O Imperador-Deus de Duna
— Eu não poderia falar com ela e...
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 2 partes.
— Não! Nunca tente persuadir Siona a coisa algum a. Prom eta-m e isso, Hwi.
— É claro, se m e pede, m as eu...
— Todos os deuses têm esse problem a, Hwi. Na percepção das necessidades m ais profundas, devo freqüentem ente ignorar as m ais im ediatas. E não responder às necessidades im ediatas é um a ofensa aos j ovens.
— Não poderia argum entar com ela e...
— Nunca tente argum entar com pessoas que sabem que estão certas!
— Mas quando sabe que elas estão erradas...
— Acredita em m im ?
— Sim .
— E se alguém tentasse convencê-la de que sou o m aior m al de todos os tem pos...
— Eu ficaria furiosa. Eu iria... — Ela se interrom peu.
— A razão só é valiosa — ele disse — quando atua sobre o panoram a físico, não-verbal, do universo.
Hwi franziu a testa, pensando. Fascinava Leto sentir-lhe o despertar da consciência.
— Ahhh — suspirou ela.
— Nenhum a criatura racional j am ais será capaz de negar novam ente a experiência de Leto — disse ele. — Vej o sua com preensão despertando. Despertar! É em torno disso que gira toda a vida!
Ela assentiu com a cabeça.
“Sem discussão”, pensou ele. “Quando percebe a trilha, ela a segue para descobrir aonde conduz.”
— Enquanto houver vida, cada fim é um início. Eu vou salvar a hum anidade até de si m esm a.
Novam ente ela assentiu. A trilha ainda conduzia para a frente.
— É por isso que, na perpetuação da hum anidade, nenhum a m orte pode ser um com pleto fracasso. É por isso que o nascim ento nos toca tão profundam ente. E por isso que a m orte m ais trágica é a m orte de um j ovem .
— E Ix ainda lhe am eaça o Cam inho Dourado. Sem pre soube que eles conspiravam para realizar algum a coisa m aligna.
“Eles conspiram . Hwi não percebe a m ensagem sub-reptícia em suas próprias palavras. Não tem necessidade de ouvi-la.”
Ele olhou para ela cheio de adm iração. Hwi possuía um a form a de honestidade que para alguns poderia parecer ingênua, m as que Leto reconhecia com o não sendo m eram ente inconsciente. A honestidade não era o seu núcleo, constituía a própria Hwi.
— Então vou m andar realizar um a exibição na praça am anhã — disse Leto. — Será um a exibição dos Dançarm os Faciais sobreviventes. Depois disso, nosso noivado será anunciado.
Que não reste dúvida de que eu sou uma reunião de meus ancestrais, uma arena na qual eles exercitam meus impulsos. Eles são minhas células e eu sou o corpo deles Esse é o favrashi através do qual eu falo, a alma, o inconsciente coletivo, a fonte dos arquétipos, o repositório de todo trauma e de toda alegria. E sou a escolha do seu despertar. Meu samhadi é o seu samhadi. Suas experiências são minhas. Seu conhecimento destilado é minha herança. Esses bilhões sou eu.
— Os diários roubados
A exibição dos Dançarm os Faciais ocupou quase duas horas do início da m anhã e depois veio o anúncio que enviou ondas de choque através da Cidade Festival.
— Faz séculos desde a últim a vez que ele escolheu um a noiva!
— Mais de m il anos, m inha cara.
O desfile das Oradoras Peixes fora breve. Elas o aplaudiram com entusiasm o, m as estavam perturbadas.
“Vocês são m inhas únicas noivas”, ele dissera. Não era esse o significado de Siay noq?
Leto achava que os Dançarm os Faciais haviam representado bem , a despeito de seu óbvio terror. Os traj es tinham sido encontrados nas profundezas de um m useu Frem en — m antos negros com capuz, cinturões de corda branca e falcões verdes, de asas abertas, sobre as costas — uniform es dos sacerdotes itinerantes do Muad’Dib. Junto com esses traj es, os Dançarm os Faciais haviam assum ido rostos som brios, cheios de rugas, e executaram um a dança que contava com o as legiões do Muad’Dib haviam espalhado a religião delas através do Im pério.
Hwi, usando um brilhante vestido prateado, com um colar de j ade verde, sentara-se ao lado de Leto na Carreta Real durante todo o ritual. Um a única vez ela se inclinou para j unto de seu rosto e perguntou:
— Isso não é um a paródia?
— Para m im , talvez.
— E os Dançarm os Faciais sabem disso?
— Suspeitam .
— Então não estão tão assustados quanto parecem .
— Oh, sim , estão assustados. Acontece apenas que eles são m ais valentes do que a m aioria das pessoas espera que sej am .
— A valentia pode ser tão tola — sussurrou ela.
— E vice-versa.
Ela lhe concedeu um olhar avaliador antes de retornar sua atenção para o espetáculo. Quase 200 Dançarm os Faciais haviam sobrevivido ilesos e todos eles tinham sido reunidos nessa dança. Os intrincados entrecruzam entos e posturas podiam fascinar a assistência. Era possível observá-los e, por algum tem po, esquecer os sangrentos acontecim entos anteriores a esse dia.
Leto lem brou-se disso ao se encontrar sozinho em sua pequena sala de reunião, pouco antes do m eio-dia, quando Moneo chegou. Moneo vira a Reverenda Madre Anteac em barcar num transporte ligeiro da Corporação, conferenciara com a Com andante das Oradoras Peixes a respeito da violência da noite anterior e fizera um rápido vôo de ida e volta à Cidadela para se certificar de que Siona estava bem vigiada e não estivera im plicada no ataque à Em baixada. Retornara a Onn logo após o anúncio do noivado, não tendo recebido qualquer aviso prévio.
Moneo estava furioso. Leto nunca o vira antes com tanta raiva. Ele entrou às pressas na sala e só parou a dois m etros do rosto de Leto.
— Agora vão acreditar nas m entiras dos Tleilaxu! — disse ele.
Leto respondeu num tom am istoso.
— Com o persiste essa exigência de que nossos deuses sej am perfeitos. Os gregos eram m uito m ais razoáveis quanto a essas coisas.
— Onde ela está? — ele quis saber. — Onde é que.
Hwi está repousando. Foi um a noite difícil e um a longa m anhã. Quero que ela estej a bem descansada quando retornarm os à Cidadela, esta noite.
— Com o foi que ela conseguiu isso?
— Realm ente, Moneo! Será que você perdeu todo o senso de cautela?
Estou preocupado com o Senhor! Tem idéia do que eles dizendo na Cidade?
Estou inteiram ente consciente dessas histórias.
— Que está fazendo?
— Sabe, Moneo, creio que apenas os velhos panteístas possuíam a idéia certa a respeito das divindades: fracos m ortais sob um disfarce im ortal.
