O Jogo do Bilionário: Kade

J. S. Scott · Capítulo 2 de 21

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O Jogo do Bilionário: Kade

Capítulo 1

Kade Harrison sempre gostara de jogos. Talvez até pudesse dizer que vivia e respirava só para participar de praticamente todos os tipos de eventos esportivos. Era uma coisa em que era bom, a única coisa em que sempre se saíra bem, e não gostava de perder. Infelizmente, perdera durante os dois meses anteriores e isso estava começando a deixá-lo furioso.

Onde diabos ela está?

Rastrear Asha Paritala quase se tornara um esporte competitivo. Kade trabalhava havia dois meses em encurralar Asha, viajando de um lado do país ao outro, mas sempre ficando de mãos vazias. Ele estava perdendo aquela competição em particular e não gostava disso. A mulher era esperta, escapando antes que ele conseguisse alcançá-la. Kade não tinha dúvidas de que ele e Asha brincavam de gato e rato e de que ela o estava evitando. Ele deixara tantas mensagens em tantos lugares que ela certamente recebera pelo menos uma delas. Ela o evitava por algum motivo desconhecido, mas o gato pretendia atacar. Assim que conseguisse encurralar o rato fugidio.

Kade entrou no quarto do hotel em Nashville, tirou o boné de beisebol e caiu sobre a cama imensa com um suspiro. Ele teria que telefonar para o cunhado Max e avisar que falhara... novamente. Asha tinha acabado de sair do abrigo para sem-tetos, alguns minutos antes de ele chegar, e ninguém sabia para onde fora. Ela deixara os poucos pertences para trás e Kade tinha alguma esperança de que voltasse, mas ninguém no abrigo a conhecia.

Também não sabiam onde ela estava nem se voltaria.

Vale tudo nesta perseguição e para ganhar este jogo. Tenho uma notícia para você, ratinho: sei jogar sujo. Você sabe onde as suas coisas estão... venha buscá-las.

Sorrindo, Kade rolou sobre a cama e pegou a mochila com os pertences de Asha. Ele brigou com a própria consciência apenas por um momento sobre pegar as coisas dela e deixar uma mensagem indicando onde poderia buscá-las. Ele as devolveria se e quando ela aparecesse. Enquanto isso, usaria qualquer pista que conseguisse encontrar para descobrir exatamente quem ela era e se havia alguma chance de que fosse a irmã perdida de Max.

Ele perdera dois meses fazendo aquele favor ao cunhado, procurando uma mulher que não conseguia conhecia e que talvez fosse parente de Max, e pretendia terminar o serviço. Apesar de o irmão gêmeo Travis fazer a maior parte do trabalho da Corporação Harrison em Tampa, Kade tinha algumas responsabilidades que insistira em assumir quando a carreira de jogador de futebol terminara. Em algum momento, teria que voltar a Tampa.

Ele fez uma careta ao se levantar da cama. A perna direita doía depois de dois meses procurando incessantemente uma mulher, que começava a achar que não passava de um fantasma, uma ilusão. Mas ele sabia que Asha Paritala existia, que era real, e estava determinado a encontrá-la. Maddie e Max mereciam saber se aquela mulher era irmã deles. Não importava o fato de não ter conseguido ainda colocar os olhos em Asha. Isso aconteceria. Em breve. De alguma forma, ele quase não queria que a busca terminasse.

Sentira-se mais vivo nos dois meses anteriores do que desde o acidente.

Aquele jogo com a mulher desconhecida era um desafio e não havia nada que Kade adorasse mais do que vencer um jogo difícil. O instinto lhe dizia que ela sabia que ele a procurava. A pergunta era: por que ela estava fugindo? Ele não queria nada além de informações dela, o que poderia lhe dar dois irmãos que ela nem sabia que existiam. Não havia muitas pessoas que não gostariam de ser parentes de Max e Maddie, especialmente por serem duas das pessoas mais ricas do mundo, além de serem duas das mais gentis que Kade já conhecera.

