O Imperador-Deus de Duna
Quando parti para liderar a humanidade ao…
Quando parti para liderar a humanidade ao longo de meu Caminho Dourado, eu lhe prometi uma lição que até seus ossos iriam recordar. Conheço um padrão profundo que os humanos negam com suas palavras, ainda que suas ações o confirmem. Eles dizem que buscam a segurança e a quietude, aquela condição a que chamam de paz. E mesmo enquanto falam, eles criam as sementes da agitação e da violência. Se encontram sua quieta segurança, sentem-se mal nela. Quão tediosa a julgam. Olhe para eles agora. Olhe para o que fazem enquanto eu registro estas palavras. Ah! Eu lhes dei eras de tranqüilidade forçada que prosseguem a despeito de todos os esforços para se mergulhar no caos. Acreditem-me, a memória da Paz de Leto permanecerá com eles para sempre — Eles só irão buscar sua quieta segurança, daqui para a frente, com extrema cautela e cuidadosa preparação.
— Os diários roubados
Muito contra a sua vontade, Idaho encontrou-se, ao am anhecer, na com panhia de Siona, sendo levado para “um lugar seguro” num ornitóptero im perial. Corriam para leste em direção ao arco dourado da luz solar erguendo-se sobre um a paisagem lavrada pelos retângulos verdes das plantações.
O tóptero era um m odelo grande, suficientem ente espaçoso para conduzir um pequeno esquadra-o de Oradoras Peixes j unto com seus dois convidados. A capitã-piloto do esquadrão era um a m ulher m usculosa e robusta, com um rosto que Idaho podia acreditar nunca ter sorrido, tendo dado seu nom e com o Inm eir. Ela sentava-se no assento do piloto, diretam ente em frente a Idaho, com duas guardas igualm ente m usculosas em am bos os lados. Mais cinco guardas sentavam -se atrás de Idaho e Siona.
— Deus nos ordenou que o levássem os para longe da Cidade — dissera Inm eir, vindo falar com ele no posto de com ando, debaixo da praça central. — É para sua própria segurança. Retornarem os a Siay noq na m anhã do próxim o dia.
Idaho, fatigado por um a noite de alarm es, sentira a inutilidade de discutir contra as ordens do “próprio Deus”. Inm eir parecia bem capaz de agarrá-lo com um daqueles braços grossos e carrega-lo. Ela o conduziu do posto de com ando para um a noite fria, coberta por um a cúpula de estrelas que pareciam rígidas facetas de brilhantes despedaçados. Foi som ente quando chegaram ao tóptero que Idaho reconheceu Siona esperando por eles e com eçou a questionar o propósito dessa saída.
Durante a noite, Idaho viera a perceber que nem toda a violência em Onn se originara com os rebeldes organizados. Quando perguntou por Siona, Moneo lhe enviou um recado dizendo que m inha filha se encontra em segurança, fora do cam inho”, acrescentando no final da m ensagem : “Recom endo-a aos seus cuidados.”
No tóptero, Siona não respondera as perguntas de Idaho. Mesm o agora ela se sentava ao lado dele em aborrecido silêncio. Lem brava-lhe de si próprio naqueles prim eiros e am argos dias, quando j urara vingança aos Harkonnen. E se perguntava qual a razão da am argura dela. O que a im pulsionaria?
Sem saber por quê, Idaho se viu com parando Siona com Hwi Noree. Não fora fácil encontrar Hwi, m as ele o conseguira, a despeito das exigências inoportunas das Oradoras Peixes para que se dedicasse a tarefas em outro lugar.
Gentil, essa era a palavra que definia Hwi. Ela agia a partir de um núcleo de im utável gentileza e suavidade que constituía, à sua própria m aneira, um a coisa de enorm e poder. Ele achava isso intensam ente atraente.
“Devo vê-la m ais vezes.”
Por hora, entretanto, tinha que se contentar com o carrancudo silêncio de Siona, sentada ao seu lado. Bem ... silêncio podia ser correspondido com silêncio.
Idaho olhou para a paisagem que passava. Aqui e ali podiam ser vistos os aglom erados de luzes dos vilarej os, apagando-se ante a aproxim ação da luz solar. O deserto do Sareer encontrava-se bem atrás, e essa era um a terra que, pela própria aparência, podia nunca ter sido ressecada.
“Algum as coisas não m udam m uito”, pensou ele. “São apenas tiradas de um lugar e reform adas em outro.”
A paisagem relem brava-lhe os j ardins luxuriantes de Caladan e fazia com que tentasse im aginar o que teria sido feito do verdej ante planeta onde os Atreides tinham vivido por tantas gerações antes de habitarem Duna. Ele podia identificar estradas estreitas, estradas m ercantis com um tráfego disperso de veículos puxados por anim ais de seis pernas que ele supunha fossem tavalos. Moneo dissera que tavalos criados para enfrentar as exigências de tal paisagem eram os principais anim ais usados não apenas ali, m as por todo o Im pério.
— Um a população que anda a pé é m ais fácil de se controlar. As palavras de Moneo repercutiam na m em ória de Idaho enquanto ele olhava para baixo. Regiões de pastagem apareceram adiante do tóptero, colinas verdes suavem ente onduladas, cortadas em padrões irregulares por m uros de pedras negras. Idaho reconheceu ovelhas e vários outros tipos de gado de grande porte. O tóptero sobrevoou um vale estreito, ainda m ergulhado na escuridão, com apenas um indício da água que fluía em suas profundezas. Um a única luz e um fio de fum aça azul elevando-se das som bras do vale revelavam a ocupação hum ana.
Siona subitam ente se m exeu e bateu no om bro da piloto, apontando para um ponto à direita e à frente deles.
— Não é Goy goa lá em baixo?
— Sim — respondeu Inm eir sem se virar, a voz tocada por algum a em oção que Idaho não podia identificar.
— Aquele não é um lugar seguro? — perguntou Siona.
— É seguro.
Siona olhou para Idaho.
— Ordene-lhe que nos leve para Goy goa.
Sem saber por que atendia ao pedido, Idaho disse:
— Leve-nos para aquele lugar.
Inm eir virou-se e suas feições, que durante a noite Idaho j ulgara ser um bloco quadrangular de não em oção, revelaram a evidência clara de algum sentim ento profundo. Sua boca parecia presa num a expressão de severidade. Um nervo contorcia-se no canto do olho direito.
— Não Goy goa, Com andante. Há m elhores...
— O Im perador-Deus lhe disse para nos levar a algum lugar específico? — perguntou Siona.
Inm eir dem onstrou sua ira ante essa interrupção, m as não olhou diretam ente para Siona.
