveram ao teste, Moneo. Você m esm o.

Moneo engoliu em seco, relem brando com o havia sido sensibilizado para o Cam inho Dourado.

— Minha m ãe m e preparou. Siona não tem m ãe.

— Ela tem as Oradoras Peixes. Ela tem você.

— Acidentes acontecem , Senhor.

Lágrim as brotaram nos olhos de Moneo.

Leto afastou o olhar da direção dele, pensando: “Ele está dividido entre sua lealdade para com igo e seu am or por Siona. Com o é tocante essa preocupação com a prole. Será que ele não vê que a hum anidade inteira é m inha única filha?”

Voltando sua atenção para Moneo, Leto disse:

— Você está certo ao observar que acidentes acontecem , m esm o em m eu universo. Será que isso não lhe ensina coisa algum a?

— Senhor, apenas desta vez não poderia — —.

— Moneo! Certam ente não está pedindo que eu delegue autoridade a um a adm inistradora fraca.

Moneo recuou um passo.

— Não, Senhor. E claro que não.

— Então confie na força de Siona.

Moneo endireitou os om bros.

— Eu farei o que for preciso.

— Siona deve ser despertada para suas obrigações com o um a Atreides.

— Sim , é claro, Senhor.

— Não é esse o nosso com prom isso, Moneo?

— Não o nego, Senhor. Quando irá apresentá-la ao novo Duncan?

— O teste vem prim eiro.

Moneo olhou para o piso frio da cripta.

“Ele olha para o chão com tanta freqüência”, pensou Leto. “O que ele pode ver no chão? As m arcas m ilenares da m inha carreta? Ah, não. — — e nas profundezas que ele perscruta, nos rem os dos m istérios e tesouros que ele espera penetrar logo.

Um a vez m ais Moneo ergueu o olhar para o rosto de Leto.

— Eu espero que ela aprecie a com panhia do Duncan.

— Tenha certeza disso. Os Tleilaxu o trouxeram para m im em sua form a não-distorcida.

— Isso é tranqüilizador, Senhor.

— Sem dúvida j á observou que seu genótipo é notavelm ente atraente para as m ulheres.

— Essa foi m inha observação, Senhor.

— Existe algo naqueles olhos suaves e observadores, naquelas feições fortes e no cabelo negro e espesso com o pêlo de cabra que positivam ente derrete a psique fem inina.

— Com o o Senhor diz.

— Sabe que agora m esm o ele está com as Oradoras Peixes?

— Eu fui inform ado, Senhor.

Leto sorriu. E claro que Moneo fora inform ado.

— Elas o trarão logo para sua prim eira visão do Im perador-Deus.

— Inspecionei pessoalm ente a sala de audiências. Tudo está pronto, Senhor.

— Algum as vezes acho que você desej a m e enfraquecer, Moneo. Deixe alguns desses detalhes para m im .

Moneo tentou ocultar a constrição do m edo. Curvou-se e recuou.

— Sim , Senhor. Mas há algum as coisas que eu devo fazer.

Voltando-se, saiu apressado. Só quando j á estava subindo no elevador foi que Moneo percebeu que tinha saído sem esperar a perm issão.

“Ele deve saber o quanto estou cansado. Vai m e perdoar.”

Teu Senhor conhece m uito bem o que se encontra em teu coração. Sua alm a é o bastante, hoj e, com o testem unha contra você. Eu não preciso de outros depoim entos. Tu não escutas a tua alm a, e sim o teu ódio e a tua raiva

— Lorde Leto a um penitente,

Da História Oral

A seguinte avaliação do estado do Im pério no ano 3508 do reinado de Lorde Leto foi retirada do Resum o de Welbeck. O original encontra-se nos Arquivos da Ordem Bene Gesserit. Um a com paração revela que o que foi subtraído não prej udica a precisão essencial do relato.

Em nom e de nossa Sagrada Ordem , em sua inquebrantável Irm andade, este relato foi j ulgado confiável e digno de entrar em nossas crônicas.

As irm ãs Chenoeh e Tawsuoko retornaram em segurança de Arrakis para nos trazerem a confirm ação da execução de nove historiadores que desapareceram na Cidadela durante o ano de 2116 do reinado de Lorde Leto, fato de que há m uito suspeitávam os. As irm ãs relatam que os nove foram deixados inconscientes e em seguida queim ados em piras feitas com seus próprios trabalhos publicados. Isso corresponde exatam ente às histórias que circularam através do Im pério naquela ocasião. Os relatos da época foram j ulgados com o tendo se originado do próprio Leto.

As irm ãs Chenoeh e Tawsuoko trazem registros escritos do relato de um a testem unha, dizendo que, quando Lorde Leto foi procurado por outros historiadores, buscando notícias de seus com panheiros, ele disse:

“Eles foram destruídos porque m entiram pretensiosam ente. Não tem am que m inha ira caia sobre vocês devido a erros inocentes. Eu não gosto m uito de criar m ártires. Os m ártires tendem a provocar eventos dram áticos no curso dos assuntos hum anos.

