O Imperador-Deus de Duna

Frank Herbert · Capítulo 24 de 25

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O Imperador-Deus de Duna

Em todo o meu universo, não vi…

Em todo o meu universo, não vi nenhuma lei da natureza que fosse imutável ou inexorável. Este universo apresenta apenas relações mutáveis, por vezes tomadas como leis por consciências de vida curta. Esses sensores corpóreos a que chamamos de eu são efêmeros, pulverizando-se no brilho da eternidade, momentaneamente conscientes de condições temporárias que confinam nossas atividades e se modificam na medida em que elas mudam. Se você quer um rótulo para o absoluto, use seu nome próprio: Temporário.

— Os diários roubados

 

Nay la foi a prim eira a vislum brar a aproxim ação do cortej o. Transpirando fortem ente sob o sol do m eio-dia, encontrava-se j unto a um a das pilastras de rocha que m arcavam as extrem idades da Estrada Real. O súbito lam pej o de um reflexo distante captou-lhe a atenção. Olhou naquela direção, com prim indo as pálpebras e percebendo, com entusiasm o, estar vendo o brilho do sol na cobertura da carreta do Im perador-Deus.

— Eles vêm vindo! — gritou ela.

Sentiu a fom e então. Na excitação e na unidade de seu propósito, nenhum deles trouxera com ida. Apenas os Frem en haviam trazido água, e isso porque “os Frem en sem pre carregam água quando deixam o sietch”. Faziam isso com o rotina.

Nay la tocou com um dedo a coronha da arm a laser, presa ao seu quadril. A ponte encontrava-se m enos de 20 m etros à frente dela, sua estrutura etérea arqueando-se sobre o abism o com o um a fantasia alienígena unindo um a superfície desolada a outra.

“Isso é loucura”, ela pensou.

Mas o Im perador-Deus havia reforçado a sua ordem . Exigia que sua Nay la obedecesse todas as ordens de Siona.

As ordens de Siona eram explícitas, não deixando espaço para evasões. E Nay la não tinha m eios de interrogar seu Im perador-Deus. Siona dissera.

— Quando a carreta estiver no m eio da ponte: só então!

— Mas por quê?

Naquele m om ento elas estavam bem longe dos outros, enfrentando o frio da alvorada no topo da Muralha, Nay la sentindo-se isolada, distante e vulnerável.

As feições graves de Siona, sua voz baixa e intensa não podiam ser confundidas.

— Você j ulga que pode ferir a Deus?

— Eu... — Nay la só podia encolher os om bros.

— Você deve m e obedecer!

Eu devo — concordou Nay la.

Ela observou a aproxim ação do cortej o distante, notando o colorido dos cortesãos, as espessas m assas de azul m arcando suas irm ãs Oradoras Peixes... a superfície brilhante da carreta de seu Senhor.

Era outro teste, concluiu. O Im perador-Deus saberia. Ele conhecia a devoção no coração de Sua Nay la. Era um teste. As ordens do Im perador-Deus deviam ser obedecidas em todas as coisas. Essa fora a prim eira lição de sua infância com o Oradora Peixe. O Im perador-Deus ordenara que Nay la obedecesse às ordens de Siona. Era um teste. Que m ais poderia ser?

Ela olhou na direção dos quatro Frem en. Eles tinham sido posicionados por Duncan Idaho diretam ente no m eio da estrada e bloqueando parte da saída nessa extrem idade da ponte. Sentavam -se de costas para ela e olhavam para a ponte, quatro m ontes de m antos m arrons. Nay la ouvira as palavras que Idaho dissera a eles.

— Não abandonem este lugar. Vocês devem saudá-lo daqui. Levantem -se quando ele se aproxim ar e se curvem .

“Saudação, sim .”

Nay la fez um gesto afirm ativo para si m esm a.

As três outras Oradoras Peixes que tinham escalado a Muralha j unto com ela haviam sido m andadas para o centro da ponte. Tudo que elas sabiam era o que Siona lhes dissera na presença de Nay la. Deviam esperar até que a Carreta Real estivesse a apenas alguns passos de distância, então se virar e sair dançando na frente dela, liderando a procissão até o ponto de observação acim a de Tuono.

“Se eu cortar a ponte com m inha arm a laser, aquelas três vão m orrer”, pensou Nay la. “E todos os outros que vieram com nosso Senhor.”

Ela inclinou o pescoço para olhar o abism o. Não podia ver o rio dali, m as podia ouvir seu m urm úrio distante, um m ovim ento das rochas.

