O Imperador-Deus de Duna

Frank Herbert · Capítulo 18 de 25

Páginas do PDF

O Imperador-Deus de Duna

— Ela pensou a respeito.

— Trinta quilôm etros? Vinte?

— Mais. Posso m e m over bem rápido em m inha própria terra. Não sentiu o vento em seu rosto?

— Sim — disse ela, taciturna. — Então por que m e pergunta a distância?

— Desça e fique onde eu possa vê-la.

— Por quê?

“Bom ”, ele pensou. “Ela acredita que vou abandoná-la aqui e correr m ais depressa do que ela pode m e seguir.”

— Desça e explicarei.

Ela escorregou de suas costas e deu a volta para onde ele podia olhar em seu rosto.

— O tem po passa rapidam ente quando os sentidos estão ocupados — explicou ele. — Saím os há m ais de quatro horas. Percorrem os aproxim adam ente 60 quilôm etros.

— Por que isso é tão im portante?

— Moneo colocou alim entos secos no bolso do seu m anto. Com a um pouco e eu lhe direi.

Ela encontrou um cubo seco de protom or e o m ordiscou enquanto o observava. Era um a autêntica com ida antiga dos Frem en, até m esm o com leve adição de m elange.

— Você j á sentiu seu passado — explicou ele. — Agora deve ser sensibilizada para o seu futuro, o Cam inho Dourado.

Ela engoliu.

— Não acredito no seu Cam inho Dourado.

— Se vai viver, deve acreditar nele.

— É esse o seu teste? Ter fé no Grande Deus Leto ou m orrer?

— Você não precisa ter qualquer fé em m im . Quero que tenha fé em si m esm a.

— Então, por que é im portante ter vindo até onde viem os?

— Assim com preenderá por quanto ainda tem de seguir.

Ela levou a m ão à face.

— Eu na....

— Bem aí, onde está, você se encontra no m eio do Infinito. Olhe à sua volta para perceber o significado do Infinito.

Ela olhou para a direita e para a esquerda, em direção ao deserto continuo.

— Vam os cam inhar para fora do m eu deserto j untos — ele explicou. — Só nós dois.

— Você não cam inha — retrucou ela.

— Um a figura de linguagem . Mas você vai cam inhar. Isso eu lhe asseguro.

Ela olhou na direção por onde tinham vindo.

— Então foi por isso que m e perguntou a respeito dos rastros?

— Mesm o que houvesse rastros, você não poderia voltar. Não há nada em m inha Pequena Cidadela que pudesse usar para a sua sobrevivência.

— Nem água?

— Nada.

Ela encontrou o tubo do bolsão de recolhim ento em seu om bro, sugou-o e o recolocou. Ele notou o cuidado com que ela havia selado a extrem idade. Mas Siona não puxara sobre a boca a m áscara facial, em bora Leto tivesse ouvido o pai dela advertindo-a quanto a isso. Queria ter a boca livre para falar.

— Está m e dizendo que eu não poderia fugir de você?

— Fuj a se quiser.

Ela descreveu m eio circulo, exam inando a vastidão desolada.

— Existe um ditado sobre estas terras abertas — ele disse.

— Que um a direção é tão boa quanto outra. De certo m odo, isso é verdade, m as eu não contaria com isso.

— Mas sou realm ente livre para abandoná-lo se quiser?

— A liberdade pode ser um a condição m uito solitária.

Ela apontou para o lado íngrem e da duna sobre a qual eles tinham parado.

— Mas eu podia ir até lá em baixo e...

— Se eu fosse você, Siona, não desceria por onde apontou.

Ela olhou com raiva para ele.

— Por quê?

— No lado íngrem e de um a duna, a m enos que siga as curvas naturais, a areia pode deslizar sobre você e enterrá-la.

Ela olhou para a face inclinada, absorvendo isso.

— Percebe com o as palavras podem ser belas? — perguntou ele.

Ela voltou a atenção para o seu rosto. Devem os seguir em frente?

— Aqui você aprende a valorizar o descanso. E a cortesia. Não há pressa.

— Mas não tem os água, exceto...

— Usado sabiam ente, esse traj e destilador a m anterá viva.

— Mas quanto tem po vam os levar para...

— Sua im paciência m e preocupa.

— Mas só tem os esta com ida seca no m eu bolso. Que vam os com er quando...

— Siona! Já percebeu com o está exprim indo nossa situação com o m útua? Que irem os com er? Não terem os água. Devem os prosseguir? Quanto tem po vam os levar?

Ele percebeu a secura na boca de Siona, enquanto ela tentava responder.

— Poderia ser que nos tornam os interdependentes? — perguntou ele.

Ela falou com relutância:

— Não sei com o sobreviver aqui.

— Mas eu sei?

Ela concordou com um gesto de cabeça.

— E por que eu deveria partilhar tão precioso conhecim ento com você? — perguntou ele.

Ela encolheu os om bros, um gesto digno de pena que o sensibilizou. Com o o deserto era rápido em elim inar certas atitudes anteriores.

— Partilharei m eu conhecim ento com você — ele disse. — E você deve encontrar algum a coisa valiosa que possa partilhar com igo.

O olhar dela percorreu-lhe o com prim ento, parando nas nadadeiras que tinham sido as pernas e os pés dele, depois voltou para o seu rosto.

— Acordos com prados com am eaças não são acordos — ela disse.

— Não lhe ofereço a violência.

— Há m uitos tipos de violência — ela disse.

— E eu trouxe você aqui, onde pode m orrer?

— Será que eu tive escolha nisso?

— Não é fácil nascer Atreides. Acredite-m e, eu sei — ele disse.

— Você não tinha de fazer isso desse m odo.

— Nisso você está errada.

Ele voltou-se na direção oposta a ela e partiu num a trilha senoidal, descendo a duna. Podia ouvi-la tropeçando e escorregando enquanto o seguia. Leto parou bem na som bra da duna.

— Esperarem os o dia passar aqui — explicou. — Consom e m enos água viaj ar à noite.

 

Uma das palavras mais terríveis em qualquer idioma é Soldado. Os sinônimos desfilam através da nossa história: yogahnee, trooper, hussardo, kareebo, cossaco, deranzeef, legionário, sardaukar, oradora peixe... conheço todos eles. Eles se erguem nas fileiras da minha memória para me lembrar: sempre tenha certeza de que o exército está com você.

— Os diários roubados

Idaho finalm ente encontrou Moneo nos longos corredores subterrâneos que ligavam os com plexos ocidental e oriental da Cidadela. Desde o raiar do dia, duas horas atrás, que Idaho estivera rondando a Cidadela em busca do m aj ordom o, e lá estava ele, bem no fim do corredor, falando com um a pessoa oculta num portal. Moneo era reconhecível, m esm o a essa distância, pela postura e pelo inevitável uniform e branco.

As paredes de plaspedra do corredor eram cor de âm bar, ali, 50 m etros abaixo da superfície, e ilum inadas por tiras lum inosas aj ustadas para as horas diurnas. As brisas frias eram sugadas para estas profundezas por um sim ples arranj o de asas de m ovim ento livre, que se erguiam com o gigantescas figuras em m antos sobre as torres do perím etro, na superfície. Agora que o sol havia aquecido as areias, todas as pás apontavam para o norte, buscando o ar frio que se derram ava no Sareer. Idaho sentia o cheiro de pedra na brisa enquanto cam inhava.

Sabia o que esse corredor devia representar. Ele tinha algum as das características de um antigo sietch Frem en. O corredor era am plo, suficientem ente largo para acom odar a carreta de Leto. E o teto em arco parecia de pedra. Mas as tiras lum inosas gêm eas estavam em desacordo. Idaho nunca vira tiras lum inosas antes de ir para a Cidadela. Em sua época, elas haviam sido consideradas pouco inviáveis por consum irem m uita energia e serem m uito dispendiosas em term os de m anutenção. Os globos lum inosos eram m ais sim ples e m ais fáceis de serem substituídos. Mas ele viera a perceber que Leto considerava poucas coisas com o inviáveis.

“O que Leto quer alguém fornece.”

O pensam ento tinha um sentido agourento enquanto Idaho m archava pelo corredor em direção a Moneo.

Pequenas salas enfileiravam -se ao longo do corredor, à m aneira dos sietch, todas sem portas, com apenas cortinas de tecido castanho-averm elhado a ondularem na brisa, bloqueando as entradas. Idaho sabia que essa área era constituída principalm ente de aloj am entos para as j ovens Oradoras Peixes. Reconhecera um a câm ara de reunião, com seus com partim entos para depósito de arm as, cozinha, salão de j antar e oficinas de m anutenção. Tam bém vira outras coisas por trás da inadequada privacidade das cortinas, coisas que o encheram de fúria.

Moneo virou-se ante a aproxim ação de Idaho. A m ulher com quem Moneo estivera falando recuou e deixou a cortina cair, m as não antes que Idaho vislum brasse um rosto m ais velho, com ar de com ando. Idaho não reconheceu aquela com andante em particular.

Moneo acenou enquanto Idaho parava a dois passos de distância.

— As guardas disseram que esteve procurando por m im .

— Onde ele está, Moneo?

— Onde está quem ?

Moneo olhou Idaho de cim a abaixo, notanto o velho uniform e Atreides, preto com o falcão verm elho no peito, as botas de cano alto brilhando com o polim ento. Havia um a aparência ritual no hom em .

Idaho respirou e falou através dos dentes trincados:

— Não com ece esse j ogo com igo!

Moneo desviou sua atenção da faca em bainhada na cintura de Idaho. Parecia peça de m useu, com seu cabo decorado com j óias. Onde Idaho teria encontrado aquilo?

— Quer dizer o Im perador-Deus... — disse Moneo.

— Onde?

Moneo m anteve a voz branda.

— Por que está tão ansioso para m orrer?

— Elas disseram que você estava com ele.

— Isso foi m ais cedo.

— Vou encontrá-lo, Moneo!

— Não agora.

Idaho levou a m ão à faca.

— Terei de usar a força para fazê-lo falar?

— Eu não recom endaria isso.

— Onde... ele... está?

— Já que insiste, está no deserto com Siona.

— Sua filha?

— Existe outra Siona?

— Que estão fazendo?

— Ela está sendo testada.

— Quando voltarão?

Moneo encolheu os om bros, depois disse:

— Por que essa raiva inconveniente, Duncan?

— Que é esse teste de sua.

— Não sei. Agora, por que está tão perturbado?

— Estou enoj ado deste lugar! Oradoras Peixes! — Ele virou a cabeça e cuspiu.

Moneo olhou ao longo do corredor por onde Idaho viera, relem brando a aproxim ação do hom em . Conhecendo os Duncans, era fácil reconhecer o que alim entara a raiva atual.