— Não, m as Ele...
— Leve-nos então para este Goy goa — disse Idaho.
Inm eir voltou sua atenção bruscam ente para os controles do tóptero e Idaho foi lançado de encontro a Siona enquanto a aeronave fazia um a curva brusca e voava em direção a um bolsão arredondado, aninhado entre colinas verdes.
Idaho olhou por sobre o om bro de Inm eir para exam inar seu destino. No centro exato do bolsão encontrava-se um vilarej o construído com as m esm as pedras negras das cercas ao redor. Idaho viu pom ares em algum as das colinas acim a, j ardins construídos em terraços que subiam em degraus sucessivos até um a pequena depressão na m ontanha, onde falcões podiam ser vistos deslizando sobre as prim eiras correntes ascendentes da m anhã.
Olhando para Siona, Idaho perguntou:
— Que é esse Goy goa?
— Você vai ver.
Inm eir colocou o tóptero num planeio rasante que os trouxe até um pouso suave sobre um a extensão plana de capim , na borda do vilarej o. Um a das Oradoras Peixes abriu a porta do lado virado para a vila e im ediatam ente as narinas de Idaho foram assaltadas por um a pesada m istura de arom as — capim pisado, estrum e de anim ais, os pungentes cheiros de cozinha. Ela saltou para fora do tóptero e olhou para a rua do vilarej o onde as pessoas com eçavam a sair de suas casas para fitar os visitantes. Idaho viu um a m ulher velha, num longo traj e verde, curvar-se e sussurrar algum a coisa para um a criança que im ediatam ente virou-se e subiu correndo pela rua.
— Gosta deste lugar? — perguntou Siona. Ela saltara ao lado dele.
— Parece agradável.
Siona olhou para Inm eir enquanto a piloto e outras Oradoras Peixes se reuniam a eles no gram ado.
— Quando voltarem os a Onn?
— Você não voltará — disse Inm eir. — Minhas ordens são para levá-la à Cidadela. E só o Com andante retornará.
— Percebo — assentiu Siona. — Quando partirem os?
— Am anhã, ao raiar do dia. Vou falar com o líder do vilarej o a respeito de aloj am entos.
Inm eir saiu, entrando no vilarej o.
— Goy goa — disse Idaho. — Que nom e estranho. Eu m e pergunto o que era este lugar nos tem pos de Duna.
— Por acaso eu sei — respondeu Siona. — Está m arcado nos antigos m apas com o Shuloch, o que significa “lugar assom brado”. A História Oral diz que grandes crim es foram com etidos aqui antes de todos os habitantes serem exterm inados.
— Jacurutu — sussurrou Idaho, relem brando velhas lendas dos ladrões de água.
Olhou à sua volta, buscando a evidência de dunas e penhascos. Não havia nada — som ente dois hom ens velhos com os rostos plácidos voltados para Inm eir. Usavam calças azuis desbotadas e cam isas esfarrapadas. Seus pés estavam nus.
— Você conhece este lugar? — perguntou Siona.
— Som ente com o um nom e de um a lenda.
— Há quem diga que existem fantasm as, m as não acredito nisso.
Inm eir parou diante de Idaho e fez sinal para que os dois hom ens descalços esperassem atrás dela.
— Os aloj am entos são pobres, m as adequados — ela disse. A não ser que vocês prefiram ficar em um a das residências particulares. — Ao dizer isso, virou-se e olhou para Siona.
— Nós vam os decidir depois — respondeu Siona, enquanto pegava Idaho pelo braço. — O Com andante e eu desej am os dar um a cam inhada por Goy goa para adm irar a paisagem .
Inm eir fez m enção de dizer algum a coisa, m as ficou em silêncio. Idaho perm itiu que Siona saísse na frente, passando pelas caras curiosas dos dois hom ens do lugar.
— Mandarei duas guardas com vocês — gritou Inm eir.
Siona parou e se virou.
— Não é seguro em Goy goa?
— É m uito pacífico aqui — disse um dos hom ens.
— Então não precisarem os de guardas — disse Siona. — Deixe-as guardando o tóptero.
Novam ente ela conduziu Idaho para fora do vilarej o.
— Tudo certo — disse Idaho, soltando o braço da m ão de Siona.
— Que é este lugar?
— É m uito provável que o ache um local de descanso m uito repousante. Não é nem um pouco com o o velho Shuloch. Muito pacífico.
— Você está aprontando algum a coisa — disse Idaho, cam inhando ao lado dela. — Que é?
— Sem pre ouvi dizer que os gholas eram cheios de perguntas. Eu tam bém tenho perguntas.
— Ah?
— Com o ele era no seu tem po? O hom em Leto?
— Qual deles?
— Sim , eu m e esqueço que houve dois, o avô e o nosso Leto. Quero dizer o nosso Leto, é claro.
— Era apenas um a criança, é tudo que eu sei.
— A História Oral diz que um a de suas prim eiras noivas veio deste vilarej o.
— Noivas? Pensei.
— Quando ele ainda tinha form a hum ana. Foi depois da m orte de sua irm ã, m as antes que ele com eçasse a se transform ar no Verm e. A História Oral diz que todas as noivas de Leto desapareceram nos labirintos da Cidadela Im perial para nunca m ais serem vistas, exceto com o rostos e vozes transm itidos holograficam ente. E ele não tem tido um a noiva há m ilhares de anos.
Eles haviam chegado a um a pequena praça no centro do vilarej o, um espaço de aproxim adam ente 50 m etros de lado, tendo ao centro um lago de águas claras cercado por um m uro baixo. Siona cam inhou até o lado e se sentou na beirada de pedra, batendo com a m ão ao lado para que Idaho se unisse a ela. Ele prim eiro olhou à volta, notando com o as pessoas do vilarej o os observavam por trás de cortinas, com o as crianças apontavam e sussurravam . Depois, virou-se e ficou olhando para Siona.
— Que lugar é este?
— Já lhe disse. Diga-m e com o era o Muad’Dib.
— Ele era o m elhor am igo que um hom em poderia ter.
— Assim , a História Oral é verdadeira, m as ela cham a o califado de seus herdeiros de Desposy ni, e isso soa tão m al.
“Ela está m e provocando”, pensou Idaho.
Ele se perm itiu um leve sorriso, tentando adivinhar os m otivos por trás das ações de Siona. Ela parecia estar esperando que algum a coisa im portante acontecesse, ansiosa... m esm o tem erosa... m as com o indício de algo ligado ao entusiasm o. Era tudo bem visível e nada do que ela dissesse agora poderia ser considerado outra coisa senão um a conversa banal, um a form a de ocupar o tem po ate... até o quê?
