O Imperador-Deus de Duna

Frank Herbert · Capítulo 22 de 25

Páginas do PDF

O Imperador-Deus de Duna

Vocês acham que o poder pode ser…

Vocês acham que o poder pode ser a mais instável das conquistas humanas? Então, que acha das evidentes exceções à sua instabilidade inerente? Algumas famílias permanecem no poder. Sabe-se que burocracias religiosas muito poderosas permaneceram no poder. Considere a relação entre o poder e a fé. Serão mutuamente excludentes quando um depende da outra? A Bene Gesserit tem se mantido razoavelmente segura, dentro das leais muralhas da fé, por milhares de anos. Mas para onde foi o poder delas?

— Os diários roubados

 

Moneo falou num tom petulante:

— Senhor, eu queria que m e tivesse concedido m ais tem po.

Eles se encontravam no lado de fora da Cidadela, sob as curtas som bras do m eio-dia. Leto estava diretam ente em frente de Moneo, dentro de sua Carreta Im perial, com a cobertura-bolha retraída. Estivera m ostrando o local a Hwi Noree, e ela agora ocupava um assento recentem ente instalado, dentro do perím etro da cobertura e bem ao lado do rosto de Leto. Hwi parecia apenas curiosa com toda a agitação que com eçava a aum entar ao seu redor.

“Com o ela é calm a”, pensou Moneo. Controlou um trem or involuntário, ao pensar no que aprendera a respeito dela a partir de Malky. O Im perador-Deus estava certo. Hwi era exatam ente o que parecia ser — o m ais gentil e sensível dos seres hum anos. “Será que ela teria realm ente procriado com igo?” — pensou Moneo.

Sua atenção foi afastada para longe de Hwi. Enquanto Leto a conduzia pela Cidadela em sua carreta elevada em suspensores, um grande grupo de cortesãos e Oradoras Peixes se reunira. Todos os cortesãos usavam luxuosos traj es de com em oração em que predom inavam tons dourados e verm elhos, brilhantes. As Oradoras Peixes usavam seus m elhores uniform es azul-escuros, distintos apenas pelas diferentes cores dos falcões e guarnições. Um a caravana de transportadores de bagagens, constituída por trenós flutuando em suspensores, fora colocada atrás, com Oradoras Peixes para puxá-la. O ar estava cheio da poeira, dos sons e dos cheiros da excitação. A m aioria dos cortesãos tinha reagido com desapontam ento ao conhecer seu destino, e alguns haviam adquirido im ediatam ente suas próprias tendas e pavilhões. Estes tinham sido m andados previam ente, j unto com outros em baraços que agora se em pilhavam à vista de Tuono. As Oradoras Peixes no cortej o não estavam recebendo isso de m aneira festiva. Haviam se queixado em voz alta quando inform adas de que não poderiam portar arm as laser.

— Só um pouquinho m ais de tem po, Senhor — dizia Moneo.

— Ainda não sei com o irem os.

— Não existe substitutivo para o tem po na solução de m uitos problem as — disse Leto. — Mas você não pode confiar dem ais nele. Não aceitarei m ais atrasos.

— Levarem os três dias só para chegar lá — queixou-se Moneo.

Leto pensou naquele tem po — na suave cam inhada-m archa-cam inhada da peregrinação... 180 quilôm etros. Sim , seriam três dias.

— Tenho certeza de que fez ótim os arranj os para os pontos de parada no cam inho — disse ele. — Muita água quente para as cãibras m usculares.

— Terem os todo o conforto. Mas eu não gosto de deixar a Cidadela nessa ocasião! E sabe por quê!

— Tem os equipam ento de com unicações, assistentes leais. A Corporação foi adequadam ente punida e disciplinada. Acalm e-se, Moneo.

— Podíam os realizar a cerim ônia na Cidadela!

Com o resposta, Leto fechou a cobertura-bolha à sua volta, isolando Hwi com ele.

— Há perigo, Leto? — ela perguntou.

— Sem pre há perigo.

Moneo suspirou, virou-se e cam inhou para onde a Estrada Real com eçava sua longa subida rum o ao leste, antes de se curvar para o sul, em torno do Sareer. Leto colocou a carreta em m ovim ento, atrás do m aj ordom o, ouviu seu acom panham ento heterogêneo entrar no passo atrás.

— Estam os todos em m ovim ento? — perguntou.

Hwi olhou para trás e à sua volta.

— Sim . — Ela virou-se na direção do rosto dele. — Por que Moneo está sendo tão difícil?

— Monco acaba de descobrir que o instante pelo qual acaba de passar está para sem pre além do seu alcance.