O dram a é um dos alvos da m inha predação. Trem am apenas se criarem falsos relatos e se apoiarem orgulhosam ente sobre eles. Vão em bora agora e não m encionem m ais isso.

A evidência interna, no relato escrito a m ão, identifica seu autor com o Ikonicre, m aj ordom o de Lorde Leto no ano 2116.

Deve-se dedicar atenção ao uso, por Lorde Leto, da palavra predação. Isso é altam ente sugestivo em vista das teorias apresentadas pela Reverenda Madre Sy aksa, de que o Im perador-Deus vê a si próprio com o um predador no sentido natural.

A Irm ã Chenoeh foi convidada a acom panhar as Oradoras Peixes no cortej o que seguiu um a das pouco freqüentes peregrinações de Lorde Leto. Em certo trecho ela foi cham ada para cam inhar ao lado da Carreta Real, podendo conversar com Lorde Leto em pessoa. Ela relata o diálogo com o se segue:

Lorde Leto disse: “Aqui, na Estrada Real, às vezes m e sinto com o se m e colocasse sobre m uralhas, protegendo-m e contra os invasores.

A Irm ã Chenoeh disse: “Ninguém o ataca aqui, Senhor.”

Lorde Leto disse: “Sua Bene Gesserit m e assalta por todos os lados. Mesm o agora, vocês buscam subornar m inhas Oradoras Peixes.”

A Irm ã Chenoeh diz que se preparou para a m orte, m as que o Im perador-Deus apenas deteve sua carreta e olhou por sobre ela para o seu séquito. Ela conta que os outros pararam , aguardando na estrada em bem treinada passividade, todos m antendo respeitosa distância.

E Lorde Leto disse: “Lá está m inha pequena m ultidão e eles m e dizem tudo. Não negue m inha acusação.”

A Irm ã Chenoeh disse: “Eu não estou negando.”

Lorde Leto olhou então para ela e disse: “Não tem a por sua pessoa. E m eu desej o que relate m inhas palavras à sua Irm andade.”

A Irm ã Chenoeh diz ter percebido então que Lorde Leto sabia tudo a respeito dela, a respeito de sua m issão, seu treinam ento com o registradora oral, tudo. “Ele era com o um a Reverenda Madre”, ela com entou. “Não era possível esconder-lhe coisa algum a.”

E Lorde Leto então lhe ordenou: “Olhe para a m inha Cidade Festival e m e diga o que vê.”

A Irm ã Chenoeh olhou para Onn e disse: “Eu vej o a cidade a distância. Ela é bela à luz da m anhã. La’ está a sua floresta à direita. Ela possui tantas tonalidades de verde que eu poderia passar o dia inteiro a descrevê-las. Para a esquerda e por toda a volta da Cidade, espraiam -se os j ardins e as casas de seus servidores. Alguns deles parecem m uito ricos e outros, m uito pobres.”

Lorde Leto disse: “Nós atravancam os esta paisagem ! Árvores atravancam . Casas, j ardins;,.. Você não pode exultar ante novos m istérios em tal paisagem .

A Irm ã Chenoeh, estim ulada pelas garantias de Leto, perguntou: “E o Senhor realm ente desej a os m istérios?”

Ele respondeu: “Não existe liberdade espiritual externa em tal panoram a. Não percebe isso? Não tem os um universo aberto para partilhar aqui. Tudo é fechado... Portas, trancas, trincos!

A Irm ã Chenoeh indagou: “Será que a hum anidade não tem m ais necessidade de privacidade ou proteção?”

Lorde Leto disse: “Quando você voltar, diga a suas irm ãs que eu vou restaurar a visão exterior. Um a paisagem com o esta leva a pessoa a olhar para seu interior em busca de qualquer liberdade de espírito que possa encontrar dentro de si. E a m aioria dos hum anos não é suficientem ente forte para encontrar liberdade no seu interior.”

A Irm ã Chenoeh respondeu: “Eu relatarei suas palavras com precisão, Senhor.”

Lorde Leto disse: “Certifique-se disso. Diga a suas irm ãs tam bém que as Bene Gesserits, entre todas as pessoas, devem conhecer os perigos da procriação em busca de um a característica particular, à procura de- um obj etivo genético definido.”

A Irm ã Chenoeh diz que essa era um a referência óbvia ao pai de Lorde Leto, Paul Atreides. Deve-se notar que nosso program a de procriação conquistou o Kwisatz Haderach um a geração m ais cedo. Ao se tornar o Muad’Dib, líder dos Frem en, Paul Atreides escapou ao nosso controle. Não há dúvida de que ele era um m acho com os poderes de um a Reverenda Madre, além de outros poderes pelos quais a hum anidade ainda se encontra pagando um pesado preço. Com o Lorde Leto disse:

“Vocês conseguiram aquilo que não esperavam . Vocês m e conseguiram , o coringa do baralho. E eu consegui Siona.”

Lorde Leto recusou-se a esclarecer essa referência à filha de seu m aj ordom o, Moneo. A questão está sendo investigada.

