O Imperador-Deus de Duna

Frank Herbert · Capítulo 9 de 25

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O Imperador-Deus de Duna

Estou começando a odiar a água. A…

Estou começando a odiar a água. A pele da truta da areia, que impele a minha metamorfose, já absorveu as sensibilidades do Verme. Moneo e muitas de minhas guardas conhecem essa aversão. Somente Moneo suspeita da verdade, de que isso marca um caminho importante. Posso sentir o meu fim, representado nisso, não breve como Moneo mede o tempo, mas suficientemente breve do modo como eu o suporto. A truta da areia buscava a água nos tempos de Duna, um problema para os primeiros estágios de nossa simbiose. A força de minha vontade controlava esse impulso então, e até que atingíssemos um tempo de equilíbrio. Agora devo evitar a água porque não há mais trutas da areia além das criaturas meio dormentes em minha pele. Sem truta da areia para trazer este mundo de volta para o deserto, o Shai-Hulud não emergirá; o verme da areia não pode desenvolver-se até que esta terra esteja ressequida.

Eu sou sua única esperança.

— Os diários roubados

 

Era o m eio da tarde quando o Cortej o Real surgiu no declive final em direção aos bairros da Cidade Festival. Multidões enfileiravam -se ao longo das ruas para saudá-lo, sendo contidas por filas de robustas Oradoras Peixes em uniform es com a cor verde dos Atreides, seus cassetetes atordoantes cruzados e unidos.

Enquanto o Cortej o Real se aproxim ava, um rum or de gritos se ergueu da m ultidão. Então as guardiãs Oradoras Peixes com eçaram a entoar:

— Siay noq! Siay noq! Siay noq!

Ao ecoar por entre os prédios elevados, a palavra cantada pouía um estranho efeito sobre a m ultidão, que não fora iniciada no seu significado. Um a onda de silêncio espalhou-se pelas avenidas apinhadas, enquanto as guardiás prosseguiam o cântico. As pessoas olhavam , adm iradas, para as m ulheres arm adas com bastões atordoantes que guardavam a passagem do Cortej o Real, as m ulheres que cantavam com os olhos fixos no rosto de seu Senhor que passava.

Idaho, m archando com as guardas Oradoras Peixes, atrás da Carreta Real, ouvia o canto pela prim eira vez e sentia o cabelo arrepiar em sua nuca.

Moneo seguia ao lado da carreta, sem olhar para a esquerda ou a direita. Ele certa vez indagara de Leto o significado da palavra.

— Eu dou às Oradoras Peixes apenas um ritual — dissera Leto.

Na ocasião eles estavam na câm ara de audiências do Im perador-Deus, logo abaixo da praça central de Onn, com Moneo fatigado após um longo dia dirigindo o fluxo de dignitários que abarrotavam a cidade para as Festividades Decenais.

— Que tem o cantar daquela palavra a ver com isso, Senhor?

— O ritual é cham ado de Siay noq — O Banquete de Leto. Trata-se da adoração da m inha pessoa na m inha presença.

— Um ritual ancestral, Senhor?

— Era com os Frem en antes que eles fossem Frem en. Mas as chaves para os segredos do Festival m orreram com os antigos. Som ente eu as relem bro agora. Eu recrio o Festival à m inha própria m aneira e para as m inhas próprias necessidades.

— Então, os Frem en de Museu não usam esse ritual?

— Nunca. É m eu e som ente m eu. Reservo-m e o direito eterno sobre ele porque eu sou o ritual.

— É um a palavra estranha, Senhor. Nunca a tinha ouvido.

— Ela possui m uitos significados, Moneo. Se eu lhe disser, m anterá o segredo?

— Meu Senhor ordena!

— Nunca com partilhe com outro ou revele às Oradoras Peixes o que lhe vou dizer agora.

— Eu j uro, Senhor.

— Muito bem . Siay noq significa honrar aquele que fala com sinceridade. Significa a lem brança das coisas que foram ditas com sinceridade.

— Mas Senhor, sinceridade não significa que aquele que fala acredita.. tem fé no que está dizendo?

— Sim , m as Siay noq tam bém contém a idéia da luz que revela a realidade. Você continua a lançar essa luz naquilo que vê.

— Realidade... esse é um term o m uito am bíguo, Senhor.

— De fato! Mas Siay noq tam bém significa ferm entação porque a realidade — ou a crença de que você conhece um a realidade, o que é a m esm a coisa — sem pre provoca um a ferm entação no universo.

— Tudo isso em um a única palavra, Senhor?