— Ele tem se m ostrado m uito pensativo e distraído desde que vocês voltaram da Pequena Cidadela. Não é m ais o m esm o.

— Ele é um Atreides, m eu am or, e você foi proj etada para agradar a um Atreides.

— Não se trata disso, eu saberia se fosse.

— Sim ... bem , acho que Moneo tam bém descobriu a realidade da m orte.

— Com o é a Pequena Cidadela, onde você estava com Moneo? — perguntou ela.

— E o lugar m ais solitário do m eu Im pério.

— Acho que você evita m inhas perguntas — ela disse.

— Não, am or. Com partilho sua preocupação quanto a Moneo, m as nenhum a explicação m inha iria aj udá-lo agora. Moneo está aprisionado. Descobriu que é difícil viver no presente, inútil viver no futuro e im possível viver no passado.

— Acho que foi você que o prendeu, Leto.

— Mas ele deve livrar-se sozinho.

— Por que não pode libertá-lo?

— Porque ele pensa que m inhas m em órias são a chave para a sua liberdade. Pensa que vou construir nosso futuro a partir do nosso passado.

— Não é esse o m odo com o sem pre se faz, Leto?

— Não, querida Hwi.

— Então com o é que é?

— Muitos acreditam que um futuro satisfatório exige o retorno a um passado idealizado, um passado que de fato nunca existiu.

— E você, com todas as suas m em órias, sabe que não é assim .

Leto virou o rosto dentro das dobras de truta da areia a fim de olhar para ela, sondando... relem brando-se. A partir das m ultidões que existiam dentro de si, podia form ar um a com binação, um a sugestão genética de Hwi, m as a sugestão não se com parava com a verdade viva. Era assim , é claro. O passado eram fileiras de olhos olhando para fora com o olhos de peixes boquiabertos, m as Hwi era a vibração da vida. Sua boca fora feita de curvas gregas, proj etada para o cântico profético, m as ela não pronunciava sílabas enigm áticas. Contentava-se em viver, um a pessoa aberta com o um a flor, perpetuam ente produzindo sua fragrância.

— Por que está m e olhando assim ? — perguntou ela.

— Eu estava m e esquentando em m eu am or por você.

— Am or, sim . — Ela sorriu. — Penso que, desde que não podem os com partilhar o am or carnal, devem os com partilhar o am or espiritual. Vai com partilhá-lo com igo, Leto?

Ele fora surpreendido.

— Você pergunta por m inha alm a?

— Certam ente que outros j á perguntaram .

Ele falou de m odo sucinto:

— Minha alm a digere suas experiências, nada m ais.

— Eu lhe pedi m uito? — perguntou ela.

— Acho que você é incapaz de pedir dem asiado de m im .

— Então eu m e apóio em nosso am or para discordar de você. Meu tio Malky falava sobre sua alm a.

Ele sentiu que não podia responder e ela tom ou seu silêncio com o um convite a que continuasse.

— Ele disse que você era o m aior artista na arte de sondar a alm a, sua própria alm a em prim eiro lugar.

— Mas seu tio Malky negava possuir um a alm a!

Ela ouviu a dureza em sua voz, m as não se deixou intim idar.

— Ainda assim , acho que ele estava certo. Você é um gênio da alm a, o m ais brilhante.

— Você só precisa da insistente perseverança da longevidade. Não há brilho.

Encontravam -se agora na longa subida para o topo da Muralha do Perím etro do Sareer. Ele abaixou as rodas da carreta e desativou os suspensores.

Hwi falou suavem ente, sua voz quase inaudível contra o som raspante das rodas da carreta, dos pés em m ovim ento à volta deles.

— Posso cham á-lo de am or, de qualquer m odo?

Ele falou dom inando um aperto na garganta, que não era m ais totalm ente hum ana.

— Sim .

— Eu nasci Ixiana, am or. Por que não posso com partilhar a visão m ecânica que eles possuem de nosso universo? Conhece m eu ponto de vista, am or?

Ele só podia olhar para ela.

— Sinto o sobrenatural em cada m ovim ento — ela disse.

A voz de Leto saiu rouca, soando com raiva m esm o para ele.

— Cada pessoa cria seu próprio sobrenatural.

— Não fique zangado com igo, am or.

Novam ente, aquela terrível voz rouca.

— Para m im , é im possível ficar zangado com você.

— Mas algum a coisa aconteceu um dia entre você e Malky — insistiu ela. — Ele nunca m e diria o que foi, m as freqüentem ente com entava adm irar-se por você tê-lo poupado.

— Foi devido ao que ele m e ensinou.

— Que aconteceu entre vocês dois, am or?