Moneo ergueu am bos os braços para o céu.
— Eu vi a expressão no rosto deles! — Abaixou os braços.
— Isso terá se espalhado por todo o Im pério em duas sem anas.
— Certam ente levará m ais tem po que isso.
— Se seus inim igos precisavam de um a coisa para uni-los.
— Desonrar o deus é um a antiga tradição hum ana, Moneo. Por que deveria eu ser um a exceção?
Moneo tentou falar, m as se descobriu incapaz de pronunciar um a palavra. Cam inhou ao longo da borda do fosso que continha a carreta, depois cam inhou de volta, reassum indo a posição diante do rosto de Leto e olhando furioso para a sua face.
— Se vou aj udá-lo, preciso de um a explicação. Por que fez isso?
— Em oções.
A boca de Moneo form ou a palavra sem pronunciá-la.
— Elas vieram a m im quando eu pensava que j á as tinha perdido para sem pre — disse Leto. — E com o são doces estes últim os goles de hum anidade.
— Com Hwi? Mas certam ente não pode...
— Mem órias de em oções nunca são o suficiente, Moneo.
— Está m e dizendo que se entrega a um a.
— Entrega? Certam ente que não! Mas o tripé sobre o qual gira a Eternidade é com posto pela carne, o pensam ento e a em oção. Senti que estava reduzido à carne e ao pensam ento.
— Ela fez algum tipo de bruxaria — acusou Moneo.
— E claro que fez, e com o sou grato a ela por isso. Se negam os a necessidade do pensam ento, Moneo, com o alguns o fazem , perdem os o poder da reflexão; tornam o-nos incapazes de definir o que nossos sentidos relatam . Se negarm os a carne estarem os desgovernando o veículo que nos transporta. Mas, se negam os a em oção, perdem os todo o contato com o nosso universo interior.
E foram as em oções o que eu m ais perdi.
— Eu insisto, Senhor, para que...
— Está m e deixando zangado, Moneo. Essa é um a em oção.
Leto viu a fúria frustrada de Moneo esfriar, abafada com o ferro quente m ergulhado em água fria. Mas ainda restava nele um pouco de vapor.
— Não m e preocupo por m im , Senhor. Minha preocupação écom o Senhor, e sabe disso.
Leto falou suavem ente:
— E a sua em oção, Moneo, e eu a considero m uito.
Moneo respirou fundo, trêm ulo. Nunca tinha visto seu Im perador-Deus nesse estado de espírito, refletindo essa em oção. Leto parecia ao m esm o tem po exaltado e resignado, se Moneo o estava interpretando corretam ente. Não se podia ter certeza.
— Isso é que faz a vida valer a pena — disse Leto. — O que faz a vida cálida e cheia de beleza. E isso que quero preservar, m esm o que m e sej a negado.
— Então, essa Hwi Noree.
— Ela m e lem bra de m odo pungente o Jihad Butleriano. E a antítese de tudo que é m ecânico e não hum ano. Com o é singular, Moneo, que logo os Ixianos, dentre todos os povos, produzissem essa pessoa que incorpora tão perfeitam ente as qualidades que eu m ais aprecio.
Não com preendo sua referência ao Jihad Butleriano, Senhor. Máquinas que pensam não possuem lugar no...
— O alvo do Jihad eram as atitudes m ecânicas, tanto quanto as próprias m áquinas. Os seres hum anos criaram aquelas m áquinas para usurparem nosso senso de beleza, nossa necessária identidade, a partir da qual fazem os j ulgam entos vitais. Naturalm ente, as m áquinas foram destruídas.
— Senhor, ainda m e ressinto do fato de dar boas-vindas a um a...
— Moneo! Hwi m e tranqüiliza m eram ente com sua presença. Pela prim eira vez em séculos não m e sinto solitário, a não ser quando ela está longe de m im . Se eu não precisasse de outra prova de em oção, essa serviria.
Moneo ficou em silêncio, obviam ente sensibilizado pela evocação da solidão de Leto. Certam ente podia com preender o que significava não poder partilhar as intim idadas do am or. Sua expressão revelava isso.
E, pela prim eira vez em m uito tem po, Leto notou o quanto Moneo estava envelhecido.
“Acontece tão repentinam ente com eles”, pensou.
Isso deixou Leto profundam ente consciente de o quanto se im portava com Moneo.
“Eu não devia deixar que essas ligações em ocionais acontecessem com igo, m as não posso evitar... principalm ente agora que Hwi está aqui.”
— Eles vão rir do Senhor e fazer piadas obscenas — disse Moneo.
— Isso é bom .
— Com o pode ser bom ?
— E algo novo. Nossa tarefa sem pre foi colocar o novo em equilíbrio e com ele m odificar o com portam ento, sem com prom eter a sobrevivência.
— Mesm o assim , com o pode gostar de um a coisa dessas?
— A invenção de obscenidades? Qual é o oposto da obscenidade?
Os olhos de Moneo arregalaram -se num súbito questionam ento. Ele j á vira a ação de m uitas polaridades — um a coisa sendo conhecida pelo seu oposto.
“As coisas destacam -se contra um fundo que as define”, Leto pensou. “Certam ente Moneo perceberá isso.”
— E m uito perigoso — advertiu Moneo.
“O veredicto final do conservadorism o.”
Moneo não estava convencido. Um profundo suspiro o fez estrem ecer.
“Preciso m e lem brar de que não devo afastar suas dúvidas”, pensou Leto. “Foi assim que falhei na praça, ante m inhas Oradoras Peixes. Os Ixianos estão segurando a borda esfarrapada das dúvidas hum anas. Hwi é um a evidência disso.”
Um a perturbação soou na ante-sala. Leto selou o portal contra qualquer intrusão im petuosa.
— Meu Duncan chegou — com entou ele.
— Provavelm ente j á ouviu sobre seus planos de casam ento...
— Provavelm ente.
Leto percebeu que Moneo lutava com suas dúvidas, seus pensam entos inteiram ente transparentes. Naquele m om ento, Moneo se encaixava tão perfeitam ente em seu nicho hum ano que Leto tinha vontade de abraçá-lo.
“Ele representa todas as variações: confiança e dúvida, am or e ódio... tudo! Todas as qualidades que são desfrutadas no calor de um a em oção, no desej o de se entregar à Vida.”
— Com o é que Hwi está aceitando isso? — perguntou Moneo.
Leto sorriu. “Já que Moneo não pode duvidar de m im , tem que duvidar dos outros.”
— Adm ito que esta não é um a união convencional: ela é prim ata e eu não o sou m ais inteiram ente.
Novam ente Moneo se debateu com todas as coisas que só podia sentir, m as não expressar.