— E m ais! Siay noq tam bém contém o cham ado à oração e o nom e do Anj o Registrador, Sihay a, que interroga os recentem ente m ortos.

— Um a grande carga para um a única palavra, Senhor.

— As palavras podem transportar qualquer carga que desej em os. Tudo que é necessário é um a concordância e um a tradição sobre a qual se apoiar.

— Por que não devo falar a esse respeito com as Oradoras Peixes, Senhor?

— Porque essa é um a palavra reservada para elas. Elas se ressentirão se eu a com partilhar com alguém do sexo m asculino.

Moneo com prim ia os lábios em um a linha fina ao se lem brar disso, m archando ao lado da Carreta Real para dentro da Cidade Festival. Muitas vezes ouvira as Oradoras Peixes cantarem ao Im perador-Deus em sua presença, desde aquela prim eira explicação, e até m esm o adicionara seus próprios significados à estranha palavra.

“Ela significa m istério e prestígio. Significa poder. Invoca a licença para agir em nom e de Deus.”

— Siay noq! Siay noq! Siay noq!

A palavra tinha um som desagradável aos ouvidos de Moneo.

Encontravam -se agora bem no interior da cidade, quase na praça central. A luz do entardecer ilum inava a Estrada Real por trás da procissão, clareando o cam inho a ser percorrido. Ela dava um brilho aos traj es coloridos dos cidadãos. Brilhava nos rostos erguidos das Oradoras Peixes que m argeavam o cam inho.

Marchando com as guardas ao lado da carreta, Idaho dom inou seus susto inicial enquanto o cântico continuava. Ele questionou um a das Oradoras Peixes a seu lado a respeito da palavra.

— Não se trata de um a palavra para hom ens — ela disse. — Mas algum as vezes o Senhor partilha Siay noq com um Duncan.

“Um Duncan!” Ele indagara Leto a respeito anteriorm ente e não gostara das m isteriosas evasões.

— Logo vai aprender sobre isso.

Idaho relegou o canto ao papel de ruído de fundo enquanto olhava à sua volta com a curiosidade de um turista. Em preparação para suas tarefas com o Com andante da Guarda, Idaho fizera sondagens sobre a história de Onn, descobrindo que partilhava o perverso divertim ento de Leto pelo fato de o rio que fluía por perto ter por nom e Idaho.

Eles estavam em um dos grandes salões abertos da Cidadela naquela ocasião, o lugar arej ado cheio da luz da m anhã, as m esas am plas sobre as quais as arquivistas Oradoras Peixes tinham abertos os m apas do Sareer e de Onn. Leto rolara sua carreta sobre um a ram pa que lhe perm itia olhar para baixo e ver os m apas. Idaho estava diante de um a m esa coberta de m apas, na frente dele, estudando um a planta da Cidade Festival.

— Desenho peculiar para um a cidade — m urm urou Idaho.

— Ela possui um a função básica: a visão pública do Im perador-Deus.

Idaho ergueu os olhos para o corpo segm entado na carreta, voltando o olhar para o rosto envolto nas dobras de truta da areia. Perguntava a si m esm o se algum dia acharia natural fitar aquela figura bizarra.

— Mas isso só acontece um a vez a cada 10 anos — disse Idaho.

— A Grande Com unhão, sim .

— E apenas a deixa fechada nesse intervalo?

— Lá ficam as em baixadas, os escritórios dos agentes com erciais, as escolas das Oradoras Peixes, o pessoal de serviços e m anutenção, os m useus e bibliotecas.

— Que espaço eles ocupam ? — Idaho bateu no m apa com os nós dos dedos. — No m áxim o, um décim o da Cidade.

— Menos que isso.

Idaho deixou o olhar vaguear pensativam ente sobre o m apa.

— Existem outros propósitos nesse proj eto, m eu Senhor?

— Ele é dom inado pela necessidade de o público ver a m inha pessoa.

— Deve haver trabalhadores adm inistrativos, funcionários do Governo, até m esm o trabalhadores braçais. Onde é que eles vivem ?

— Principalm ente nos subúrbios.

Idaho apontou para o m apa.

— Essas fileiras superpostas de apartam entos?

— Observe as sacadas, Duncan.

— Todas à volta da praça. — Ele inclinou-se para olhar o m apa. — Esta praça tem dois quilôm etros de largura!

— Note com o as sacadas dos apartam entos são dispostas em degraus sucessivos até o anel das torres. E a elite fica aloj ada nas torres.

— E eles podem olhar para o Senhor lá em baixo na praça?