— Preferia não falar a respeito de Malky.

— Por favor, am or. Sinto que é im portante que eu saiba.

— Disse a Malky que tinha de haver algum as coisas que os hom ens não deveriam inventar.

— E isso foi tudo?

— Não. — Leto falava com relutância. — Minhas palavras o enfureceram . Ele disse: “Você acha que, num m undo sem pássaros, os hom ens não inventariam o avião! Que tolo é você! Os hom ens podem inventar qualquer coisa!”

— Ele o cham ou de tolo? — Havia um choque na voz de Hwi.

— Estava certo. E, em bora o negasse, falava a verdade. Ele ensinou-m e que existe um a razão para fugir das invenções.

— Então, tem e os Ixianos?

— E claro que os tem o. Eles podem inventar a catástrofe.

— Então, que pode fazer?

— Andar m ais depressa. A história é um a corrida constante entre a invenção e a catástrofe. A educação aj uda, m as nunca é o bastante. Você tam bém deve correr.

— Está com partilhando sua alm a com igo, am or. Sabia disso?

Leto olhou para o lado oposto a ela, focalizando sua atenção nas costas de Moneo. Os m ovim entos do m aj ordom o, o ar de sigilo tão evidente nele. A procissão tinha alcançado o prim eiro aclive suave, agora fazia a curva para com eçar a subida da Muralha Anel Leste. Moneo andava com o sem pre, um pé adiante do outro, consciente do lugar onde iria apoiar o próxim o passo. Mas havia algum a coisa nova no m aj ordom o. Leto podia sentir o afastam ento do hom em , não m ais contente em m archar ao lado de seu rosto, não m ais tentando identificar-se com o destino de seu Senhor. Para o leste, o Sareer aguardava. Para o oeste, viam -se o rio e as plantações. Moneo não olhava nem à direita, nem à esquerda.

— Você não m e respondeu — disse Hwi.

— Já conhece a resposta.

— Sim , estou com eçando a entender algum a coisa a seu respeito — com entou ela. — Posso sentir alguns dos seus tem ores. E creio que j á sei onde vive.

Ele voltou para ela um a expressão de espanto e se sentiu aprisionado por seu olhar. Não podia afastar os olhos. Um m edo profundo percorreu-lhe o corpo e ele sentiu suas m ãos com eçarem a se torcer.

— Você vive onde o m edo de ser e o am or de existir se com binam , os dois em um a única pessoa.

Ele não podia nem piscar.

— Você é um m ístico — continuou ela. — Gentil com você m esm o apenas porque se vê no m eio deste universo, olhando para fora, olhando de um m odo com o os outros não podem olhar. Você tem m edo disso, e no entanto quer com partilhar esse dom m ais que qualquer outra coisa.

— Que você viu? — sussurrou ele.

— Não tenho olhar interior, não ouço vozes — ela disse. — Mas tenho visto m eu Lorde Leto, cuj a alm a interior eu am o, e conheço a única coisa que você verdadeiram ente com preende.

Ele conseguiu escapar ao olhar dela, tem endo o que pudesse dizer. O trem or em suas m ãos podia ser sentido em todo o seu segm ento frontal.

— Am or, é isso que com preende. Am or, e isso é tudo.

Suas m ãos pararam de trem er. Um a lágrim a rolou de cada um de seus olhos. Quando as lágrim as tocaram o capuz, fios de fum aça azul se elevaram . Ele sentiu a queim a e ficou grato pela dor.

— Você tem fé na vida — disse Hwi. — E eu sei que a coragem do am or pode encontrar-se apenas nessa fé.

Ela estendeu a m ão esquerda e enxugou as lágrim as de sua face. Ele se surpreendeu de que o capuz de truta da areia não reagisse com seu reflexo norm al para evitar o toque.

— Sabe que, desde que m e tornei assim , você é a prim eira pessoa que toca o m eu rosto?

— Mas eu sei o que você é e o que você foi — respondeu ela.

— O que eu era... ah, Hwi. O que eu era reduziu-se a esta face, tudo m ais se perde nas som bras da m em ória. . oculto. perdido.

— Não oculto de m im , am or.

Ele olhou diretam ente para ela, não m ais tem eroso de encontrar seu olhar.

— Será possível que os Ixianos saibam o que criaram em você?

— Eu lhe asseguro, Leto, am or da m inha alm a, que eles não sabem . Você é a prim eira pessoa, a única pessoa com a qual j á m e revelei com pletam ente.

— Então eu não vou lam entar o que poderia ter sido — ele disse. — Sim , m eu am or, com partilharei m inha alm a com você.