O Imperador-Deus de Duna
Qual é o perigo mais imediato para…
Qual é o perigo mais imediato para minha administração? Vou lhes dizer. É um verdadeiro visionário, uma pessoa que tenha estado na presença de Deus com o pleno conhecimento de onde se colocava. O êxtase divisionário libera energias que são como as do sexo-livres de preocupação com qualquer coisa, exceto a criação. Um ato de criação pode ser muito semelhante a outro. Tudo depende da visão.
— Os diários roubados
Leto encontrava-se fora de sua carreta, na sacada elevada da torre de sua Pequena Cidadela, dom inando um m au hum or que sabia ser proveniente dos necessários atrasos na data de seu casam ento com Hwi Noree. Olhou em direção ao sudoeste. Em algum ponto além do horizonte escurecido, o Duncan, Siona e seus com panheiros estariam com pletando seis dias de estada na vila de Tuono.
“Esses atrasos foram falha m inha”, pensou Leto. “Fui eu que m udei o local do casam ento, tornando necessário que o pobre Moneo revisasse todos os seus preparativos.”
E agora, é claro, havia a questão de Malky.
Nenhum a dessas necessidades poderia ser explicada a Moneo, que Leto ouvia andando dentro da câm ara central do ninho, preocupado por estar ausente do posto de com ando, onde dirigia os preparativos para a festa. Moneo vivia se preocupando tanto!
Leto olhou na direção do sol poente, que flutuava acim a do horizonte, apagando-se no fraco tom laranj a de um a tem pestade recente. A chuva agachava-se sob as nuvens do sul, agora além do Sareer. Em prolongado silêncio, Leto observara-a estender-se por algum tem po, parecendo não ter com eço nem fim . As nuvens tinham crescido num céu cinzento, com a chuva avançando em baixo em linhas visíveis. Sentiu-se dom inado por m em órias que vinham sem serem desej adas. O estado de espírito que isso provocava era difícil de dom inar e, m esm o sem pensar, Leto m urm urou alguns versos de um poem a m uito antigo.
— Falou, Senhor?
A voz de Moneo veio de um ponto m ais baixo, bem ao lado de Leto. Apenas virando os olhos, Leto podia ver o fiel m aj ordom o de pé, esperando atento.
Leto traduziu para o Galach os versos que citara:
— O rouxinol faz seu ninho na am eixeira, m as que fará com relação ao vento?
— Isso é um a pergunta, Senhor?
— Um a velha pergunta. A resposta é sim ples. Deixe o rouxinol ficar com suas flores.
— Não com preendo, Senhor.
— Pare de dizer o óbvio, Moneo. Incom oda-m e quando você faz isso.
— Perdoe-m e, Senhor.
— Que m ais poderia fazer? — Leto observou as feições abatidas de Moneo. — Você e eu, Moneo, o que quer que a gente faça, fornecem os um bom teatro.
Moneo olhou para o rosto de Leto.
Senhor?
— Os rituais durante as festas religiosas de Baco foram as sem entes do teatro grego, Moneo. A religião freqüentem ente leva ao teatro. E eles vão fazer um ótim o teatro a partir de nós.
Um a vez m ais Leto virou-se, olhando para o horizonte sudoeste.
Lá agora havia um vento em pilhando as nuvens. Leto podia ouvir a areia im pulsionada pelo vento rodopiando entre as dunas, m as na elevada torre havia apenas um a quietude profunda, com um suave assovio de vento ao fundo.
— As nuvens — sussurrou ele. — Eu beberia outra vez um a taça de luar, com um a antiga barcaça oceânica aos m eus pés, nuvens finas e m eu céu escurecido, o m anto azul-cinzento sobre os om bros e os cavalos relinchando por perto.
— Meu Senhor está perturbado — disse Moneo, e a com paixão em sua voz doeu em Leto.
— São as som bras brilhantes do m eu passado — disse Leto. — Nunca m e deixam em paz. Procuro ouvir um som tranqüilizador, com o o sino de um vilarej o cam pestre ao cair da noite, e ele m e diz que eu sou o som e a alm a deste lugar.
Enquanto ele falava, a escuridão envolveu a torre. Luzes autom áticas acenderam -se em torno deles. Leto m anteve a atenção voltada para fora, onde a fina fatia de m elão form ada pela Prim eira Lua deslizava acim a das nuvens, com a luz alaranj ada do planeta revelando o círculo com pleto do satélite.