— Duncan — disse Moneo —, é perfeitam ente norm al para m ulheres adolescentes, assim com o para hom ens nessa faixa, haver sentim entos de atração física por representantes de seu próprio sexo. A m aioria supera isso.

— Devia ser elim inado!

— Mas é parte da nossa herança.

— Elim inado! E isso não é... não é...

— Oh, fique quieto. Se você tentar reprim ir isso, só aum entará sua força.

Idaho olhou furioso para ele.

— E você diz que não sabe o que está acontecendo lá com sua própria filha!

— Siona está sendo testada, eu lhe disse.

— E que se supõe que isso signifique?

Moneo levou um a das m ãos aos olhos e suspirou. Depois abaixou a m ão, perguntando-se por que fizera esse gesto hum ano tão antiquado, tolo e perigoso.

— Quer dizer que ela pode m orrer lá!

Idaho ficou desconcertado, um pouco de sua raiva esfriando.

— Com o pode perm itir que...

— Perm itir? Você acha que tenho escolha?

— Todo hom em tem um a escolha!

Um sorriso am argo percorreu os lábios de Moneo.

— Com o você pode ser tão m ais tolo que os outros Duncans?

— Outros Duncans! — repetiu Idaho. — Com o foi que esses outros m orreram , Moneo?

— Do m odo com o todos nós m orrem os. O tem po deles esgotou-se.

— Você m ente — disse Idaho com prim indo os dentes, os nós dos dedos brancos sobre o punho da faca.

Ainda falando com brandura, Moneo advertiu:

— Tenha cuidado. Há lim ites ao que eu posso relevar, principalm ente agora.

— Este lugar está podre! — disse Idaho, gesticulando com a m ão livre para o corredor atrás dele. — Há algum as coisas que nunca vou aceitar!

Moneo olhou para o corredor vazio sem prestar atenção.

— Você deve am adurecer, Duncan. Precisa.

A m ão de Idaho com prim iu-se em torno do punho da faca.

— O que quer dizer com isso?

— Esta é um a época sensível. Qualquer coisa perturbadora para ele, qualquer coisa... deve ser evitada.

Idaho m antinha-se à beira da violência, sua raiva contida apenas por algum a coisa intrigante nos m odos de Moneo. Haviam sido ditas palavras, entretanto, que não podiam ser ignoradas.

— Não sou um a m aldita criança im atura que possa.

— Duncan! — Era o som m ais alto que Idaho j á ouvira partindo do afável Moneo. A surpresa o conteve enquanto Moneo continuava: — Se as exigências da sua carne voltam -se para a m aturidade, m as algum a coisa o m antém na adolescência, um com portam ento m uito ruim se desenvolve. Vam os.

— Está... m e... acusando... de...

— Não! — Moneo indicou o corredor com um gesto. — Oh, sei o que você deve ter visto lá atrás, m as aquilo.

— Duas m ulheres num beij o apaixonado! Você pensa que não...

— Isso não tem im portância. A j uventude explora o seu potencial de m uitos m odos.

Idaho conteve-se à beira de um a explosão, inclinando-se na ponta dos pés.

— Fico feliz de aprender isso sobre você, Moneo.

— Sim ? Bem , j á aprendi a respeito de você, m uitas vezes.

Moneo observou o efeito dessas palavras, enquanto elas se torciam por dentro de Idaho, deixando-o em aranhado. Os gholas nunca escapavam ao fascínio dos outros que os tinham precedido.

Idaho falou num sussurro rouco:

— E que aprendeu?

— Você m e ensinou coisas m uito valiosas — disse Moneo. — Todos nós tentam os evoluir, m as, se algum a coisa nos bloqueia, podem os transform ar esse potencial em dor: buscando-a ou dando-a. Os adolescentes são particularm ente vulneráveis a isso.

Idaho inclinou-se m ais para perto de Moneo.

— Estou falando de sexo!

— É claro que está.

— Está m e acusando de com portam ento adolescente.

— Isso m esm o.

— Eu deveria cortar a sua.

— Oh, cale-se!

A voz de Moneo não tinha as nuanças do treinam ento Bene Gesserit sobre o controle da Voz, m as tinha um a vida inteira de com ando por trás dela. Algum a coisa em Idaho só podia obedecer.

— Sinto m uito — desculpou-se Moneo. — Mas fico perturbado pelo fato de que m inha única filha... — Ele não term inou, encolhendo os om bros.

Idaho respirou fundo duas vezes.

— Você é m aluco. Todos vocês o são! Diz que sua filha pode estar m orrendo, e no entanto você.

— Seu tolo! — retrucou Moneo. — Tem idéia de com o suas preocupações m esquinhas m e parecem ? Suas perguntas estúpidas e seu m odo egoísta de... — Ele se interrom peu, sacudindo a cabeça.

— Eu dou desconto porque você tem problem as pessoais — respondeu Idaho. — Mas se você...

— Desconto? Você dá o desconto? — Moneo se conteve, trêm ulo. Era dem ais!

Idaho falou, tentando controlar-se:

— Posso perdoá-lo por...

— Você! Você tagarela a respeito de sexo e de perdão e dor e... pensa que você e Hwi Noree...

— Deixe-a fora disso!

— Oh, sim . Deixe-a de fora. Não toque nesse ponto doloroso! Você com partilha o sexo com ela e nunca pensa a respeito de separação. Diga-m e, tolo, com o você se entrega em face disso?

Em baraçado, Idaho respirou fundo. Não im aginara um a paixão tão reprim ida no calm o e quieto Moneo, m as esse ataque, isso não podia ser...

— Você m e j ulga cruel? — perguntou Moneo. — Eu lhe faço pensar em coisas que você preferiria evitar. Ah! Coisas m ais cruéis j á foram feitas ao Senhor Leto por nenhum a outra razão senão a crueldade!”

— Você o defende? Seu...

— Eu o conheço m elhor!

— Ele usa você!

— Com que finalidade?

— Diga-m e você!

— Ele é nossa m elhor chance de perpetuar.

— Perverter não é perpetuar!

Moneo falou em tom tranqüilizador, m as suas palavras abalaram Idaho.

— Vou lhe dizer isto só um a vez. Os hom ossexuais encontram -se entre os m elhores guerreiros da nossa história, os suicidas de últim o recurso. Eles tam bém foram nossos m elhores sacerdotes e sacerdotisas. O celibato não é um acaso nas religiões. Tam bém não é por acaso que os adolescentes dão os m elhores soldados.

— Isso é perversão!

— Exato. Os com andantes m ilitares conhecem a respeito da transform ação pervertida do sexo em dor há m ilhares e m ilhares de séculos.

— É isso que o Grande Senhor Leto está realizando?

Ainda calm o, Moneo continuou:

— A violência exige que você cause a dor e a sofra. E bem m ais controlável um a força m ilitar im pulsionada pelos im pulsos m ais íntim os.

— Ele o transform ou num m onstro tam bém !

— Você disse que ele m e usa. Eu perm ito isso por saber que o preço que ele paga é m uito superior ao que ele exige de m im .

— Até m esm o a sua filha?

— Ele não oculta coisa algum a. Por que deveria? Oh, creio que você entende isso a respeito dos Atreides. Os Duncans sem pre foram bons nisso.

— Os Duncans! Maldito, eu não...

— Você apenas não tem coragem para pagar o preço que ele está pedindo — disse Moneo.

Num m ovim ento rápido dem ais para ser visto com clareza, Idaho tirou a faca da bainha e saltou para Moneo. Mas, por m ais rápido que se tivesse m ovido, Moneo foi m ais rápido ainda saltou de lado e derrubou Idaho de cara no chão. Idaho lançou-se para a frente, rolando e se preparando para ficar em pé, e então hesitou, percebendo que realm ente tentara atacar um Atreides. Moneo era um Atreides. O choque m anteve Idaho im óvel.

Moneo tam bém estava parado, olhando para ele. Havia um a curiosa fisionom ia de tristeza na face do m aj ordom o.

— Se vai m e m atar, Duncan, é m elhor fazê-lo à traição, pelas costas. Você pode ter sucesso desse m odo.

Idaho apoiou-se num j oelho, colocando um dos pés no chão, m as continuou segurando a faca. Moneo havia se m ovim entado tão rapidam ente e com tam anha graça — de m odo tão... tão. natural! Idaho pigarreou.

— Com o foi que...

— Ele nos tem procriado para isso há m uito tem po, Duncan, aperfeiçoando m uitas coisas em nós. Tem cultivado em nós a ligeireza, a inteligência, o autocontrole, a sensibilidade. Você... você é apenas um m odelo m ais antigo.

 

Sabem o que os guerrilheiros dizem muitas vezes? Afirmam que suas rebeliões são invulneráveis à guerra econômica porque eles não possuem economia, vivem parasitariamente daqueles que vão derrubar. Os tolos só deixam de levar em conta o preço que inevitavelmente devem pagar. O padrão é inexorável em suas falhas degenerativas. Repete-se nos sistemas de escravidão, nos Estados do bem-estar, nas religiões estratificadas, nas burocracias socializantes — em qualquer sistema que crie e mantenha dependências. Seja um parasita por muito tempo e você não poderá existir sem um hospedeiro.

— Os diários roubados

Leto e Siona passaram todo o dia nas som bras da duna, m ovim entando-se apenas na m edida em que o sol se m ovia. Ele ensinou-a a se proteger sob um cobertor de areia durante o calor do m eio-dia. Nunca ficava m uito quente ao nível das rochas entre as dunas.

No cair da tarde, Siona aproxim ou-se de Leto em busca de calor, um calor que ele sabia possuir em excesso nesses dias.

Falavam esporadicam ente. Ele lhe contou a respeito da nobreza dos Frem en que haviam dom inado essa paisagem . Ela sondou em busca de conhecim entos secretos que ele pudesse estar escondendo.

Um a vez ele disse:

— Você pode achar curioso, m as é aqui que eu posso ser m ais hum ano.

Essas palavras não conseguiram torná-la inteiram ente consciente de sua vulnerabilidade hum ana e do fato de que ela poderia m orrer ali. Mesm o quando não estava falando, ela não recolocava a m áscara facial de seu traj e destilador.

Leto reconheceu a m otivação inconsciente por trás desse fracasso, m as sabia da futilidade de abordá-lo diretam ente.

No fim da tarde, o frio da noite j á com eçava a avançar sobre a terra quando ele com eçou a agradá-la com canções da Longa

Jornada que não haviam sido preservadas pela História Oral. Agradou-lhe o fato de ela gostar de um a de suas favoritas, “A m archa de Liet”.

— A m elodia é realm ente antiga — ele disse — um a coisa pré-espacial da Velha Terra.

Poderia cantá-la novam ente?

Ele escolheu um de seus m elhores barítonos, um artista há m uito falecido, que enchera vários salões de concertos.

As m uralhas do passado além da lem brança

Ocultam -m e de um a queda ancestral

Onde todas as águas despencam !

