O Imperador-Deus de Duna

Frank Herbert · Capítulo 15 de 25

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O Imperador-Deus de Duna

Eu sou tanto pai quanto mãe para…

Eu sou tanto pai quanto mãe para o meu povo. Já conheci o êxtase do parto e o êxtase da morte, e conheço todos os padrões que vocês devem aprender. Já não caminhei embriagado através do universo das formas? Sim! Já vi você delineado em luz, e aquele universo que você diz que vê e sente, aquele universo é o meu sonho. Minhas energias se focalizam sobre ele e eu estou em qualquer reino e ao mesmo tempo em todos eles. Assim você nasceu.

— Os diários roubados

 

— Minhas Oradoras Peixes m e disseram que você foi para a Cidadela logo depois de Siay noq — disse Leto.

Olhava acusadoram ente para Idaho, que se encontrava no m esm o lugar ocupado por Hwi apenas um a hora atrás. Um espaço de tem po tão pequeno — e no entanto Leto sentia nele o vazio de séculos.

— Eu precisava de tem po para pensar — disse Idaho. Olhou para o fosso som breado onde estava a carreta de Leto.

— E para falar com Siona?

— Sim . — Idaho ergueu o olhar para o rosto de Leto.

— Mas você procurou por Moneo — disse Leto.

— Será que elas relatam cada m ovim ento que eu faço?

— Não cada m ovim ento.

— Às vezes as pessoas têm necessidade de ficar sozinhas.

— É claro, m as não culpe as Oradoras Peixes por se preocuparem com você.

— Siona diz que vai ser testada!

— Foi por isso que procurou Moneo?

— Que teste é esse?

— Moneo sabe. Presum o que é por isso que você desej ava vê-lo.

— O Senhor não presum e nada! O Senhor sabe.

— Siay noq o deixou perturbado, Duncan. Sinto m uito.

— Tem algum a idéia de com o é ser eu... aqui?

— O fardo do ghola não é fácil — disse Leto. — Algum as vidas são m ais duras que as outras.

— Não preciso dessa filosofia j uvenil!

— De que você precisa, Duncan?

— Preciso saber algum as coisas.

— Tais com o?

— Não entendo nenhum a dessas pessoas que o cercam ! Sem dem onstrar qualquer surpresa, Moneo m e diz que Siona participava de um a rebelião contra o Senhor. A filha dele!

— Em sua j uventude, Moneo tam bém foi um rebelde.

— Percebe o que estou dizendo? E o testou tam bém ?

— Sim .

— Vai m e testar?

— Já o estou testando.

Idaho olhou furioso para ele:

— Eu não com preendo o seu governo, o seu Im pério, coisa algum a. Quanto m ais eu descubro, m ais chego à conclusão de que não sei o que está acontecendo.

— Com o é feliz que tenha descoberto o cam inho da sabedoria — disse Leto.

— O quê? — A ira contida de Idaho elevara sua voz ao tom de um grito de batalha dentro da pequena sala.

Leto sorriu.

— Duncan, j á não lhe contei que, quando você j ulga que conhece algum a coisa, isso constitui um a barreira perfeita contra o aprendizado?

— Então m e diga o que está acontecendo.

— Meu am igo Duncan Idaho está adquirindo um novo hábito. Está aprendendo a olhar sem pre atrás daquilo que ele j ulga que sabe.

— Muito bem , m uito bem . — Idaho assentiu com a cabeça lentam ente. — Então o que havia por trás de m e deixar tom ar parte naquela história de Siay noq?

— Estou unindo as Oradoras Peixes ao Com andante da m inha Guarda.

— E eu tenho que m e esquivar delas! A escolta que m e levou para a Cidadela queria parar para um a orgia. E aquelas que m e trouxeram aqui quando...

— Elas sabem o quanto fico satisfeito vendo filhos do m eu Duncan Idaho.

— Maldito sej a! Eu não sou seu garanhão!

— Não precisa gritar, Duncan.

Idaho respirou fundo várias vezes, depois disse:

— E quando eu lhes digo não elas ficam m agoadas a princípio, e depois m e tratam com o um m aldito — ele sacudiu a cabeça —, um santo ou coisa assim .

— Mas elas não lhe obedecem ?

— Elas não questionam coisa algum a... a m enos que sej a algo contrário às suas ordens. Eu não queria voltar aqui.

— E no entanto elas o trouxeram .

— Sabe m uito bem que elas não o desobedeceriam !

— Estou feliz por ter vindo, Duncan.

— Ah, isso eu posso ver!

— As Oradoras Peixes sabem o quanto você é especial, com o eu m e orgulho de você e o quanto eu lhe devo. Nunca é um a questão de obediência ou desobediência no que concerne a nós dois.

— Então é um a questão de quê?

— Lealdade.

Idaho ficou pensativo.

— Você sentiu o poder de Siay noq? — perguntou Leto.

— Um abracadabra. Um a exibição de m ágica!

— Então por que ficou perturbado?

— Suas Oradoras Peixes não são um exército, são um a força policial.

— Pelo m eu próprio nom e, asseguro-lhe que não é assim . A polícia é inevitavelm ente corrupta.

— O Senhor m e tentou com o poder — acusou Idaho.

— Esse é o teste, Duncan.

— Não confia em m im ?

— Confio em sua lealdade im plícita aos Atreides, sem questionam ento.

— Então que conversa é essa de corrupção e de teste?

— Você foi quem m e acusou de ter um a força policial. A polícia sem pre observa que os crim inosos prosperam . E é preciso ser um policial m uito tolo para deixar de perceber que a posição de autoridade é a m ais próspera que existe entre todos os postos crim inosos disponíveis.

Idaho um edeceu os lábios com a língua e olhou para Leto, obviam ente intrigado.

— Mas o treinam ento m oral do... Quero dizer, a lei... as prisões...

— Qual a vantagem das leis e das prisões quando infringir a lei não constitui pecado?

Idaho inclinou a cabeça levem ente para a direita.

— Está tentando m e dizer que sua m aldita religião é.

— A punição dos pecados pode ser m uito extravagante.

Idaho apontou por sobre o om bro para o m undo além da porta.

— Toda esta conversa a respeito de penas de m orte... aquele açoite e...

— Tento passar sem prisões e sem leis, sem pre que possível.

— Mas tem que ter algum tipo de prisão!

— Tenho? As prisões são necessárias apenas para fornecer a ilusão de que a polícia e as cortes são eficientes. Elas são um a espécie de seguro do trabalho.

Idaho virou-se ligeiram ente e apontou o dedo em direção à porta pela qual entrara na pequena sala.

— O Senhor possui planetas inteiros que não são outra coisa senão prisões!

— Creio que você pode pensar em qualquer lugar com o um a prisão, se é isso que suas ilusões desej am .

— Ilusões! — Idaho deixou cair os braços ao lado do corpo e ficou atônito.

— Sim . Você fala em prisões, polícia e leis, as ilusões perfeitas sobre as quais um a próspera estrutura de poder pode assentar-se enquanto sabe, com m uita precisão, estar acim a de suas próprias leis.

— E o Senhor acha que os crim es podem ser enfrentados com ...

— Não são crim es Duncan, m as pecados.

— Então acha que sua religião pode...

— Já reparou nos pecados capitais?

— Quais?

— Tentar corrom per um m em bro do m eu governo ou ser corrom pido por um m em bro de m eu governo.

— E que corrupção é essa?

— Essencialm ente, é a falha em observar e adorar a santidade do Deus Leto.

— O Senhor?

— Eu.

— Mas logo no início m e disse que...

— Acha que não acredito na m inha própria divindade? Tenha cuidado, Duncan.

A voz de Idaho saiu com um a raiva controlada.

— Disse-m e que um de m eus trabalhos seria aj udá-lo a m anter seu segredo, que.

— Você não conhece m eu segredo.

— Que é um tirano? Isso não e...

— Os deuses são m ais poderosos que os tiranos, Duncan.

— Não gosto do que estou ouvindo.

— Quando foi que um Atreides j á lhe pediu para gostar do seu trabalho?

— Está m e pedindo para com andar suas Oradoras Peixes que são j uiz, j úri e carrasco... — Idaho interrom peu-se no m eio da frase.

— E daí?

Idaho ficou em silêncio.

Leto olhou através da fria distância entre eles, um espaço tão curto e no entanto tão grande.

“É com o cansar um peixe na extrem idade de um a linha de pesca”, pensou Leto. “Você tem que calcular o ponto de ruptura de cada elem ento na disputa.”

O problem a com Idaho era que trazê-lo para a rede sem pre lhe apressava o fim . E isso estava acontecendo m uito rapidam ente dessa vez. Leto sentiu tristeza.

— Não vou adorá-lo — disse Idaho.

— As Oradoras Peixes reconhecem que você possui um a dispensa especial — disse Leto.

— Com o Moneo e Siona?

— Muito diferente.

— Assim , os rebeldes constituem um caso especial.

Leto sorriu.

— Todos os adm inistradores em que eu m ais confio um dia j á foram rebeldes.

— Eu não era um ...

— Você foi um rebelde brilhante! Você aj udou os Atreides a tom arem um Im pério das m ãos de um m onarca reinante.

Os olhos de Idaho ficaram fora de foco com a introspecção.

— Assim o fiz. — Ele sacudiu a cabeça de m odo violento, com o se quisesse tirar algum a coisa do cabelo. — E olhe no que o Senhor transform ou esse Im pério!

— Estabeleci um padrão para ele, um padrão entre todos os padrões.

— É o que diz.

— A inform ação está congelada em padrões, Duncan. E nós podem os utilizar um padrão para decifrar outros. Os padrões de fluxo são os m ais difíceis de se reconhecer e com preender.

— Mais abracadabra.

— Já com eteu esse engano antes.

— Por que deixa que os Tleilaxu fiquem m e trazendo de volta à vida, um ghola atrás do outro? Onde está o padrão nisso?

— É por causa das qualidades que você possui em abundância. Deixarei que m eu pai explique.

A boca de Idaho com prim iu-se num a linha de consternação.