Nos outros assuntos de interesse para a Irm andade, nossas investigadoras forneceram -nos as seguintes inform ações sobre:

AS ORADORAS PEIXES

As legiões fem ininas de Lorde Leto elegeram suas representantes para com parecerem ao Festival Decenal em Arrakis. Três representantes estarão presentes para cada guarnição planetária. (Ver, em anexo, relação das escolhidas.) Com o de costum e, nenhum adulto do sexo m asculino com parecerá, nem m esm o os consortes das oficiais Oradoras Peixes. A lista de consortes m udou m uito pouco neste período do relatório. Acrescentam os os nom es, com inform ações genealógicas, onde era possível. Note-se que apenas dois nom es podem ser destacados com o descendentes dos gholas Duncan Idaho. Nada há de novo que possam os acrescentar quanto às nossas especulações sobre o uso dos gholas em seu program a de procriação.

Nenhum de nossos esforços no sentido de form ar um a aliança entre as Oradoras Peixes e a Bene Gesserit teve sucesso durante este período. Lorde Leto continua a aum entar o tam anho de certas guarnições. Tam bém continua a enfatizar as outras m issões das Oradoras Peixes, ao m esm o tem po em que desenfatiza suas m issões m ilitares. Isso teve o resultado esperado de aum entar a adm iração, o respeito e a gratidão pela presença dessas guarnições em cada local. (Ver, em anexo, a relação das guarnições que aum entaram de tam anho. Nota do Editor: As únicas guarnições pertinentes eram as situadas nos planetas natais das Bene Gesserits, dos Ixianos e dos Tleilaxu. Não houve aum ento do núm ero de m onitores da Corporação Espacial.)

CLERO

Exceto por algum as substituições e m ortes naturais que estão enum eradas nos anexos, não houve m udanças significativas. Os consortes e os funcionários destacados para a realização de tarefas rituais perm anecem poucos, seus poderes lim itados pela contínua necessidade de consultar Arrakis antes de qualquer ação im portante. Na opinião da Reverenda Madre Sy aksa e de algum as outras, a característica religiosa das Oradoras Peixes encontra-se em lento declínio.

PROGRAMA DE PROCRIAÇÃO

A não ser a inexplicada referência a Siona e à nossa falha com seu pai, nada tem os a acrescentar com relação à nossa contínua m onitoração do program a de procriação de Lorde Leto. Existem evidências de um a certa casualidade em seu plano, reforçadas pela declaração de Lorde Leto a respeito de “obj etivos genéticos”, m as não tem os certeza de que ele tenha sido sincero com a Irm ã Chenoeh. Cham am os sua atenção para as m uitas ocasiões em que ele ou m entiu ou m udou de direção drasticam ente e sem qualquer aviso.

Lorde Leto continua a proibir nossa participação em seu program a de procriação. Suas m onitoras em nossa guarnição de Oradoras Peixes perm anecem inflexíveis quanto a elim inar nossos nascim entos a que fazem obj eção. Som ente os m ais rigorosos controles nos perm itiram m anter o nível de Reverendas Madres durante este período do relatório. Nossos protestos não obtiveram resposta. E, em resposta a um a pergunta direta da Irm ã Chenoeh, Lorde Leto disse:

“Agradeçam por aquilo que vocês tem .”

Esse aviso é notado aqui. Nós transm itim os um a graciosa carta de agradecim ento a Lorde Leto.

ECONOMIA

A Irm andade continua m antendo sua solvência, m as as m edidas de econom ia não podem ser afrouxadas. De fato, com o precaução, novas m edidas serão instituídas durante o próxim o período de relatório. Essas m edidas incluirão a redução dos usos rituais da m elange e o aum ento das taxas cobradas por nossos serviços norm ais. Esperam os dobrar as m ensalidades para o ensino de m ulheres das Grandes Casas durante os próxim os quatro períodos de relatório. Vocês, portanto, ficam encarregadas de com eçar a preparar seus argum entos em defesa de tal procedim ento.

Lorde Leto negou nossa petição no sentido de um aum ento da nossa quota de m elange. Nenhum a razão foi fornecida.

Nosso relacionam ento com a Com bine Honnete Ober Advancer Mercantiles perm anece sólido. A CHOAM obteve, no período deste relatório, um cartel regional de Jóias Estelares, proj eto do qual obtem os lucro substancial através de nossas atividades de assessoria e barganha. Os atuais lucros desse acordo devem ser m ais que suficientes para com pensar nossas perdas em Giedi Prim e. O investim ento em Giedi Prim e foi cancelado.

GRANDES CASAS

Trinta e um a das antigas Grandes Casas sofreram desastres econôm icos durante o período deste relatório. Som ente seis conseguiram m anter o status de Casa Menor. (Ver relação em anexo.) Essa continua a ser um a tendência geral, notada durante os m il anos passados, quando as antigas Grandes Casas foram perdendo gradualm ente a sua im portância. Deve-se notar que as seis que conseguiram evitar o desastre total eram todas fortes investidoras da CHOAM, e cinco dessas seis estavam profundam ente envolvidas no Proj eto das Jóias Estelares. A única exceção apresentava um portfolio diversificado, incluindo um investim ento substancial em antigas peles de baleia de Caladan.