O leve som de pés correndo interrom peu esse devaneio. Idaho voltou-se e viu um a criança de uns oito anos correndo em direção a ele, saindo de um a rua lateral. Os pés descalços da criança erguiam pequenos géiseres de poeira enquanto ela corria, e havia o som de um a m ulher gritando, um som desesperado em algum lugar rua acim a. O corredor parou a 10 passos de distância e olhou para Idaho com um olhar fam into, com um a intensidade que ele achou perturbadora. A criança parecia vagam ente fam iliar — um m enino, um a figura decidida, com cabelo negro encaracolado, um rosto ainda não term inado, m as que j á m ostrava indícios do hom em que iria ser — as m açãs do rosto um pouco altas, um a linha chata atravessando as sobrancelhas. Ele usava um m acacão azul desbotado, que revelava o efeito de m uitas lavagens, m as que obviam ente fora um traj e de m aterial excelente. Tinha a aparência de algodão punj i trançado de um m odo que não perm itiria nem que as bordas esfiapadas desfizessem a tram a.
— Você não é m eu pai — disse a criança, correndo de volta rua acim a e desaparecendo num a esquina.
Idaho voltou-se carrancudo para Siona, quase tem eroso de fazer a pergunta: “Esse é um filho de m eu antecessor?” Conhecia a resposta sem precisar perguntar — aquele rosto fam iliar, o genótipo verdadeiram ente revelado. “Eu m esm o, com o um a criança.” A com preensão deixou-o com um sentim ento de vazio, um a sensação de frustração. “Qual é m inha responsabilidade?”
Siona colocou am bas as m ãos sobre o rosto e se apoiou sobre os cotovelos. Não tinha acontecido do m odo com o ela im aginara que poderia acontecer. Seu rosto traído por seu próprio desej o de vingança. Idaho não era sim plesm ente um ghola, um a coisa estranha que não m erecesse consideração. Ela o vira ser lançado contra ela no tóptero, vira as em oções claras em seu rosto. E aquela criança. .
— Que aconteceu com m eu predecessor? — perguntou ele, a voz saindo acusadora.
Ela abaixou as m ãos. Havia um a raiva contida no rosto dele.
— Não estam os certos — ela disse —, m as um dia ele entrou na Cidadela e não saiu m ais.
— Aquele era seu filho?
Ela assentiu com a cabeça.
— Tem certeza de que vocês não m ataram m eu antecessor?
— Eu... — Ela sacudiu a cabeça, chocada por sua dúvida, a acusação latente nas palavras dele.
— Aquela criança foi a razão de term os vindo aqui?
Ela engoliu em seco.
— Sim .
— Que se supõe que eu deva fazer quanto a ela?
Ela encolheu os om bros, sentindo-se culpada e suj a por suas próprias ações.
— E quanto à sua m ãe? — perguntou Idaho.
— Ela e os outros vivem no final daquela rua. — Siona fez um sinal na direção que o m enino tom ara.
— Outros?
— Existe um filho m ais velho... um a filha. Você quer... Quer dizer, eu poderia arranj ar...
— Não! O m enino estava certo. Não sou seu pai.
— Sinto m uito — sussurrou Siona. — Eu não devia ter feito Isso.
— Por que ele escolheu este lugar? — perguntou Idaho.
— O pai... seu...
— Meu predecessor!
— Porque este era o lar de Irti e ela não sairia daqui. Isso é o que as pessoas disseram .
— Irti... a m ãe?
— Esposa, pelos velhos rituais, aqueles da História Oral.
Idaho olhou à sua volta para as frentes de pedra dos prédios que cercavam a praça, para as j anelas cobertas, as portas estreitas.
— Então ele vivia aqui.
— Quando podia.
— Com o ele m orreu?
— Na verdade eu não sei... m as o Verm e m atou outros. Disso tem os certeza!
— Com sabe disso? — Ele centrou um olhar avaliador no rosto dela. A intensidade fez com que Siona virasse o rosto.
— Não duvido das histórias de m eus ancestrais — respondeu ela. — Elas são contadas em fragm entos e trechos, um a nota aqui,
um relato sussurrado ali, m as acredito nelas. E m eu pai tam bém acredita!
— Moneo não m e disse coisa algum a a respeito disso.
— Um a coisa se pode dizer a respeito dos Atreides — ela disse.
— Som os leais, e isso é um fato. Mantem os nossa palavra.
Idaho abriu a boca para falar e a fechou sem fazer nenhum som . É claro! Siona tam bém era um a Atreides. O pensam ento o fez estrem ecer. Ele sabia disso, m as ainda não pudera aceitar. Siona era algum tipo de rebelde, um a rebelde cuj os atos eram quase sancionados por Leto. Os lim ites de sua perm issão não eram claros, m as Idaho os sentia.
— Você não deve feri-la — dissera Leto. — Ela deve ser testada.
Ele voltou as costas para Siona.
— Você não sabe de nada com certeza — disse ele. — Fragm entos, rum ores!
Siona não respondeu.
— Ele é um Atreides! — afirm ou Idaho.
— Ele é o Verm e! — respondeu Siona, e o ódio em sua voz era quase palpável.
— Sua m aldita História Oral não é nada senão um m onte de antigos m exericos! — acusou Idaho. — Só um tolo acreditaria nisso.
— Você ainda acredita nele — ela disse. — Isso vai m udar.
Idaho virou-se, encarando-a furioso.
— Você nunca falou com ele!
— Já falei, sim . Quando era criança.
— Você ainda é criança. Ele é todos os Atreides que j á existiram , todos eles. É um a coisa terrível, m as conheci aquelas pessoas. Elas eram m inhas am igas.
Siona apenas sacudiu a cabeça.
Novam ente Idaho lhe voltou as costas. Sentia-se esvaído de toda em oção. Encontrava-se espiritualm ente desossado. Sem querer, com eçou a atravessar a praça e subiu pela rua onde o m enino desaparecera. Siona veio correndo atrás dele, igualou seu passo, m as ele a ignorou.
A rua era estreita, fechada por prédios feitos de pedra, todos de um único andar, as portas dentro de portais em arco, todas elas fechadas. As j anelas eram pequenas versões das portas. Cortinas trem iam quando eles passavam .
Na prim eira encruzilhada, Idaho parou e olhou para a direita, na direção seguida pelo m enino. Duas m ulheres de cabelos grisalhos usando longas saias pretas e blusas verde-escuras encontravam se a alguns passos de distância, cabeças curvadas em um a troca de m exericos. Elas ficaram em silêncio quando viram Idaho e olharam para ele com aberta curiosidade. Ele as encarou e depois olhou para a rua lateral. Estava vazia.