— Não sei por que estou tão impaciente. Não tenho mesmo mais nada a fazer até que Travis precise de mim — disse ele para si mesmo em tom sombrio, admitindo que o irmão gêmeo raramente o chamava para alguma coisa, além do fato de que Travis nunca precisava de ninguém. Isso fizera com que Kade se sentisse inútil e inquieto. Os dias como jogador

profissional de futebol tinham acabado. O papel de estrela do time Florida Cougars não passava de uma lembrança, a única coisa que ele amara e que lhe fora arrancada quase dois anos antes quando um motorista bêbado não vira sua motocicleta. A perna de Kade fora praticamente destruída quando o imbecil bêbado mudara de faixa, prendendo-a entre a motocicleta e a carroceria da caminhonete. Ele não se lembrava de muita coisa do acidente.

Mas uma das primeiras coisas de que se lembrava com muita clareza era acordar na UTI, com Amy, a namorada de longa data, franzindo a testa como se ele a tivesse desapontado. E, obviamente, ele fizera isso. Ela terminara o relacionamento naquele momento, deixando claro que se recusava a ficar com um aleijado que não seria mais uma celebridade.

Tentando afastar da mente as lembranças desagradáveis e dolorosas do acidente, ele se concentrou nos pertences que despejou sobre a cama: algumas peças de roupa gastas, uma escova de cabelos, uma escova de dentes que certamente vira dias melhores, um bloco grande de papel e alguns blocos de carvão e lápis usados. Empurrando os outros itens de lado, ele abriu o bloco, ficando hipnotizado ao passar as páginas lentamente, estudando cada desenho antes de seguir para o próximo.

As imagens quase saltavam das páginas, tão reais que parecia que sairiam do papel e surgiriam vivas à sua frente. Na primeira parte da coleção, os desenhos eram fantasiosos, muitos parecendo criaturas mitológicas ou animais.

Ela é uma artista. Uma artista maravilhosa.

— Nossa — sussurrou ele em tom maravilhado ao pular algumas páginas em branco e chegar a outra seção, revelando os retratos que ela fizera. Ele não reconheceu nenhum dos indivíduos que ela desenhara.

Obviamente, eram pessoas comuns realizando atividades do dia a dia, mas ele sentiu cada emoção em um desenho do rosto de uma mulher mais velha, uma jovem que parecia estar sentada no banco de uma parada de ônibus, e quase sentiu a alegria de um grupo de crianças que brincavam em uma praça. Folheando o restante dos retratos, ele ficou impressionado com o talento de Asha. Kade não era artista, mas os desenhos conseguiram tocar até mesmo suas emoções. E ele não era o tipo de pessoa particularmente emotiva.

Kade sentiu a boca ficar seca e as entranhas se revirarem ao chegar ao último desenho, de um homem e uma mulher em um abraço apaixonado. O

rosto do homem estava sombreado, pois a cabeça estava virada para o lado, mas o desejo da mulher fora desenhado de forma tão potente que ele conseguiu sentir o desespero dela enquanto esperava que o homem a beijasse. Os cabelos longos e sedosos desciam pelas costas dela, que tinha a cabeça inclinada para o beijo e o rosto revelando uma necessidade nua.

As palavras rabiscadas abaixo do desenho atingiram Kade como um soco:

Alguém! Algum dia! Em algum lugar!

Kade certamente queria ser o homem misterioso nas sombras, o cara que beijaria a mulher, deixando-a sem fôlego, que lhe desse a paixão que sentia que ela queria desesperadamente. Ele sabia exatamente como ela se sentia.