Leto falou com a voz do Muad’Dib, e até m esm o seu rosto assum iu a sem elhança das feições paternas.

— Você foi m eu am igo m ais verdadeiro, Duncan, m elhor m esm o do que Gurney Halleck. Mas eu sou o passado.

Idaho engoliu em seco.

— As coisas que anda fazendo!

— São contra a natureza dos Atreides?

— Isso m esm o.

Leto retornou à sua voz norm al.

— E no entanto ainda sou um Atreides.

— Será realm ente?

— Que m ais eu poderia ser?

— Eu desej aria saber!

— Pensa que eu faço m ágicas com vozes e palavras?

— O que, por todos os sete infernos, está realm ente fazendo?

— Preservando a vida enquanto preparo o palco para o próxim o ciclo.

— E a preserva destruindo-a?

— A m orte m uitas vezes é útil à vida.

— Isso não é algo que um Atreides diga.

— Mas é. Freqüentem ente percebem os o valor da m orte. Os Ixianos, contudo, nunca perceberam esse valor.

— O que têm os Ixianos a ver com ...

— Tudo. Eles pretendem fazer um a m áquina para ocultar suas outras m aquinações.

Idaho falou em tom m editativo:

— É por isso que a Em baixadora Ixiana estava aqui?

— Você j á viu Hwi Noree — com entou Leto.

Idaho apontou para cim a.

— Ela estava saindo quando eu cheguei.

— Você falou com ela?

— Eu lhe perguntei o que estava fazendo aqui. Ela disse que está escolhendo o seu lado.

Um a gargalhada escapou de Leto.

— Oh, sim . Ela é ótim a. E revelou qual seria a sua escolha?

— Ela disse que agora serve ao Im perador-Deus. Não acreditei nela, é claro.

— Mas devia acreditar.

— Por quê?

— Ah, sim , esqueci. Um a vez você duvidou até m esm o de m inha avó, Lady Jessica.

— Eu tinha boas razões.

— Tam bém duvida de Siona?

— Estou com eçando a duvidar de todos!

— E diz que não sabe qual é o seu valor para m im — acusou Leto.

— Que há com Siona? — quis saber Idaho. — Ela diz que você quer que nós... quero dizer, m aldição...

— Aquilo em que você deve confiar sem pre com relação a Siona é a criatividade dela. Ela pode criar o novo e o belo. E devem os confiar sem pre nos verdadeiram ente criativos.

— Até m esm o nas m aquinações dos Ixianos?

— Isso não é criativo. Sem pre se reconhece a criatividade porque ela se revela abertam ente O segredo e a dissim ulação traem a existência de um a outra força inteiram ente diferente.

— Então não confia nessa Hwi Noree, m as...

— Confio nela, e precisam ente pelas razões que acabei de lhe dar.

Idaho ficou carrancudo, depois relaxou, suspirando.

— É m elhor eu cultivar a am izade dela. Se é alguém que..

— Não! Você vai ficar longe de Hwi Noree. Tenho em m ente algo especial para ela.

Eu isolei a experiência urbana dentro de mim e a examinei minuciosamente. A idéia da cidade me fascina. A formação de uma comunidade biológica sem o suporte de uma comunidade social operante sempre leva ao caos. Mundos inteiros têm sido transformados em comunidades biológicas únicas sem uma estrutura social interrelacionada, e isso sempre levou à ruína, tornando-se dramaticamente instrutivo em condições de superpopulação. O gueto é letal. As tensões psicológicas da superpopulação criam pressões explosivas. E a cidade constitui uma tentativa de controlar essas forças. As formas sociais pelas quais a cidade faz essa tentativa são valiosas para um estudo. Lembrem-se de que existe certa malignidade na formação de qualquer ordem social. É a luta pela existência da parte de uma entidade artificial. O despotismo e a escravidão pairam em suas fronteiras. Muitas agressões ocorrem, dai a necessidade de leis. E a lei desenvolve sua própria estrutura de poder, criando mais chagas e novas injustiças. Tal trauma pode ser curado pela cooperação, nunca pelo confronto. E o apelo à cooperação identifica o curandeiro.

— Os diários roubados

Moneo entrou na pequena câm ara de Leto com evidente agitação. Realm ente preferia esse lugar de encontro porque a carreta do Im perador-Deus ficava num a depressão de onde um ataque m ortífero da parte do Verm e seria m ais difícil. Havia tam bém o fato inegável de que Leto perm itia que seu m aj ordom o descesse até ali através de um tubo-elevador Ixiano, em vez de usar aquela ram pa interm inável. Mas Moneo sentia que as notícias que trazia essa m anhã certam ente iriam despertar o Verm e que é Deus.

“Com o apresentá-las?”

A aurora ocorrera apenas um a hora atrás; estavam no quarto dia do Festival, fato que Moneo podia saudar com serenidade som ente porque o colocava m ais perto do final dessas atribulações.

Leto m exeu-se quando Moneo penetrou na pequena câm ara. A ilum inação ativou-se ao seu sinal, focalizada som ente em seu rosto.

— Bom dia, Moneo — ele disse. — Minha guarda m e diz que você insistiu em entrar im ediatam ente. Por quê?

O perigo, Moneo conhecia por sua experiência, encontrava-se na tentação de revelar m uita coisa em pouco tem po.

— Passei algum tem po com a Reverenda Madre Anteac — disse ele. — Em bora ela m antenha isso bem escondido, tenho certeza de que é um a Mentat.

— Sim , era inevitável que a Bene Gesserit m e desobedecesse às vezes. E essa form a de desobediência m e diverte.

— Então não vai puni-las?

— Moneo, em últim a instância eu sou o único pai que m eu povo possui. E um pai deve ser generoso, assim com o severo.

“Ele está de bom hum or”, pensou Moneo. Um pequeno suspiro de alívio lhe escapou, ante o qual Leto sorriu.

— Anteac fez obj eção quando lhe disse que o Senhor concedera anistia a alguns Dançarm os Faciais selecionados entre os cativos.

— Tenho um uso festivo para eles.

— Senhor?

— Eu lhe direi depois. Vam os às notícias que o fazem entrar aqui às pressas a esta hora da m anhã.

— Eu... ah... — Moneo m ordeu o lábio superior. — Os Tleilaxu têm sido m uito eloqüentes na sua tentativa de m e agradar.

— É claro. E que foi que revelaram ?

— Eles... ah, forneceram aos Ixianos equipam ento e assessoria suficientes para a criação de um ... bem , não exatam ente um ghola, nem m esm o um clone. Talvez devêssem os usar o term o Tleilaxu: um a reestruturação celular. O... ah, experim ento foi realizado com a proteção de algum tipo de escudo que, pelo que os hom ens da Corporação lhes asseguraram , seus poderes não poderiam penetrar.

— E o resultado? — Leto sentiu estar fazendo a pergunta num frio vácuo.

— Eles não estão certos. Os Tleilaxu não tiveram perm issão de testem unhar. Mas eles observaram que Malky entrou nessa... ah, câm ara, e que depois saiu com um a criança.

— Sim ! Eu sei!

— Sabe? — Moneo estava intrigado.

— Por inferência. E tudo isso aconteceu há uns 26 anos?

— Isso é correto, Senhor.

— E eles identificam essa criança com o sendo Hwi Noree?

— Eles não estão certos, Senhor, m as... — Moneo encolheu os om bros.

— É claro. E que deduz de tudo isso, Moneo?

— Existe um propósito profundo nessa nova Em baixadora Ixiana.

— Certam ente que há, Moneo. Não lhe ocorreu com o é estranha a m aneira com o Hwi, a gentil Hwi, representa um espelho do form idável Malky ? Seu oposto em tudo, inclusive o sexo.

— Não tinha pensado nisso, Senhor.

— Pois eu pensei.

— Farei com que ela sej a m andada de volta para Ix im ediatam ente — disse Moneo.

— Você não vai fazer nada disso!

— Mas Senhor, se eles.

— Moneo, j á observei que você raram ente vira as costas diante do perigo. Outros freqüentem ente o fazem , m as em você isso é raro. Por que espera que eu com eta um a estupidez tão óbvia? Moneo engoliu em seco.

— Bom , eu gosto quando você reconhece um erro em seu com portam ento.

— Obrigado, Senhor.

— Tam bém gosto quando você expressa a sua gratidão de um m odo sincero, com o acabou de fazer. Agora, Anteac estava com você quando ouviu essas revelações?

— Com o ordenou, Senhor.

— Excelente. Isso vai m exer um pouco com as coisas. Você sairá agora e irá ao encontro de Lady Hwi. Vai dizer-lhe que desej o vê-la im ediatam ente. Isso irá deixá-la perturbada. Ela está pensando que não vam os nos encontrar até que eu a cham e para a Cidadela. Quero que você lhe acalm e os tem ores.

— De que m aneira, Senhor?

Leto falou com tristeza:

— Moneo, por que m e pede conselho a respeito de um assunto no qual é especialista? Acalm e-a e a traga aqui tranqüilizada quanto às m inhas boas intenções com relação a ela.

— Sim , Senhor. — Moneo curvou-se e recuou um passo.

— Um m om ento, Moneo!

O m aj ordom o enrij eceu o corpo, o olhar fixo no rosto de Leto.

— Você está intrigado, Moneo — com entou Leto. — Às vezes você não sabe o que pensar de m im . Serei onisciente e todo-poderoso? Você m e traz esses pequenos indícios e se pergunta:

“Será que ele j á sabe disso? E se ele sabe, por que m e im porto?” Mas eu lhe ordenei que relatasse tais coisas, Moneo. Será que a sua obediência lhe ensinou algum a coisa?

Moneo com eçou a encolher os om bros e então pensou m elhor. Seus lábios trem eram .

— O tem po tam bém pode ser um lugar, Moneo — disse Leto.

— E tudo depende de onde você se coloca, para onde olha e o que ouve. A m edida de tudo isso está na própria consciência.

Depois de um longo silêncio, Moneo arriscou:

— Isso é tudo, Senhor?

— Não, não é tudo. Siona receberá hoj e um em brulho que lhe será entregue por um correio da Corporação. Nada deve interferir na entrega dessa encom enda. Está entendendo?