Num j ogo de espum as

Escavando cavernas em argila.

Em baixo do rum or da torrente.

Quando ele term inou, ela ficou em silêncio por um m om ento, e então com entou:

— É um a canção curiosa para um a m archa.

— Eles gostavam dela porque podiam dissecá-la.

— Dissecar?

— Antes que nossos ancestrais Frem en viessem a este planeta, a noite era o tem po de contar histórias, cantar canções e recitar poesia. Nos dias de Duna, entretanto, ela era reservada à falsa escuridão, a hora do brilho do dia no sietch. A noite era a ocasião em que se podia sair e andar... com o estam os fazendo agora.

— Mas você falou em dissecar.

— Que a canção significa? — perguntou ele.

— Oh. É... — é apenas um a canção.

— Siona!

Ela notou a irritação na voz dele e ficou em silêncio.

— Este planeta é filho do Verm e — advertiu ele. — E eu sou o Verm e.

Ela respondeu com surpreendente despreocupação.

— Então m e diga o que isso significa.

— O inseto não possui m ais liberdade com relação à sua colm éia do que nós com relação ao nosso passado. As cavernas estão lá, com todas as m ensagens escritas na espum a das correntezas.

— Prefiro canções dançantes — ela disse.

Era um a resposta petulante, m as Leto preferiu tom á-la com o sim ples m udança de assunto. Contou-lhe a respeito da dança m atrim onial das m ulheres Frem en, com os passos rem inescentes do rodopio dos “diabos de pó”. Leto orgulhava-se de ser bom contador de histórias, e era evidente, pela atenção arrebatada de Siona, que ela podia ver as m ulheres girando em sua m ente, longos cabelos negros im pulsionados por antigos m ovim entos, colando-se sobre rostos há m uito reduzidos ao pó.

A escuridão quase os envolvia quando ele term inou.

— Venha — ele disse. — O am anhecer e o anoitecer ainda são as horas das silhuetas. Vam os ver se alguém partilha nosso deserto.

Siona o seguiu na crista de um a duna e am bos olharam em torno, para o deserto onde a noite chegava. Havia apenas um pássaro bem no alto, atraído pelos m ovim entos dos dois. Pela disposição das fendas nas pontas das asas e pela form a ele sabia que era um abutre. Apontou-o para Siona.

— O que eles com em ? — perguntou ela.

— Qualquer coisa que estej a m orta, ou quase.

Isso a im pressionou e ela olhou para os últim os raios de sol tingindo de dourado o rabo do pássaro solitário.

Leto insistiu no assunto:

— Algum as pessoas ainda se aventuram no m eu Sareer. Algum as vezes, um Frem en de Museu se afasta e se perde. Eles realm ente só são bons nos rituais. E além disso há as extrem idades do deserto e os restos deixados por m eus lobos.

Diante disso, Siona virou-lhe as costas, m as não antes que ele percebesse o sentim ento que ainda a consum ia. Siona estava sendo duram ente testada.

— O dia no deserto é pouco gracioso — continuou ele. — E por isso que viaj am os à noite. Para um Frem en, a im agem do dia é a da areia soprada pelo vento apagando nossos rastros.

Os olhos dela brilharam com lágrim as quando ela se voltou, m as suas feições estavam serenas.

— Que vive neste lugar agora?

— Abutres, algum as criaturas noturnas, um rem anescente ocasional da vida vegetal dos velhos dias, coisas que se enterram .

— E isso é tudo?

— Sim .

— Por quê?

— Porque foi aqui que nasceram e eu não perm ito que conheçam nada m elhor.

Era quase escuridão, com aquela súbita fosforescência que o deserto de Leto adquiria nesses m om entos. Ele a observou naquele instante lum inoso, reconhecendo que ela ainda não entendera sua outra m ensagem . Mas ele sabia que a m ensagem lhe penetraria e se inflam aria dentro dela.

— Silhuetas — ela disse, relem brando-lhe. — Que esperava encontrar quando subim os aqui?

— Talvez pessoas a grande distância. Nunca se tem certeza.

— Que pessoas?

— Já lhe disse.

— Que teria feito se tivesse visto alguém ?

— Era costum e dos Frem en considerar pessoas distantes com o hostis até que j ogassem areia no ar.

A escuridão caiu sobre eles com o um a cortina.

Siona transform ou-se num m ovim ento fantasm agórico sob a luz das estrelas.

— Areia? — ela perguntou.

— Jogar areia é um gesto profundo. Significa: “Nós com partilham os da m esm a carga.” A areia é nosso único inim igo. Isto é o que nós bebem os. A m ão que segura a areia não segura arm as. Está entendendo?

— Não. — Ela o provocou com desafiante falsidade.

Sem um a palavra, ela cam inhou ao longo do arco da duna, afastando-se dele com um furioso excesso de energia. Leto deixou-se ficar bem atrás dela, interessado no fato de ela ter escolhido a direção certa instintivam ente. As m em órias Frem en estavam se rem exendo dentro de Siona.

Onde a duna m ergulhava para cruzar com outra, ela esperou por ele. Leto notou que a m áscara facial do traj e destilador perm anecia aberta, pendendo, frouxa. Ainda não era hora de censurá-la por isso. Algum as das atitudes inconscientes tinham que seguir seu rum o natural.

Quando ele chegou j unto dela, ela disse:

— Esta direção é tão boa quanto qualquer outra?

— Se a m antiver — disse ele.

Ela olhou para as estrelas e ele percebeu que identificava as Ponteiras, as Flechas Frem en que haviam guiado seus ancestrais sobre esta terra. Percebia, entretanto, que seu reconhecim ento era apenas intelectual. Ela ainda não chegara a aceitar as outras coisas que agiam dentro dela.

Leto ergueu seus segm entos frontais para perscrutar adiante à luz das estrelas. Eles estavam se deslocando um pouco para noroeste, num a trilha que um dia conduzira, através da Cordilheira Habbany a e da Caverna dos Pássaros, para o grande erg abaixo da Falsa Muralha Oeste e o Cam inho do Passo dos Ventos. Nenhum desses m arcos perm anecia. Ele cheirou a fria brisa, que trazia os odores de pó de pedra e m ais um idade do que ele j ulgava agradável.

Um a vez m ais Siona partiu — m ais lentam ente dessa vez, m antendo a direção por m eio de olhares ocasionais às estrelas. Ela confiara em Leto para confirm ar o cam inho, m as agora se guiava por si m esm a. Ele sentia o torvelinho por baixo dos pensam entos cautelosos dela e sabia que as coisas estavam em ergindo. Ela com eçara a sentir aquela intensa lealdade dos com panheiros de viagem em que o povo do deserto sem pre confiara.

“Nós sabem os”, pensou ele, “que se form os separados de nossos com panheiros, estarem os perdidos entre as dunas e as rochas. No deserto, o viaj ante solitário é um hom em m orto. Som ente o verm e vive sozinho aqui”.

Deixou que ela assum isse a dianteira de m odo a que o ruído raspante de sua própria passagem pela areia não fosse m uito audível. Ela tinha de pensar no lado hum ano dele. Ele contava com a lealdade para trabalhar a seu favor. Siona era frágil, cheia de ódio contido — m ais rebelde que qualquer outra pessoa que ele j á tinha testado.

Leto deslizou atrás dela, revendo seu program a de procriação, m oldando as decisões necessárias para um a substituição, caso ela falhasse.

Enquanto a noite progredia, Siona andava cada vez m ais lentam ente. A Prim eira Lua estava alta no zênite e a Segunda Lua, bem acim a do horizonte, antes que ela parasse para repousar e com er.

Leto ficou satisfeito com a pausa. A fricção criara um a dom inância do verm e, o ar em volta dele cheio das exalações quím icas de seus aj ustes térm icos. A coisa em que ele pensava com o sendo seu supercarregador de oxigênio soprava de m odo contínuo, tornando-o intensam ente consciente das fábricas de proteínas e dos recursos em am inoácidos que seu lado verm e havia adquirido para acom odar o relacionam ento placentário com suas células hum anas. O deserto apressava o m ovim ento em direção à sua m etam orfose final.

Siona parara próxim o da crista de um a duna-estrela.

— É verdade que você com e areia? — perguntou ela, quando Leto Veio ao seu encontro.

— É verdade.

Ela olhou para o horizonte geado pelo luar.

— Por que não trouxem os um engenho de sinalização?

— Queria que você aprendesse sobre posses.

Ela virou-se em direção a ele e Leto sentiu-lhe a respiração próxim a da face. Ela estava perdendo dem asiada um idade no ar seco. Ainda não se lem brava da advertência de Moneo. Seria um a am arga lição, sem dúvida algum a.

— Realm ente não o entendo — ela disse.

— E no entanto você se dedica a fazer exatam ente isso.

— E m esm o?

— De que outro m odo poderia m e dar algo de valor em troca do que lhe dou?

— Que é que você m e dá? — Toda a am argura estava lá, bem com o um indício da especiaria de sua com ida seca.

— Eu lhe dou esta oportunidade de estar sozinha com igo, de com partilhar com igo e passar o tem po sem preocupação. Você a desperdiça.

— E quanto a posses?

Ele sentiu-lhe a fadiga na voz, a m ensagem da água com eçando a gritar dentro dela.

— Eles, os Frem en, eram m agnificam ente ativos nos velhos tem pos — disse ele. — E sua visão de beleza lim itava-se àquilo que fosse útil. Nunca encontrei um Frem en ganancioso.

— E que isso deve significar?

— Nos velhos tem pos, tudo que você levava para o deserto era o necessário, e isso era tudo que você levava. Sua vida não é m ais livre de posses, Siona, ou você não teria perguntado a respeito de um aparelho sinalizador.

— Por que um sinalizador não é necessário?

— Ele não lhe ensinaria coisa algum a.

Ele m oveu-se em torno dela, seguindo a linha indicada pelas Ponteiras.

— Venha, vam os usar esta noite em nosso benefício.

Ela correu para cam inhar ao lado de seu rosto envolto nas dobras.

— Que acontecerá se eu não aprender sua m aldita lição?

— Você provavelm ente vai m orrer.

Isso a silenciou por algum tem po. Ela cam inhou ao lado dele, dando apenas um a olhadela ocasional para o lado, ignorando o corpo de verm e e se concentrando nos rem anescentes visíveis de sua hum anidade. Depois de algum tem po, ela disse:

— As Oradoras Peixes disseram -m e que você ordenou a união da qual eu nasci.

— Isso é verdade.

— Elas dizem que você m antém registros e que ordena esses cruzam entos entre Atreides visando seus próprios fins.

— Isso tam bém é verdade.

— Então, a História Oral está correta.

— Pensava que você acreditasse na História Oral sem questionam entos...

Ela, porém , encontrava-se num a única trilha:

— Que acontece se um de nós faz obj eção quando você ordena um a união?