— Senhor, por que viem os até aqui? — perguntou Moneo. — Por que não m e diz?
— Eu queria o benefício da sua surpresa — respondeu Leto. — Um a nave ligeira da Corporação logo pousará ao nosso lado: m inhas Oradoras Peixes trazendo-m e Malky.
Moneo sorveu subitam ente o ar, prendendo a respiração por um m om ento antes de exalar.
— O tio... de Hwi? Esse Malky.
— Está surpreso por não ter sido avisado disso.
Moneo sentiu um frio percorrer-lhe todo o corpo:
— Senhor, quando desej a m anter coisas fora de m eu conhecim ento...
— Moneo? — Leto falou em tom suavem ente persuasivo. — Sei que Malky lhe ofereceu m aiores tentações do que qualquer outro...
— Senhor! Eu nunca...
— Sei disso, Moneo. — Ele continuou falando em tom suave.
— Mas a surpresa revigorou suas m em órias. Agora está arm ado para qualquer coisa de que eu necessite.
— O que... o que m eu Senhor...
— Talvez tenham os que nos livrar de Malky. Esse é o problem a.
— Eu? O Senhor quer que eu...
— Talvez.
Moneo engoliu em seco.
— A Reverenda Madre...
— Anteac está m orta. Ela m e serviu bem , m as agora está m orta. Houve um a violência extrem a quando m inhas Oradoras Peixes atacaram o... o lugar onde Malky estava escondido.
— Nós estam os m elhor sem Anteac — com entou Moneo.
— Eu aprecio a sua desconfiança em relação à Bene Gesserit, m as preferia que Anteac nos tivesse deixado de outro m odo. Ela era fiel a nós, Moneo.
— Um a Reverenda Madre era...
Tanto a Bene Tleilaxu quanto a Corporação queriam o segredo de Malky — contou Leto. — Quando eles nos viram avançando contra os Ixianos, atacaram antes de m inhas Oradores Peixes. Anteac... bem , ela só pôde retardá-los um pouco, m as foi o suficiente. Minhas Oradoras Peixes investiram contra o lugar e...
— O segredo de Malky, Senhor?
— Quando algum a coisa desaparece — explicou Leto —, isso constitui um a m ensagem tão significativa quanto o aparecim ento de algo. Os lugares vazios sem pre valem nosso estudo.
— O que m eu Senhor quer dizer com vazio?
— Malky não m orreu! Certam ente eu teria sabido disso. E para onde ele foi quando desapareceu?
— Desapareceu... de sua observação, Senhor? Quer dizer que os Ixianos...
— Eles aperfeiçoaram um engenho que m e forneceram m uito tem po atrás. Eles o aperfeiçoaram lentam ente, de m odo sutil, carapaças ocultas dentro de carapaças, m as percebi as som bras. Fiquei surpreso. Fiquei satisfeito.
Moneo pensou a respeito disso. “Um engenho que escondia. Ah!” O Im perador-Deus m encionara um a coisa assim em várias ocasiões, um m odo de ocultar os pensam entos que gravava. Ele disse:
— E Malky traz o segredo do...
— Oh, sim ! Mas esse não é o verdadeiro segredo de Malky. Ele guarda outra coisa pensando que eu não suspeito.
— Outra... m as se ele pode esconder-se até do Senhor..
— Muitos podem fazê-lo agora, Moneo. Eles se dispersaram ante o ataque de m inhas Oradoras Peixes. O segredo do engenho Ixiano j á se espalhou am plam ente.
Os olhos de Moneo arregalaram -se de preocupação.
— Senhor, se alguém ...
— Se eles aprenderam a ser hábeis, não deixarão rastros. Diga-m e, Moneo, que é que Nay la diz a respeito do Duncan? Será que ela se ressente por relatar diretam ente a você?
— O que m eu Senhor ordenar... — Moneo pigarreou.
Não podia im aginar por que o Im perador-Deus falara de rastros ocultos, do Duncan e de Nay la ao m esm o tem po.
— Sim , é claro — concordou Leto. — É só eu ordenar que Nay la obedece. E que ela diz do Duncan?
— Ele não tentou procriar com Siona, se essa e a...
— Mas que é que ele tem feito com m eus fantoches, o Naib Garun e os outros Frem en de Museu?