— Que há... nesse em brulho, Senhor?

— Algum as traduções. Matéria im pressa que eu desej o que ela leia. Não farei nada para interferir. Não há m elange no em brulho.

— Com o... com o sabe que eu tem ia que...

— Porque você tem e a especiaria. Ela pode prolongar sua vida, m as você a evita.

— Tem o seus efeitos colaterais, Senhor.

— Um a natureza dadivosa perm itiu que a m elange descobrisse para alguns de nós as profundezas inesperadas da psique, e no entanto você tem e isso?

— Eu sou um Atreides, Senhor!

— Ah, sim , e para um Atreides a m elange pode envolver o m istério do Tem po num processo peculiar de auto-revelação.

— Só preciso m e lem brar do m odo com o m e testou, Senhor.

— Não percebe a necessidade de sentir o Cam inho Dourado?

— Não é isso o que eu tem o, Senhor.

— Você tem e aquela outra surpresa, a coisa que m e levou a fazer m inha escolha.

— Só tenho que olhar para o Senhor e conhecer esse m edo. Nós Atreides..

Não conseguiu term inar, a boca seca.

— Você não desej a todas as m em órias de seus ancestrais e as outras que se acum ulam dentro de m im !

— Algum as vezes... algum as vezes, Senhor, penso que a especiaria foi a m aldição dos Atreides!

— Desej aria que eu nunca tivesse existido?

Moneo ficou em silêncio.

— Mas a m elange possui seus valores, Moneo. Os Navegadores da Corporação necessitam dela. E sem ela a Bene Gesserit degeneraria num bando desam parado de m ulheres lam urientas!

— Nós devem os viver, com ela ou sem ela, Senhor. Sei disso.

— Muito perceptivo, Moneo. Mas escolheu viver sem ela.

— Será que não tenho essa escolha, Senhor?

— Por enquanto.

— Senhor, o que...

— Existem 28 palavras diferentes para designar a m elange no Galach com um . Elas a descrevem por seu uso, sua diluição, sua idade, se foi obtida através de um a com pra honesta ou por roubo ou conquista, se foi um presente para um hom em ou um a m ulher, além de m uitos outros m odos pelos quais é cham ada. Que acha disso, Moneo?

— A nós são oferecidas m uitas escolhas, Senhor.

— Som ente no que concerne à especiaria?

A testa de Moneo se enrugou, pensativa, e então ele disse:

— Não.

— Você diz não tão raram ente na m inha presença. Adoro ver seus lábios form arem essa palavra.

A boca de Moneo contorceu-se num a tentativa de sorriso.

Leto falou severam ente:

— Bem ! Agora você deve ir ao encontro de Lady Hwi. E com o despedida eu lhe darei um pequeno aviso que poderá aj udá-lo.

Moneo observou atentam ente o rosto de Leto.

— O conhecim ento das drogas teve origem principalm ente com os hom ens porque eles tendem a ser m ais aventureiros — um a extensão da agressividade m asculina. Você leu a sua Bíblia Universal Laranj a, e assim conhece a história de Eva e da m açã. Há um fato interessante a respeito dessa história: Eva não foi a prim eira a colher e provar da m açã. Adão foi o prim eiro e, ao fazer isso, aprendeu a colocar a culpa em Eva. Minha história lhe revela algo a respeito de com o as sociedades encontram a necessidade estrutural para os subgrupos.

Moneo inclinou a cabeça levem ente para a esquerda.

— Senhor, com o isso m e aj uda?

— Vai aj udá-lo com Lady Hwi!

A singular multiplicidade deste universo atrai a minha mais profunda atenção. Trata-se de uma coisa de fundamental beleza.

— Os diários roubados

 

Leto ouviu Moneo na antecâm ara bem antes que Hwi entrasse na pequena sala de audiências. Ela usava largas pantalonas verde-pálidas, aj ustadas nos calcanhares com fitas verde-escuras para com binarem com as sandálias. Um a blusa folgada do m esm o verde-escuro podia ser vista sob o m anto negro.

Parecia calm a ao se aproxim ar de Leto e se sentou sem esperar pelo convite, escolhendo um a alm ofada dourada, em vez da verm elha que tinha ocupado antes. Levara m enos de um a hora para Moneo trazê-la e a aguda audição de Leto captou o ruído de Moneo inquieto na ante-sala, fazendo com que em itisse um sinal para fechar o portal em arco que dava para lá.

— Algum a coisa perturbou Moneo — disse Hwi. — Ele se esforçou m uito para não m e revelar isso, m as, quanto m ais ele tentava m e acalm ar, m ais despertava a m inha curiosidade.

— Ele não a deixou assustada?

— Oh, não. Entretanto m e disse algo m uito interessante. Disse que devo m e lem brar sem pre de que o Im perador-Deus é um a pessoa diferente de todos nos.

E por que isso é interessante?

— O interessante foi aquilo para o qual isso era apenas um prefácio. Ele disse que freqüentem ente se adm ira do papel que desem penham os em criar essa diferença no senhor.

— Isso é interessante.

— Creio que é um a verdadeira descoberta. Por que m e cham ou?

— Certa ocasião, seus senhores em Ix...

— Não são m ais m eus senhores, Senhor.

— Perdoe-m e. Vou m e referir a eles daqui em diante com o os Ixianos.

Ela assentiu gravem ente, e então pediu que ele continuasse, repetindo:

— Certa ocasião..

— Os Ixianos pensaram em criar um a arm a... um tipo de caçador-rastreador, um a coisa m ortífera auto-im pulsionada com m ente m ecânica. Seria proj etada com a capacidade de auto-aperfeiçoar-se e buscaria a vida para reduzi-la a seus com ponentes inorgânicos.

— Nunca ouvi falar nessa coisa, Senhor.

— Sei disso. Os Ixianos não reconhecem que os construtores de m áquinas sem pre correm o risco de se tornarem inteiram ente m ecânicos. E essa é a derradeira esterilidade. Máquinas sem pre falham ... com o tem po. E quando essas m áquinas enguiçassem não restaria nada, nenhum ser vivo.

— Às vezes acho que eles são loucos.

— Essa é a opinião de Anteac. Esse é o problem a m ais im ediato. Os Ixianos encontram -se agora engaj ados num em preendim ento que estão m antendo oculto.

— Até m esm o do Senhor?

— Até m esm o de m im . Estou enviando a Reverenda Madre Anteac para que investigue isso para m im . Para aj udá-la, quero que você lhe revele tudo o que puder a respeito do lugar onde passou a infância. Não om ita qualquer detalhe, não im porta quão insignificante. Anteac vai aj udá-la a se lem brar. Querem os cada som , cada perfum e, as form as e os nom es dos visitantes, as cores, até m esm o as com ichões na sua pele. A m enor coisa pode ser vital.

— Acha que esse é o lugar que estão ocultando?

— Sei que é.

— E acha que estão fazendo essa arm a nesse.

— Não, m as essa será a desculpa que usarem os para investigar o lugar onde você nasceu.

Ela abriu a boca e aos poucos perm itiu que um sorriso se form asse. Então disse:

— Meu Senhor é engenhoso. Falarei com a Reverenda Madre im ediatam ente.

Hwi com eçou a se levantar, m as ele a deteve com um gesto.

— Não devem os dar a im pressão de estarm os com pressa.

Ela sentou-se outra vez na alm ofada.

— Cada um de nós é diferente, com o observa Moneo — disse ele. — A gênese nunca pára. Seu deus continua a criá-la.

— Que Anteac vai descobrir? Já sabe, não sabe?

— Digam os que eu tenha um a forte convicção. Agora, você nunca m encionou o assunto que abordei antes. Não tem perguntas?

— Vai m e fornecer as respostas na m edida em que eu precisar delas.

Era um a declaração carregada, dotada de tam anha sinceridade e confiança que deteve a voz de Leto. Ele só podia olhar para ela notando com o era extraordinária essa realização dos Ixianos — essa hum ana. Hwi perm anecia extrem am ente sincera aos preceitos de um a m oral pessoalm ente escolhida. Era graciosa, honesta, calorosa e possuidora de um senso de em patia que a forçava a com partilhar cada angústia daqueles com quem se identificava. Ele podia im aginar a consternação de suas professoras Bene Gesserit quando confrontadas com esse núcleo irredutível de sinceridade. As professoras obviam ente tinham ficado reduzidas à capacidade de adicionar um pequeno toque aqui, um a habilidade ali, tudo reforçando aquela força que a im pedia de se tornar um a Bene Gesserit. E com o isso devia tê-las exasperado.

— Senhor — disse ela —, vou conhecer os m otivos que o forçaram a escolher essa vida.

— Prim eiro deve com preender com o é poder ver nosso futuro.

— Com sua aj uda, tentarei.

— Nada pode ser separado de sua fonte — ele disse. — A visão de futuro é a visão de um continuum no qual todas as coisas se m oldam com o bolhas form ando-se em baixo de um a cachoeira. Você as vê e então elas desaparecem na correnteza. Se a correnteza term ina, é com o se as bolhas nunca tivessem existido. A correnteza é o m eu Cam inho Dourado, e eu vi o seu fim .

— Sua escolha — ela apontou para o corpo dele — m udou esse fim ?

— Está m udando. E a m udança não vem apenas da m aneira com o a m inha vida é construída, m as tam bém da m aneira com o vou m orrer.

— Sabe com o vai m orrer?

— Não com o. Conheço apenas o Cam inho Dourado na qual ela irá ocorrer.

— Senhor, eu não...

— E difícil de entender, eu sei. Morrerei quatro m ortes — a m orte da carne, a m orte da alm a, a m orte do m ito e a m orte da razão. E todas essas m ortes contêm a sem ente da ressurreição.

— Vai retornar dos.

— As sem entes retornarão.

— E, quando tiver partido, que será da sua religião?

— Todas as religiões são apenas um a única com unhão. O espectro perm anece contínuo dentro do Cam inho Dourado. Apenas acontece que os seres hum anos vêem prim eiro um a parte e depois outra. As ilusões podem ser cham adas de acidentes dos sentidos.