Eles todos vão m orrer!

“A m enos que Ele realize um Milagre.”

Tinha que ser isso. Siona arm ara o palco para um Sagrado Milagre. Que m ais poderia pretender ela, agora que fora testada, agora que usava o uniform e de um a Com andante Oradora Peixe? Siona fizera seu j uram ento ao Im perador-Deus. Fora testada por Deus, os dois sozinhos no Sareer.

Nay la voltou apenas os olhos para a direita, fitando os arquitetos dessa saudação de boas-vindas. Siona e Idaho encontravam -se om bro a om bro na estrada, uns 20 m etros à direita de Nay la. Encontravam -se profundam ente absortos num a conversa, olhando um para o outro, ocasionalm ente assentindo com a cabeça.

Daí a pouco Idaho tocou o braço de Siona — um gesto curiosam ente possessivo. Ele concordou com a cabeça um a vez e cam inhou em direção à ponte, parando no canto do contraforte, diretam ente à frente de Nay la. Olhou para baixo, depois passou para o outro canto desse lado da ponte. Novam ente olhou para baixo, assim perm anecendo por vários m inutos antes de voltar para j unto de Siona.

Que criatura estranha era esse ghola, pensou Nay la. Depois daquela espantosa escalada, não m ais o j ulgava inteiram ente hum ano. Ele era algum a coisa a m ais, um sem ideus que se colocava ao lado de Leto. Mas ele podia ter filhos.

Um grito distante captou a atenção de Nay la. Ela virou-se e olhou para o outro lado da ponte. O cortej o estivera avançando no trote costum eiro de um a peregrinação real. Agora estava dim inuindo o passo para um a cam inhada lenta, a apenas alguns m inutos da ponte. Nay la reconheceu Moneo m archando na dianteira, o uniform e brilhantem ente branco, o passo determ inado, o olhar voltado diretam ente para a frente. A cobertura da carreta do Im perador-Deus estava selada. Ela cintilava num a opacidade espelhada enquanto ralava sobre suas rodas atrás de Moneo.

O m istério de tudo aquilo penetrou em Nay la.

Um m ilagre estava para acontecer!

Nay la olhou para a direita em direção a Siona. Siona retornou o olhar e acenou com a cabeça. Nay la pegou a pistola laser, tirando-a do coldre e a apoiando na pilastra de rocha enquanto m irava ao longo dela. Prim eiro o cabo da esquerda, depois o cabo da direita, depois a etérea treliça de plasteel, à esquerda. A pistola laser parecia fria e estranha na m ão de Nay la. Ela respirou trêm ula antes de recuperar a calm a.

“Devo obedecer. É um teste.”

Ela viu Moneo erguer o olhar da estrada e, sem m odificar o passo, virar-se a fim de gritar algum a coisa para a carreta ou para os outros que vinham atrás. Nay la não pôde distinguir as palavras. Moneo olhou para a frente um a vez m ais. Nay la firm ou-se, um a parte da pilastra de rocha ocultando a m aior parte de seu corpo.

“Um teste.”

Moneo vira as pessoas na ponte e no lado oposto dela. Identificara os uniform es das Oradoras Peixes e seu prim eiro pensam ento foi perguntar-se quem teria ordenado essa recepção. Virou-se e gritou um a pergunta para Leto, m as a cobertura da carreta do Im perador-Deus perm anecia opaca, ocultando Leto e Hwi dentro dela.

Moneo estava em cim a da ponte, a carreta atritando na areia soprada pelo vento, antes de reconhecer Siona e Idaho de pé, bem adiante, no outro lado. Ele identificou quatro Frem en de Museu sentados no m eio da estrada. As dúvidas com eçaram a se agitar na m ente de Moneo, m as ele não poderia m odificar o padrão. Arriscou um a olhada para o rio lá em baixo — um m undo platinado capturado na luz do sol do m eio-dia. O som da carreta era alto atrás dele. O fluxo do rio, o fluxo do cortej o, toda a vasta im portância destas coisas nas quais ele desem penhava um papel — tudo isso dom inava sua m ente com vertiginosa sensação do inevitável.

“Não som os pessoas passando por este cam inho”, pensou. “Som os elem entos prim ais, unindo um fragm ento do Tem po a outro. E, quando tiverm os passado, tudo atrás de nós m ergulhará num m undo sem som , um lugar com o a não-sala dos Ixianos, e nada será o que fora antes que viéssem os.”