— Você não gosta disso.

— Não existe sequer um a barreira de energia para protegê-lo!

— E que alvo tentador eu não sou.

— Por que faz isso?

— Há um m ito adorável no proj eto de Onn. Eu estim ulo e prom ovo esse m ito. Diz que um dia houve um povo cuj o governante devia cam inhar entre seus m em bros um a vez por ano, na total escuridão, sem arm adura ou arm as. Esse governante m ítico usava um traj e lum inescente enquanto fazia sua cam inhada entre a m ultidão de súditos ocultos pela noite. E seus súditos... Eles se vestiam de preto para a ocasião, e nunca eram revistados para ver se portavam arm as.

— E que isso tem a ver com o Senhor e com Onn?

— Bem , obviam ente, se o governante sobrevivesse a tal cam inhada, isso provava que ele era um bom governante.

— O Senhor não ordena buscas à procura de arm as?

— Não abertam ente.

— E acha que as pessoas o vêem representado nesse m ito. Isto não era um a pergunta.

— Muitos o fazem .

Idaho olhou para a face de Leto, profunda em seu envoltório cinzento. Os olhos de azul sobre azul o fitaram sem expressão.

“Olhos de m elange”, pensou Idaho. Mas Leto dissera que não m ais consum ia a especiaria. Seu corpo lhe fornecia toda a especiaria que seu vício exigisse.

— Você não aprecia m inha sagrada obscenidade, m inha tranqüilidade forçada — disse Leto.

— Não gosto de vê-lo brincando de deus!

— Mas um deus pode controlar um Im pério com o um m aestro conduz um a sinfonia, através de seus m ovim entos. Meu desem penho só é lim itado pelo fato de eu estar restrito a Arrakis. Devo reger a sinfonia daqui.

Idaho sacudiu a cabeça e olhou um a vez m ais para a planta da cidade.

— Que são esses apartam entos por trás das torres?

— Acom odações m enos sofisticadas para visitantes.

— Eles não podem ver a praça.

— Ah, eles podem . Engenhos Ixianos proj etam m inha im agem nesses quartos.

— Enquanto o círculo interno o observa diretam ente. Com o é que entra na praça?

— Um palco de apresentação se ergue no centro para m e exibir ao m eu povo.

— E eles batem palm as? — Idaho olhou diretam ente para os olhos de Leto.

— Eles têm perm issão para aplaudir.

— Vocês Atreides sem pre se viram com o parte da história.

— Com o você é astuto em entender o significado das palm as.

Idaho voltou sua atenção para a planta da cidade.

— E as escolas das Oradoras Peixes ficam aqui?

— Sob sua m ão esquerda, sim . Essa é a academ ia à qual Siona foi enviada para receber instrução. Ela tinha 10 anos na ocasião.

— Siona... devo aprender m ais a respeito dela — m urm urou Idaho.

— E eu lhe asseguro que nada ficará no cam inho desse desej o. Enquanto m archava ao longo da Peregrinação Real, Idaho foi retirado do seu devaneio pela percepção de que o canto das Oradoras Peixes estava dim inuindo. À sua frente, a Carreta Real iniciara sua descida para as câm aras em baixo da praça, rolando por um a longa ram pa descendente. Idaho, ainda sob a luz do sol, olhou para cim a e à volta, em direção às torres cintilantes — essa realidade para a qual os m apas não o tinham preparado. Pessoas enchiam as sacadas do anfiteatro de prédios que circundava a praça, form ando um anel. Pessoas silenciosas que observavam a procissão.

“Não há palm as entre os privilegiados”, pensou Idaho. O silêncio das pessoas nas sacadas encheu-o de um sinistro pressentim ento.

Penetrou então na ram pa-túnel cuj a boca escondeu a praça. O canto das Oradoras Peixes desapareceu enquanto desciam para as profundezas. Mas o som dos pés m arcando à sua volta era curiosam ente am pliado.

A curiosidade substituiu o sentim ento de presságio opressivo e Idaho olhou à sua volta. O tubo de piso plano era am plo e artificialm ente ilum inado. Era m uito largo, e Idaho estim ou que 20 pessoas poderiam m archar lado a lado para dentro das entranhas da praça. Não havia m ultidões saudando, apenas um a fileira de Oradoras Peixes, com am plo espaço entre elas, que não cantavam , contentando-se em observar a passagem do seu Deus.

