O Imperador-Deus de Duna
O estado de guerra incessante dá origem…
O estado de guerra incessante dá origem a suas próprias condições sociais, que têm sido similares em todas as épocas. As pessoas entram num permanente estado de alerta para evitar ataques. E você presencia a regra absoluta do autocrata. Todas as coisas novas tornam-se perigosas regiões de fronteiras — novos planetas, novas áreas econômicas para explorar, novas idéias ou novos engenhos, visitantes — tudo é suspeito. O feudalismo se estabelece com firmeza, algumas vezes disfarçado como um politburo ou estrutura similar, mas sempre presente. A sucessão hereditária segue as linhas do poder. O sangue dos poderosos domina. Os vice-regentes do céu ou seus equivalentes apoderam-se das riquezas. E eles sabem que devem controlar seus herdeiros ou então o poder lentamente lhes escapará. Agora pode compreender a Paz de Leto?
— Os diários roubados
— As Bene Gesserits terão sido inform adas de sua m udança na ordem das audiências? — indagou Leto.
Seu cortej o aproxim ava-se do prim eiro corte na m ontanha que levaria ao trecho serpenteante da estrada, aproxim ando-se da ponte sobre o Rio Idaho. O sol encontrava-se no prim eiro quarto da m anhã e alguns cortesãos retiravam seus casacos. Idaho cam inhava com um a pequena tropa de Oradoras Peixes no flanco esquerdo, seu uniform e com eçando a m ostrar sinais de poeira e transpiração. Acom panhar a velocidade da peregrinação real era trabalho duro.
Moneo tropeçou e recuperou o equilíbrio.
— Elas foram inform adas, Senhor.
A m udança não fora fácil, m as Moneo j á aprendera a esperar erráticos desvios de direção em tem pos de Festival. Ele m antinha prontos seus planos de contingência.
— Elas ainda estão solicitando um a Em baixada perm anente em Arrakis? — indagou Leto.
— Sim , Senhor. Eu lhes dei a resposta habitual.
— Um sim ples não seria suficiente — disse Leto. — Elas não precisam m ais ser lem bradas de que abom ino suas pretensões religiosas.
— Sim , Senhor.
Moneo m antinha-se apenas dentro da distância prevista, do lado da Carreta de Leto. O Verm e encontrava-se m uito presente esta m anhã — os sinais corpóreos bem evidentes aos olhos de Moneo. Sem dúvida, era a um idade no ar. Isso sem pre parecia atrair o Verm e.
— A religião sem pre conduz ao despotism o retórico — disse Leto. — Antes da Bene Gesserit, os j esuítas eram os m elhores nisso.
— Jesuítas, Senhor?
— Certam ente você os encontrou em suas histórias?
— Não tenho certeza, Senhor. Quem eram eles?
— Não im porta. Você aprenderá o bastante sobre despotism o retórico num estudo da Bene Gesserit. É claro que elas não com eçam se iludindo com isso.
“As Reverendas Madres vão passar um m au pedaço”, Moneo disse a si m esm o. “Ele vai pregar diante delas. E elas detestam isso. Podem os ter sérios problem as.”
— Qual foi a reação delas? — perguntou Leto.
— Disseram -m e que elas ficaram desapontadas, m as não insistiram no assunto.
E Moneo pensou: “É m elhor que eu as prepare para m ais desapontam entos. E elas terão de ficar longe das delegações de Ix e Tleilaxu.”
Moneo sacudiu a cabeça. Isso poderia levar a conspirações terríveis. Era m elhor que o Duncan fosse advertido.
— Ele leva à profecia em proveito próprio e a j ustificativas para todos os tipos de obscenidades — disse Leto.
— Esse... despotism o retórico, Senhor?
— Sim ! Ele oculta o m al por trás de m uralhas de hipocrisia, que são a prova de qualquer argum ento que possa ser apresentado contra. o m al.
Moneo m antinha um olhar cauteloso no corpo de Leto, notando o m odo com o as m ãos se torciam , quase um m ovim ento ao acaso, as contorções dos grandes segm entos. “Que farei se o Ver-m e despertar aqui?” A transpiração surgiu na testa de Moneo.
— Ele se alim enta de significados deliberadam ente distorcidos para desacreditar a oposição — continuou Leto.
— Tudo isso, Senhor?
— Os j esuítas cham avam isso de “segurar sua base de poder”. Isso conduz diretam ente à hipocrisia, que é sem pre revelada pela diferença entre ações e explicações. Elas nunca concordam .
— Devo estudar isso com m ais cuidado, Senhor.
— E no final ele governa pela culpa, pois a hipocrisia traz a caça às bruxas e a exigência de bodes expiatórios.
— Isso é chocante, Senhor.
O cortej o circundou um canto onde a rocha fora aberta para vislum brar a ponte a distância.
— Moneo, você está prestando bastante atenção em m im ?
— Sim , Senhor, de fato.
— Estou descrevendo o instrum ento que constitui a base do poder religioso.
— Eu reconheço isso, Senhor.
— Então, por que está com tanto m edo?
— Conversas sobre o poder religioso m e deixam pouco à vontade, Senhor.
— Porque você e as Oradoras Peixes o exercem em m eu nom e?
— É claro, Senhor.
— As bases do poder são m uito perigosas por atraírem gente que é verdadeiram ente insana, gente que busca o poder apenas pelo benefício do poder. Está m e com preendendo?
— Sim , Senhor. É por isso que raram ente atendo a pedidos para nom eações em seu governo.
— Excelente, Moneo!
— Obrigado, Senhor.
— À som bra de cada religião se abriga um Torquem ada disse Leto. — Você nunca encontrou esse nom e. Eu sei, pois fiz com que fosse expurgado de todos os registros.
— Por que fez isso, Senhor?
— Ele era um a obscenidade. Transform ava em tochas vivas as pessoas que discordavam dele.
Moneo falou em voz baixa:
— Com o fez com os historiadores que o enfureceram , Senhor?
— Está questionando os m eus atos, Moneo?
— Não, Senhor!
— Bom . Os historiadores m orreram pacificam ente. Nenhum deles sentiu as cham as. Torquem ada, entretanto, com prazia-se em dedicar ao seu deus os gritos de agonia de suas vítim as em cham as.
— Que horrível, Senhor.
O cortej o contornou outra curva e enxergou novam ente a ponte. O vão não parecia m ais próxim o.
Um a vez m ais Moneo observou seu Im perador-Deus. O Verm e não parecia ter se aproxim ado m ais, em bora ainda continuasse perto. Moneo podia sentir a am eaça daquela im previsível presença, a Sagrada Presença, que poderia m atar sem aviso.
Ele estrem eceu.
Qual teria sido o significado daquele estranho... serm ão? Moneo sabia que poucos j á tinham ouvido o Im perador-Deus falar assim . Era um privilégio e um a carga. Era parte do preço pago pela Paz de Leto. Geração após geração m archara a seu m odo ordenado sob os preceitos daquela paz. Apenas o círculo interno da Cidadela conhecia todas as quebras pouco freqüentes daquela paz — os incidentes, quando as Oradoras Peixes eram enviadas num a previsão de violência:
“Previsão.”
Moneo olhou para Leto, agora silencioso. Os olhos do Im perador-Deus estavam fechados e um a aparência de m editação surgira em seu rosto. Esse era outro dos sinais do Verm e — e um dos piores. Moneo estrem eceu.
Será que Leto previra seus próprios m om entos de louca violência? Fora a previsão de violência que enviava trem ores de m edo e espanto através do Im pério. Leto sabia onde devia colocar guardas para sufocar revoltas transitórias. Sabia antes que acontecessem .