Um fragm ento da canção da alaudista flutuou na m em ória de Moneo e seus olhos desfocaram -se na lem brança. Ele sabia que aquela canção era para os seus desej os, um desej o de que tudo isso term inasse, tudo se tornasse passado, todas as dúvidas banidas, a

tranqüilidade restabelecida. A canção m elancólica flutuava com o fum aça através de sua consciência, enrolando-se e constrangendo:

O som dos insetos nas raízes do capim dos pam pas.

Moneo cantarolou a canção para si m esm o:

O grito dos insetos m arca o fim

Do outono o m eu canto tem a cor

Das últim as folhas

Nas raízes do capim dos pam pas.

Ele assentiu com a cabeça para o refrão:

O dia term inou,

Os Visitantes se foram .

O dia está term inado

Em nosso Sietch,

O dia está term inado.

E o vento da tem pestade soa.

O dia está term inado.

Os visitantes se foram .

Moneo concluiu que a canção da alaudista tinha m esm o que ser m uito antiga, um a velha canção Frem en, sem dúvida algum a. E ela lhe dizia algum a coisa a respeito de si m esm o. Ele desej ava que os visitantes realm ente fossem em bora, que toda a excitação term inasse, que houvesse paz um a vez m ais. A paz estava tão próxim a... e no entanto ele não podia abandonar seus deveres. Pensou em todo o m aterial em pilhado lá na areia, fora do alcance da vista de quem olhasse de Tuono. Eles logo veriam aquilo tudo -tendas, com idas, m esas, pratos de ouro e facas decoradas com j óias, globos lum inosos m oldados nas form as de arabesco de antigas lâm padas.. . tudo com a riqueza e a plenitude de expectativas de vidas m uito diferentes.

“Eles nunca m ais serão os m esm os em Tuono.”

Moneo passara duas noites em Tuono, certa vez, num a viagem de inspeção. Ele lem brava o cheiro dos fogos cozinhando as refeições — arbustos arom áticos acesos e queim ando no escuro. Eles não usavam fogões solares “porque esta não era a m aneira m ais antiga”.

“A m aneira m ais antiga!”

Quase não existia cheiro de m elange em Tuono. Havia um a suave acridez e os óleos tirados de arbustos de oásis, esse era o odor dom inante. Sim ... e as fossas e o fedor de lixo apodrecendo. Relem brou o com entário do Im perador-Deus quando term inara de relatar sua viagem .

— Esses Frem en não sabem o que perderam de suas vidas. Julgam m anter a essência dos velhos tem pos. Esse é o fracasso de todos os m useus. Algum a coisa se apaga; evapora-se do que é exibido e se vai. As pessoas que adm inistram os m useus e o povo que vem curvar-se sobre as vitrines para olhar — poucos entre eles sentem essa coisa perdida. O que im pulsionava o m otor da vida nos velhos tem pos. E quando a vida se vai, ela se vai.

Moneo voltou os olhos para as três Oradoras Peixes que se erguiam bem adiante dele na ponte. Elas levantaram os braços e com eçaram a dançar, rodopiando e saltitando, apenas alguns passos adiante.

“Com o é estranho”, pensou ele. “Já vi outras pessoas dançarem a céu aberto, m as nunca as Oradoras Peixes. Elas só dançam na privacidade de seus aloj am entos, na intim idade de suas próprias com panheiras.”

Esse pensam ento ainda estava em sua m ente quando ele ouviu o prim eiro zum bido terrível de um a pistola laser e sentiu a ponte guinar debaixo de si.

“Isso não está acontecendo!”, disse-lhe sua m ente.

Ouviu a Carreta Real derrapar de lado sobre o leito da estrada, depois a pancada da cobertura se abrindo. Um tum ulto de berros elevou-se atrás dele, m as não podia virar-se. O tabuleiro da ponte se havia inclinado acentuadam ente para o lado direito de Moneo, j ogando-o de cara no chão enquanto escorregava em direção ao abism o. Ele se agarrou a um cabo partido para se firm ar, m as o cabo desceu com ele, tudo raspando na fina cam ada de areia que cobrira o leito da estrada. Moneo agarrou-se ao cabo com am bas as m ãos, virando-se com ele. Então viu a Carreta Real. Estava escorregando na direção da beirada da ponte, a capota aberta. Hwi se erguia ali, um a das m ãos segura ao assento dobrável, enquanto ela olhava para além de Moneo.