— As pessoas ainda o adorarão — disse ela.

— Sim .

— Mas quando o sem pre term inar restará apenas a cólera — ela disse. — Haverá apenas a negação. E alguns dirão que o Senhor foi apenas um tirano com um .

— Um a fraude — concordou ele.

Um aperto na garganta im pediu-a de falar naquele m om ento. Depois ela disse:

— Com o é que sua vida e sua m orte m udam o... — Ela sacudiu a cabeça.

— A vida vai continuar.

— Acredito nisso, Senhor, m as com o?

— Cada ciclo é um a reação ao ciclo precedente. Se pensar na form a do m eu Im pério, então conhecerá a form a do próxim o ciclo.

Ela virou o rosto a fim de não olhar para ele.

— Tudo que eu aprendi a respeito de sua Fam ília m e disse que só faria isso — ela gesticulou na direção dele sem olhar

se tivesse um m otivo altruístico. Mas não creio que eu conheça verdadeiram ente a form a do seu Im pério.

— A Paz Dourada de Leto?

— Existe m enos paz do que alguns gostariam de nos fazer acreditar — ela disse, olhando de volta para ele.

“A honestidade dela!”, ele pensou. “Nada a deteria.”

— Esta é a hora do estôm ago — disse ele. — E a hora em que nos expandim os tal com o um a única célula se expande.

— Mas algum a coisa está ausente — disse ela.

“Ela é com o os Duncans”, ele pensou. “Falta algum a coisa e ela sente im ediatam ente.”

— A carne cresce, m as a psique não cresce — ele disse.

— A psique?

— Aquela consciência reflexiva que lhe diz quão viva você pode se tornar. Você conhece bem isso, Hwi. E o sentido que lhe revela com o ser sincera consigo m esm a.

— Sua religião não é suficiente — ela disse.

— Nenhum a religião pode ser o suficiente. E um a questão de escolha — de um a única e solitária escolha. Entende agora por que sua am izade e sua com panhia significam tanto para m im ?

Ela piscou os olhos cheios de lágrim as, assentindo com a cabeça.

— Por que as pessoas não sabem disso?

— Porque as condições não perm item .

— As condições que o Senhor dita?

— Precisam ente. Exam ine todo o m eu Im pério. Está vendo a form a?

Ela fechou os olhos, pensativa.

— Alguém desej a sentar-se à beira do rio e pescar o dia todo? — perguntou ele. — Excelente. Esta é sua vida. Você desej a velej ar num pequeno bote através de um m ar interior e visitar estranhos? Soberbo! Que m ais há para se fazer?

— Viaj ar pelo espaço? — perguntou ela, e havia um tom de desafio em sua voz. Hwi abriu os olhos.

— Você j á deve ter percebido que a Corporação e eu não o perm itim os.

— O Senhor não o perm ite.

— Certo. Se a Corporação m e desobedece, não recebe especiaria.

— E m anter as pessoas presas nos planetas afasta-as de confusões.

— Algo m ais im portante que isso. Deixa-as com desej o de viaj ar. Isso cria um a necessidade de realizar viagens longas e ver coisas estranhas. No final, a viagem passará a ser um sinônim o de liberdade.

— Mas a especiaria se esgota.

— E a liberdade se torna m ais preciosa a cada dia que passa.

— Isso só pode levar ao desespero e à violência — disse Hwi.

— Um hom em sábio entre m eus antepassados. .. na verdade eu fui essa pessoa, sabia? Com preende que não há estranhos no m eu passado?

Ela assentiu com a cabeça, adm irada.

— Esse hom em sábio observou que a riqueza é um instrum ento de liberdade. Mas a busca da riqueza é o cam inho para a escravidão.

— A Corporação e a Irm andade escravizam a si próprias!

— E os Ixianos e os Tleilaxu e todos os outros. Oh, eles conseguem um punhado de m elange escondida, de tem pos em tem pos, e m antêm a atenção fixa. Um j ogo m uito interessante, não acha?

— Mas quando a violência com eçar..

— Haverá fom e e desespero.

— Aqui em Arrakis tam bém ?

— Aqui, ali, por toda a parte. As pessoas olharão para os dias da m inha tirania com o “os bons tem pos”. Serei o espelho do futuro deles.

— Mas isso será terrível! — retrucou ela.

“Ela não podia ter outra reação”, ele pensou.

E continuou:

— Quando a terra se recusar a sustentar as pessoas, os sobreviventes se aglom erarão em refúgios cada vez m enores. Um terrível processo de seleção se repetirá em m uitos m undos com ida decrescendo e taxas de natalidade explodindo.

— Mas a Corporação não poderia.

— A Corporação estará m uito desam parada, sem m elange suficiente para operar os transportes disponíveis.

— Mas os ricos não vão escapar?

— Alguns.

— Então o Senhor realm ente não terá m udado coisa algum a. Só continuarem os lutando e m orrendo.

— Até que o verm e da areia reine um a vez m ais em Arrakis. Então nos terem os testado, com um a profunda experiência com partilhada por todos. Terem os aprendido que algo que pode acontecer em um planeta pode acontecer em qualquer planeta.

— Tanta dor e tanta m orte — ela sussurrou.

— Você não entende a m orte? — perguntou ele. — Precisa entender. A espécie precisa entender. Toda a vida deve entender.

— Aj ude-m e, Senhor — disse ela baixinho.

— a experiência m ais profunda para qualquer criatura — ele disse. — Perto da m orte vêm as experiências que a espelham ou trazem seu risco: doenças graves, acidentes e ferim entos. o parto para um a m ulher... com o foi um dia o com bate para os hom ens.

— Mas suas Oradoras Peixes são.

— Elas ensinam sobrevivência — ele disse.

Os olhos dela arregalaram -se com o entendim ento.

— Os sobreviventes. E claro!

— Com o você é preciosa. Com o é rara e preciosa. Abençoados Ixianos!

— E m alditos tam bém ?

— Tam bém .

— Não pensei que pudesse entender suas Oradoras Peixes — disse ela.

— Nem m esm o Moneo percebe — ele disse. — E eu m e desespero quanto aos Duncans.

— E preciso apreciar a vida para desej ar preservá-la — disse ela.

— E são os sobreviventes que m antêm o contato m ais alegre e pungente com as belezas da vida. E m ais com um as m ulheres saberem disso do que os hom ens, j á que o parto perm ite um a reflexão a respeito da m orte.

— Meu tio Malky sem pre disse que o Senhor tinha boas razões para im pedir as lutas e a violência fortuita entre os hom ens. Que am arga lição!

— Sem algum tipo de violência prontam ente disponível, os hom ens têm poucos m odos de se testarem quanto às form as de enfrentar essa experiência fundam ental — explicou ele. — Algum a coisa está faltando. A psique não se desenvolve. Que é que as pessoas dizem a respeito da paz de Leto?

— Que o Senhor nos faz chafurdar num a inútil decadência, com o porcos em sua própria suj eira.

— Sem pre reconheça a precisão da sabedoria popular. Decadência.

— A m aioria dos hom ens não tem princípios — disse ela.

— As m ulheres de Ix queixam -se disso constantem ente.

— Quando preciso identificar os rebeldes, olho para os hom ens com princípios — ele disse.

Ela olhou para ele em silêncio, im aginando com o essa sim ples reação revelava tão profundam ente a sua inteligência.

— Onde acha que encontro m eus m elhores adm inistradores?

Um a pequena exclam ação de espanto escapou dos lábios de Hwi.

— E por princípios que você luta — continuou ele. — A m aioria dos hom ens passa a vida inteira sem ser testada, exceto no m om ento final. Eles dispõem de m uito poucas arenas inam istosas para testarem a si m esm os.

— Eles têm o Senhor — disse ela.

— Mas eu sou m uito poderoso. Sou equivalente ao suicídio. Quem buscaria a m orte certa?

— Loucos... ou então os desesperados. Rebeldes?

— Sou equivalente à guerra. O últim o predador. Sou a força coesiva que os despedaça.

— Nunca pensei em m im m esm a com o um a rebelde — disse ela.

— Você é coisa m uito m elhor.

— E vai m e usar de algum m odo?

— Vou.

— Não com o adm inistradora.

— Já tenho bons adm inistradores — incorruptíveis, sagazes, filosóficos e prontos a adm itir seus erros, rápidos em perceber as decisões.

— E eles foram rebeldes?

— A m aioria foi.

— Com o são escolhidos?

— Eu diria que a m aioria deles escolhe a si própria.

— Ao sobreviverem ?

— Isso tam bém . Mas há m ais. A diferença entre um bom e um m au adm inistrador conta-se em cinco batidas do coração. Os bons adm inistradores fazem opções im ediatas.

— Opções aceitáveis?

— Geralm ente funcionam . Um m au adm inistrador, por outro lado, hesita, vacila, pede com issões, pesquisas e relatórios. Acaba agindo de um m odo que cria sérios problem as.

— Mas às vezes eles não precisam de m ais inform ações para...

— Um m au adm inistrador está m ais preocupado com relatórios que com decisões. Ele quer um registro que possa exibir com o desculpa para os seus erros.

— E os bons adm inistradores?

· Ah, eles confiam em ordens verbais. E nunca m entem a respeito do que fizeram quando suas ordens verbais causam problem as. Além disso, cercam -se de pessoas capazes de agir sabiam ente com base em ordens verbais. Freqüentem ente a inform ação m ais im portante é aquela que revela que algum a coisa está indo m al. Os m aus adm inistradores escondem seus erros até que sej a m uito tarde para fazer correções.

Leto a observava enquanto pensava nas pessoas que o serviam — principalm ente Moneo.

— Hom ens de decisão — ela disse.

— Um a das coisas m ais difíceis para um tirano encontrar — disse ele —, são pessoas que realm ente tom em decisões.

— E seu conhecim ento íntim o do passado não lhe proporciona...

— Proporciona algum divertim ento. A m aioria das burocracias antes da m inha buscou e prom oveu pessoas que evitavam as decisões.

— Percebo. Com o é que vai m e usar, Senhor?

Casar-se-ia com igo?