Observando Moneo, Leto sentia o fluxo de um a consciência observacional, um processo de pensam ento que ocorria tão raram ente, m as com o um a am pliação tão vivida, quando acontecia, que Leto nem se m exia para não causar a m enor ondulação no fluxo.
“O prim ata pensa e, ao pensar, sobrevive. Debaixo desse pensam ento existe um a coisa que vem com as células. E a corrente da preocupação hum ana para com a espécie: algum a coisa que eles disfarçam , prendem e escondem debaixo de barreiras espessas, m as eu j á sensibilizei Moneo deliberadam ente para essa atuação do seu eu m ais interior. Ele m e segue porque acredita que guardo o m elhor cam inho para a sobrevivência hum ana. Sabe que existe um a consciência celular. E o que descubro quando esquadrinho o Cam inho Dourado. Isso é hum anidade e nós dois concordam os: deve perm anecer!”
— Onde, quando e com o será conduzida essa cerim ônia? perguntou Moneo.
Não por quê?, notou Leto. Moneo não m ais buscava entender o porquê. Retornara ao terreno seguro. Era o m aj ordom o, o diretor da casa do Im perador-Deus, seu Prim eiro-Ministro.
“Ele tem nom es, verbos, adj etivos e advérbios com os quais pode agir. As palavras trabalharão para ele ao seu m odo habitual. Talvez Moneo j am ais vislum bre o potencial transcendente de suas palavras, m as entende bem seus usos m undanos.”
— E quanto à m inha pergunta? — insistiu Moneo.
Leto piscou para ele, pensando: “Eu, por outro lado, sinto que as palavras são m ais úteis quando m e descortinam um vislum bre de lugares atraentes e ainda não descobertos. Mas o uso das palavras é bem pouco com preendido por um a civilização que ainda acredita, sem questionar, num universo m ecânico de causas e efeitos absolutos — obviam ente redutíveis a um a única causa-raiz e a um efeito prim ário.”
— Com o um a craca, o sofism a Ixiano-Tleilaxu se agarra aos negócios hum anos.
— Senhor, perturba-m e profundam ente quando não presta atenção.
— Mas eu presto atenção, Moneo.
— Não em m im .
— Até m esm o em você.
— Sua atenção vagueia, Senhor. Não precisa ocultar isso de m im : Eu trairia a m im m esm o antes de trair o Senhor.
— Acha que estou sonhando acordado?*
* Devanear, sonhar acordado, — no original, woolgathering, literalm ente “colher lã” — gerou essa cadeia de pensam entos na m ente de Leto (N. do T.)
— Sonhando o quê, Senhor? — Moneo nunca antes questionara essa palavra, m as agora.
Leto explicou a alusão, pensando: “Quão ancestral!” Os teares e lançadeiras funcionando na m em ória de Leto. “Pele de anim al para traj es hum anos... de caçador para pastor... os longos passos ao longo da escada rum o à consciência... e agora eles devem dar outro longo passo, m aior ainda que os anteriores.”
— Está se deixando levar por pensam entos fúteis — acusou Moneo.
— Tenho tem po para pensam entos fúteis. Essa é um a das coisas m ais interessantes a respeito da m inha existência com o m ultidão singular.
— Mas, Senhor, existem assuntos que exigem sua.
— Você ficaria surpreso com o que pode surgir a partir de pensam entos fúteis, Moneo. Nunca m e im portei de dedicar um dia inteiro a coisas com as quais um ser hum ano não gastaria nem um m inuto. Por que não? Com m inha expectativa de vida em torno de 4 m il anos, que é um dia a m ais ou a m enos? Quanto tem po conta um a vida hum ana? Um m ilhão de m inutos? Já vivi quase tantos dias quanto isso.
Moneo ficou im óvel, em silêncio, inferiorizado por essa com paração. Sentia sua própria vida reduzida a um cisco no olho de Leto. — E a fonte dessa alusão não lhe passou despercebida.
“Palavras... palavras... palavras...”, pensou Moneo.
— As palavras são quase sem pre inúteis em assuntos do coração — disse Leto.
Moneo conteve sua respiração a um m ínim o. “O Senhor pode ler pensam entos!”
— Através da nossa história — continuou Leto —, o uso m ais poderoso das palavras tem sido o de enlaçar algum acontecim ento transcendental, dando a esse acontecim ento um lugar nos registros aceitos, explicando esse acontecim ento de tal m odo que possam os m ais tarde usar tais palavras e dizer: “Era isso que significava.”
Moneo sentiu-se derrotado por essas palavras, terrificado pelas coisas im plícitas que elas podiam fazê-lo pensar.
— E assim que os acontecim entos se perdem na história concluiu Leto.
Depois de um longo silêncio, Moneo arriscou:
— Não respondeu a m inha pergunta, Senhor. E o casam ento?
“Com o ele parece cansado”, pensou Leto. “Totalm ente derrotado.”
Falou rapidam ente:
— Nunca precisei tanto de seus serviços. O casam ento deve ser realizado com o m aior cuidado. Necessito da precisão de que só você é capaz.
— Onde, Senhor?
“Um pouco m ais de vida na voz dele.”
— Na Vila de Tabur, no Sareer.
— Quando?
— Deixo a data por sua conta. Avise quando todas as coisas estiverem prontas.
— E quanto à cerim ônia em si?
— Você a conduzirá.
— Vai precisar de assistentes, Senhor? Artefatos de algum tipo?
— Os param entos do ritual?
— Algum a coisa que eu possa não...
— Não vam os precisar de m uita coisa para a nossa pequena charada.
— Senhor! Eu lhe suplico! Por favor...
— Você se colocará ao lado da noiva e a entregará no casam ento.
Usarem os o ritual dos Antigos Frem en.
— Vai precisar de anéis de água, então.
— Sim ! Vou usar os anéis de água de Ghani.
— E quem com parecerá à cerim ônia, Senhor?
— Som ente um a guarda de Oradoras Peixes e a aristocracia.
Moneo olhou para o rosto de Leto.
— O que... o que m eu Senhor cham a de aristocracia?
— Você, sua fam ília, o séquito da casa, os cortesãos da Cidadela.
— Minha fam ... — Moneo engoliu em seco. — Está incluindo Siona?
— Se ela sobreviver ao teste.
— Mas...
— Ela não pertence à fam ília?
— E claro, Senhor. Ela é um a Atreides e...
— Então inclua Siona!
Moneo tirou de dentro do bolso um m inúsculo m em ogravador, artefato Ixiano preto e desprovido de detalhes, cuj a própria existência feria as prescrições do Jihad Butleriano. Um suave sorriso tocou os lábios de Leto. Moneo conhecia seus deveres e iria executá-los.