— Ele fala com eles sobre os antigos costum es, sobre as guerras contra os Harkonnen e os prim eiros Atreides aqui em Arrakis.
— Em Duna!
— Sim , Duna.
— E por não existir m ais Duna que não existem m ais Frem en — disse Leto. — Você transm itiu m inha m ensagem a Nay la?
— Senhor, por que aum enta o perigo?
— Você transm itiu m inha m ensagem ?
— A m ensageira foi enviada a Tuono, m as ainda posso cham á-la de volta.
— Você não a cham ará de volta!
— Mas Senhor...
— Que ela vai dizer a Nay la?
— Que... que sua ordem para Nay la é m anter-se em absoluta e inquestionada obediência a m inha filha, exceto... Senhor! Isso é perigoso!
— Perigoso? Nay la é um a Oradora Peixe. Ela m e obedecerá.
— Mas Siona... Senhor, tem o que m inha filha não lhe sirva de todo o seu coração. E Nay la é.
— Nay la não deve desviar-se.
— Senhor, vam os celebrar o casam ento em outro lugar.
— Não!
— Senhor, eu sei que sua visão revelou.
— O Cam inho Dourado perdura, Moneo. Sabe disso tão bem quanto eu.
Moneo suspirou.
— O Infinito lhe pertence, Senhor. Eu não questiono...
Ele interrom peu a frase quando um rugido estrem eceu a torre, cada vez m ais alto, m ais alto.
Am bos viraram -se na direção do som — um a plum a descendente de luz azul alaranj ada envolveu-os em rodopiantes ondas de choque e pousou no deserto, a m enos de um quilôm etro de distância, para o sul.
— Ah, m eu convidado está chegando — disse Leto. — Vou m andá-lo em m inha carreta, Moneo. Traga som ente Malky com você. Diga aos hom ens da Corporação que eles conquistaram m eu perdão e depois os m ande em bora.
— Seu per... sim , Senhor. Mas se eles possuem o segredo do...
— Eles servem ao m eu propósito, Moneo. Você deve fazer o m esm o.
Obediente, Moneo dirigiu-se à carreta que se encontrava m ergulhada nas som bras, na outra extrem idade da câm ara. Subiu nela e observou um círculo de noite aparecer na parede. Um a plataform a de pouso proj etou-se na escuridão. A carreta flutuou para fora, leve com o um a pena, e deslizou em ângulo até a areia, ao lado da nave ligeira da Corporação, que se erguia com o um a m iniatura distorcida da torre da Pequena Cidadela.
Leto observou da sacada, seus segm entos frontais ligeiram ente erguidos para proporcionarem um m elhor ângulo de observação. Sua visão aguda identificava os m ovim entos da m ancha branca que era Moneo, de pé na carreta, sob a luz do luar. Servidores da Corporação, de pernas longas, saíram com um a liteira que colocaram na carreta, parando Por um m om ento para conversarem com Moneo. Quando partiram , Leto fechou a cobertura-bolha da carreta e viu o luar refletir-se nela. Obedecendo ao cham ado de seu pensam ento, a carreta e sua carga retornaram à plataform a de pouso. A nave da Corporação ergueu-se com m uito ruído enquanto Leto trazia a carreta para a área de ilum inação da câm ara, fechando a abertura atrás dela. Abriu a cobertura-bolha e a areia raspou em baixo dele, enquanto rolava até a liteira e elevava seus segm entos frontais para observar Malky. Ele se encontrava com o que dorm indo, am arrado à liteira por largas faixas de elástico cinzento: o rosto do hom em era cinza-pálido sob o cabelo grisalho-escuro.
“Com o ele envelheceu”, pensou Leto.
Moneo desceu da carreta e olhou para o ocupante da liteira.
— Ele está ferido, Senhor. Queriam m andar um m édico...
— Queriam m andar era um espião.
Leto observava Malky — a pele escura enrugada, as fundas m açãs do rosto, o nariz fazendo enorm e contraste com o oval arredondado do rosto, as espessas sobrancelhas quase brancas. Não fosse um a vida inteira de testosterona... sim .
Os olhos de Malky se abriram . Era um grande choque encontrar a m aldade naqueles olhos castanhos de corça! Um sorriso torceu a boca de Malky.
— Lorde Leto. — A voz de Malky não passava de um sussurro rouco. Seus olhos voltaram -se para a direita, focalizando-se no m aj ordom o. — E Moneo. Perdoem -m e por não m e levantar.