Um fraco sorriso tocou-lhe os lábios:

— As m ulheres tam bém podem tom ar decisões. Eu m e casarei com o Senhor.

— Então vá e instrua a Reverenda Madre. Tenha certeza de que ela saiba o que está procurando.

— Minha gênese. O Senhor e eu j á conhecem os m eu propósito.

— Que não é isolado de sua fonte — disse ele.

Então ela se levantou:

— Senhor, poderia estar errado quanto ao seu Cam inho Dourado? Será que a possibilidade de fracasso...

— Qualquer coisa e qualquer um podem falhar. Mas os am igos bons e coraj osos sem pre aj udam .

 

Os grupos tendem a condicionar seu ambiente para a sobrevivência do todo. E, quando se desviam desse comportamento, isso pode ser tomado como sinal de doença grupal. Existem muitos sintomas indicativos. Eu, por exemplo, observo o ato de se compartilhar a comida. Essa é uma forma de comunicação, um sinal inescapável de aluda mútua, que também carrega em si um indicio mortífero de dependência. É interessante que hoje sejam os homens aqueles que usualmente cuidam da terra. São homens-maridos. Um dia essa foi uma atividade exclusiva das mulheres.

— Os diários roubados

“Deve perdoar-m e a insuficiência deste relatório — escreveu a Reverenda Madre Anteac. — Responsabilize por isso a necessidade de pressa. Parto am anhã para Ix, m eu propósito sendo o m esm o que relatei em m aiores detalhes anteriorm ente. O profundo e sincero interesse do Im perador-Deus por Ix não pode ser negado, m as o que devo narrar aqui é a estranha visita que acabo de receber da Em baixadora Ixiana, Hwi Noree.”

Anteac estava sentada num banquinho inadequado, o m elhor que conseguira obter naqueles aloj am entos espartanos. Estava sozinha em seu m inúsculo quarto, o espaço-dentro-de-um -espaço que Lorde Leto se recusara a m udar m esm o depois do aviso da Bene Gesserit quanto à traição dos Tleilaxu.

Sobre o colo de Anteac se encontrava um pequeno quadrado preto tinto, com 10 m ilím etros de lado e não m ais que três m ilím etros de espessura. Ela escrevia sobre esse quadrado com um a agulha brilhante — um a palavra sobre a outra, todas absorvidas pelo quadrado. A m ensagem com pleta seria im pressa sobre os receptores nervosos dos olhos de um a acólita-m ensageira, onde ficaria latente até que pudesse ser lida na sede da Irm andade.

Hwi Noree apresentava tam anho dilem a!

Anteac conhecia os relatórios das professoras Bene Gesserit enviadas para instruir Hwi em Ix. Mas tais relatos continham dem asiadas lacunas. Eles levantavam grandes questões.

“Por que aventuras passou, criança?”

“Quais foram as coisas m ais difíceis da sua infância?”

Anteac fungou e olhou para o quadrado-negro que aguardava novas palavras. Tais pensam entos a faziam lem brar-se de um a crença Frem en no sentido de que a terra onde você nasce faz de você o que você é.

— Existem anim ais estranhos no seu planeta? — os Frem en perguntavam .

Hwi chegara com um a im pressionante escolta de Oradoras Peixes, m ais de 100 m ulheres m usculosas, todas fortem ente arm adas. Anteac raram ente presenciara sem elhante exibição de arm am ento: pistolas laser, facas longas, lâm inas de prata, granadas atordoantes.

Acontecera no m eio da m anhã. Hwi entrara deixando as Oradoras Peixes a cercarem os aloj am entos da Bene Gesserit, tudo exceto essa espartana sala interior.

Anteac percorreu o aloj am ento com o seu olhar. Lorde Leto estava dizendo-lhe algum a coisa ao m antê-la aqui.

— É assim que você m ede o seu valor para o Im perador-Deus!

Exceto... que agora ele enviava um a Reverenda Madre para Ix, e o declarado propósito dessa j ornada sugeria m uitas coisas a respeito de Lorde Leto. Talvez os tem pos estivessem a ponto de m udar, com novas honras e m ais m elange para a Irm andade.

“Tudo depende de o quanto eu m e sair bem .”

Hwi entrara nesse quarto sozinha e se sentara recatadam ente sobre o catre de Anteac, sua cabeça m ais baixa que a da Reverenda Madre. Um detalhe interessante que não devia ter acontecido por acidente. As Oradoras Peixes obviam ente podiam ter colocado as duas em qualquer outro lugar, em qualquer relacionam ento que Hwi ordenasse. E as prim eiras palavras e chocantes de Hwi deixaram pouca dúvida quanto a isso:

— Você deve saber desde o com eço que eu vou m e casar com Lorde Leto.

Fora necessário um profundo controle para evitar que ela abrisse a boca de espanto. O senso de verdade em Anteac confirm ava a sinceridade das palavras de Hwi, m as o significado com pleto disso ainda não podia ser avaliado.

— Lorde Leto ordena que não diga nada a respeito disso para ninguém — acrescentou Hwi.

“Que dilem a!”, pensou Anteac. “Será que poderei relatar isso às m inhas Irm ãs na sede da Irm andade?”

— Todos vão saber no devido tem po — explicou Hwi. — Ainda não é hora. Eu lhe digo isso apenas porque aj uda a conscientizá-la do peso da confiança de Lorde Leto.

— Ele confia em você?

— Em nós duas.

Isto fizera Anteac estrem ecer de m odo quase perceptível. O poder inerente a tal confiança!

— Sabe por que Ix a escolheu com o em baixadora? — Anteac perguntou.

— Sim . Desej avam que eu o seduzisse.

— E parece ter tido sucesso. Será que isso significa que os Ixianos acreditam nas histórias dos Tleilaxu a respeito dos hábitos indecentes de Lorde Leto?

— Nem m esm o os Tleilaxu acreditam nelas.

— Posso tom ar isso com o sua confirm ação quanto à falsidade de tais histórias?

Hwi falara com um a estranha ausência de em oção que m esm o o senso de verdade de Anteac e suas habilidades com o Mentat acharam difícil decifrar:

— Falou com ele e o observou. Responda essa pergunta por si m esm a.

Anteac dom inou um pequeno im pulso de irritação. A despeito de sua j uventude, essa Hwi não era um a acólita... e nunca daria um a boa Bene Gesserit. Que pena!

— Relatou isso ao seu Governo em Ix? — perguntou Anteac.

— Não.

— Por quê?

— Eles logo saberão. Um a revelação prem atura poderia prej udicar Lorde Leto.

Ela fala a verdade, lem brou-se Anteac.

— Sua prim eira lealdade não é para Ix? — perguntou ela.

— Minha lealdade é para com a verdade. — Hwi sorriu então. — Ix se saiu m elhor do que pensava.

— Ix a considera um a am eaça ao Im perador?

— Creio que a preocupação básica deles é com o conhecim ento. Discuti isso com Am pre antes de partir.

— O Diretor de Assuntos Ixianos fora da Federação? É esse Am pre?

— Sim . Am pre está convencido de que Lorde Leto perm ite am eaças à sua pessoa som ente dentro de certos lim ites.

— Am pre disse isso?

— Ele não acredita que o futuro possa ser escondido de Lorde Leto.

— Mas m inha m issão em Ix traz em si a sugestão de que..

— Anteac interrom peu-se e sacudiu a cabeça, depois acrescentou: — Por que Ix fornece m áquinas e arm am entos para Lorde Leto?

— Am pre acredita que Ix não tenha escolha. Um a força esm agadora destrói as pessoas que representam um a am eaça m uito grande.

— E se Ix se recusasse isso passaria dos lim ites para Lorde Leto. Sem m eio-term o. Mas j á pensou nas conseqüências de seu casam ento com Lorde Leto?

— Quer dizer as dúvidas que tal ato levantará quanto à sua divindade?

— Alguns vão acreditar nas histórias dos Tleilaxu.

Hwi apenas sorriu.

“Maldição!”, pensou Anteac. “Com o foi que perdem os essa garota?”

— Ele está m udando a estrutura de sua religião — acusou Anteac. — Claro que é isso.

— Não com eta o engano de j ulgar os outros a partir de si m esm a — disse Hwi e, quando Anteac com eçou a retrucar, ela acrescentou: — Mas não vim aqui para discutir com você a respeito do Senhor.

— Não, é claro que não.

— Lorde Leto ordenou-m e que lhe revelasse, com todos os detalhes de m inha m em ória, a respeito do lugar onde nasci e fui criada.

Enquanto refletia sobre as palavras de Hwi, Anteac olhou para o quadrado preto em seu colo. Hwi passara a contar os detalhes que o seu Senhor (e agora noivo!) lhe havia ordenado, detalhes que teriam sido tediosos, às vezes, se não fossem as habilidades Mentat de Anteac para a absorção de dados.

Anteac sacudiu a cabeça ao considerar o que deveria ser relatado às suas Irm ãs na Sede da Irm andade. Elas j á estariam estudando a im portância de suas palavras anteriores. Um a m áquina capaz de ocultar a si m esm a e seu conteúdo até m esm o da penetrante presciência do Im perador-Deus? Seria possível tal coisa? Ou seria apenas um tipo diferente de teste, um teste da sinceridade Bene Gesserit contra a de Lorde Leto? Mas e agora? Se ele j á não soubesse da gênese dessa enigm ática Hwi Noree...

Esse novo desenvolvim ento reforçava os resultados da com putação Mentat de Anteac quanto às razões pelas quais fora escolhida para essa m issão em Ix. O Im perador-Deus não confiava esse conhecim ento às suas Oradoras Peixes. Não queria que elas suspeitassem de um a fraqueza da parte de seu Senhor!

Ou seria m esm o tão óbvio quanto parecia? Engrenagens dentro de engrenagens — esse era o estilo de Lorde Leto.

Novam ente Anteac sacudiu a cabeça. Curvou-se e reiniciou seu relatório para a Irm andade, deixando de m encionar a revelação de que o Im perador-Deus escolhera um a noiva.

Elas iriam descobrir logo. Enquanto isso, a própria Anteac consideraria as im plicações.