O clam or de Duncan Idaho, do lado de fora do portal, tornou-se m ais estridente, m as Moneo ignorou esse som .
“Moneo conhece o preço dos seus privilégios”, pensou Leto. “E outro tipo de casam ento — o casam ento entre o privilégio e o dever. E a explicação do aristocrata e sua desculpa.”
Moneo term inou de tom ar suas notas.
— Alguns detalhes, Senhor — disse Moneo. — Haverá algum traj e especial para Hwi?
— O traj e destilador e o m anto de um a noiva Frem en, os autênticos.
— Jóias ou outras quinquilharias?
O olhar de Leto fixou-se nos dedos de Moneo, os dedos arranhando o m inúsculo gravador, e viu ali a dissolução.
“Liderança, coragem , senso de conhecim ento e de ordem Moneo possui tudo isso em abundância. Eles o cercam com o um a aura sagrada, m as ocultam de todos os olhos, exceto dos m eus, a podridão que o devora por dentro. E inevitável. E se eu partisse ela se tornaria visível para todos.”
— Senhor? — Moneo insistiu. — Está devaneando?
“Ah! Ele gosta da palavra!”
— Isso é tudo — disse Leto. — Apenas o m anto, o traj e destilador e os anéis de água.
Moneo curvou-se e se afastou.
“Ele está olhando para a frente agora”, Leto pensou. “Mas m esm o essa novidade vai passar. Ele se voltará para o passado um a vez m ais. E eu j á tive tantas esperanças em relação a ele. Bem ... talvez Siona...”
“Não crie heróis”, disse m eu pai.
— A voz de Ghanim a,
Da História Oral
Só pelo m odo com o Idaho cam inhou pela pequena câm ara, seus gritos exigindo um a audiência agora recom pensados, Leto pôde ver um a im portante transform ação no ghola: era um a coisa que j á se repetira tantas vezes que se tornara profundam ente fam iliar para ele. O Duncan nem m esm o cum prim entara Moneo, que saía. Tudo se encaixava num padrão. E com o o padrão se tornara aborrecido!
Leto tinha um nom e para essa transform ação nos Duncans. Cham ava-a de “Síndrom e do Desde”.
Os gholas freqüentem ente nutriam suspeitas a respeito de coisas secretas que poderiam ter sido desenvolvidas através dos séculos de esquecim ento, desde sua últim a consciência relem brada. O que as pessoas tinham feito durante todo esse tem po? Por que elas poderiam querer a m im , esta relíquia do passado? Nenhum ego poderia dom inar tais dúvidas para sem pre — especialm ente num hom em desconfiado.
Um dos gholas acusara Leto:
— O Senhor colocou coisas no m eu corpo. Coisas que eu desconheço! Essas coisas no m eu corpo lhe dizem tudo o que estou fazendo! Sou espionado por toda parte!
Outro o acusara de possuir “um a m áquina m anipuladora que nos obriga a fazer tudo o que desej a que façam os”.
Um a vez desencadeada, a “Síndrom e do Desde” nunca m ais era inteiram ente elim inada. Podia ser freada, desviada, m as a sem ente dorm ente brotaria à m enor provocação.
Idaho parou onde Moneo estivera e havia um a expressão velada, de suspeitas não-especificadas, em seus olhos, na disposição de seus om bros. Leto deixou que a situação fervesse, levando essa condição à consciência. O olhar de Idaho fixou-se no seu, depois se afastou para exam inar a sala. Leto reconheceu os sentim entos que havia por trás daquele olhar.
“Os Duncans nunca esquecem .”
Enquanto estudava a disposição da sala, usando os artifícios de percepção que lhe haviam sido ensinados séculos atrás por Lady Jessica e pelo Mentat Thufir Hawat, Idaho com eçou a perceber um sentim ento atordoante de afastam ento. Julgou que a sala o rej eitava, cada coisa que havia nela — as alm ofadas m acias: coisas grandes e bulbosas, feitas de ouro verde e de um verm elho que era quase roxo; os tapetes Frem en, cada qual um a peça de m useu, dobrando-se um sobre o outro em espessas pilhas em torno do fosso de Leto; a falsa luz solar de um globo lum inoso Ixiano, que envolvia o rosto do Im perador num calor seco, tornando as som bras ao redor m ais profundas e m isteriosas; o cheiro do chá de especiaria, vindo de algum lugar próxim o; e aquele rico odor de m elange que se irradiava do corpo de verm e.
Idaho sentia que m uita coisa lhe havia acontecido, e m uito rapidam ente, desde que os Tleilaxu o tinham abandonado à m ercê de Luli e da Am iga naquela despoj ada cela de prisão.
“Muita coisa... m uita coisa...”
“Estarei aqui realm ente?”, perguntou-se: “Será que este sou eu? Que pensam entos são esses que eu estou tendo?”
Olhou para o corpo im óvel de Leto, aquela m assa enorm e e som bria que j azia, silenciosa, na carreta dentro do fosso. A própria im obilidade daquela m assa carnuda apenas sugeria energias m isteriosas, energias terríveis que poderiam ser liberadas de form as que ninguém m ais poderia prever.
Idaho ouvira histórias a respeito da luta na Em baixada Ixiana, m as os relatos das Oradoras Peixes tinham um a aura de intervenção m ilagrosa que obscurecia os dados físicos.
— Ele caiu voando sobre eles e executou um terrível m assacre entre os pecadores.
— Com o foi que ele fez isso? — perguntara Idaho.
— Ele era um Deus irado — respondera a inform ante.
“Irado”, pensou Idaho. “Teria sido por causa da am eaça a Hwi?” As histórias que ele tinha ouvido! Nenhum a era convincente. Hwi casando-se com essa m assa... Não era possível! Não a encantadora Hwi, a Hwi de suave delicadeza. “Ele está fazendo algum j ogo terrível, está nos testando... nos testando...” Não havia um a realidade honesta nessa época, paz algum a, exceto a presença de Hwi. Tudo m ais era insanidade.
Enquanto voltava a atenção para o rosto de Leto — aquela face Atreides esperando em silêncio —, o senso de estar deslocado tornou-se ainda m ais forte em Idaho. Com eçou a im aginar se, por um sutil aum ento de esforço m ental, ao longo de algum a estranha trilha nova, ele não poderia rom per as barreiras fantasm agóricas e relem brar todas as experiências dos outros Ghola Idahos.
“Que será que eles pensavam quando entravam nesta sala? Será que sentiam esta sensação de deslocam ento, esta rej eição?”
“Só com um pequeno esforço extra.”
Sentiu-se tonto e im aginou que poderia desm aiar.
— Há algo errado, Duncan? — Era o tom de voz m ais calm o e m oderado que Leto podia conseguir.
— Não é real — disse Idaho. — Não pertenço a este lugar.