(Nossas reservas de arroz ponj i quase dobraram neste período, à custa de nossas ações em peles de baleia. As razões para essa decisão serão revistas no próxim o período.)

VIDA FAMILIAR

Com o foi observado por nossas investigadoras durante os 2 m il anos precedentes, a hom ogeneização da vida fam iliar continua inalterada. As exceções são aquelas que devíam os esperar: a Corporação, as Oradoras Peixes, os Correios Reais e os m utáveis Dançarm os Faciais dos Tleilaxu (que ainda são híbridos, a despeito de todos os esforços no sentido de m udar tal condição), e nossa própria situação, é claro.

Deve-se notar que a estrutura fam iliar se torna m ais e m ais sem elhante, não im portando qual o planeta de residência, circunstância que não pode ser considerada acidental. Observam os aqui a em ergência de um dos grandes desígnios de Lorde Leto. Mesm o as fam ílias m ais pobres são bem alim entadas, é verdade, m as as condições da vida diária se tornam cada vez m ais estáticas.

Lem bro a vocês um a declaração de Lorde Leto que foi relatada há m ais de oito gerações:

“Eu sou o único espetáculo que resta no Im pério.”

A Reverenda Madre Sy aksa propôs um a explicação teórica para essa tendência, um a teoria que m uitas entre nós estão com eçando a com partilhar. A RM Sy aksa atribui a Lorde Leto um m otivo baseado no conceito de despotism o hidráulico. Com o sabem , o despotism o hidráulico só é possível quando a substância, ou condição sobre a qual a vida em geral se assenta de m odo absoluto, pode ser controlada por um a força relativam ente pequena e centralizada. O conceito de despotism o hidráulico originou-se quando o fluxo de água para irrigação aum entava as populações locais até um nível de dependência absoluta. Quando o fluxo da água era interrom pido, as pessoas m orriam em grande núm ero.

Esse fenôm eno tem se repetido m uitas vezes ao longo da história hum ana, e não apenas com a água e os produtos da terra cultivada, m as tam bém com com bustíveis hidrocarbonados, tais com o o petróleo e o carvão, os quais eram controlados através de oleodutos e outras redes de distribuição. Em certa época, quando a distribuição de eletricidade era efetuada apenas através de com plicadas redes de fios estendidos através da paisagem , até m esm o esse recurso energético serviu de base para o despotism o hidráulico.

A RM Sy aksa propõe que Lorde Leto está conduzindo o Im pério rum o a um a dependência cada vez m aior em relação à m elange. Vale notar que o processo de envelhecim ento pode ser considerado um a doença para a qual a m elange constitui um tratam ento específico, em bora não um a cura. A RM Sy aksa sugere que Lorde Leto pode m esm o chegar ao ponto de introduzir um a nova doença que só possa ser curada com a m elange. Em bora essa possa parecer um a idéia extravagante, não deve ser inteiram ente descartada com o possibilidade. Coisas m ais estranhas j á aconteceram , e não devem os subestim ar o papel da sífilis na história hum ana inicial.

TRANSPORTES/CORPORAÇÃO

O sistem a de transporte por três m odos, outrora peculiar a Arrakis (isto é: a pé, com as cargas pesadas m ontadas em catres erguidos por suspensores; pelo ar, via ornitópteros; e fora do planeta, através dos transportes da Corporação), tem passado a dom inar m ais e m ais planetas do Im pério. A principal exceção perm anece sendo Ix.

Atribuím os isso, em parte, a um a involução planetária de volta a estilos de vida sedentários e estáticos. E em parte com o tentativa de copiar o padrão de Arrakis. A aversão generalizada a tudo que sej a Ixiano não desem penha m enor papel nessa tendência. E há tam bém o fato de que as Oradoras Peixes prom ovem esse padrão com o um m eio de reduzir seu trabalho na m anutenção da ordem .

A parte da Corporação Espacial nessa tendência repousa sobre a absoluta dependência de seus Navegadores com relação à m elange. Por isso estam os m antendo um a vigilância m inuciosa quanto ao esforço conj unto de Ix e da Corporação no sentido de desenvolverem um substitutivo m ecânico para os talentos de predição dos Navegadores. Sem a m elange ou algum outro m eio de se proj etar o curso de um heighliner, cada viagem transluz da Corporação arrisca-se a term inar em desastre. Em bora não sej am os m uito entusiásticas quanto a esse proj eto Corporação-IX, há sem pre um a possibilidade, e deverem os relatar a respeito disso assim que as condições o perm itirem .

O IMPERADOR-DEUS

A não ser por um pequeno crescim ento, notam os pouca m udança nas características físicas de Lorde Leto. A falada aversão à água não foi confirm ada, em bora o uso desse líquido com o barreira contra os verm es da areia originais de Duna estej a bem docum entado em nossos registros, da m esm a form a que a m orte da água, pela qual os Frem en m atavam um pequeno verm e para produzir a essência de especiaria em pregada em suas orgias.