 

Se você conhece todos os seus ancestrais, então se torna uma testemunha pessoal dos eventos que criaram os mitos e as religiões do nosso passado. Reconhecendo isso, deve reconhecer-me como um criador de mitos.

— Os diários roubados

 

A prim eira explosão aconteceu exatam ente quando a escuridão da noite envolveu a cidade de Onn. A detonação pegou alguns farristas ousados, que passavam diante da Em baixada Ixiana, a cam inho de um a festa onde (pelo que fora prom etido) alguns Dançarm os Faciais representariam um antigo dram a a respeito de um rei que m atara seus filhos. Depois dos acontecim entos violentos dos prim eiros quatro dias de Festival, essas pessoas precisariam de algum a coragem para em ergirem da segurança relativa de seus aloj am entos. Histórias de m ortes e ferim entos em testem unhas inocentes circulavam através da Cidade — e aqui novam ente — m ais m unição para os cautelosos.

Nenhum a das vítim as e sobreviventes teria apreciado a observação de Leto de que as testem unhas inocentes estavam em escassez.

Os sentidos aguçados de Leto detectaram a explosão e a localizaram . Num a fúria instantânea, da qual depois se arrependeria, ele gritou para as suas Oradoras Peixes e lhes ordenou que “exterm inassem os Dançarm os Faciais”, até m esm o aqueles que poupara anteriorm ente.

Num a reflexão im ediata, essa sensação de fúria fascinou Leto. Fazia tanto tem po desde a últim a vez em que ele sentira um a raiva m oderada. Frustração, irritação — esses tinham sido seus lim ites. Mas agora, com um a am eaça a Hwi Noree, a fúria!

Essa reflexão fez com que ele m odificasse a ordem inicial, m as não antes de algum as Oradoras Peixes j á terem saído correndo de sua Real Presença, seus m ais violentos desej os liberados pelo que tinham visto em seu Senhor.

— Deus está furioso! — algum as delas gritavam .

A segunda explosão pegou algum as Oradoras Peixes entrando na praça, lim itando a transm issão da nova ordem de Leto e provocando m ais violência. A terceira explosão, perto da prim eira, fez com que o próprio Leto entrasse em ação. Ele propeliu sua carreta com o um j aganata enlouquecido, saindo de sua câm ara de repouso e entrando no elevador Ixiano, de onde em ergiu na superfície.

Saiu na extrem idade da praça, encontrando um a cena de caos ilum inada por m ilhares de globos lum inosos flutuando livres no ar, liberados por suas Oradoras Peixes. O palco central da praça fora despedaçado, ficando intacta som ente a base de plasteel por baixo da superfície pavim entada. Pedaços quebrados de alvenaria espalhavam -se pelo chão, m isturados com os m ortos e feridos.

Na direção da Em baixada Ixiana, bem do outro lado da praça, havia um com bate violento.

— Onde está o m eu Duncan? — gritou Leto.

Um a bashar da guarda veio correndo através da praça para se colocar ao seu lado, onde ela relatou, enquanto respirava, ofegante:

— Nós o levam os para a Cidadela, Senhor!

— Que está acontecendo por lá? — perguntou Leto, apontando para a batalha diante da Em baixada Ixiana.

— Os rebeldes e os Tleilaxu estão atacando a Em baixada Ixiana, Senhor.

Eles têm explosivos.

Enquanto ela falava, outra detonação ocorreu diante da fachada despedaçada da Em baixada. Leto viu corpos contorcendo-se no ar enquanto voavam para fora num arco para caírem no perím etro de um clarão brilhante que deixou um a pós-im agem laranj a cheia de pontos pretos.

Sem pensar nas conseqüências, Leto fez sua carreta flutuar nos suspensores e a lançou com o um a bala através da praça — um a m assa em disparada que sugava globos lum inosos em sua esteira. Na extrem idade da área de luta, ele saltou sobre suas defensoras e m ergulhou no flanco dos atacantes, só então percebendo as arm as laser que lançavam lívidos arcos azuis em sua direção. Sentiu a carreta golpeando carne, espalhando corpos à sua volta.

A carreta o despej ou diretam ente em frente da Em baixada, rolando-o sobre um a superfície dura enquanto ele atingia os destroços. Ele sentiu os raios laser com icharem em seu corpo anelado, depois um a onda de calor interior, seguida por um sopro de oxigênio escapando de sua cauda. O instinto o fez m ergulhar o rosto profundam ente no capuz de truta de areia e dobrar os braços nas profundezas protetoras de seu segm ento frontal. O corpo de verm e assum iu o controle, contorcendo-se e golpeando, rolando com o um a roda louca, chicoteando para todos os lados.

O sangue lubrificou a superfície da rua. Sangue que era água para o seu corpo, m as a m orte liberava essa água. Seu corpo chicoteando escorregou e deslizou nela, a água produzindo fum aça azulada de cada j unta de flexão, onde ela penetrava através da pele de truta da areia. Isso o enchia de um a agonia da água que provocava m ais violência da parte do grande corpo.

Ao prim eiro ataque de Leto, o perím etro de Oradoras Peixes recuou. Um a bashar alerta viu a oportunidade agora apresentada e gritou acim a do ruído da luta:

— Peguem os desgarrados!

As fileiras de m ulheres guardiãs avançaram .

Houve um a luta sangrenta por alguns m inutos, lâm inas golpeando à luz im placável dos globos lum inosos, a dança dos arcos de arm as lazer, e m esm o m ãos que golpeavam e dedos que m ergulhavam em carne vulnerável. As Oradoras Peixes não deixaram sobreviventes.

Leto rolou para fora da m assa sangrenta que restara diante da Em baixada, quase incapaz de pensar ante as ondas de agonia provocadas pela água. O ar à sua volta estava carregado de oxigênio, e isso lhe aj udava os sentidos hum anos. Cham ou sua carreta e ela flutuou em direção a ele, inclinando-se perigosam ente sobre os suspensores danificados. Lentam ente, ele coleou para cim a da carreta inclinada e enviou o com ando m ental de retornar aos seus aloj am entos debaixo da praça.

Muito tem po atrás ele se havia preparado para a eventualidade de sofrer danos causados por água — um a sala onde descargas de ar seco, superaquecido, lim pariam seu corpo e o restaurariam . Areia seria m elhor, m as não havia lugar dentro dos lim ites de Onn para a necessária extensão de areia sobre a qual ele pudesse aquecer-se e raspar seu corpo até a sua pureza norm al.

No elevador, pensou em Hwi e enviou um a m ensagem para que ela fosse trazida a ele im ediatam ente.

“Se ela sobreviveu.”

Não tinha tem po agora para realizar a busca presciente, só podia ter esperanças, enquanto seu corpo, hum ano e pré-verm e, ansiava pelo calor purificante.

Um a vez na sala de lim peza, pensou em reafirm ar sua ordem alterada. — “Poupem alguns Dançarm os Faciais!” Mas a essa altura as Oradoras Peixes enlouquecidas estariam se espalhando pela Cidade, e ele não tinha forças para fazer a varredura presciente que teria enviado suas m ensageiras aos locais de encontro adequados.

Quando ele saía da sala de lim peza, um a capitã da Guarda lhe trouxe a notícia de que Hwi Noree, em bora levem ente ferida, estava em segurança e seria trazida à sua presença assim que a com andante local j ulgasse prudente.

No ato, Leto prom oveu a capitã da Guarda a sub-bashar. Era um a criatura pesada, do tipo Nay la, m as sem o rosto quadrado desta — tinha feições m ais arredondadas, m ais próxim as dos antigos padrões. Ela estrem eceu no calor da aprovação por seu Senhor e, quando este lhe disse que retornasse para “deixar duplam ente certo” que nenhum dano ocorresse a Hwi, ela se virou e saiu em disparada.

“Nem m esm o lhe perguntei o nom e”, pensou Leto, enquanto rolava para cim a de um a nova carreta, na depressão de sua pequena sala de audiências. Gastou alguns m inutos de reflexão para lem brar o nom e da nova sub-bashar — Kieuem o. A prom oção teria de ser confirm ada. Anotou m entalm ente para fazer isso em pessoa, depois. As Oradoras Peixes, todas elas, teriam de aprender im ediatam ente o quanto ele valorizava Hwi Noree. Não que houvesse m uita dúvida quanto a isso depois dessa noite.

Então realizou sua varredura presciente e enviou m ensageiras para as Oradores Peixes na Cidade. Mas o dano j á fora feito — corpos espalhados por toda Onn, alguns de Dançarm os Faciais, outros de gente apenas suspeita de o ser.

“E m uitos m e viram m atar”, pensou ele.

Enquanto esperava pela chegada de Hwi, reviu o que acabara de acontecer. Esse não fora um típico ataque dos Tleilaxu, m as o ataque anterior, na estrada para Onn, encaixava-se num novo padrão, todo ele apontando para um a única m ente com um propósito letal.

“Eu poderia ter m orrido lá fora”, pensou.

Isso com eçava a explicar por que não tinha previsto esse ataque, m as ainda havia um a razão m ais profunda... Leto podia ver essa razão em ergindo em sua consciência, um a som a de todos os indícios. Que ser hum ano conhecia m elhor o Im perador-Deus? Que ser hum ano possuía um lugar secreto de onde conspirar?

“Malky !”

Leto cham ou um a guarda e pediu que perguntasse se a Reverenda Madre Anteac j á deixara Arrakis. A guarda retornou num instante para relatar:

— Anteac ainda se encontra em seu aloj am ento. A Com andante da Guarda de Oradoras Peixes diz que não foram atacadas lá.

— Leve esta m ensagem para Anteac — disse Leto. — Pergunte-lhe se agora com preende por que coloquei sua delegação em aloj am entos tão afastados de m im . Diga-lhe que, enquanto estiver em Ix, deve tentar localizar Malky. Deve relatar sua localização à nossa guarnição em Ix.

— Malky, o antigo Em baixador Ixiano?

