O Imperador-Deus de Duna

Frank Herbert · Capítulo 5 de 25

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O Imperador-Deus de Duna

Os Duncans sempre acham estranho que eu…

Os Duncans sempre acham estranho que eu escolha mulheres para as forças de combate, mas as minhas Oradoras Peixes são um exército temporário em todos os sentidos. Embora possam ser violentas e perversas, as mulheres são profundamente diferentes dos homens em sua dedicação à batalha. O preço da gênese acaba por predispo-las a um comportamento mais protetor em relação à vida. E elas têm se revelado as melhores mantenedoras do Caminho Dourado; eu reforço isso em minhas especificações para o seu treinamento. Elas são poupadas por algum tempo das rotinas ordinárias. Eu lhes designo ações especiais com as quais poderão gozar com prazer o resto de suas vidas. Elas chegam à maturidade na companhia de suas irmãs, preparando-se para acontecimentos mais profundos. Aquilo que você compartilha em tal companheirismo sempre o prepara para coisas mais grandiosas. O ar da nostalgia cobre os dias delas entre suas irmãs, fazendo com que esses dias as transformem em algo diferente daquilo que eram. Essa é a maneira pela qual o hoje modifica a história. Nem todos os contemporâneos habitam o mesmo tempo. O passado está sempre mudando, mas poucos o percebem.

— Os diários roubados

 

Depois de enviar suas ordens às Oradoras Peixes, Leto desceu à cripta no cair da tarde. Achara m elhor com eçar sua entrevista com o novo Duncan Idaho num a sala escura, onde o ghola pudesse ouvi-lo descrever a si próprio antes de realm ente vê-lo no corpo pré-verm e. Havia um a pequena sala lateral, escavada na rocha negra, fora da rotunda central da cripta, que era adequada para aquela necessidade. A câm ara era suficientem ente larga para acom odar Leto em sua carreta, m as o teto era baixo. A ilum inação vinha de globos lum inosos ocultos, os quais ele controlava. Havia apenas um a porta, m as em dois segm entos — um deles se abria am plam ente para adm itir a Carreta Real; o outro era um pequeno portal de dim ensões hum anas.

Leto fez a Carreta Real rolar para dentro da câm ara, fechou o grande portal e abriu o m enor. Preparou-se então para a sua provação.

O tédio era um problem a crescente. O padrão dos gholas Tleilaxu vinha se tornando tediosam ente repetitivo. Certa vez Leto enviara instruções advertindo os Tleilaxu para que não enviassem m ais Duncans, m as eles sabiam que iriam desobedecê-lo nesse detalhe.

“Algum as vezes acho que eles fazem isso para m anter viva a desobediência!”

Os Tleilaxu confiavam em algo im portante que, eles sabiam , os protegia em outras questões.

“A presença de um Duncan satisfaz o Paul Atreides que existe em m im .”

Com o Leto explicara a Moneo, nos prim eiros dias da presença do m aj ordom o na Cidadela:

— Os Duncans devem vir a m im com algo m ais que a preparação dos Tleilaxu. Você deve cuidar para que m inha gente suavize os Duncans e que as m ulheres respondam a algum as de suas questões.

— Que questões elas poderão responder, Senhor?

— Elas sabem .

Moneo, é claro, havia aprendido tudo sobre esse procedim ento com o correr dos anos.

Leto ouviu a voz de Moneo do lado de fora da sala escura e então o som da escolta de Oradoras Peixes, seguido pelos passos hesitantes do novo ghola.

— Após aquela porta — disse Moneo. — Estará escuro lá dentro e nós fecharem os a porta atrás de você. Pare logo depois da porta e espere que Lorde Leto fale com você.

— Por que vai estar escuro? — A voz do Duncan estava repleta de agressivos receios.

— Ele irá explicar.

Idaho foi em purrado para dentro da sala e a porta fechada atrás dele.

Leto sabia o que o ghola via: apenas som bras entre som bras e a escuridão onde nem m esm o a fonte de um a voz poderia ser determ inada. Com o de hábito, ele usou a voz de Paul Muad’Dib.

— Agrada-m e vê-lo de novo, Duncan.

— Eu não posso vê-lo!

Idaho era um guerreiro, e um guerreiro ataca. Isso tranqüilizou Leto quanto ao fato de esse ghola ter sido com pletam ente restaurado com relação ao original. O j ogo de m oralidade com o qual os Tleilaxu despertavam as m em órias anteriores à m orte no ghola sem pre deixava algum as incertezas na m ente deles. Alguns Duncans acreditavam ter am eaçado um verdadeiro Paul Muad’Dib. Este tinha tais ilusões.