— Eu concedo am pla liberdade, desde que tenha as crianças que ordenei.

— Ordenou? — Siona estava indignada.

— E o que eu faço.

— Você não pode esgueirar-se em cada quarto e nos seguir a cada m inuto de nossas vidas! Com o pode saber se suas ordens são obedecidas?

— Eu sei.

— Então sabe que não vou obedecê-lo!

— Está com sede, Siona?

Ela se surpreendeu.

— O quê?

— Pessoas que têm sede falam de água, não de sexo.

Ainda assim ela não colocou a m áscara sobre a boca e Leto pensou: “As paixões dos Atreides sem pre correm desenfreadas, m esm o à custa da razão.

Duas horas depois eles desceram das dunas para um a extensão de cascalho varrida pelos ventos: Leto avançou, Siona sem pre ao lado dele. Ela olhava freqüentem ente para as Ponteiras. Am bas as luas se encontravam baixas no horizonte e sua luz proj etava longas som bras de cada pedra.

De certo m odo, Leto achava esses lugares m ais fáceis de atravessar do que a areia. As rochas sólidas conduziam m elhor o calor do que a areia. Ele podia achatar-se sobre as pedras e aliviar o funcionam ento de suas fábricas quím icas. Cascalho e m esm o pedras de bom tam anho não o detinham .

Siona tinha m ais problem as nesse terreno, contudo, e quase torceu o tornozelo várias vezes.

As terras planas podiam ser um local m uito difícil para os seres hum anos desacostum ados a elas, pensou Leto. Se eles ficassem j unto do solo, veriam apenas um a grande vastidão vazia, um lugar estranho, especialm ente sob a luz do luar — dunas a distância, um a distância que parecia não se m odificar com o andar do viaj ante — nada em parte algum a, a não ser o vento aparentem ente eterno, algum as rochas e, quando se olhava para cim a, as estrelas im placáveis. Esse era o deserto do deserto.

— Foi aqui que a m úsica dos Frem en adquiriu sua eterna solidão — disse ele. — Não lá em cim a, nas dunas. E aqui que você realm ente aprende a pensar que o paraíso deve ser o som de água corrente e um alivio, qualquer que sej a, para esse vento interm inável.

Nem m esm o isso a lem brou da m áscara facial. Leto com eçou a se sentir desesperado.

A m anhã os encontrou bem dentro da planura.

Leto parou j unto de três grandes pedras, em pilhadas um a contra a outra, um a delas m ais alta que as suas costas. Siona inclinou-se sobre ele por um m om ento, gesto que de certo m odo lhe restaurou as esperanças. Ela se afastou daí a pouco e subiu na pedra m ais alta. Ele a observou virando-se lá em cim a para exam inar o panoram a.

Sem olhar, Leto j á sabia o que ela estava vendo: areia soprada form ando um a névoa sobre o horizonte que obscurecia o sol nascente. Quanto ao resto, haveria apenas a planície e o vento.

A rocha estava fria em baixo dele, com o frio de um a m anhã no deserto. O frio tornava o ar m uito m ais seco e ele achava isso m ais agradável. Sem Siona ele teria continuado a avançar, m as ela se encontrava visivelm ente exausta. Inclinou-se sobre ele um a vez m ais, assim que desceu da pedra, e passou quase um m inuto antes que Leto percebesse que ela estava escutando.

— Que está ouvindo? — perguntou ele.

Ela respondeu, sonolenta:

— Há um ronco dentro de você.

— O fogo nunca se apaga de todo.

Isso a interessou. Ela se afastou do seu lado e foi para a frente a fim de lhe olhar o rosto.

— Fogo?

— Cada criatura viva tem um fogo em seu interior, alguns lentos, outros rápidos. O m eu é m ais quente que o da m aioria.

Ela se encolheu de frio.

— Então não está sentindo frio aqui?

— Não, m as posso ver que você está. — Ele puxou sua face parcialm ente para dentro da depressão form ada pelas dobras da pele de truta da areia, produzindo assim um a cova no fundo do arco de seu prim eiro segm ento. — E quase com o se deitar em um a rede — ele disse, olhando para baixo. — Se você se encolher aqui, vai se sentir quente.

Sem hesitar, ela aceitou o convite.

Mesm o tendo-a preparado para isso, Leto achou tocante a confiança dessa resposta. Tinha de lutar contra um sentim ento de piedade m uito m ais forte do que qualquer outro que experim entara antes de conhecer Hwi. Ali não poderia haver espaço para a piedade, lem brou a si m esm o. Siona estava revelando claros indícios de que m uito provavelm ente iria m orrer nesse lugar. Tinha de se preparar para o desapontam ento.

A m oça cobriu o rosto com o braço, fechou os olhos e dorm iu.

“Ninguém teve tantos passados com o eu tive”, ele se lem brou.

Do ponto de vista hum ano, sabia que as coisas que fazia podiam parecer cruéis e insensíveis. Era forçado agora a se enrij ecer, buscando apoio em suas m em órias, deliberadam ente selecionando “erros do nosso passado com um ”. Esse acesso de prim eira m ão aos erros hum anos era sua m aior força agora. O conhecim ento dos erros lhe proporcionava correções de longo prazo. Precisava estar constantem ente consciente das conseqüências. Se as conseqüências eram ocultas ou perdidas, as lições estavam perdidas.

Mas quanto m ais perto ele chegava de se tornar um verm e da areia, m ais difícil se tornava tom ar decisões que outros cham ariam de desum anas. Houvera época em que ele fazia isso com toda a facilidade. Agora, na m edida em que sua hum anidade lhe escapava, ele se sentia m ais e m ais tom ado por preocupações hum anas.

 

No berço do nosso passado, deito-me de costas em uma caverna tão estreita que eu só poderia entrar nela fazendo contorções, não me arrastando. Lá, à luz dançante de uma tocha de resina, desenho no teto e nas paredes as criaturas que caço e as almas do meu povo. Como é esclarecedor sondar o passado através de um círculo perfeito, até aquela luta ancestral por um momento visível da alma. E o tempo inteiro vibra o chamado: “Aqui estou!” Com a mente formada pelos gigantescos artistas que vieram depois, vejo as impressões digitais e os músculos fluidos desenhados sobre a rocha com carvão e nódoas vegetais. Como somos tão mais do que meros eventos mecânicos! E meu lado anticivil se pergunta: “Por que eles não querem deixar a caverna?”

— Os diários roubados

 

O convite para encontrar Moneo em sua sala de trabalho chegou a Idaho no final da tarde. Durante o dia inteiro, Idaho ficara na rede, em seu aloj am ento, pensativo. Cada pensam ento dirigia-se naturalm ente para a facilidade com que Moneo o deixara esparram ado no piso do corredor, naquela m anhã.

“Você é apenas um m odelo m ais antigo.”

E a cada pensam ento Idaho se sentia ainda m ais dim inuído. Sentia apagar-se a vontade de viver, deixando cinzas onde sua raiva se queim ara até se esgotar.

“Sou apenas o recipiente de algum esperm a útil e nada m ais.”

Era um pensam ento que convidava à m orte ou ao hedonism o. Sentia-se em palado num espinho do acaso, com forças irritantes puxando-o de todos os lados.

A j ovem m ensageira, em seu lim po uniform e azul, era apenas outra irritação. Ela entrou devido à resposta baixa à sua batida na porta, e parou sob o portal em arco da ante-sala, hesitando até ter j ulgado o estado de espírito de Idaho.

“Com o as notícias viaj am rápido”, pensou ele.

Ele a via ali, em oldurada pelo portal, um a proj eção da essência das Oradoras Peixes — m ais voluptuosa que algum as, m as não m ais espalhafatosam ente sensual. O uniform e azul não ocultava os quadris graciosos, os seios firm es. Ele olhou para o rosto travesso sob o cabelo louro — o corte das acólitas.

— Moneo m e m andou procurá-lo — ela disse. — Pergunta se poderia j untar-se a ele em seu gabinete de trabalho.

Idaho vira o gabinete de trabalho várias vezes, m as ainda se lem brava m elhor de sua prim eira visita. Sabia, ao entrar na sala, que era o lugar onde Moneo passava a m aior parte do tem po. Havia um a m esa de m adeira m arrom , riscada por finos grãos dourados. Tinha dois m etros por um e se apoiava sobre pernas curtas, em m eio a alm ofadas cinzentas. Essa m esa parecera a Idaho algum a coisa rara e dispendiosa, escolhida para se destacar no am biente. E as alm ofadas, que eram do m esm o tom cinzento do piso, das paredes e do teto, eram as únicas m obílias.

Considerando-se o poder de seu ocupante, a sala era pequena, não m ais que cinco m etros por quatro, com teto elevado. A luz penetrava por duas j anelas estreitas de vidro opaco, que se opunham um a à outra nas paredes. As j anelas abriam -se a um a altura considerável, um a delas voltada para a fronteira noroeste do Sareer e a borda verde da Floresta Proibida, a outra fornecendo um a visão de sudoeste sobre as dunas ondulantes.

“Contraste.”

A m esa produzira um a nuança interessante em seu pensam ento. A superfície parecera-lhe um arranj o dem onstrando a idéia de confusão. Finas folhas de papel de cristal pareciam espalhadas sobre a superfície, deixando apenas vislum bres da m adeira granulada em baixo delas. Letras rebuscadas cobriam alguns dos papéis. Idaho reconheceu palavras em Galach e quatro outras línguas, inclusive um raro idiom a transitório de Perth. Várias folhas de papel tinham desenhos e algum as estavam rabiscadas com pinceladas negras de escrita na caligrafia em negrito da Bene Gesserit. O m ais interessante de tudo haviam sido quatro tubos brancos enrolados, com aproxim adam ente um m etro de com prim ento — im pressos tridim ensionais produzidos por um com putador ilegal. Ele suspeitara de que o term inal do com putador estivesse escondido atrás de um painel em um a das paredes.

A j ovem m ensageira de Moneo pigarreou para tirar Idaho de seu devaneio.

— Que resposta devo levar para Moneo? — perguntou.

Idaho focalizou a atenção no rosto dela.

— Gostaria que eu a fecundasse?

— Com andante! — Ela estava obviam ente chocada, não tanto pela sugestão, e sim pelo desvio do assunto.

— Ah, sim — disse Idaho. — Moneo. Que devem os dizer a Moneo?

Ele aguarda sua resposta, Com andante.

— Há realm ente algum a im portância na m inha resposta?

— Moneo disse-m e para inform á-lo de que desej a conferenciar com o senhor e Lady Hwi j untos.

Idaho sentiu um vago aum ento de interesse.

— Hwi está com ele?

— Ela foi cham ada, Com andante. — A m ensageira pigarreou um a vez m ais. — O com andante desej aria que eu viesse aqui m ais tarde, esta noite?