Só pensar nessas coisas deixava seca a boca de Moneo. Havia ocasiões, Moneo acreditava, em que o Im perador-Deus podia ler qualquer m ente. Oh, Leto em pregava espiões. Um a ocasional figura envolta em m antos passava pelas Oradoras Peixes para subir a elevada torre de Leto ou descer em sua cripta. Espiões, sem dúvida, m as Moneo suspeitava de que fossem usados apenas para confirm ar aquilo que Leto j á sabia.
Com o que para confirm ar os tem ores na m ente de Moneo, Leto disse:
— Não tente forçar um entendim ento dos m eus m odos, Moneo. Deixe que o entendim ento venha por si m esm o.
— Vou tentar, Senhor.
— Não, não tente. Diga-m e em vez disso se j á anunciou que não haverá m udanças nas quotas de especiaria?
— Ainda não, Senhor.
— Atrase o anúncio. Estou m udando de opinião. Você sabe, é claro, que haverá novas ofertas de subornos.
Moneo suspirou. As quantias a ele oferecidas com o suborno j á eram ridículas de tão altas. Leto, contudo, parecia divertir-se com tal escalada.
— Instigue-os — dissera antes. — Vej a até que preço eles chegarão. Faça parecer que você pode ser subornado, afinal.
Agora, enquanto eles dobravam outra curva com vista para a ponte, Leto perguntou:
— A Casa Corrino ofereceu-lhe suborno?
— Sim , Senhor.
— Conhece a lenda que diz que um dia a Casa Corrino irá recuperar seus poderes ancestrais?
— Já ouvi, Senhor.
— Mate o Corrino. É tarefa para o Duncan. Nós o testarem os com isso.
— Tão cedo, Senhor?
— Ainda se sabe que a m elange pode prolongar a vida hum ana. Deixe que sej a conhecido que a especiaria tam bém pode encurtar a vida.
— Com o ordenar, Senhor.
Moneo conhecia essa resposta dentro de si. Era o m odo com o ele falava quando não podia verbalizar a profunda obj eção que sentia. Tam bém sabia que Leto entendia isso e se divertia. O divertim ento o am argurava.
— Tente não ser im paciente com igo, Moneo — disse Leto.
Moneo suprim iu seu sentim ento de am argura. A am argura trazia o perigo. Os rebeldes eram am argurados. E os Duncans ficavam am argurados antes de m orrer.
— O tem po tem para o Senhor um significado diferente do que tem para m im — disse Moneo. — Eu desej ava poder conhecer esse significado.
— Você poderia, m as não o fará.
Moneo ouviu a censura nas palavras e ficou em silêncio, voltando seus pensam entos para os problem as com a m elange. Não era com um que Lorde Leto falasse na especiaria, e quando o fazia era para estabelecer quotas ou retirá-las, para conceder recom pensas ou enviar as Oradoras Peixes atrás de algum tesouro recentem ente revelado. O m aior depósito rem anescente de especiaria, Moneo o sabia, encontrava-se em algum lugar conhecido apenas do Im perador-Deus. Em seus prim eiros dias no Serviço Real, Moneo fora coberto com um capuz e levado pelo próprio Leto ao longo de passagens serpenteantes que, Moneo sentira, encontravam -se debaixo da terra.
“Quando tirei o capuz estava num subterrâneo.”
O lugar o enchera de assom bro. Grandes recipientes de m elange em pilhavam -se num a câm ara gigantesca, cortada na rocha nua e ilum inada por globos lum inosos de um m odelo antigo, com arabescos de m etal em redor. A especiaria brilhava num azul radiante sob a fraca luz prateada. E o perfum e — cheiro de canela am argo, inconfundível. Havia água gotej ando num lugar próxim o e suas vozes tinham ecoado dentro da pedra.
— Um dia, tudo isto terá acabado — dissera Lorde Leto.
Chocado, Moneo perguntara:
— E o que a Corporação e a Bene Gesserit farão então?
— O que estão fazendo agora, só que de m odo m ais violento.
Olhando à sua volta nessa gigantesca câm ara subterrânea, com seu im enso estoque de m elange, Moneo só conseguia pensar nas coisas que sabia estarem acontecendo por todo o Im pério naquele m om ento: — assassinatos sangrentos, ataques piratas, intriga e espionagem . O Im perador-Deus evitava o pior, m as o que perm anecia j á era suficientem ente ruim .
— A tentação — sussurrou Moneo.
— A tentação, de fato.
— Não vai haver m elange nunca m ais, Senhor?
— Algum dia eu retornarei à areia. E serei a fonte da especiaria, então.
— O Senhor?
— E produzirei um a coisa igualm ente m aravilhosa — truta da areia de um a variedade híbrida e m ais prolífica.
Trêm ulo ante essa revelação, Moneo olhou para a figura obscurecida do Im perador-Deus que falava de tais m aravilhas.
— A truta da areia — disse Lorde Leto. — Elas se unirão em grandes bolhas vivas que aprisionarão a água deste planeta no subsolo profundo. Exatam ente com o era nos tem pos de Duna.
— Toda a água, Senhor?
— A m aior parte dela. E dentro de 300 anos o verm e da areia reinará aqui um a vez m ais. E será um novo tipo de verm e da areia. Eu lhe prom eto isso.
— Com o assim , Senhor?
— Ele possuirá um a consciência anim al e um a nova esperteza. A especiaria será m uito m ais perigosa de se obter e bem m ais arriscada de ser m antida.
Moneo olhara para o teto da caverna, sua im aginação sondando através da rocha até a superfície.
— Tudo deserto novam ente, Senhor?
— Os cursos de água se encherão de areia. As plantações serão sufocadas e m ortas. As árvores serão cobertas por grandes dunas m óveis. E a m orte da areia se espalhará até... até que um sinal sutil sej a ouvido nas terras desoladas.
— Que sinal, Senhor?
— O sinal para o próxim o ciclo, a vinda do Produtor, a chegada do Shai-Hulud.
— E ele será o Senhor?
— Sim ! O grande verm e da areia de Duna se erguerá um a vez m ais das profundezas. E esta terra será novam ente o dom ínio da especiaria e do verm e.
— Mas e quanto às pessoas, Senhor? Todas as pessoas?
— Muitas vão m orrer. As plantas nutritivas e a abundante vegetação destas terras ficarão ressecadas. Sem nutrição, os anim ais de corte m orrerão.
— E todos passarão fom e, Senhor?
— A subnutrição e as velhas doenças se espalharão sobre a terra, onde apenas os m ais duros sobreviverão... os m ais duros e os m ais brutais.
— Precisa ser assim , Senhor?
— As alternativas são piores.
— Fale-m e dessas alternativas, Senhor.
— Com o tem po, irá conhecê-las.
Enquanto cam inhava ao lado do Im perador-Deus, sob a luz m atutina de sua peregrinação para Onn, Moneo podia adm itir apenas que tinha, de fato, aprendido os perigos alternativos.
Para a m aioria dos dóceis cidadãos do Im pério, Moneo sabia, o firm e conhecim ento que ele m antinha em sua própria cabeça j azia oculto na História Oral, nos m itos e nas histórias extravagantes contadas pelos raros profetas loucos que surgiam num planeta ou em outro para conquistar um séquito de vida curta.
“Mas eu sei o que fazem as Oradoras Peixes.”
E ele sabia tam bém a respeito de hom ens perversos, que se sentavam à m esa, saboreando iguanas raras, enquanto observavam a tortura de seus sem elhantes.
Até que as Oradoras Peixes chegassem e a carnificina apagasse tais cenas.
— Eu apreciava o m odo com o sua filha m e observava — disse Leto. — Ela era tão inconsciente de que eu sabia.