Ele se sentira da mesma forma. Na verdade, ainda se sentia assim sempre que via a irmã Mia e o marido dela, Max, juntos. Ou os amigos, Sam e Maddie ou Simon e Kara. Todos tinham encontrado os parceiros, a pessoa que fazia com que se sentissem inteiros. E a felicidade que rodeava aqueles casais era quase dolorosa para um homem como ele, que se sentia tão solitário. Ele se sentia muito feliz por todos eles. Cada um deles merecia ser feliz. No entanto, não era fácil não se sentir perdido, ou até mesmo um pouco estranho, quando estava perto deles. Ele não fazia parte daquilo e mantinha as emoções sob controle. Desde criança, fora condicionado a se manter sob controle e ele aprendera a se conter durante a carreira como jogador. Era vital que se mantivesse sereno e imparcial. Deixar que as emoções o dominassem resultaria em erros e ele raramente cometia erros dentro do campo. Além do mais, um cara criado por um pai tão louco como o dele precisava ter controle. Ele e os irmãos tinham tentado nunca fazer nada que pudesse ser interpretado como emotivo ou fora do comum. Era a forma que tinham de tentar se distinguir do pai.

Kade soltou um longo suspiro e continuou a olhar para o retrato, imaginando como seria sentir aquele tipo de paixão. Sim, claro, ele gostava de sexo. Quem não gostava? Mas o desejo tinha vida curta e era facilmente resolvido. Ele não precisara resolver aquele problema nos dois anos anteriores. Alguma coisa relacionada a quase perder a perna e a dois anos de reabilitação dolorosa empurrara aquele desejo particular para o fundo.

A mulher não é real. É apenas um desenho.

Kade fechou o bloco de desenho com mais força do que o necessário, sentindo-se desgostoso. Ele nunca fora do tipo romântico e sempre fora

muito contido. Estivera com Amy desde a época do colégio e ela odiava exibições públicas de afeto. As únicas coisas de que ela sempre gostara foram os presentes caros que lhe dava e as festas extravagantes das quais era obrigado a participar por causa do status de celebridade e dos patrocínios. E, agora que não tinha mais aquele status, não era o tipo de homem que faria com que uma mulher o olhasse como se fosse o único homem no mundo, rico ou não. Não que qualquer mulher tivesse olhado para ele daquela forma, mesmo antes do problema na perna. Afinal de contas, ele era um daqueles Harrisons loucos, filhos do homem que tinha matado a própria esposa. Apesar de uma mulher talvez apreciar sua conta bancária, ele tinha quase certeza de que nenhuma o apreciaria. Ele era um deficiente e nunca mais poderia jogar futebol, a única coisa que o fizera sentir que tinha algum valor. Talvez tivesse dinheiro, mas era praticamente a única coisa que tinha a oferecer a alguém. Sinceramente, talvez sempre tivesse sido assim. Ele não era exatamente o ideal de príncipe encantado de mulher alguma e tinha sérias dúvidas de que merecia aquele tipo de amor. O

pai fora um homem completamente louco, que batia com frequência nos filhos e na esposa. Ele acabara matando a mãe de Kade, suicidando-se em seguida. Haveria um final feliz para uma família tão disfuncional como a dele? Ele, Travis e Mia tinham se concentrado principalmente em sobreviver.

Mia encontrou seu final feliz com Max. Ela está feliz agora.

Kade soltou a respiração lentamente e guardou os poucos pertences de Asha na mochila. A irmã mais nova dele, Mia, estava feliz. Mas o caminho até a felicidade fora muito difícil. A irmã merecia toda a felicidade que tinha agora com o marido, Max. Deus sabia o quanto ela sofrera até chegar lá.

Kade queria que o irmão gêmeo mais velho, Travis, encontrasse um pouco de paz. Mas sabia que ele e Travis dividiam a mesma escuridão, uma sombra na alma que provavelmente os manteria para sempre isolados e solitários. Travis vestia a escuridão como um manto, enquanto que Kade tentava esconder a sua. Mas ela ainda estava lá, aquele vazio sombrio que nunca ia embora. O acidente só tornara as coisas piores, mais escuras e vazias do que nunca. A carreira de jogador de futebol o mantivera ocupado, dera-lhe um propósito. Sem ela, não havia nada que se mantivesse entre ele e as lembranças sombrias do passado.