— Não, obrigado. Mudei de idéia.

Ele achou que ela ocultara bem seu desapontam ento, m as a voz escapou rigidam ente form al:

— Devo dizer a Moneo que vai atender seu cham ado?

— Faça isso. — Ele acenou para que ela se afastasse.

Depois que ela tinha saído, ele considerou a possibilidade de sim plesm ente ignorar a convocação. Mas a curiosidade crescia dentro dele. Moneo queria falar-lhe na presença de Hwi? Por quê? Será que ele pensava que isso traria Idaho correndo? Engoliu em seco. Quando pensava em Hwi, o vazio em seu peito se tornava total. Essa m ensagem não podia ser ignorada. Algum a coisa de terrível poder o m antinha ligado a Hwi.

Levantou-se, os m úsculos rígidos depois do longo tem po inativos. A curiosidade e a força de ligação com Hwi o im peliam . Saiu para o corredor, ignorando os olhares curiosos das guardas que passavam , e seguiu aquela constrangedora pressão interior até a sala de Moneo.

Hwi j á estava lá, defronte à m esa atulhada de Moneo. Seus pés, calçando chinelos verm elhos, dobravam -se na alm ofada cinzenta sobre a qual ela se sentava. Idaho só percebeu que ela usava um longo vestido m arrom , com um cinturão de pano verde trançado; então ela se voltou em sua direção e ele só pôde notar-lhe o rosto. A boca que form ava seu nom e m esm o sem pronunciá-lo.

“Até ela ouviu”, pensou ele.

Estranham ente, esse pensam ento lhe dava forças. Os pensam entos desse dia com eçavam a tom ar novas form as em sua m ente.

— Por favor, sente-se, Duncan — disse Moneo.

Ele indicou um a alm ofada ao lado de Hwi. Sua voz tinha um tom pausado, curioso, que poucas pessoas além de Leto j á haviam notado. Ele m antinha o olhar voltado para baixo, em direção à superfície abarrotada de sua m esa. A luz baixa do sol do fim da tarde lançava um a som bra parecida com um a aranha vinda do peso de papel dourado, em form a de árvore, com um fruto feito de j óias, tudo m ontado num a m ontanha de cristal-fogo.

Idaho sentou-se na alm ofada indicada, observando o olhar de Hwi seguindo-o até que estivesse sentado. Ela então olhou para Moneo e ele j ulgou ver ódio na expressão dela. O costum eiro uniform e branco de Moneo estava aberto na gola revelando um pescoço enrugado e um a ligeira papada. Idaho olhou nos olhos do hom em , preparado para esperar, forçando Moneo a abrir a conversa.

Moneo devolveu-lhe o olhar; notando que Idaho ainda usava o uniform e negro de seu encontro com ele essa m anhã. Havia até m esm o um pequeno sinal de suj eira na frente, lem brando o corredor onde Moneo o derrubara. Mas Idaho não usava m ais a velha faca Atreides. Isso perturbou Moneo.

— O que fiz esta m anhã foi im perdoável — disse Moneo.

— Portanto, não vou lhe pedir que m e perdoe. Apenas lhe peço que com preenda.

Hwi não pareceu surpresa por essa abertura, notou Idaho. Isso revelava m uito a respeito do assunto que os dois tinham estado discutindo antes da sua chegada.

Com o Idaho não respondesse, Moneo disse:

— Eu não tinha o direito de fazê-lo sentir-se inadequado.

Idaho percebeu que sentia um a reação curiosa aos m odos e palavras de Moneo. Ainda havia o sentim ento de estar sendo m anobrado e superado, de estar m uito longe do seu tem po, m as não m ais suspeitava de que Moneo pudesse estar brincando com ele. Algum a coisa havia reduzido o m aj ordom o a um arenoso substrato de honestidade. Essa percepção colocava o universo de Leto, o erotism o m ortal das Oradoras Peixes, a inegável candura de Hwi — tudo — num novo relacionam ento, um a form a que Idaho sentia entender. Era com o se os três nessa sala fossem os últim os seres hum anos verdadeiros em todo o universo. Ele falou com um sentim ento de am arga autodepreciação.

— Você tinha todo o direito de se proteger quando o ataquei. Satisfaz-m e que sej a tão capaz.

Idaho virou-se para Hwi, m as, antes que ele pudesse falar, Moneo disse:

— Você não precisa m e defender. Creio que o desprazer que ela sente com relação a m im é totalm ente irredutível.

Idaho sacudiu a cabeça.

— Será que todo o m undo aqui sabe o que vou dizer antes que eu o diga, o que eu vou sentir antes que eu o sinta?

— É um a de suas qualidades m ais adm iráveis — disse Moneo. — Não ocultar seus sentim entos. Nós — ele encolheu os om bros — som os necessariam ente m ais circunspectos. Idaho olhou para Hwi.

— Ele fala por você?

Ela colocou a m ão sobre a de Idaho:

— Eu falo por m im m esm a.

Moneo esticou o pescoço para olhar as m ãos unidas, depois afundou em sua alm ofada com um suspiro.

— Vocês não devem fazer isso.

Idaho segurou a m ão dela com m ais força, sentindo a resposta.

— Antes que um de vocês pergunte — disse Moneo —, m inha filha e o Im perador-Deus ainda não voltaram do teste.

Idaho sentiu o esforço que era exigido de Moneo para falar calm am ente. Hwi tam bém percebeu.

— É verdade o que dizem as Oradoras Peixes? — perguntou ela. — Siona m orre se fracassar?

Moneo perm aneceu em silêncio, m as seu rosto era com o rocha.

— É com o o teste da Bene Gesserit? — perguntou Idaho.

— O Muad’Dib disse que a Irm andade faz um teste para descobrir se você é hum ano.

As m ãos de Hwi com eçaram a trem er. Idaho sentiu e olhou para ela.

— Elas testaram você?

— Não — disse Hwi. — Mas ouvi as j ovens falando a respeito. Elas dizem que você deve suportar a agonia sem perder o senso de identidade.

Idaho voltou a atenção para Moneo, notando o princípio de um tique nervoso ao lado do olho esquerdo do m aj ordom o.

— Moneo — disse Idaho num suspiro, dom inado por um a súbita com preensão —, ele testou você!

— Não desej o discutir testes — respondeu Moneo. — Estam os aqui para decidir o que deve ser feito com relação a vocês dois.

— Não pode deixar isso por nossa conta? — perguntou Idaho. Ele sentia a m ão de Hwi tornando-se escorregadia com a transpiração.

— É da conta do Im perador-Deus — respondeu Moneo.

— Mesm o que Siona falhe? — indagou Idaho.

— Principalm ente se ela falhar!

— Com o foi que ele o testou? — perguntou Idaho.

— Ele m e m ostrou um pequeno vislum bre de com o é ser o Im perador-Deus.

— E?

— Eu vi tanto quanto sou capaz de ver.

As m ãos de Hwi com prim iram convulsivam ente as de Idaho.

— Então é verdade que você um dia foi um rebelde — disse Idaho.

— Com ecei com am or e preces — disse Moneo. — Depois m udei para ódio e rebelião. E fui transform ado no que vê diante de você. Reconheço o m eu dever e o cum pro.

— Que ele fez com você? — quis saber Idaho.

— Declam ou para m im a prece da m inha infância: “Eu dou m inha vida em dedicação à glória m aior de Deus.” — Moneo falou num a voz m editativa.

Idaho notou a im obilidade de Hwi, seu olhar fixo no rosto de Moneo. No que ela estaria pensando?

— Eu adm iti que essa tinha sido a m inha prece — continuou Moneo. — E o Im perador-Deus m e perguntou o que eu daria se m inha vida não fosse o bastante. Ele gritou para m im : “Que é a sua vida quando você guarda um a dádiva m uito m aior?”

Hwi m exeu afirm ativam ente a cabeça, m as Idaho apenas se sentiu ainda m ais confuso.

— Ouvi a verdade na voz dele — disse Moneo.

— Você é um Revelador da Verdade? — perguntou Hwi.

— Sob a força do desespero, sim — disse Moneo. — Mas só nesse caso. Eu lhe j uro que ele m e falou a verdade.

— Alguns Atreides tinham o poder da Voz — m urm urou Idaho.

Moneo sacudiu a cabeça.

— Não, era verdade. Ele m e disse: “Olho para você agora e se pudesse verteria lágrim as. Considere o desej o com o um ato!”

Hwi inclinou-se para diante, quase tocando a m esa.

— Ele não pode chorar?

— Verm es da areia — sussurrou Idaho.

— O quê? — Hwi virou-se em direção a ele.

— Os Frem en m atavam Os verm es da areia com água — disse Idaho. — Com o afogam ento, produziam a essência de especiaria para suas orgias religiosas.

— Mas Lorde Leto ainda não é totalm ente um verm e da areia — observou Moneo.

Hwi inclinou-se para trás em sua alm ofada e olhou para Moneo.

Idaho com prim iu os lábios, pensando. Teria Leto a inibição dos Frem en em relação às lágrim as? Com o os Frem en sem pre se adm iravam do desperdício de um idade! “Dar água aos m ortos.”

Moneo voltou-se para Idaho:

— Eu tinha esperanças de que você pudesse ser levado a um entendim ento. Lorde Leto disse: “Você e Hwi devem separar-se e nunca m ais ver um ao outro.”

Hwi soltou a m ão de Idaho.

— Nós sabem os.

Idaho disse com resignada am argura:

— Nós conhecem os seu poder.

— Mas não o com preendem — disse Moneo.

— Eu não desej o m ais do que isso — disse Hwi. Ela colocou a m ão sobre o braço de Idaho para silenciá-lo. — Não, Duncan. Nossos desej os particulares não têm lugar aqui.

— Talvez você devesse orar a ele — disse Idaho.

Ela virou-se e olhou para ele, fitando-o até que Idaho baixasse a cabeça. Quando ela falou, sua voz tinha um tom m usical que ele nunca ouvira antes:

— Meu tio Malky sem pre m e dizia que Lorde Leto nunca respondeu a um a prece. Ele dizia que Lorde Leto via na prece um a tentativa de coerção, um a form a de violência contra o deus escolhido, dizendo ao im ortal o que fazer: “Dê-m e um m ilagre, Deus, ou não acreditarei no Senhor!

— Prece com o hubris — disse Moneo. — Intercessão sobre um a dem anda.

Com o ele pode ser um deus? — retrucou Idaho. — Com o ele próprio adm itiu, não é im ortal.

— Eu citarei Lorde Leto a esse respeito — disse Moneo.

“Eu sou todos os deuses que precisam ser vistos. Eu sou a palavra convertendo-se em m ilagre. Eu sou todos os m eus ancestrais. Não será isso um m ilagre suficiente? Que m ais vocês poderiam querer? Pergunte a si m esm o: Onde existe um m ilagre m aior?”