— Senhor, tem o por ela! Ela é o m eu sangue, m inha.
— Minha tam bém , Moneo. Não sou um Atreides? Você devia tem er m ais por si m esm o.
Moneo lançou um olhar tem eroso ao longo do corpo do Im perador-Deus. Os sinais do verm e perm aneciam m uito próxim os. Moneo olhou para o cortej o seguindo pela estrada. Estavam agora em um a descida íngrem e, as voltas da estrada curtas e escavadas nas altas m uralhas de rochas em pilhadas pela m ão do hom em que form avam a barreira de penhascos envolvendo o Sareer.
— Siona não m e ofende, Moneo.
— Mas ela...
— Moneo! Aqui, em sua m isteriosa cápsula, se encontra um dos m aiores segredos da vida. Estar surpreso de que algum a coisa nova tenha acontecido, isso é o que eu desej o m ais.
— Senhor, eu...
— Novo! Essa não é um a palavra radiante e m aravilhosa?
— Se diz assim , Senhor.
Leto se viu forçado a lem brar então: “Moneo é um a de m inhas criaturas. Eu o criei.
— Sua filha vale quase qualquer preço para m im , Moneo. Você deprecia os com panheiros dela, m as pode haver um entre eles a quem ela am e.
Moneo deu um a olhada involuntária para trás, na direção do Duncan Idaho m archando entre a guarda. Idaho olhava para a frente com o se tentasse sondar cada curva da estrada antes de chegarem a ela. Ele não gostava desse lugar, com suas altas m uralhas de pedra para todo lado, lugares de onde poderia brotar um ataque. Idaho enviara batedoras lá para cim a durante a noite e Moneo sabia que algum as delas ainda estariam rondando nas alturas. Havia ravinas tam bém , lá na frente, antes que a m archa alcançasse o rio, e não havia guardas suficientes para serem colocados por toda parte.
— Nós confiarem os nos Frem en — dissera Moneo para tranqülizá-lo.
— Frem en? — Idaho não gostava do que tinha ouvido a respeito dos Frem en de Museu.
— Pelo m enos eles podem soar um alarm e contra intrusos — dissera Moneo.
— Você os viu e lhes pediu para fazerem isso?
— É claro.
Moneo não se atrevera a falar sobre Siona com Idaho. Haveria bastante tem po para isso m ais tarde, m as agora o Im perador-Deus dissera um a coisa perturbadora. Teria havido um a m udança de planos?
Moneo voltou sua atenção para o Im perador-Deus e baixou seu tom de voz.
— Am ar um com panheiro, Senhor? Mas disse que o Duncan...
— Eu disse am ar, não procriar com ele!
Moneo trem eu, pensando em com o seu próprio casam ento tinha sido arranj ado, a m aneira com o fora arrancado de.
“Não! É m elhor não seguir tais m em órias!”
Tinha havido afeição, m esm o um am or verdadeiro... depois, m as nos prim eiros dias.
— Está sonhando acordado novam ente, Moneo.
— Perdoe-m e, Senhor, m as quando fala de am or...
— Acha que não tenho pensam entos am orosos?
— Não é isso, Senhor, m as...
— Pensa que não tenho m em órias de am or e procriação, hein?!
A carreta desviou-se na direção de Moneo, forçando-o a se esquivar, assustado pelo olhar furioso no rosto de Lorde Leto.
— Senhor, eu lhe suplico...
— Este corpo pode nunca ter conhecido tais carinhos, m as todas as m em órias são m inhas!
Moneo podia perceber os sinais do Verm e tornando-se m ais dom inantes no corpo do Im perador-Deus, e não havia escapatória em reconhecer esse estado.
“Estou correndo grave perigo. Todos nós estam os.” Moneo tornou-se consciente de cada som à sua volta, os estalidos da Carreta Real, a tosse e as conversas em voz baixa no séquito, os pés na rodovia. Havia um a exalação de canela no Im perador-Deus. O ar ali, entre estas paredes de rocha, ainda guardava o frio da m adrugada e havia um idade vinda do rio.
Estaria essa um idade atraindo o Verm e?
— Escute-m e, Moneo, com o se a sua vida dependesse disto.
— Sim , Senhor — sussurrou Moneo, e ele sabia que a sua vida dependia do cuidado que tom asse agora, não apenas em ouvir, m as em observar.
— Um a parte de m im habita para sem pre os subterrâneos irracionais — disse Leto. — Essa parte reage. Ela faz coisas sem se preocupar com a sabedoria ou a lógica.
Moneo assentiu com a cabeça, sua atenção colada no rosto do Im perador-Deus. Estariam seus olhos a ponto de esgazearem ?
— Eu m e vej o forçado a m e desligar e observar essas coisas. Nada m ais — disse Leto. — E tal reação poderia causar a sua m orte. A escolha não é m inha. Está m e ouvindo?
— Eu o ouço, Senhor — sussurrou Moneo.
— Não existe algo com o capacidade de escolha em tal acontecim ento! Você m eram ente o aceita. Nunca irá entendê-lo ou conhecê-lo. Que m e diz disso?
— Eu tem o o desconhecido, Senhor.
— Mas eu não o tem o. Diga-m e por quê!
Moneo estivera esperando um a crise com o essa, e agora que viera quase lhe dava as boas-vindas. Sabia que sua vida dependeria dessa resposta. Ele olhou para o Im perador-Deus, a m ente voando.
— É por causa de todas as suas m em órias, Senhor.
— Sim ?
Um a resposta incom pleta, então. Moneo lutou tentando encontrar palavras.
— Pode ver tudo aquilo que conhecem os... tudo com o j á foi... desconhecido! Um a surpresa para o senhor... um a surpresa deve ser apenas algum a coisa nova para que a conheça?
Enquanto falava, Moneo percebia ter colocado um defensivo ponto de interrogação em algum a coisa que deveria ter sido um a declaração atrevida, m as o Im perador-Deus apenas sorriu.
— Por tam anha sabedoria eu lhe concedo um pedido, Moneo. Que é que desej a?
O súbito alívio apenas abriu cam inho para que outros tem ores em ergissem .
— Seria possível eu trazer Siona de volta para a Cidadela?
— Isso fará com que eu a teste m ais cedo.
— Ela deve ser separada de seus com panheiros, Senhor.
— Muito bem .
— Meu senhor é gentil.
— Eu sou é egoísta.
O Im perador-Deus tirou os olhos de Moneo e ficou silencioso.
Olhando ao longo do corpo segm entado, Moneo observou que os sinais do Verm e haviam dim inuído de algum a form a. Isso tinha acabado bem , afinal, m as ele pensou nos Frem en com seus pedidos e o m edo voltou.
“Aquilo foi um erro. Eles só vão provocá-lo novam ente. Por que eu fui dizer que eles poderiam apresentar seu pedido?”
Os Frem en estariam esperando adiante, reunidos deste lado do rio com seus tolos papéis sendo acenados nas m ãos.
Moneo m archou em silêncio, a apreensão aum entando a cada passo.
Por aqui a areia sopra; por aqui a areia sopra
Por aqui o hom em rico espera; por aqui ele espera.
— A Voz do Shai-Hulud,
Da História Oral
O relato de Irm ã Chenoeh, encontrado em m eio a seus papéis, depois de sua m orte:
Eu obedeço tanto a m eu j uram ento com o Bene Gesserit quanto às ordens do Im perador-Deus, retirando estas palavras de m eu relatório m as escondendo-as de m odo a que possam ser descobertas depois da m inha m orte. Pois Lorde Leto m e disse:
— Retorne às suas Superioras com a m inha m ensagem , m as por ora m antenha estas palavras em segredo. Minha ira visitará a sua Irm andade se você falhar.