Sou diferente. Não fui feito para um relacionamento mais profundo do que o que tive com Amy.

Ele sempre soubera que o relacionamento com Amy fora superficial, mas isso sempre servira para os dois. O que diabos ele sabia sobre o amor?

Tinha quase certeza de que nem era capaz de realmente amar uma mulher.

Desde que terminara com Amy, estivera sozinho. Estranhamente, não se sentia muito diferente de quando estivera no relacionamento. As palavras cruéis dela tinham machucado, mas ele realmente esperara algo diferente?

Ele violara todas as regras não ditas do relacionamento quando tivera o acidente, e a recuperação levara quase dois anos. Ele esperara mesmo que ela ficasse ao seu lado, quando tudo mudara? Amy era uma supermodelo linda e não estava disposta a cuidar de um homem criticamente mal de saúde, enfrentando dois anos de reabilitação. Ela quisera as festas, os presentes caros, o reconhecimento de ser a namorada de um jogador famoso, um homem que não mancava e se agradecia todos os dias por ainda ter a perna direita. De forma nada surpreendente, ela se juntara a outro jogador em ascensão depois do acidente de Kade, ironicamente alguém a quem ele a apresentara em uma festa, e nunca olhara para trás.

Kade rolou para fora da cama e ficou de pé, dizendo a si mesmo que aquilo não importava. Ele sempre tivera Travis e os amigos enquanto estava em recuperação. A reabilitação terminara e ele seguia a vida. Mia voltara para a família depois de ficar desaparecida por dois anos e ele tinha um favor a fazer para Max, um favor que estava determinado a ir até o fim para cumprir. Kade sabia que Max se sentiria assombrado por não saber se Asha era ou não a irmã perdida. Assim, ele concordara em procurar Asha Paritala e descobrir a verdade. Afinal de contas, ele não tinha muito a fazer, já que não jogava mais, e a distração fora algo agradável, algo de que precisava desesperadamente.

Eu precisava de algo que afastasse a mente do fato de que nunca mais jogarei futebol. Kade estava lidando com aquela realidade, racionalizando cada dia para aceitá-la. E daí se sentisse falta da carreira de jogador tanto quanto sentiria falta do ar que respirava se ele desaparecesse subitamente?

De qualquer forma, ele não teria jogado futebol para sempre. Só não queria que a carreira que amava terminasse de forma tão abrupta e tão cedo. Ele só tinha trinta anos na época e ainda teria vários anos à frente. E fora um bom jogador. Muito bom. O futebol fora uma grande parte de sua vida por tanto

tempo que ele se sentia perdido, como se não soubesse exatamente o que deveria estar fazendo. Kade e Travis eram os donos da Corporação Harrison, mas a empresa fora tão bem administrada pelo irmão gêmeo enquanto ele jogava futebol que agora se sentia desnecessário. Travis gostava de controle e Kade não tinha motivo algum para não deixar que o tivesse. O irmão passava a maior parte do tempo nos escritórios da Harrison, mas era por opção, uma diversão. Eles tinham uma administração superior competente e Travis não precisava passar no escritório todos os momentos em que estava acordado, mas era a forma do irmão de controlar a vida, enterrando no trabalho a dor do passado.

Kade sabia que não era muito diferente de Travis e que o futebol sempre fora sua fuga, mesmo quando era criança. Ganhar uma bolsa de estudos para jogar em Michigan fora uma das melhores coisas que lhe acontecera quando fizera dezoito anos, afastando-o da loucura da vida em Tampa. Ele voltara à Flórida para jogar como profissional porque fora a melhor oferta que recebera, mas passara metade do tempo na estrada e a outra metade praticando. Comprara uma bela casa em Tampa anos antes, mas raramente passava algum tempo lá até o acidente. Amy vivera a própria vida em um condomínio de luxo que Kade pagara, recusando-se a morar com ele a não que se casassem. Agora, Kade tinha certeza de que ela agradecia diariamente ao anjo da guarda por ele não ter estado pronto para se casar.