Idaho voltou-se na direção das m ulheres e passou por elas a apenas um passo de distância. Elas aproxim aram -se um a da outra e se viraram a fim de olhá-lo. Olharam apenas um a vez para Siona, e então voltaram a atenção para Idaho. Siona cam inhava em silêncio ao lado dele, com um a expressão estranha no rosto.
“Tristeza?”, pensou ele. “Arrependim ento? Curiosidade?”
Era difícil dizer. Ele estava m ais curioso quanto às portas e j anelas pelas quais iam passando.
— Já esteve antes em Goy goa? — perguntou Idaho.
— Não — respondeu Siona com a voz abafada, com o se estivesse com m edo daquilo.
“Por que estou cam inhando ao longo desta rua?” Mesm o enquanto se fazia essa pergunta, ele j á sabia a resposta. “Essa m ulher, essa Irti: que tipo de m ulher m e traria para Goy goa?”
O canto de um a cortina à sua direita se ergueu e Idaho viu um rosto — o m enino da praça.
A cortina caiu e depois foi em purrada de lado para revelar um a m ulher de pé ante a j anela. Idaho olhou sem fala para aquele rosto, im obilizado antes de poder com pletar um passo. Era o rosto de um a m ulher conhecida apenas em suas fantasias m ais íntim as — um oval suave com olhos escuros penetrantes, boca sensual.
— Jessica — sussurrou ele.
— Que você disse? — perguntou Siona.
Idaho não era capaz de responder. Era o rosto de Jessica ressuscitado de um passado que ele acreditava perdido para sem pre, um a piada genética — a m ãe do Muad’Dib recriada em nova carne.
A m ulher fechou a cortina, deixando a m em ória de suas feições na m ente de Idaho, um a pós-im agem que, ele sabia, j am ais se apagara. Ela era m ais velha do que a Jessica que partilhara os perigos de Duna — linhas de envelhecim ento ao lado da boca e dos olhos, o corpo um pouco m ais cheio...
“Mais m aternal”, pensou Idaho. E então: “Será que eu cheguei a lhe dizer com quem ela se parecia?”
Siona puxou-lhe a m anga.
— Quer entrar e conhecê-la?
— Não. Isto foi um erro.
Idaho virou-se para voltar, m as a porta da casa de Irti se escancarou. Um j ovem saiu e fechou a porta atrás de si, voltando-se para confrontar Idaho.
Ele calculou a idade em torno de 16 anos, e não havia com o negar o parentesco — o cabelo karakul, as feições fortes.
— Você é o novo — disse o j ovem , a voz j á grave com o a de um adulto.
— Sim . — Idaho achou difícil falar.
— Por que veio? — o rapaz perguntou.
— Não foi idéia m inha — respondeu Idaho, achando que isso era m ais fácil de dizer, as palavras im pulsionadas pelo ressentim ento contra Siona.
O j ovem olhou para Siona.
— Tivem os notícia de que m eu pai está m orto.
Siona assentiu com a cabeça.
O j ovem voltou sua atenção para Idaho.
— Por favor, vá em bora e não volte m ais. Você causa aflição à m inha m ãe.
— É claro — concordou Idaho. — Por favor, peça desculpa por m im à Sra. Irti, peça-lhe que m e perdoe por esta introm issão. Fui trazido aqui contra a m inha vontade.
— Quem o trouxe?
— As Oradoras Peixes.
O j ovem assentiu com a cabeça, um curto m ovim ento. Olhou um a vez m ais para Siona.
— Sem pre pensei que vocês, Oradoras Peixes, fossem ensinadas a tratar sua própria gente com bondade.
Com isso, ele se virou e entrou na casa, fechando a porta com firm eza atrás de si.
Idaho voltou pelo cam inho pelo qual viera, agarrando o braço de Siona enquanto se afastavam cam inhando. Ela tropeçou, perdeu o passo e então se soltou de sua m ão.
— Ele pensou que eu fosse um a Oradora Peixe — disse ela.
— É claro. Você tem a aparência. — Ele olhou para ela. — Por que não m e disse que Irti j á foi Oradora Peixe?
— Não m e parecia im portante.
— Ah.
— Foi assim que eles se conheceram .
Haviam alcançado o ponto onde a rua desem bocava na praça. Idaho afastou-se da praça, cam inhando com firm eza até a extrem idade do vilarej o, onde as casas davam lugar aos j ardins e pom ares. Com o choque sentia-se isolado do m undo, sua consciência encolhendo-se ante tudo aquilo que não poderia ser assim ilado.
Um m uro baixo bloqueou-lhe o cam inho. Ele pulou por cim a, ouvindo que Siona o seguia. As árvores em torno deles estavam cheias de flores brancas com centros alaranj ados onde insetos m arrom -escuros trabalhavam . O ar estava cheio de seus zum bidos, e um cheiro floral lem brava a Idaho o perfum e das florestas de Caladan.
Ele parou ao chegar ao topo de um a colina de onde podia voltar-se e olhar para a perfeição retangular de Goy goa. Os tetos eram negros e achatados.
Siona sentou-se no gram ado espesso do topo da colina e abraçou os j oelhos.
— Não era isso que você pretendia, era? — perguntou Idaho.
Ela sacudiu a cabeça e ele percebeu que Siona estava quase chorando.
— Por que você o odeia tanto? — perguntou ele.
— Nós não podem os viver nossas próprias vidas
Idaho olhou para o vilarej o.
— Existem m uitas vilas com o essa aí?
— Essa é a form a do Im pério do Verm e!
— Que há de errado com ele?
— Nada, se isso aí é tudo que você desej a.
— Está m e dizendo que isso é tudo que ele perm ite?
— Isso, algum as cidades m ercantis... Onn. Disseram -m e que até m esm o as capitais planetárias são apenas grandes vilarej os.
— E eu repito: que há de errado com isso?
— É um a prisão.
— Então saia dela.
— Para onde? Com o? Você pensa que a gente pode sim plesm ente entrar em um a nave da Corporação e ir para outro lugar?
Para onde quiser? — Ela apontou para Goy goa, onde o tóptero podia ser visto em um a das extrem idades, as Oradoras Peixes sentadas no capim das im ediações. — Nossas carcereiras não deixariam que saíssem os!
— Elas saem — disse Idaho. — Elas vão para onde querem .
— Para onde o Verm e as m anda! — Ela com prim iu o rosto contra os j oelhos e falou com a voz em bargada. — Com o era nos velhos dias?