Com o a Reverenda Madre Sy aksa m e avisara antes de eu partir:
— Você não deve fazer coisa algum a que traga a ira dele sobre nós.
Enquanto eu cam inhava ao lado de Lorde Leto, naquela curta peregrinação de que falei, pensei em lhe indagar a respeito de sua sem elhança com um a Reverenda Madre. Eu disse:
— Senhor, sei com o um a Reverenda Madre adquire as m em órias de suas ancestrais e de outras. Mas com o foi com o Senhor?
— Foi um a adaptação de nossa história genética e o trabalho da especiaria. Minha irm ã gêm ea Ghanim a e eu fom os despertados no ventre m aterno, colocados antes do nascim ento na presença de nossas m em órias ancestrais.
— Senhor... m inha Irm andade cham a isso de Abom inação.
— E com toda a razão — disse Lorde Leto. — O núm ero de ancestrais pode ser esm agador. E quem pode saber antes de acontecer que força irá com andar tal horda — o bem ou o m al?
— Senhor, com o dom inou tal força?
— Eu não a dom inei — disse Lorde Leto. — Mas a persistência do m odelo faraônico salvou a m im e a Ghani. Conhece esse m odelo, Irm ã Chenoeh?
— Nós da Irm andade som os bem instruídas em história, Senhor.
— Sim , m as vocês não pensam nisso com o eu penso. Falo de um a doença de governo que foi apanhada pelos gregos, que a espalham pelos Rom anos, os quais a distribuíram de m aneira tão am pla e vasta que ela nunca m orreu de todo.
— Meu Senhor fala através de enigm as?
— Não, não enigm as. Odeio essa coisa, m as ela nos salvou. Ghani e eu form am os poderosas alianças interiores com ancestrais que seguiam o m odelo faraônico. Eles nos aj udaram a form ar um a identidade m útua com aquela m ultidão há m uito adorm ecida.
— Acho isso perturbador, Senhor.
— E realm ente deve.
— Por que está m e contando isso agora, Senhor? Nunca respondeu a um a de nós dessa m aneira, não que eu saiba.
— Porque você m e ouve bem , Irm ã Chenoeh; porque irá m e obedecer e porque nunca m ais vou vê-la.
Lorde Leto pronunciou para m im essas estranhas palavras e então m e indagou:
— Por que não perguntou a respeito do que Sua Irm andade cham a de m inha tirania insana?
Estim ulada por essas palavras, arrisquei-m e à dizer:
— Senhor, sabem os de algum as de suas sangrentas execuções. Elas nos perturbam .
Lorde Leto então fez um a coisa estranha. Fechou os olhos enquanto prosseguíam os e então disse:
— Com o sei que você foi treinada para registrar precisam ente quaisquer palavras que ouça, eu lhe falarei agora, Irm ã Chenoeh, com o se fosse um a página de um de m eus diários. Preserve bem estas palavras porque não quero que sej am perdidas.
Asseguro agora à m inha Irm andade que o que se segue são as palavras pronunciadas por Lorde Leto, exatam ente com o saíram de sua boca.
— Tenho certeza de que, quando não estiver m ais aqui, presente de form a consciente entre vocês, quando estiver aqui apenas com o um a terrível criatura do deserto, m uitas pessoas m e considerarão um tirano.
“É j usto. Tenho sido um tirano.
“Um tirano — não inteiram ente hum ano, não louco, apenas um tirano. Mesm o os tiranos norm ais, porém , possuem m otivos e sentim entos além daqueles que geralm ente lhes são atribuídos por historiadores ingênuos, e pensarão em m im com o um grande tirano. Assim , m eus sentim entos e m otivos serão um legado, o qual preservarei para que a história não os deturpe em dem asia. A história possui um m odo de am pliar certas características enquanto exclui outras.
“As pessoas tentarão com preender-se e m e enquadrar em suas palavras. Elas buscarão a verdade. Mas a verdade sem pre carrega consigo a am bigüidade das palavras usadas para expressá-la.
“Vocês não irão com preender-m e. Por m ais que tentem , só farão com que eu pareça m ais distante, até que finalm ente desaparecerei no eterno m ito — um Deus Vivo, afinal!
“É isso, está vendo? Não sou um líder, nem m esm o um guia. Um deus. Lem bre-se disso. Sou inteiram ente diferente de líderes e guias. Os deuses não precisam assum ir a responsabilidade por coisa algum a, exceto a criação. Os deuses aceitam tudo e assim não aceitam coisa algum a. Os deuses devem ser identificáveis e ainda assim perm anecer anônim os. Os deuses não precisam de um m undo espiritual. Meus espíritos habitam dentro de m im , respondendo ao m eu m ais leve cham ado. Eu partilho disso com você porque m e agrada fazê-lo. Aprendi com eles e através deles. Eles são a m inha verdade.
“Cuidado com a verdade, gentil Irm ã. Em bora m uito procurada, a verdade pode ser perigosa para quem a busca. Os m itos e as m entiras tranquilizadoras são m uito m ais fáceis de se encontrar e de se crer. Se você encontra um a verdade, ainda que sej a um a verdade tem porária, ela pode exigir-lhe aj ustam entos, m udanças dolorosas. Oculte as suas verdades dentro das palavras. A am bigüidade natural irá protegê-la, então. As palavras são m uito m ais fáceis de se absorver do que as agudas punhaladas délficas de m udos portentos. Com palavras você pode sem pre gritar em coro: ‘Por que não m e avisaram ?’
“Mas eu os aviso. Eu a avisei, não com palavras, m as com um exem plo.
“Inevitavelm ente existirão palavras m ais que suficientes. Você as registra em sua m aravilhosa m em ória, agora m esm o. E algum dia m eus diários serão descobertos... m ais palavras. Eu a aviso para que leia m inhas palavras a seu próprio risco. O m ovim ento não-verbalizado de acontecim entos terríveis j az logo abaixo de sua superfície. Sej a surda! Você não precisa ouvir e, ouvindo, não precisa lem brar. Com o é tranqüilo poder esquecer. E com o é perigoso!
“Palavras, tais com o as m inhas, há m uito têm sido reconhecidas por seu poder m isterioso. Existe aqui um conhecim ento secreto que pode ser usado para governar aqueles que se esquecem . As m inhas palavras possuem a substância das m entiras e dos m itos com os quais os tiranos sem pre contaram para m anobrar as m assas em favor de seus propósitos egoístas.
“Está vendo? Com partilho tudo com você, até m esm o o m aior m istério de todos os tem pos, o m istério pelo qual governo m inha vida. E eu o revelo a você em palavras.
“O único passado que perdura encontra-se m udo dentro de você.”
O Im perador-Deus ficou em silêncio e eu m e atrevi a perguntar:
— Essas são todas as palavras que o m eu Senhor desej a que eu preserve?
— Essas são as palavras — disse o Im perador-Deus, e eu achei que ele parecia cansado, desanim ado.
Ele tinha o tom de alguém que pronunciava seu derradeiro testam ento. Lem brei-m e de que ele dissera que nunca m e veria novam ente e fiquei tem erosa, m as, graças a m inhas m estras, esse tem or não em ergiu em m inha voz.
— Lorde Leto — perguntei —, esses diários de que fala, para quem foram escritos?
— Para a posteridade, após o espaço de m ilênios. Eu personalizo aqueles leitores distantes, Irm ã Chenoeh. Penso neles com o prim os distantes, cheios de curiosidade quanto à fam ília. Estão absorvidos em revelar os dram as que só eu posso contar. Buscam conexões pessoais com suas próprias vidas. Querem os significados, a verdade!