— Está sentindo dor? — perguntou Leto.
— Às vezes sinto. — Os olhos de Malky percorreram os arredores. — Onde estão as huris?
— Tem o que lhe deva negar esse prazer, Malky.
— Muito bem — disse a voz rouca. — Realm ente não m e sinto apto a suportar as exigências delas. Não foram huris que m andou atrás de m im , Leto.
— Elas foram profissionais em sua obediência a m im — respondeu Leto.
— Eram caçadoras sangüinárias!
— Anteac era a caçadora. Minhas Oradoras Peixes eram m eram ente a turm a da lim peza.
Moneo desviava sua atenção de um para o outro. Havia uns tons perturbadores nessa conversa e, a despeito da voz fanhosa, Malky parecia quase petulante... m as ele sem pre fora assim . Um hom em perigoso!
Leto disse:
— Pouco antes de sua chegada, Moneo e eu estávam os discutindo o Infinito.
— Pobre Moneo — disse Malky.
Leto sorriu.
— Está lem brado, Malky ? Um a vez você m e pediu para dem onstrar o Infinito.
— E você disse que não havia um Infinito para ser dem onstrado. — Malky voltou o olhar para Moneo. — Leto gosta de brincar com paradoxos. Conhece todos os truques de linguagem que j á foram inventados.
Moneo dom inou um ím peto de raiva. Sentia-se excluído da conversa, um obj eto de diversão de dois seres superiores. Malky e o Im perador-Deus eram quase com o dois velhos am igos, relem brando os prazeres de um passado com um .
— Moneo acusa-m e de ser o único possuidor do Infinito — disse Leto. — Ele se recusa a acreditar que possui tanto Infinito quanto eu.
Malky olhou para Leto.
— Está vendo, Moneo? Percebe com o ele é hábil com as palavras?
— Fale-m e da sua sobrinha, Hwi Noree — pediu Leto,
— E verdade o que eles estão dizendo, Leto? Que vai se casar com a gentil Hwi?
— E verdade.
Malky riu, depois fez um a careta de dor.
— Elas fizeram um estrago terrível em m im , Leto — sussurrou ele, depois disse: — Diga-m e, velho verm e.
Moneo em itiu um som de espanto.
Malky levou um m om ento para se recuperar da dor, depois continuou:
— Diga-m e, velho verm e, existe algum pênis m onstruoso escondido nesse seu corpo de m onstro? Que choque vai ser para a gentil Hwi!
— Eu lhe disse a verdade m uito tem po atrás — respondeu Leto.
Ninguém diz a verdade — disse a voz rouca.
— Você m uitas vezes m e dizia a verdade — lem brou Leto.
— Mesm o quando não o sabia.
— E porque você era m ais esperto do que o resto de nós.
— Vai m e falar a respeito de Hwi?
— Acho que j á sabe.
— Quero ouvir de você — insistiu Leto. — Você obteve aj uda dos Tleilaxu?
— Eles nos deram o conhecim ento, nada m ais. Todo o restante fizem os sozinhos.
— Eu achei que não era coisa dos Tleilaxu.
Moneo não pôde m ais conter a curiosidade.
— Senhor, que relação é essa de Hwi com os Tleilaxu? Por que o Senhor...
— Ora vam os, velho am igo Moneo — disse Malky, virando os olhos para o m aj ordom o. — Não sabe que ele...
— Nunca fui seu am igo! — retrucou Moneo.
— Com panheiro entre as huris, então.
Senhor — disse Moneo, virando-se para Leto —, por que fala de...
— Shhh, Moneo — pediu Leto. — Estam os cansando nosso velho com panheiro e ainda tenho coisas para aprender dele.
— Jam ais se perguntou, Leto, por que Moneo nunca tentou tom ar-lhe o controle de todo este negócio?
— O quê? — perguntou Moneo.
— Outra das velhas palavras de Leto — explicou Malky. -E perfeita. Por que não rebatiza seu Im pério, Leto? O Grande Negócio?*
* No original. o autor faz um trocadilho com a expressão Shebang (arm ação, negócio). form ada pelas palavras she (ela) e bang (som de explosão) num a alusão de Malky à ação do exército fem inino de Leto. (N. do T.)
Leto ergueu a m ão para silenciar Moneo.