— Era diferente, freqüentem ente m uito perigoso. — Ele olhou à sua volta para os m uros que separavam as pastagens dos j ardins e pom ares. — Aqui em Duna não havia linhas im aginárias para m arcar lim ites entre as terras. Era tudo o Ducado dos Atreides.
— Exceto para os Frem en.
— Sim , m as eles sabiam qual era o seu lugar — deste lado de um a determ inada escarpa... ou além , onde um a depressão se tornava branca de encontro à areia.
— Eles podiam ir para onde desej assem !
— Dentro de certos lim ites.
— Alguns de nós anseiam pelo deserto — ela disse.
— Vocês têm o Sareer.
Ela ergueu a cabeça para lhe lançar um olhar furioso.
— Aquela coisinha!
— Mil e quinhentos quilôm etros por quinhentos de largura... não é tão pequeno.
Siona levantou-se.
— Já perguntou ao Verm e por que ele nos confina desse m odo?
— A Paz de Leto, o Cam inho Dourado para assegurar nossa sobrevivência. Isso é o que ele diz.
— Sabe o que ele disse para m eu pai? Eu os espionava quando era criança. Eu ouvi.
— Que foi que ele disse?
— Disse que nos nega a m aioria das crises para lim itar nossas forças form adoras. Disse: “As pessoas podem ser sustentadas pela angústia, m as agora eu sou a angústia. Deuses podem transform ar-se em fontes de angustia.” Essas foram suas palavras, Duncan. O Verm e é um a doença!
Idaho não duvidou da precisão desse relato, m as as palavras não conseguiam estim ulá-lo. Ele pensou, em vez disso, no Corrino que lhe haviam ordenado que m atasse. “Angústia.” O Corrino, descendente de um a fam ília que um dia governara esse Im pério, revelara-se um hom em gorducho de m eia-idade que am bicionava o poder e conspirava para obter especiaria. Idaho ordenara a um a Oradora Peixe que o m atasse, ato que provocara um intenso acesso de questionam ento da parte de Monco.
— Por que não o m atou você m esm o?
— Queria ver com o agiam as Oradoras Peixes.
— E seu j ulgam ento quanto ao desem penho delas?
— Eficiente.
Mas a m orte do Corrino causara a Idaho um sentim ento de irrealidade. Um hom enzinho gordo, caído na poça de seu próprio sangue, um a som bra indistinta entre as outras som bras da noite em um a rua de plaspedra. Era irreal. Idaho podia lem brar-se do Muad’Dib dizendo: “A m ente im põe esta estrutura a que cham am ‘realidade’. Essa m oldura arbitrária tem um a tendência a se tornar bastante independente daquilo que os seus sentidos relatam .” Que realidade im pulsionava Leto?
Idaho olhou para Siona, erguida contra o fundo dos pom ares e as colinas verdes de Goy goa.
— Vam os descer para o vilarej o, achar nossos aloj am entos. Gostaria de ficar sozinho.
— As Oradoras Peixes vão nos colocar nos m esm os aloj am entos.
— Com elas?
— Não, só nós dois j untos. A razão é bem sim ples: o Verm e desej a que eu procrie com o grande Duncan Idaho.
— Eu escolho m inhas próprias parceiras — resm ungou Idaho.
— Tenho certeza de que um a de nossas Oradoras Peixes ficaria encantada — disse Siona. Virou-lhe as costas e com eçou a descer a colina.
Idaho observou-a por um m om ento, o corpo j ovem e flexível oscilando num m eneio, com o os ram os das árvores do pom ar ante o vento.
— Eu não sou o garanhão dele — m urm urou Idaho. — Esta é um a coisa que ele vai ter que entender.
A cada dia que passa você se torna cada vez mais irreal, mais estranho em relação ao que me descubro sendo no dia seguinte. Eu sou a única realidade e, na medida em que difere de mim, você perde a condição real. E quanto mais curioso eu me torno, menos curiosos ficam aqueles que me adoram. A religião suprime a curiosidade. Tudo que eu faço subtrai alguma coisa de meus adoradores. Assim é que, no final, não farei coisa alguma, entregando tudo de volta ao povo assustado, que se encontrará sozinho e forçado a agir por si próprio.
— Os diários roubados
Era um som com o nenhum outro, o som de um a m ultidão esperando, e subia ao longo do túnel por onde Idaho m archava à frente da Carreta Real — sussurros nervosos, am pliados num sussurro m aior, o arrastar de um gigantesco pé, o rem exer de um enorm e m anto. E o cheiro — doce transpiração m isturada com o hálito leitoso da excitação sexual.
Inm eir e seu grupo de Oradoras Peixes tinham trazido Idaho para esse lugar nas prim eiras horas da m anhã, descendo na praça de Onn quando esta ainda se encontrava im ersa em frias som bras esverdeadas. Elas haviam decolado im ediatam ente, depois de entregarem Idaho a outra escolta de Oradoras Peixes. Inm eir estava obviam ente infeliz porque devia levar Siona para a Cidadela e assim perderia o ritual de Siay noq.
A nova escolta, vibrando com a em oção reprim ida, conduzira-o para um local bem abaixo da praça, um local ausente de todos os m apas que Idaho estudara. Era um labirinto — prim eiro em um a direção, depois em outra, através de corredores suficientem ente largos e altos para acom odarem a Carreta Real. Idaho perdeu o senso de direção e ficou refletindo a respeito da noite anterior.
Os quartos de dorm ir em Goy goa, em bora pequenos e espartanos, haviam sido confortáveis — duas cam as em cada quarto, cada qual um a caixa com paredes de um branco lavado, um a única j anela e um a única porta. Os quartos enfileiravam -se ao longo de um corredor num prédio designado com o “Casa de Hospedagem ” de Goy goa.
E Siona estava certa. Sem que lhe perguntassem se lhe convinha, Idaho fora aloj ado com ela, Inm eir agindo com o se esse fosse um procedim ento consagrado.
Quando a porta se fechou Siona lhe disse:
— Se m e tocar eu tentarei m atá-lo.
Aquilo foi dito com um a sinceridade tão seca que Idaho quase riu.
— Teria preferido a privacidade respondeu — Considere-se sozinha.
Ele dorm ira um sono leve, relem brando noites perigosas a serviço dos Atreides, a prontidão para o com bate. O quarto raram ente ficava inteiram ente escuro — havia a luz do luar atravessando a cortina da j anela, até m esm o a luz das estrelas refletindo-se nas paredes brancas de cal. Idaho ficou nervosam ente sensível a Siona, sentindo o cheiro dela, sua respiração, seu rem exer. Várias vezes ficou inteiram ente desperto, consciente em duas dessas ocasiões, de que ela tam bém estava ouvindo.