Existem evidências consideráveis para a crença de que Lorde Leto aum entou sua vigilância sobre Ix, possivelm ente com o conseqüência do proj eto conj unto dos Ixianos com a Corporação. Certam ente um sucesso nesse proj eto reduziria seu dom ínio sobre o Im pério.

Ele continua a fazer negócios com Ix, com prando partes sobressalentes para a sua Carreta Real.

Um novo ghola Duncan Idaho foi enviado a Lorde Leto pelos Tleilaxu. Isso deixa claro que o ghola anterior está m orto, em bora as condições de sua m orte não sej am conhecidas. Cham am os sua atenção para indicações anteriores de que o próprio Leto m atou alguns de seus gholas.

Existem evidências crescentes de que Lorde Leto em prega com putadores. Se ele está, de fato, desafiando suas próprias proibições e as prescrições do Jihad Butleriano, a posse de um a prova quanto a isso aum entaria nossa influência sobre ele, possivelm ente ao ponto de possibilitar em preendim entos conj untos que há m uito tem os contem plado. O controle soberano sobre nosso program a de procriação é ainda a nossa preocupação prim ordial. Continuarem os nossas investigações, tendo em m ente, contudo, a seguinte advertência:

Com o em cada relatório anterior a este, devem os considerar a presciência de Lorde Leto. Não resta dúvida de que sua habilidade de prever eventos futuros — habilidade oracular m uito m ais poderosa que a de qualquer um de seus ancestrais — ainda perm anece o principal sustentáculo de seu controle político.

Nós não a desafiam os!

E nossa crença que ele conhece cada ação im portante que planej am os bem antes de ela acontecer. Guiam os, portanto, pela regra de nunca am eaçar conscientem ente sua pessoa ou o que possam os discernir de seu grande plano. Nossa m aneira de abordá-lo continuará sendo:

“Diga-nos se o am eaçam os para que possam os desistir.”

E:

“Fale-nos de seu grande plano para que possam os aj udá-lo.”

Ele não nos forneceu nenhum a resposta nova a qualquer das duas perguntas durante este período.

OS IXIANOS

Além do Proj eto conj unto Ix-Corporação, existe pouca coisa de im portância para ser relatada. Ix está enviando um novo em baixador para a corte de Lorde Leto, um a certa Hwi Noree, neta de Malky, que um dia foi considerado um grande am igo do Im perador-Deus. A razão para a escolha dessa substituta não nos é conhecida, em bora haj a um pequeno corpo de evidências indicando que essa Hwi Noree foi criada para um propósito específico, possivelm ente para ser a representante Ixiana na Corte. Tam bém tem os razão para acreditar que, exatam ente com o ela, Malky foi geneticam ente preparado com esse obj etivo oficial em m ente.

Continuarem os a investigar.

OS FREMEN DE MUSEU

Essas relíquias degeneradas dos outrora orgulhosos guerreiros continuam a operar com o a principal fonte de inform ações confiáveis sobre o que acontece em Arrakis. Eles representam um im portante item no orçam ento para o nosso próxim o período de relatório, de vez que suas exigências de pagam ento estão aum entando e não nos atrevem os a antagonizá-los.

E interessante notar que, em bora suas vidas tenham pouca sem elhança com as de seus ancestrais, seu desem penho nos rituais Frem en e sua habilidade de im itar os antigos costum es perm anecem im pecáveis. Atribuím os isso à influência das Oradoras Peixes sobre o treinam ento dos Frem en.

OS TLEILAXU

Não acreditam os que o novo ghola Duncan Idaho contenha qualquer surpresa. Os Tleilaxu continuam , a ser m uito prej udicados pela reação de Lorde Leto à sua única tentativa de m udar a natureza celular e psíquica do original.

Um recente enviado dos Tleilaxu renovou suas tentativas de nos atrair a um a aventura conj unta, o alegado propósito sendo a produção de um a sociedade inteiram ente fem inina, sem a necessidade de m achos. Por todas as razões óbvias, incluindo nossa desconfiança quanto a qualquer coisa oriunda dos Tleilaxu, respondem os com nossa habitual negativa educada. Nossa Com itiva ao Festival Decenal de Lorde Leto fará para ele um com pleto. relatório a respeito disso.

Respeitosam ente, subscrevem o-nos

Reverendas Madres Sy aksa, Yitob, Mam ulut, Eknekosk e Akeli.

 

Estranho como possa parecer, as grandes lutas, como as que vocês percebem emergir da leitura de meus diários, nem sempre parecem visíveis aos seus participantes. Muito depende do que as pessoas sonham na privacidade de seus corações. Sempre me preocupei em moldar os sonhos assim como as ações. Entre as linhas do meu diário, encontra-se a luta com a visão que a humanidade possui de si mesma — uma disputa suarenta num campo onde as motivações do nosso passado mais obscuro podem brotar de um reservatório inconsciente, tornando-se não apenas eventos com os quais temos de viver, mas eventos que precisamos enfrentar. É o monstro com cabeças de hidra que sempre nos ataca vindo de nosso lado cego. Eu rezo, portanto, para que, quando vocês tiverem atravessado sua porção do Caminho Dourado, a humanidade não seja mais como crianças inocentes dançando ao som de uma música que não podem ouvir.