— Eu ouço a voz de Paul, m as não posso vê-lo — disse Idaho. Não tentou ocultar sua frustração, deixando-a transparecer inteiram ente em sua voz.

Por que um Atreides j oga esse j oga estúpido? Paul estava realm ente m orto, num passado distante, e esse era Leto, o’ portador das m em órias renascidas de Paul... e das m em órias de m uitos outros! — caso se deva crer nas histórias dos Tleilaxu.

— Você foi inform ado de que é apenas o últim o de um a longa linha de duplicatas — disse Leto.

— Eu não tenho nenhum a dessas m em órias.

Leto reconheceu a histeria na voz do Duncan, quase sem controle sob a bravura do guerreiro. As m alditas táticas de restauração pós-tanque dos Tleilaxu tinham produzido o habitual caos m ental. Esse Duncan tinha chegado num estado de quase choque, suspeitando fortem ente estar louco. Leto sabia que os poderes m ais sutis de transm issão de confiança seriam necessários para tranqüilizar o pobre coitado. Isso iria esgotar em ocionalm ente a am bos.

— Houve m uitas m udanças, Duncan — disse Leto. — Um a coisa, entretanto, não m udou. Ainda sou um Atreides.

— Eles dizem que seu corpo é...

— Sim , isso tam bém m udou.

— Os m alditos Tleilaxu! Tentaram m e levar a m atar alguém . . Eu... bem , ele se parecia com você. Subitam ente m e lem brei de quem eu era, e lá estava esse. . Poderia ter sido um ghola Muad’Dib?

— O m im etism o de um Dançarino Facial, eu lhe asseguro.

— Ele falava e se parecia tanto com . . Você tem certeza?

— Um ator, não m ais que isso. Ele sobreviveu?

— E claro! Era assim que eles despertavam m inhas m em órias. Eles explicaram toda a m aldita coisa. E verdade?

— E verdade, Duncan. Detesto isto, m as o perm ito pelo prazer de sua com panhia.

“A vítim a potencial sem pre sobrevive”, pensou Leto. “Pelo m enos com relação aos Duncans que eu vej o. Há sem pre falhas, o falso Paul m orto e os Duncans destruídos. Mas sem pre existem m ais células cuidadosam ente preservadas do original.”

— E quanto ao seu corpo? — quis saber Idaho.

O Muad’Dib poderia retirar-se agora; Leto voltou a usar sua voz norm al.

— Eu aceitei as trutas da areia com o m inha pele. Elas têm m e m odificado desde então.

— Por quê?

— Explicarei isso na ocasião devida.

— Os Tleilaxu disseram -m e que parece um verm e da areia.

— E o que m inhas Oradoras Peixes disseram ?

— Elas disseram que é Deus. Por que as cham a de Oradoras Peixes?

— Um antigo conceito. As prim eiras sacerdotisas conversavam com peixes em seus sonhos. Elas aprenderam coisas valiosas desse m odo.

— Com o sabe?

— Eu sou aquelas m ulheres... e tudo que veio antes e depois delas.

Leto ouviu a garganta de Idaho engolir em seco, e então a declaração:

— Percebo a razão da escuridão. Está m e dando tem po para m e aj ustar.

— Vocês sem pre foram rápidos, Duncan.

“Exceto quando foram lentos.”

— Por quanto tem po tem sofrido essa m udança?

— Mais de 3.500 anos.

— Então, o que os Tleilaxu m e contaram é verdade.

— Eles raram ente se atrevem a m entir hoj e em dia.

— Isso é um tem po m uito longo.

— Muito longo.

— Os Tleilaxu... m e copiaram m uitas vezes?

— Muitas.

“E hora de você perguntar quantas, Duncan.”

— Quantos de m im ?

— Deixarei que vej a os registros por si m esm o, Duncan.

“E assim a coisa com eça”, pensou Leto.

Esse diálogo sem pre parecia satisfazer aos Duncans, m as não havia com o escapar à natureza da questão:

“Quantos de m im ?”

Os Duncans não faziam distinções de carne, em bora nenhum a m em ória m útua passasse entre gholas do m esm o estoque.

— Eu relem bro m inha m orte — disse Idaho. — Lâm inas dos Harkonnen, um m onte delas tentando atingi-lo e a Jessica.

