O Imperador-Deus de Duna

Frank Herbert · Capítulo 11 de 25

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O Imperador-Deus de Duna

Do reservatório de memórias no qual posso…

Do reservatório de memórias no qual posso beber à vontade emergem padrões. Eles são como outra linguagem que posso ver claramente Como os sinais sociais de alarme, que colocam as sociedades em posturas de ataque e defesa, eles são como palavras gritadas para mim. Como pessoa, você reage a ameaças à inocência e aos perigos que cercam as crianças indefesas. Sons, visões e cheiros inexplicados provocam instintos que você esqueceu possuir. Quando alarmado, você se agarra à sua linguagem nativa, porque todos os outros sons padronizados lhe soam estranhos. Você exige um vestuário aceitável por que um traje estranho lhe parece ameaçador. Esse é um sistema de retroalimentação em seu nível mais primitivo. são suas células recordando-se.

— Os diários roubados

 

As acólitas Oradoras Peixes que serviam com o escudeiras nos portais da câm ara de audiências de Leto trouxeram Duro Nunepi, o Em baixador Tleilaxu. Ainda era cedo para um a audiência e Nunepi estava sendo trazido fora da ordem anunciada, m as ele cam inhava calm am ente, com apenas um leve indício de aceitação resignada.

Leto esperava em silêncio, estirado ao longo de sua carreta sobre um a plataform a elevada na extrem idade da câm ara. Enquanto observava Nunepi se aproxim ando, suas m em órias produziam um a com paração: um periscópio em form a de cobra deixando um a esteira quase invisível sobre a água. A m em ória trouxe um sorriso aos lábios de Leto. Aquele era Nunepi — hom em orgulhoso, de rosto duro, que subira através dos degraus dos postos de gerência dos Tleilaxu. Não sendo ele m esm o um Dançarino Facial, considerava os Dançarm os com o seus servos pessoais; eles eram a água através da qual Nunepi se m ovia. Era preciso ser verdadeiram ente perspicaz para enxergar sua esteira. Nunepi era um instrum ento que deixara seus traços no ataque ao longo da Estrada Real.

Apesar de ser cedo, Nunepi usava todas as insígnias de em baixador — as calças pretas infladas e as sandálias negras com bordos dourados, a j aqueta verm elha, aberta no peito para revelar um peito peludo atrás do em blem a Tleilaxu m oldado em ouro e j óias.

Aos 10 passos de distância especificados, Nunepi parou e deixou seu olhar percorrer a fileira de Oradoras Peixes arm adas, colocadas em arco em torno e atrás de Leto. Os olhos cinzentos de Nunepi pareciam brilhar com algum divertim ento secreto quando ele voltou sua atenção para o Im perador e se curvou ligeiram ente.

Duncan Idaho entrou então, com um a pistola laser presa na cintura, e tom ou posição ao lado do rosto envolvido do Im perador-Deus.

A aparição de Idaho provocou um estudo cuidadoso da parte de Nunepi, um a avaliação que não produziu resultados agradáveis para o Em baixador.

— Acho os Dançarinos Faciais particularm ente detestáveis — disse Leto.

— Eu não sou um Dançarino Facial, Senhor — disse Nunepi. Sua voz era baixa e educada, revelando apenas um leve indício de hesitação.

— Mas você os representa, e isso o transform a num m otivo de aborrecim ento — disse Leto.

Nunepi esperava um a declaração aberta de hostilidade, m as essa não era a linguagem da diplom acia, além de chocá-lo com um a ousada referência ao que se acreditava ser a força dos Tleilaxu.

— Senhor, ao preservar a carne do Duncan Idaho original e fornecer-lhe gholas restaurados à sua im agem e identidade, nós sem pre presum im os...

— Duncan! — Leto olhou para Idaho. — Se eu lhe ordenasse, Duncan, você lideraria um a expedição para exterm inar os Tleilaxu?

— Com prazer, m eu Senhor.

— Mesm o que isso significasse a perda de suas células originais e de todos os tanques axlotl?

— Eu não acho a m em ória dos tanques agradável, m eu Senhor, e não sou aquelas células.

— Senhor, com o foi que o ofendem os? — indagou Nunepi.

Leto ficou carrancudo. Será que esse idiota incom petente esperava que o Im perador-Deus falasse abertam ente de um recente ataque dos Dançarm os Faciais?

— Veio a m eu conhecim ento disse Leto — que você e sua gente têm espalhado m entiras a respeito daquilo que denom inam “m eus repugnantes hábitos sexuais”.

Nunepi ficou de boca aberta. A acusação era um a falsidade atrevida, com pletam ente inesperada. Mas Nunepi percebeu que se negasse ninguém iria acreditar nele. O Im perador-Deus havia falado. Esse era um ataque de dim ensões desconhecidas. Nunepi com eçou a falar enquanto olhava para Duncan Idaho.