Um horrível guincho de m etal se rasgando encheu o ar enquanto o leito da estrada se inclinava ainda m ais. Ele viu pessoas do cortej o caindo, as bocas abertas, os braços se batendo. Algum a coisa prendera o cabo de Moneo. Com os braços estendidos acim a da cabeça, ele virou-se um a vez m ais, rolando. Sentia as m ãos, lubrificadas pela transpiração do m edo, escorregarem ao longo do cabo.

E outra vez seu olhar se voltou para a Carreta Real. Ela se encontrava bloqueada de encontro aos tocos das vigas partidas. E, enquanto Moneo olhava, as m ãos inúteis do Im perador-Deus tentavam agarrar Hwi Noree, m as não conseguiam alcançá-la. E ela caiu da extrem idade aberta da carreta, silenciosam ente, o vestido dourado soprado para cim a pelo vento da queda, revelando seu corpo esticado, reto com o um a flecha apontando para baixo.

Um gem ido profundo, m eio ronco, escapou do Im perador-Deus.

“Por que ele não ativa os suspensores?” — perguntou-se Moneo. “Os suspensores irão suportá-lo.”

Mas a arm a laser continuava zum bindo e, quando as m ãos de Moneo escorregaram para fora da extrem idade do cabo partido, ele viu a flecha de cham a golpear as bolhas suspensoras da carreta, perfurando um a após a outra em erupções de fum aça dourada. Moneo esticou as m ãos sobre a cabeça enquanto caía.

“A fum aça! A fum aça dourada!”

Seu m anto chicoteou para cim a, virando-lhe o corpo até que seu rosto estava voltado na direção do abism o. Com o olhar nas profundezas, ele reconheceu o redem oinho das corredeiras fervilhantes lá em baixo, um espelho de sua vida — correntezas precipitando-se e m ergulhando, todo o m ovim ento reunindo toda a substância. As palavras de Leto serpentearam em sua m ente num a trilha de fum o dourado:

— A cautela é o cam inho para a m ediocridade. A m ediocridade flutuante, desapaixonada, é tudo que a m aioria das pessoas j ulga poder conquistar.

Moneo caiu livrem ente no êxtase da conscientização. O universo abria-se para ele com o um vidro transparente, tudo fluindo para o não-Tem po.

“A fum aça dourada!”

— Leto! — gritou ele. — Siay noq! Eu creio!

O m anto foi então arrancado de seus om bros. Ele girou no vento do cany on, tendo um ultim o vislum bre da carreta inclinando-se... inclinando-se no leito partido da estrada. E o Im perador-Deus escorregou da extrem idade aberta.

Algum a coisa sólida esm agou as costas de Moneo — sua últim a sensação.

Leto sentiu-se escorregando de cim a da carreta, sua consciência congelada na im agem de Hwi atingindo o leito do rio — um a distante fonte aperolada que m arcara seu m ergulho nos sonhos e m itos do fim . Suas últim as palavras, calm as e firm es, ainda lhe soavam na m em ória:

— Eu devo ir na frente, am or.

Quando caiu da carreta, ele viu o arco de cim itarra do rio, um a coisa de bordas lascadas que trem ulava em m eio às som bras, um a lâm ina de água afiada pela Eternidade e pronta agora para recebê-lo em sua agonia.

“Não posso gritar, não posso berrar”, pensou. “Nem m esm o as lagrim as m e são m ais possíveis. Elas são água e eu terei bastante água dentro de um instante. Só posso gem er em m inha dor. Estou sozinho, m ais sozinho do que j am ais estive.”

Seu grande corpo anelado flexionou-se enquanto caía, girando e torcendo-se até que sua visão am pliada revelou Siona de pé na extrem idade partida da ponte:

“Agora você vai aprender!”, pensou ele.

O corpo continuou a girar. Ele observou a aproxim ação do rio. A água era um sonho habitado pelos vislum bres dos peixes que ativavam a ancestral m em ória de um banquete ao lado de um a piscina de granito — carne rosada deslum brando seus apetites.

“Eu m e uno a você, Hwi, no banquete dos deuses!”

O clarão de um a explosão de bolhas o envolveu em agonia. Água, correntes violentas de água, o golpeavam de todos os lados. Sentiu o ranger das rochas enquanto lutava para subir, em ergindo num a cascata torrencial. Seu corpo flexionava-se num paroxism o involuntário, j ogando água para todos os lados com suas contorções. A Muralha do cany on, negra e úm ida, passava veloz em seu olhar frenético. Lantej oulas partidas do que fora sua pele explodiam para longe dele, um a chuva de prata à sua volta, m ergulhando no rio, um anel de m ovim entos deslum brantes e cequins quebradiços — o brilho de escam a das trutas da areia deixando para com eçar suas próprias vidas com o colônias.