Leto preferiu fazer-se de m al-entendido.
— Mas m inha guarda m e diz que você veio até aqui por sua própria escolha, que você viaj ou de tóptero desde a Cidadela e exigiu um a audiência im ediata.
— Eu quero dizer aqui, agora! Nesta época!
— Mas eu preciso de você.
— Para quê?
— Olhe à sua volta, Duncan. As m aneiras pelas quais você pode m e aj udar são tão num erosas que você não poderia realizá-las todas.
— Mas aquelas suas m ulheres não m e deixam lutar! Cada vez que tento ir para onde está a...
— Está questionando o fato de ser m ais valioso vivo do que m orto? — Leto fez um som cacarej ante, depois disse: — Use a cabeça, Duncan! É isso o que eu valorizo m ais.
— E m eu esperm a? Que valor ele tem ?
— O esperm a é seu para o colocar onde desej ar.
— Não quero deixar para trás viúva e órfãos, da m aneira com o...
— Duncan! Eu disse que a escolha é sua.
Idaho engoliu em seco:
— Você com eteu um crim e contra nós, Leto, um crim e contra nós todos: os gholas que ressuscita sem j am ais nos perguntar se é isso que desej am os.
Essa era um a novidade em relação ao pensam ento dos Duncans. Leto olhou para Idaho com renovado interesse.
— Que crim e?
— Oh, eu o ouvi cuspindo profundos pensam entos — acusou Idaho. Apontou o dedo por sobre o om bro, indicando a entrada do aposento. — Sabe que pode ser ouvido lá fora, na ante-sala.
— Quando desej o ser ouvido, sim . (“Mas som ente m eus diários ouvem tudo!”) Mas gostaria de saber a natureza do m eu crim e.
— Há um tem po, Leto, um tem po em que você está vivo. O tem po em que você deve estar vivo. Pode haver um a espécie de m ágica nesse tem po, algo que você sente enquanto está vivendo nele. E você sabe que nunca m ais vai haver um a época com o essa.
Leto piscou, sensibilizado pela angústia do Duncan. As palavras eram evocativas.
Idaho elevou am bas as m ãos, com as palm as para cim a, à altura do peito, um m endigo pedindo um a coisa que ele sabia não poder receber.
— Então... você acorda e relem bra sua m orte... e relem bra os tanques axlotl... e a m aldade dos Tleilaxu que despertou você... e se supõe que tudo vá com eçar de novo. Mas não com eça. Nunca é m ais o que era. Isso é um crim e!
— Eu tirei a m ágica?
— Sim !
Idaho deixou as m ãos caírem nos lados do corpo e as com prim iu em punhos. Sentia-se arrastado na crista de um a vaga que iria afogá-lo à m enor distração.
“E quanto à é oca?” Leto pensou “Isso tam bém nunca vai acontecer de novo. Mas o Duncan não entenderia a diferença.”
— Que o fez vir correndo desde a Cidadela? — perguntou Leto.
Idaho respirou fundo e então:
— E verdade? Vai se casar?
— E verdade.
— Com essa Hwi Noree, a Em baixadora Ixiana?
— Correto.
Idaho lançou um rápido olhar ao longo do com prim ento de Leto.
“Eles sem pre procuram os órgãos genitais”, pensou Leto. “Talvez eu devesse ter feito algum a coisa, um a protuberância volum osa para deixá-los chocados.” Sufocou a risada que am eaçava escapar de sua garganta. “Outra em oção am pliada. Obrigado por isso, Hwi. Obrigado, Ixianos.”
Idaho sacudiu a cabeça.
— Mas você...
— Existem outros elem entos fortes num casam ento, além do sexo — disse Leto.— Vam os ter filhos de nossa própria carne? Não. Mas os efeitos dessa união serão profundos.
— Eu ouvi enquanto estava falando com Moneo — disse Idaho. — Pensei que fosse algum tipo de piada, um a...
— Cuidado, Duncan!
— Realm ente a am a?
— Mais profundam ente do que qualquer hom em j am ais am ou um a m ulher.
— Bem , e quanto a ela? Será que ela.
— Ela sente um a... um a com paixão arrebatadora, um a necessidade de partilhar com igo, de dar o que puder dar. E a natureza dela.
Idaho suprim iu um sentim ento de repugnância.
— Moneo está certo. Vão acreditar nas histórias dos Tleilaxu.
— Esse será um dos efeitos profundos.
— E ainda quer que eu... que eu procrie com Siona!
— Você conhece m eus desej os. Eu deixo a escolha para você.
— Quem é aquela m ulher? Aquela Nay la?
— Você j á conheceu Nay la? Ótim o.
— Ela e Siona agem com o irm ãs. Aquela brutam ontes! Que está acontecendo entre elas, Leto?
— O que você gostaria que estivesse acontecendo? E que im portância tem isso?
— Nunca conheci um a pessoa tão brutal! Ela m e faz lem brar Raban, a Besta. Você nunca saberia que ela é um a m ulher se ela não...
— Vocês j á se encontraram antes. Conheceu-a com o Am iga. Idaho olhou para ele num rápido silêncio, o silêncio de um a criatura rasteira que sente a aproxim ação do falcão.
— Então confia nela? — perguntou Idaho.
— Confiar? Que é confiar?
“O m om ento está chegando”, pensou Leto. Podia ver a coisa se form ando nos pensam entos de Idaho.
— Confiança é aquilo que se dá num voto de lealdade — ele disse.
— Com o a confiança que existe entre m im e você? — perguntou Leto.
Um sorriso am argo tocou os lábios de Idaho.
— Então é isso que você está fazendo com Hwi Noree? Um a associação, um com prom isso de.
— Hwi e eu j á confiam os um no outro.
— Confia em m im , Leto?
— Se eu não puder confiar em Duncan Idaho, então em quem m ais poderei confiar?
— E se eu não puder confiar em você?
— Então terei pena de você.
Idaho recebeu isso com um choque quase físico. Seus olhos se arregalaram com as obrigações não-verbalizadas. Ele queria confiar. Queria a m agica que não viria nunca m ais.
Então Idaho indicou que seus pensam entos partiam num a curiosa tangente.
— Eles podem nos ouvir lá na ante-sala?
— Não. (“Mas m eus diários ouvem !”)
— Moneo estava furioso. Qualquer um podia ver. Mas saiu com o um carneiro dócil.
— Moneo é um aristocrata. Está casado com o dever, com as responsabilidades. Quando se lem bra dessas coisas, sua raiva desaparece.
— Então é assim que o controla?
— Ele controla a si m esm o — disse Leto, relem brando com o Moneo olhara para cim a, depois de tom ar notas, não à espera de um a aprovação, m as para estim ular seu senso de dever.
— Não — insistiu Idaho. — Ele não se controla. É você que o faz.