— Vai m e dizer, Malky ? A respeito de Hwi?
— Apenas um as pequeninas células do m eu corpo — explicou Malky. — Depois o cuidado com a nutrição, o crescim ento e a educação... tudo o oposto exato de seu velho am igo Malky. Fizem os tudo num a não-sala onde você não poderia ver!
— Mas eu noto quando algum a coisa desaparece — disse Leto.
— Não-sala? — perguntou Moneo ao captar a im portância das palavras de Malky. — Você? Você e Hwi?
— Essa foi a form a que eu vi nas som bras — disse Leto.
Moneo olhou direto para o rosto de Leto.
— Senhor, vou cancelar esse casam ento. Vou dizer.
— Você não fará nada disso!
— Mas Senhor, se ela e Malky são.
— Moneo — disse a voz rouca de Malky —, seu Senhor ordena e você deve obedecer!
Aquele tom de zom baria! Moneo olhou para Malky.
— O oposto exato de Malky — disse Leto. — Você não o ouviu?
— Que poderia ser m elhor? — perguntou Malky.
— Mas certam ente, Senhor, se agora sabe.
— Moneo — disse Leto —, você está com eçando a m e perturbar.
Moneo caiu num em baraçado silêncio.
Leto disse:
— Assim está m elhor. Você sabe, Moneo, certa vez, há dezenas de m ilhares de anos, quando eu era outra pessoa, com eti um engano.
— Você com eteu um engano? — zom bou Malky.
Leto apenas sorriu.
— Meu engano foi corrigido pelo belo m odo através do qual eu o expressei.
— Truques com palavras — provocou Malky.
— De fato! Foi isto que eu disse: “O presente é um a distração, o futuro é um sonho; som ente a m em ória pode abrir o significado da vida. Não são palavras bonitas, Malky ?
— Prim orosas, velho verm e.
Moneo colocou a m ão sobre a boca.
— Mas m inhas palavras são um a tola m entira. Eu sabia disso naquela época — explicou Leto —, m as estava enam orado da beleza das palavras. Não... a m em ória não abre significado algum . Sem a agonia da alm a, que é um a experiência não-verbalizável, não existe significado em parte algum a.
— Não consigo ver significado na agonia causada em m im pelas suas Oradoras Peixes sedentas de sangue — disse Malky.
— Você não está sofrendo agonia — disse Leto.
— Se estivesse neste corpo, você.
— Isso é apenas dor física. Vai term inar logo.
— Então, quando é que conhecerei a agonia?
— Talvez m ais tarde.
Leto flexionou seus segm entos frontais para longe de Malky, encarando Moneo.
— Você realm ente serve ao Cam inho Dourado, Moneo?
— Ah, o Cam inho Dourado — zom bou Malky.
— Sabe que sim , m eu Senhor — respondeu Moneo.
— Então deve prom eter-m e que nada do que aprendeu aqui j am ais escapará dos seus lábios. Nem por palavras, nem por sinais você o revelará.
— Prom eto, Senhor.
— Ele prom ete, Senhor — resm ungou Malky.
Um a das pequeninas m ãos de Leto gesticulou na direção de Malky, que j azia olhando para o volum oso perfil de um rosto dentro de seu capuz cinzento.
— Por causa da antiga adm iração e... m uitos outros m otivos, não posso m atar Malky. Não posso nem m esm o lhe pedir isso... e no entanto ele deve ser elim inado.
— Oh, m as com o ele é hábil! — com entou Malky.
— Senhor, se esperar do outro lado da câm ara — disse Moneo.
— Talvez, quando retornar, Malky não sej a m ais um problem a.
— Ele vai fazê-lo — disse Malky com sua voz rouca. — Pelos Deuses! Ele vai.
Leto afastou-se para o lim ite da sala que se encontrava nas som bras, m antendo sua atenção voltada para a fraca linha em arco que se converteria num a abertura para a noite se ele apenas convertesse a vontade num com ando de pensam ento. Que longa queda haveria lá fora — bastava rolar para fora da plataform a de pouso. Ele duvidava de que até m esm o seu corpo pudesse sobreviver a tal queda. Mas não existia água na areia em baixo da Torre e ele pôde sentir o Cam inho Dourado piscando para dentro e para fora da existência, som ente porque se perm itira a pensar em tal fim .
— Leto! — Malky gritou por trás dele.