— Os diários roubados

 

Nay la cam inhava a um passo firm e e regular enquanto subia a escadaria circular até a câm ara de audiências do Im perador-Deus, no topo da torre sul da Cidadela. A cada vez que ela atravessava o arco sudoeste da torre, as estreitas j anelas em fenda lançavam linhas de poeira dourada, bem -definidas, através do seu cam inho. Ela sabia que a parede central, ao lado dela, ocultava um elevador Ixiano suficientem ente grande para carregar o volum oso corpo de seu Senhor até a câm ara de cim a. Decerto seria grande o suficiente para carregar seu corpo relativam ente pequeno, m as ela não se ressentia do fato de ter de usar as escadarias.

Através das fendas abertas, a brisa trazia até ela o cheiro queim ado de pó de pedra da areia soprada. O sol baixo no horizonte incendiava de luz os flocos de m ineral verm elho na parede interna, com o pontos de rubi brilhante. Aqui e ali, ela lançava um a olhadela pelas j anelas em fenda até as dunas lá em baixo. Mas nem um a vez parou para adm irar as coisas que via a seu redor.

— Você possui um a paciência heróica, Nay la dissera-lhe seu Senhor um a vez.

A lem brança dessas palavras a anim ava agora.

Dentro da torre, Leto seguia o progresso de Nay la subindo a longa escada circular que espiralava em redor do tubo Ixiano. Seu avanço era transm itido até ele por um engenho Ixiano que proj etava a im agem dela, com um quarto do tam anho, num a região de foco tridim ensional diretam ente em frente de seus olhos.

“Com que precisão ela cam inha”, pensou ele.

A precisão, ele sabia, vinha da apaixonada sim plicidade da m oça.

Ela usava as roupas azuis das Oradoras Peixes e um m anto com capuz sem o falcão no peito. Um a vez passado o posto da guarda, no pé da torre, ela retirara a m áscara cibus que ele exigia que usasse nessas visitas pessoais. Seu corpo volum oso, m usculoso, era com o o de m uitas outras de suas guardiãs, m as o rosto não era com o o de nenhum a outra em toda a sua m em ória — quase quadrado, com um a boca tão larga que parecia estender-se em torno das bochechas, ilusão causada pelos profundos vincos nos cantos. Os olhos dela eram de um verde pálido, o cabelo, cortado curto, da cor de m arfim velho. Sua testa aum entava o efeito de um quadrado, quase chata com sobrancelhas pálidas que freqüentem ente passavam despercebidas devido aos olhos constrangedores. O nariz era reto, um a linha rasa que term inava j unto à boca de lábios finos.

Quando Nay la falava, suas grandes m andíbulas se abriam e se fechavam com o as de algum anim al prim itivo. Sua força, conhecida por poucos fora do Corpo de Oradoras Peixes, era lendária aqui. Leto a vira erguer um hom em de 100 quilos com um a só m ão. Sua presença em Arrakis fora conseguida originalm ente sem a intervenção de Moneo, em bora o m aj ordom o soubesse que Leto em pregava suas Oradoras Peixes com o agentes secretas.

Leto desviou o olhar da im agem em m ovim ento e olhou, através da larga abertura ao seu lado, para o deserto ao sul. As cores das rochas distantes dançaram em sua percepção: m arrom , dourado e âm bar profundo. Havia um a linha rosada num penhasco distante, a cor exata das penas da garça pequena. As garças não m ais existiam , exceto na m em ória de Leto, m as ele podia colocar aquela pálida tira de pedra de cor pastel ante um olho interior, e era com o se o pássaro extinto voasse diante dele.

A subida, ele sabia, devia estar com eçando a cansar até m esm o Nay la. Ela finalm ente parou para descansar, detendo-se dois degraus além da m arca de três quartos. O lugar preciso onde ela repousava todas as vezes. Era parte de sua precisão, um a das razões pelas quais ele a trouxera de volta de um a distante guarnição em Seprek.

Um falcão de Duna passou pela abertura ao lado de Leto, a apenas alguns com prim entos de asa da m uralha da torre, sua atenção m antida nas som bras da base da Cidadela. Pequenos anim ais algum as vezes em ergiam ali, Leto o sabia. No horizonte, além da rota do falcão, ele podia distinguir fracam ente um a linha de nuvens.

Que coisas estranhas eram elas para o Velho Frem en que existia nele: nuvens em Arrakis, e chuva, e água a céu aberto.

Leto lem brou suas vozes interiores: “Exceto por este últim o deserto, o m eu Sareer, a rem odelação de Duna num Arrakis verdej ante prosseguiu im placavelm ente desde os prim eiros dias do m eu reinado.”

A influência da geografia na história fora geralm ente despercebida, pensou Leto. Os seres hum anos tendiam a observar m ais a influência da história na geografia.