— Palavras vazias — zom bou Idaho.

— Tam bém lhe disse isso — replicou Monco. — Devolvi-lhe suas próprias palavras da História Oral: “Dê para a glória m aior de Deus!”

Hwi ficou boquiaberta.

— Ele riu de m im — disse Monco. — Riu e m e perguntou com o eu poderia dar o que j á pertencia a Deus.

— Você ficou furioso? — indagou Hwi.

— Oh, sim . Ele percebeu e disse que iria m e m ostrar com o contribuir para a glória. Ele disse: “Você pode observar que é, em cada detalhe, um m ilagre tão grande quanto eu.” — Moneo virou-se, olhando para a j anela à sua esquerda. — Tem o que m inha raiva m e fizesse surdo e eu estivesse totalm ente despreparado.

— Oh, ele é m uito hábil — disse Idaho.

— Hábil? — Moneo olhou para ele. — Não creio, não no sentido em que você diz. Acho que Lorde Leto não é m ais hábil do que eu nesse sentido.

— Despreparado para quê? — perguntou Hwi.

— Para m e arriscar — respondeu Moneo.

— Mas você arriscou m uito com sua raiva — ela disse.

— Não tanto quanto ele. Eu vej o em seus olhos, Hwi, que você com preende isto. O corpo dele lhe causa repugnância?

— Agora não — respondeu ela.

Idaho trincou os dentes de frustração.

— Ele m e enoj a!

— Am or, não deve dizer essas coisas — disse Hwi.

— E você não deve cham á-lo de am or — censurou Moneo.

— Você prefere que ela aprenda a am ar alguém m ais perverso e brutal do que qualquer Barão Harkonnen j á sonhou ser — disse Idaho.

Moneo com prim iu os lábios, depois disse:

— Lorde Leto m e falou a respeito desse hom em perverso do seu tem po, Duncan. Não creio que você entendesse o seu inim igo.

— Ele era gordo, m onstruoso...

— Ele era um caçador de sensações — disse Moneo. — A gordura era um efeito colateral, ou então um a sensação em si m esm o, pois ela ofendia as pessoas e ele adorava ofendê-las.

— O Barão consum iu apenas alguns planetas — disse Idaho.

— Leto consom e o universo.

— Am or, por favor! — protestou Hwi.

— Deixe-o falar. Quando eu era j ovem e ignorante, com o m inha Siona e este pobre tolo, fiz coisas sem elhantes.

— E por isso que deixou sua filha partir para a m orte? — perguntou Idaho.

— Am or, isso é crueldade — disse Hwi.

— Duncan, sem pre foi um a de suas falhas buscar a histeria. Eu o advirto que a ignorância floresce a partir da histeria. Seus genes proporcionam vigor e você pode inspirar algum as Oradoras Peixes, m as você é um líder fraco.

— Não tente m e enfurecer — disse Idaho. — Sei m uito bem que não devo atacá-lo, m as não m e provoque tanto.

Hwi tentou segurar a m ão de Idaho, m as ele a retirou.

— Conheço o m eu lugar — ele disse. — Sou um útil seguidor e posso carregar a bandeira dos Atreides. O verde e o negro estão em m inha alm a!

— Os indignos m antêm o poder prom ovendo a histeria disse Moneo. — A arte dos Atreides é a arte de governar sem histeria, a arte de ser responsável pelos usos do poder.

Idaho levantou-se num ím peto.

— Quando é que o seu Im perador-Deus j á foi responsável por algum a coisa?

Moneo olhou para a m esa abarrotada e falou sem voltar os olhos para cim a.

— Ele é responsável pelo que fez a si m esm o. — Depois ergueu os olhos brilhantes. — Você não tem coragem , Duncan, de aprender por que ele fez isso a si m esm o!

— E você tem ?

— Quando eu estava no auge da fúria — disse Moneo —’ e ele via a si próprio através dos m eus olhos, ele disse: “Com o se atreve a ser ofendido por m im ?” E foi então — Moneo engoliu em seco — que ele m e fez ver o horror... que ele j á tinha visto.

— Lágrim as rolaram dos olhos de Moneo, descendo por suas faces. — E fiquei apenas feliz por não ter sido obrigado a tom ar tal decisão... por poder m e contentar em ser um seguidor.

— Eu o toquei — sussurrou Hwi.

— Então você sabe? — perguntou Moneo.

— Sem ter visto, eu sei — ela disse.

Em voz baixa, Moneo continuou:

— Quase m orri daquilo. Eu... — Ele estrem eceu, então olhou para Idaho. — Você não deve...

— Malditos sej am todos vocês! — explodiu Idaho. Levantou-se e saiu correndo da sala.

Hwi ficou olhando, seu rosto um a m áscara de angústia.

— Oh, Duncan — sussurrou.

— Está vendo? — perguntou Moneo. — Você estava errada. Nem você nem as Oradoras Peixes puderam m elhorar o gênio dele. Mas você, Hwi, você só contribuiu para a sua destruição.

Em sua aflição, Hwi voltou-se para Moneo.

— Não vou tornar a vê-lo.

Para Idaho, a passagem em direção aos seus aloj am entos tornou-se um a das ocasiões m ais difíceis de que tinha m em ória. Tentava im aginar seu rosto com o um a m áscara de plasteel, im óvel para ocultar a turbulência interior. Nenhum a das guardas por que passava podia ver sua dor. Não sabia que a m aioria delas fizera suposições precisas quanto às suas em oções e tinha com paixão por ele. Todas elas tinham assistido a palestras a respeito dos Duncans e haviam aprendido a ler bem suas em oções.

No corredor perto de seus aloj am entos, Idaho encontrou Nay la cam inhando lentam ente em direção a ele. Havia algum a coisa no rosto dela, um a aparência de indecisão e perda, que o deteve brevem ente e quase o tirou de sua concentração interna.

— Am iga? — disse ele, falando quando estava a apenas alguns passos dela.

Ela olhou para ele, o reconhecim ento óbvio em sua face quadrangular.

“Que m ulher estranha”, pensou ele.

— Não sou m ais Am iga — ela disse, e passou por ele sem se virar.

Idaho voltou-se, olhando para as costas dela — aqueles om bros pesados, aquela insinuação de m úsculos terríveis.

“Para que será que ela foi preparada?”, ele se perguntou.

Mas foi apenas um pensam ento passageiro. Logo suas preocupações retornaram , m ais fortes que antes. Ele cam inhou m ais alguns passos até o quarto.

Um a vez lá dentro, Idaho parou com os punhos contraídos.

“Não tenho m ais laços com época algum a”, pensou. E com o era estranho que esse não fosse um pensam ento de liberdade. No entanto sabia que tinha feito aquilo que libertaria Hwi de seu am or por ele. Sentia-se dim inuído. Em breve ela iria pensar nele com o um bobo, pequeno e petulante, dom inado apenas pelas próprias em oções. Podia sentir-se apagado das preocupações im ediatas dela.

“E aquele pobre Moneo!”

Idaho sentia a form a das influências que tinham form ado o dócil m aj ordom o. “Dever e responsabilidade.” Que abrigo seguro eram elas num tem po de decisões difíceis.

“Um dia eu fui assim ”, pensou Idaho. “Mas isso foi em outra época, outra vida.”

 

Os Duncans às vezes perguntam se compreendo as idéias exóticas do nosso passado. E, se as compreendo, então por que não posso explicá-las. O conhecimento, os Duncans acreditam, resume-se apenas aos pormenores. Tento explicar-lhes que todas as palavras são plásticas. As imagens verbais começam a ser distorcidas no momento em que são pronunciadas. As idéias embebidas na linguagem exigem uma língua determinada para serem expressas. Essa é a própria essência do significado da palavra exótico. Percebe como começa a se distorcer? A tradução cambaleia na presença do exótico. O Galach que eu falo aqui impõe-se a si próprio. É uma moldura externa de referência, um sistema particular. O perigo espreita em todos os sistemas. Os sistemas incorporam as crenças implícitas de seus criadores. Adote um sistema, aceite suas crenças, e você ajudará a reforçar a resistência à mudança. Servir-me-á de algum modo dizer aos Duncans que não existem linguagens para certas coisas? Ah! Mas os Duncans acreditam que todas as linguagens me pertencem.

— Os diários roubados

 

Por dois turnos com pletos de dias e noites, Siona deixou de fechar a m áscara sobre o rosto, perdendo água preciosa a cada respiração. Foi necessária a advertência dos Frem en às crianças antes que ela se lem brasse das palavras de seu pai. Leto falara com ela finalm ente, no frio da terceira m anhã da travessia, quando eles pararam à som bra de um a rocha na planura varrida pelos ventos do erg.

— Guarde cada fôlego, cada suspiro, pois ele carrega o calor e a um idade da sua vida.

Sabia que passariam m ais três dias e três noites no erg antes de alcançarem água. Agora era a quinta m anhã desde a partida da Torre da Pequena Cidadela. Eles haviam avançado sobre m ontes rasos de areia durante a noite — não eram dunas, m as dunas podiam ser vislum bradas adiante, e até m esm o os rem anescentes da Cordilheira Habbany a eram um a linha fina e quebrada, vislum brada na distância, desde que se soubesse para onde olhar.

Agora, Siona tirava a m áscara facial apenas para falar claram ente. E falava com lábios negros, que sangravam .

“Ela tem a sede dos desesperados”, pensou Leto enquanto deixava os sentidos sondarem as cercanias. “Logo chegará ao m om ento de crise.” Seus sentidos lhe diziam que ainda se encontravam sozinhos na extrem idade da planície. Aurora estava a apenas alguns m inutos no passado. A luz baixa criava barreiras de reflexo na areia, as quais ondulavam , erguiam -se e caíam no vento incessante. Seus sentidos filtraram o vento para que pudesse ouvir outras coisas — a respiração pesada de Siona, o escorrer da areia nas rochas ao lado, seu próprio corpo pesado friccionando um a fina cobertura de areia.

Siona puxou a m áscara facial, m as a m anteve segura para um a rápida recolocação.

— Quanto tem po até encontrarm os água? Três noites.

— Existe algum a direção m elhor para seguirm os?

— Não.

Ela passara a apreciar a econom ia Frem en com o inform ação im portante. Bebeu avidam ente as poucas gotas em sua bolsa recolhedora.

Leto reconheceu a m ensagem nos m ovim entos dela — gestos fam iliares para Frem en in extrem is. Siona estava agora totalm ente consciente de um a experiência com um entre seus ancestrais — o patiy eh, a sede à beira da m orte.

As poucas gotas no bolsão de recolhim ento do traj e se haviam acabado. Ele a ouviu sugando o ar. Siona recolocou a m áscara e falou com a voz abafada.

— Não vou conseguir, vou?