Leto restaurou m om entaneam ente a voz do Muad’Dib para um rápido j ogo:

— Eu estava lá, Duncan.

— Eu sou um substituto, não é verdade? — indagou Idaho.

— E verdade — respondeu Leto.

— Com o foi que os outros de m im ... quero dizer, com o eles m orreram ?

— Toda carne se desgasta, Duncan. Está nos registros.

Leto esperou pacientem ente, im aginando por quanto tem po essa história suavizada satisfaria esse Duncan.

— Com o você se parece realm ente? — indagou Idaho. Que é esse corpo de verm e da areia que os Tleilaxu descreveram ?

— Ele vai produzir algum tipo de verm e da areia, um dia. Já está bem avançado na estrada da m etam orfose.

— Que quer dizer com algum tipo?

— Eles terão m ais gânglios. Serão conscientes.

— Não podem os contar com algum tipo de ilum inação? Gostaria de vê-lo.

Leto com andou os holofotes e um a brilhante ilum inação inundou a câm ara. As paredes negras e as fontes de luz tinham sido preparadas para focalizarem a ilum inação sobre Leto, tornando visíveis todos os detalhes.

Idaho percorreu com o olhar o corpo facetado, cinza-prata, notou o início da form ação dos anéis do verm e, os flexionam entos sinuosos. .. as pequenas protuberâncias que um dia haviam sido as pernas e os pés, um a delas de certo m odo m ais curta que a outra. E depois trouxe sua atenção de volta para os braços e m ãos bem -definidos, erguendo o olhar para a face encapuzada, com sua pele rósea quase perdida na im ensidão, um apêndice ridículo em tal corpo.

— Bem , Duncan — disse Leto. — Você foi avisado.

Idaho gesticulou, incapaz de falar, apontando para o corpo pré-verm e.

Leto fez a pergunta por ele:

— Por quê?

Idaho assentiu com a cabeça.

— Ainda sou um Atreides, Duncan, e lhe asseguro com toda a honra de m eu nom e que houve razões que m e com peliram a isso.

— Mas o que poderia...

— Você aprenderá com o tem po.

Idaho apenas sacudiu a cabeça de um lado para o outro.

— Não é um a revelação agradável — disse Leto. — Vai exigir que aprenda outras coisas prim eiro. Confie nas palavras de um Atreides.

Através dos séculos, Leto descobrira que essa invocação da profunda lealdade de Idaho para com tudo que fosse Atreides sufocava a explosão im ediata de perguntas m ais pessoais. E um a vez m ais a fórm ula funcionou.

— Assim , devo servir aos Atreides novam ente. Isso soa fam iliar, não soa?

— De m uitos m odos, velho am igo.

— Velho para você, talvez, m as não para m im . Com o irei servi-lo?

— Minhas Oradoras Peixes não lhe disseram ?

— Elas disseram que eu iria com andar a sua Guarda de elite, um a força escolhida entre elas. Não entendo isso. Um exército de m ulheres?

— Preciso de um com panheiro de confiança que possa com andar a m inha Guarda. Você faz obj eção?

— Por que m ulheres?

— Existem diferenças de com portam ento entre os sexos que tornam as m ulheres extrem am ente valiosas nesse papel.

— Não está respondendo a m inha pergunta.

— Você as j ulga inadequadas?

Algum as delas parecem ser bem duras, m as.

— Outras foram , um m m ... suaves com você?

Idaho corou.

Leto achou essa reação encantadora. Os Duncans estavam entre os poucos hum anos dessa época capazes dessa reação. Era um a coisa com preensível, produto do treinam ento inicial dos Duncans, de seu próprio senso pessoal de honra — m uito cavalheiresco.

— Não vej o por que confia em m ulheres para protegê-lo — disse Idaho, o sangue refluindo lentam ente de suas faces. Ele olhou zangado para Leto.

— Mas sem pre confiei nelas, assim com o confio em você. com m inha vida.

— De que deverem os protegê-lo?

— Moneo e m inhas Oradoras Peixes deverão atualizá-lo nesses assuntos.

Idaho m udou o apoio de um pé para o outro, seu corpo fazendo um m eneio num ritm o rápido. Olhou à volta da sala, seus olhos não se focalizando em coisa algum a. Com o gesto abrupto de um a decisão súbita, voltou sua atenção para Leto.

— Com o devo cham á-lo?

Era o sinal de aceitação pelo qual Leto estivera esperando.

— Lorde Leto serviria?