— Senhor, se nós...

— Olhe para m im ! — ordenou Leto.

Nunepi ergueu a cabeça num gesto súbito.

— Vou lhe dizer apenas esta vez — advertiu Leto. — Eu não tenho hábitos sexuais de qualquer espécie. Nenhum .

O suor escorreu no rosto de Nunepi. Ele olhou para Leto com a intensidade fixa de um anim al num a arm adilha. Quando afinal encontrou a voz, ela não era m ais o instrum ento baixo e controlado de um diplom ata, m as um a coisa trêm ula e cheia de terror.

— Senhor, eu... deve haver um engano...

— Fique quieto, seu Tleilaxu desprezível! — rugiu Leto. E então acrescentou: — Eu sou um vetor m etam órfico do sagrado verm e da areia, o Shai-Hulud! Eu sou o seu Deus!

— Perdoe-nos, Senhor — sussurrou Nunepi.

— Perdoá-los? — A voz de Leto estava cheia de um calm o raciocínio. — É claro que os perdôo. Essa é a função do seu Deus. Seu crim e está perdoado. Mas a sua estupidez exige um a resposta.

— Senhor, se eu ao m enos pudesse...

— Fique quieto! O fornecim ento de especiaria para os Tleilaxu fica cortado por esta década. Vocês não receberão nada. Quanto a você, m inhas Oradoras Peixes vão conduzi-lo agora até a praça.

Duas volum osas guardas avançaram segurando Nunepi nos braços. Elas olharam para Leto em busca de instruções.

— Na praça — disse Leto —, suas roupas devem ser arrancadas. E ele deverá ser açoitado publicam ente: 50 chicotadas.

Nunepi debateu-se, seguro pelas guardas, a consternação em seu rosto transform ando-se em raiva.

— Senhor, devo lem brá-lo de que sou Em baixador de...

— Você é um crim inoso com um e deve ser tratado com o tal.

— Leto fez sinal com a cabeça para as guardas, que com eçaram a arrastar Nunepi.

— Eu queria que eles o tivessem m atado! — gritou Nunepi furioso. — Eu queria...

— Quem ? — bradou Leto. — Quem você desej aria que m e tivesse m orto? Não sabe que eu não posso ser m orto?

Enquanto as guardas arrastavam Nunepi para fora da câm ara, ele ainda gritava.

— Eu sou inocente! Eu sou inocente! — O protesto m orreu na distância.

Idaho inclinou-se próxim o de Leto.

— Sim , Duncan?

— Meu Senhor, todos os enviados tem erão isso.

— Sim , estou ensinando um a lição sobre responsabilidades.

— Meu Senhor?

— Ser m em bro de um a conspiração, assim com o de um exército, livra as pessoas do senso de responsabilidade pessoal.

— Mas isso vai causar problem as, m eu Senhor. É m elhor colocar guardas extras.

— Nem um a guarda a m ais!

— Mas será um convite a...

— Será um convite à tolice m ilitar.

— Isso é o que...

— Duncan, eu sou um professor. Lem bre-se disso. Pela repetição, eu ensino um a lição.

— Que lição?

— A natureza basicam ente suicida da tolice m ilitar.

— Meu Senhor, eu não...

— Duncan, considere o inepto Nunepi. Ele constitui a essência de tal ensinam ento.

— Perdoe m inha estupidez, m eu Senhor, m as não entendo esse detalhe a respeito dos m ilitares.

— Eles acreditam que, ao arriscarem a vida, adquirem o direito a qualquer tipo de com portam ento violento contra inim igos de sua própria escolha. Eles possuem a m entalidade do invasor. Nunepi não se acredita responsável por coisa algum a feita contra alienígenas.

Idaho olhou para o portal, onde as guardas tinham desaparecido com Nunepi.

— Ele tentou e perdeu, m eu Senhor.

Mas ele se desligou das restrições do passado e faz obj eção quanto a pagar o preço.

Para sua gente ele é um patriota.

E com o ele vê a si próprio, Duncan? Com o um instrum ento da história?

Idaho baixou a voz e se inclinou para m ais perto de Leto.

— E em que o Senhor é diferente?

Leto riu.

— Ah, Duncan, com o adoro a sua perspicácia. Você observou que eu sou o últim o estrangeiro. Não se pergunta se eu tam bém não posso ser um perdedor?

— O pensam ento j á atravessou m inha m ente.

— Mesm o os perdedores podem abrigar-se no m anto orgulhoso do passado, velho am igo.

— E o Senhor e Nunepi são sem elhantes nesse ponto?