Leto ouviu a liteira arrastando-se sobre a areia soprada pelo vento, que salpicava o piso de seu ninho.
Um a vez m ais Malky gritou.
— Leto, você é o m aior! Não existe m aldade neste universo que possa superar...
O som de um a pancada em algo úm ido calou a voz de Malky. “Um golpe na garganta”, pensou Leto. “Sim , Moneo conhece esse.” Então vieram o som do escudo transparente da sacada sendo aberto, o raspar da liteira no gradil e o silêncio.
“Moneo terá que enterrar esse corpo na areia”, pensou Leto. “Ainda não há nenhum Verm e para devorar a evidência.” Virou-se e olhou através da câm ara. Moneo inclinava-se sobre o balaústre, olhando para baixo.
“Não posso orar por você, Malky, nem por você, Moneo. Posso ser a única consciência religiosa de todo o Im pério porque estou verdadeiram ente só... e assim não posso rezar.”
Vocês não entenderão a história a menos que compreendam seus fluxos, suas correntes e o modo como os líderes navegam dentro de tais forças. Um líder tenta perpetuar as condições que exijam sua liderança, e assim precisa do outro. Eu lhes aviso para examinarem minha carreira com muito cuidado. Eu sou tanto o líder quanto o outro. Não cometam o engano de presumir que eu apenas criei a Igreja que constituiu o Estado. Essa era minha função como líder e eu possuía muitos modelos históricos para usar como padrão. Para um indício de meu trabalho como o outro, como aquele que observa e segue o líder, examine as artes da minha época. São bárbaras. A poesia favorita? A época. O ideal dramático popular? O heroísmo. As danças? Amplamente abandonadas. Do ponto de vista de Moneo, ele é correto em descrever isso como perigoso. Isso estimula a imaginação. Faz com que as pessoas sintam falta de algo que lhes foi tomado. E que eu tomei delas? O direito de tomar parte na história.
— Os diários roubados
Idaho esticou-se no catre com os olhos fechados e ouviu algo pesado cair no outro leito. Sentou-se sob a luz da m anhã, que passava enviesada através da única j anela do aposento, refletindo-se do piso de azulej o branco para as paredes am arelo-claras. Siona, ele viu, chegara para se deitar em sua cam a. Já estava lendo um dos livros que carregava sem pre consigo num em brulho de tecido verde.
“Por que livros?”, perguntou-se ele.
Girou, colocando os pés no chão, e olhou à volta. Com o poderia essa caixa espaçosa, de teto alto, ser considerada, m esm o rem otam ente, com o algo Frem en? Um a larga m esa-escrivaninha, feita de um plástico m arrom -escuro, m anufaturado no local, separava as duas cam as. Havia duas portas. Um a conduzindo diretam ente para fora, através de um j ardim . A outra dando para o luxuoso banheiro, cuj os azulej os azul-pálidos cintilavam sob um a am pla clarabóia. O banheiro continha, entre seus m uitos equipam entos funcionais, um a banheira escavada no chão e um a ducha, cada qual com pelo m enos dois m etros quadrados. A porta que dava para esse espaço sibarítico fora deixada aberta, e Idaho podia ouvir a água derram ando-se da banheira. Curiosam ente, Siona parecia gostar de se banhar com água em excesso.
Stilgar, o Naib de Idaho nos velhos dias de Duna, teria olhado para esse aloj am ento com desdém .
— Vergonhoso! — teria dito. — Decadente! Fraco!
Stilgar teria usado m uitas palavras de censura em relação a essa vila, que se atrevia a ser com parada a um verdadeiro sietch Frem en.
O papel fez ruído quando Siona virou um a página. Estava deitada com a cabeça apoiada em dois travesseiros, um fino roupão branco cobrindo-lhe o corpo. Um roupão que ainda se colava à um idade do banho.
Idaho sacudiu a cabeça. Que haveria naquelas páginas que m antinha o interesse dela desse m odo? Ela estivera lendo e relendo desde que tinham chegado a Tuono. Os volum es eram finos m as num erosos, exibindo apenas núm eros em suas capas negras. Idaho vira o núm ero nove.
Ele pulou da cam a e foi até a j anela. Havia um velho lá fora, bem longe, escavando entre as flores. Três lados do j ardim eram protegidos por prédios, e as flores tinham botões enorm es — verm elhos do lado de fora, m as, quando se abriam , brancos no centro. O cabelo grisalho do velho era um a espécie de flor, ondulando entre os botões brancos. Idaho sentiu o cheiro de folhas secas e de hum o recentem ente rem exido, em m eio a um forte perfum e floral.