A m anhã e o vôo para Onn vieram com o um alívio. Eles haviam quebrado o j ej um com um copo de suco de fruta frio, Idaho feliz por sair na escuridão anterior à aurora, cam inhando rapidam ente em direção ao tóptero. Ele não falara diretam ente com Siona e se ressentiu dos olhares curiosos das Oradoras Peixes.
Siona falou com ele apenas um a vez, inclinando-se para fora do tóptero quando ele saía para a praça.
— Não m e ofenderia ser sua am iga — ela disse.
Era um m odo m uito curioso de colocar a questão. Ele se sentiu vagam ente em baraçado:
— Sim ... bem , por que não?
Então, a nova escolta o levara para longe, chegando por fim a um term inal do labirinto. Leto o esperava lá na Carreta Real. O lugar de encontro era um trecho largo de um corredor que se estendia até convergir na distância, à direita de Idaho. As paredes eram de um a cor m arrom -escura, riscadas com linhas douradas que brilhavam à luz am arela dos globos lum inosos. A escolta tom ou posição atrás da carreta, m ovim entando-se com habilidade para deixar Idaho confrontando o rosto de Leto envolto nas dobras da truta da areia.
— Duncan, você m e precederá quando form os para Siay noq — disse Leto.
Idaho fitou os poços azul-escuros dos olhos do Im perador-Deus, aborrecido com o m istério e o óbvio ar de excitação desse lugar. Sentia que tudo que lhe fora dito a respeito de Siay noq só aprofundava ainda m ais o m istério.
— Sou verdadeiram ente o Com andante de sua Guarda, m eu Senhor? — perguntou Idaho, o ressentim ento forte em sua voz.
— De fato! E eu lhe outorgo um a honra agora. Poucos hom ens adultos j á partilharam Siay noq.
— Que aconteceu na cidade na noite passada?
— Violência sangrenta em certos lugares. Mas está bem calm o esta m anhã.
— Baixas?
— Nada que valha a pena m encionar.
Idaho assentiu com a cabeça. Os poderes prescientes de Leto haviam -no advertido de algum perigo para o seu Duncan. Assim , o vôo para a segurança rural de Goy goa.
— Você esteve em Goy goa — disse Leto. — Não se sentiu tentado a ficar?
— Não!
— Não fique com raiva de m im — disse Leto. — Eu não o m andei para Goy goa.
Idaho suspirou.
— Que perigo exigia que m e m andasse para longe?
— Não era com você. Mas acontece que você excita m inhas guardas a exibirem excessivam ente suas habilidades. As atividades da noite passada não exigiam isso.
— Ah?
Esse pensam ento deixou Idaho chocado. Ele nunca se j ulgara capaz de inspirar heroism os, a não ser que pessoalm ente o exigisse. É costum e estim ular as tropas. Líderes com o o Leto original, avô desse aí, tinham sido inspiradores por sua própria presença.
— Você é extrem am ente precioso para m im , Duncan.
— Sim ... bem , m as ainda assim não sou seu garanhão!
— Seus desej os serão considerados, é claro. Discutirem os isso em outra ocasião.
Idaho olhou para as Oradoras Peixes da escolta, todas elas de olhos arregalados e atentos.
— Sem pre ocorre violência quando vem a Onn? — perguntou ele.
— Acontece em ciclos. Os descontentes estão bem dom inados agora. Vai ficar m ais pacífico por algum tem po.
Idaho olhou de novo para o rosto inescrutável de Leto.
— Que aconteceu com m eu antecessor?
— Minhas Oradoras Peixes não lhe disseram ?
— Elas dizem que ele m orreu em defesa de seu Deus.
— E você ouviu um rum or em contrário.
— Que aconteceu?
— Ele m orreu porque estava m uito próxim o de m im . Não o rem ovi a tem po para um lugar seguro.
— Um lugar com o Goy goa.
— Eu teria preferido que ele vivesse o resto de sua vida lá, em paz, m as você sabe bem , Duncan, que não é daqueles que andam atrás de paz.
Idaho engoliu em seco, encontrando um estranho aperto em sua garganta.
— Ainda assim , gostaria de saber particularidades sobre a m orte dele. Ele tem um a fam ília.
— Você terá as particularidades, e não tem a pela fam ília dele. Eles são m eus protegidos. Eu os m anterei a um a distância segura. Você sabe com o a violência m e acom panha. Essa é um a de m inhas funções. É extrem am ente infeliz que aqueles a quem adm iro e am o devam sofrer por causa disso.
Idaho com prim iu os lábios, insatisfeito com o que ouvia.
— Acalm e sua m ente, Duncan. Seu antecessor m orreu porque estava m uito perto de m im .
A escolta de Oradoras Peixes rem exeu-se, inquieta. Idaho olhou para elas e então para a direita, ao longo do túnel.
— Sim , está na hora disse Leto — Não devem os deixar as m ulheres esperando. Marche bem adiante de m im , Duncan, e eu responderei suas perguntas sobre Siay noq.
Obedecendo, porque não podia pensar em qualquer alternativa adequada, Idaho virou-se nos calcanhares e liderou a procissão. Ouviu a carreta estalar, entrando em m ovim ento atrás dele, os passos abafados da escolta seguindo.
A carreta ficou silenciosa de repente, o que fez com que Idaho voltasse sua atenção. A razão era im ediatam ente evidente.
— Está usando suspensores — disse ele, voltando a atenção para a frente.
— Recolhi as rodas porque as m ulheres vão se am ontoar em volta de m im — explicou Leto. — Não podem os esm agar os pés delas.
— Que é Siay noq? Que é realm ente? — perguntou Idaho.
— Eu lhe contei. E a Grande Partilha.
— Estarei cheirando especiaria?
— Suas narinas são sensíveis. Existe um a pequena quantidade de m elange nos biscoitos.
Idaho sacudiu a cabeça.
Tentando com preender esse acontecim ento, ele perguntara diretam ente a Leto na prim eira oportunidade após sua chegada a Onn:
— Que é esse banquete de Siay noq?
— Nós partilham os um biscoito, nada m ais. Até eu com o.
— E com o o Ritual Católico Laranj a?
— Oh, não! Não é m inha carne. E apenas um a form a de partilhar algum a coisa. Elas são lem bradas de que são apenas fem ininas, com o você é apenas m asculino, m as eu sou o todo. Elas com partilham com o todo.
Idaho não gostara do tom dessa declaração.