— As religiões de m issionários m ilitantes podem espalhar essa ilusão do passado nobre, m as poucos com preendem o perigo final para a hum anidade: aquele falso senso de liberdade quanto à responsabilidade por suas próprias ações.

— Essas são palavras estranhas, m eu Senhor. Com o devo interpretá-las?

— Seu significado é aquele que lhe parecer. Será que é incapaz de ouvir?

— Eu tenho ouvidos, m eu Senhor!

— Tem m esm o? Não consigo vê-los.

— Aqui, m eu Senhor. Aqui e aqui! — Idaho apontou para as próprias orelhas enquanto falava.

— Mas elas não ouvem . Portanto, você não tem ouvidos, nem orelhas.

— Zom ba de m im , m eu senhor?

— Ouvir é ouvir. Aquilo que j á existe não pode ser criado porque j á existe. Ser é ser.

— Suas palavras são estranhas.

— São apenas palavras. Eu as pronuncio. Elas se vão. Ninguém as ouve, portanto elas não m ais existem . Se elas não m ais existem , talvez possam ser trazidas à existência de novo e, então, talvez alguém as ouça.

Por que fica se divertindo com igo, m eu Senhor?

Eu não lhe dirij o nada senão palavras. E o faço sem m edo de ofender porque aprendi que você não tem ouvidos.

— Eu não o com preendo, m eu Senhor.

Isso é o início da com preensão: a descoberta de algum a coisa que não entendem os.

Antes que Idaho pudesse responder, Leto fez um sinal com a m ão para um a guarda nas proxim idades. Ela passou a m ão diante de um painel de controle cristalino num a parede atrás da plataform a do Im perador-Deus. Um a visão tridim ensional de Nunepi sendo punido apareceu no centro da câm ara.

Idaho desceu até o assoalho e olhou a cena de perto. Ela era m ostrada de um ponto de vista um pouco elevado, olhando-se para a praça, e era com pletada com sons da m ultidão que se aglom erara aos prim eiros sinais de excitação.

Nunepi estava am arrado a duas pernas de um tripé, os pés bem separados, os braços presos, unidos acim a dele, quase no topo do tripé. Suas roupas tinham sido arrancadas do corpo e se encontravam rasgadas no chão em torno dele. Um a im ensa Oradora Peixe m ascarada erguia-se ao lado, tendo nas m ãos um chicote im provisado, feito com um a corda de elacca que fora destrançada na extrem idade para form ar fios finos com o aram e. Idaho j ulgou reconhecer a m ulher m ascarada com o sendo a Am iga de sua prim eira entrevista.

Ante um sinal da oficial da Guarda, a Oradora Peixe m ascarada avançou alguns passos e golpeou com o chicote de elacca num arco lancinante sobre as costas expostas de Nunepi.

Idaho estrem eceu. A m ultidão deixou escapar um som de espanto.

Vergões apareceram onde o chicote o atingira, m as Nunepi perm aneceu em silêncio.

Novam ente o chicote desceu. O sangue apareceu nas linhas desse segundo golpe.

Um a vez m ais o chicote cortou as costas de Nunepi. Mais sangue apareceu.

Leto sentiu um a longínqua tristeza. “Nay la é m uito ardente” pensou. “Ela vai m atá-lo e isso causará problem as.”

— Duncan! — cham ou o Im perador.

Idaho voltou-se de sua observação fascinada no m om ento em que um grito se erguia da m ultidão: a resposta a um golpe particularm ente sangrento.

— Mande alguém interrom per o açoite depois de 20 chicotadas — instruiu Leto. — Faça com que anunciem que a m agnanim idade do Im perador-Deus reduziu a punição.

Idaho ergueu a m ão para um a das guardas, que assentiu e correu apressada para fora da câm ara.

— Venha aqui, Duncan — cham ou Leto.

Ainda sentido com o que j ulgava ser um a zom baria do Im perador a seu respeito, Idaho retornou para ficar ao lado de Leto.

— O que quer que eu faça — disse Leto —, apenas ensino um a lição.

Idaho usou sua força de vontade para não olhar novam ente para a cena da punição de Nunepi. Seria esse o som de Nunepi gem endo? Os gritos da m ultidão feriam -lhe os ouvidos. Ele fitou os olhos de Leto.

— Existe um a pergunta em sua m ente — disse Leto.

— Muitas perguntas, m eu Senhor.

— Diga.

— Que lição está contida na punição daquele tolo? Que direm os quando form os indagados a respeito?

— Direm os que a ninguém é perm itido blasfem ar contra o Im perador-Deus.

— Um a lição sangrenta, m eu Senhor.

— Não tão sangrenta com o algum as outras que j á ensinei.

Idaho sacudiu a cabeça de um lado para o outro em óbvio desalento.

— Nada de bom vai advir disso!

— Precisam ente!