Andando até o minibar, Kade abriu a pequena geladeira, pegou uma cerveja, tirou a tampa e tomou um gole longo. Em seguida, folheou o cardápio do serviço de quarto. Ele estava faminto e, quando terminou de fazer o pedido, tinha escolhido metade dos itens do cardápio.

Sentindo-se inquieto, ele tomou um banho rápido e vestiu uma calça jeans e uma camisa laranja decorada com coelhos de várias cores. Kade sorriu, sabendo que Travis odiaria aquela nova camisa e que Mia implicaria com ele até a morte, mas não se importava. Ele começara a usar camisas espalhafatosas quando era adolescente para divertir Mia. Vivendo dentro da loucura que era a família, Kade teria feito praticamente qualquer coisa para provocar um sorriso na irmã menor, pois houvera pouquíssimos motivos para sorrir quando eram crianças. Agora, ele usava aquelas camisas porque realmente gostava delas. Tinham se tornado parte dele no decorrer dos anos, uma coisa pequena que parecera iluminar algumas das sombras que carregava. Os colegas de time tinham implicado com ele incessantemente,

mas, se havia algo sobre o qual ele não tinha insegurança alguma era sua masculinidade. Basicamente, dissera a eles que fossem para o inferno e que ele vestiria o que o deixasse contente. Depois de algum tempo, os colegas passaram a ver suas roupas como uma fonte de entretenimento, esperando para ver o que usaria a seguir. Na verdade, Amy fora a única que realmente as odiara e recusara-se a ser vista com ele a não ser que vestisse o que ela considerava como “roupas normais”.

Kade estava pegando outra cerveja quando ouviu uma batida na porta.

Jogando a tampa na lata do lixo, ele tomou um gole longo, abriu a tranca da porta e abriu-a.

Ele congelou e sentiu todos os músculos do corpo se retesarem ao mesmo tempo. Não soube quanto tempo ficou parado, mergulhado nos olhos castanhos largos que o encaravam do corredor. Kade ficou atordoado, sentindo o coração acelerar até que o barulho nos ouvidos fosse quase ensurdecedor. O ar saiu dos pulmões pesadamente, quase como se tivesse levado um chute na virilha.

Certamente, não era o serviço de quarto entregando a comida.

Kade não tinha dúvidas de que a mulher à sua frente era Asha Paritala, mas ela não era nem um pouco como esperara. Ela usava uma camiseta estampada, de um laranja quase do mesmo tom que a dele. O verde e o azul se misturavam com a cor de tangerina, fazendo com que ela parecesse uma flor exótica. Os cabelos pretos longos caíam pelas costas, lisos e belos, dando-lhe vontade de estender a mão e tocá-los para ver se eram tão sedosos quanto pareciam. A pele cremosa fazia um contraste tão grande com os cabelos e os olhos escuros que ela parecia um sonho.

Ele sentiu uma ereção instantânea quando o aroma de jasmim o envolveu. Ela entrou com cautela no quarto quando ele abriu a porta um pouco mais.

— Asha? — perguntou ele com a boca ainda seca e sentindo a adrenalina correr pelo corpo inteiro. Ela tinha altura média para uma mulher, mas ele era muito mais alto. Ainda assim, ela parecia frágil, como se a brisa mais leve fosse capaz de levá-la. Obviamente, a aparência era enganadora. Afinal de contas, ela o colocara em uma perseguição sem fim durante dois meses.

— O que você quer? — perguntou ela em tom impaciente, com os olhos quase soltando faíscas.

Kade fechou a porta. Você! Quero você embaixo de mim, em cima de mim ou de qualquer jeito que quiser. Em voz alta, ele respondeu: — Meu nome é Kade Harrison. Estive procurando você. Não recebeu minhas mensagens?

Ignorando a pergunta dele, ela disse: — Você roubou as minhas coisas. É

um ladrão. — O tom dela era hostil, mas a expressão ainda mostrava apreensão.