“Um Frem en cuidando de flores a céu aberto!”
Siona nada dissera quanto à sua estranha leitura. “Ela está m e provocando”, pensou ele. “Quer que eu pergunte.”
Tentou não pensar em Hwi. O ódio am eaçava dom iná-lo quando o fazia. Lem brou-se da palavra Frem en para um a em oção intensa: kanawa, o anel de ferro do ciúm e. “Onde estará Hwi? Que estará fazendo neste instante?”
A porta para o j ardim abriu-se com um a batida, e Teishar, aj udante de Garun, entrou. Teishar tinha um rosto de cor m orta, cheio de rugas escuras. Seus olhos eram fundos, com um am arelado pálido em torno das pupilas. Usava um m anto m arrom . O cabelo lem brava capim deixado para apodrecer e Teishar parecia todo ele desnecessariam ente feio, com o um espírito escuro e elem entar. Ele fechou a porta e ficou diante dela, olhando para eles.
A voz de Siona veio de trás de Idaho:
— Bem , que houve?
Idaho reparou que Teishar parecia estranham ente excitado, vibrando com algum a coisa.
— O Im perador-Deus... — Teishar pigarreou e com eçou de novo. — O Im perador-Deus virá a Tuono!
Siona sentou-se ereta na cam a, dobrando o robe branco sobre os j oelhos. Idaho olhou para ela e então um a vez m ais para Teishar.
— Ele se casará aqui em Tuono! — disse Teishar. — Será feito à antiga m aneira Frem en! O Im perador-Deus e sua noiva serão hóspedes de Tuono!
Ainda inteiram ente sob o dom ínio do kanawa, Idaho olhou furioso para ele, com os punhos contraídos. Teishar inclinou a cabeça brevem ente, virou-se e saiu, fechando a porta com força.
— Deixe-m e ler algum a coisa para você, Duncan — disse Siona.
Idaho levou um instante para com preender as palavras. Com os punhos ainda fechados, os braços esticados dos lados do corpo, ele se virou e olhou para ela. Siona estava sentada na beira da cam a, com um dos livros no colo. Ela tom ou sua atenção com o concordância.
— “Alguns acreditam ” — ela leu — “que você deve unir integridade a um a certa quantidade de trabalho suj o antes de em prestar genialidade ao seu trabalho. Eles dizem que o com prom isso com eça quando você sai do seu sanctus com a intenção de realizar seus ideais. Moneo diz que m inha solução é perm anecer dentro do sanctus, m andando outras pessoas fazerem o trabalho suj o.” — Ela olhou para Idaho. — São palavras... do próprio Im perador-Deus.
Lentam ente, Idaho relaxou os punhos. Sabia que precisava dessa distração e lhe interessava que Siona tivesse em ergido de seu silêncio.
— Que livro é esse? — perguntou ele.
Sucintam ente, ela lhe contou com o roubara, com a aj uda de seus com panheiros, as plantas da Cidadela e as cópias dos diários de Leto.
— E claro que você sabia disso. Meu pai deixou claro que nosso ataque foi traído por espiões.
Ele viu as lágrim as latentes nos olhos dela:
— Nove de vocês m ortos pelos lobos?
Ela confirm ou.
— Você é um a péssim a Com andante! — disse ele.
Ela ficou irritada, m as, antes que pudesse falar, ele indagou:
— Quem os traduziu para você?
— Estes vieram de Ix. Eles dizem que a Corporação encontrou a Chave.
— Já sabem os que o nosso Im perador-Deus aprecia conveniências — disse Idaho. — Isso á tudo o que ele diz?
— Leia você m esm o.
Ela m exeu no em brulho ao lado da cam a e pegou o prim eiro volum e da tradução, que j ogou para a cam a dele. Quando Idaho voltava para a sua cam a, ela quis saber:
— Por que disse que sou péssim a Com andante?
— Desperdiçar nove de seus com panheiros daquele m odo.
— Seu tolo! — Ela sacudiu a cabeça. — Você obviam ente nunca viu aqueles lobos!
Ele pegou o livro e o achou pesado, percebendo que fora im presso em papel cristalino.