— Mas nos advertiu contra a verdade, Senhor — eu disse.
— De fato! Toda a história é um instrum ento m aleável em m inhas m ãos. Oh, acum ulei todos esses passados e possuo cada fato. E no entanto os fatos são m eus para usá-los com o queira, e m esm o ao usá-los com fidelidade à verdade que contêm eu as altero. Que estou lhe dizendo agora? Que é um diário? Palavras.
Novam ente Lorde Leto ficou em silêncio e eu considerei a im portância do que ele tinha dito, pesando-a contra a advertência da Reverenda Madre Sy aksa, e diante de todas as coisas que o Im perador-Deus m e falara anteriorm ente. Ele disse que eu era um a m ensageira e assim senti estar sob sua proteção, podendo atrever-m e m ais que qualquer outra. Desse m odo, perguntei:
— Lorde Leto, disse que não vai m e ver outra vez. Isso quer dizer que está perto da m orte?
Juro aqui, em m eu registro desse evento, que Lorde Leto riu! E então disse:
— Não, gentil Irm ã, é você que vai m orrer. Você não viverá para ser um a Reverenda Madre. Mas não fique entristecida por isso, j á que, com sua presença aqui hoj e, ao levar m inha m ensagem para a sua Irm andade e ao preservar m inhas palavras secretas, você conquistará um a im portância ainda m aior. Você se tornará parte integrante do m ito. Nossos prim os distantes rezarão a você para que interceda j unto a m im .
Novam ente Lorde Leto riu, m as era um riso suave, e ele sorriu para m im calorosam ente. Eu acho difícil registrar isso com a precisão que estou acostum ada a em pregar em cada relato com o este. Mas no m om ento em que Lorde Leto falou aquelas palavras terríveis para m im , senti um profundo laço de am izade com ele, com o se algo físico tivesse saltado entre nós, unindo-nos de um a form a que as palavras não podem descrever inteiram ente. E foi apenas no m om ento dessa experiência que com preendi o que ele tinha querido dizer com verdade não-verbalizada. Aquilo aconteceu e no entanto não posso descrevê-lo.
Nota do arquivista
Devido aos eventos intercalados, a descoberta desse registro particular é agora pouco m ais que um a nota ao pé da página da história. Interessante por conter um a das m ais antigas referências aos diários secretos do Im perador-Deus. Aqueles que desej am exam inar m ais profundam ente esse registro devem buscar as referências no Arquivo de Registros sob o subtítulo Chenoeh, Sagrada Irm ã Quintinus Violeta: Chenoeh, Relatório de e Rej eição à m elange, Aspectos m édicos da.
(Adendo: A Irm ã Quintinius Violeta Chenoeh m orreu no 53º ano de sua estada na Irm andade, a causa sendo descrita com o incom patibilidade com a m elange durante sua tentativa de alcançar o status de Reverenda Madre.)
Nosso ancestral Assur-nasir-apli foi conhecido como o mais cruel entre os cruéis. Ele se apoderou do trono matando o próprio pai e começando o reinado da espada. Suas conquistas incluíram a região do Lago Urumia, que o conduziu a Commagene e Khabur. Seu filho recebeu tributo dos Shuitas, de Tiro, Sidon, Gebel e mesmo de Jehu, filho de Omri, cujo próprio nome despertava o terror entre milhares de pessoas. As conquistas que se iniciaram com Assur-nasir-apli levaram exércitos para a Média e depois até Israel, Damasco, Edom, Arpad, Babilônia e Umlias. Será que alguém se lembra desses nomes e desses lugares agora? E já lhes dei indícios suficientes: tentem localizar o planeta.
— Os diários roubados
O ar estava estagnado nas profundezas do corte na m ontanha que conduzia a Estrada Real até o acesso plano à ponte sobre o Rio Idaho. A estrada virava para a direita sobre um a im ensidão artificial de rocha e terra. Moneo, cam inhando ao lado da Carreta Real, viu a tira pavim entada cruzando um estreito topo de penhasco até o rendado de plasteel constituído pela ponte, ainda distante um quilôm etro.
O rio, profundo no abism o, curvava-se na direção deles à direita e corria reto através de cascatas m últiplas em direção ao lado distante da Floresta Proibida, onde as m uralhas envolventes desciam quase ao nível da água. Lá, nas fronteiras de Onn, encontravam -se os pom ares e j ardins que aj udavam a alim entar a cidade.
Moneo, olhando para o distante trecho de rio, visível de onde ele cam inhava, viu que o topo do cany on se encontrava banhado em luz, enquanto lá em baixo a água fluía nas som bras quebradas apenas pelo fraco trem ular prateado das cascatas.
Diretam ente à frente, a estrada que levava à ponte brilhava à luz do sol, as som bras negras de grotas escavadas pela erosão, em am bos os lados, proj etando-se com o setas a indicar o cam inho correto. O sol que se erguia j á aquecera o leito da rodovia. O ar trem ulava acim a num a advertência do dia que chegava.
“Estarem os em segurança na cidade antes que o calor chegue ao auge”, pensou Moneo.
Ele prosseguiu com a cansada paciência que sem pre o dom inava nesse ponto, seu olhar fixo adiante, na expectativa dos Frem en de Museu e sua petição. Eles surgiriam de um a das grotas de erosão, sabia ele, em algum lugar deste lado da ponte. Esse fora o acordo que fizera com eles. E o Im perador-Deus ainda m ostrava indícios do Verm e.
Leto ouviu os Frem en antes que qualquer um em sua com itiva os visse ou ouvisse.
— Escutem ! — disse ele.
Moneo ficou totalm ente alerta.
Leto rolou seu corpo na carreta, arqueando a frente para cim a, erguendo-a para fora do cobertor-bolha e sondando adiante.
Moneo conhecia isso m uito bem . Os sentidos do Im perador-Deus, m uito m ais agudos que os de qualquer um ao redor dele, tinham detectado um distúrbio adiante. Os Frem en estavam com eçando a cam inhar ao longo da estrada. Moneo entrou novam ente no passo habitual e se dirigiu até o lim ite de sua posição de trabalho. Ouviu-os, então.
Havia o som de pedras rolando.
E os prim eiros Frem en surgiram saindo das grotas em am bos os lados da estrada, não m ais que 100 m etros adiante da com itiva real.
Duncan Idaho avançou correndo e se colocou cam inhando ao lado de Moneo.
— Aqueles são Frem en? — indagou Idaho.
— Sim . — Moneo falou com a atenção voltada para o Im perador-Deus, que tinha abaixado seu volum e de volta no carro.
Os Frem en de Museu enfileiraram -se ao longo da estrada, deixando cair seus m antos externos para revelar outros m antos por baixo, nas cores roxa e verm elha. Moneo soltou um a exclam ação de espanto. Os Frem en estavam vestidos com o peregrinos, com algum tipo de traj e negro debaixo dos m antos coloridos. Os que se encontravam m ais perto acenavam com rolos de papel, enquanto o grupo inteiro com eçava a cantar e dançar na direção do cortej o real.
— Um pedido, Senhor — os líderes gritavam . — Ouça nosso pedido.
— Duncan! — gritou Leto. — Tire-os do cam inho!
As Oradoras Peixes avançaram através dos cortesãos ao grito de seu Senhor. Idaho acenou para que elas fossem em frente e com eçou a correr na direção da m ultidão que se aproxim ava. A Guarda form ou um a falange com Idaho na ponta.
Leto fechou com um golpe a cobertura-bolha de sua carreta, aum entou a velocidade e gritou num rugido am plificado:
— Saiam do cam inho! Saiam do cam inho!