— Não sou um ladrão. Eu estava desesperado, tentando fazer com que falasse comigo. E não teria deixado informações de contato se estivesse tentando roubar você — respondeu Kade na defensiva. Sinceramente, ele ainda estava desesperado, só que agora era um tipo de desespero completamente diferente. Sua libido, que estivera muito baixa enquanto se recuperava do acidente, finalmente acordara de forma intensa, assumindo controle completo do corpo.

Ela andou até a mochila surrada de pano e pegou-a, pendurando-a no ombro depois de verificar o conteúdo. Em seguida, parou em frente a ele, com os olhos castanhos profundos furiosos, mas também mostrando uma ponta de vulnerabilidade e medo. — Só me diga por que está me seguindo.

Você é algum tipo de maluco?

Kade sentiu a raiva aumentar ao pensar em alguém causando problemas àquela mulher e uma certa irritação por Asha obviamente pensar que ele era um psicótico. — Não. Alguém está perseguindo você?

Eles se encararam e ela estudou o rosto dele como se estivesse procurando a verdade. — Eu não sei — respondeu ela com sinceridade. —

Mas eu sei que alguém tem me seguido. Suponho que seja você. E sim, recebi algumas mensagens que não faziam sentido algum. Esperou mesmo que eu respondesse? Nem conheço você. O que quer de mim?

Era uma pergunta que ele poderia ter respondido de muitas formas por causa da resposta incomum que o corpo tinha à presença dela, mas nenhuma delas era adequada no momento. Provavelmente, qualquer uma das respostas que surgiram de forma imediata em sua mente teria feito com que ela fugisse gritando. Kade colocou a mão no bolso e tirou a carteira, irritado consigo mesmo por tê-la assustado ao segui-la. Ela fugira por medo, uma mulher solitária que não gostava da ideia de que um desconhecido a seguisse. Nunca lhe ocorrera que ela talvez tivesse medo dele e, por algum motivo, Kade não gostou da ideia. Pegando uma fotografia de Maddie e

Max, ele disse: — Era eu. Estou fazendo um favor para uns amigos.

Achamos que há uma possibilidade de que você seja parente do meu cunhado e da irmã dele. Estou tentando encontrar você há quase dois meses. Não quero machucar você. Só queria falar com você.

Asha colocou a ponta do dedo sobre a fotografia e moveu-a lentamente.

— Essas duas pessoas? — Ela suspirou. — Por acaso parece que sou parente delas? Minha mãe era norte-americana, mas meu pai era imigrante da Índia. Não me pareço em nada com essas duas pessoas. Dá para notar que elas são parentes, são muito parecidas. — Uma sombra breve de tristeza surgiu nas profundezas dos olhos escuros.

— Eles têm o mesmo pai e a mesma mãe. Há uma chance de que você seja meia-irmã deles por parte de mãe — respondeu Kade, sentindo o coração apertado ao ver a expressão melancólica no rosto dela. Asha tentava se mostrar corajosa, mas parecia tão cansada, tão solitária, que ele teve vontade de protegê-la de tudo e de todos que a faziam se sentir assim.

Ele se perguntou quando ela comera uma boa refeição pela última vez ou quando dormira por um tempo decente.

Afastando o olhar da fotografia e deixando a mão cair, ela o encarou de forma duvidosa. — Não é possível. Não há como eu ser parente deles. Por favor, deixe-me em paz — respondeu ela em tom triste ao se encaminhar para a porta.

Kade a segurou pelo braço antes que ela conseguisse avançar. — Não quer saber com certeza? E se for parente deles?

Tirando o braço da mão dele, ela respondeu: — Sou indiana.

— Mas nasceu aqui, não foi? E sua mãe era norte-americana.

— Uma mãe norte-americana e um pai indiano de quem nem me lembro

— concordou ela, começando a tremer. — Nasci aqui, mas meus pais adotivos eram da Índia. Fui criada como indiana.