Á agonia prosseguia. Leto adm irava-se de poder continuar consciente com tudo que seu corpo estava sentindo.

O instinto o im pulsionou. Ele agarrou-se a um a rocha em torno da qual a corrente o despej ara e sentiu um dos dedos se soltar de sua m ão antes que ele pudesse afrouxar o aperto. A sensação era apenas um tom m enor num a sinfonia de dor.

O curso do rio lançou-o para a esquerda em torno de um contraforte do abism o e, com o que dizendo que j á tivera o suficiente dele, j ogou-o rolando sobre a beira inclinada de um banco de areia. Ele ficou caído por um m om ento, a tinta azul da essência de especiaria flutuando para fora dele na correnteza. A agonia o fez m over-se, o corpo de verm e arrastando-se sozinho, afastando-o da água. Toda a cobertura de truta da areia se fora, e ele sentia cada toque m ais im ediato, um sentido perdido restaurado quando tudo que poderia trazer-lhe era m ais dor. Não podia enxergar o próprio corpo, m as sentia que um a coisa que teria sido um verm e se arrastava, contorcendo-se para longe da água. Olhou para cim a com olhos que viam tudo através das folhas de um a cham a em que as form as se coagulavam por vontade própria. E finalm ente reconheceu o lugar. O rio lançara-o num a curva onde abandonava para sem pre o Sareer. Além dele se encontrava Tuono e de um lado da Muralha estava tudo o que restara do Sietch Tabr — o reino de Stilgar, o lugar onde toda a especiaria de Leto estava escondida.

Exalando fum aças azuis, seu corpo se arrastou ruidosam ente ao longo de um a praia de cascalhos, deixando um a trilha de tinta azul sobre rochas partidas e um buraco úm ido que podia ter sido parte do sietch original. Agora era apenas um a caverna rasa, bloqueada na extrem idade interior por um desm oronam ento de rocha. Suas narinas relataram -lhe o cheiro úm ido de suj eira e o claro perfum e da essência de especiaria.

Sons penetraram em sua agonia. Ele virou-se no confinam ento da caverna e viu um a corda pendendo da entrada. Um a figura deslizou pela corda e ele reconheceu Nay la. Ela pulou para as rochas e se agachou, olhando para ele nas som bras. A cham a que era a visão de Leto abriu-se para revelar outra figura pulando da corda:

Siona. Nay la e ela correram em direção a ele, num barulho de pedras deslocadas, e pararam fitando-o. Um a terceira figura caiu da corda: Idaho. Ele se m ovia com um a ira frenética, lançando-se em direção a Nay la e gritando:

— Por que você a m atou? Não devia m atar Hwi!

Nay la o j ogou no chão com um m ovim ento quase indiferente de seu braço esquerdo. Ela subiu pelas rochas, apoiando-se nas m ãos e nos pés, e parou de quatro, olhando para Leto.

— Senhor? Está vivo?

Idaho estava bem atrás dela, arrancando do coldre a pistola laser. Nay la voltou-se, espantada, enquanto ele apontava a arm a e apertava o gatilho. A com bustão com eçou no topo da cabeça de Nay la e a fez estourar, os pedaços caindo separados. Um a brilhante faca cristalina pulou do uniform e em cham as e caiu nas rochas. Idaho não viu. Com um a careta de ira no rosto, continuou queim ando os pedaços de Nay la até que a carga da arm a se esgotou. O arco brilhante desapareceu e só restaram pedaços úm idos e fum egantes de carne e roupa espalhados entre as rochas em brasa.

Era o m om ento pelo qual Siona aguardara. Ela avançou até ele e tom ou a arm a inútil de suas m ãos. Ele lançou-se em direção a ela, que se colocou em posição para subj ugá-lo; m as todo o ódio se esgotara.

— Por quê? — sussurrou ele.

— Está feito — ela disse.

Voltaram -se olhando em direção a Leto nas som bras da caverna.

Leto nem podia im aginar o que eles viam . A pele de truta da areia se fora, disso ele sabia. Devia haver algum a espécie de superfície perfurada pelos orifícios dos cílios da pele que sum ira. Quanto ao resto, só podia devolver o olhar dessas duas figuras de um universo sulcado pela m ágoa. Através das cham as de sua m ente, via Siona com o um dem ônio fem inino. O nom e do dem ônio veio sem ser solicitado e ele falou num a voz alta, am pliada pela caverna e m uito m ais elevada do que teria esperado:

— Hanm y a!