— Apenas m asculino?
— Você sabe quem elas satirizam durante o Banquete, Duncan?
— Quem ?
— Os hom ens que as ofenderam . Escute-as enquanto falam baixinho entre elas m esm as.
Idaho tom ara isso com o um aviso: “Não ofenda as Oradoras Peixes. Você correrá perigo m ortal atraindo a ira delas!”
Agora, enquanto m archava ao longo do túnel à frente de Leto, Idaho sentia que ouvira as palavras corretam ente, m as que não aprendera coisa algum a com elas. Ele falou por sobre o om bro.
— Não entendo essa Partilha.
— Nós ficam os j untos no ritual. Você vai ver, vai sentir. Minhas Oradoras Peixes são um repositório de conhecim ento especial, um a linha contínua que só elas partilham . Agora você vai partilhar tam bém , e elas o am arão por isso. Escute-as com cuidado. Elas são abertas às idéias de afinidade. Seus term os de am or, em seu relacicnam ento m útuo, não conhecem reservas.
“Mais palavras”, pensou Idaho. “Mais m istério.”
Ele podia discernir um a am pliação gradual do túnel, o teto ficando cada vez m ais alto. Havia m ais globos lum inosos, agora sintonizados num tom laranj a-escuro. Ele podia ver o arco elevado de um a abertura a 300 m etros de distância, um a rica luz verm elha na qual podia distinguir rostos brilhantes de suor que ondulavam suavem ente para a direita e para a esquerda. Os corpos, abaixo dos rostos, eram um a parede negra de roupas. O suor da excitação era forte ali.
Enquanto se aproxim ava das m ulheres à espera, Idaho percebeu um a passagem através delas e um a ram pa inclinando-se para um a plataform a baixa à direita. O grande arco do teto curvava-se acim a das m ulheres, um espaço gigantesco ilum inado por globos lum inosos regulados em verm elho escuro.
— Suba na ram pa à sua direita — instruiu Leto. — Pare um pouco além do centro da plataform a e se vire para encarar as m ulheres.
Idaho ergueu a m ão direita avisando que entendera. Estava em ergindo no espaço aberto e as dim ensões dessa câm ara o deixaram assom brado. Colocou os olhos treinados na tarefa de estim ar as dim ensões, enquanto subia na plataform a, e calculou que o salão devia ter pelo m enos 1.100 m etros de lado — era um quadrado com cantos arredondados. Estava cheio de m ulheres, e Idaho se lem brou de que estas eram apenas as representantes escolhidas nos am plam ente dispersos regim entos de Oradoras Peixes — três m ulheres de cada planeta. Elas se erguiam agora, os corpos tão com prim idos um contra o outro que ele duvidou de que um a delas pudesse cair. Elas haviam deixado apenas um espaço aberto, de uns 50 m etros ao longo da plataform a, onde Idaho parou para observar a cena. Os rostos olhavam para ele — rostos, rostos.
Leto parou a carreta logo atrás de Idaho e ergueu um de seus braços de pele prateada.
Im ediatam ente, o rugido “Siay noq! Siay noq!” preencheu o grande salão.
Idaho ficou ensurdecido. “Certam ente esse som deve ser ouvido através da Cidade”, pensou. “A m enos que estej am os m uito abaixo do solo.”
— Minhas noivas — disse Leto. — Eu lhes dou as boas-vindas a Siay noq.
Idaho olhou para Leto vendo os olhos escuros brilhando, a expressão radiante. Leto dissera: “Esta am aldiçoada santidade!” Mas ele adorava aquilo.
“Será que Moneo j á viu esta reunião?” perguntou-se Idaho. Era um pensam ento estranho, m as ele conhecia sua origem . Tinha de haver algum outro hum ano m ortal com quem isso pudesse ser discutido. A escolta dissera que Moneo estava despachando “negócios de Estado” cuj os detalhes elas não sabiam . Ouvindo isso, Idaho sentira outra faceta do governo de Leto. As linhas do poder estendiam -se diretam ente de Leto para a população, m as não se cruzavam com freqüência. Isso exigia m uitas coisas, inclusive servos de confiança que aceitassem a responsabilidade de executar ordens sem questionam ento.
— Poucos vêem o Im perador-Deus fazer coisas dolorosas — dissera Siona. — Eram assim os Atreides que conheceu?
Idaho olhou para a m assa de Oradoras Peixes enquanto esses pensam entos corriam em sua m ente. A adulação nos olhos delas! A adm iração! Com o Leto fizera isto? Por quê?
— Minhas adoradas — disse Leto. Sua voz trovej ou sobre os rostos erguidos, sendo levada aos cantos m ais rem otos por sutis am plificadores Ixianos ocultos na Carreta Real.
As im agens suarentas dos rostos das m ulheres preenchiam a m ente de Idaho com o aviso de Leto. “Você correrá perigo m ortal atraindo a ira delas!”
Era fácil crer no aviso num lugar com o esse. Bastaria um a palavra de Leto e essas m ulheres estraçalhariam um ofensor. Elas não iriam questionar, m as agir. Idaho com eçou a sentir um novo gosto por essas m ulheres com o exército. O perigo pessoal não as deteria. Elas serviam a Deus!
A Carreta Real estalou levem ente enquanto Leto arqueava seus segm entos frontais para erguer a cabeça.
— Vocês são as m antenedoras da Fé! — disse Leto.
E elas responderam num a única voz:
— Senhor, nós obedecem os!
— Em m im vocês vivem eternam ente! — disse Leto.
— Nós som os o Infinito! — elas gritaram .
Eu am o vocês com o não am o a m ais ninguém ! — ele disse. Am or! — gritaram elas.
Idaho estrem eceu.
— Eu lhes dou o m eu am ado Duncan! — disse Leto.
— Am or! — gritaram elas.
Idaho sentia o corpo inteiro trem endo. Julgava-se capaz de cair ante o peso dessa adulação. Queria fugir e ao m esm o tem po queria ficar e aceitar isso. Havia poder ali. Poder!
Em voz baixa, Leto disse:
— Mudança de Guarda!
As m ulheres curvaram suas cabeças, um m ovim ento único, sem hesitação. De um ponto à direita de Idaho, apareceu um a linha de m ulheres em vestidos brancos. Elas m archaram para o espaço aberto abaixo da plataform a e Idaho viu que algum as delas carregavam bebês e crianças pequenas, nenhum a com m ais de um ano ou dois.