— Sim ... m eu Lorde. — Idaho olhou diretam ente para os olhos, que tinham o azul total dos Frem en. — E verdade o que as suas Oradoras Peixes dizem ?.. . que você tem m em órias de...

Nós estam os todos aqui, Duncan — respondeu Leto, na voz paternal de seu avô, e então: — Mesm o as m ulheres estão aqui, Duncan. — E era a voz de Jessica, a avó paterna de Leto.

— Você os conhecia bem — disse Leto. — E eles a você.

Idaho respirou fundo, de m odo trêm ulo.

— Vai levar algum tem po para que eu m e acostum e com isso.

— Foi exatam ente essa a m inha reação inicial — disse Leto.

Um a explosão de riso sacudiu Idaho, e Leto achou que era m ais do que a fraca piada m erecia, m as perm aneceu em silêncio.

Daí a pouco Idaho disse:

— Suas Oradoras Peixes deviam colocar-m e num estado de disposição favorável, não?

— E tiveram sucesso?

Idaho estudou o rosto de Leto, reconhecendo as distintas feições Atreides.

— Vocês Atreides sem pre m e conheceram m uito bem .

— Assim é m elhor — disse Leto. — Você está com eçando a aceitar que eu não sou apenas um Atreides. Sou todos eles.

— Paul disse isso um a vez.

— Assim eu disse! — E com tanto da personalidade original quanto poderia ser transm itido em tom e característica da voz, era o Muad’Dib falando.

Idaho engoliu em seco e olhou para a porta da câm ara.

— Você tirou algum a coisa de nós — ele disse. — Posso senti-lo. Aquelas m ulheres... Moneo...

“Nós contra você”, pensou Leto. “Os Duncans sem pre escolhem ficar do lado hum ano.”

Idaho voltou sua atenção para o rosto de Leto.

— Que foi que nos deu em troca?

— Por todo o Im pério, a Paz de Leto!

— E eu posso ver que todos estão alegrem ente felizes! E por isso que precisa de um guarda pessoal.

Leto sorriu.

— Minha paz é realm ente um a tranqüilidade forçada. E os seres hum anos possuem um a longa história de reação à tranqüilidade.

— Assim , você nos deu as Oradoras Peixes?

— E um a hierarquia que você pode identificar sem qualquer erro.

— Um exército fem inino — m urm urou Idaho.

— A derradeira força de sedução m asculina — explicou Leto.

— O sexo sem pre foi um a form a de controlar a agressividade do m acho.

— E isso que elas fazem ?

— Elas previnem ou controlam os excessos, que levariam a um a violência m ais dolorosa.

— E você deixa-as acreditarem que é um deus. Não creio que goste disso.

— A m aldição da santidade é tão ofensiva para m im quanto o é para você!

Idaho franziu a testa. Não era a resposta pela qual tinha esperado.

— Que tipo de j ogo está j ogando, Lorde Leto?

— Um j ogo m uito antigo, m as com novas regras.

— As suas regras!

— Preferiria que eu tivesse entregue tudo de volta à CHOAM, à Landsraad e às Grandes Casas?

— Os Tleilaxu dizem que não existe m ais Landsraad. Você não perm ite a verdadeira autogestão.

— Muito bem , eu poderia então sair de cena para que as Bene Gesserits assum issem . Ou talvez os Ixianos ou os Tleilaxu? Você preferiria que eu encontrasse um outro Barão Harkonnen para assum ir o controle do Im pério? Diga o nom e, Duncan, e eu abdicarei!

Ante essa avalancha de significados, Idaho sacudiu a cabeça de um lado para o outro.

— Nas m ãos erradas — disse Leto —, o poder m onolítico centralizado é um instrum ento perigoso e volátil.

— E as suas m ãos são as certas?

— Não tenho certeza quanto às m inhas m ãos, m as lhe digo um a coisa, Duncan: tenho certeza quanto às m ãos daqueles que vieram antes de m im . Eu os conheço.

Idaho virou as costas para Leto.

“Que gesto fascinante, fundam entalm ente hum ano”, pensou Leto. “A rej eição som ada à aceitação de sua vulnerabilidade.”

Leto falou para as costas de Idaho.

— Você faz um a obj eção honesta a que eu use as pessoas sem o conhecim ento e o consentim ento pleno delas?

Idaho voltou o perfil para Leto, depois virou a cabeça para fitar a face envolta nas dobras da truta da areia, inclinando-a um pouco para diante, de m odo a enxergar o interior dos olhos totalm ente azuis.