— Moneo está preso ao passado por vontade própria. Eu não fiz isso.
— Mas ele é um aristocrata... Um Atreides.
Leto relem brou as feições envelhecidas de Moneo, pensando em com o era inevitável que a aristocracia se recusasse a cum prir sua derradeira obrigação — que era sair do cam inho e desaparecer na história. Ele teria que ser afastado. E o seria. Nenhum aristocrata j am ais superara as exigências de m udança.
Idaho ainda não havia term inado.
— Não é um aristocrata, Leto?
Leto sorriu.
— A derradeira aristocracia m orre em m im . — E pensou:
“O privilégio transform a-se em arrogância. A arrogância prom ove a inj ustiça. As sem entes da ruína desabrocham .”
— Talvez eu não vá ao seu casam ento. Nunca m e im aginei com o um aristocrata.
— Mas você o foi. Foi o aristocrata da espada.
— Paul era m elhor — lem brou Idaho.
Leto falou com a voz do Muad’Dib:
— Porque você m e ensinou! — Depois voltou ao tom norm al:
— A tarefa im plícita da aristocracia é ensinar, por vezes através de um horrível exem plo.
E ele pensou: “O orgulho do berço leva às fraquezas do casam ento consangüíneo e à m iséria. Está aberto o cam inho para o orgulho da riqueza e das realizações. Entram os novos-ricos, m ontando no poder com o os Harkonnen o fizeram , nas costas do ancient régim e.”
O ciclo repetia-se com tam anha insistência que Leto achava que alguém j á devia ter percebido com o ele se fundira a padrões de sobrevivência de que a espécie j á não necessitava, m as nunca perdera.
“Mas não. Ainda carregam os conosco um detrito que devem os elim inar.”
— Existirá algum a fronteira? — perguntou Idaho Algum a fronteira onde eu pudesse m e perder e nunca m ais ser parte disto?
— Se há algum a fronteira, então você deve aj udar-m e a criá-la — disse Leto. — Não existe atualm ente qualquer lugar para ir aonde outros de nós não possam segui-lo e encontrá-lo.
— Então não m e deixaria partir?
— Vá, se quiser. Outros de você tentaram . Digo-lhe que não existe fronteira, nenhum lugar para se esconder. Agora m esm o, com o tem sido há m uito, m uito tem po, a hum anidade é com o um a criatura unicelular, unida por um a perigosa cola.
— Nenhum planeta novo? Nenhum a estranha...
— Oh, nós crescem os, m as não nos separam os.
— Porque você nos m antém unidos! — acusou ele.
— Não sei se você pode entender isto, Duncan, m as se existe um a fronteira, algum tipo de fronteira, então o que se encontra atrás de você não pode ser m ais im portante do que o que j az adiante.
— Você é o passado!
— Não, Moneo é que é o passado. Ele é m uito rápido na hora de erguer as tradicionais barreiras aristocráticas contra todas as fronteiras. Você deve entender o poder dessas barreiras. Elas não apenas envolvem os planetas e as terras desses planetas, m as envolvem as idéias. Elas reprim em a m udança.
— Você reprim e a m udança!
“Ele não vai se desviar”, pensou Leto. “Mais um a tentativa.”
— O sinal m ais seguro de que existe um a aristocracia é a descoberta de barreiras contra a m udança, cortinas de ferro, de aço, pedra ou qualquer substância que exclua o novo, o diferente.
— Sei que deve haver um a fronteira em algum a parte disse Idaho. — Você a está escondendo.
— Não escondo fronteira algum a. Eu quero fronteiras! Quero surpresas!
“Eles chegam direto ao ponto”, pensou Leto, “e então se recusam a atingi-lo.”
Confirm ando essa previsão, os pensam entos de Idaho dispararam em nova trilha.
— Realm ente fez com que Dançarm os Faciais se exibissem no seu noivado?
Leto sentiu um im pulso de raiva, seguido im ediatam ente por um prazer perverso ante o fato de poder sentir em oções com tal profundidade. Queria deixar que essa em oção gritasse para o Duncan, m as isso nada resolveria.
— Os Dançarm os Faciais se exibiram — confirm ou.
— Por quê?
— Eu queria que todos com partilhassem m inha felicidade.
Idaho olhou para ele com o se tivesse acabado de descobrir um inseto repelente em sua bebida. Com voz tranqüila, ele disse:
— Essa é a coisa m ais cínica que j á ouvi um Atreides dizer.
— Mas um Atreides a disse.
— Está deliberadam ente tentando m e enrolar! Está evitando m inha pergunta.
“Outra vez na briga”, pensou Leto. E disse:
— Os Dançarm os Faciais de Bene Tleilaxu são um a colônia de organism os. Individualm ente, são híbridos. Essa é um a escolha que eles fazem para e por si m esm os.
Leto esperou, pensando: “Devo ser paciente. Eles precisam descobrir por si m esm os. Se eu disser, não vão acreditar. Pense, Duncan, pense!”
Depois de um longo silêncio, Idaho disse:
— Fiz o m eu j uram ento. Isso é im portante para m im . Ainda é im portante. Não sei o que você está fazendo nem por quê.
— Foi por isso que voltou da Cidadela?
— Sim .
— Vai voltar para lá agora?
— Que outra fronteira existe?
— Muito bom , Duncan! Sua raiva sabe, m esm o que sua razão não saiba. Hwi vai para a Cidadela esta noite. Eu m e j untarei a ela am anhã.
— Gostaria de poder conhecê-la m elhor — disse Idaho.
— Você vai evitá-la — disse Leto. — E isso é um a ordem . Hwi não é para você.
— Sem pre soube que havia bruxas — disse Idaho. — Sua avó era um a.
Ele virou-se nos calcanhares e, sem pedir perm issão para sair, cam inhou de volta por onde tinha vindo.
“Com o ele parece um m enino”, pensou Leto, observando a rigidez nas costas de Idaho. “O hom em m ais velho do nosso Universo e o m ais j ovem — am bos num só corpo.”
O profeta não se desvia com ilusões de passado, presente e futuro. A fixação da linguagem determina distinções muito lineares. Os profetas guardam a chave da fechadura que existe na linguagem. A imagem mecânica permanece apenas uma imagem para eles. Este não é um universo mecânico. A progressão linear de eventos é imposta pelo observador. Causa e efeito? Isso não é tudo. O profeta pronuncia as palavras fatídicas. Você vislumbra uma coisa “destinada a ocorrer”. Mas o instante profético libera algo de infinito prodígio e poder. O universo sofre uma mudança fantasmagórica e assim o sábio profeta oculta a realidade por trás de rótulos cintilantes. O não-iniciado então acredita que a linguagem profética é ambígua. O ouvinte desconfia do mensageiro profético. O instinto lhe diz como a pronúncia embota o poder de tais palavras, e os melhores profetas o levam através de uma cortina e deixam que você olhe por si mesmo.