“Quem possui esta passagem de rio? Este vale verdej ante? Esta península? Este planeta? Nenhum de nós.”

Nay la estava subindo um a vez m ais, seu olhar fixo nas escadas que ainda devia suplantar. Os pensam entos de Leto voltaram -se para ela.

“De m uitas m aneiras, ela é a assistente m ais útil que j á tive. Eu sou o Deus dela. Ela m e adora sem questionam entos. Mesm o quando eu, de brincadeira, ataco a sua fé, ela recebe isso m eram ente com o um teste. E se j ulga superior a qualquer teste.”

Quando ele a enviara para participar da rebelião e lhe dissera para obedecer Siona em todas as coisas, ela não questionara. Quando Nay la duvidava, m esm o quando colocava suas dúvidas em palavras, seus próprios pensam entos eram suficientes para lhe restaurar a fé... ou tinham sido suficientes até então. Recentes m ensagens, contudo, tinham deixado claro que Nay la precisava da Sagrada Presença para lhe restaurar a força interior.

Leto relem brava sua prim eira conversa com Nay la, a m ulher trêm ula em sua avidez para satisfazê-lo:

— Mesm o que Siona a envie para m e m atar, você deve obedecer. Ela nunca deve perceber que você serve a m im .

— Mas ninguém pode m atá-lo, Senhor.

— Mas você deve obedecer Siona.

— E claro, Senhor. Essa foi a sua ordem .

— Deve obedecê-la em todas as coisas.

— Eu o farei, Senhor.

“Outro teste. Nay la não questiona os m eus testes. Ela os trata com o a picadas de pulgas. Seu Senhor ordena? Nay la obedece. Não posso perm itir que coisa algum a m ude esse relacionam ento.”

Ela teria dado um a soberba Shadout nos velhos dias, pensou Leto. Fora essa um a das razões pelas quais dera a Nay la um a faca cristalina, um a verdadeira faca cristalina preservada do Sietch Tabr. Pertencera a um a das esposas de Stilgar, e Nay la a usava num a bainha escondida debaixo de seus m antos, m ais um talism ã do que um a arm a. Ele a dera no ritual original, cerim ônia que o surpreendera ao evocar em oções que j ulgara para sem pre sepultadas.

— Este é o dente do Shai-Hulud.

E lhe estendera a lâm ina com suas m ãos de pele prateada.

— Receba-a e você se tornará parte do passado e do futuro Suj e-a e o passado não lhe dará futuro algum .

Nay la aceitara a lâm ina, depois a bainha.

— Tire o sangue de um dedo — Leto ordenara.

Nay la obedecera.

— Coloque a faca na bainha. E nunca a retire sem tirar sangue.

E novam ente Nay la obedecera.

Agora, enquanto Leto observava a im agem tridim ensional de Nay la se aproxim ando, suas reflexões sobre aquela antiga cerim ônia eram tocadas pela tristeza. A m enos que fosse fixada pela antiga m aneira Frem en, a lâm ina iria tornar-se cada vez m ais quebradiça e inútil. Manteria a sua form a de faca cristalina durante a vida de Nay la, m as não duraria além disso.

“Eu j oguei fora um fragm ento do passado.”

Com o era triste que as Shadout dos antigos dias se tivessem tornado as Oradoras Peixes de hoj e. E um a verdadeira faca cristalina fora usada para unir m ais fortem ente um servo ao seu senhor. Ele sabia que alguns j ulgavam que as suas Oradoras Peixes eram de fato sacerdotisas — a resposta de Leto à Bene Gesserit.

— Ele cria um a nova religião — disseram as Bene Gesserits.

— Tolice. Eu não crio um a nova religião. Eu sou a religião!

Nay la entrou na torre-santuário e parou a três passos da carreta de Leto, a cabeça curvada em adequada subserviência.

Ainda em suas m em órias, Leto disse:

— Olhe para m im , m ulher!

Ela obedeceu.

— Eu criei um a sagrada obscenidade! Essa religião criada em torno de m inha pessoa m e desagrada!

— Sim , Senhor.

Os olhos verdes de Nay la, nas alm ofadas douradas de suas faces, olharam para ele sem questionam ento, sem com preensão, sem a necessidade de qualquer resposta.

“Se eu a m andasse colher estrelas, ela sairia daqui e tentaria fazê-lo. Pensa que a estou testando um a vez m ais. Creio que ela poderia enfurecer-m e.”

— Essa m aldita religião deve term inar com igo! — gritou Leto.

— Por que eu desej aria deixar um a religião à solta entre m inha gente? As religiões arruinam por dentro — im périos e indivíduos da m esm a m aneira! E tudo o m esm o.

— Sim , Senhor.

— As religiões criam radicais e fanáticos com o você!

— Obrigada, Senhor.

A pseudo-ira de vida curta reafundou nas profundezas das suas m em órias. Nada riscara a superfície dura da fé de Nay la.

— Topri enviou-m e um relatório através de Moneo — disse Leto. — Fale-m e a respeito desse Topri.

— Topri é um verm e.

— Não é disso que você cham a a m im quando está entre os rebeldes?