“Ele está m e estudando”, pensou Leto. “Mas só tem um rosto através do qual m e avaliar.”

Os Atreides ensinavam sua gente a conhecer os sinais sutis na face e no corpo, e Idaho era bom nisso. Mas a com preensão podia ser notada chegando sobre ele: aquilo estava além da sua capacidade.

Ele pigarreou.

— Qual seria a pior coisa que pediria de m im ?

“Quão típico de um Duncan!”, pensou Leto. Este aqui era um exem plo clássico. Idaho daria sua lealdade aos Atreides, ao guardião de seu j uram ento, m as deixava claro que não iria além dos lim ites de sua própria m oral com o pessoa.

— Eu lhe pedirei para m e guardar com todos os m eios que forem necessários, e lhe pedirei para guardar o m eu segredo.

— Que segredo?

— Que sou vulnerável.

— Que não é Deus?

— Não no sentido fundam ental.

— Suas Oradoras Peixes falam a respeito de rebeldes.

— Eles existem .

— Por quê?

— Eles são j ovens e não se convenceram de que m eu cam inho é o m elhor. E m uito difícil convencer os j ovens de qualquer coisa. Eles j á nascem sabendo tanto.

— Nunca ouvi um Atreides desdenhar os j ovens desse m odo.

— Talvez sej a porque eu sou tão velho... um a velhice com posta por m uitas velhices. E m inha tarefa se torna cada vez m ais difícil a cada geração que passa.

— E qual é sua tarefa?

— Vai chegar a entendê-la enquanto prosseguirm os.

— E que acontece se eu falhar ante você? Suas m ulheres m e elim inam ?

— Eu tento não pôr sobre m inhas Oradoras Peixes o fardo da culpa.

— Mas o poria sobre m im ?

— Se aceitar.

— Se achar que é pior que os Harkonnen, eu m e voltarei contra você.

“Quão típico de um Duncan. Ele m ede todo o m al em relação aos Harkonnen. Quão pouco ele conhece a respeito do m al.”

Leto disse:

— O Barão devorava planetas inteiros, Duncan. Que poderia ser pior do que isso?

— Devorar o Im pério.

— Eu estou prenhe do m eu Im pério. E m orrerei dando à luz a ele.

— Se eu puder acreditar nisso.

— Com andará m inha Guarda?

— Por que eu?

— Você é o m elhor.

— Trabalho perigoso, im agino. Foi assim que m eus antecessores m orreram , fazendo seu trabalho perigoso?

— Alguns deles.

— Eu gostaria de ter as m em órias desses outros!

— Não poderia tê-las e ser fiel ao original.

— Mas quero aprender a respeito deles.

— Você aprenderá.

— Assim , os Atreides ainda precisam de um a lâm ina afiada?

— Tem os tarefas que apenas um Duncan Idaho pode fazer.

— Você” diz que... nós... — Idaho engoliu em seco, olhou para a porta e então de novo para o rosto de Leto.

Leto falou para ele com o o Muad’Dib teria falado, m as conservando sua própria voz:

— Quando nós subim os j untos para o Sietch Tabr pela últim a vez, você tinha m inha lealdade e eu tinha a sua. Nada nisso m udou realm ente.

— Esse foi seu pai.

— Esse fui eu! — A voz de com ando do Muad’Dib, partindo do volum e de Leto, sem pre chocava os gholas.

Idaho sussurrou:

— Todos vocês... nesse único... corpo... — Ele se interrom peu, incapaz de prosseguir.

Leto perm aneceu em silêncio. Este era o m om ento da decisão.

Daí a pouco Idaho se perm itiu aquele sorriso tem erário pelo qual os Duncans eram tão bem conhecidos.

— Então eu falarei para o prim eiro Leto, e para Paul, aqueles que m e conhecem m elhor. Façam bom uso de m im , pois eu os am ei.

Leto fechou os olhos. Tais palavras sem pre o perturbavam . Ele sabia que era o am or que o deixava m ais vulnerável.

Moneo, que estivera ouvindo, veio em seu socorro. Entrou e disse:

— Senhor, devo levar Duncan Idaho às guardas que ele irá com andar?

— Sim . — Essa única palavra era tudo que Leto conseguiria pronunciar.

Moneo pegou Idaho pelo braço e o levou.

“Bom Moneo”, pensou Leto. “Tão bom . Ele m e conhece tão bem , m as não tenho a m enor esperança de que ele j am ais venha a m e com preender.”