— Os diários roubados
Leto falou com Moneo usando a voz m ais fria que j am ais usara.
— O Duncan m e desobedece.
Encontravam -se na sala elevada, feita de pedra dourada, no topo da Torre Sul da Cidadela. Era o terceiro dia desde o Festival Decenal de Onn. Um portal aberto ao lado dele revelava a luz im placável do m eio-dia no Sareer. O vento fazia um som ululante através da abertura, erguendo poeira e areia, que faziam com que Moneo m antivesse as pálpebras sem icerradas. Leto parecia não notar essa irritação. Olhava para o Sareer, onde o ar estava vivo com os m ovim entos do calor. O distante fluir das dunas sugeria um a m obilidade na paisagem que som ente seus olhos observavam .
Moneo encontrava-se im erso nos odores rançosos do seu próprio m edo, sabendo que o vento transm itia a m ensagem desses odores aos sentidos de Leto. Os preparativos para o casam ento tinham perturbado as Oradoras Peixes — tudo era paradoxal, lem brando a Moneo algum a coisa que o Im perador-Deus dissera nos prim eiros dias de sua ligação.
“O paradoxo é um indicador que lhe pede para olhar além dele. Se os paradoxos o incom odam , isso revela seu profundo desej o de absolutos. O relativista trata os paradoxos com o m eram ente interessantes, talvez divertidos ou m esm o — que pensam ento terrível — educativos.”
— Você não responde — disse Leto. Ele se voltou de sua observação do Sareer e focalizou o peso de suas atenções sobre Moneo.
Moneo só podia encolher os om bros. “Quão próxim o estará o Verm e?”, perguntou-se. Já reparara que o retorno de Onn para a Cidadela algum as vezes despertava o Verm e. Nenhum sinal daquela horrível m udança no Im perador-Deus se revelara ainda, m as Moneo podia senti-la. Será que o Verm e poderia chegar sem aviso?
— Acelere os preparativos para o casam ento — disse Leto.
— Faça-o acontecer assim que sej a possível.
— Antes de testar Siona?
Leto ficou em silêncio por um m om ento, e então:
— Não. Que vai fazer quanto ao Duncan?
— Que desej aria que eu fizesse, Senhor?
— Eu disse a ele que não fosse ver Noree, que a evitasse. Eu lhe disse que era um a ordem .
— Ela tem sim patia por ele, Senhor, nada m ais.
— Por que m otivo ela teria sim patia por ele?
— Ele é um ghola, não possui ligação com nossa época, não tem raízes.
— Ele tem raízes tão profundas quanto as m inhas!
— Mas ele não sabe disso, Senhor.
— Está discutindo com igo, Moneo?
Moneo recuou m eio passo, consciente de que isso não o afastava do perigo.
— Oh, não, Senhor! Mas sem pre tento lhe dizer com sinceridade o que realm ente acredito estar acontecendo.
— Vou dizer a você o que está acontecendo. Ele a está cortej ando.
— Mas é ela que tom a a iniciativa dos encontros, Senhor.
— Então você sabia disso!
— Não sabia que fora term inantem ente proibido, Senhor.
Leto falou com um a voz m editativa:
— Ele é hábil com as m ulheres, Moneo, extraordinariam ente hábil. Ele vê dentro da alm a delas e as faz realizarem o que quer. Tem sido sem pre assim com os Duncans.
— Não sabia que tinha proibido todos os encontros entre eles, Senhor! — A voz de Moneo era quase estridente.
— Ele é m ais perigoso que qualquer um dos anteriores. E um sinal dos nossos tem pos.
— Senhor, os Tleilaxu ainda não têm pronto um sucessor para ele.
— E nós precisam os deste?
— O Senhor m esm o disse isso. E um paradoxo que não entendo, m as o Senhor disse.
— Quanto tem po até que possa vir um substituto?
— No m ínim o um ano, Senhor. Devo indagar-lhes quanto a um a data específica?
— Faça isso hoj e.
— Ele pode ouvir a respeito, Senhor. O anterior ouviu.
— Não quero que aconteça desse m odo, Moneo!
— Eu sei, Senhor.
— E não m e atrevo a falar a respeito disso com Noree. O Duncan não é para ela. E no entanto não posso feri-la! — A últim a frase foi quase um lam ento.
Moneo ficou em silêncio, adm irado.
— Não pode perceber isso? — exigiu Leto. — Moneo, aj ude-m e.
— Percebo que é diferente com Noree. Mas não sei o que fazer.
— Que é diferente? — A voz de Leto tinha um tom penetrante que varou Moneo.
— Falo de sua atitude em relação a ela, Senhor. E diferente de tudo que j á vi no Senhor.
Moneo notou os prim eiros indícios — um contorcer das m ãos do Im perador-Deus, o início de um em baçam ento em seus olhos. “Deuses! O Verm e está vindo!” Sentia-se totalm ente exposto. Um a sim ples pancada daquele grande corpo o esm agaria de encontro à parede. “Devo apelar para o seu lado hum ano.”
— Senhor — disse Moneo —, li os relatos e ouvi suas próprias palavras a respeito do seu casam ento com sua irm ã Ghanim a.
— Se ao m enos ela estivesse com igo agora — disse Leto.
— Ela nunca foi sua m ulher, Senhor.
— Que está sugerindo?
O contorcer das m ãos de Leto tornou-se um a vibração espasm ódica.
— Ela era... quero dizer, Senhor, que Ghanim a era a m ulher de Harq al-Ada.
— E claro que era! Todos vocês Atreides descendem deles.
— Há algum a coisa que não m e tenha dito, Senhor? Seria possível que... isto é, com Hwi Noree... os Senhores pudessem procriar?
As m ãos de Leto trem iam tão fortem ente que Moneo se adm irava de que ele não percebesse. Os grandes olhos azuis ficaram ainda m ais vidrados.
Moneo recuou outro passo em direção às escadarias, que levavam para baixo e para fora desse lugar m ortalm ente perigoso.
— Não m e pergunte quanto a possibilidades — disse Leto, e sua voz parecia sinistram ente distante, perdida em algum lugar entre as cam adas do passado.
— Nunca m ais, Senhor — disse Moneo. Ele se curvou, recuando até ficar a apenas um passo da porta. — Falarei com Noree, Senhor... e com o Duncan.
— Faça o que puder. — A voz de Leto j á estava m uito distante, naquelas cam adas interiores onde apenas ele podia penetrar.
Lentam ente Moneo saiu pela porta, fechou-a atrás de si e colocou as costas contra ela, trem endo. “Ah, desta vez foi perto, m ais perto que em qualquer outra.”