Os Frem en de Museu, vendo a Guarda avançar em sua direção e a carreta ganhar velocidade enquanto Leto gritava, pareceram abrir cam inho no centro da estrada. Moneo, forçado a correr para acom panhar a carreta, e com sua atenção m om entaneam ente volitada para os passos apressados dos cortesãos atrás, viu a prim eira m udança inesperada no program a dos Frem en.
Com o se fosse um a única pessoa, a m ultidão cantante arrancou as capas de peregrinos para revelar uniform es negros, idênticos ao que era usado por Duncan Idaho.
“Que estão fazendo?”, perguntou-se Moneo.
Mesm o ao fazer a pergunta, Moneo j á via a carne dos rostos que se aproxim avam fluir para a condição de Dançarino Facial, cada rosto tornando-se um a cópia do de Duncan Idaho.
— Dançarm os Faciais! — alguém gritou.
Leto tam bém fora distraído pela confusão dos eventos, os sons de m uitos pés correndo na estrada, as ordens gritadas pelas Oradoras Peixes form ando sua falange. Ele aplicara m ais velocidade à sua carreta, fechando a distância entre si m esm o e as guardas, e com eçando a tocar um sino de aviso e soar a buzina de distorção da carreta. Um ruído intenso afogou a cena, desorientando m esm o algum as das Oradoras Peixes a ele condicionadas.
No instante em que os solicitantes abandonaram suas capas de peregrinos e com eçaram a m anobra de transform ação, seus rostos tornando-se sem elhantes ao de Duncan Idaho, Leto ouviu o grito:
“Dançarm os Faciais!” Ele identificou a fonte, a esposa de um funcionário da Contabilidade Real.
A reação inicial de Leto foi de divertim ento.
Guardas e Dançarm os Faciais colidiram entre si. Berros e gritos substituíram o cântico dos solicitantes. Leto reconheceu com andos de batalha dos Tleilaxu. Um círculo de Oradoras Peixes form ou-se em torno da figura vestida de negro do seu Duncan. As guardas obedeciam à instrução, freqüentem ente repetida por Leto, de que protegessem seu ghola com andante.
“Mas com o elas irão diferenciá-lo dos outros?”
Leto fez a carreta quase parar. Podia ver Oradoras Peixes à esquerda, brandindo seus cassetetes atordoadores. A luz do sol refletiu-se nas lâm inas das facas. E então veio o zum bido de pistolas laser, um som que a avó de Leto certa vez descrevera com o “o m ais terrível em nosso universo”. Mais berros e gritos roucos partiram da vanguarda.
Leto reagiu ante o prim eiro som das arm as laser. Desviou a Carreta Real para fora da estrada, indo para a direita, m udou de rodas para suspensores e lançou o veículo de volta, com o um aríete, sobre um grupo de Dançarinos Faciais que tentava entrar na luta do seu lado. Fazendo um a curva estreita, golpeou m ais alguns do outro lado, sentindo o im pacto esm agador de carne contra plasteel, um esguicho de sangue verm elho, e então estava fora da estrada, dentro de um a grota de erosão. As encostas m arrons serrilhadas da grota relam pej aram em torno dele. Ele desviou o veículo para cim a e depois m ergulhou através do cany on do rio, até um elevado m irante cercado de rochas ao lado da Estrada Real. Lá ele parou e se virou, bem fora do alcance de lasers m anuais.
“Que surpresa!”
O riso sacudiu seu grande corpo com trem ulantes convulsões. Lentam ente, o divertim ento se esvaiu.
De seu ponto de vista, Leto podia ver a ponte e a área do ataque. Corpos j aziam em m isturada desordem por todo o cenário e nas grotas ao lado. Ele reconheceu as roupas finas de cortesãos, os uniform es das Oradoras Peixes, o negro ensangüentado dos disfarces dos Dançarm os Faciais. Os cortesãos sobreviventes aglom eravam -se ao fundo, enquanto Oradoras Peixes corriam entre os corpos tom bados, certificando-se de que os atacantes estavam m ortos com um rápido golpe de faca em cada corpo.
Leto percorreu com o olhar toda a cena buscando o uniform e negro de seu Duncan. Não havia tal uniform e de pé. Nem m esm o um ! Dom inou um ím peto de frustração, e então viu um aglom erado de guardas Oradoras Peixes entre os cortesãos e... um a figura nua.
“Nua!”
Era Duncan! “Nu! É claro!” O Duncan Idaho sem uniform e não era um Dançarino Facial.
Novam ente o riso o fez estrem ecer. Surpresas de am bos os lados. Que choque não devia ter sido para os atacantes. Obviam ente eles não se tinham preparado para tal reação.
Leto levou sua carreta de volta para a estrada, baixou as rodas em posição e rolou para a ponte. Cruzou a ponte com um a sensação de déj a vu, consciente das incontáveis pontes em suas m em órias, as travessias para observar o resultado de batalhas. Quando saiu da ponte, Idaho partiu do grupo de guardas e correu em direção a ele, pulando por sobre os corpos. Leto parou a carreta e olhou para o corredor nu. O Duncan parecia um soldado-m ensageiro grego, correndo para relatar a seu com andante o resultado de um a batalha. A condensação da história atordoou as m em órias de Leto.
Idaho escorregou parando ao lado da carreta. Leto abriu a cobertura-bolha.
— Dançarinos Faciais, cada um dos m alditos! — disse Idaho ofegante.
Sem tentar esconder seu divertim ento, Leto indagou:
— Quem teve a idéia de tirar seu uniform e?
— Eu! Mas elas não m e deixaram lutar!
Moneo veio correndo com um grupo de guardas. Um a das Oradoras Peixes j ogou um m anto azul para Idaho, gritando:
— Estam os tentando salvar um uniform e com pleto de um dos corpos.
— Rasguei o m eu — explicou Idaho.
— Algum dos Dançarm os Faciais escapou? — perguntou Moneo.
— Nenhum — respondeu Idaho. — Adm ito que suas m ulheres são boas lutadoras, m as por que elas não m e deixaram entrar na. .
— Porque elas tinham instruções para protegê-lo — disse Leto.
— Elas sem pre protegem os m ais valiosos. .
— Quatro delas m orreram tirando-m e de lá! — disse Idaho.
— Nós perdem os m ais de 30 pessoas ao todo, Senhor — disse Moneo. — Ainda estam os contando.
— Quantos Dançarinos Faciais havia? — perguntou Leto.
— Parece que havia uns 50 deles — disse Moneo, falando suavem ente, um a aparência chocada em seu rosto.
Leto com eçou a rir.
— Por que está rindo? — quis saber Idaho. — Mais de 30 de nossa gente...
— Mas os Tleilaxu foram m uito incom petentes — disse Leto.
— Não percebe que apenas 500 anos atrás eles teriam sido m uito m ais eficientes, m uito m ais perigosos? Im agine-os tentando esta tola m ascarada! E não prevendo sua brilhante resposta!
— Eles tinham pistolas laser — observou Idaho.
Leto torceu seus volum osos segm entos anteriores e apontou para um buraco fundido em sua cobertura, quase no m eio do carro. Um asterisco de m atéria derretida circundava o orifício.
— Eles atingiram vários outros pontos em baixo — explicou Leto. — Felizm ente não danificaram nenhum a roda ou suspensor.
Idaho observou o orifício na capota, notando que ele se alinhava com o corpo de Leto.
— Eles não o atingiram ? — perguntou.
— Oh, sim — respondeu Leto.
— Está ferido?
— Sou im une a pistolas laser — m entiu Leto. — Quando tiverm os tem po, dem onstrarei.
— Bem , eu não sou im une — disse Idaho. — E nem suas guardas. Cada um de nós deveria ter um cinturão-escudo.