A m em ória das plantas revelou a Idaho o esquem a desse gigantesco com plexo em baixo da praça — um a cidade particular dentro da Cidade, um lugar onde apenas o Im perador-Deus, seus cortesãos e as Oradoras Peixes poderiam entrar sem um a escolta. Todavia as plantas nada haviam sugerido a respeito das grossas pilastras, do senso de espaços im ensos e bem -guardados, da estranha quietude quebrada pelo ruído de passos e o estalar da Carreta de Leto.

Idaho olhou de repente para as Oradoras Peixes enfileiradas ao longo do cam inho e percebeu que suas bocas estavam se m ovendo em uníssono, form ando um a palavra não-pronunciada por seus lábios. Ele reconheceu a palavra:

— Siay noq.

Outro Festival tão cedo? — indagou Lorde Leto.

— Faz 10 anos — disse o m aj ordom o.

Você acha, por esse diálogo, que Lorde Leto dem onstra ignorância da passagem do tem po?

— Da História Oral

Durante o período de audiências particulares que precedeu o Festival propriam ente dito, m uitos com entaram que o Im perador-Deus passou m ais que o tem po program ado com o novo Em baixador Ixiano, um a j ovem m ulher cham ada Hwi Noree.

Ela foi trazida no m eio da m anhã por duas Oradoras Peixes, e as guardas ainda dem onstravam a excitação do prim eiro dia. A câm ara particular de audiências, em baixo da praça, encontrava-se brilhantem ente ilum inada. A luz revelava um salão de 50 m etros de com prim ento por 35 de largura. Antigos tapetes Frem en decoravam as paredes, seus brilhantes padrões trabalhados em j óias e m etais preciosos, todos com binados em tram as da inestim ável fibra de especiaria. Predom inavam os verm elhos som brios que os Frem en tanto haviam apreciado. O piso da câm ara era quase transparente, cenário para peixes exóticos m oldados em cristal radiante. Debaixo do piso fluía um a corrente de água azul-clara, toda a sua unidade selada fora da câm ara de audiência, m as excitantem ente próxim a de Leto, que repousava sobre um a elevação acolchoada na extrem idade oposta à porta.

Sua prim eira visão de Hwi Noree revelou um a extraordinária sem elhança com seu tio Malky, m as os m ovim entos graves e a calm a de suas passadas eram igualm ente extraordinários em sua diferença. Mas ela tinha aquela pele escura, o rosto oval com as feições regulares. Plácidos olhos castanhos fitavam Leto e, onde o cabelo de Malky fora grisalho, o dela era de um m arrom lum inoso.

Hwi Noree irradiava um a paz interior que Leto sentia am pliar sua influência à volta dela enquanto se aproxim ava. Ela parou a 10 passos de distância, abaixo dele. Havia nela um equilíbrio clássico, algum a coisa que não podia ser acidental.

Com crescente excitação, Leto percebeu um a sugestão das m aquinações Ixianas nessa nova em baixadora. Eles estavam bem avançados em seu program a genético para cultivar tipos selecionados para funções específicas. E a função de Hwi Noree era perturbadoram ente óbvia — encantar o Im perador-Deus e encontrar um a brecha em sua arm adura.

A despeito disso, enquanto o encontro prosseguia, Leto se descobriu verdadeiram ente apreciando a com panhia dela. Hwi Noree estava de pé, no centro de um a poça de luz diurna, guiada para dentro da câm ara por um sistem a de prism as Ixianos. Eles enchiam a extrem idade da câm ara, onde Leto se posicionava, com um a luz dourada cuj o centro era agora a Em baixadora, e que dim inuía por trás do Im perador-Deus, onde se colocava um a curta fila de guardas Oradoras Peixes — 12 m ulheres escolhidas por sua incapacidade de ouvir ou falar.

Hwi Noree usava um vestido sim ples de tecido roxo, enfeitado apenas por um colar de prata com um pingente estam pado no sím bolo de Ix. Sandálias suaves, da cor do vestido, surgiam debaixo da bainha.

— Você tem consciência — disse-lhe Leto — de que eu m atei um de seus ancestrais?

Ela sorriu suavem ente.

— Meu tio Malky incluiu essa inform ação em m eu treinam ento inicial, Senhor.

Enquanto ela falava, Leto percebeu que parte de sua educação havia sido conduzida pela Bene Gesserit. Ela possuía o m odo típico delas de controlar suas respostas, de sentir os subtons ocultos em um a conversa. Podia notar, entretanto, que o revestim ento Bene Gesserit fora um a coisa delicada, que nunca penetrara na suavidade básica de sua natureza.