Leto olhou para os olhos dela, vendo aquela clareza de pensam entos trazida pela proxim idade da m orte, um a consciência penetrante, raram ente conseguida de outro m odo. Isso am pliava apenas o que era necessário à sobrevivência. Sim , ela estava bem dentro do tedah ri-agrim i, a agonia que abre a m ente. Logo estaria tom ando aquela decisão final que acreditava j á ter sido assum ida. Leto reconhecia pelos indícios que era preciso tratar Siona com extrem a cortesia. Ele teria que responder cada pergunta com candura porque cada pergunta traria um j ulgam ento.

— Vou? — insistiu ela.

Ainda havia um resto de esperança em seu desespero.

— Nada é certo — ele disse.

Isso j ogou-a no desespero.

Não fora essa a intenção de Leto, m as ele sabia que isso acontecia com freqüência — um a reação precisa, em bora am bígua, era reconhecida com o a confirm ação dos tem ores m ais profundos da pessoa.

Ela suspirou.

Sua voz abafada pela m áscara sondou um a vez m ais:

— Você tinha algum a intenção especial para m im em seu program a de procriação.

Não era um a pergunta.

— Todas as pessoas têm intenções — disse ele.

— Mas você queria m inha concordância total.

— É verdade.

— Com o podia esperar que eu concordasse quando sabe que odeio tudo a seu respeito? Sej a honesto com igo!

— O tripé onde assenta a concordância é form ado pelo desej o, o conhecim ento e a dúvida. Honestidade e precisão têm m uito pouco a ver.

— Por favor, não discuta com igo. Sabe que estou m orrendo.

— Eu a respeito dem asiado para discutir com você.

Ele ergueu ligeiram ente os segm entos frontais, sondando o vento. Já com eçava a trazer o calor do dia, m as havia m uita um idade para o seu conforto. Lem brava-lhe de que, quanto m ais ordenava o clim a controlado, m ais coisas existiam exigindo controle. Os absolutos só levavam m ais perto das indeterm inações.

— Você diz que não está discutindo, m as.

— A discussão fecha as portas dos sentidos — disse ele, abaixando-se de novo na superfície. — Ela sem pre m ascara a violência. Um a discussão, se prolongada por m uito tem po, sem pre conduz à violência. Não tenho intenções violentas com relação a você.

— Que quer dizer com desej o, conhecim ento e dúvida?

— O desej o une os participantes. O conhecim ento estabelece os lim ites do diálogo. A dúvida m olda as perguntas.

Ela aproxim ou-se a fim de olhar diretam ente para o rosto dele de m enos de um m etro de distância.

Com o era singular, ele pensou, que o ódio pudesse fundir-se tão com pletam ente com a esperança, o m edo e a adm iração.

— Poderia m e salvar?

— Existe um m odo.

Ela assentiu com a cabeça e Leto percebeu que Siona havia saltado para a conclusão errada.

— Você quer trocar isso pelo m eu acordo! — ela acusou.

— Não.

— Se eu passar no seu teste.

— Não é m eu o teste.

— De quem é?

— Ele deriva de nossos ancestrais com uns.

Siona abaixou-se para se sentar na rocha fria e ficou em silêncio. Ainda não se sentia pronta para pedir pelo lugar de repouso dentro da borda quente do segm ento frontal. Leto j ulgou poder ouvir o grito que esperava dentro da garganta dela. Agora suas dúvidas estavam em ação. Ela estava com eçando a se perguntar se ele realm ente podia ser encaixado naquela im agem do Últim o Tirano. Olhou para ele com aquela terrível lim pidez que Leto havia identificado nela:

— Que o faz fazer o que faz?

A pergunta era bem colocada. Ele disse:

— A necessidade de salvar o m eu povo.

— Que povo?

— Minha definição é m ais am pla que a de qualquer outro... m esm o que a da Bene Gesserit, que j ulga ter definido o que é ser hum ano. Refiro-m e à eterna linha de toda a hum anidade, qualquer que sej a a definição.

— Está tentando m e dizer.

Sua boca tornou-se m uito seca para continuar falando. Ela tentou acum ular saliva. Leto viu os m ovim entos dentro da m áscara facial. Sua pergunta era óbvia, contudo, e ele não esperou.

— Se não fosse eu, agora não haveria gente em parte algum a, gente algum a. E o cam inho rum o a essa extinção da hum anidade era m ais horrendo do que a im aginação m ais extravagante poderia conceber.

— Sua suposta presciência — retrucou ela.

— O Cam inho Dourado ainda perm anece aberto.

— Eu não confio em você!

— Porque não som os iguais?

— Sim !

— Mas som os interdependentes.

— Qual a necessidade que tem de m im ?

“Ah, o grito do j ovem incerto do seu nicho.” Sentia a força dentro dos laços secretos da dependência e se forçou a ser duro. “A dependência gera a fraqueza!”

— Você é o Cam inho Dourado — disse Leto.

— Eu? — era quase um sussurro.

— Você leu aqueles diários que roubou de m im . Eu estou neles, m as onde está você? Olhe para o que eu criei, Siona. E você, você não pode criar nada a não ser você m esm a.

— Palavras, m ais palavras habilidosas.

— Não sofro por ser adorado, Siona, sofro por nunca terem gostado de m im . Talvez... Não, não m e atrevo a ter esperanças com relação a você.

— Qual é o propósito daqueles diários?

— Um a m áquina Ixiana os registra. Deverão ser encontrados num a época distante. Farão as pessoas pensarem .

— Um a m áquina Ixiana? Você desafia o Jihad!

— Há um a lição nisso tam bém . O que tais m áquinas realm ente fazem ? Elas aum entam o núm ero de coisas que podem os fazer sem pensar. E coisas que nós fazem os sem pensar... esse o verdadeiro perigo. Olhe a distância que você cam inhou neste deserto sem pensar na sua m áscara facial.

— Você podia ter m e avisado!

— E aum entar a sua dependência?

Ela olhou para ele por um m om ento, depois disse:

— Por que desej a que eu com ande as suas Oradoras Peixes?

— Você é um a m ulher Atreides, cheia de iniciativa e capaz de pensar com independência. Você pode ser sincera apenas para se m anter fiel à verdade tal com o a vê. Foi gerada e criada para com andar. O que significa ser livre da dependência.

O vento fazia rodopiar o pó e a areia em torno deles enquanto ela pesava as palavras de Leto.

— E se eu concordar, vai m e salvar?

— Não.

Ela estivera tão certa de que a resposta seria o oposto que levou várias batidas do coração para que pudesse com preender aquela única palavra. Durante esse tem po, o vento dim inuiu ligeiram ente, expondo um a vista da paisagem de dunas até os restos da Cordilheira Habbany a. O ar ficou subitam ente gelado com aquele frio que fazia tanto para roubar a um idade da carne quanto a luz solar m ais quente. Parte da consciência de Leto detectou a oscilação do controle do clim a.

— Não? — Ela estava tão intrigada quanto furiosa.

— Não faço acordos de sangue com pessoas em quem devo confiar.

Ela sacudiu a cabeça lentam ente, de um lado para o outro, m as seu olhar perm aneceu fixo no rosto dele.

— Que irá fazê-lo salvar-m e?

— Nada m e obrigará a fazer isso. Por que acha que m e levaria a fazer por você o que não pode fazer por m im ? Esse não é o cam inho que leva à interdependência.

Os om bros dela abaixaram -se.

— Se não posso fazer um acordo com você ou forçá-lo a...

— Então você deve escolher outro cam inho.

“Que coisa m aravilhosa é observar o crescim ento explosivo da com preensão”, ele pensou. As feições expressivas de Siona não lhe ocultavam coisa algum a. Ela focalizou a atenção em seus olhos, fitando-os com o se quisesse penetrar em seus pensam entos. Um a nova força surgiu em sua voz abafada.

— Você m e faria conhecer tudo a seu respeito... m esm o cada fraqueza?

— Você roubaria de m im o que eu daria abertam ente?

A luz da m anhã atingia-lhe duram ente o rosto.

— Não lhe prom eto coisa algum a.

— Nem eu exij o isso — disse Leto.

— Mas vai m e dar... água se eu pedir?

— Não é apenas água.

Ela acenou afirm ativam ente com a cabeça.

— E eu sou Atreides.

As Oradoras Peixes não ocultavam a lição referente a essa suscetibilidade especial nos genes dos Atreides. Ela sabia de onde a especiaria se originava e o que poderia fazer com ela. As instrutoras, nas escolas das Oradoras Peixes, nunca lhe tinham falhado. E as pequenas adições de m elange na com ida seca de Siona tam bém tinham feito seu trabalho.

— Essas dobras pequenas e curvas ao lado do m eu rosto — disse Leto. — Acaricie um a delas suavem ente com o dedo e ela produzirá algum as gotas de um idade pesadam ente carregadas de essência de especiaria.

Ele viu a com preensão nos olhos dela. Mem órias que não reconhecia com o m em órias estavam falando para ela. E Siona era o resultado de m uitas gerações através das quais a sensibilidade dos Atreides fora aum entada.

Mesm o a urgência de sua sede não fez com que ela agisse.

Para aj udá-la a superar a crise, contou-lhe a respeito das crianças Frem en buscando trutas da areia na borda de um oásis e tirando a um idade delas para um a rápida revitalização.

— Mas eu sou Atreides — ela disse.

— A História Oral diz a verdade.

— Então eu poderia m orrer disso?

— Esse é o teste.

— Você m e transform aria num a verdadeira Frem en!

— De que outro m odo você poderia ensinar seus descendentes a sobreviverem aqui depois que eu tiver partido?

Ela tirou a m áscara e colocou o rosto a um palm o de distância do dele. Um dedo se ergueu e tocou um a das dobras curvas do capuz de truta da areia.

— Coce suavem ente — ele disse.

A m ão obedeceu, não à voz dele, m as a algum a coisa de dentro de Siona. Os m ovim entos do dedo eram precisos, fazendo brotar outras m em órias, um a coisa que passara de um a criança para a outra... do m odo com o tanta inform ação e tanta desinform ação sobreviviam . Leto virou o rosto ao m áxim o que poderia e olhou de lado para aquele rosto tão próxim o ao seu. Pálidas gotas azuis com eçavam a se form ar na borda da dobra. Ricos arom as de canela os envolveram . Ela inclinou-se em direção às gotas e Leto pôde ver os poros ao lado do nariz dela, o m odo com o a língua se m exia enquanto ela bebia.

Daí a pouco Siona recuou — não totalm ente satisfeita, m as m ovida pela cautela e pela suspeita, do m esm o m odo com o Moneo tinha agido. “Tal pai, tal filha.”

— Quanto tem po até que com ece a agir? — perguntou ela.

— Já está agindo.

— Eu quero dizer.

— Um m inuto, m ais ou m enos.

— Não lhe devo nada por isto!

— Não exigirei pagam ento.

Ela fechou a m áscara facial.