Mas o paradoxo perm anecia. Para onde ele apontaria? Qual seria o significado das estranhas e dolorosas decisões do Im perador-Deus? Que teria atraído o Verm e Que Era Deus?
Um som pulsante soou de dentro do ninho de Leto, um a batida surda contra a pedra. Moneo não se atreveu a abrir a porta para investigar. Afastou-se da superfície que refletia aquela pavorosa batida e desceu as escadarias com cautela, não se atrevendo a respirar norm alm ente até alcançar o solo e a guarda Oradora Peixe que lá esperava.
— Ele está perturbado? — perguntou ela, olhando escada acim a.
Moneo assentiu. Am bos podiam ouvir as pancadas perfeitam ente.
— Que o perturba? — perguntou a guarda.
— Ele é Deus e nós som os m ortais — disse Moneo.
Essa era um a resposta que geralm ente satisfazia as Oradoras Peixes, m as agora novas forças se encontravam em ação.
Ela olhou diretam ente para ele e Moneo viu o treinam ento, hom icida a ponto de em ergir em suas feições suaves. Era um a m ulher relativam ente j ovem , com cabelos castanhos-averm elhados, rosto geralm ente dom inado por um nariz arrebitado e por lábios grossos, m as agora seus olhos eram duros e indagadores. Som ente um tolo daria as costas àquele olhar.
— Eu não o perturbei — disse Moneo.
— É claro que não — concordou ela. Sua expressão suavizou-se um pouco. — Mas gostaria de saber quem ou o que o fez.
— Creio que ele está im paciente com seu casam ento — disse Moneo. — Acho que isso é tudo.
— Então antecipe a data! — disse ela.
— E exatam ente isso que eu vou fazer.
Moneo virou-se e saiu apressado pelo corredor em direção à sua própria área da Cidadela. Deuses! As Oradoras Peixes estavam se tornando tão perigosas quanto o próprio Im perador-Deus.
“Aquele estúpido Duncan! Colocou-nos a todos em perigo. E Hwi Noree! Que deve ser feito com relação a ela?”
O padrão das monarquias e sistemas semelhantes contém uma mensagem de valor para todas as formas políticas. Minhas memórias asseguram-me que governos de todo o tipo podem lucrar com essa mensagem. Os governos só podem ser úteis aos governados enquanto são restritas as tendências inerentes no sentido de uma tirania. As monarquias possuem algumas boas qualidades. Podem reduzir o tamanho e a natureza parasitária da burocracia. Podem tomar decisões rápidas, quando necessário. Encaixam-se numa necessidade humana ancestral (tribal/feudal) de hierarquia paternalista, onde cada pessoa conhece seu lugar. É valioso conhecer o seu lugar, mesmo que esse lugar seja temporário. É exasperante ser mantido numa posição contra a vontade. É por isso que eu ensino a respeito da tirania da melhor maneira que posso — através do exemplo. Mesmo que vocês estejam lendo estas palavras após a passagem de éons, minha tirania não terá sido esquecida. Meu Caminho Dourado assegura isso! E, conhecendo minha mensagem, espero que vocês sejam extraordinariamente cuidadosos quanto aos poderes que delegam a qualquer governo.
— Os diários roubados
Leto preparou-se com paciente cuidado para seu prim eiro encontro com Siona desde que ela fora banida, na infância, para as escolas de Oradoras Peixes da Cidade Festival. Ele disse a Moneo que iria vê-la na Pequena Cidadela, um a torre de observação que havia construído no Sareer central. O lugar fora escolhido para proporcionar a visão do antigo, do novo e dos lugares interm ediários. Não havia estradas para a Pequena Cidadela. Os visitantes chegavam de tóptero. Leto ia para lá com o que por m ágica.
Com as próprias m ãos, nos prim eiros dias de sua ascensão, Leto usara um a m áquina Ixiana para escavar um túnel secreto sob o Sareer, até sua Torre, fazendo todo o trabalho ele m esm o. Naqueles dias, uns poucos verm es da areia selvagens ainda vagavam pelo deserto. Ele revestira o seu túnel com paredes m aciças de sílica fundida e inscrutara incontáveis bolhas de água em suas cam adas exteriores para repelir os verm es. O túnel antecipara seu crescim ento m áxim o e as exigências de um a Carreta Real que, até então, fora apenas um fragm ento de suas visões.
Nas horas anteriores à aurora do dia dedicado a Siona, Leto desceu para a cripta e deu ordens à guarda para que não fosse perturbado por ninguém . Sua carreta correu através de um dos aros escuros da cripta, onde ele abrira um portal oculto, em ergindo na Pequena Cidadela m enos de um a hora depois.
Um a de suas m aiores delícias era sair sozinho para a areia. Sem carreta, apenas seu corpo pré-verm e para carregá-lo. A areia o roçava de m odo deliciosam ente sensual e o calor provocado por sua passagem através das dunas, à prim eira luz da aurora, lançava um a esteira de vapor que lhe exigia continuar em m ovim ento. Parou apenas ao encontrar um bolsão relativam ente seco, a uns cinco quilôm etros de distância. Deixou-se ficar lá, no centro de um a inconfortável um idade deixada pelo orvalho residual, o corpo bem do lado de fora da som bra proj etada pela torre, a qual se estendia para ele a partir do leste, através das dunas.
Dessa distância, os 3 m il m etros de altura da torre podiam ser vistos com o um a agulha im possível golpeando o céu. Som ente a união inspirada dos com andos de Leto e da im aginação Ixiana haviam tornado viável essa estrutura. Com 150 m etros de diâm etro, a torre acom odava-se sobre fundações que m ergulhavam tão profundam ente na areia quanto ela se erguia acim a. A m ágica do plasteel e das ligas superleves m antinham -na flexível ao vento e resistente à ação abrasiva da areia.
Leto gostava tanto desse lugar que racionava suas visitas, organizando um a longa relação de regras pessoais que tinham de ser preenchidas. As regras resum iam -se num a “Grande Necessidade”.
Por alguns m om entos, enquanto estava lá, ele pôde libertar-se de algum as cargas do Cam inho Dourado. Moneo, o bom e confiável Moneo, cuidaria para que Siona chegasse bem ao cair da noite, e Leto teria um dia inteiro para relaxar e pensar. Para brincar e fingir que não tinha preocupações, para beber o alim ento bruto da terra num frenesi de apetite que ele nunca se poderia perm itir em Onn ou na Cidadela. Naqueles lugares, ele estava confinado a m ergulhos furtivos através de passagens estreitas, tendo apenas a cautela presciente para o im pedir de topar com bolsões de água. Aqui, entretanto, podia correr através da areia e por dentro dela, alim entar-se e se sentir forte.