— Os escudos estão banidos do Im pério — disse Leto. — É um a ofensa capital possuir um escudo.
— A questão dos escudos — arriscou Moneo.
Idaho pensou que Moneo estivesse pedindo um a explicação sobre escudos e disse:
Os escudos desenvolvem um cam po de força que repele qualquer obj eto que tente penetrar com um a velocidade perigosa. Eles possuem um grande inconveniente. Se você atravessar um cam po de força com um raio laser, a explosão resultante iguala a de um a grande bom ba de fusão. O atacante e o atacado são destruídos.
Moneo apenas olhou para Idaho, que assentiu com a cabeça.
— Percebo por que foram banidos — continuou Idaho. — Presum o que a Grande Convenção contra os atôm icos continue em vigor e funcionando bem .
— Funcionando ainda m elhor, j á que dem os busca em todos os atôm icos das Grandes Fam ílias e os rem ovem os para um lugar seguro — disse Leto. — Mas não tem os tem po para discutir tais questões aqui.
— Podem os discutir um a coisa — insistiu Idaho. — Cam inhar aqui em cam po aberto é m uito perigoso. Deveríam os...
— Trata-se de um a tradição e devem os continuá-la — disse Leto.
Moneo inclinou-se bem j unto de um dos ouvidos de Idaho e sussurrou:
— Está perturbando Lorde Leto.
— Mas...
— Já considerou o quanto é m ais fácil controlar um a população que anda a pé? — perguntou Moneo.
Idaho virou-se de repente para olhar nos olhos de Moneo com súbita com preensão.
Leto aproveitou a oportunidade para com eçar a dar ordens:
— Moneo, cuide para que não fique nenhum vestígio do ataque por aqui. Nenhum a m ancha de sangue, nenhum a roupa rasgada, nada.
— Sim , Senhor.
Idaho voltou-se ante o som de pessoas apinhando-se em torno deles, e viu que todos os sobreviventes, m esm o os feridos usando curativos de em ergência, tinham se aproxim ado para ouvir.
— Todos vocês! — disse Leto, dirigindo-se à m ultidão em torno da carreta. — Nem um a palavra a respeito disso. Deixem que os Tleilaxu se preocupem . — Voltou-se para Idaho. — Duncan, com o foi que esses Dançarinos Faciais entraram em um a região onde apenas os m eus Frem en de Museu deviam andar livrem ente?
Idaho olhou involuntariam ente para Moneo.
— É m inha falha, Senhor — disse Moneo. — Fui eu que arranj ei para que os Frem en apresentassem seu pedido aqui. Eu m esm o tranqüilizei Duncan Idaho quanto a eles.
— Lem bro-m e de você ter m encionado um a solicitação dos Frem en — disse Leto.
— Julguei que poderia diverti-lo, Senhor.
— Pedidos não m e divertem , eles m e aborrecem . E fico especialm ente aborrecido com pedidos de pessoas cuj o único propósito em m eu esquem a de coisas é preservar os antigos costum es.
— Senhor, foi apenas que m e falou tantas vezes do tédio destas peregrinações a...
— Mas não estou aqui para aliviar o tédio dos outros!
— Senhor?
— Os Frem en de Museu não entendem coisa algum a a respeito dos velhos costum es. São apenas bons em executar os rituais. Isso naturalm ente os aborrece, daí seus pedidos no sentido de se introduzirem m udanças. Isso é que m e aborrece. Não perm itirei m udanças. Agora, onde foi que soube a respeito desse suposto pedido?
— Dos próprios Frem en — disse Moneo. — Um a dele... — Ele se interrom peu, carrancudo.
— E os m em bros da delegação lhe eram conhecidos?
— É claro, Senhor. De outro m odo eu...
— Eles estão m ortos — disse Idaho.
Moneo olhou para ele sem com preender.
— As pessoas que você conhecia foram m ortas e substituídas por Dançarinos Faciais im itadores — explicou Idaho.
— Eu tenho sido descuidado — com entou Leto. — Devia ter ensinado todos vocês a reconhecerem os Dançarinos Faciais. Isso será corrigido agora que eles se tornaram ousadam ente tolos.
— Por que eles são tão ousados? — perguntou Idaho.
— Talvez para distrair nossa atenção de algum a outra coisa — com entou Moneo.
Leto sorriu para Moneo. Sob a am eaça de um perigo pessoal, a m ente do m aj ordom o funcionava bem . Ele falhara ante seu Senhor por confundir os Dançarm os Faciais, com sua m ím ica, com Frem en bem conhecidos. Agora Moneo sentia que a continuação de seus serviços dependeria das habilidades pelas quais o Im perador-Deus originalm ente o escolhera.
— E agora tem os tem po para nos prepararm os — disse Leto.
— Distrair-nos de quê? — quis saber Idaho.
— De outra tram a de que eles participam — disse Leto. — Eles acham que vou puni-los severam ente por isso, m as o núcleo dos Tleilaxu perm anecerá seguro por causa de você, Duncan.
— Eles não pretendiam falhar aqui — com entou Idaho.
— Mas essa era um a contingência para a qual estavam preparados — disse Moneo.
— Eles acreditam que não os destruirei porque guardam as células originais do m eu Duncan Idaho — opinou Leto. — Com preende isso, Duncan?
— E eles estão certos? — indagou Idaho.
— A abordagem deles é que está errada — disse Leto. Voltou sua atenção para Moneo. — Nenhum indício desse acontecim ento deve seguir conosco para Onn. Novos uniform es, novas guardas para substituir as que foram m ortas ou feridas... tudo de volta com o estava.
— Existem m ortos entre seus cortesãos, Senhor — observou Moneo.
— Substitua-os.
Moneo curvou-se.
— Sim , Senhor.
— E m ande buscar um a nova cobertura para a m inha carreta!
— Com o o m eu Senhor ordena.
Leto recuou alguns passos a carreta, virou-se e se dirigiu para a ponte, cham ando Idaho:
— Duncan, você m e acom panhará.
Lentam ente a princípio, com a relutância pesando em cada m ovim ento, Idaho deixou Moneo e os outros. Depois, aum entando o passo, ficou j unto da bolha aberta da carreta, cam inhando enquanto olhava para Leto.
— Que o perturba, Duncan? — perguntou Leto.
— Pensa m esm o em m im com o o seu Duncan?
— É claro, exatam ente com o pensa em m im com o o seu Leto.
— Por que não soube que esse ataque estava se aproxim ando?
— Através da m inha presciência?
— Sim !
— Os Dançarm os Faciais não atraem m inha atenção há longo tem po — disse Leto.
— Presum o que isso tenha m udado agora?
— De m odo algum .
— Por que não?
— Porque Moneo estava certo. Não vou deixar que m e distraiam .
— Eles poderiam realm ente tê-lo m orto aqui.
— Um a possibilidade diferente. Sabe, Duncan, poucos com preendem que desastre seria o m eu fim .
— O que os Tleilaxu estarão tram ando?
— Um a cilada, eu creio. Um a adorável cilada. Eles m e enviaram um aviso, Duncan.
— Que aviso?
— Existe um a nova escalada nos m otivos desesperados que im pulsionam alguns dos m eus súditos.
Deixaram a ponte, com eçando a subir até o m irante de Leto. Idaho cam inhava em agitado silêncio.
No topo, Leto ergueu o olhar sobre os penhascos distantes, fitando a desolação do Sareer.
As lam entações daqueles em seu séquito que haviam perdido entes queridos continuavam na cena do ataque, além da ponte. Com sua audição aguda, Leto podia distinguir a voz de Moneo, advertindo-os de que o tem po para lam entar os m ortos seria necessariam ente curto. Eles possuíam outros entes queridos na Cidadela, e bem conheciam a ira do Im perador-Deus.