— Vocês deviam ter se arm ado contra os lobos — retrucou ele, abrindo o volum e.
— Com que arm as? Qualquer arm a que pudéssem os obter teria sido inútil.
— Pistolas laser? — perguntou ele, virando um a página.
— Toque em um a arm a laser em Arrakis e o Verm e saberá!
Ele virou outra página.
— Seus am igos acabaram conseguindo arm as laser.
— E olhe o que aconteceu com eles!
Idaho leu um a linha, depois disse:
— Era possível usar venenos.
Ela engoliu em seco, convulsivam ente.
Idaho olhou para ela
— Vocês acabaram envenenando os lobos, não foi?
A voz dela era quase um sussurro.
— Sim .
— Por que não fizeram isso antes?
— Mas nos... não sabíam os... que... poderíam os.
— E você nem ao m enos experim entou. — Ele voltou-se para o volum e aberto. — Um a péssim a Com andante.
— Ele é tão arguto! — disse ela.
Idaho leu um a passagem do volum e antes de voltar a atenção para ela.
— Isso o descreve m uito pouco. Já leu tudo?
— Cada palavra! Algum as delas várias vezes.
Ele olhou para o livro aberto e leu em voz alta:
— “Eu criei o que pretendia — um a poderosa tensão espiritual através do m eu Im pério. Poucos sentem a força disso. E com que energias eu criei essa condição? Não sou tão forte. O único poder de que disponho é o controle da prosperidade individual. Isso é a som a de todas as coisas que faço. Então por que as pessoas buscam m inha presença por outros m otivos? O que poderia conduzi-las à m orte certa num a fútil tentativa de alcançar m inha presença? Será que elas querem tornar-se santas? Será que pensam que desse m odo obtêm a visão de Deus?”
— Ele é o m aior dos cínicos — disse Siona, o choro evidente em sua voz.
— Com o foi que ele a testou?
— Ele m e m ostrou um ... ele m e m ostrou o seu Cam inho Dourado.
— Isso é conveniente.
— E verdadeiro, Duncan. — Ela olhou para ele com os olhos brilhantes de lágrim as não derram adas. — Mas se isso algum dia foi um a razão j ustificadora para o Im perador-Deus, não é m ais m otivo para o que ele se tornou!
Idaho respirou fundo e disse.
— Os Atreides chegando a isso!
— O Verm e deve acabar! — disse Siona.
— Eu m e pergunto quando ele vai chegar.
— O pequeno am igo rato de Garun não disse.
— Devem os perguntar — sugeriu Idaho.
— Mas não tem os arm as.
— Nay la tem um a arm a laser. Nós tem os facas, cordas. Vi cordas em um a das salas de depósito de Garun.
— Contra o Verm e? — ela perguntou. — Mesm o que pudéssem os obter a arm a laser de Nay la, você sabe que não o atingiria.
— Mas será que a carreta dele é à prova de laser?
— Não confio em Nay la — disse Siona.
— Mas ela não lhe obedece?
— Sim , m as...
— Vam os prosseguir, um passo de cada vez — explicou Idaho.
— Pergunte a Nay la se ela usaria sua arm a laser contra a carreta do Verm e.
— E se ela se recusar?
— Mate-a!
Siona levantou-se, deixando de lado os livros.
— Com o é que o Verm e vai chegar a Tuono? — perguntou Idaho. — Ele é m uito grande e pesado para um tóptero com um .
— Garun nos dirá. Mas acho que ele vai chegar da m aneira com o geralm ente viaj a. — Olhou para o teto que ocultava a Muralha do Perím etro do Sareer. — Acho que ele virá em peregrinação, com todo o seu séquito. Virá pela Estrada Real e descerá até aqui flutuando nos suspensores. — Ela olhou para Idaho. — E quanto a Garun?
— E um hom em estranho — respondeu Idaho. um verdadeiro Frem en quase que desesperadam ente. é nada do que eles foram em m inha época.
— Com o eles eram no seu tem po, Duncan?
— Eles tinham um ditado que os descreve bem : “Nunca ande na com panhia de alguém com quem você não queira m orrer.
— Você disse isso a Garun? — perguntou ela.
— Sim .
— Quer ser Sabe que não
— E a resposta dele?
— Disse que eu era a única pessoa assim que ele j am ais conhecera.
— Garun pode ser m ais sábio que qualquer um de nós — disse Siona.