Kade sentira o calor do corpo dela através do material fino da camiseta.

— Você está bem? — Ele ergueu a mão até o rosto dela, sentindo-o muito quente. — Você está com febre.

Ela está subnutrida, exausta... e doente. Merda! Será que não existe ninguém por aí que se preocupe com ela?

— Estou bem — respondeu ela com voz fraca. — Só estou um pouco fraca. E foi um dia muito longo.

Besteira. Ela está doente. Dá para notar que está começando a suar e parece que está prestes a desmaiar.

— Você está doente. — Kade colocou o braço em volta da cintura dela para segurá-la.

Ela gemeu de leve, apoiando o peso contra o corpo dele como se não conseguisse ficar de pé sem ajuda. — Preciso ir embora. Não posso ficar doente.

— Você vai ficar — respondeu Kade em tom enérgico. Não pretendia deixá-la sair pela porta na condição em que estava. Cairia no chão antes mesmo de conseguir sair do hotel.

Ela se soltou e andou em direção à porta com passos cambaleantes. Kade a seguiu.

Ela abriu a porta e virou-se para olhar para ele, com os olhos brilhando por causa das lágrimas e provavelmente devido à febre. — Por favor.

Deixe-me em paz. Minha vida já é difícil o suficiente no momento. Não consigo lidar com mais nada. Não sou parente daquelas pessoas da fotografia e gostaria que parasse de me seguir.

Kade abriu a boca para responder, mas interrompeu-se quando ela começou a cair. Ele a segurou a tempo, erguendo-a nos braços e fechando a porta. Ele a levou até a cama grande e deitou-a sobre o travesseiro. Olhando para ela, Kade percebeu duas coisas imediatamente: ela estava muito doente e era a mulher naquele desenho inquietante que vira na coleção. Era um autorretrato de uma mulher que colocara as próprias emoções no papel.

— Merda — resmungou Kade irritado, percebendo que Asha não era muito coerente. Ela estava com os olhos fechados e o corpo mole. A camisa fina estava ensopada de suor e a pele estava muito quente.

Ela abriu os olhos ligeiramente e olhou para ele como se estivesse um pouco confusa. — Adorei sua camisa. Ela é tão... alegre e colorida —

murmurou ela em tom suave, tentando abrir um sorriso fraco. — Preciso muito ir embora agora. Tenho algumas coisas a fazer — continuou Asha em tom grogue sem a menor convicção.

Kade teria sorrido se não estivesse em pânico pelo fato de ter uma mulher tão doente em sua cama. Ela estava muito fraca e ele duvidava de que conseguiria chegar até a beirada da cama sem ajuda. Ele admirou a tenacidade dela, mas Asha não iria a lugar algum por conta própria.

— Sim, nós vamos — respondeu Kade, enrolando o corpo trêmulo dela em um cobertor. — Para o hospital. — Ele tinha noções de primeiros socorros para ferimentos esportivos, mas não tinha a menor ideia do que fazer com uma mulher tão doente como Asha estava.

Ela arregalou os olhos, com expressão de pânico e batendo os dentes. —

N-não p-posso ir p-para o hospital, é c-caro... — A voz dela sumiu quando começou a tossir com tanta força que o corpo inteiro estremeceu.

Merda! Ela está muito doente e só está preocupada com as despesas?

O estado dela o deixou apavorado. Na verdade, quase tão aterrorizado quanto o instinto possessivo e protetor que o invadiu ao perceber como ela estava vulnerável. Mas, principalmente, ele estava muito perturbado por vê-la realmente com medo. Não queria que aquela mulher tivesse medo dele nem de qualquer outra coisa no planeta. Não sabia ao certo o motivo, mas deixaria aquele mistério para outra hora. Só o que queria naquele momento era vê-la bem e saudável. Na verdade, a necessidade de deixá-la bem estava prestes a se tornar uma obsessão.

Ele a ergueu com o cobertor e carregou-a para o hospital.