— Ele m esm o. Ele não deve continuar vivo e livre. Você deverá inform ar a com andante de nossa guarnição em Ix para que trabalhe em conj unto com Anteac, dando-lhe toda a assistência de que ela necessitar. Malky deve ser trazido a m im ou executado — o que for j ulgado necessário por sua com andante.

A m ensageira-guarda assentiu, som bras proj etando-se em seu rosto no lugar onde se colocara, ante o anel de luz ilum inando o rosto de Leto. Ela não pediu um a repetição das ordens. Cada um a das guardas que trabalhavam m ais j unto dele havia sido treinada com o gravador hum ano. Elas repetiriam exatam ente as palavras de Leto, com as entonações originais, e nunca esqueceriam aquilo que o tinham ouvido dizer.

Assim que a m ensageira saiu, Leto enviou um sinal particular de indagação e, dentro de segundos, teve um a resposta de Nay la. O engenho Ixiano dentro de sua carreta reproduzia um a versão não identificável da voz dela, um recital m etálico, unicam ente para seus ouvidos.

Sim , Siona estava na Cidadela. Não, Siona não havia contactado seus com panheiros rebeldes. “Não, ela ainda não sabe que estou aqui observando-a.” O ataque à Em baixada? Aquilo fora feito por um grupo dissidente cham ado “Elem ento de Contato Tleilaxu”.

Leto suspirou m entalm ente. Os rebeldes sem pre davam a seus grupos rótulos tão pretensiosos.

— Algum sobrevivente? — ele perguntou.

— Não há sobreviventes conhecidos.

Leto achou divertido que, em bora a voz m etálica não fornecesse os tons em ocionais, sua m em ória os suprisse.

— Você fará contato com Siona — instruiu ele. — Revele a ela que você é um a Oradora Peixe. Diga-lhe que não revelou isso anteriorm ente por saber que ela não confiaria em você e porque tem ia ser denunciada, j á que você é solitária, entre as Oradoras Peixes, em sua fidelidade a Siona. Reafirm e-lhe seu j uram ento de lealdade. Diga-lhe que você j ura “por tudo que lhe é sagrado” que obedecerá Siona em tudo o que ela lhe ordenar. Se ela o ordenar, você o fará. E tudo isso é verdade, com o você bem o sabe.

— Sim , senhor.

A m em ória forneceu a fanática ênfase na resposta de Nay la. Ela obedeceria.

— Se for possível, arranj e um a oportunidade para que Siona e Duncan Idaho se encontrem a sós — ele disse.

— Sim , Senhor.

“Deixe que a afinidade desem penhe seu papel”, pensou ele.

Interrom peu o contato com Nay la, pensou por um m om ento e então m andou cham ar a com andante de suas forças na praça. A bashar chegou daí a pouco, o uniform e escuro m anchado e poeirento, a presença de sangue ainda em suas botas. Era um a m ulher alta e m agra, com linhas de envelhecim ento no rosto que lhe davam feições aquilinas e um ar de poderosa dignidade. Leto lem brou seu nom e de tropa, Iy ly o, que significava “Confiável” no antigo idiom a Frem en. Mas a cham ou pelo nom e m aterno, Ny shae, Filha de Shae, que estabeleceu o tom de sutil intim idade desse encontro.

— Repouse em um a alm ofada, Ny shae — ele disse. — Você trabalhou duro.

— Obrigada, Senhor.

Sentou-se na alm ofada verm elha que Hwi usara. Leto notou as m arcas de fadiga em torno da boca de Ny shae, m as os olhos dela perm aneciam alertas. Ela olhou para ele, ávida por ouvir suas palavras.

— Tudo está tranqüilo na m inha Cidade, um a vez m ais — ele disse, sem dar o tom de pergunta e deixando a interpretação para Ny shae.

— Tranqüilo m as não bom , Senhor.

Ele olhou para o sangue nas botas dela.

— E quanto à rua em frente à Em baixada Ixiana?

— Está sendo lim pa, Senhor. Os consertos j á estão sendo providenciados.

— E a praça?

— Pela m anhã, estará com o sem pre esteve.

O olhar dela perm anecia firm e em seu rosto. Am bos sabiam que ele ainda não chegara ao m otivo dessa entrevista. Todavia, Leto agora identificava um a coisa assom ando na expressão de Ny shae.

“Orgulho de seu Senhor!”

Pela prim eira vez ela vira o Im perador-Deus m atar. E a sem ente de um a terrível dependência fora plantada. “Se o desastre nos am eaçar, m eu Senhor virá.” Era assim que aquilo parecia aos olhos dela. Não m ais agiria em com pleta independência, recebendo seu poder do Im perador-Deus e sendo pessoalm ente responsável pelo uso desse poder. Havia algo de possessivo na expressão dela. Um a terrível m áquina m ortífera esperava ali, esperando que ele cham asse.

Leto não apreciava o que estava vendo, m as o dano j á fora causado. Qualquer rem édio agora exigiria pressões lentas e sutis.

— De onde os atacantes conseguiram pistolas laser? — indagou ele.

— De nossos próprios depósitos, Senhor. A guarda do Arsenal foi substituída.

“Substituída.” Esse era um eufem ism o que possuía certa adequação. As Oradoras Peixes caídas em desgraça eram isoladas e reservadas para o m om ento em que Leto encontrasse um problem a que exigisse a ação de Com andos Suicidas. Elas m orreriam felizes, é claro, acreditando que assim expiavam seus pecados. E m esm o o rum or de que essas desesperadas tinham sido enviadas j á era suficiente para acalm ar os distúrbios.

— O arsenal foi invadido por m eio de explosivos? — ele perguntou.

— Explosivos e roubo, Senhor. A Guarda do Arsenal descuidou-se.

— E a fonte dos explosivos?

Parte da fadiga de Ny shae era visível na m aneira com o ela encolheu os om bros.

Leto só pôde concordar. Sabia que poderia pesquisar e identificar essas fontes, m as isso serviria para m uito pouca coisa. Pessoas decididas sem pre podiam achar ingredientes para confeccionar explosivos caseiros — coisas com uns com o açúcar e alvej antes, fertilizantes e óleo inocentes, plásticos, solventes e extratos da suj eira debaixo de um a pilha de estrum e. A lista era virtualm ente interm inável, crescendo com cada acréscim o ao conhecim ento e à experiência hum anos. Até m esm o em um a sociedade com o aquela que ele havia criado, a qual tentava lim itar a adoção de tecnologia e de novas idéias, não havia esperança real de elim inar com pletam ente as arm as pequenas que fossem perigosam ente violentas. A idéia de controlar tais coisas era um a quim era, um m ito perigoso e perturbador. A chave era lim itar o desej o da violência. E nesse aspecto essa noite fora um desastre.

“Tanta inj ustiça nova”, ele pensou.

Com o se tivesse ouvido seu pensam ento, Ny shae suspirou.

“E claro. As Oradoras Peixes eram treinadas desde a infância para evitarem a inj ustiça, sem pre que possível.”

— Devem os procurar os sobreviventes entre a população — disse ele. — Cuidar para que suas necessidades sej am atendidas. Eles devem ser levados à conscientização de que os Tleilaxu foram os culpados.

Ny shae assentiu com a cabeça. Não havia alcançado o posto de bashar perm anecendo ignorante quanto à instrução básica. Por enquanto ela acreditava naquilo. Apenas por ouvir Leto dizer, acreditava na culpa dos Tleilaxu. E havia um sentido prático no seu entendim ento. Sabia por que eles não tinham m assacrado todos os Tleilaxu.

“Não se devem elim inar todos os bodes expiatórios.”

— E devem os fornecer algum tipo de diversionism o — disse

Leto. — Felizm ente, pode haver um bem ao nosso alcance.

Mandarei cham á-la assim que acabar de conferenciar com Lady

Hwi Noree.

— A Em baixadora Ixiana, Senhor? Ela não está im plicada na...

— Ela é totalm ente inocente — disse ele.

Viu a crença no que dissera estabelecer-se nas feições de Ny shae, um a cobertura de plástico que podia prender-lhe a m andíbula e vidrar-lhe os olhos. “Até m esm o Ny shae.” Ele sabia as razões por que as tinha criado, m as algum as vezes se sentia um pouco assom brado com as suas criaturas.

— Ouço Lady Hwi chegando à m inha ante-sala. Mande-a entrar quando você sair. E, Ny shae.

Ela j á estava de pé, m as esperou em paciente silêncio.

— Esta noite prom ovi Kieuem o a sub-bashar — ele disse.

— Cuide para que isso se torne oficial. Quanto a você, estou m uito satisfeito. Peça e receberá.

Ele viu essa fórm ula lançar um a onda de prazer através de Ny shae, m as esta se controlou im ediatam ente, m ostrando um a vez m ais seu valor para ele.

— Vou testar Kieuem o, Senhor — ela disse. — Se m ostrar-se apta, poderei tirar férias. Há m uitos anos não vej o m inha fam ília em Salusa Secundus.

— Quando quiser.

E ele pensou: “Salusa Secundus. E claro!”

A referência às origens de Ny shae lem brou-lhe a quem ela se assem elhava: “Harq al-Ada. Ela tem o sangue dos Corrino. Som os parentes m ais próxim os do que eu pensava.”

— Meu Senhor é generoso — disse ela.

Saiu, então, com um a nova elasticidade em seu andar. Ele ouviu a voz dela na ante-sala:

— Lady Hwi, nosso Senhor irá vê-la agora.

Hwi entrou, ilum inada por trás e por um m om ento em oldurada pelo arco da porta, com passo hesitante, até que seus olhos se aj ustaram à ilum inação da câm ara interior. E ela veio com o um a m ariposa atraída pelo brilho em torno do rosto de Leto, afastando o olhar apenas para buscar sinais de ferim entos ao longo do corpo m ergulhado nas som bras. Ele sabia que não havia sinal visível, m as ainda lhe restavam dores e trem ores internos.

Os olhos de Leto detectaram um coxear quase im perceptível, Hwi apoiando-se m ais na perna direita, em bora um longo vestido de cor verde-j ade escondesse o ferim ento. Ela parou na beira do declive que abrigava a carreta, olhando diretam ente para os olhos dele.