Pela explicação inicial que lhe fora dada, Idaho reconheceu essas m ulheres com o aquelas que deixavam o serviço im ediato nas Oradoras Peixes. Algum as delas se tornariam sacerdotisas, outras passariam todo o seu tem po com o m ães... m as nenhum a deixaria verdadeiram ente o serviço de Leto.
Enquanto olhava para as crianças lá em baixo, Idaho pensava em com o a m em ória dessa experiência não ficaria enterrada bem fundo na m ente das crianças. Elas viveriam esse m istério através de suas vidas, um a m em ória perdida na consciência, m as sem pre presente, turvando as respostas desse m om ento em diante.
A últim a das recém -chegadas parou abaixo de Leto e olhou para cim a. As outras m ulheres no salão tam bém ergueram os rostos e focalizaram os olhos em Leto.
Idaho olhou para a direita e para a esquerda. As m ulheres de roupas brancas preenchiam o espaço abaixo da plataform a por pelo m enos 500 m etros em am bas as direções. Algum as delas erguiam suas crianças para Leto. A adm iração e a subm issão eram algo absoluto. Se Leto ordenasse, sentiu Idaho, aquelas m ulheres despedaçariam seus bebês de encontro à quina da plataform a. Elas fariam qualquer coisa!
Leto abaixou seus segm entos frontais sobre a dianteira da carreta num grave m ovim ento ondulante. Olhou para baixo benignam ente e sua voz saiu com o suave carícia.
— Eu lhes dou a recom pensa por sua fé e seus serviços. Peçam e lhes será dado.
O salão inteiro reverberou com a resposta:
— Será dado!
— O que é m eu é teu — disse Leto.
— O que é m eu é teu — as m ulheres gritaram .
— Partilhem com igo agora — disse Leto — a prece silenciosa por m inha intercessão em todas as coisas: que a hum anidade nunca term ine.
Com o se fossem um a, todas as cabeças no salão se curvaram . As m ulheres de branco abraçaram suas crianças olhando para elas. Idaho sentia um a unidade silenciosa, um a força que buscava penetrá-lo e dom iná-lo. Abriu bem a boca e respirou profundam ente, lutando contra algum a coisa que sentia com o um a invasão física. Sua m ente buscou freneticam ente algum a coisa a que pudesse agarrar-se, algo para protegê-lo.
Essas m ulheres constituíam um exército de cuj a força e união Idaho não suspeitara. Ele sabia que não ia entender essa força. Só podia observá-la e reconhecer que existia.
Era isso que Leto criara.
E as palavras dele durante um encontro na Cidadela, retornaram a Idaho:
— A lealdade, num exército m asculino, prende-se ao próprio exército e não à civilização que o criou. A lealdade, num exército fem inino, prende-se à figura do líder.
Idaho olhou para a prova visível da criação de Leto, notando a precisão penetrante daquelas palavras, e tem endo-as.
“E ele m e oferece um a parte disso”, pensou.
Sua própria resposta às palavras de Leto agora lhe parecia pueril.
— Eu não vej o a razão — dissera.
— Na m aior parte as pessoas não são criaturas racionais.
— Nenhum exército, m asculino ou fem inino, garante a paz! Seu Im pério não é pacífico! O senhor apenas...
— Minhas Oradoras Peixes lhe contaram nossas histórias?
— Sim , m as eu tam bém cam inhei por sua cidade e observei o seu povo. Seu povo é agressivo!
— Está vendo, Duncan? A paz encoraj a a agressão.
— E o Senhor diz que o seu Cam inho Dourado...
— Não é precisam ente um a paz. É tranqüilidade, cam po fértil para o crescim ento de classes rígidas e m uitas outras form as de agressão.
— Está falando através de charadas!
— Eu falo de observações acum uladas, as quais m e dizem que a postura pacífica é a postura dos derrotados. É a postura da vítim a. As vítim as convidam à agressão.
— Sua m aldita tranqüilidade forçada! Que bem ela traz?
— Se não existe inim igo, um tem de ser inventado. A força m ilitar à qual se nega um alvo externo sem pre se volta contra seu próprio povo.
— Qual é o seu j ogo?
— Eu m odifico o desej o hum ano através da guerra.
— As pessoas não querem a guerra!
— Elas querem o caos. E a guerra é a form a m ais facilm ente disponível de caos.
— Não acredito em nada disso. O Senhor está j ogando algum j ogo perigoso, só seu.
— Muito perigoso. Busco antigas fontes de com portam ento hum ano e as redireciono. O perigo é que com isso eu poderia suprim ir as forças que asseguram a sobrevivência hum ana. Mas lhe asseguro que m eu Cam inho Dourado perm anece.
— Suprim iu o antagonism o!
— Eu dissipo as energias em um lugar e as direciono para outro. O que você não pode controlar, você dom ina.
— E que im pede seu exército fem inino de assum ir o controle?
— Eu sou o líder delas.
Ao olhar para as m ulheres apinhadas no grande salão, Idaho não podia negar o foco da liderança. Tam bém percebia que um a parte daquela adulação se dirigia à sua pessoa. A tentação o m antinha im obilizado — qualquer coisa que desej asse delas... qualquer coisa! O poder latente nesse grande salão era explosivo. E essa com preensão o forçava a um profundo questionam ento das palavras anteriores de Leto.
Leto dissera algum a coisa quanto à violência explosiva. E m esm o ao observar as m ulheres em sua prece silenciosa, Idaho relem brava o que Leto dissera.
— Os hom ens são suscetíveis a fixação de classe. Eles criam sociedades com partim entadas em cam adas. A sociedade de classes é um convite fatal à violência. Ela não desm orona. Ela explode.
— E as m ulheres nunca fazem isso?
— Não, a m enos que sej am quase com pletam ente dom inadas pelos hom ens ou presas a um m odelo m asculino de atitudes.
— Os sexos não podem ser tão diferentes.
— Mas são. As m ulheres assum em um a causa com um baseadas no seu sexo, um a causa que transcende a classe e casta. É por isso que eu deixo m inhas m ulheres segurando as rédeas.
E Idaho se viu forçado a adm itir que essas m ulheres orando seguravam as rédeas.
“Que parte desse poder ele passaria para as m inhas m ãos?”
A tentação era m onstruosa! Idaho ficou trêm ulo com ela. E de m odo friam ente súbito percebeu que essa devia ser a intenção de Leto — “tentar-m e”!
No piso do grande salão, as m ulheres term inaram sua prece e ergueram os olhos para Leto. Idaho notou nunca antes ter visto tam anho arrebatam ento em rostos hum anos — nem no êxtase do sexo nem num a gloriosa vitória pelas arm as — em parte algum a ele vira algo que se aproxim asse dessa intensa adulação.