Leto viu as distâncias enevoadas entrarem nos olhos dela. Sem pedir perm issão, ela bateu em seu segm ento frontal, exigindo que ele preparasse a cálida rede de sua carne. Leto obedeceu e ela se acom odou na suave curva. Se olhasse bem para baixo, ele poderia vê-la. Os olhos de Siona perm aneciam abertos, m as ela não m ais via esse lugar. Teve um a súbita convulsão e com eçou a trem er com o um a pequena criatura m orrendo. Leto conhecia a experiência, m as não podia m odificar o m enor detalhe. Nenhum a presença ancestral iria perm anecer em sua consciência, m as ela carregaria consigo, para sem pre, as visões claras, os sons e os cheiros. As m áquinas rastreadoras estariam lá, o cheiro de sangue e entranhas, os seres hum anos encolhidos em suas tocas, conscientes apenas de que não poderiam escapar... enquanto o tem po todo os m ovim entos m ecânicos se tornavam m ais próxim os, cada vez m ais próxim os, m ais próxim os... tornando-se m ais altos... m ais altos!

E em todo lugar onde ela procurasse seria a m esm a coisa. Não havia fuga em parte algum a.

Leto sentiu a vida dela se esvaindo. “Lute contra a escuridão, Siona!” Essa era um a coisa que os Atreides faziam . Eles lutavam pela vida. E agora Siona estaria lutando por outras vidas além da sua. Mas ele sentia o esgotam ento... o terrível esvairse da vitalidade. Ela m ergulhava m ais fundo na escuridão, m ais fundo do que qualquer outro havia penetrado. Ele com eçou a em balá-la suavem ente, com um m ovim ento oscilante do seu segm ento frontal. Isso ou então aquele tênue fio quente de determ inação, talvez as duas coisas j untas prevalecessem . Por volta do inicio da tarde, a carne dela passara dos trem ores para algum a coisa que se aproxim ava do verdadeiro sono. Som ente um sopro ofegante ocasional traía os ecos da visão. Ele a ninava suavem ente, rolando-a de um lado para o outro.

Será que ela poderia retornar daquelas profundezas? Sentia as respostas vitais tranquilizadoras. A força que havia nela!

Siona despertou no final da tarde, um a quietude tom ando conta dela de repente, um a m udança no ritm o da respiração. Os olhos abriram -se bruscam ente, ela olhou para ele e depois rolou para fora da rede a fim de ficar de pé, de costas para Leto, pensando durante quase um a hora.

Moneo fizera a m esm a coisa. Era um novo padrão nesses Atreides. Alguns dos anteriores tinham discursado para ele. Outros haviam recuado e se afastado aos tropeções, olhando para trás, forçando-o a segui-los, rem exendo-se e raspando por sobre as pedras. E outros se haviam agachado e olhado para o chão. Nenhum lhe tinha dado as costas. Leto tom ou isso com o um novo desenvolvim ento, um sinal de esperança.

— Você está com eçando a ter idéia de quão distante m inha fam ília se prolonga no passado — disse Leto.

Ela se virou, a boca um a linha contraída, m as não lhe encarou o olhar. Ele podia notar que ela estava aceitando, contudo, um a com preensão que poucos hum anos poderiam com partilhar do m odo com o ela com partilhara: aquela m ultidão singular feita de toda a hum anidade dentro da sua fam ília.

— Você podia ter salvo m eus am igos na floresta — acusou ela.

— Você tam bém poderia tê-los salvo.

Ela com prim iu os punhos e os apertou contra as têm poras, enquanto olhava furiosa para ele.

— Mas você conhece tudo!

— Siona!

— Eu precisava aprender desse m odo? — sussurrou ela.

Ele perm aneceu em silêncio, forçando-a a responder a pergunta por si m esm a. Precisava ser conduzida a um reconhecim ento de que sua consciência básica funcionava do m odo Frem en, e que, com o as terríveis m áquinas daquela visão apocalíptica, os predadores seguiriam qualquer criatura que deixasse rastros.

— O Cam inho Dourado — ela sussurrou. — Posso senti-lo.

— Olhou com raiva para ele. — E tão cruel!

— A sobrevivência sem pre foi um a coisa cruel.

— Eles não podiam se esconder — sussurrou ela outra vez. Depois falou alto: — Que fez com igo?

— Você tentou ser um a rebelde Frem en. Os Frem en possuíam um a habilidade quase inacreditável para notarem sinais no deserto. Podiam até m esm o seguir a tênue filigrana dos rastros do vento soprando a areia.

Percebeu o início do rem orso na consciência dela, m em órias dos com panheiros m ortos flutuando em sua m ente. Falou rapidam ente, sabendo que a culpa logo iria passar, seguida de um ódio contra ele:

— Você teria acreditado se eu apenas a tivesse trazido aqui e lhe contado?

O rem orso am eaçou dom iná-la. Ela abriu a boca por baixo da m áscara num a expressão de espanto.

— Você ainda não sobreviveu ao deserto — lem brou ele.

Lentam ente, os trem ores dela se controlaram . Os instintos Frem en que colocara em ação exerciam sua m oderação habitual.

— Vou sobreviver — ela disse. E encarou o olhar dele. — Você nos lê através de nossas em oções, não é?

— Aquilo que acende o pensam ento — respondeu ele. — Posso reconhecer a m ais tênue nuança com portam ental a partir de suas origens em ocionais.

Ele a viu aceitar sua própria nudez do m odo com o Moneo havia aceito; com m edo e ódio. Não tinha m uita im portância. Sondou o tem po adiante deles. Sim , ela iria sobreviver ao deserto porque suas trilhas estavam na areia ao lado dele... m as não viu indícios da carne dela naqueles rastros. Um pouco além dos rastros de Siona, contudo, ele viu um a súbita abertura onde coisas haviam sido ocultas. O grito de m orte de Anteac ecoou em sua consciência presciente... e o enxam e de Oradoras Peixes atacando!

“Malky vem vindo”, pensou ele. “Nós nos encontrarem os novam ente, Malky e eu.”

Leto abriu os olhos exteriores e viu Siona ainda olhando furiosa para ele.

— Eu ainda o odeio! — ela disse.

— Você odeia a crueldade necessária do predador.

— Ela falou com um a exaltação m aligna:

— Mas eu vi outra coisa! Você não pode seguir m eus rastros!

— O m otivo para você preservar e transm itir isto.

Enquanto ele falava, com eçou a chover. A súbita penum bra da nuvem e o cair da água atingiram -nos sim ultaneam ente. A despeito do fato de ter sentido a oscilação do controle do clim a, Leto ficou chocado por esse assalto. Sabia que às vezes chovia no Sareer, um a chuva que logo se dispersava na m edida em que a água se esgotava e desaparecia. As poucas poças se evaporariam sob a luz do sol que não dem oraria a retornar. Na m aioria das vezes a precipitação nem tocava o solo; era um a chuva fantasm agórica, vaporizada ao atingir a cam ada de ar superaquecida, logo acim a da superfície do deserto, e então se dispersando ao vento. Mas essa pancada o ensopou.

Siona tirou a m áscara facial e ergueu o rosto ávido para a água que caía, nem m esm o notando seu efeito em Leto.

Na m edida em que a água penetrava por trás da cobertura de truta da areia, ele se enrij ecia, curvando-se e se enrolando num a bola agonizante. Im pulsos opostos de truta e de verm e de areia produziam um novo significado para a palavra dor. Leto sentia-se rasgado ao m eio. A truta da areia queria correr para a água e englobá-lo. O verm e da areia sentia a m orte no encharcam ento. Espirais de fum aça azul erguiam -se de cada ponto onde a chuva o tocava. A estrutura interna de seu corpo com eçava a m anufaturar a verdadeira essência de especiaria. Um a fum aça azul elevou-se em torno do ponto onde ele j azia em m eio às poças de água. Leto se contorcia e gem ia.

As nuvens passaram e levou alguns m inutos para que Siona sentisse a perturbação.

— Que há de errado com você?

Ele estava incapaz de responder. A chuva se fora, m as a água perm anecia nas rochas e nas poças ao lado e em baixo dele. Não havia escapatória.

Siona viu a fum aça azul erguendo-se de cada ponto em que a água o tocava.

— É a água!

Havia, à direita, um a protuberância de terra, ligeiram ente m ais alta, onde a água não perm anecera. Dolorosam ente, ele seguiu para ela, gem endo a cada nova poça. A elevação estava quase seca quando Leto a atingiu. A agonia foi se esvaindo lentam ente e ele se tornou consciente de que Siona se encontrava bem diante dele. Ela o sondou com palavras de falsa preocupação.

— Por que a água o fere?

“Fere? Que palavra inadequada!” Não havia m aneira de escapar às suas perguntas. Agora ela sabia o suficiente para pesquisar as respostas. E a resposta poderia ser encontrada. Hesitantem ente, ele explicou a relação que havia entre a truta e o verm e da areia. Ela escutou em silêncio.

— Mas a um idade que m e deu...

— Estava coberta e m ascarada pela especiaria.

— Então, por que se arrisca aqui fora sem a carreta?

— Você não pode ser Frem en na Cidadela ou em um a carreta.

Ela assentiu afirm ativam ente com a cabeça.

E ele viu a cham a da rebelião retornar-lhe aos olhos. Ela não precisava sentir-se culpada ou dependente. Não podia m ais evitar a crença no seu Cam inho Dourado, m as que diferença isso fazia? As crueldades de Leto não poderiam ser perdoadas! Ela poderia rej eitá-lo, negar-lhe um lugar em sua fam ília. Ele não era hum ano, não era com o ela, nem um pouco. E ela detinha o segredo da sua destruição! Envolva-o com água, destrua o seu deserto, im obilize-o dentro de um fosso de agonia! Será que ela acreditava poder ocultar seus pensam entos apenas virando-lhe as costas?

“E que posso eu fazer a esse respeito?”, ele se perguntou. “Ela deve sobreviver agora, enquanto eu devo dem onstrar não-violência.”

Agora que sabia algum a coisa a respeito da natureza de Siona, com o seria fácil entregar-se, m ergulhar cegam ente nos próprios pensam entos. Era sedutora essa tentação de viver apenas dentro de suas próprias m em órias. Mas seus filhos ainda exigiam outra lição através do exem plo para poderem escapar à últim a am eaça do Cam inho Dourado.

“Que decisão dolorosa!” Ele experim entou um a nova sim patia pela Bene Gesserit. Sua dúvida e seu em baraço eram sem elhantes ao que elas haviam experim entado ao confrontarem a realidade do Muad’Dib. “O obj etivo final do seu program a de procriação — m eu pai —, elas tam bém não podiam dom iná-lo.”

“Um a vez m ais na disputa, queridos am igos”, pensou ele, e suprim iu um sorriso am argo ante seu próprio histrionism o.