— Disseram -lhe que eu abordaria esse assunto? — perguntou ele.

— Sim , Senhor. Sei que m eu ancestral com eteu a tem eridade de trazer um a arm a até aqui e tentar feri-lo.

— Assim com o fez seu antecessor im ediato. Disseram -lhe isso tam bém ?

— Não soube senão quando aqui cheguei, Senhor. Eles foram tolos! Por que poupou m eu antecessor?

— Não tendo poupado seu ancestral?

— Sim , Senhor.

— Kobat, seu predecessor, m e era m ais valioso com o m ensageiro.

— Então m e disseram a verdade — com entou ela, e novam ente sorriu. — Não se pode contar sem pre em ouvir a verdade de nossos colegas e superiores.

A resposta foi tão com pletam ente aberta que Leto não conseguiu suprim ir um riso. Mas, m esm o enquanto ria, percebia que essa j ovem m ulher ainda possuía a Mente do Prim eiro Despertar, a m ente elem entar que surgia com o prim eiro choque de consciência do nascim ento. Ela estava viva!

— Então, não m e acusa de ter m orto seu ancestral? — ele indagou.

— Ele tentou assassiná-lo! Disseram -m e que o esm agou, Senhor, com o peso do seu próprio corpo.

— Verdade.

— E que em seguida voltou a arm a dele contra a sua própria Sagrada Pessoa, para dem onstrar que a arm a era inútil... e se tratava da m elhor pistola laser que nós Ixianos podem os produzir.

— A testem unha relatou corretam ente — disse Leto.

E pensou: “O que dem onstra até onde se pode confiar em testem unhas!” Do ponto de vista da precisão histórica, ele sabia ter voltado a arm a laser apenas contra seu corpo segm entado, nunca contra seu rosto, m ãos ou nadadeiras. O corpo pré-verm e possuía um a extraordinária capacidade de absorver calor. A fábrica quím ica dentro dele convertia calor em oxigênio.

— Nunca duvidei da história — disse ela.

— E por que Ix repetiu esse gesto tolo? — perguntou Leto.

— Eles não m e disseram , Senhor. Talvez o próprio Kobat tenha assum ido essa iniciativa sozinho.

— Penso que não. Ocorreu-m e que sua gente desej ava apenas a m orte do assassino escolhido.

— A m orte de Kobat?

— Não, a m orte daquele que eles escolheram para em punhar a arm a.

— E quem foi esse, Senhor? Não m e disseram .

— Isso não tem im portância. Recorda-se do que eu disse por ocasião da tolice com etida por seu ancestral?

— O Senhor am eaçou com um a punição terrível se tal violência penetrasse novam ente em nossos pensam entos.

Ela abaixou o olhar, m as não antes que Leto vislum brasse um a profunda determ inação em seus olhos. Ela iria usar o m elhor de suas habilidades para controlar a ira do Im perador.

— Eu prom eti que nenhum de vocês escaparia à m inha fúria — disse Leto.

Ela voltou a olhar para o rosto dele com um m ovim ento súbito.

— Sim , Senhor. — E agora suas m aneiras revelavam tem or pessoal.

— Nenhum de vocês pode escapar de m im , nem m esm o aquela tola colônia que plantaram recentem ente em ... — E Leto recitou-lhe as coordenadas padrão de um a nova colônia que os Ixianos haviam instalado secretam ente, bem além do que j ulgavam serem as fronteiras do Im pério.

Ela não dem onstrou surpresa.

— Senhor, penso que foi porque os adverti de que tom aria conhecim ento disso que fui escolhida com o Em baixadora.

Leto estudou-a com m ais cuidado. “Que é que tem os aqui?”, perguntou-se. A observação dela fora sutil e penetrante. Os Ixianos, sabia ele, haviam j ulgado que a distância e os custos de transporte enorm em ente am pliados iriam isolar a nova colônia. Hwi Noree achara que não e o dissera. Mas ela j ulgava que seus m estres a tinham escolhido com o Em baixadora por causa disso — com o um a observação sobre a cautela Ixiana. Com ela eles acreditavam possuir um a am iga na corte, m as um a que tam bém poderia ser vista com o am iga de Leto. Ele assentiu enquanto o padrão tom ava form a. Muito cedo em sua ascendência ele havia revelado aos Ixianos a localização exata do supostam ente secreto Núcleo Ixiano, o coração da federação tecnológica que eles governavam . Fora um segredo que os Ixianos j ulgavam seguro devido aos subornos im ensos que pagavam à Corporação Espacial. Leto descobrira através da dedução e da observação presciente — e tam bém através da consulta a suas m em órias, onde havia m ais que uns poucos Ixianos.