“As lágrim as terão desaparecido e os sorrisos cobrirão suas faces na hora em que chegarm os a Onn”, pensou Leto. “Eles acham que os desprezo! Que isso realm ente im porta? Esse é um incôm odo m om entâneo entre os de vida curta e pensam entos estreitos.”
A visão do deserto o acalm ava. Ele não podia ver o rio no fundo do seu cany on, a partir desse ponto, sem se virar com pletam ente e olhar para a Cidade Festival. O Duncan perm anecia piedosam ente silencioso ao lado da carreta. Voltando seu olhar ligeiram ente para a esquerda, Leto enxergava a extrem idade da Floresta Proibida. Contra esse vislum bre de um verdej ante panoram a, sua m em ória subitam ente com prim iu o Sareer no m inúsculo e fraco rem anescente de um deserto planetário, que um dia fora tão poderoso que todos os hom ens o tem iam , até m esm o os Frem en selvagens que nele andavam .
— É o rio — pensou Leto. — Se m e voltar, verei aquilo que fiz.
O abism o feito pelo hom em , através do qual o Rio Idaho escorria em corredeiras, era apenas um a extensão da fenda que Paul Muad’Dib explodira através da elevada Muralha Escudo para a passagem de suas legiões m ontadas em verm es. Onde a água fluía agora, o Muad’Dib conduzira seus Frem en saindo de um a tem pestade de areia coriólis para entrar na história... “e term inar nisto”.
Leto ouviu os passos fam iliares de Moneo, os sons do m aj ordom o esforçando-se para subir até o m irante. Moneo veio colocar-se ao lado de Idaho e fez um a pausa para recuperar o fôlego.
— Quanto tem po até que possam os prosseguir? — perguntou Idaho.
Moneo fez sinal para que ele ficasse calado e se dirigiu a Leto:
— Senhor, acabam os de receber um a m ensagem de Onn. A Bene Gesserit m anda avisar que os Tleilaxu irão atacar-nos antes que alcancem os a ponte.
Idaho resm ungou.
— Não estão um pouco atrasadas?
— Não é falha delas — disse Moneo. — A capitão das Oradoras Peixes não acreditou nelas.
Outros m em bros do cortej o de Leto com eçaram a aparecer no nível do m irante. Alguns deles pareciam estar drogados, ainda em choque. As Oradoras Peixes cam inhavam energicam ente entre eles, com andando um a exibição de boa disposição.
— Rem ova a Guarda da Em baixada Bene Gesserit — disse Leto. — Envie esta m ensagem para elas: diga-lhes que sua audiência ainda será a últim a, m as que não devem tem er por isso. Diga-lhes que os últim os serão os prim eiros. Elas identificarão a alusão.
— E quanto aos Tleilaxu? — indagou Idaho.
Leto m antinha sua atenção em Moneo.
— Sim , os Tleilaxu. Vou enviar-lhes um sinal.
— Sim , Senhor?
— Quando eu ordenar, e só quando eu ordenar, você fará com que o Em baixador Tleilaxu sej a publicam ente açoitado e expulso.
— Senhor!
— Você discorda?
— Se devem os m anter isto em segredo... — Moneo olhou por sobre o om bro —, com o vai explicar o açoite?
— Não explicarem os.
— Não darem os nenhum a razão?
— Nenhum a razão.
— Mas Senhor, as histórias e rum ores que irão...
— Eu estou reagindo, Moneo! Deixe que eles conheçam a parte subterrânea de m im , que faz coisas sem o m eu conhecim ento, pois não possui os m eios de conhecer.
— Isso causará um grande tem or, Senhor.
Um riso am argurado escapou dos lábios de Idaho. Ele colocou-se entre Moneo e a carreta.
— Ele faz um a gentileza para com esse Em baixador. Já houve governantes que teriam executado o tolo em fogo lento.
Moneo tentou falar com Leto por sobre o om bro de Idaho.
— Mas Senhor, esse ato só confirm ará ante os Tleilaxu que o Senhor foi atacado.
— Eles j á sabem disso — respondeu Leto. — Mas não falarão a respeito.
— E quando nenhum dos atacantes retornar... — disse Idaho.
— Está com preendendo, Moneo? — perguntou Leto. — Quando m archarm os para dentro de Onn, aparentem ente ilesos, os Tleilaxu acreditarão ter sofrido um com pleto fracasso.
Moneo olhou à sua volta para as Oradoras Peixes e os cortesãos que ouviam arrebatados essa conversa. Raram ente qualquer um deles tinha ouvido tal diálogo revelador entre o Im perador-Deus e seus auxiliares m ais im ediatos.
— Quando m eu Senhor dará o sinal para a punição do Em baixador? — perguntou Moneo.
— Durante a audiência.
Leto ouviu tópteros chegando, viu o cintilar do sol em suas asas e rotores e, quando focalizou com atenção, percebeu a nova capota para sua carreta pendurada em baixo de um deles.
— Faça com que essa capota danificada volte para a Cidadela e sej a restaurada — ordenou Leto, ainda perscrutando os tópteros que se aproxim avam . — Se alguém fizer perguntas, instrua aos artesãos para dizerem que é apenas rotina, outra capota arranhada pela areia que o vento sopra.
Moneo suspirou.
— Sim , Senhor. Será feito com o ordena.
— Vam os Moneo, alegre-se — disse Leto. — Cam inhe ao m eu lado enquanto prosseguim os. — Virando-se para Idaho, Leto disse:
— Escolha algum as guardas e sonde o cam inho à frente.
— Acha que haverá outro ataque?
— Não, m as isso dará às guardas algum a coisa para fazer. E arranj e um uniform e novo. Não quero você usando um a coisa que foi contam inada pelos suj os Tleilaxu.
Idaho saiu para obedecer.
Leto fez sinal para que Moneo chegasse m ais perto, bem m ais perto. Quando Moneo estava curvado sobre a carreta, o rosto a m enos de um m etro de Leto, este colocou a voz num tom m uito baixo e disse:
— Existem algum as lições especiais aqui para você, Moneo.
— Senhor, sei que devia ter suspeitado que os Dançarinos...
— Nada de Dançarinos Faciais! Esta é um a lição para a sua filha.
— Siona? Em que ela poderia...
— Diga-lhe isto: de um m odo frágil, ela é com o a força dentro de m im , que age sem saber. Por causa dela eu m e lem bro de com o é ser hum ano... e am ar.
Moneo olhou para Leto sem com preender.
— Sim plesm ente lhe transm ita essa m ensagem — disse Leto.
— Não precisa tentar entendê-la. Apenas lhe diga m inhas palavras. Moneo recuou.
— Com o m eu Senhor ordena.
Leto fechou a cobertura em form a de bolha, transform ando-a em um a unidade para que as equipes que se aproxim avam nos tópteros pudessem substitui-la.
Moneo virou-se e olhou para as pessoas que esperavam na área plana do m irante. Notou então um a coisa que não tinha observado antes, um a coisa revelada pelo desarranj o nos traj es que algum as das pessoas ainda não tinham reparado. Alguns dos cortesãos se haviam equipado com delicados engenhos de auxílio à audição. Tinham escutado tudo. E tais engenhos só poderiam vir de Ix.
“Vou avisar ao Duncan e à Guarda”, pensou Moneo.
De algum m odo, ele pensava nesta descoberta com o um sintom a de decadência. Com o eles poderiam proibir tais coisas quando a m aioria dos cortesãos e Oradoras Peixes sabia, ou então suspeitava, de que o Im perador-Deus com erciava com Ix para obter tais m áquinas proibidas?