— Disseram que você tinha sido ferida, Hwi. Está sofrendo?

— Um corte na perna abaixo do j oelho, Senhor. Um pequeno pedaço de alvenaria arrem essado pela explosão. Suas Oradoras Peixes o trataram com um a pom ada que tirou a dor. Senhor, tem i por sua segurança.

— E eu tem i por você, gentil Hwi.

— Exceto quanto à prim eira explosão, eu não corri perigo, Senhor. Elas m e carregaram para um a sala subterrânea bem no fundo, em baixo da Em baixada.

“Ela não viu o que fiz”, pensou ele. “Posso ser grato por isso.”

— Mandei cham á-la para pedir seu perdão — ele disse.

Ela sentou-se sobre a alm ofada dourada.

— Que há para ser perdoado, Senhor? O Senhor não á a razão de...

— Estou sendo testado, Hwi.

— O Senhor?

— Existem aqueles que desej am saber até onde vai m inha preocupação com a sua segurança, Hwi Noree.

Ela apontou para cim a.

— Aquilo... foi por m inha causa?

— Por nossa causa.

— Oh, m as quem ...

— Você concordou em se casar com igo, Hwi, e eu...

Ergueu a m ão para silenciá-la quando ela com eçou a falar.

— Anteac contou-nos o que você lhe revelou, m as isso não se originou em Anteac.

— Então, quem é...

— O quem não é im portante. Mas á im portante que você reconsidere. Devo dar-lhe a oportunidade de m udar de opinião.

Ela abaixou seu olhar.

“Com o são suaves as suas feições”, ele pensou.

Era-lhe possível criar, apenas na im aginação, a experiência de toda um a vida hum ana partilhada com Hwi. Havia exem plos suficientes em seu acervo de m em órias sobre os quais poderia construir a fantasia de um a vida conj ugal. Podia recolher nuanças ao seu capricho — pequenos detalhes de um a experiência m útua, um toque, um beij o, todo aquele doce partilhar do qual se ergue um a coisa de beleza quase dolorosa. Algo que doía nele com um a dor m ais profunda que as lem branças físicas de sua violência na Em baixada.

Hwi ergueu o queixo e olhou dentro dos olhos dele. Ele viu um a ânsia apaixonada de aj udá-lo.

— De que outro m odo eu poderia servi-lo, Senhor.

Ele se relem brou de que ela ainda era um prim ata, algo que ele não era m ais, não de todo. As diferenças tornavam -se m ais profundas a cada m inuto.

A dor perm anecia dentro dele.

Hwi era um a realidade inescapável, um a coisa tão fundam ental que nenhum a palavra poderia expressá-la. A dor dentro dele quase ultrapassava sua capacidade de suportá-la.

— Eu a am o, Hwi. Eu a am o com o um hom em am a um a m ulher... Mas não pode ser. Nunca.

Lágrim as fluíram dos olhos dela.

Devo partir? Devo retornar a Ix?

— Eles só iriam m agoá-la, tentando descobrir o que saiu errado em seu plano.

“Ela viu a m inha dor”, pensou ele. “Ela conhece a frustração e a futilidade. Que irá fazer? Não vai m entir. Não irá dizer que corresponderá ao m eu am or com o um a m ulher em relação a um hom em . Conhece a inutilidade. E conhece tam bém seus próprios sentim entos em relação a m im : com paixão, adm iração, um a curiosidade que ignora o m edo.”

— Então ficarei — disse ela. — Desfrutarem os de tanto prazer quando puderm os obter do fato de sim plesm ente estarm os j untos. Creio que isto é o m elhor que podem os fazer. E se significa que devem os nos casar, então que assim sej a.

— Devo então partilhar com você um conhecim ento que nunca dividi com outra pessoa. Eu lhe darei um poder sobre m im que...

— Não faça isso, Senhor! E se alguém m e forçar a...

— Você nunca m ais deixará o m eu lar. Meus aloj am entos aqui na Cidadela, os lugares seguros do Sareer — este será seu lar.

— Com o quiser.

“Com o é suave e franca a sua calm a aceitação”, pensou Leto. A dor pulsante dentro dele havia se acalm ado. Isso em si era um perigo para ele e para o Cam inho Dourado.

“Com o são espertos os Ixianos!”

Malky notara com o os todo-poderosos eram forçados a enfrentar um constante canto da sereia: a atração do autodeleite.

“A constante consciência do poder exercido aos seus m enores caprichos.”

Hwi tom ou esse silêncio com o sinal de incerteza.

— Nós nos casarem os, Senhor?

— Sim .

— Algum a coisa deve ser feita quanto às histórias dos Tleilaxu que...

— Nada.

Ela olhou para ele relem brando a conversa anterior. “As sem entes da dissolução j á foram plantadas.”

— Tem o, Senhor, que eu possa enfraquecê-lo — ela disse.

— Então deve encontrar m eios de m e fortalecer.

— Com o pode fortalecê-lo o fato de dim inuirm os a crença no Deus Leto?

Ele pôde notar um sinal de Malky na voz dela, aquele j eito de pesar as coisas que o tornara tão revoltantem ente charm oso. “Jam ais escapam os aos professores da nossa infância.”

— Sua pergunta pede um a resposta — disse ele. — Muitos continuarão a m e adorar de acordo com os m eus planos. Outros vão acreditar nas m entiras.

— Senhor... pediria que eu m entisse pelo Senhor?

— É claro que não. Mas lhe peço que fique em silêncio quando poderia falar.

— Mas se eles insultarem .

— Você não protestará.

Um a vez m ais as lágrim as rolaram no rosto dela. Leto ansiava por tocá-las, m as elas eram água... dolorosa água.

— Deve ser feito desse m odo — concluiu ele.

— Explicará para m im , Senhor?

— Quando eu não m ais existir, eles m e cham arão de Shaitan, o Im perador de Gehenna. A roda deve girar e girar ao longo do Cam inho Dourado.

— Senhor, não seria possível que a ira fosse dirigida apenas contra m im ? Eu na....

— Não! Os Ixianos fizeram -na m uito m ais perfeita do que pensaram . Verdadeiram ente a am o. Não posso evitá-lo.

— Não desej o causar-lhe dor! — As palavras pareciam arrancadas com aflição de dentro dela.

— O que está feito está feito. Não vam os chorar.

— Aj ude-m e a com preender.

— O ódio que vai desabrochar quando eu tiver partido, esse tam bém se apagará num inevitável passado. Um longo tem po vai passar. E então, num futuro m uito distante, m eus diários serão encontrados.

— Diários? — Ela pareceu chocada com a aparente m udança do assunto.

— Minhas crônicas sobre a m inha época. Meus argum entos, m inhas j ustificativas. Existem cópias, e fragm entos dispersos vão sobreviver, alguns num a form a distorcida, m as os diários originais estarão esperando, esperando e esperando. Eu os escondi m uito bem .

— E quando forem descobertos?

— As pessoas então saberão que fui um a coisa bem diferente do que elas supunham .

A voz dela saiu num trêm ulo sussurro:

— Eu j á sei o que elas vão aprender.

— Sim , m inha querida Hwi. Creio que você sabe.

— O senhor não é nem deus, nem diabo, m as um a coisa nunca vista antes e que nunca m ais será vista outra vez, pois sua presença elim ina tal necessidade.

Ela enxugou as lágrim as do rosto, passando a m ão sobre elas.

— Hwi, você com preende com o é perigosa?

O alarm e m ostrou-se em sua expressão, na tensão de seus braços.

— Você tem as m arcas de um a santa. E pode com preender com o é doloroso encontrar um a santa no lugar errado, na época errada?

Ela sacudiu a cabeça.

— As pessoas precisam ser preparadas para os santos — continuou ele. — De outro m odo elas sim plesm ente se tornam suplicantes, seguidores e m endigos, adoradores enfraquecidos, para sem pre abrigados à som bra do seu santo. Elas são destruídas por isso, pois isso produz apenas a fraqueza.

Depois de alguns m om entos de m editação, ela assentiu, e então perguntou:

— E existirão santos depois que tiver partido?

— Esse é o propósito do m eu Cam inho Dourado.

— A filha de Moneo, Siona, será.

— Por enquanto é apenas um a rebelde. Quanto à santidade, deixarem os que ela decida. Talvez faça apenas aquilo para o que foi gerada.

— E o que é, Senhor?

— Pare de m e cham ar de Senhor — disse ele. — Serem os o Verm e e sua esposa. Cham e-m e de Leto se preferir. Senhor atrapalha.

— Sim L... Leto. Mas o que é...

— Siona foi criada para governar. Existe perigo em tal coisa. Quando você governa, adquire o conhecim ento do poder. Isso pode levar a um a im petuosa irresponsabilidade, a dolorosos excessos que podem gerar um terrível destruidor — o hedonism o desenfreado.

— Siona iria.

— Tudo que sabem os a respeito de Siona é que ela pode perm anecer dedicada a esse desem penho particular, ao padrão que preenche seus sentidos. Ela é necessariam ente um a aristocrata, m as a aristocracia se volta principalm ente para o passado. Essa é a falha. Você não enxerga m uita coisa de qualquer cam inho, a m enos que sej a com o Janus, olhando sim ultaneam ente para trás e para a frente.

— Janus? Oh, sim , o deus com dois rostos opostos. — Ela um edeceu os lábios com a língua. — E você é Janus, Leto?

— Eu sou Janus aum entado 1 bilhão de vezes. Mas sou tam bém algo inferior. Tenho sido, por exem plo, aquilo que m eus adm inistradores m ais adm iram : um responsável por decisões que podem ser levadas a cabo.

— Mas se os decepcionar.

— Eles se voltarão contra m im , é verdade.

— Siona irá substitui-lo se.

— Ah, que enorm e se! Você observa que Siona am eaça m inha pessoa. Mas ela não am eaça o Cam inho Dourado. Existe tam bém o fato de que m inhas Oradoras Peixes possuem certa ligação com o Duncan.

— Siona parece... tão j ovem .

— E eu sou seu figurão favorito. O im postor que m antém o poder sob falsas afirm ações, j am ais consultando os desej os do seu povo.