Na ocasião, Leto advertira os Ixianos de que os puniria se agissem contra ele. Eles responderam com consternação e acusaram a Corporação de atraiçoá-los. Isso divertiu Leto, que reagiu com tam anha explosão de riso que os Ixianos ficaram intim idados. Ele então os inform ou, num tom frio e acusatório, de que não necessitava de espiões, traidores ou outros esquem as com uns de governo.

Eles não acreditavam que ele era um deus?

Por algum tem po depois disso, os Ixianos foram cooperativos ante seus pedidos. Leto não abusara do relacionam ento. Suas exigências eram m odestas — um a m áquina para isso, um engenho para aquilo. Ele declarava suas necessidades e daí a pouco os Ixianos entregavam o brinquedo tecnológico desej ado. Apenas um a vez eles haviam tentado entregar um instrum ento violento disfarçado em um a de suas m áquinas. Ele m assacrara toda a delegação Ixiana antes que seus m em bros pudessem desem brulhar a coisa.

Hwi Noree esperava pacientem ente enquanto Leto m editava. Nem o m enor sinal de im paciência ela deixou escapar.

“Lindo”, pensou ele.

Em vista de sua longa associação com os Ixianos, essa nova atitude fazia os fluidos correrem m ais rápido pelo corpo de Leto. Norm alm ente as paixões, crises e necessidades que o haviam im pelido queim avam am ortecidas agora. Ele freqüentem ente dizia ter vivido além de sua época. Mas a presença de um a Hwi Noree revelava que ele ainda era necessário. Isso o satisfazia. Leto sentia ser até m esm o possível que os Ixianos tivessem obtido sucesso parcial com sua m áquina para am pliar a presciência linear de um navegador da Corporação. Um pequeno blip no fluxo dos grandes acontecim entos poderia Ter-lhe escapado. Será que eles poderiam realm ente criar tal m áquina? Que m aravilha não seria! Propositadam ente, ele se recusava a usar o m ínim o que fosse de seus poderes para a busca dessa possibilidade.

“Eu desej o ser surpreendido!”‘

Leto sorriu benignam ente para Hwi.

— Com o é que você foi preparada para m e cortej ar? — indagou. Ela nem piscou.

— Recebi um conj unto de respostas m em orizadas para exigências particulares — ela disse. — Eu as aprendi porque m e exigiam , m as não pretendo fazer uso delas.

“O que é exatam ente que eles desej am ?”, pensou Leto.

— Diga a seus m estres — ele disse — que você é precisam ente o tipo certo de isca para se balançar na m inha frente.

Ela curvou a cabeça.

— Se satisfaz ao m eu Senhor.

— Sim , você o faz.

Ele se perm itiu um a pequena sondagem tem poral para exam inar o futuro im ediato de Hwi, traçando através dele as linhas do passado da m oça. Hwi aparecia num futuro fluido, um a corrente cuj os m ovim entos eram suscetíveis a m uitas deflexões. Ela iria conhecer Siona, m as apenas de m odo casual, a não ser que... As questões fluíram na m ente de Leto. Um navegador da Corporação encontrava-se obviam ente assessorando os Ixianos e ele sem dúvida j á havia detectado a perturbação provocada por Siona no tecido do tem po. Será que o navegador realm ente acreditava que poderia proporcionar segurança contra os poderes de detecção do Im perador-Deus?

A sondagem tem poral levou vários m inutos, m as Hwi não se inquietou. Leto olhou para ela cuidadosam ente. Ela parecia atem poral — fora do tem po de um m odo profundam ente pacífico. Ele j am ais havia encontrado um m ortal com um capaz de esperar assim , diante dele, sem qualquer nervosism o.

— Onde foi que você nasceu, Hwi? — perguntou ele.

— No próprio Ix, m eu Senhor.

— Quero dizer especificam ente: o prédio, sua localização, seus pais, as pessoas em volta de vocês, seus am igos e sua fam ília, sua educação, tudo isso.

— Nunca conheci m eus pais, Senhor. Disseram -m e que eles m orreram quando eu ainda era um a criança m uito pequena.

— E você acredita nisso?

— No início... é claro. Depois criei fantasias. Até im aginei que Malky fosse m eu pai... m as... — Ela sacudiu a cabeça.

— Você não gostava do seu tio Malky ?

— Não, não gostava. Mas o adm irava.

— Minha reação, precisam ente. Mas e quanto aos seus am igos e à sua educação?