— Eu obedeço o m eu Senhor em tudo.

“Touché!”

— Não vale a pena investir em Topri, então? — perguntou Leto.

— Siona o j ulgou corretam ente. Ele é desaj eitado. Diz coisas que outros irão repetir, expondo assim sua atuação no assunto. Segundos depois de Kobat com eçar a falar, ela j á tinha a confirm ação de que Topri era um espião.

“Todos concordam , até m esm o Moneo”, pensou Leto. “Topri não é um bom espião.

A unanim idade divertia Leto. Essas m aquinações insignificantes turvavam um a água que perm anecia com pletam ente transparente para ele. Os atores, entretanto, ainda serviam aos seus propósitos.

— Siona não suspeita de você? — perguntou Leto. Eu não sou desaj eitada.

— Sabe por que a convoquei?

— Para testar a m inha fé.

“Ah, Nay la. Quão pouco você sabe sobre testes.”

— Desej o sua avaliação sobre Siona. Quero vê-la em sua face e em seus m ovim entos, ouvi-la em sua voz — disse Leto. — Ela está pronta?

— As Oradoras Peixes precisam dela, Senhor. Por que o Senhor se arrisca a perdê-la?

— Forçar a questão é a m aneira m ais segura de perder aquilo que m ais valorizo nela — disse Leto. — Ela deve vir a m im com todas as suas forças intactas.

Nay la abaixou a cabeça.

— Com o o m eu Senhor ordenar.

Leto reconheceu a resposta. Era a reação de Nay la a qualquer coisa que ela deixasse de entender.

— Será que ela vai sobreviver ao teste, Nay la?

— Com o o m eu Senhor descreve o teste... — Nay la ergueu os olhos para o rosto de Leto, encolheu os om bros. — Eu não sei, Senhor. Decerto que ela é forte. Foi a única que sobreviveu aos lobos. Mas ela é governada pelo ódio.

— Muito naturalm ente. Diga-m e, Nay la, que ela vai fazer com as coisas que roubou de m im ?

— Topri não o inform ou a respeito dos livros que eles dizem conter as Suas Sagradas Palavras?

“Estranho com o ela é capaz de colocar m aiúsculas nas palavras apenas com a voz”, pensou Leto. Sua resposta foi áspera.

— Sim , sim . Os Ixianos possuem um a cópia e logo a Corporação e a Irm andade estarão trabalhando duram ente nelas.

— Que são aqueles livros, Senhor?

— São as m inhas palavras à m inha gente. Quero que sej am lidas. O que desej o saber é o que Siona disse a respeito das plantas da Cidadela que ela levou.

— Ela diz que existe um grande tesouro em m elange em baixo de sua Cidadela, Senhor. E que as plantas irão revelá-lo.

— As plantas não irão revelá-lo. Ela irá escavar?

— Ela busca ferram entas Ixianas para fazê-lo.

— Ix não irá fornecê-las.

Existe tal tesouro em especiaria, Senhor?

— Sim .

— Há um a história sobre com o o seu Tesouro é defendido. De que o próprio Arrakis seria destruído se alguém tentasse roubar a Sua m elange. É verdade?

— Sim . E isso despedaçaria o Im pério. Nada sobreviveria — a Corporação, a Irm andade, Ix ou os Tleilaxu... nem m esm o as Oradoras Peixes.

Ela estrem eceu e então disse:

— Eu não deixarei que Siona tente obter a Sua especiaria.

— Nay la! Eu lhe ordenei que obedecesse Siona em tudo. É dessa m aneira que você m e serve?

— Senhor? — indagou ela, tem erosa de sua raiva, m ais perto de perder a fé do que ele j am ais vira: era a crise que ele havia criado, sabendo com o deveria term inar. Lentam ente, Nay la relaxou. Ele podia ver a form a de seus pensam entos com o se ela os tivesse exibido em palavras lum inosas.

“O teste final!”

— Você retornará ao encontro de Siona, e protegerá a vida dela com o se fosse a sua própria — disse Leto. — Essa foi a tarefa que preparei para você e que você aceitou. Foi o m otivo pelo qual você foi escolhida. É por isso que carrega a lâm ina da casa de Stilgar.

A m ão dela estendeu-se para a faca cristalina escondida debaixo do m anto.

“Com o é verdadeiro”, pensou Leto, “que um a arm a pode prender um a pessoa a um padrão previsível de com portam ento”.

Ele olhou fascinado para o corpo rígido de Nay la. Os olhos dela estavam vazios de tudo, exceto adoração.

“O derradeiro despotism o retórico... e eu o desprezo!”

— Vá, então! — gritou ele.

Nay la virou-se e fugiu da Sagrada Presença.

“Será que isto vale a pena?” — pensou Leto.

Mas Nay la dissera-lhe o que precisava saber. Ela havia renovado sua fé e revelado com precisão aquilo que Leto não podia encontrar na im agem de Siona, que j á se esfum ava. Os instintos de Nay la deviam ser considerados.

“Siona chegou ao ponto explosivo de que eu preciso.”