— O quê? — Ela chegou um passo m ais perto dele.

Idaho colocou am bas as m ãos sobre o rosto.

— Olhe o que você fez ao pobre Duncan — disse Leto.

— Ele encontrará outros am ores. — Quão insensível ela soava, um eco de sua própria j uventude violenta.

— Você não sabe o que é am or — ele disse. — Que foi que você j á deu algum dia? — Ele só pôde retorcer as m ãos, os restos do que j á tinham sido suas m ãos. — Deuses, e o que foi que eu dei?

Ela se arrastou para m ais perto e estendeu a m ão em direção a ele, m as recuou.

— Eu sou real Siona. Olhe para m im . Eu existo. Você pode m e tocar se tiver coragem . Estenda sua m ão. Faça-o!

Lentam ente ela estendeu a m ão para o que tinha sido seu segm ento frontal, o lugar onde ela dorm ira no Sareer. A m ão estava m anchada de azul quando ela a retirou.

— Você m e tocou e sentiu o m eu corpo. Não é m ais estranho do que qualquer outra coisa no universo?

Ela com eçou a lhe virar as costas.

— Existe um a diferença entre nós — ele disse. — Você é Deus incorporado. Você cam inha dentro do m aior m ilagre deste universo, e no entanto se recusa a tocar, ver, sentir, acreditar.

A consciência de Leto flutuou para um lugar envolto pela noite, um lugar onde ele j ulgou poder ouvir o som m etálico de seus im pressores ocultos, m atraqueando num a sala sem luz. Havia um a ausência total de radiação nesse local, um a não-coisa Ixiana que fazia desse um lugar de ansiedade e alienação espiritual, pois não tinha ligação com o resto do universo.

“Mas vai ter um a ligação.”

Sentia que seus im pressores Ixianos tinham sido colocados em m ovim ento, que estavam registrando seus pensam entos sem qualquer com ando especial.

“Lem brem -se do que fiz! Lem brem -se de m im ! Serei inocente outra vez.

A cham a de sua visão dividiu-se para revelar Idaho de pé onde Siona ficara anteriorm ente. Havia um a gesticulação em algum ponto fora de foco, além de Idaho... ah, sim : Siona acenando instruções para alguém no topo da Muralha.

— Ainda está vivo? — perguntou Idaho.

A voz de Leto escapava em m eio ao chiado da respiração:

— Deixe-os dispersarem -se, Duncan. Deixe-os correr e se esconder em qualquer lugar que quiserem , no universo que escolherem .

— Maldito! Que está dizendo? Eu teria preferido deixá-la viver com você!

— Deixar? Eu não deixei coisa algum a.

— Por que deixou que Hwi m orresse? — gem eu Idaho. — Não sabíam os que ela estava lá com você.

A cabeça de Idaho tom bou para diante.

— Você será recom pensado — disse Leto com a voz rouca. — Minhas Oradoras Peixes vão escolher você em vez de Siona. Sej a bondoso com ela, Duncan. Ela é m ais do que Atreides e carrega consigo a sem ente da nossa sobrevivência.

Leto m ergulhou de volta em suas m em órias. Agora eram m itos delicados, m antidos por pouco tem po em sua consciência. Sentia ter caído num tem po que, pela própria natureza, m odificara o passado. Havia sons, contudo, e ele lutou para interpretá-los. “Alguém subindo nas rochas?” As cham as partiram -se para revelar Siona ao lado de Idaho. Eles estavam de m ãos dadas, com o duas crianças, um a tranqüilizando a outra antes de se aventurarem num lugar desconhecido.

— Com o ele pode viver assim ? — sussurrou Siona.

Leto esperou pela força para responder.

— Hwi m e aj uda — ele disse. — Nós tivem os um a coisa que poucos experim entaram . Nós nos unim os em nossas forças, e não em nossas fraquezas.

— E olhe para onde isso o levou! — retrucou Siona.

— Sim , e reze para que você consiga o m esm o. Talvez a especiaria lhe dê tem po — disse ele, rouco.

— Onde está a sua especiaria? — ela quis saber.

— Nas profundezas do Sietch Tabr. Duncan vai encontrá-la. Conhece o lugar, Duncan. Agora o cham am de Tabur. As linhas de relevo ainda estão lá.