Meus professores eram especialistas, até m esm o algum as Bene Gesserits foram trazidas para m e treinar em controle em ocional e observação. Malky dizia que eu estava sendo preparada para grandes coisas.

— E seus am igos?

— Não creio que algum dia tenha tido am igos verdadeiros.

apenas pessoas que entravam em contato com igo para propósitos específicos de m inha educação.

— E essas grandes coisas para as quais estava sendo treinada, algum a vez alguém falou a respeito?

— Malky disse que eu estava sendo preparada para encantá-lo, Senhor.

— Qual é sua idade, Hwi?

— Não sei m inha idade exata. Suponho que estej a com uns 26. Nunca com em orei um aniversário. Só tom ei conhecim ento do que eram aniversários por acidente, um a de m inhas professoras dando um a desculpa para sua ausência. Nunca m ais tornei a ver aquela professora.

Leto sentiu-se fascinado por essa resposta. Suas observações transm itiam -lhe a certeza de que não tinham ocorrido intervenções dos Tleilaxu na carne Ixiana de Hwi. Ela não tinha vindo de um tanque axlotl dos Tleilaxu. Por que o segredo, então?

— Seu tio Malky sabe a sua idade?

— Talvez. Mas não o vej o há vários anos.

— Ninguém j am ais lhe disse quantos anos tinha?

— Não.

— Por que acha que é assim ?

— Talvez eles achem que eu perguntaria se estivesse interessada.

— Então, por que não perguntou?

— A princípio pensei que houvesse algum registro em algum lugar. Procurei. Não havia nada. Raciocinei então que eles não iriam responder m inha pergunta.

— Pelo que m e revela a seu respeito, Hwi, essa resposta m e satisfaz m uito. Tam bém sou ignorante quanto ao seu histórico, m as posso fazer um a suposição esclarecida quanto ao seu lugar de nascim ento.

Os olhos dela focalizaram -se no rosto dele com um a intensidade carregada que não traduzia qualquer fingim ento.

— Você nasceu dentro dessa m áquina que seus senhores estão tentando aperfeiçoar para a Corporação — disse Leto. — Você foi concebida lá, do m esm o m odo. Até pode ser que Malky fosse o seu pai. Isso não é im portante. Você conhece essa m áquina, Hwi?

— Não devia conhecê-la, Senhor, m as...

— Outra indiscrição da parte de um a de suas professoras?

— Da parte do m eu próprio tio.

Um a gargalhada escapou de Leto.

— Que patife! — exclam ou. — Que patife encantador!

— Senhor?

— Esta é sua vingança contra seus senhores. Ele não gostou de ter sido rem ovido da m inha corte. Na ocasião ele m e disse que sua substituição era m ais que um a tolice.

Hwi encolheu os om bros.

— Meu tio é um hom em com plexo.

— Ouça-m e com cuidado, Hwi. Algum as de suas associações aqui em Arrakis podem ser perigosas para você. Eu a protegerei da m aneira que puder. Está com preendendo?

— Creio que sim , Senhor. — Ela olhou para ele solenem ente.

— Agora, um a m ensagem para seus senhores. E evidente para m im que eles andaram ouvindo um Navegador da Corporação e que tam bém se uniram aos Tleilaxu de um m odo perigoso. Diga-lhes que seus propósitos são bem transparentes.

— Senhor, não tenho conhecim ento do...

— Estou consciente do m odo com o eles a usaram , Hwi. Por essa razão, você pode dizer tam bém a seus m estres que será a Em baixadora perm anente em m inha corte. Não receberei outro Ixiano. E se seus senhores ignorarem m eu aviso, tentando algum a interferência posterior sobre m eus desej os, eu deverei esm agá-los.

Lágrim as rolaram dos olhos de Hwi, escorrendo por sua face, m as Leto ficou grato por ela não se entregar a qualquer outro tipo de dem onstração, tal com o cair de j oelhos.

— Eu j á os avisei — ela disse. — Verdadeiram ente o fiz. Eu lhes disse que deviam obedecê-lo.

E Leto podia ver que isso era verdade.

“Que criatura m aravilhosa é esta Hwi Noree”, ele pensou. Ela parecia o sím bolo da bondade. Obviam ente gerada e condicionada para essa qualidade por seus m estres Ixianos, com o cálculo cuidadoso do efeito que isso teria sobre o Im perador-Deus.

Dentro de suas apinhadas m em órias ancestrais, Leto podia vê-la com o um a freira idealizada, am ável e capaz do auto-sacrifício, toda sinceridade. Era sua natureza m ais básica, o lugar onde ela vivia. Ela achava m ais fácil ser verdadeira e aberta, capaz de obscurecer isso apenas para evitar o sofrim ento de outros. Ele viu essa últim a tendência na m udança profunda que as Bene Gesserits tinham sido capazes de efetuar sobre ela. A verdadeira personalidade de Hwi perm anecia aberta, sensível e naturalm ente doce. Leto podia encontrar poucos traços de calculism o m anipulativo nela. Ela parecia im ediatam ente im pressionável e sensível, excelente ouvinte (outro atributo Bene Gesserit). Nada havia de abertam ente sedutor nela, e no entanto esse exato detalhe a tornava profundam ente atraente para Leto.

Com o ele observara a um de seus prim eiros Duncans, em ocasião sem elhante:

— Você deve com preender este detalhe a m eu respeito, um a coisa de que alguns obviam ente suspeitam : por vezes é inevitável que eu tenha sensações ilusórias, o sentim ento de que em algum lugar dentro desta form a m utante ainda existe um corpo hum ano adulto com todas as suas necessidades e funções.

— Todas, elas, Senhor? — o Duncan indagara.

— Todas! Sinto as partes desaparecidas do m eu ser. Posso sentir m inhas pernas, tão pouco notáveis e tão reais para os m eus sentidos. Posso sentir o bom bear de m inhas glândulas hum anas, algum as das quais nem m ais existem . Posso até sentir os órgãos genitais que sei, intelectualm ente, terem desaparecido séculos atrás.

— Mas certam ente se sabe.

— O conhecim ento não suprim e tais sentim entos. As partes desaparecidas do m eu ser ainda estão lá, nas m inhas m em órias pessoais e nas m últiplas identidades de todos os m eus ancestrais.

Enquanto Leto olhava para Hwi, de pé diante dele, não lhe aj udava saber que não possuía m ais um crânio, e que aquilo que

um dia fora o seu cérebro se reduzira agora a um a m aciça rede de gânglios espalhada por seu corpo pré-verm e. Nada disso aj udava. Ainda podia sentir o cérebro doendo no lugar onde j á repousara; ainda podia sentir o crânio pulsando.

Apenas por ficar diante dele, Hwi gritava a toda a sua hum anidade perdida. Era dem ais para ele, que gem eu em desespero:

— Por que seus senhores m e torturam ?

— Senhor?

— Ao enviá-la!

— Eu seria incapaz de feri-lo, Senhor.

— Só por existir você m e fere!

— Eu não sabia. — Lágrim as escorreram dos olhos dela. — Eles nunca m e disseram o que estavam realm ente fazendo.

Ele se acalm ou e falou suavem ente:

— Deixe-m e agora, Hwi. Vá cuidar de seus deveres, m as volte rapidam ente se eu a cham ar!

Ela partiu com rapidez, m as Leto podia perceber que Hwi tam bém estava torturada. Não havia engano na profunda tristeza que ela sentia pela hum anidade que Leto havia sacrificado. Ela sabia o que Leto sabia: eles teriam sido am igos, am antes, com panheiros naquele partilhar básico entre os sexos. Seus m estres tinham planej ado para que soubesse.

“Os Ixianos são cruéis!”, pensou ele. “Eles sabiam qual seria a nossa dor.”

Hwi partira estim ulada pelas m em órias do seu tio Malky. Malky era cruel, m as Leto apreciara sua com panhia. Malky possuíra todas aquelas virtudes esforçadas de sua gente e o suficiente de seus vícios para fazê-lo com pletam ente hum ano. Malky tinha adorado a com panhia das Oradoras Peixes de Leto. “Suas huris”, ele as tinha cham ado, e Leto raram ente podia pensar nas Oradoras Peixes, depois disso, sem relem brar o rótulo de Malky.

“Por que penso em Malky agora? Não é só por causa de Hwi. Devo indagar-lhe que incum bência seus m estres lhe atribuíram quando a enviaram para cá.”

Leto hesitou quando estava a ponto de cham á-la de volta.

“Ela m e dirá se eu perguntar.”

Os em baixadores Ixianos sem pre recebiam a incum bência de descobrir por que o Im perador-Deus tolerava Ix. Eles sabiam que não podiam ocultar-se dele. Essa estúpida tentativa de plantar um a colônia além de sua visão! Estariam testando seus lim ites? Os Ixianos suspeitavam de que Leto não necessitava realm ente de suas indústrias.